sábado, 26 de junho de 2010

Um ano sem Sky Saxon

No dia 25 de junho de 2009, o mundo perdia Michael Jackson. Como era de se presumir, passado um ano, não faltam homenagens ao grande ídolo.

Na mesmíssima data, morria em Austin, no Texas, Richard Marsh, mais conhecido como Sky Saxon.

Prevendo que todos estariam hoje só falando de Michael, comprometemo-nos, há exatamente um ano, a relembrar que o mundo támbem perdera, na mesma data, um dos gênios da psicodelia.

Saxon liderou, na segunda metade dos anos 1960, o legendário The Seeds, expoente do rock californiano, grupo conterrâneo e contemporâneo de nomes como Doors, Love, Chocolate Watchband e incontáveis outros.

A melhor homenagem a Saxon é ouvi-lo à frente dos Seeds, com música de sua própria autoria, extraída do álbum A Web of Sound, de 1966: "Mr. Farmer". Nas imagens, primeiramente foto do grupo The Seeds, basicamente a mesma que ilustra a capa do primeiro disco deles, o homônimo também de 1966, e em seguida foto do próprio Sky Saxon, do mágico ano de 1967. Logo abaixo.

Leia também:
Sky Saxon (1946-2009)
Michael Jackson (1958-2009)

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sábado, 19 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010)

Em homenagem ao genial escritor português José Saramago, falecido na sexta feira, 18.06, reproduziremos o comentário crítico da obra Memorial do convento, de 1982, de autoria da professora e tradutora Roseli Brito. O texto vai ser mais bem aproveitado pelos que leram o livro; aos que não tiveram a oportunidade, servirá de incentivo para preencher essa lacuna.

As indicações de páginas referem-se à edição lançada no Brasil em 1994, pela editora Bertrand Brasil. Que seja útil ao leitor e que seja aceito como singela homenagem ao gênio português, Nobel de literatura, José Saramago.


Memorial do Convento - comentário crítico
Roseli Brito*

O escritor José Saramago é reconhecido por sua militância comunista-marxista e também por seu ateísmo e posicionamento crítico em relação às religiões. Algo dessa sua formação transparece na narrativa de Memorial do convento.
O estudo histórico de viés marxista aponta a história como o resultado da ação de homens concretos, os quais, numa relação dialética, também são influenciados pelas condições concretas com que deparam. É sob essa ótica que se insere a ideia de fundir fatos que se poderia chamar de “história real” (e num certo sentido de história oficial) com outros de uma história que poderíamos classificar de “cotidiana”, quiçá “subterrânea” (das pessoas comuns). Os livros de história e as enciclopédias de conhecimentos gerais ao falar do Convento de Mafra tratam da sua grandeza e beleza, tratam também da iniciativa de D. João V e tratam, paralelamente, da importância da Igreja Católica para Portugal naquele período; no romance, porém, Saramago demonstra que essa obra arquitetônica não existiria sem gente como Manuel Milho, Baltazar, Francisco Marques, José Pequeno, Álvaro e outros homens comuns, que evidentemente não aparecem nos livros escolares. Nas palavras do autor: “Deve-se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrônica voz” (p. 257). Algumas páginas à frente, salientando a diferença social dos homens do povo e da nobreza, dos que efetivamente constróem e dos que mandam ou estimulam construir, o narrador conta que “a princesa já não pensa nos homens que viu na estrada. Agora mesmo se lembrou de que, afinal, nunca foi a Mafra”, e reflete: “que estranha coisa, constrói-se um convento porque nasceu Maria Bárbara, cumpre-se o voto porque Maria Bárbara nasceu, e Maria Bárbara não viu, não sabe, não tocou com o dedinho rechonchudo a primeira pedra, nem a segunda, não serviu com a sua mão o caldo dos pedreiros, (...) o convento é para si como um sonho sonhado, uma névoa impalpável, não pode sequer representá-lo na imaginação, se a outra lembrança não serviria a memória” (pp. 312-3).
O processo de construção do convento ajuda a delinear outros aspectos de caráter político e econômico que a obra retrata: o absolutismo do rei avulta-se nas suas decisões incontestáveis, como, por exemplo, as convocações de trabalhadores de outras regiões para servir à construção do convento; o momento econômico permitia as extravagâncias que a obra podia suscitar, pois era o momento de entrada de ouro e prata vindos da principal colônia, o Brasil; a construção altera a dinâmica de toda a vila, pois muitos homens para lá se dirigem em busca de trabalho, e as próprias pessoas do local passam a viver no interesse do convento; aventa-se, numa rápida passagem, que os homens abandonavam os campos (p. 211), noutra é sugerida a divisão do trabalho (p. 215). Percebe-se, assim, que a questão econômica se sobrepõe aos aspectos sociais. Noutras palavras, o trabalho, a forma como os homens produzem e reproduzem a sua vida material, é que determina o seu ser social, pois influencia a sua forma de viver em sociedade. Tem-se, mais uma vez, a expressão sutil da formação marxista de Saramago apresentada na obra.
A forte influência da Igreja, além de sua proximidade à Coroa Portuguesa, é bastante acentuada no texto. As situações vivenciadas no romance apontam a onipresença dos aspectos religiosos. O fato de as duas principais personagens, Baltazar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, terem se encontrado exatamente num auto-de-fé - o qual levaria a mãe da moça a ser degredada de Portugal, por acusação de suposta prática de bruxaria - parece indicar o quanto a religião fazia parte do cotidiano das pessoas, tanto que as tais cerimônias eram acompanhadas, na mesma medida, indistintamente por nobres e por súditos. O próprio Baltazar, aliás, é supliciado no final do romance, ao lado do dramaturgo Antonio José da Silva, o que explicita o alcance das práticas inquisitoriais, capazes de condenar ao mesmo tempo um grande escritor e um soldado mutilado de guerra. Em comum, eles deveriam ter apenas atos ou ideias considerados ofensivos à fé católica. A respeito da citada ligação entre Estado e Igreja, Saramago faz o narrador do texto colocar que “estando el-rei do nosso lado, o Santo Ofício não irá contra o gosto e a vontade de sua majestade, El-rei, sendo caso duvidoso, só fará o que o Santo Ofício lhe disser que faça” (p. 192). Ou seja, infere-se uma legítima comunhão de interesses entre ambos.
O livro também explora situações que beiram o fantástico e o sobrenatural, mas de modo a suscitar reflexões filosóficas. A capacidade que Blimunda tem de enxergar o interior das coisas, por exemplo, parece, num primeiro momento, algo de caráter absolutamente materialista, pois ela via apenas órgãos, tecidos etc. Nas primeiras descrições não se veem quaisquer tentativas de se falar de forma metafórica: não se percebe, por exemplo, a sugestão de se enxergar o interior das pessoas como se se quisesse entendê-las melhor, tal qual se faz no dia-a-dia quando se diz “que para conhecer bem uma pessoa, deve-se conhecê-la por dentro” ou quando se sentencia que “alguém tem uma beleza interior”. Blimunda, conforme já citado, agora nas suas palavras, “só via o que estava no mundo” (p. 77). Com efeito, nos primeiros relatos de seus poderes, ela conta ao esposo que vê uma criança no ventre de uma mulher, um velho de estômago vazio, um padre com solitária. Todavia, por solicitação do padre Bartolomeu Lourenço, ela é exortada a buscar a ver “algo mais” no interior dos homens, no caso a “vontade”. A alma, diz o padre, não se pode mesmo ver, mas a vontade é uma nuvem fechada sobre a boca do estômago, que se separa do homem na iminência da morte, e que compõe o éter que poria a sua passarola a voar. Dessa vez, sim, parece haver a possibilidade interpretativa de se enxergar algo de metafórico nas capacidades paranormais de Blimunda. O autor talvez tenha desejado reafirmar seu materialismo, atribuindo um componente físico a uma qualidade que se classifica de abstrata. É muito interessante também a associação da “vontade” dos homens com o éter que permitirá o vôo da máquina projetada pelo padre: é que sempre fez parte da história o desejo do homem de voar; mais do que isso, talvez fizesse parte do subconsciente dos homens a vontade de voar, e, por isso, o somatório das vontades, ao compor o éter, permitiria a realização do “sonho de Ícaro”. E ao mostrar a vontade como algo que está dentro dos homens enquanto há vida, Saramago bem pode ter tentado apontar a capacidade de transformação da atuação humana, pois é ele, o homem, o agente concreto da história, e, desse modo, tudo, de certa forma, dependeria de sua vontade. Com isso, estaria o autor expondo, mais uma vez – e de forma sub-reptícia -, o seu interesse pelas questões políticas.
Saramago faz muitas referências no livro, abrindo um grande leque de possibilidades de interpretação. Torna difícil, num comentário crítico, não ficar com a impressão de que algum ponto importante possa ter sido preterido ou subavaliado, enquanto outro aspecto esteja sendo superestimado. De todo modo, a fruição de Memorial do convento tende a ser sempre proveitosa; a leitura tende a ser uma descoberta vantajosa, semelhante à situação em que Baltazar se confessa um pouco incrédulo dos poderes de Blimunda (p. 80): a moça lhe pede que faça um buraco no chão, pois ele encontrará uma moeda de prata. O rapaz acata, mas a moeda que encontra em verdade é de ouro. Acerca disso, ela diz: “Melhor para ti, e eu não deveria ter arriscado, porque sempre confundo a prata com o ouro, mas em ser moeda e valiosa acertei, que mais queres, tens a verdade e o lucro”. O mesmo se deu com o livro: na primeira leitura ele parecia “prata”; na segunda, “ouro”. No fim, a leitora ficou ao menos com um pouco da verdade... E certamente com o lucro!


*Professora de português, inglês e espanhol; tradutora

sábado, 12 de junho de 2010

Oliver Stone - Ao Sul da Fronteira


Em cartaz nalgumas raras salas alternativas, o documentário Ao Sul da Fronteira (South of the Border), dirigido por Oliver Stone, pode ser tomado como uma espécie de “direito de resposta” dos líderes de esquerda latino-americanos. À exceção do cubano Raul Castro, os entrevistados do cineasta estadunidense – todos eles presidentes sul-americanos – ascenderam aos seus postos como resposta popular a séculos de descaso das elites, em especial a políticas que tiveram sua culminância no descalabro neoliberal que reinou em seus países nas décadas de 1980 e 1990.

Destacam-se no filme os presidentes Lula, Rafael Correa (Equador), Fernando Lugo (Paraguai), Cristina Kirchner (Argentina). Tem-se, também, a oportuna participação do ex-presidente argentino Nestor Kirchner, com sóbrias opiniões, inclusive acerca de Hugo Chávez. Mas as duas principais “estrelas” são exatamente o venezuelano Chávez e o boliviano Evo Morales. Não por acaso, os dois últimos são os que mais sofreram ataques do fundamentalismo de direita dos Estados Unidos, especialmente do fomentado pela mídia.

Stone faz um belo apanhado da história recente da Venezuela, passando pelas tentativas de golpe, tanto a perpetrada pelo então coronel Hugo Chávez Frias, quanto a que ele, como presidente legitimamente eleito, sofreria em 2002, por obra de grupos que se organizaram com o apoio externo dos Estados Unidos e, internamente, em torno da mídia. No caso deste último, o cineasta valeu-se das informações e imagens já utilizadas no imperdível documentário The Revolution Will Not Be Televised, facilmente encontrável no YouTube.

Com Evo Morales, o cineasta deve ter provocado enfartes nalguns adeptos do Tea Party, ao consumir um punhado de folhas de coca enquanto ouve o boliviano falar da importância de se ter o domínio sobre os recursos naturais, justo no país que teve a própria água privatizada em favor de uma empresa americana, sob regras que proibiriam as pessoas de armazenar a água da chuva! Já em um momento de descontração, jogam um pouco de futebol.

Como uma não identificada personagem do filme está uma instituição: a imprensa. O que Stone parece tentar fazer é justamente desvelar a mistificação que a mídia procura impingir a esses presidentes latino-americanos. Trata-se de um acerto do diretor buscar entender a importância dos meios de comunicação nesse processo. Com efeito, os oposicionistas de direita ou de centro-direita na região encontram-se fragilizados, sem discurso. Por isso a mídia se arvora no papel de fazer as vezes de oposição política. É difícil para os políticos defender um legado de privatizações, de submissão ao FMI, de desregulamentação no mundo do trabalho; a mídia, ao contrário, não tem pudores de proteger tal modelo, mesmo sabendo – ou talvez exatamente por isso – que isso só encontra eco numa parcela ínfima da população, sobretudo entre os mais bem aquinhoados.

E é justamente de imagens tiradas de programas jornalísticos da TV americana que se têm os momentos mais hilários do documentário. Alguns depoimentos e notas são tão cômicos no radicalismo de direita que chegam a se parecer com as extraordinárias sátiras do professor Hariovaldo de Almeida Prado. Neste particular, Stone aproxima-se de seu conterrâneo Michael Moore, que sempre usa dos recursos do sarcasmo e da ironia para expor parte do absurdo do ideário político conservador. Moore, aliás, aparece no documentário em imagens tiradas de uma sua participação na CNN, descascando para cima do âncora Wolf Blitzer, acusando toda a mídia pelo endosso às mentiras de George W. Bush acerca do Iraque.

Uma crítica fácil seria imputar certa falta de objetividade ao diretor, acusando o viés ideológico do filme. Poder-se-ia, em vista disso, argumentar que não seria difícil produzir um documentário demonizando os governos retratados por Oliver Stone. Ora, como apontava o filósofo Isaiah Berlin, política é acima de tudo ideologia, devendo-se desconfiar das tentativas de a ela atribuir caráter científico. De qualquer forma, Stone documenta, apresenta dados confiáveis, exibe “confissões” de jornalistas.

De todo modo, aquele que assiste ao filme pode dele gostar ou não, pode levá-lo a sério ou não. O mais importante é que, no fim das contas, um cineasta norte-americano, ironicamente, é quem dá voz a políticos que, de alguma maneira, são censurados pela mídia de seus próprios países.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ron Carter - Teatro do Sesi - São Paulo - 02.06.2010

Não é de se estranhar que os fãs de jazz - mesmo aqueles que se prezem - não tenham nenhum disco solo de Ron Carter na coleção. Por outro lado, é praticamente inconcebível que os apreciadores do gênero americano - inclusive os mais desprezíveis entre eles - não possuam pelo menos uma meia dúzia de álbuns com participação do famoso contrabaixista.

Com efeito, Carter sempre aparece nas contracapas de alguns dos melhores discos de jazz da história, tocando com endeusados do calibre de um Wayne Shorter ou com subestimados como Eddie Harris.

Nesta apresentação no Sesi, num formato de trio, Carter foi acompanhado por piano e pela guitarra do respeitado Russell Malone. Como não poderia deixar de ser, o contrabaixista foi a grande figura de noite, fazendo um show em que o seu instrumento dominava os arranjos, lavando a alma daqueles que a vida toda foram obrigados a se contentar com os tímidos solos de baixo que costumam aparecer nos discos.

Ouça abaixo Ron Carter mostrando que também se sai muito bem tocando cello. A faixa é "The Baron", do álbum do Out There, do mestre avant-garde Eric Dolphy, gravada em 15.08.1960. O vanguardista é o próprio autor da canção.

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