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sábado, 10 de janeiro de 2009

Gerra universal e guerra particular

Não economizemos nas palavras: o que Israel vem promovendo contra os palestinos na Faixa de Gaza pode ser chamado de massacre. Porém, tem-se visto, até mesmo dentre os que com isso concordam, o entendimento de que o Estado judeu apenas se defende de terroristas e que esse é o preço a se pagar na luta contra o terror. Noutras palavras, para se defender e, conseqüentemente, abater grupos como o Hamas, deve-se aceitar o sacrifício de vidas de civis e inocentes. E quanto a instalações da ONU, escolas, hospitais e universidades que são bombardeados, o problema está no fato de eles servirem de base para a organização terrorista.

Por incrível que pareça, vêem-se tais opiniões o tempo inteiro. As imagens de crianças ensangüentadas, de idosos mutilados e de gente comum morta não sensibilizam. A culpa, dizem eles, é do Hamas, que os utiliza como escudos humanos, ou das próprias vítimas, que aceitam dar guarida aos terroristas.

Para nós brasileiros, essa maneira de enxergar as coisas não deveria constituir novidade. No nível doméstico, a violência urbana, como diria João Moreira Salles, é a nossa guerra particular. E a luta contra ela às vezes se funda em argumentos semelhantes: numa chacina que dizima uma família de oito pessoas, não interessa se havia idosos setuagenários ou um bebê de quatro meses; o que importa foi ter “se livrado” de dois ou três bandidinhos que lá se encontravam. Ainda nessa linha de raciocínio, gostaria de relatar a opinião de um amigo ainda dos tempos de colégio, de uma época em que se começou a falar de organizações criminosas e do poder do tráfico nas favelas do Rio. Esse meu amigo defendia a tese de que se devia simplesmente explodir uma bomba sobre aquelas comunidades. Se alguém o lembrasse de que por lá havia trabalhadores e outras pessoas que nada tinham a ver com a criminalidade, ele simplesmente respondia que todos eram em alguma medida cúmplices, pois nada faziam para mudar aquela situação, ou, mais cinicamente, ele sugeria que era um preço que se deveria pagar para se livrar de um mal maior. Confesse, caro leitor, você já ouviu algo semelhante por aí, não?

Acerca de abusos cometidos pela polícia e de atos de justiceiros e grupos de extermínio, não faltam os que dizem tratar-se de medidas de retaliação aceitáveis, afinal a bandidagem não hesita em usar pesada violência contra as suas vítimas. Em Israel, é o que estão tentando dizer para justificar o uso desproporcional de força: quem se preocupa com as vítimas civis que o Hamas ataca com seus foguetes? Perguntam eles indignadamente. É como se quisessem sugerir que, ao usar o terror, grupos como o Hamas legitimam o uso de um dos maiores arsenais bélicos do mundo contra um povo praticamente indefeso.

Aos que defendem os abusos policiais e as ações de retaliação cometidas por milícias no Brasil, pode-se responder com o contra-argumento de que os atos daqueles grupos os igualam aos criminosos. De igual modo, no caso dos israelenses, pode-se dizer que o abuso da força, a violência contra civis, a despreocupação com questões humanitárias e a surdez em relação aos protestos em nível mundial os aproximam de grupos terroristas. Dito de outra maneira, a “função” de criminosos no Brasil e no mundo é cometer crimes, e da polícia e da sociedade é combatê-los e preveni-los, sempre dentro da lei. Terroristas, por seu turno, aplicam métodos terroristas, é o que se espera deles; já os estados politicamente organizados têm o dever de lutar contra o terror, mas dentro das regras internacionais e em respeito aos direitos humanos.

Aceitar abusos e massacres sob o argumento de que é uma luta contra perigos maiores e piores, não importa se é no caso da criminalidade comum ou do terrorismo internacional, apenas dá razão aos argumentos do, digamos, “inimigo”. Acerca disso, recomendamos a leitura de texto da revista Al Jazeera, reproduzido no Vi o Mundo: “Democracias vivem recessão econômica e moral”, de Muqtedar Khan.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Palestina e Israel

Para quem quer entender melhor os tristes eventos deste fim de 2008, marcados pelos ataques de Israel na Faixa de Gaza, supostamente mirados no grupo Hamas, faz-se necessária a leitura de um pequeno livro da coleção “Primeiros Passos”, da Brasiliense: O que é questão palestina, da jornalista e cientista social Helena Salem.

De início, a autora desmistifica a tese de que o conflito árabe-israelense teria caráter milenar e que ele seria de cunho essencialmente religioso ou racial. Em verdade, árabes e judeus sempre tiveram convivência pacífica até a sedimentação do movimento sionista, especialmente da sua corrente que pregava a “volta à Palestina”, com o objetivo de criar um “lar judeu”. Parte da população árabe foi dizimada, e muitos tiveram que abandonar suas casas, expulsos que eram por colonos judeus apoiados pelos britânicos. O confronto é, portanto, segundo a cientista social, basicamente político desde os seus primórdios, tendo se agravado com a Segunda Grande Guerra, que trouxe situações extremamente difíceis aos judeus da Europa, levando-os a imigrarem em grande número para a região da Palestina.

Inicialmente, a região foi partilhada, pouco tempo depois da Segunda Guerra Mundial, num Estado judeu e outro árabe. Numa malfadada guerra iniciada em 1948 pelos árabes, que se sentiram lesados com a divisão sobre a qual não foram chamados a opinar, Israel conseguiu abocanhar mais território, enquanto a Palestina sumia. Outros eventos belicosos que ocorreriam nas décadas seguintes levariam Israel a ampliar suas fronteiras.

E a situação, como bem se vê, é complicada até os dias de hoje.

O apoio norte-americano à causa israelense e a ausência de viés crítico na mídia de todo o mundo impedem uma análise desapaixonada da pendenga. Tenta-se apresentar Israel como uma ilha de modernidade no “atraso” do Oriente Médio ou como uma nação politicamente organizada que apenas se defende de grupos terroristas. Não se deve perder de vista, todavia, que o movimento sionista contou na sua formação com grupos de extrema-direita de inclinação terrorista como o Irgun e o Stern. Ademais, o Estado israelense, de moto próprio ou na vista grossa aos atos de colonos judeus, sempre agiu de forma pouco respeitosa aos direitos humanos para com a população palestina. Israel notabiliza-se também pelo reiterado desrespeito a diversas resoluções da ONU, e isso desde a sua criação, em fins da década de 1940. Além disso, as reações israelenses aos supostos atos terroristas do Hamas, por exemplo, são, como bem disse nota do Itamaraty, desproporcionais, constituindo, sob certa leitura, atos que também podem ser associados ao terror, ainda mais que se vê a população civil sendo duramente atingida.

Alguém pode dizer que o livro de Helena Salem (autora que, aliás, é de ascendência judaica), é muito pró-Palestina ou, lendo de outra forma, anti-Israel ou francamente anti-sionista. Talvez seja. De todo modo, não devemos condená-lo por ser contrário ao discurso único. Vale pelo menos como uma segunda opinião.