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sábado, 12 de abril de 2008

“Aí tendes, maus gênios, fartai-vos deste belo espetáculo!”

O título deste post é uma citação feita por Sócrates, no clássico A República, de Platão. O filósofo conta que Leôncios, ao voltar um dia do Pireu, viu cadáveres estendidos perto do carrasco. Ao mesmo tempo em que sentiu um grande desejo de observá-los, foi acometido de repugnância e afastou-se. Lutou consigo, escondendo o rosto com as mãos. Mas dominado pelo desejo, arregalou os olhos e, correndo na direção dos cadáveres, gritou a célebre frase que dá nome a este texto.

Sócrates a resgata porque está falando de dois elementos presentes na alma: um irracional, que compele a pessoa a satisfazer seus desejos, e o racional, pelo qual ela raciocina e apresenta algumas características de autocontrole.

Hodiernamente, tudo isso parece ter a ver com a maneira como as pessoas e os meios de comunicação, de forma imbricada, reagem a - e participam de - assuntos espinhosos como a violência.

Parece não haver espaço para o racional, para a análise fria e para a ponderação se a discussão for, por exemplo, sobre a morte trágica de uma bela criança de cinco anos de idade.

É difícil saber o que vem primeiro: se a curiosidade mórbida associada à necessidade de se saciar com algum tipo de “justiçaria”, por parte da sociedade, ou se o desejo mesquinho de “dar um furo” ou de “conseguir” um choro ou um desespero de parentes, por parte da mídia.

O espetáculo, de todo modo, é sempre “belo”, com direito a autoridades policiais que não hesitam em cometer abusos e proferir frases infelizes em troca de um pouco mais de quinze minutos de fama. É de estonteante beleza também a atuação dos “vidiotas” que vão a portas de delegacia para xingar suspeitos e para dar murros nas viaturas que os transportam. Como contraponto, há de ser mencionada quão sábia é a Providência quando permite que os suspeitos sejam brancos de classe média, pois, assim, a “agenda” de nossas vidas é poupada de estéreis discussões sobre pena de morte e acerca do recrudescimento de leis.

Mas as “belezas” mais ordinárias costumam também ser um tanto efêmeras. Por isso, não tarda muito, o bonito espetáculo dará lugar a outro, às vezes até mais completo, ou será simplesmente substituído por algo mais leve, mais familiar, em suma, mais comercial. E a despeito das promessas, das certezas, dos protestos, o velho espetáculo, que todos garantiam que não seria jamais olvidado, cairá no mais absoluto esquecimento. Irá para algum desvão da alma, que talvez nem Platão saberia nomear.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Menos um campeão de "audiência"

O que é "audiência" na Internet?

O que determina que um dado site ou blog tenha pouca ou muita "audiência"? Quem e como se mede isso?

Pois a "baixa audiência" foi a justificativa lançada pelo portal iG para romper o contrato com o jornalista Paulo Henrique Amorim, cujo Conversa Afiada era hospedado no provedor.

Como bem apontado no blog do Azenha, PHA e seu Conversa Afiada eram utilizados como chamariz na publicidade do portal; alguma das chamadas do Conversa Afiada aparecia sempre com destaque na primeira página do iG; em algumas notícias do site, não raro se viam links para os comentários da página de Paulo Henrique Amorim.

É realmente difícil acreditar na história de que a retirada do Conversa Afiada pelo iG esteja ligada à suposta “baixa audiência” da página. No campo das conjeturas, não se pode deixar de considerar que uma possível verdadeira causa possa ter sido a posição radicalmente contrária, por parte de PHA, à formação da BrOi, assunto de interesse do portal, além de seu posicionamento crítico a pesos pesados da política brasileira.

Em um momento em que tanto se discutem questões como liberdade de expressão, transparência, respeito ao usuário/consumidor/cliente, é inadmissível que um grande grupo de Internet simplesmente retire do ar uma dada página, sem maiores explicações (ou apenas justificativas vagas) aos internautas. Não é, em última análise, um assunto interno da empresa. Com certeza ela pode tomar as medidas administrativas que queira, pode em tese até romper contratos desde que arque com as responsabilidades inerentes ao ato. Mas na qualidade de empresa da área de comunicações, o iG bem que poderia jogar aberto com os seus leitores e externar os reais motivos de sua decisão, ou ao menos avisar os freqüentadores da página, senão com antecedência, no momento da sua retirada do ar. Nada disso foi feito.

Mas quem quiser ler o PHA, é só acessar http://www.paulohenriqueamorim.com.br/.