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quinta-feira, 4 de março de 2010

Johnny Alf (1929-2010)

De acordo com informações da Folha On Line, o cantor, pianista e compositor Johnny Alf morreu nesta quinta-feira (04-03-2010). Ele estava internado em estado grave no hospital Mário Covas, em Santo André, na Grande São Paulo. Ele tinha 80 anos.

Colamos abaixo texto originalmente publicado no site Rate Your Music. Trata-se de resenha do álbum Eu e a Brisa, de 1967, que é praticamente uma reedição do disco homônimo de dois anos, produzido por José Briamonte.

Eu e a Brisa
Há historiadores que afirmam que o carioca Johnny Alf é o verdadeiro pai da Bossa Nova: na primeira metade da década de 1950, no Rio de Janeiro, ele gravara um compacto para o selo Odeon, que antecipava em pelo menos três anos a suavidade sincopada que seria a marca registrada de João Gilberto.

Eu e a Brisa tem algo mais do que aquilo que chamamos de Bossa Nova: há os seus desdobramentos conhecidos por ‘samba jazz’ ou ‘bossa jazz’; há ainda algo muito sutil de samba-canção, algo de um jazz mais puro, além de canções que poderíamos chamar genericamente de ‘românticas’.

O melhor do romantismo puro fica por conta das interpretações apaixonadas da faixa-título (composição dele), “Imenso do Amor” (Durval Ferreira e Humberto Pires) e “Eu Quis Fugir dos Teus Olhos” (dele e Laércio Vieira); a pura bossa se faz presente no recorte do solo instrumental de “Se Eu te Disser” (também dele), em “Canção pra Disfarçar” e “Gismi” (ambas dele em parceria com José Briamonte, arranjador do disco) e ainda em “Tudo que é Preciso” (Durval Ferreira e Pedro Camargo); “Céu Alegre” (dele), “Quase Tudo Igual” (dele e Ari Francisco) e “Eu Só Sei” (de Armando Cavalcanti e Victor Freire) servem de veículo para Alf dar uma de crooner de jazz, soltando a voz como se fosse um, digamos, Mel Tormé, guardadas as devidas proporções, até porque a voz de Alf é um tanto pequena; mas o melhor mesmo está no samba jazz “Bossa Só”, composição de Alf que é praticamente um manifesto em defesa do gênero em oposição ao ‘esnobismo’ da música erudita, o que é bastante curioso, tendo em vista o alentado caráter elitista de que a bossa e os gêneros correlatos eram acusados.

Há uma história, que ainda não pude checar a contento, que dá conta de que este álbum em verdade foi lançado em 1965, como um lançamento sem título, sem a presença da música “Eu e a Brisa”. Posteriormente, o disco foi reeditado com a inclusão desta faixa, a qual intitulou o relançamento e, de quebra, provocou a alteração da capa, a qual anteriormente não ostentava nada escrito, tendo apenas a magnífica foto tirada por Roberto Corte Real na famosa Rua Cardeal Arco Verde, na boêmia Vila Madalena, logradouro paulistano que hoje está muito, mas muito modificado!

Johnny Alf ainda se apresenta na noite, sobretudo em São Paulo, e dizem que ele é por demais simpático e acessível. Quem sabe qualquer hora dessas não dá para perguntar diretamente a ele sobre a verdade deste maravilhoso Eu e a Brisa!

P.S. A voz se calou em 04.03.2010. Se você teve tempo de confirmar a história com ele, por favor, conte-nos.

Ouça abaixo a faixa "Bossa Só", composição do próprio Johnny Alf, do álbum resenhado.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Os Catedráticos da MPM

Texto originalmente publicado no inativo blog Veritas, em 24.11.2007

Os Catedráticos são um importante capítulo na história da música brasileira, sobretudo daquela fomentada nos anos 1960 no famoso Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro, de gênero indistintamente chamado de bossa nova instrumental, bossa jazz, samba-jazz ou MPM (música popular moderna).

Os Catedráticos podem ser chamados de um supergrupo brasileiro, formado por bambas do gênero. Olha só o “time” apresentado nas informações técnicas da reedição em CD do ótimo Ataque, de 1965: Eumir Deodato (órgão e piano, além dos arranjos e regência), Maurílio (trompete), Walter Rosa (sax tenor), Aurino Ferreira (sax barítono), Edson Maciel (trombone), Rubens Bassini (tumbadora e pandeiro), Humberto Garin (guiro), Jorginho (tumbadora), Sérgio Barrozo (baixo), Wilson das Neves (bateria), Geraldo Vespar (violão).

Em discos fantásticos, como o já citado Ataque, Tremendão e Impulso, todos lançados entre 1964 e 1966, o grupo esbanja técnica na interpretação de composições não apenas de Deodato, mas de mestres da música brasileira, numa verdadeira mistura do “velho” e do “novo”. Dentre os nomes homenageados nos álbuns, temos: Marcos e Paulo Sérgio Valle, Durval Ferreira, Cartola e Elton Medeiros, Baden e Vinícius, Ataulpho Alves e Mário Lago etc.

Além de execuções num formato mais clássico da bossa nova e de outras dentro dos limites da tradição da velha guarda do samba, ouvem-se batidas afros, alguns toques tímidos de rock and roll e algumas longínquas levadas pop que provavelmente receberiam a aprovação de um Burt Bacharach.

Infelizmente, Os Catedráticos são um grupo esquecido no Brasil. Não pela sua música, reconhecida e publicada mundo afora, mas por seu deslocamento a um segundo plano, como um mero grupo de acompanhamento de Deodato. De fato, um álbum tardio, de 1973, está creditado a Eumir e Os Catedráticos; e mesmo os discos dos anos 1960, pelo menos nas suas reedições, não deixam de marginalmente ostentar nas respectivas capas o nome de Eumir Deodato, como responsável pelos arranjos e pela regência.

De todo modo, vale a autoridade de Tárik de Souza, que, em texto constante do encarte da reedição em CD de Inútil Paisagem, de 1964 (disco em que Eumir Deodato faz sua leitura das composições de Tom Jobim), deixa bem claro que o grupo Os Catedráticos é algo à parte do trabalho solo do artista. O mesmo jornalista, no minúsculo texto de apresentação dos discos da série "Odeon 100 anos", refere-se ao som que “faria furor como Os Catedráticos” ao descrever a música que se ouve no disco Idéias, também de 64, atribuído apenas a Eumir.

Há, em contrapartida, outras fontes de informação que – erroneamente a nosso ver - fazem dos Catedráticos meros coadjuvantes de trabalhos que seriam de Eumir Deodato. No sítio Discos do Brasil, de Maria Luiza Kfouri, por exemplo, as informações sobre os excelentes álbuns do grupo estão na página dedicada ao músico e arranjador carioca. Mas de qualquer forma vale a visita ao site, pois lá é possível ouvir trechos das canções, além de ter boa parte do “serviço” das gravações, com todas as participações e respectivos instrumentos tocados. Na página oficial de Eumir, alguns dos discos dos Catedráticos também aparecem listados, mas sem nenhuma referência que os apresente como um grupo paralelo.

Mas ouça a música: é "de cátedra" mesmo! Primeiramente, a faixa "Ataque", seguida de "De Presente", ambas do próprio Eumir Deodato.

domingo, 30 de agosto de 2009

Don Junior, Seu Conjunto e Seu Sax Maravilhoso - Sambas (1962)

Ano de 1962. A bossa que havia explodido com João Gilberto no final dos anos 1950 já estava razoavelmente consolidada e ganhava o mundo. No Rio e em São Paulo começavam a pulular os grupos de bossa instrumental ou, como preferiam alguns, samba-jazz.

Era bastante comum naquela época artistas se reunirem para gravar um único álbum, posteriormente lançarem-se em carreira solo ou unirem-se a outros grupos. Foi o que se viu nesse caso de Don Junior, Seu Conjunto e Seu Sax Maravilhoso, cujo álbum Sambas foi lançado pelo selo paulistano RGE naquele ano de 1962. O trabalho é mais “bossanovístico” do que jazzístico, soando bem carioca a despeito de o grupo ter se formado em São Paulo.

Don Junior é ninguém menos do que o argentino Hector Costita, aqui tocando o “seu sax” suavemente à Stan Getz, estilo de que logo se afastaria, tornando-se mais áspero nos seus trabalhos posteriores, já como Costita. Os músicos que o acompanham são de primeira linha, alguns deles de importância histórica no gênero: Walter Wanderley (órgão), Milton Banana (bateria), Olmir Stocker (guitarra), Edgar Gianolo (guitarra), Xu Viana (baixo) e Rogério (pandeiro).

Confira abaixo um pouco da bossa instrumental de Don Junior, Seu Conjunto e Seu Sax Maravilhoso: “Quem Quiser Encontrar Amor” (Geraldo Vandré – Carlos Lyra) e “Chorou, Chorou” (Luís Antonio). A ilustração é a capa do álbum Sambas, de 1962, produzida por Patrício Marre.

domingo, 3 de agosto de 2008

Bossa Nova

Neste clima dos 50 anos da Bossa Nova, o meu amigo Eduardo “sallamanka” criou uma lista no site RateYourMusic com uma espécie de ranking do gênero, a partir da escolha de alguns usuários do excelente sítio musical. Exortado por nosso outro amigo Gustavo “jared_lethal”, o “sallamanka” pediu-me que eu também indicasse meus três discos preferidos do gênero.

A escolha, feita meio que às pressas, pode a qualquer momento ser revista. E, convenhamos, de fato não é nada fácil. Tive duas preocupações. A primeira foi a delimitação do gênero: tenho especial predileção pelo chamado Samba-Jazz, que é um desdobramento da Bossa Nova, mas dotado de características muito peculiares, que lhe justificam outro tipo de categorização, o que me fez tentar evitar incluir discos mais afeitos a esta categoria. A segunda foi a vontade de fugir do óbvio, mas com a certeza de que isso seria impossível: João Gilberto ou Tom Jobim teria que, indefectivelmente, ser uma das escolhas, restando saber qual trabalho deles seria a um só tempo ilustrativo e diferente no contexto que pretendemos enfocar.

As escolhas foram: Tom Jobim, The Composer of Desafinado, Plays, ou, conforme o lançamento brasileiro da Elenco, apenas Antônio Carlos Jobim; os outros dois, para evitar, repitamos, a obviedade (pero no mucho!), foram o Eu e a Brisa, de Johnny Alf, e O Compositor e o Cantor, de Marcos Valle.


Tom
A opção pelo disco de Tom, em vez de algum trabalho de João Gilberto, se deu como forma de homenagear a bossa instrumental, ainda mais que é o “pai das crianças” in person que as está acalentando no sensacional disco de 1963. Gravado em Nova York, o álbum conta com músicos brasileiros e americanos. O brasileiro identificado é o espetacular baterista Edison Machado. E ele contribui massivamente para percebermos alguma diferença entre a Bossa Nova e o Samba-Jazz: no álbum de Tom sua bateria é leve, simples, de balanço suave; mas se ouvirmos Edison no seu disco solo do mesmo ano, ou no Bossa Rio de Sérgio Mendes, ou no Rio 65 Trio teremos um batera pesado, com forte marcação, tonitruante, de verve jazzística na linha de um Max Roach ou de um Elvin Jones. Em suma, The Composer of Desafinado, Plays, ou Antônio Carlos Jobim é um grande disco para quem quer entender o que é realmente Bossa Nova.


Alf
Eu e a Brisa
foi um título dado a posteriori. Em verdade, o disco de Johnny Alf foi inicialmente conhecido como o álbum “com arranjos de José Briamonte”. A escolha deste trabalho talvez tenha sido uma forma indireta – ou inconsciente – que encontrei para homenagear João Gilberto, afinal Alf também está naquela linhagem dos cantores de voz relativamente frágil, do tipo que tem de agradecer ao João pelo caminho que o baiano, provavelmente inspirado em Chet Baker, ajudou a abrir para os brasileiros anti-Francisco Alves, tendência aliás que viria para ficar. Há, entretanto, quem diga que Johnny Alf gravara, alguns anos antes de Chega de Saudade, um 78 rotações que já apresentava algumas características “bossanovísticas”, suportadas pelo seu estilo ultracool de cantar, o que o teria feito a antecipar-se, desse modo, ao mito João Gilberto. As belas canções deste disco, na voz intimista de Alf, formam um belo retrato da revolução que a Bossa Nova representou no jeito de cantar. E tal levante, Eu e a Brisa comprova, não foi capitaneado somente pelo João.


Marcos
O Compositor e o Cantor
, de Marcos Valle, é outro daqueles discos representativos da universalidade da Bossa Nova, haja vista a presença de valsa, baladas e um pouco de jazz temperando a levada tão claramente brasileira do álbum. A sucessão de clássicos desta obra inclui “Preciso Aprender a Ser Só”, “Samba de Verão” (a rival de “Garota de Ipanema” em nível internacional) e “A Resposta”. E a linguagem deste clássico de 1965 é jovem, quase pop, ainda mais que tem a orquestração de ninguém menos do que Eumir Deodato. A identificação musical de Marcos e Eumir já é abençoada por Paulo Sérgio Valle, nas notas de contracapa de O Compositor e o Cantor. Os dois músicos cariocas viriam a se afastar gradativamente da Bossa, rumo a uma modernidade mais desabrida: Marcos num contexto mais próprio da MPB misturada ao Rock, Soul e pop; Eumir numa linha mais fusion, Jazz-Rock etc. Além do compositor e cantor, havia neste disco o “arranjador” e o “irmão parceiro”. Por isso, ele é grande!

Eis a explicação para minhas três escolhas. Como se pode ver, trata-se de idiossincrasia pura. Vale a pena uma conferida na lista para saber o que o pessoal por lá mais gosta em termos de Bossa Nova e, quem sabe, usá-la como um roteiro para futuras aquisições.