Logo quando os CDs começaram a se popularizar no Brasil - devagar, devagarinho - no início da década de 1990, alguns puristas e vinilófilos radicais saíram dizendo que em não mais do que dez anos os registros dos "discos-laser" simplesmente desapareceriam. Como nada aconteceu em tal período, falaram que seria em 15 anos. Tendo continuado a tocar os disquinhos, subiram para 20 anos. E quem tem CDs fabricados ainda no final dos anos 1980 pode confirmá-lo: os dados não sumiram coisa nenhuma.
Dia desses, um amigo teorizou que, no fundo, o sumiço dos dados não é, em absoluto, o grande problema. Ele apresentou o que seria para ele o verdadeiro motivo para não se gastar dinheiro com CDs originais: em breve, não somente a mídia será substituída por outra forma - inclusive "virtual" - mas também não será possível botar para rodar os itens da coleção, pelo simples motivo de que não haverá aparelhos para reproduzi-los. Quer dizer: os registros estarão lá no disco, mas de nada vai adiantar porque não haverá máquinas para decodificá-los, por assim dizer.
Na mesma hora lembrei-me de um episódio dos Simpsons, em que aparece um depósito de lixo no qual consta um espaço dedicado para "betacam", outro destinado para VHS, ambos já devidamente abarrotados de objetos, e um terceiro, ainda vazio, "reservado para DVDs".
Meu amigo e os Simpsons estão a tratar do famigerado fenômeno da obsolescência programada, assim definida no Dicionário de Economia, de Paulo Sandroni (São Paulo: Best Seller, 1989): se dá quando "a produção industrial determina de antemão o período de durabilidade de um produto(...), frequentemente se chega a preparar um desgaste artificialmente curto para obrigar os consumidores a uma reposição mais rápida do produto".
Aceitando que, com efeito, não é de se descartar a hipótese de sumirem os aparelhos apropriados para se ouvir CDs, há de se buscar um bom motivo para adquirir essas maravilhas. Quanto à música, criação humana, sempre se terá uma forma de a ela ter acesso e em algum lugar ficará guardada, nem que seja num museu, e certamente com a gravação de que gostamos. Mas e os CDs, objeto físico, forma tangível?
Uma boa desculpa para não abandonar o hábito de adquiri-los talvez seja comprar aqueles que - mais uma vez apropriando-se da linguagem dos economistas - tenham maior valor agregado, digamos assim. No caso, as edições com reprodução de capas originais, textos novos e da época, fotos inéditas, serviços completos das gravações etc.
Coleções como a Rudy Van Gelder Series, do selo Blue Note, a Columbia Legacy, da Sony-BMG, Atlantic Jazz Masters, com a turma da Rhino, entre outros, são ótimas pedidas. Os encartes dessas edições são praticamente livretos. Na RVG, da Blue Note, por exemplo, as fotos destacam preferencialmente os músicos da sessão, e não o artista que a lidera, e além do texto original, traz uma nova leitura do expert Bob Blumenthal. Na Atlantic Jazz Masters, por seu turno, tem-se o fac-símile da contracapa, mas para não precisar forçar muito a vista, todo o conteúdo é reproduzido no livrinho em letras maiores.
Não tem jeito. Tecnologia vai, tecnologia vem, mas o velho e bom livro sobrevive e não se cogita que ele venha a sumir de todo. O jeito, para quem gosta de gastar dinheiro com CDs, é pensar assim: adquirir um objeto que "contém" boa música, mas que pode, entre seus acessórios, trazer um pouco de boas imagens e, principalmente, boa leitura. São textos de Nat Hentoff, Ira Gitler, Gunther Schuller, Lenny Kaye, Fausto Canova, Martin Williams, Armando Aflalo e, não raro, os próprios artistas e produtores das obras fazendo "leituras atualizadas" dos trabalhos que protagonizaram.
É bom sempre adquirir, preferencialmente, discos de que não se vai enjoar. O problema, como aqui aventado, é não poder ouvi-los um dia, por algum motivo de força maior, como, por exemplo, a predação capitalista. Para não ficar com a sensação do risco de aquilo perder valor no futuro, fixemo-nos, então, na certeza de que um texto como o de Bruce Geller para a contracapa da trilha de Mission: Impossible, de Lalo Schifrin, não deve se perder nunca.
Mostrando postagens com marcador CD. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CD. Mostrar todas as postagens
domingo, 7 de agosto de 2011
sábado, 5 de janeiro de 2008
Quer pagar quanto?

Vi nesta semana, em um sebo do centro de São Paulo, o famoso vinil do Quarteto Novo, grupo com Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Théo de Barros e Heraldo do Monte, cuja bela capa ilustra este post. O preço era R$400,00 (isso mesmo: QUATROCENTOS REAIS).
Tenho uma edição em CD do disco, lançado pela EMI na série Odeon 100 anos. Acho que já paguei caro (mais de 30 reais), pois mesmo a reedição não é nada fácil de se encontrar.
Não tenho dúvidas de que se é possível fazer o download desse clássico da música instrumental brasileira na rede.
Mas a minha pergunta é: quem se sujeitaria a pagar - num bom "paulistanês" – “quatrocentos pau” nesse curioso vinil de 1967, ainda mais se sabendo que se pode “baixá-lo” gratuitamente na net ou consegui-lo em CD ainda que a duras penas?
Tenho tal curiosidade porque li um texto, também na “família” blogspot, que comentava a respeito do leilão virtual de um velho compacto de obscuro artista da onda northern soul dos anos 1960: o valor já chegava a inacreditáveis dois mil dólares!!! O autor mostrava-se estupefato e sugeria haver algum tipo de fetiche por parte de quem oferecia um “absurdo” por um mero compacto de duas faixas, isso tudo sem entrar no mérito da possível boa qualidade do trabalho do artista, que – diga-se de passagem - é uma marca do northern soul, sobretudo daquele mais “lado B”.
Penso que no caso do nosso Quarteto Novo somente um fetichista (endinheirado) mesmo para pagar os “quatrocentos” pedidos pela loja do primeiro andar de uma galeria da Rua Dom José de Barros, centro de São Paulo.
Gosto muito de música e atrevo-me a, vez ou outra, comprar um disquinho. Mas não consigo me imaginar, mesmo que tivesse condições, pagando um preço tão despropositado num velho e – mesmo que - bom elepê.
E quanto ao disco em si? Bem... Sinceramente... É legal e tudo, mas já ouvi muitos melhores no quesito “música instrumental brasileira”.
Tenho uma edição em CD do disco, lançado pela EMI na série Odeon 100 anos. Acho que já paguei caro (mais de 30 reais), pois mesmo a reedição não é nada fácil de se encontrar.
Não tenho dúvidas de que se é possível fazer o download desse clássico da música instrumental brasileira na rede.
Mas a minha pergunta é: quem se sujeitaria a pagar - num bom "paulistanês" – “quatrocentos pau” nesse curioso vinil de 1967, ainda mais se sabendo que se pode “baixá-lo” gratuitamente na net ou consegui-lo em CD ainda que a duras penas?
Tenho tal curiosidade porque li um texto, também na “família” blogspot, que comentava a respeito do leilão virtual de um velho compacto de obscuro artista da onda northern soul dos anos 1960: o valor já chegava a inacreditáveis dois mil dólares!!! O autor mostrava-se estupefato e sugeria haver algum tipo de fetiche por parte de quem oferecia um “absurdo” por um mero compacto de duas faixas, isso tudo sem entrar no mérito da possível boa qualidade do trabalho do artista, que – diga-se de passagem - é uma marca do northern soul, sobretudo daquele mais “lado B”.
Penso que no caso do nosso Quarteto Novo somente um fetichista (endinheirado) mesmo para pagar os “quatrocentos” pedidos pela loja do primeiro andar de uma galeria da Rua Dom José de Barros, centro de São Paulo.
Gosto muito de música e atrevo-me a, vez ou outra, comprar um disquinho. Mas não consigo me imaginar, mesmo que tivesse condições, pagando um preço tão despropositado num velho e – mesmo que - bom elepê.
E quanto ao disco em si? Bem... Sinceramente... É legal e tudo, mas já ouvi muitos melhores no quesito “música instrumental brasileira”.
Marcadores:
CD,
disco,
LP,
música instrumental,
Quarteto Novo,
sebo,
vinil
Assinar:
Postagens (Atom)
