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sábado, 25 de julho de 2015

É a pedra no lago, estúpido

A política vive de coisas sérias e de coisas banais; de conceitos filosóficos e sabedoria popular; teorias rebuscadas e frases feitas. Duas delas (não sei classificar se “lendas”, “teorias” ou seja lá o que for) são relevantes para entender o Brasil contemporâneo.

Do Brasil se dizia há algum tempo que havia um chamado efeito “pedra no lago”: algumas pequenas ondas se formavam no "centro", por meio de formadores de opinião e de gente bem informada e articulada, tipicamente de classe média para cima, e iam aos poucos atingindo as "margens", ou seja, um público supostamente mais desinformado, pouco politizado, menos instruído, invariavelmente formado pelos mais pobres.

No Brasil ganhou corpo também o famoso bordão “é a economia, estúpido”. Sacado pelo marqueteiro James Carville, da equipe do então candidato Bill Clinton, quer dizer que, no fundo, o cidadão vai sempre se deixar guiar, em suas decisões e avaliações políticas, pelo quadro econômico, pelo bolso.

Da “pedra no lago” se chegou a decretar o fim. A reeleição de Lula, em 2006, parecia mostrar que grandes movimentos de classe média urbana e escolarizada, com apoio ostensivo da mídia, já não detinham mais a capacidade de levar o povão na lábia.

E as ondas não chegavam às margens justamente porque “é a economia, estúpido”! O bem-estar econômico era, por assim dizer, um dique que segurava as ondas.

Como bem demonstrado por André Singer em “Os sentidos do lulismo”, Lula foi reeleito em 2006 praticamente com a mesma votação de quatro anos antes, contudo graças a eleitores de perfil extremamente divergente daquele que votara nele no pleito anterior. O motivo era simples: conservador, o (muito) pobre brasileiro quer segurança, nada de aventuras, e se possível uma melhorazinha de vida. Passado o primeiro mandato, Lula, que historicamente assustava os muito pobres e conservadores, mostrou-se perfeito: não promoveu mudanças de fundo na sociedade nem na economia, mas implementou e incrementou políticas que melhoraram significativamente a vida de um segmento historicamente abandonado. Um "reformismo fraco", diz o eminente cientista político e ex-porta-voz do governo Lula, garantiu ao metalúrgico o apoio massivo dos mais pobres.

A direita brasileira entendeu - mas não aceitou - as duas coisas: apresentava dificuldades de acreditar que o povo insolentemente não se deixasse levar pela ilustrada pregação antipetista diuturna, geralmente de caráter moralista, com o tema da corrupção à frente; e consciente de que a situação econômica era o que garantia a fidelidade ao petismo, os simpatizantes da direita lamentavam, cínica e preconceituosamente, o fato de as pessoas, segundo elas, votarem com o estômago e com tamanha mesquinhez!

A avassaladora crise internacional e um possível esgotamento do modelo baseado no mercado interno e inclusão social tenderiam já a trazer adversidades para a economia brasileira, revelando, assim, dificuldades para o segundo mandato de Dilma Rousseff. A coisa, porém, foi ganhando azedume com a operação Lava Jato.

A direita brasileira, como dissemos, entendeu muito bem o que vinha acontecendo no País. O moralismo hipócrita e seletivo típico da UDN está presente nos estratos médios, de modo que, dele, não se abre mão. Mas martelar histórias de corrupção, com economia bombando, renda crescendo e emprego em alta, não tem apelo popular. E mais: independentemente da situação, seria como se o tema tivesse que ser explorado - contra os adversários, claro - nem que fosse por uma questão de honra.

A operação Lava Jato, porém, não mexe só com os ódios e medos da corrupção. Ela também afeta a economia, pois no escândalo estão envolvidos a maior de nossas empresas de economia mista e grande parte do PIB nacional, trazendo um inexorável relaxamento dos espíritos empreendedores do País.

A Lava Jato, portanto, vem com grande força moralizadora (e de forma seletiva, como tem ocorrido em outros escândalos do País), ao mesmo tempo que mina forças da economia brasileira. Convenhamos: não parece haver coisa melhor para quem apostava no discurso da corrupção como arma política, mas sempre via ele ser barrado pela sensação de bem-estar do povão.

Com a economia mais devagar, estúpido, não tem jeito: as ondas no lago acabam inevitavelmente chegando até os que estão à margem!

Se eu acreditasse em teorias da conspiração, diria que a Lava Jato foi realmente pensada para fazer a ligação das duas coisas. E se estamos no campo das comparações e metáforas, ela é a tempestade perfeita que a direita tanto esperava.

sábado, 25 de outubro de 2014

Dois modelos

 O blog traz novo texto do jornalista Lenon Hymalaia sobre a sucessão presidencial de 2014. SE pudéssemos resumir, diríamos: não temos que escolher entre dois candidatos; estamos à frente de dois projetos. Faça a sua opção! Leia abaixo.

Dos modelos de governo propostos, Das teorias do capitalismo e Do conhecimento político do brasileiro.

A busca por conhecimento é, talvez, a única forma de ficarmos isentos de prejuízos políticos ou de qualquer outro tipo de malefício que venha a nos prejudicar como seres humanos e, acima de tudo, como sociedade. Isto posto, começo este ensaio dizendo, antes de qualquer coisa, que é extremamente positivo para a democracia saber diferenciar sistemas políticos, uma vez que determinada escolha representa questões que nos atingem diretamente, social e ideologicamente.

Sou jornalista há quase duas décadas. Exerço a profissão. Para tentar entender um pouco o Brasil e as questões sociais do País, tenho procurado me aprofundar em informações transmitidas não pela mídia tradicional, mas sim pela mídia alternativa brasileira, que, ao contrário dos grandes veículos, são mais fiéis nas informações e permitem enxergar algumas coisas interessantes no que diz respeito a esta eleição. Por ser jornalista e por estar envolvido diariamente com a imprensa acabo conhecendo muito do que acontece nesse meio. E é lamentável dizer que, após quase duas décadas de dedicação à profissão, eu não acredito nenhum pouco na grande imprensa brasileira. Quase toda a mídia brasileira (rádios, jornais, revistas, sites e TV) tem um lado - a direita -, e é pró PSDB e seu estilo de política neoliberal, com raríssimas exceções. Portanto, tento me informar e fugir da alienação incentivada pela mídia.
Mas o que me traz aqui diz mais respeito à política do que à mídia em si. Esses dias o jornalista Paulo Moreira Leite (uma das raras exceções que faz parte do “quase toda a mídia”) publicou um artigo que dizia o seguinte: "Minha razão para votar em Dilma tem origem na convicção fundamental de que o dever principal do Estado e dos governantes é defender os humildes e os desprotegidos, os que não tiveram oportunidade". O artigo era longo, e esclarecia muito bem a questão do capitalismo de Estado e das questões sociais brasileiras. Para o jornalista “nunca foi tão necessário derrotar o pensamento conservador, o eterno obscurantismo que tenta fazer a roda da História andar para trás”(http://paulomoreiraleite.com/2014/10/01/voto-em-dilma/). Está aí para quem quiser ver e ler.
Eu concordo com ele. O que está em jogo no momento são modelos muito diferentes de governar o Brasil. Aliás, está em jogo a construção de dois Brasis completamente diferente. O modelo neoliberal proposto por Aécio é o mesmo utilizado na Europa e nos EUA (com uma ou outra modificação). E é este mesmo modelo que tragou as economias europeia e americana recentemente.

Após a crise de 29, a mais trágica da história do capitalismo, o filósofo e economista inglês John Keynes, um dos maiores pensadores do século XX, desenvolveu o que hoje conhecemos como teoria Keynesiana. E o que é a teoria Keynesiana?  Em resumo, essa teoria tem como premissa um capitalismo controlado pelo Estado (o que o Governo Dilma faz hoje). Keynes mostrou, no início dos anos 30, ser um completo erro deixar a economia de toda uma nação nas mãos do mercado, pois as crises capitalistas, em decorrência do capital especulativo, podem fugir ao controle (alguém aí se lembra de 2008)?

Para resumir, para Keynes, um poder maior do Estado na economia impediria as oscilações do capitalismo e permitiria ao Estado propiciar investimentos na economia, resultando em bom crescimento e baixo desemprego (hoje, no Brasil, vivemos uma situação de pleno emprego, como todos sabem. Com relação à economia, estamos passando por um processo complexo, que explico mais abaixo).
O problema das crises capitalistas é tão complexo que o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, um dos maiores pensadores contemporâneos, também mostrou, da mesma forma, na década de 70, as falhas do sistema capitalista. Em seu livro “A Crise de Legitimação do Capitalismo Tardio”(http://pt.wikipedia.org/wiki/Jürgen_Habermas e http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=73993), Habermas afirma que o capitalismo, sozinho, tem crises cíclicas complexas de tempos e tempos, o que traria problemas graves às sociedades modernas, corroborando com a teoria de Keynes, no que diz respeito à importância do Estado como gestor econômico.
Para os brasileiros que não estão muito antenados com a política a questão é a seguinte: Aécio, seus apoiadores e toda a turma da direita querem implantar no Brasil de hoje um modelo similar e responsável pela quebra dos países europeus nos últimos anos e até dos EUA, em 2008, quando estourou a crise dos subprimes. E é aqui que entra a questão econômica. Para não nos alongarmos, nossa economia tem patinado desde 2008, por consequência da grave crise que fez muitas nações quebrar. Nós não quebramos, como acontecia na Era do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ao contrário. O governo do PT, em uma das medidas para proteger a economia e o País, passou a potencializar o consumo interno e isso surtiu bons efeitos no início do processo. A questão principal, no entanto, foi que as nações fortemente afetadas pela crise não conseguiram se recuperar e o Brasil, sozinho, devido à globalização e ao processo “dominó” produzido por ela, não consegue deslanchar, muito em consequência da crise, uma vez que as grandes nações do mundo ainda estão sob seu efeito, que à época foi devastador.
O que Aécio e sua turma querem fazer, em resumo, é reimplanar no Brasil o modelo utilizado por FHC, que tem como uma de suas bases a teoria do economista Milton Friedman, teórico do liberalismo econômico, que defendia o livre mercado absoluto e considerado o maior defensor do Liberalismo econômico e da subsequente redução das funções do Estado frente ao domínio do mercado livre(http://pt.wikipedia.org/wiki/Milton_Friedman)
O que tudo isso significa: o PSDB fará uma política tipicamente de direita, responsável pelas maiores crises capitalistas da história humana. Uma política que devido à sua fórmula, nos dias atuais, só beneficiará as classes alta e média alta. Na Era FHC, os juros chegaram a 45% ao ano e milhões de brasileiros estavam desempregados. O provável ministro da Fazenda, caso Aécio seja eleito (Armínio Fraga), já disse que fará um política de cortes de salários (entenda salário mínimo e seguro desemprego) para supostamente "reduzir" a inflação, que hoje está em 6,5%.

Só para conhecimento, nas melhores épocas do governo FHC, que tinha o próprio Armínio Fraga como presidente do Banco Central, a inflação estava em 12,5%. Se Armínio Fraga voltar, sabe quem ganhará com isso? Os bancos, os especuladores nacionais e internacionais e os mega empresários e bancários que apoiam Aécio. Correremos o risco de ficarmos à mercê deles e, o principal, pelo estilo tucano de governar, talvez dependamos de ajuda financeira novamente - FMI (veja issohttp://www.youtube.com/watch?v=J5_s8V5tYus e isso http://www.youtube.com/watch?v=8_2coidyxOk).
É justamente aí que está a diferença. O que o PT faz atualmente uma política que segue os princípios Keynesianos e de observação a todos os problemas que o capitalismo pode apresentar, como bem observou o filósofo Jürgen Habermas. O resultado está aí: 30 milhões de brasileiros estão fora da linha da pobreza extrema. A proposta do Aécio, apenas para constar, é uma das mais atrasadas e há muito, muito tempo mesmo, já não funciona.
Por tudo isso sou mais a visão de governo da Dilma e do PT. Ainda temos problemas? Temos, é verdade. Mas é uma política que tem o povo em primeiro lugar. É uma política de amor pelo Brasil. É uma política de valorização do brasileiro. É uma política que fortalece nossas instituições. E é uma política que olhou para o passado, observou as grandes crises e faz de tudo para proteger nossa população.

Lenon Hymalaia - jornalista pós-graduado em Globalização e Cultura pela Escola Superior de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP.

domingo, 16 de junho de 2013

Perspectivas para 2014 - influências dos resultados do PIB

O até certo ponto decepcionante crescimento econômico anotado no primeiro trimestre deste 2013 trouxe ânimo para a oposição e para o colunismo que lhe dá suporte na imprensa. Com ótimos índices de popularidade, sendo Dilma Rousseff favoritíssima à reeleição em 2014, qualquer espirro traz alento às hostes oposicionistas. Mas, afinal de contas, qual é efetivamente a importância dos números reais do Produto Interno Bruto na hora da eleição?

O PIB comportou-se de forma oposta nos dois últimos pleitos presidenciais: foi fraco durante o período que antecedia a corrida de 2006, e era quase chinês na disputa de 2010. As respostas das urnas parecem sugerir que a ideia de crescimento econômico, se mostrada de forma abstrata, sem relação direta com a vida das pessoas, não influencia de forma, por assim dizer, simétrica, o resultado - no limite, talvez seja meramente um elemento a mais, de importância apenas relativa, na hora de o eleitor decidir seu voto.

Em 2006, ainda antes da derrocada do neoliberalismo, o planeta vivia uma onda de prosperidade, com meio mundo ostentando números significativos de crescimento. O Brasil seguia acanhado, e o oposicionista Geraldo Alckmin, secundado pela mídia amiga, não perdia uma oportunidade de acusar o País de àquela época "estar crescendo somente mais do que o Haiti nas Américas". A despeito das lembranças e advertências do político paulista, o então presidente Lula, candidato à reeleição, obteve vitória folgada - para não dizer massacrante - no segundo turno.

Já em 2010, nos meses que marcavam a corrida pelo Planalto, a economia brasileira, diferentemente da maior parte das economias centrais do planeta, bombava, com índices de crescimento que, anualizados, orbitavam pelos 8%, números que só seriam considerados ridículos por chineses - e olhe lá! Mas eram os brasileiros que iam às urnas, e apesar do "feel good factor", impuseram um segundo turno e premiaram a oposição com 44% dos votos, números bem melhores do que o por ela alcançado quatro anos antes, quando, segundo Alckmin e a mídia, o Haiti era aqui.

Não raro veem-se críticos aos métodos de avaliação de crescimento econômico e gente que declaradamente contesta a validade do PIB para se apurar a saúde econômica e o bem-estar social num dado país. Aos estudiosos do tema, a relação, digamos, blasé que o eleitor brasileiro parece vir tendo com a matéria seria uma boa fonte de análise.

E em 2014, será que o eleitor irá às urnas com uma tabelinha do IBGE debaixo do braço?

domingo, 7 de agosto de 2011

CDs: não se deixe programar pela obsolescência

Logo quando os CDs começaram a se popularizar no Brasil - devagar, devagarinho - no início da década de 1990, alguns puristas e vinilófilos radicais saíram dizendo que em não mais do que dez anos os registros dos "discos-laser" simplesmente desapareceriam. Como nada aconteceu em tal período, falaram que seria em 15 anos. Tendo continuado a tocar os disquinhos, subiram para 20 anos. E quem tem CDs fabricados ainda no final dos anos 1980 pode confirmá-lo: os dados não sumiram coisa nenhuma.

Dia desses, um amigo teorizou que, no fundo, o sumiço dos dados não é, em absoluto, o grande problema. Ele apresentou o que seria para ele o verdadeiro motivo para não se gastar dinheiro com CDs originais: em breve, não somente a mídia será substituída por outra forma - inclusive "virtual" - mas também não será possível botar para rodar os itens da coleção, pelo simples motivo de que não haverá aparelhos para reproduzi-los. Quer dizer: os registros estarão lá no disco, mas de nada vai adiantar porque não haverá máquinas para decodificá-los, por assim dizer.

Na mesma hora lembrei-me de um episódio dos Simpsons, em que aparece um depósito de lixo no qual consta um espaço dedicado para "betacam", outro destinado para VHS, ambos já devidamente abarrotados de objetos, e um terceiro, ainda vazio, "reservado para DVDs".

Meu amigo e os Simpsons estão a tratar do famigerado fenômeno da obsolescência programada, assim definida no Dicionário de Economia, de Paulo Sandroni (São Paulo: Best Seller, 1989): se dá quando "a produção industrial determina de antemão o período de durabilidade de um produto(...), frequentemente se chega a preparar um desgaste artificialmente curto para obrigar os consumidores a uma reposição mais rápida do produto".

Aceitando que, com efeito, não é de se descartar a hipótese de sumirem os aparelhos apropriados para se ouvir CDs, há de se buscar um bom motivo para adquirir essas maravilhas. Quanto à música, criação humana, sempre se terá uma forma de a ela ter acesso e em algum lugar ficará guardada, nem que seja num museu, e certamente com a gravação de que gostamos. Mas e os CDs, objeto físico, forma tangível?

Uma boa desculpa para não abandonar o hábito de adquiri-los talvez seja comprar aqueles que - mais uma vez apropriando-se da linguagem dos economistas - tenham maior valor agregado, digamos assim. No caso, as edições com reprodução de capas originais, textos novos e da época, fotos inéditas, serviços completos das gravações etc.

Coleções como a Rudy Van Gelder Series, do selo Blue Note, a Columbia Legacy, da Sony-BMG, Atlantic Jazz Masters, com a turma da Rhino, entre outros, são ótimas pedidas. Os encartes dessas edições são praticamente livretos. Na RVG, da Blue Note, por exemplo, as fotos destacam preferencialmente os músicos da sessão, e não o artista que a lidera, e além do texto original, traz uma nova leitura do expert Bob Blumenthal. Na Atlantic Jazz Masters, por seu turno, tem-se o fac-símile da contracapa, mas para não precisar forçar muito a vista, todo o conteúdo é reproduzido no livrinho em letras maiores.

Não tem jeito. Tecnologia vai, tecnologia vem, mas o velho e bom livro sobrevive e não se cogita que ele venha a sumir de todo. O jeito, para quem gosta de gastar dinheiro com CDs, é pensar assim: adquirir um objeto que "contém" boa música, mas que pode, entre seus acessórios, trazer um pouco de boas imagens e, principalmente, boa leitura. São textos de Nat Hentoff, Ira Gitler, Gunther Schuller, Lenny Kaye, Fausto Canova, Martin Williams, Armando Aflalo e, não raro, os próprios artistas e produtores das obras fazendo "leituras atualizadas" dos trabalhos que protagonizaram.

É bom sempre adquirir, preferencialmente, discos de que não se vai enjoar. O problema, como aqui aventado, é não poder ouvi-los um dia, por algum motivo de força maior, como, por exemplo, a predação capitalista. Para não ficar com a sensação do risco de aquilo perder valor no futuro, fixemo-nos, então, na certeza de que um texto como o de Bruce Geller para a contracapa da trilha de Mission: Impossible, de Lalo Schifrin, não deve se perder nunca.

domingo, 24 de julho de 2011

Inflação: política e economia

O factoide inflação continua rendendo – com ou sem trocadilhos, você decide!. Começou como mero jogo político capitaneado pela oposição e pela mídia, passando, num segundo momento, a sofrer exploração da turma da economia-finanças – nesta etapa, também com o apoio do oligopólio midiático.

Já no fim de 2010, e especialmente no início de 2011, as figuras de oposição – e tanto faz falar de jornalistas ou políticos – passaram a dizer que vivíamos um clima de descontrole inflacionário. A estratégia parecia ser a de colar em Lula a responsabilidade por certa “herança maldita” legada ao País, e, neste caso, uma herança particularmente maléfica para a população mais pobre, não por acaso justamente os maiores apoiadores do ex-presidente. Alegava-se certo afrouxamento do pernambucano no combate ao “dragão”, que, por sua vez, teria sido alimentado pelo abuso nos gastos públicos dos últimos anos com o fim de ajudar sua candidata à sucessão.

O ano de 2010 fechou, com efeito, com inflação acima do centro da meta (5,91% contra 4,5%), ainda que abaixo do limite superior de tolerância, que era de 6,5% ao ano. Nunca é demais lembrar que em seu último ano, 2002, o presidente Fernando Henrique Cardoso entregou a Lula um País com 12,53% de inflação. É bom não se olvidar também que, durante a corrida presidencial do ano passado, a então candidata Dilma Rousseff trouxe à baila o assustador resultado do ocaso do ex-presidente tucano, vindo a sofrer desautorizações e censuras de colunistas da grande imprensa, assim como de um ou outro luminar dos partidos oposicionistas.

Esquecendo-se dos detalhes acima, explorou-se nos últimos meses o tanto que deu – e na medida do necessário – o assunto inflação, de modo a quase transformar o Brasil na Alemanha pré-nazista. Chegava a ser engraçado ouvir âncoras de rádios noticiosas reportando-se aos tempos da hiperinflação de Sarney, enquanto se esqueciam de mencionar o preocupante resultado do ano de despedida de FHC!

Mas o tópico inflação foi aos poucos esfriando do ponto de vista político. O primeiro motivo talvez tenha sido o de que não daria para martelar muito no tema, em vista das reiteradas informações de que o pequeno repique de preços iniciado em fins de 2010 devia-se, sobretudo, ao elevado valor das commodities, ou seja, não tinha muita ligação com fatores internos, tanto que diversos países vinham – e vêm – sofrendo com aumentos nas prateleiras.

E, muito melhores do que a “dura realidade” do parágrafo anterior, vieram histórias que mexem com o ânimo neoudenista não somente da oposição (política e midiática) mas também da classe média – mais sobejamente a tradicional – dos grandes centros urbanos. Trata-se do factoide Palocci e do escândalo do ministério dos Transportes. Com tais “combustíveis” em mão, capazes de acender o fogo do moralismo seletivo de importante contingente da população brasileira, torna-se bobagem brigar com fatos, querendo convencer o povo de que ele estaria vivendo o pior quadro inflacionário desde o início do Real, quando se sabe que isso é uma mentira deslavada.

Ora, dirão alguns, a coisa não parece estar rolando bem assim, haja vista os aumentos de juros, as declarações defensivas de ministros da área econômica e as falas cautelosas da própria presidenta Dilma. Pois bem: é aqui que entra o trabalho bem feito do pessoal da economia-finanças, ou, se preferir, o tal “mercado”.

É simples: os “mercadistas” querem juros. Viram no terrorismo inflacionário a oportunidade de não ter, sob novo governo e nova direção do Banco Central, o esperado estancamento da elevação contínua de juros. E para tal mister a mídia lhes serve com a mesma dedicação que normalmente presta para a oposição política.

O IPCA de maio e de junho tiveram quedas significativas. No entanto as pressões para se aumentar os juros soaram forte aqui e ali, tanto que a SELIC recebeu mais 0,25% nesta semana.

A imprensa, sempre prestativa, estampa em suas manchetes o acumulado da inflação de 12 meses, apontando-o como número acima do extremo da meta de 6,5%, deixando, contudo, de esclarecer que o BC não se compromete com resultados dos últimos 12 meses, mas sim com o consolidado do ano, ou seja, trabalha para não ultrapassar os 6,5% de inflação no ano de 2011.

A mídia esconde também que de junho a agosto de 2010 a inflação foi muito próxima de zero. Desse modo, no cálculo do acumulado de 12 meses está-se subtraindo zero e acrescentando qualquer resultado positivo, mesmo que baixo, que se venha atualmente apresentando, o que obviamente empurra para cima o somatório do período. Situação inversa pode ocorrer nos últimos meses deste ano: de outubro a dezembro do ano passado os índices estiveram sempre acima de 0,60%; possíveis resultados menores no mesmo período em 2011 inevitavelmente trarão o acumulado para baixo.

Em resumo, a inflação não traz riscos mais sérios, como já bem perceberam os políticos oposicionistas, muito mais empolgados com suspeitas ou escândalos de corrupção do que com as estripulias de um dragão que, embora desperto, continua bastante calmo no seu canto.

O pessoal do chamado mercado, porém, não pode deixar escapar o “diamante bruto” que a guerrinha política lhe jogou no colo. Não obstante as provas de que não há maiores riscos inflacionários a se considerar, o assunto não pode esmorecer, para que continuem a faturar com a farra dos juros.

Num e noutro viés, temos a mídia sempre dando suporte. Num e noutro caso, vemos o País sempre perdendo.


Leia também:
O inflacionado mercado das mentiras

terça-feira, 31 de março de 2009

Todas as horas do planeta

No último sábado (28-03) ocorreu a Hora do Planeta, iniciativa idealizada pela Worldwide Fund for Nature (WWF) que pretendia que as pessoas desligassem as luzes e demais aparelhos elétricos entre 20h30 e 21h30 em todo o mundo. Tudo em nome do combate ao aquecimento global.

A medida sem dúvida foi bacana e trouxe no seu bojo um elemento simbólico nada desprezível, pois incorporou a idéia de que cada um pode dar alguma contribuição, ainda que pequena, sob a rubrica dos "pequenos gestos", para um planeta melhor. Mas vamos devagar com a empolgação que se ensaiou lá e cá em virtude de razoável adesão à brincadeira.

Em realidade, mudança mesmo só viria se estivesse ligada a algum tipo de transformação das formas de produção reinantes. O estado em que se encontra o planeta é resultado das vicissitudes históricas que o modelo econômico tido como vitorioso impõe. É uma obviedade, mas o leitor decerto a desculpará por saber que se trata de uma triste verdade que precisa ser dita.

E a gravidade da situação é mostrada com crueza no estado de crise que ora vivenciamos. Seria de se esperar, para um mundo mais ecologicamente equilibrado, que se consumisse com mais responsabilidade, o que passaria pelo fim do desperdício e do gasto com supérfluos, além do controle da compulsividade e o fim do imediatismo. Isso, no atual momento de dificuldade econômica, já vem de alguma forma ocorrendo; mas em vez de se comemorar a possibilidade de melhora das condições do meio ambiente, o que se vê é o medo da depressão, da fome, do desemprego, da volta de contingentes à pobreza que parecia ter ficado para trás. Numa análise fria, defender a correção política nas atuais circunstâncias seria um tiro de misericórdia no combalido sistema capitalista. E quebras abruptas de paradigmas podem ser dolorosas no curto prazo. Difícil imaginar quem estaria realmente disposto a enfrentar isso de peito aberto.

O caso dos automóveis no Brasil é bastante emblemático disso que vimos dizendo. Não há negar que os carros são dos principais vilões para o meio ambiente, sobretudo quando se fala no famigerado aquecimento global. A crise tinha tudo para derrubar o seu consumo e, conseqüentemente, sua circulação no país. Mas o Governo Federal tem lançado pacotes e incentivos reiteradamente para não permitir que isso ocorra, de olho, é claro, na manutenção dos empregos no setor e com a justificada preocupação com toda a cadeia que se mantém e se desenvolve a reboque do ramo automotivo.

A grande verdade é que medidas pequenas, simbólicas e pontuais como a do último sábado podem ser importantes, especialmente do ponto de vista da conscientização. Mas querer mudar as coisas para valer não parece ser da vontade da maioria, pelo menos por enquanto. Como bem disse algum tempo atrás a deputada Petra Kelly, do Partido Verde alemão, “todos falam numa volta à natureza, mas ninguém está disposto a ir a pé”.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Marolinha sem aspas

Alguns colunistas da mídia adotaram a expressão marolinha, utilizada pelo presidente Lula para se referir ao tamanho com que a crise econômico-financeira internacional iria atingir o Brasil. O vocábulo tem sido geralmente destacado entre aspas. O uso desses sinais não parece estar sendo com o intuito de indicar que se trata de uma metáfora, ou de gíria ou algo que o valha; em verdade, o que se quer é sugerir que o presidente pode ter dado uma bola fora, ainda mais que a imprensa tem sido bastante competente no tentar demonstrar que a crise teria desembarcado no Brasil em níveis que mereceriam ser associados a fenômenos naturais bem mais devastadores. Noutras palavras, as aspas que envolvem a marolinha presidencial, quando utilizadas pelos estafetas da imprensa, estão carregadas de ironia e sarcasmo.

Lula sabia que a crise atingiria o Brasil em alguma medida, tanto que admitiu que seríamos tocados por ela na forma da tal marolinha, o que significa dizer que ele não se iludia com o fato de que ela não chegaria de nenhuma maneira aqui, como tentaram distorcer alguns. O presidente, em verdade, buscou apenas demonstrar que não haveria tsunami (metáfora antípoda à do presidente brasileiro) na economia brasileira e por isso escolheu um termo que, na opinião dele, melhor dimensionaria os efeitos da crise neste país tropical. Que se analisem friamente os dados após cerca de dois anos de maus resultados em nível global e forçoso será concluir que, com efeito, no Brasil a crise é só a tal marolinha mesmo.

A bem da verdade, não foi apenas o presidente da República que se mostrou por assim dizer otimista com os possíveis efeitos da crise no país. Órgãos como a OCDE e o FMI já haviam, antes dele, afirmado que o Brasil era das nações menos vulneráveis aos maus bocados internacionais e que, ipso facto, levaria poucos arranhões oriundos desse acidente universal. O ingrato Lula deveria ter dado os créditos!

A imagem da marolinha brasileira vem sofrendo a tentativa de desmoralização promovida pela mídia calcada principalmente em dois resultados bastante significativos: a queda do PIB no quarto trimestre de 2008 e os fechamentos de vagas no mercado de trabalho nos meses de dezembro e janeiro últimos. Mas vamos lá: não obstante a contundência com que o mercado foi atingido em 2008, a grande verdade é que dezembro sempre foi um mês de expressiva dizimação de empregos, mesmo em anos de bonança internacional; já o PIB do último quartel do ano passado – nunca é exagerado lembrar – foi desastroso se comparado com o terceiro trimestre, mas positivo se confrontado com idêntico período de 2007 – fora o fato de que no acumulado do ano obteve excelente resultado, como já apontamos noutra postagem. Merece nota também a informação de que o mês de fevereiro foi positivo na criação de vagas do mercado formal de trabalho. A imprensa, como se sabe, quis minimizar o resultado que, realmente, é marcadamente inferior ao do mesmo mês de 2008; mas, num mundo em que se comemora quando o desemprego aumenta em nível menor do que o esperado, deveria ser celebrado o tímido porém consistente resultado do mercado de trabalho brasileiro no segundo mês de 2009.

Os jornais brasileiros fizeram, por motivo político, uma aposta na crise. Tentam de toda forma mostrar que acertaram. Já a rede norte-americana CNN parece pensar de maneira diversa: o mais famoso canal noticioso do mundo afirmou, quando do encontro dos presidentes Lula e Obama, que uma das grandes qualidades do Brasil neste momento é que o país tem sofrido muito menos com a crise quando comparado a outros países da mesma importância. Yes, nós temos marola!

Um amigo conta-me que propaganda do DEM – que não tive oportunidade de assistir – vem tentando explorar a metáfora molhada de Lula, procurando mostrar a suposta infelicidade da fala presidencial. O cerco se fecha: o partido de José Agripino Maia tem na grande imprensa o mentor intelectual de seu discurso. O assunto crise econômico-financeira internacional (a bola da vez) tem que ser martelado diuturnamente na mídia, para que partidos oposicionistas, claramente sem projeto, tenham do que falar e possam dar suas alfinetadas de vez em quando. É essa a importância da vetusta imprensa no Brasil de hoje!

sábado, 21 de março de 2009

Demissão oportunista - ou pacto de elites

Delfim Neto certa feita disse que “jornalismo de economia não é nem uma coisa nem outra”. A frase é perfeita para gente como Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg. Não a merece, todavia, o competente Joelmir Betting, do grupo Bandeirantes.

Joelmir, na sua coluna para o BandNews em 13-03-2009 (assista aqui) comentou acerca do fenômeno “demissão oportunista”. Em linhas gerais, isso se dá quando se aproveita um “ambiente de crise” para fazer um enxugamento nas empresas, mesmo que disso não haja tanta necessidade. O comentarista da Band sentencia que o discurso da crise acaba por dar uma “roupagem politicamente correta” a demissões sem sentido.

Antes de mais, registre-se que essa bola já vinha sido cantada em muitos blogues e sites independentes, além de por sindicalistas e por alguns nomes do governo. Ademais, fica sugerida no comentário de Betting a responsabilidade dos meios de comunicação nos dramas vividos pelos trabalhadores. O terrorismo midiático, levado a cabo mesmo em momentos que a situação se mantinha sob controle no Brasil, serviu aos grandes grupos empresariais (não por acaso grandes anunciantes) como desculpa para fazer alguns “pequenos ajustes” no seu contingente de força de trabalho.

Já tivemos dois exemplos recentes de como jogar água no moinho do discurso da crise: o PIB brasileiro de 2008 alcançou extraordinários 5,1%, mas a notícia que a imprensa considerou “boa” mesmo foi a da queda de 3,6% no último trimestre (!); a excelente notícia de que a criação de vagas formais em fevereiro ficou positiva foi minimizada, por sua vez, pela informação de que o resultado é extremamente inferior ao do mesmo mês do ano passado.

Se quisesse, portanto, a imprensa poderia escolher os aspectos mais positivos das notícias. Mas isso, convenhamos, também não seria de todo certo; o melhor a fazer seria contextualizá-las e, conseqüentemente, equilibrá-las. Mas ao adotar sempre o pior ângulo, a mídia aprofunda o sentimento de crise e deixa tranqüila a consciência dos empresários que querem reduzir custos dizimando postos de trabalho (de quebra, ainda ajuda os seus amigos do PSDB e do DEM). Isto é que é pacto de elites!

sábado, 14 de março de 2009

Escolha a sua notícia: 5,1% no ano, ou -3,6 no trimestre?

Foi divulgado no dia 10-03-2009 o PIB de 2008: em plena crise internacional, o Brasil cresceu 5,1%. Excelente resultado, sem dúvida. O que se viu por aí, no entanto, foi um desproporcional destaque aos números do 4º trimestre do ano passado, os quais apontam queda de mais de 3% do Produto Interno Bruto em relação ao trimestre anterior.

Ora, é inegável que a notícia da subida do PIB mereceria no mínimo o mesmo destaque da retração verificada nos últimos três meses daquele ano. Ficou latente mais uma vez a má vontade da grande imprensa brasileira para com a condução da política econômica. Registre-se que o crescimento econômico do Brasil no ano passado foi muito maior do que o dos Estados Unidos, da Alemanha e do Reino Unido, por exemplo. Faltaram na primeira página dos jornais os velhos e bons quadros comparativos. Quando o Brasil apresentava números superiores “apenas aos do Haiti”, como gostavam de repetir os jornalistas e a oposição, a mídia adorava gráficos e barras que sempre mostravam o país na rabeira, atrás da Argentina, Chile, Colômbia e mesmo da “diabólica” Venezuela de Chávez; dessa feita, infelizmente os jornais não quiseram oferecer o didatismo geralmente muito bem elaborado por suas editorias de arte!

Mas, como não dava para evitar, a mídia foi obrigada a falar en passant do crescimento de 2008. Em texto da Folha Online, tem-se uma espécie de ato falho: “o resultado foi sustentado pelo bom desempenho dos trimestres anteriores”, é o que diz texto de Juliana Ennes. Sério? E por que o “bom desempenho” não era tão prontamente reconhecido pela imprensa à sua época?

Este blog outrora já se manifestou acerca dos riscos de se fazer previsão. Mas há, aparentemente, bons motivos para acreditar que o primeiro trimestre de 2009 será um pouco melhor do que o último de 2008, até porque ele se beneficiará da comparação com um período que foi sensivelmente mais fraco do que a média que se vinha atingindo. Porém, na confrontação com o mesmo período do ano anterior, talvez tenhamos uma queda, pois o primeiro trimestre do ano passado foi consideravelmente robusto. E o crescimento acumulado de doze meses, por seu turno, certamente apresentará diminuição de seu ritmo. Qual será, amigo leitor, a opção dos jornais? Se eles seguirem o critério utilizado nesta semana, terão que dar destaque ao resultado do trimestre. E se ele for mesmo favorável na comparação com o período que o antecede, o que fará a nossa mídia? Dará a mão à palmatória ou vai mudar o foco e escolher a mais do que certa notícia da queda no ritmo de crescimento acumulado de um ano?

Em vez de previsões, farei uma aposta: se as coisas ocorrerem como palpitamos, a mídia escolherá a segunda opção sem titubear. Vamos aguardar!

sábado, 31 de janeiro de 2009

Enfim, o Fórum Social Mundial

O Fórum Social Mundial, que ocorre em Belém neste ano de 2009, está tendo uma espécie de edição da desforra: depois de anos sendo considerado um evento de utópicos, retrógrados, românticos, bichos-grilo e outros adjetivos menos simpáticos, o FSM aparece agora como o espaço que durante muito tempo desferiu não apenas críticas ao pensamento hegemônico, mas também como um lugar que apresentou soluções aos diversos problemas mundiais.

Já dissemos noutros momentos que os discursos não mudam, mas dependendo de quem os profere, ou da situação na qual o fazem, eles podem ser recebidos das mais diversas formas. O leitor mais assíduo decerto que se lembra de nossa estranheza com o fato de as bolsas de valores terem subido com as palavras de um já eleito Barack Obama, que se declarava disposto até a quebrar o orçamento para fazer a roda da economia voltar a girar, o que seria uma heresia numa era em que se acostumou a tratar a responsabilidade fiscal quase como um dogma. O mesmo fiel leitor – se é que ele existe! – também se recordará de nosso espanto com o fato de altas autoridades mundo afora ganharem espaço na mídia, no auge da crise internacional de alimentos, acusando os biocombustíves pela escassez e conseqüente encarecimento de comestíveis, mais ou menos um ano depois de Fidel e Chávez terem sido ridicularizados por dizer o mesmo.

No caso do Fórum Social Mundial, as afirmações de que o estado deveria ter um papel mais relevante em todos os países, de que não se poderia deixar as coisas à mercê do mercado, de que alguma regulamentação era necessária e de que a questão ambiental não merecia ser deixada de lado eram vistas como mera retórica tipicamente esquerdista. Hoje, o papo dos “caipiras” e “neobobos” (como diria o ex-presidente FHC) está até no esvaziado Fórum Econômico Mundial, que ocorre em Davos, concomitantemente ao FSM.

A esperança de todos é que a crise econômico-financeira internacional seja solucionada. (Nem de todos: a oposição brasileira, tanto a política quanto a midiática, querem ver o circo pegar fogo no Brasil). Mas isso ocorrendo, não se deve permitir o retrocesso aos desvarios neoliberais. Para tanto, os recados de fóruns como este que está ocorrendo no Pará devem ser cada vez mais contundentes e não podem esmorecer nunca.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O cruel mundo de Meirelles

Já tivemos ocasião de dizer neste blog que a política monetária adotada nos últimos tempos no Brasil é bem mais complicada do que parece. Ela está até mesmo ligada àquilo que se pode chamar de contradições estruturais do capitalismo, ou qualquer outro nome pomposo que o leitor prefira. Já uma expressão popular que bem resume a saga do BC brasileiro é "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come".

A decisão de cortar a SELIC em 1%, ocorrida nesta semana, todos sabem, não veio do nada. Não foi um lampejo de lucidez na cabeça dos membros do COPOM - até porque dois deles queriam que o corte fosse de apenas 0,75%. Em verdade, a comemorada medida só ocorreu por conta do desemprego acima da média para o mês de dezembro e também por conta de alguns sinais de retração, representados inclusive pelo próprio bom comportamento da inflação.

Henrique Meirelles não se cansa de lembrar que o Brasil, em 2008, foi o único país entre os que adotam o sistema de metas de inflação a conseguir se manter dentre os extremos que estipulou. Mas é justamente aí que mora o custo. Com uma política de juros menos austera, e com um conseqüente arranque de investimentos, talvez o país não tivesse conseguido segurar seus preços. Por outro lado, o alto fechamento de vagas provavelmente não teria sido verificado.

A inflação é, com efeito, uma espécie de câncer, ou como se diz por aí, um tipo de "imposto" pago sobretudo pelos mais pobres. Mas não faltariam também aqueles que prefeririam pagar um pouco mais caro por tudo, mas tendo ao menos um empreguinho a lhe garantir algo no final do mês. É a dura decisão dos conselheiros. Deveria também ser objeto de discussão de todo o país, de modo a saber que dificílima escolha fazer.

A grande verdade é que o capitalismo é assim mesmo, amigos: está amparado em contradições e sobrevive montado numa crise estrutural. Juros altos: preços sob controle, mas com menos investimentos e conseqüentemente menos empregos; juros menores: mais investimento, mais empregos, mas com preços mais altos, com risco até de que fujam das rédeas.

Definitivamente, não é fácil.

Leia também:
Independência ou... independência

domingo, 11 de janeiro de 2009

Crise crônica: domingo no hipermercado

Acabo de chegar de um hipermercado instalado num tradicional bairro de classe média de São Paulo. Pude ver de perto o tamanho da crise alardeada pela Folha, pelo Estadão, pela CBN, Rede Globo e outros menos cotados: corredores intransitáveis, funcionários todos ocupados, filas intermináveis nos caixas.

Senti falta de algum repórter dos órgãos supracitados. Ele poderia escrever a matéria da vida dele; observar, in loco, a devastação cometida pela crise econômica que abate o Brasil! Adoraria também encontrar por lá algum comentarista do nível de Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg ou Rolf Kuntz, que, quem sabe, poderia fazer um rápido discurso para afugentar aquela multidão e, assim, tornar mais transitáveis os corredores, deixar os funcionários um pouco mais aliviados e, principalmente, tornar as filas mais curtas.

Não pude deixar de pensar na irresponsabilidade daqueles consumidores. Pô, uma crise danada dessas sobre a gente e o povinho gastando loucamente! Pára com isso...! Será que eles não estão dando bola para a imprensa? Ora, mas o hipermercado fica, como já dissemos, num bairro classe média de São Paulo e é estabelecimento do tipo não muito dado a oferecer os melhores preços; não seria de se estranhar se, por lá, estivessem alguns abnegados leitores do chamado PIG. Por que, então, não estão levando a sério a crise diariamente estampada nas manchetes, descrita na boa lavra dos colunistas e especialistas, ou dissecada em tons sombrios nos editoriais?

Nessa altura do campeonato, o inteligente leitor já deve ter ressalvado que estamos no primeiro domingo após o quinto dia útil do mês, ou seja, as pessoas estão fazendo sua comprinha de depois do pagamento. Certamente isso pesa. Só que o discurso da crise não abre espaços para esse tipo de ponderação. A quebradeira é iminente. E, num mês em que já se começa a se preocupar com o IPVA, IPTU, matrícula e material escolar, seria de se esperar que as pessoas ajuizadamente começassem a se pelar de medo dos prognósticos dos luminares incrustados na imprensa brasileira.

Trata-se de caso isolado... Não dá para levar a sério... O pior da crise ainda não chegou no Brasil... Nhem nhem nhem, nhem nhem nhem, nhem nhem nhem, como diria o invejoso, quer dizer, “saudoso” Fernando Henrique Cardoso! E mais: um crítico dotado de bons argumentos insistiria que não posso tirar minhas conclusões de uma observação rasteira de pouco menos de uma hora num domingo matinal. Ora, mas o empirismo ainda deve servir para alguma coisa. A grande verdade é que, honestamente, saí do recôndito do lar acreditando que encontraria um hipermercado mais tranqüilo. Está certo que se deu de forma inconsciente, mas me dirigi até lá quase como aquele pesquisador imbuído de uma teoria e que sai a campo para prová-la ou, ao menos, para verificar se a experiência lhe dá um mínimo de respaldo. Se fosse um caso de estudo verdadeiro, o isolado experimento faria o estudioso ter que repensar os fundamentos de sua tese ou, pelo menos, reformulá-la!

Mas nem tudo está perdido para o mundo do conhecimento. Se tal fato deixa a cabeça toda atrapalhada e nos faz nos sentir indefesos em meio a tantas dúvidas e confusões provocadas pelos gênios dos meios de comunicação brasileiros, ao menos ele serve para explicar certos paradoxos da política tupiniquim. Explico-me: talvez o que vi hoje dê bons indicativos de por que alguém como Abílio Diniz, representante típico da burguesia nacional, virou um simpatizante do governo do presidente Lula, mesmo a despeito do famoso imbróglio do seqüestro de 1989. Talvez os felizes consumidores que lotavam o hipermercado, bons membros da classe média que são, por motivos de mero preconceito não gostem tanto assim do atual governo. Mas os donos de hipermercados como aquele talvez não possam se dar ao luxo de ser tão irracionais assim...

Já os poucos donos dos meios de comunicação do Brasil parecem não ter motivos para gostar do governo Lula. Por que será? A explicação talvez esteja na fala do próprio presidente, proferida em entrevista à revista Piauí: “Eu trato os empresários do meio de comunicação como eu trato os empresários da construção civil, como eu trato os bancos, como eu trato o pessoal do setor siderúrgico, ou seja, é um cidadão que apresenta uma pauta de reivindicação. (...) Eu acho normal que um empresário de meio de comunicação, se precisar de dinheiro emprestado do BNDES, entre com o mesmo pedido como entra uma empresa de construção civil, como entra uma indústria automobilística. É um direito que ele tem de fazer investimento, o Brasil tem um banco que empresta, portanto, ele não deve favor nem ao banco e nem ao país.” Quer dizer, ao contrário do que gostariam, os empresários dos meios de comunicação não merecem tratamento especial, e contrariamente ao que pensam, eles não são melhores do que ninguém. E já que tomamos essa vereda, na mesma entrevista, a respeito da publicidade governamental nos meios de comunicação, Lula disse: “O que o companheiro Franklin estabeleceu, e é correto, é a participação em função da questão técnica. O cidadão vai ter proporcional ao que ele pode ter, nem mais, nem menos. Você não pode ter alguém que tenha uma audiência de 30% recebendo o equivalente a 70%; como você não pode ter uma que tem 10% recebendo o equivalente a 5%. Então, quando você cria critérios técnicos para poder cuidar da publicidade, obviamente que algumas pessoas que mamavam começam a ficar chateadas”. Sentiram o drama? A quem será que o presidente da República dirigiu seu comentário? Quem será que mamava?

Mas a crise, para a alegria dos empresários da mídia, deve dar uma apertada logo, logo. Mas, por enquanto, caso o amigo leitor tenha que ir às compras, vá de espírito preparado para enfrentar filas.

Bom domingo!

sábado, 13 de dezembro de 2008

Está todo mundo louco!

Na segunda-feira, dia 8 de dezembro, as bolsas de valores ao redor do mundo deram uma bela disparada. O motivo teria sido a proposta do presidente eleito dos Estados Unidos de investir em obras públicas, com o fim de dar uma força na geração de empregos. Como bem sabemos, a receita não é nova, antes encontra inspiração histórica em Roosevelt e teórica em Keynes. Obama foi além, dizendo que não é hora de se preocupar com a camisa-de-força representada pelo orçamento.

Atenção, você que acaba de sair do coma nos últimos dias, este blogueiro não está enganado: as principais bolsas de todo o mundo dispararam (e não despencaram) após esse anúncio do democrata eleito, mesmo tendo ele falado, em outras palavras, que não está esquentando muito a cabeça com déficits públicos.

Assistir aos movimentos nos tempos de crise tem, com efeito, dado nós em cabeças que se acostumaram a acompanhar noticiários e a ler ensaios tanto no campo da política quanto da economia. Aqueles que até alguns dias atrás se ajoelhavam diante do “deus-mercado”, agora falam de necessidade de regulamentação; os arautos da livre iniciativa, da concorrência e do risco, repentinamente saem em defesa de ajudas bilionárias a indústrias que foram a própria imagem do desenvolvimento capitalista; e finalmente, e em resumo, o velho Estado passa a ser um ente simpático, em vez de um estorvo para os empreendedores e cidadãos de uma sociedade livre.

Ok, amigos! Bem sei que já está virando clichê e soando enfadonho o apontamento dessas incongruências observadas não somente nos analistas econômicos e operadores do mercado financeiro, mas também na mídia e na boca da gente comum (o que é praticamente a mesma coisa, pois não raro as pessoas apenas repetem as besteiras que ouvem de nomes como Miriam Leitão, por exemplo). Mas, a despeito do abuso da paciência do leitor, vale a pena citar um exemplo doméstico e falar da estranheza que provoca ver algumas pessoas defendendo alguma rédea ao Banco Central do Brasil. Ora bolas, irritam-se eles, enquanto o mundo inteiro baixa os juros, o COPOM, na última reunião do ano, mantém inalterada a altíssima taxa brasileira. Isto, amigos, goste-se ou não, chama-se independência. A mesma independência que diziam que Lula iria tirar se fosse presidente. Tal afirmação, aliás, era uma das determinantes do chamado “risco Lula”, que tanto assustavam o mercado antes de o ex-metalúrgico sagrar-se presidente pela primeira vez. Assim não dá para entender! Então quer dizer que algo que deixava as "reginas duartes" da vida com medo de Lula agora é apresentado como uma necessidade por seus mais cruéis opositores?

Acompanhando tal série de desdobramentos, chega-se à conclusão que ramos como a economia, a política e a sociologia são objetos que tendem a sobreviver mais como ideologia do que como ciência. De científico mesmo, sob a ótica positivista, talvez somente a hipocrisia dos discursos – ela, sim, é a constante das análises. Mas, no varejo, como levar a sério uma “ciência” que hoje diz uma coisa que será negada amanhã. E pior que não dá nem para apelar para o falsificacionismo ou para as mudanças de paradigmas, pois não há avanço nas metamorfoses de visão, mas antes se volta a idéias que, no verão anterior, eram classificadas de retrógradas. Os mais simpáticos e menos desbocados podem dizer, no entanto, que em vez de hipocrisia dever-se-ia falar que análises do tipo dependem das condições reais, concretas de cada momento histórico. Pode ser. Mas vejo aí o espectro de Marx. O barbudo alemão e seus seguidores sempre disseram algo meio nessa linha. Mas o diabo é que pensadores como Popper viam nisso um fator que justamente dificultaria a concessão do status de ciência ao marxismo, pois baseado em algo tão pouco objetivo, como as assim chamadas condições concretas, encontrar-se-ia desculpa (palavra melhor do que justificativa) para tudo que se quisesse demonstrar: se as coisas ocorrem conforme um dado prognóstico, houve acerto; se fracassam, é que certas condições concretas não permitiram o resultado!

É um tanto confuso, bem sei. Mas neste mundo maluco, alguém me culparia por isso?!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Deixa o homem voar!

Causou um pouco de mal-estar o uso de jatinhos particulares por parte de executivos de montadoras que se dirigiam ao Congresso americano em busca de ajuda para as grandes corporações do setor. A utilização de tão refinado meio de transporte, exatamente para pedir auxílio num momento de crise, causou indignação por parte dos congressistas e de nomes da imprensa do país.

Pura hipocrisia.

Há pouco tempo atrás, o modus vivendi dos mesmos executivos era motivo de bajulação e era tido como exemplo a ser seguido ou, melhor dizendo, como uma espécie de conquista a ser por todos almejada. Só para registrar, a rede CNN, de onde obtive a notícia, conta na sua grade com programas especializados em exaltar o opulento e exibicionista modo de vida de altos funcionários de megacorporações, tais quais o Agenda Ejecutiva (na CNN en Español) e os apresentados por Richard Quest, na International. E o Congresso dos Estados Unidos, por sua vez, nunca se importou em ser um antro de lobistas dos mais diversos interesses corporativos do país: como será que eles acham que aqueles distintos senhores sempre chegaram lá?

Mas os tempos são outros, podem alegar os congressistas e jornalistas, novos críticos do comportamento dos representantes das montadoras. Tudo bem, mas ninguém nega que, mesmo quando a bolha não dava sinais de que iria estourar e a onda de crescimento generalizado parecia não ter fim, a farra de executivos era desproporcional ao modo de vida mais, digamos, frugal da maioria dos trabalhadores de suas indústrias. Mas antes da tal crise, seria difícil imaginar um congressista ou um jornalista de qualquer lugar do mundo chocando-se com o grande empresário ou com o alto funcionário que chegasse de helicóptero à planta que administra enquanto o funcionário da linha de montagem tivesse que pegar dois ônibus, enfrentar o estresse do trânsito e ter algo do salário descontado por atrasos pelos quais não teve culpa.

Mas o clima do momento, talvez, seja o de salvar o próprio capitalismo. Se se resgatam as idéias de Keynes e de Marx, é porque se está realmente acreditando que o sistema permitiu abusos que lhe tiram a credibilidade. Daí a necessidade do apelo à simbologia que poderia vir contida numa forma mais humilde, mais franciscana de se pedir ajuda, o que não teria sido observado pelos altos executivos das montadoras em crise.

Jornalistas e congressistas americanos talvez queiram resgatar a essência que muitos acreditam estar na origem do sistema, tais como a industriosidade e poupança de que falava Max Weber, ou no bem comum a que se pode chegar na busca honesta pelo próprio interesse, como diria Adam Smith. Mas a grande verdade é que o capitalismo chegou a um ponto em que, para sua sobrevivência, ele precisa também do exagero, da opulência, das aparências, do desperdício. Os jatinhos particulares, os helicópteros, as limusines etc. são partes da engrenagem. A roda tem que girar.

Capitalismo de sandálias nesta altura do campeonato, senhores? Agora não!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Boa notícia ruim

Há notícias que de tão boas chegam a ser ruins (!). A informação divulgada pelo IBGE na semana anterior, a de que o índice de desemprego registrado no mês de outubro foi o segundo menor da história, é motivo de preocupação se cruzada com os informes de setembro que afirmavam estar o comércio diminuindo o ritmo de encomendas e estar a indústria, por conseqüência, pisando no freio da produção, tudo por conta da famigerada crise internacional.

É muito simples. Como o leitor sabe, ao chegar dezembro, as pessoas empregadas gostam de consumir um pouquinho mais do que nos outros meses do ano. Por seu turno, o comércio, que se deixou ressabiar pelo discurso da crise, tenderá a estar com menos estoque para atender aos consumidores. O resultado lógico, se é que a lei da oferta e da procura ainda tem alguma credibilidade, será um repique inflacionário: muita gente querendo comprar poucos produtos resulta em preços mais altos.

O blogueiro Eduardo Guimarães, no seu imperdível cidadania.com, já havia chamado a atenção para o terrorismo que vinha sendo feito acerca da crise, não obstante não se devesse negligenciar - reconhecia ele - os seus riscos e a sua importância. Mas, já com o assunto crise em pauta, o que se ouvia, no entanto, era a divulgação de dados sobre a economia brasileira que apontavam para uma situação muito diferente da que se tem verificado na maioria dos países centrais: inflação controlada, consumo em alta, alguma geração de empregos. Eduardo, então, advertiu para os efeitos da profecia auto-realizável, ou seja, começa-se a falar de uma crise chegando, todos se apavoram, passam a investir menos, as pessoas consomem menos e, aí sim, a reboque vem a diminuição do consumo, o que leva à supressão de investimentos, o que traz desemprego, e o círculo vicioso se instala naturalmente, provocando, sim, uma avassaladora crise de fato.

Em se tendo pressão inflacionária no final do ano – o que poderá ocorrer por causa do aquecimento da economia no período associado à oferta reprimida graças ao terrorismo da crise -, 2009 entrará com tendência de mais juros, o que levará a uma situação de retração nos níveis profetizados (desejados) pela imprensa e pela oposição, os arautos do quanto-pior-melhor. A profecia terá se auto-realizado, e como “é a economia, estúpido” que segura os índices de aprovação do presidente Lula, ficará aberto o caminho para algum nome forte da oposição.
Trocando em miúdos, há lógica econômica no discurso da crise e é recomendável ter preocupação e cautela. Porém, o que se viu – e se tem visto – são gestos quase indisfarçáveis de desejo pela ocorrência do pior. Dados concretos apontam que o terror era exagerado, mas, ao mesmo tempo, eles ajudam a confirmar que o risco de haver desequilíbrios futuros é bastante iminente, justamente porque se acreditou no discurso da crise! Tomara que haja alguma forma de se reverter isso.

sábado, 25 de outubro de 2008

O neoliberalismo parece ter morrido. Já os neoliberais...

Provavelmente nunca houve na história ideário que tenha sofrido tão forte revés como o que ora se abate sobre o neoliberalismo. Nem mesmo a queda do assim chamado socialismo real teve tanto impacto sobre um conjunto de idéias. Afinal, o simpatizante socialista teve – e tem – a seu favor a defesa de que nunca, de fato, o modelo existiu numa forma pura. Afinal, dir-se-ia - o que existiu no Leste Europeu, por exemplo, foi um forte estatismo, economia centralizada/planificada, ou até mesmo, para nos valermos de expressão empregada por Robert Kurz, um socialismo de estado altamente concentrador, sem verdadeira propriedade social dos meios de produção, sem sombra sequer de ditadura do proletariado, antes havendo a ditadura das burocracias dirigentes dos regimes, com direito até a cultos de personalidade de alguns líderes.

O projeto neoliberal, por sua vez, existiu de verdade, foi levado a cabo em nações capitalistas de diversas tendências e tamanhos, foi-lhe assegurada a maioria de suas características, de forma a merecer poucos reparos, sempre se apostando nos dogmas de estado mínimo e da total liberdade cumulada com absoluta supremacia dos mercados, com direito ao mais completo descaso para com as questões sociais e de interesse do mundo do trabalho.

Mas a supercrise internacional deu um forte golpe na seara neoliberal, com a entrada em cena do “vil e desprezível” Estado, que a custa de todos aparece agora para salvar os empreendedores do admirável mundo novo idealizado pelos "Chicago Boys" e logo de cara abraçado por Thatcher, Reagan e outros.

É estarrecedor ver os circunspetos economistas de plantão e alguns colunistas da grande imprensa apoiando o intervencionismo estatal nos Estados Unidos e na Europa. Mas, como a fábula do sapo e do escorpião, há um sério problema de natureza envolvido na questão. Nesta semana, vi no BandNews TV um rapaz sendo entrevistado pela repórter de economia da emissora, direto da BM&F. O moço, não me lembro se da Academia ou se do mercado, comentando os últimos desdobramentos da crise, falou da importância da intervenção “temporária, transitória” do Estado nos negócios da economia. Isto mesmo: o garoto, talvez num ato falho – ou nem tão falho assim -, deixou claro que a fundamental atuação do Estado, a qual ele aprova, deve ser pontual, temporária, transitória! Quer dizer, o rapaz já está antevendo – ou talvez propondo – que, passado o "tsunami", o Estado e suas regras devam cair fora, deixando o espaço livre novamente para os lucros, que, ao contrário dos socializados prejuízos das quebradeiras, merecem voltar a ser devidamente privatizados.

Viu-se também muita gritaria na imprensa brasileira por conta da MP que abre caminho para a Caixa e o BB arrebanharem bancos menores em dificuldades. A primeira página de O Globo chegou a atribuir os maus resultados do mercado naquele dia ao susto que o governo brasileiro havia pregado com essa conversa (esqueceram-se de que a “volatilidade” da Bolsa e a instabilidade do dólar já estão aí há bem mais de mês, muito antes da tal Medida Provisória amedrontadora). Na Folha, por seu turno, chamada de primeira página trazia trecho de texto de um colunista dizendo que o PROER era melhor e mais transparente. Se eu bem entendi, o rapaz quis dizer que tudo ok quando o Estado entra na jogada, desde que seja para sanear bancos para o capital privado. Será que o leitor ficaria muito chocado se eu classificasse tudo isso de cara-de-pau das mais deslavadas?

Se o neoliberalismo morreu, o discurso neoliberal, como se vê, mantém-se vivo, ao menos no Brasil.

Uma objeção inteligente que o leitor bem pode fazer é a de que, se as idéias ainda encontram defensores, a colocação delas em prática não pode, do ponto de vista lógico, ser a priori descartada. Portanto, o neoliberalismo não pode ter morrido se os seus apologetas estão vivíssimos.

Mas nesse caso talvez teremos o embate, proposto por Weber, entre a “ética de responsabilidades” e a “ética de princípios”. Sem dúvida que aparecerão muitos - inclusive políticos - tentando novamente puxar a brasa para a sardinha do mercado, fazendo discursos liberalizantes, aproveitando-se do “cartaz” que isso dará, encontrando nisso uma forma de ganhar espaço privilegiado na mídia, junto aos empresários etc. Entretanto, em postos decisórios, faltará coragem a essas mesmas pessoas para propor desregulamentações, ausências de controle, o deixa-estar-para-ver-como-fica etc. Noutras palavras, ninguém quererá, a despeito da fé mais cega, apostar as fichas no deus-dará do mercado, pelo menos não enquanto ainda for viva a memória dessa avassaladora crise internacional.

sábado, 4 de outubro de 2008

Dólar

Eis que as coisas parecem voltar ao normal: a subida do dólar timidamente recupera seu posto de indicador de crises, dificuldades, anomalias.

Cabe explicação.

Talvez o leitor se lembre de 2002. Naquele ano eleitoral, a moeda americana aproximou-se dos quatro reais. Havia crise na Argentina e, no campo interno, havia o efeito Lula, que, segundo alguns, era o grande responsável pela valorização da moeda internacional. Com a iminente vitória do petista, os ajuizados de plantão recomendavam a aplicação no dólar, que, segundo eles, tenderia a continuar subindo no eventual governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Com a chegada de Lula ao governo o que se viu, no entanto, foi uma queda livre do dólar. Daí ocorreu o inesperado: diversos economistas, alguns comentaristas e os representantes dos setores exportadores começaram a reclamar da crescente apreciação do real frente à moeda norte-americana. Tal choradeira tornava-se incompreensível pelo menos em três frentes, duas delas ligadas à racionalidade econômica e a terceira ao mero cálculo político: a primeira é que a então alegada sobrevalorização do real, diferentemente do que ocorrera no primeiro mandato de FHC, se dava no modelo de câmbio flutuante, ou seja, era pautada pelo “deus-mercado”. A segunda é que, a despeito das “enormes dificuldades” dos exportadores, os saldos de balança comercial renovavam a cada mês o seu recorde. E por fim, o dólar barato, que na maioria das subconsciências era tido como algo positivo, passava a ser visto como um vilão, um entrave para o desenvolvimento de certos setores.

Mas agora, com a crise dos Estados Unidos, a obtenção de musculatura do dólar volta a ser apontada como prenunciação de tempos sombrios. Nossas subconsciências agradecem essa volta à normalidade! Os jornais parecem ter se esquecido de como abriam suas páginas para os experts que maldiziam o real “sobrevalorizado”(?); tampouco se lembram dos espaços que ofertavam aos políticos de oposição para que eles esbravejassem contra a “equivocada política cambial do governo brasileiro”. No ano eleitoral de 2006, um ouvinte encaminhou mensagem ao jornalista Mauro Halfeld, da CBN, questionando justamente se, afinal de contas, o dólar barato era bom ou era ruim para o país. Decerto que aquele ouvinte encontrava-se desconcertado pelas inúmeras entrevistas e comentários daquela emissora que criticavam a queda livre do dólar, que, salvo engano, àquele momento operava na faixa dos R$2,30 a R$2,40, ou seja, cerca de 20% a mais do que hoje.

E onde estão os críticos do dólar barato? Gostaria de ver suas celebrações ou ouvir o ecoar do grito que lhes deve estar engasgado desde o início do governo Lula: viva a subida do dólar!

Mas, afinal, é bom ou é ruim para o Brasil?...

sábado, 20 de setembro de 2008

Capitalismo e liberdade?


Enorme coincidência: nesta semana, de grandes turbulências no(s) mercado(s), já estava programada, em curso de pós-graduação da setuagenária Escola de Sociologia e Política de São Paulo, aula baseada no clássico "Capitalismo e liberdade", de Milton Friedman, uma bíblia do neoliberalismo.

Uma colega de sala fez uma pergunta inevitável: o que Friedman pensaria das operações de socorro governamental aos bancos quebrados nos Estados Unidos? Um outro, com boa dose de sarcasmo, sentenciou que, enquanto tinham lucros, os bancos queriam distância das intromissões do Estado; já sob a crise, o intervencionismo estatal é bem-vindo, com direito ao obsequioso silêncio de todos que sempre professaram a cartilha neoliberal. Para nós brasileiros não há muita novidade: é a versão gringa do velho clichê representado pela idéia “lucros privados, prejuízos socializados”.

É uma temeridade palpitar acerca de qual seria a opinião do grande economista americano, mas é muito provável que ele apontaria erros na condução da economia, problemas de parte do governo e falhas dos empreendedores como forma de dar uma explicação racional para o problema. Mas, do ponto de vista moral, é certo que, pelo menos do que se depreende da leitura do livro citado, Friedman condenaria o “paternalismo” estatal que ora se verifica nos Estados Unidos da América. Está no final da introdução de "Capitalismo e liberdade", a crítica à atuação dos liberais do século XX, que, “em nome do bem-estar e da igualdade, acabou por favorecer o renascimento das mesmas políticas de intervenção estatal e paternalismo contra as quais tinha lutado o liberalismo clássico”. Portanto, se é que a crise não faria do famoso membro da Escola de Chicago um revisionista, ele passaria um sermão no seu amigo Bush.

Um famoso professor da Filosofia da USP, também comentarista econômico, aconselhou-me a evitar falar sobre economia, pois tal disciplina não é para diletantes. Ele deve ter razão. Aguardemos os próximos desdobramentos e deixemos o assunto de lado, por enquanto. Mas o registro da oportuna discussão da obra de Friedman na semana que finda pareceu-me de grande interesse, uma curiosidade talvez.

sábado, 13 de setembro de 2008

Lula e Evo, Brasil e Bolívia

Segundo o Datafolha, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quebra o próprio recorde de popularidade. A grande novidade da mais recente pesquisa é que a sua aprovação agora também é maioria entre os mais ricos e escolarizados e entre os moradores das regiões Sul e Sudeste, estratos nos quais o presidente ainda encontrava alguma dificuldade de aceitação.

A explicação, como qualquer assessor de Clinton se apressaria em dizer, é o bom momento da economia. Ah, não se esqueça de acrescentar o “estúpido”!

Sem dúvida que o presidente Lula está numa situação indescritivelmente mais confortável do que, por exemplo, a de seu colega Evo Morales, presidente da Bolívia, que vem enfrentando turbulências oposicionistas que não pretendem outra coisa senão o golpe de estado. Entretanto, o que ocorre no país vizinho não seria, infelizmente, algo impensável de acontecer também no Brasil.

Não há acreditar que a chamada elite brasileira seja melhor do que a boliviana: basta pensar que somente agora, após praticamente seis anos de governo, o presidente Lula consegue parte do reconhecimento que já tinha de há muito nos segmentos mais populares; antes disso, só se viam choradeiras sem sentido e torcida indisfarçada pelas crises ampliadas pela mídia. E não é descartado que, na eventualidade de maus bocados na economia brasileira, viessem à tona com maior severidade os preconceitos de classe, raça, origem ou condição social, ou seja, os mesmos que hoje pressionam o presidente boliviano.

Numa crise muito acentuada, sob o governo de um presidente nordestino, haveria no Brasil grande possibilidade de os políticos dos estados do Sul e do Sudeste questionar o pacto federativo. Não há dúvida que tal tipo de discurso ganharia corpo entre a população: “São Paulo, por exemplo, é responsável por ‘não-sei-lá-quanto’ da carga tributária, mas somente uma mísera parte retorna para o Estado...”. E aí a “bolivização” do Brasil estaria feita.

Mas felizmente a nossa economia vai relativamente bem, e ninguém esquentaria a cabeça, pelo menos por enquanto, com possíveis distorções advindas do fato de sermos uma República Federativa. Nossa integridade territorial, portanto, está assegurada, e arroubos separatistas continuam nos parecendo coisas distantes, exóticas dir-se-ia até – ainda que se ouça alguma menção aqui, outra acolá, do tipo "se São Paulo fosse um país, seria uma potência do nível de...".

A aprovação ao governo Lula, de mais de 90% se considerarmos os que o julgam regular, é um elemento a mais de estabilização democrática. Mas isso não é tudo. A segurança institucional ampara-se também – ou sobretudo - na economia que insiste em crescer, apesar do COPOM. Afinal, aprovação por aprovação, o presidente Morales também tem, haja vista sua importante vitória obtida no referendo revocatório de algumas semanas atrás. A questão econômica, portanto, talvez sirva de desculpa para a violência perpetrada pela oposição no país andino.

sábado, 2 de agosto de 2008

A "superestrutura" de Doha

Falou-se muito durante a semana sobre a “Rodada de Doha”. As reuniões terminaram sem acordos considerados importantes para o comércio internacional. Muito se disse a respeito de quem supostamente ganhou e de quem provavelmente perdeu; conjeturou-se acerca da prevalência da importância da OMC; especialistas defenderam a atuação da diplomacia brasileira, enquanto outros a condenaram; opiniões divergentes se apresentaram quanto às futuras estratégias de países ricos e emergentes no cenário que se desenha a partir dos resultados práticos da Rodada.

Mas há um elemento muito forte na Rodada (porém muito longe de ser somente nela) que passa bem ao largo das discussões sobre o assunto. Refiro-me ao Estado como um ente reduzido a gerente de interesses de classe.

A cidade de Doha estava repleta de ministros e de funcionários públicos representantes de vários países e de blocos com poderes de Estado. Mas as discussões lá buscavam resultados e propostas que, em última instância, visam apenas aos interesses privados dentro da lógica capitalista, com vistas ao lucro e à acumulação de capital que favorecerão pequenos grupos.

E vem sendo assim de há muito. É só o que se vê nas peregrinações internacionais da maioria dos chefes de Estado. Presidentes e ministros, quando se dirigem a outros países, vão rodeado de empresários, muitos deles seus inimigos figadais declarados no campo político, e a maior parte de seus compromissos são com empresários ou entidades representativas de patronatos locais. Chefes de Estado – e de Governo também – quando vão cumprir agenda internacional agem como executivos de grandes empresas.

Não há dúvida que a dose hoje em dia é maior, e que o mascaramento nem precisa ser tão eficiente, mas a grande verdade é que, sob o capitalismo, a coisa sempre se deu mais ou menos dessa forma. Trata-se da ideologia tal como descrita por Karl Marx; ou tem a ver, de forma mais aprofundada, com o que se chama “superestrutura”. Diz o pensador alemão, em trecho clássico: “(...). A totalidade destas relações de produção (forças produtivas materiais) forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma 'superestrutura' jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência” (Para a crítica da economia política, in col. Os Pensadores, São Paulo: Nova Cultural, 1991; pp. 29-30,). Ainda sobre superestrutura, o pensador alemão lançou também estas palavras importantes: “(...). Sobre as diversas formas de propriedade e sobre as condições sociais de existência se levanta toda uma 'superestrutura' de sentimentos, ilusões, modos de pensar e concepções de vida diversos e formados de um modo peculiar. A classe inteira os cria e os forma derivando-os de suas bases materiais e das relações sociais correspondentes” (El Dieciocho Brumario de Luis Bonaparte, Moscou: Editorial Progreso, s/d, p. 35).

Se a questão fosse ao menos debatida, certamente que se veriam pessoas dizendo que está tudo muito bem, os governos devem realmente realizar tal papel, pois o comércio internacional precisa ser superavitário, afinal os países precisam de reservas, não podem ficar vulneráveis a crises internacionais etc. Ora, mas isso é exatamente o que o velho Marx diz e é o que ele chama de superestrutura e de ideologia. São as coisas devidamente mascaradas parecendo que são naturais. Muitos diriam também que tudo é para o bem da maioria da população, ou seja, daqueles que dependem de emprego e de uma situação de tranqüilidade e paz social para sobreviver. Mas isso nada mais seria do que a famosa inversão da chamada ideologia burguesa. Não raro se ouve amiúde que o capitalismo é o sistema mais natural porque está ligado a algumas das características mais marcantes do ser humano, tais quais o egoísmo, a insaciabilidade dos desejos, a inquietude etc. Noutras palavras, o capitalismo é hegemônico porque estamos sempre querendo melhorar de vida, trocar de carro, comprar aparelhos mais modernos. Porém, em verdade ocorre o contrário: a superestrutura que se agiganta acima do modelo econômico é que reproduz o modus vivendi mais afeito ao sistema. Ou seja, o capitalismo não se justifica pelo nosso desejo de ter um celular cada vez mais novo; antes queremos ter um telefone móvel atrás do outro porque vivemos numa sociedade capitalista!

Não se lê sobre isso nos jornais, nem se ouvem as pessoas discutindo tal tema no dia-a-dia. Mesmo nos meios acadêmicos, parece que assuntos que envolvem discussões sobre o modelo econômico e sobre a ideologia que lhe vem a reboque estão superados. É por isso que, ao se falar da Rodada de Doha, observam-se seus desdobramentos práticos, mas não se adentra ao significado de questões como comércio enquanto corolário das relações sociais de classe, globalização da ordem econômica, o poder político sobrepujado pela força econômica etc.

E sigamos em frente na era dos políticos caixeiros-viajantes, empregados de conglomerados econômicos.