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sábado, 14 de maio de 2011

Uma opinião... Diferenciada!

Este diferenciado escriba não se surpreendeu com o recente ocorrido acerca da estação do Metrô no bairro de Higienópolis.

Se alguém ainda não sabe da história, o Metrô de São Paulo mudou os planos de construir uma estação no bairro que abriga gente como FHC - mais precisamente na famosa Avenida Angélica - depois de pressões da Associação Defenda Higienópolis. Entre outras coisas, os moradores temiam o crescimento de “ocorrências indesejáveis” ou de presença de "gente diferenciada" em tão nobre localidade, por conta de estação naquele belo logradouro.

O preconceito das chamadas elites com os pobres e suas práticas segregacionistas (o nome do bairro é Higienópolis, né?) não chegam a surpreender. Muita gente de bom coração, porém, ficou sem entender por que não querer uma estação de metrô bem localizada no próprio bairro em que vive. Vá lá que não se goste de pobre, mas ter estação de metrô vale o sacrifício, devem ter pensado alguns até em tom de brincadeira.

Este blogueiro, todavia, ficou meio indiferente. Em realidade, vimos nessa história apenas a materialização de ideia polêmica que corajosa e heroicamente defendemos, sofrendo oposição quase geral.

É praticamente um lugar comum afirmar-se que, em São Paulo, a galera usa freneticamente o automóvel como alternativa às péssimas condições do transporte público. O autor destas mal digitadas, por outro lado, assegura que ocorre o contrário: o transporte coletivo de São Paulo é uma porcaria porque as pessoas preferem o transporte individual.

Não resta dúvida. O leitor, se puder, que numa oportunidade procure, deseducadamente, ouvir conversas alheias no metrô, nos trens, nas filas de ônibus. Sempre ouvirá alguém bem apertado na lata de sardinha lamentando-se de "ainda" não ter um carro, ou reclamando porque é dia do rodízio, ou maldizendo o fato de o automóvel estar no conserto. Para a maioria, a solução, portanto, não está na melhora do transporte público, mas sim na aquisição, conserto ou melhora do carrão particular.

A preferência do paulista em geral - e do paulistano em particular - pelo carro em detrimento dos meios de transporte coletivo também se assoma pelas grandiosas obras viárias e pela renitente popularidade de políticos como Paulo Maluf e Adhemar de Barros. Para eles, governar era algo do tipo... É... Abrir estradas.

Por incrível que pareça, o jornal Folha de São Paulo, não há muito, em editorial sobre a questão do transporte e locomoção na megalópole, de certa maneira nos repetiu, embora de forma mais "tucana", criticando a propensão paulistana por buscar soluções individuais para os problemas coletivos. No caso deles, todavia, a preocupação deve ser porque agora o pobre está comprando carro!

Neste caldo de cultura, os investimentos em transporte público tendem a ser pífios mesmo, já que para o político será bem melhor realizar obras vistosas que sirvam aos carros, agradando por conseguinte o seu não raro solitário ocupante, do que trabalhar em prol do transporte coletivo, cujo usuário não vai dar muita bola.

Tudo isso só para dizer que o preconceito da elite paulistana contra os pobres não causa surpresa em ninguém mesmo. Já no nosso caso, indo um pouco mais além, não nos surpreende nem o fato de os moradores do principado de Higienópolis não quererem estação de metrô perto de casa.

Se me permitem, tal estupidez não me causaria estranheza mesmo se viesse de algum bairro um pouco mais pobre... Resumindo, sou diferenciado mesmo!

domingo, 21 de setembro de 2008

Dias Mundiais sem Carro - a partir de 23 de setembro!

Dia 22 de setembro é o Dia Mundial sem Carro.

Em São Paulo, até mesmo o mais empedernido manifestante anticarro deve torcer para que os paulistanos não dêem muita pelota para a data. Isto porque o transporte coletivo, ruim todos os dias, costuma ser especialmente crítico às segundas-feiras, e alguns milhões de usuários a mais no primeiro dia útil da semana fariam do sistema um inferno pior do que ele já é. (Dizemos tudo isso, é claro, imaginando que em virtude do péssimo planejamento da cidade, muitos poucos poderiam se dar ao luxo de ir a seus compromissos a pé ou aventurar-se a eles ir de bicicleta).

Essa, aliás, é a grande desculpa que a maioria dos usuários do transporte individual usa para justificar a sua repulsa ao transporte coletivo: a sua notória precariedade. Mas, como já tivemos ocasião de dizer, em realidade, na cidade de São Paulo, a preferência pelos carros não decorre da má qualidade do sistema coletivo. Antes o transporte público é ruim por conta da predileção pela solução particular oferecida pelos automóveis.

Como reforço do que dizemos, noutras oportunidades lembramos que as pessoas usam o veículo particular nas situações em que até mesmo o transporte coletivo seria dispensável. Observa-se também que há, entre os usuários contumazes dos carros, moradores de regiões que não estão entre as mais mal servidas pelo sistema público de transporte, e que, portanto, não comportariam tal justificativa.

Desnecessário dizer que o automóvel particular está longe de constituir uma solução. Ele não é sucedâneo para o transporte coletivo, haja vista o tempo que se perde todos os dias no trânsito. Seus apologetas diriam, porém, que, se é para passar algum estresse, então que seja dentro da “bolha de lata”! (Com tal pensamento, o sistema público de transportes nunca será prioridade e um redesenho urbano que permitiria deslocamentos a pé ou por meio de bicicletas é algo impensável.) Acerca desse egoísmo dos motoristas, o filósofo André Gorz diz tratar-se de “um comportamento universal burguês”, decorrente da massificação do automóvel.

No mesmo texto, “A ideologia social do automóvel” (1973), publicado no Brasil pela Editora Conrad na coletânea “Apocalipse Motorizado”, Gorz cita um seu amigo da então Alemanha oriental que, ao contemplar o tráfego parisiense, disse desoladamente: “nunca se construirá o socialismo com esse tipo de gente”. Ninguém aqui, é claro, pensa em socialismo. Mas a mudança para um trânsito mais humano e com prioridade para o coletivo teria que nascer da mudança de comportamento das pessoas em relação ao transporte individual. Quando a solução para o caos em que nos encontramos for verdadeiramente enxergada como inserida na melhoria do sistema coletivo ou no uso de modelos alternativos, a pressão social obrigará o poder público a fazer a sua parte, seja com investimentos no sistema, seja com replanejamentos, seja com construções de ciclovias, e os operosos concessionários donos de empresas de ônibus não hesitarão em investir em melhorias. Estou sendo ingênuo? Bem... Alguém tem que acreditar no capitalismo neste país!

Minha proposta é que, em vez do Dia Mundial sem Carro, que se comece na terça-feira dia 23 uma campanha mundial pelo uso racional do carro, campanha esta que seja construída aos poucos. Em São Paulo, com um movimento desse tipo, o novo prefeito poderia sentir que as pessoas estão mudando sua atitude em relação ao transporte, e desse modo trabalharia a questão de forma diferente. Caso contrário, como político não é bobo, ele continuará preferindo a demagogia de fomentar o egoísmo dos irritados com o transporte coletivo. Em vez do “comam brioches”, ele continuará dizendo “que comprem carros”. Mas aqui nenhuma revolução será feita. Já a venda de automóveis corre o risco de continuar batendo recordes!

sábado, 1 de março de 2008

A cidade de seis milhões de problemas

A cidade de São Paulo atingiu a marca de seis milhões de automóveis nos últimos dias. Na média aritmética é um carro para menos de duas pessoas. Trata-se de um dado assustador, como logo veremos.

Sem dúvida que tão assombroso número tem a ver com o momento razoavelmente aquecido da economia: a indústria automobilística não obstante a automação ainda gera um bom número de empregos diretos, inclusive com salários acima da média do mercado brasileiro, e, por ser o automóvel um produto de alto valor agregado, tal indústria ainda tem a capacidade de, mais notavelmente, gerar uma enormidade de empregos indiretos. Também é certo que a indústria automobilística é uma das principais responsáveis pela excepcional arrecadação de impostos observada nos últimos tempos. E não pára por aí, o setor de seguros e de financiamentos, fabricantes de acessórios e o mercado de usados lhe crescem a reboque. Não é difícil perceber que o ciclo virtuoso se instala com facilidade, graças à vertiginosa atividade de um setor ponta-de-lança como esse dos automóveis.

Mas há o outro lado da moeda: a destruição do meio ambiente, a degradação do espaço urbano, a frieza humana contrastando com o aquecimento do clima (sem qualquer tentativa de ser poético). Antes que alguém diga que isso é decorrência das péssimas condições do transporte coletivo, cuja má qualidade leva as pessoas a optarem pelo veículo particular, eu ousarei a – mais uma vez – afirmar que em verdade ocorre o contrário: o transporte coletivo numa cidade como São Paulo é muito ruim por culpa da prioridade comumente dada ao transporte individual.

Em primeiro lugar, o desenho urbano das grandes cidades em geral, e de São Paulo em particular, é pensado para o veículo individual: uma das marcas da cidade - e vocação de alguns de seus políticos mais populares - sempre foi a construção de grandiosas obras viárias, geralmente voltadas mais aos interesses particulares do que ao interesse coletivo. Em segundo lugar – se o leitor permite uma opinião idiossincrática bastante arriscada -, há o condicionamento psicológico: as pessoas não vêem outra solução ao “martírio” do transporte coletivo que não seja a aquisição do carro próprio, o que sem dúvida diminui a pressão social para a solução dos problemas do sistema. E em terceiro, há a questão do esnobismo social, com a idéia de status freqüentemente associada ao uso do automóvel, além da sensação de poder, de conforto e de modernidade que tal tipo de bem geralmente traz. Tudo isso parece ser um grande desestímulo a que nossos pragmáticos políticos gastem “cartucho” com investimentos no transporte coletivo, pois sabem que o eleitor se lembraria mais facilmente deles pelo que fizessem em benefício do uso do “carrão” particular.

Eis a feição de uma crise: temos um produto cujo uso de forma geral é a marca da irracionalidade, cuja popularização é danosa ao meio ambiente e à qualidade de vida, mas que se ausente nos termos em que se apresenta, poderia representar uma economia mais retraída, um Estado quebrado e pessoas inexplicavelmente mais infelizes. Ao contrário do verso de Rimbaud, “tornamo-nos mulheres velhas com coragem de amar a morte”! É realmente muito desalentador ter de às vezes regozijar-se de uma situação caótica: este blog mesmo, o leitor certamente se lembrará, em algumas oportunidades apontou os extraordinários números da indústria automobilística nacional como forma de desqualificar as incongruentes ressalvas da imprensa e da oposição à situação econômica do Brasil. É... Como se vê, não apenas os políticos são tão pragmáticos; tampouco somente a mídia tradicional o é. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa!