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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Eleições 2012 - São Paulo - A trivial vitória de Haddad

Numa boa navegada nas raras e recentes postagens deste blog o leitor verá que, em contraponto a colunistas da mídia tradicional, asseguramos que a cidade de São Paulo sempre esteve longe de ser uma fortaleza antipetista. Desde 1988, o Partido dos Trabalhadores é no mínimo segundo lugar nas brigas pela prefeitura.

No mesmo esforço de desconstruir mitos criados por jornalistas dos meios convencionais, mostramos, também, que o PSDB nunca chegou a ser uma força incontestável nas disputas paulistanas, tanto que desde a sua fundação somente chegou ao segundo turno da metrópole, agora, por duas vezes, ambas com José Serra - descontando-se Kassab, eleito pelo DEM em 2008, vencendo, inclusive, o peessedebista Alckmin naquele ano (noves fora a cristianização do atual governador).

Anotamos, também, que a despeito da força petista no município, sempre a garantir-lhe no mínimo o segundo turno, a adesão não era automática, em vista das nossas dificuldades de trabalhar e garantir a identificação partidária, o que explicava, em parte, o por algum tempo resiliente fenômeno Celso Russomanno.

Por fim, este blog jogou no lixo as pesquisas e apostou na vitória do petista Fernando Haddad com base somente nos resultados de Russomanno no primeiro turno, bastante consistentes justamente na periferia da cidade, reduto petista, entendendo como certa a transferência de votos do midiático político do PRB para o candidato do PT. 

Fechadas as urnas, pipocam as análises, com claras tentativas de se fazer conjeturas, sendo irresistível, num primeiro momento, apostar que o caminho para a vitória da situação no pleito de 2014 já está mais do que trilhado, assim como pode-se já estar se desenhando a destituição do PSDB do governo do estado de São Paulo.

Há que se andar devagar. Recorde-se que não faltou quem garantisse que a vitória de Kassab em 2008 indicava altíssimo prestígio do padrinho dele, José Serra, gabaritando-o para o Planalto no pleito de 2010. Razão estava, porém, com os poucos que se recusaram a nacionalizar aquela disputa, entendendo ter sido a pendenga de 2010 resolvida noutros termos, efetivamente municipais.

E em nível estadual, o discurso da turma que está há 20 anos no governo já deve estar até redigido: dono da prefeitura, dono do governo federal com chances de ser reeleito, não podemos dar ainda mais poder ao PT. O assunto é velho e tende a se repetir. Resta somente saber até quando o eleitor paulista vai sucumbir a essa baixa chantagem que usa em vão o santo nome da democracia.


sábado, 20 de outubro de 2012

Eleições Municipais 2012 - São Paulo - Haddad e Serra

Alguém que tenha enfrentado o coma durante pouco mais de um mês no período do primeiro turno, ao ver Fernando Haddad, do PT, e José Serra, do PSDB, enfrentando-se no segundo turno da cidade de São Paulo, não imaginaria que Celso Russomanno foi invariavelmente considerado um fenômeno eleitoral na maior parte desse tempo.

A "finalíssima" paulistana, portanto, nada mais representa do que o quadro mais óbvio do embate: de um lado Serra e seu fortíssimo recall, típico dos que não se cansam de se candidatar, de outro Haddad, o representante do partido que desde 1988 é no mínimo segundo lugar na metrópole, o PT.

O resultado, inesperado para alguns até no último dia da primeira fase do pleito, fez aumentar as dúvidas sobre a lisura das pesquisas. Por esse motivo, muitos entusiastas do Partido dos Trabalhadores e de Fernando Haddad estão com um pé atrás com pesquisas que lhe vêm dando, nos votos válidos, vantagem de 20 pontos percentuais sobre seu oponente. É teoria da conspiração que não acaba mais.

A nós, tal resultado não surpreende.

É saudabilíssima a desconfiança para com os institutos de pesquisa. Para sermos radicais, são indignos de crédito. Com mais moderação, digamos que no mínimo devem ter suas sondagens tomadas com cautela. Entretanto, não há, de outro lado, porque não acreditar nos números oficiais do TRE. E os resultados oficiais do primeiro turno já, no mínimo, apontavam para a possibilidade do quadro que as pesquisas dizem vir captando.

Como boa parte dos leitores deve ter visto, mapas (que abdicaremos de reproduzir aqui) mostram como o voto se dividiu em São Paulo: aparece pintado de azul no chamado centro expandido, e veio de vermelho nas regiões periféricas. Ou seja, vitória tucana no primeiro e petista no segundo. Neste quadro, em vista dos números excelentes do terceiro colocado, não havia muita dúvida de que o fiel da balança seria o eleitor de Celso Russomanno.

O aspecto mais claro dos resultados do primeiro turno era a fraca votação de Russomanno (cerca de 8%, na média) na região central, aquela que foi a mais generosa com Serra. Ora, já era de se supor que o tucano não se beneficiaria tanto com a possível transferência do grosso dos eleitores russomannistas da região, que por óbvio acrescentariam quase nada à sua votação total do primeiro turno, a qual ademais foi muito pouco acima da do petista.

Por outro lado, no chamado cinturão vermelho, o fenomenal Russomanno ainda não havia desidratado o suficiente, tendo terminado o primeiro turno acima de 20%. Entendendo que o candidato do PRB havia crescido justamente no eleitorado tipicamente petista, hegemônico naquela faixa da cidade, já se previa uma transferência maior para Fernando Haddad. Para piorar as coisas para Serra, o peso proporcional dos eleitores da periferia ainda ajudava a entender - da forma mais dolorosa - a tal de ponderação de que os estatísticos tanto falam.

A tendência pró-Haddad já era tão forte apenas com os números de Russomanno, que nem precisaria, lá, ao fim do primeiro turno, apostar que o também bem votado Gabriel Chalita e seu "capilarizado" PMDB fechariam apoio ao petista.

Entendendo, pois, não ser surpresa nenhuma a liderança extraordinária de Fernando Haddad nessa corrida do segundo turno de São Paulo, ainda assim, é válido aquele velho clichê do mundo político que diz "mineração e eleição, só depois da apuração".


Leia também outros textos do blog sobre as eleições municipais 2012 em São Paulo:

Sobre Celso Russomanno
Sobre aliança PT-PP
Sobre o drama paulistano do PSDB
Sobre a força do PT em São Paulo

sábado, 22 de setembro de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012 - Para não dizer que não falei de Celso Russomanno


O candidato Celso Russomanno, do PRB, vem sendo o grande fenômeno das eleições municipais 2012. Ótimas análises, diferentes em alguns pontos e complementares noutros, foram feitas pelo filósofo Vladimir Safatle, pelo cientista político Aldo Fornazieri e pelo jornalista José Roberto de Toledo. Não torno disponíveis os links delas , mas os leitores interessados não terão dificuldade em encontrá-las usando mecanismos de busca da internet.

Comentaremos o caso pegando um dos pontos abordados pelos analistas acima: a despolitização. E a observaremos sob dois aspectos. O primeiro deles é um de seus desdobramentos, que chamaremos de "despartidarização".


Despartidarização
A política no Brasil é por demais personalizada. O leitor já deve ter ouvido algum eleitor bater no peito e bradar orgulhosamente: "não voto em partidos, voto em nomes; se eu gostar do cara, não importa a agremiação".

Números de pesquisa já mostram - mas à falta deles a observação empírica já seria suficiente - que o candidato do PRB tem conseguido se manter na primeiríssima posição pela corrida de São Paulo, de acordo com as sondagens, graças a resultados nas regiões que historicamente votam nos candidatos do Partido dos Trabalhadores - mais do que isso, Russomanno tem obtido apoio de eleitores que declaram abertamente a preferência pelo PT.

Não obstante a excelente "marca", resistente inclusive à oposição midiática praticamente generalizada, o PT parece esforçar-se pouco para estimular a identidade entre partido e eleitor, de modo a fazer que o respeito e apreço dos cidadãos para com o partido redundem em votos em seu candidato. 

O uso da imagem da figura mítica de Lula sinaliza que o próprio partido parece acreditar mais no lulismo do que no petismo, entendido o primeiro como um movimento que excede o segundo - tema que deve figurar neste blog em breve.


"Desestatização"
As aspas é porque a palavra não está aqui no seu sentido comum, mas para designar o outro desdobramento da despolitização de que queríamos tratar, neste caso a falta de confiança sobretudo dos mais pobres com a capacidade do Estado de resolver problemas e mediar conflitos.

Como é sabido, Celso Russomanno já tem história de homem de mídia especializado em solucionar pendências de consumidores.

Não entraremos na questão - crítica - de que a melhoria de vida em consequência das políticas do governo Lula criaram consumidores antes de cidadãos, o que poderia, de fato, explicar o sucesso do postulante pelo PRB.

No caso específico importa entender porque o homem de mídia, antes do político, é visto como o cara certo para "cuidar das pessoas".

Na primeira metade da década de 1990, no curso de Ciências Sociais, uma professora foi motivo de pilhéria dos alunos ao recomendar que prestássemos mais atenção em um sucesso da época: o programa "Aqui Agora".

O jornalístico do SBT não era apenas um sucesso de audiência: era, ao que tudo indicava, grande portador de prestígio entre os mais pobres e com menos escolaridade.

Não era raro, a quem se deparava com algum problema, ouvir a sugestão de "chama o 'Aqui Agora'". o jornalístico "popular" era evocado nas brigas de vizinhos, nas rebeliões em presídios, em casos de flagrante injustiça e, last but not least, nas histórias de desrespeito a consumidores. Neste último, o repórter que resolvia tudo era ninguém menos do que Celso Russomanno.

No "Aqui Agora", Russomanno era apenas mais um, evidentemente. O prestígio, num primeiro momento, era do programa. E não é trivial que as pessoas acreditassem - e acreditem - mais no poder da televisão do que no dos órgãos estatais legalmente constituídos.

E os veículos transferem sua credibilidade para aqueles que pilotam seus programas. Russomanno constrói a imagem de um destemido que enfrenta poderosos em nome dos pobres já de algum tempo. E nem é preciso, para entendê-lo, voltar ao caso da morte da própria mulher, por ele denunciado como negligência médica.

Resumo com absolutamente nenhuma profundidade: enquanto o Poder Público permitir que programas no formato "Aqui Agora" tenham mais credibilidade e eficácia do que, por exemplo, o PROCON, os "russomannos" continuarão "surpreendendo".

Ah, e a professora, como resta claro, tinha razão.



sábado, 23 de junho de 2012

Eleições 2012 - São Paulo - PT e PP

A imprensa deleitou-se com fotos de encontro do ex-presidente Lula e do candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, com o deputado Paulo Maluf. Destacaram, de forma intensa, o "acordo do PT com Paulo Maluf", nestes termos. Ou seja, para a imprensa ocorreu o acerto entre um partido político e uma figura política.

O enfoque escolhido pelos meios de comunicação tenta claramente proceder a uma distorção, com fins ideológicos. Em realidade, a aliança é entre PT e PP para a disputa da capital paulista. E nela, por lógico, não pode haver nada de muito estranho, haja vista que os dois partidos têm mantido civilizada convivência desde 2003, no primeiro governo Lula.

Destaque-se que, quando, há poucas semanas, o PR juntou-se ao PSDB na cidade de São Paulo, não se viram estampas do tipo PSDB se alia ao "mensaleiro" Valdemar da Costa Neto; tampouco houve quem tripudiasse sobre intelectuais tucanos terem que engolir Tiririca e Agnaldo Timóteo, ainda que somente pela corrida municipal deste 2012.

A aliança PT-PP, para fins eleitorais, com toda a simbologia da união, sacramentada por caciques tidos como díspares - Maluf e Lula - nada mais é do que um simples fato inserido no contexto histórico mais amplo que é o das combinações partidárias capazes de permitir resultados eleitorais inesperados e, principalmente, a garantir a tal da governabilidade.

Após a queda de Collor, parece que a caiu a ficha da necessidade de maior arrojo das coalizões. Para quem não se lembra, o ex-presidente Itamar Franco conseguiu, com a oposição do PT, até trazer para seu governo uma então estrela do partido, ninguém menos do que Luiza Erundina! Seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso, sem maiores problemas aliou-se ao velho PFL; o mesmo FHC, na campanha de reeleição em 1998, a despeito de ter Mário Covas disputando o governo de São Paulo pelo PSDB, não viu problemas em aceitar o apoio -posando sorridente para fotos e tudo - do grande adversário do candidato de seu partido naquela ocasião: Paulo Maluf!

Pode-se até argumentar que talvez Lula e o PT estejam levando essa história de alianças e acordos ao paroxismo. Mas ela, com certeza, não é invenção do ex-presidente nem do seu partido. Aos trancos e barrancos, essa geleia geral tem permitido razoável governabilidade, a despeito dos entraves que provoca. Se é errada, o tempo dirá e julgará. E eventual condenação, num ambiente desapaixonado, por questão de justiça não poderá jamais recair somente sobre o Partido dos Trabalhadores e o seu mais importante fundador.


Leia também:
São Paulo 2012
Força do PT
Qual é a do PSDB

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012 - Qual é a do PSDB?

No primeiro texto voltado às eleições municipais de 2012 em São Paulo, comemoramos o fato de José Serra ter decidido não participar do embate. Tratava-se de um claro avanço, haja vista a necessidade de a cidade ser administrada por alguém realmente interessado e disposto a enfrentar seus problemas, não por alguém que pretenda usá-la como trampolim ou, quiçá, a enxergue como mero prêmio de consolação, ante as derrotas em nível nacional.

A história todos conhecem: após ter afirmado que não disputaria a eleição municipal de 2012, José Serra voltou atrás, participou das prévias do PSDB que já estavam marcadas, venceu-as de forma um tanto decepcionante e acabou por trazer nova cara ao pleito deste ano.

José Serra não é novo nas disputas municipais na capital paulista, delas participando em 1988 e 1996, com resultados não muito estimulantes. Em 2004, todavia, conseguiu levar seu partido pela primeira vez ao comando da maior cidade do País. Parece ter sido resultado de processo que já vinha se construindo de forma gradativa, como veremos.

Ao contrário do que a mídia e o burburinho do dia-a-dia nos querem fazer acreditar, o Partido da Social Democracia Brasileira não chega a ter uma história marcante no município, em linhas gerais. Desde a fundação do partido - o que se confunde com o período da pós-redemocratização do País -, o PSDB somente chegou ao segundo turno em eleições na cidade de São Paulo no ano de 2004, justamente com Serra, que se saiu vitorioso naquele pleito. Como já tivemos a oportunidade de mostrar, o PT é o único partido que sempre esteve na briga final.

Entre 1988 e 2000, a disputa foi clara, numa franca polarização ente o PT e a corrente conhecida como malufismo. Era a peleja entre esquerda e direita. Em 1988, bem na reta final, Luiza Erundina (então do PT) atropela Paulo Maluf; em 1992, Maluf dá o troco, batendo Eduardo Suplicy (PT), no segundo turno; em 1996, sem o instituto da reeleição, Maluf lança seu secretário Celso Pitta como candidato, que consegue vencer a ex-prefeita Erundina (ainda no PT); finalmente, no ano 2000, apesar do fracasso retumbante da administração Pitta, o malufismo ainda demonstrou algum resquício de força, com seu patrono conseguindo abocanhar mais de 40% dos votos no segundo turno contra a vitoriosa Marta Suplicy, do PT.

O insistente Maluf, em 2002, na disputa pelo governo do estado de São Paulo, foi ultrapassado por José Genoíno, do PT, não conseguindo, pela primeira vez desde a instituição da eleição em dois escrutínios, chegar ao segundo turno da disputa estadual - sinal de que havia mesmo algo de estranho com o fenômeno do malufismo, cujo patrono só ficara de fora de um segundo turno em 1994 (não disputou o cargo naquele ano). Em 2004, na disputa municipal, Maluf consegue apenas um terceiro lugar, deixando o segundo turno ser disputado por Marta e Serra. Com tal resultado, não restava dúvidas de que o malufismo já não era mais o representante hegemônico do conservadorismo paulista e paulistano.

O PSDB, talvez sem querer, talvez sem o perceber, começa a ocupar o espectro mais à direita da política paulistana. Em 2008, embora disputando a corrida municipal com um nome de peso - nada menos que Geraldo Alckmin -, o partido, repetindo o aspecto mais comum de sua saga na cidade de São Paulo, ficou apenas no terceiro lugar. Não se pode olvidar, entretanto, que a reeleição de Kassab naquele ano se deu com o apoio explícito do PSDB no segundo turno e velado no primeiro - caso clássico de cristianização, sofrido por Alckmin. Dê-se um desconto, portanto, aos que consideram o feito de Kassab quase como uma vitória tucana.

Muitos entendem ser o conservadorismo a principal característica do que se pode chamar de "eleitor médio" paulistano. Eleição após eleição, foi-se vendo o malufismo perder força e o PSDB ocupar os espaços mais à direita no campo político paulistano. O partido de FHC, Covas e Serra não surgiu com tal proposta ou vocação. Talvez tenha sido empurrado para este lado por representar, em nível nacional e em diversos lugares também na seara estadual, o antipetismo, posição que ostenta por normalmente enfrentar o Partido dos Trabalhadores nas principais eleições pelo País.

A ocupação dos flancos à direita pelo PSDB, como dito, deu-se de forma bastante paulatina, talvez imperceptível e - ousaria dizer - surpreendente até para muitos de seus membros. Aos poucos, seus integrantes e correligionários foram aceitando essa nova cara do partido. Verdade seja dita, quem parece hoje melhor entender que ao PSDB pouco sobra senão tentar correr por essa vereda é mesmo José Serra, o que por si só já basta para classificá-lo como fortíssimo candidato na disputa deste ano.

Leia também:
Eleições municipais - São Paulo 2012
Eleições municipais - São Paulo 2012 - Força do PT

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012 - Força do PT

Em comentários no mês de agosto e setembro de 2011, Lucia Hippolito, colunista da CBN, qualificou a cidade de São Paulo como uma fortaleza antipetista. Decerto que ela não é original ao pensá-lo e, ainda pior, há inúmeros petistas que pensam igual, talvez até o ex-presidente Lula. Aliás, a constrangedora movimentação em busca da aliança com Kassab parece advir dessa suposição.

A análise histórica, no entanto, parece indicar situação muito diversa. Ao contrário do que sustentam os conservadores - com tanta firmeza que até conseguem engambelar petistas históricos -, o Partido dos Trabalhadores é talvez a única força política realmente coesa na complexa cidade de São Paulo após a redemocratização do País. Vamos aos fatos.

Na última eleição em turno único, em 1988, Luiza Erundina surpreendentemente bate Paulo Maluf e ganha para o PT a prefeitura da maior cidade do Brasil. Em seguida, os pleitos passariam a ser disputados com a possibilidade de realização em dois turnos. Na capital paulista, desde então, todas as disputas iriam para o segundo turno. O Partido dos Trabalhadores, se nossa memória não nos trai, foi o único partido que esteve presente em todas as pendengas finais.

Em 1992, apesar de todas as dificuldades enfrentadas por Luiza Erundina, o PT conseguiu, com Eduardo Suplicy, ir para o segundo turno contra Paulo Maluf, que, depois de diversas tentativas, finalmente vence uma eleição - era talvez o auge do paulistíssimo fenômeno do malufismo.

Em 1996, Maluf aposta todas as suas fichas em seu secretário Celso Pitta, que, no segundo turno, enfrenta e vence a ex-prefeita Luiza Erundina, na época ainda no PT. Era o Partido dos Trabalhadores mais uma vez no segundo escrutínio na cidade de São Paulo, e novamente enfrentando o malufismo.

Em 2000, para variar um pouco, o PT mais uma vez chega ao segundo turno na disputa pela prefeitura de São Paulo, naquela feita com Marta Suplicy, que vence Paulo Maluf. A briga acirrada talvez tenha sido dos últimos suspiros do malufismo.

Administrando uma verdadeira herança maldita deixada por Pitta, a petista Marta enfrentou uma série de problemas, mas mesmo assim conseguiu, em 2004, ir para o segundo turno, sendo derrotada por José Serra, à época beneficiado pelo chamado recall, eis que candidato à presidência da República dois anos antes.

Gilberto Kassab herda a prefeitura de Serra, que renuncia para candidatar-se a governador em 2006, e, após uso eficiente da máquina (atenção: não é necessariamente uma crítica), vai para o segundo turno do pleito de 2008, mais uma vez com o PT na disputa, novamente com Marta, derrotada outra vez.

Como se vê, precisava avisar os eleitores paulistanos que a cidade é fortaleza antipetista e pedir para eles pararem de levar os candidatos do Partido dos Trabalhadores para as cabeças das disputas municipais!

De se destacar que o principal antípoda do PT em nível nacional, o PSDB, apesar da hegemonia no estado, somente chegou ao segundo turno na capital paulista uma única vez, justamente quando Serra bateu Marta em 2004. Importante lembrar que Kassab em 2008 elegeu-se pelo DEM, inclusive superando, na reta final do primeiro turno, o candidato peessedebista - reparo fundamental, pois erroneamente alguns tentam creditar aos tucanos a vitória do então demista, o que não é verdade, noves fora a cristianização de Alckmin.

Frise-se, ademais, que, nesses anos todos, o PSDB não tem enfrentado as disputas municipais com "galinhas mortas". Serra e Alckmin, a exemplo do que fazem em nível estadual - e mesmo federal - são os tucanos que nas últimas corridas municipais representaram o partido. Mesmo assim, excetuando 2004, encontram dificuldades de, diretamente, superar o PT em São Paulo.

Outro importante registro histórico: em 1985, na primeira eleição direta pós-redemocratização, o PT alcançou apenas o terceiro lugar, com Eduardo Suplicy. A vitória foi de Jânio Quadros, num surpreendente arranque final contra Fernando Henrique Cardoso, na época ainda do PMDB. Cuidado, leitor, pois não falta quem tente dizer que aquele segundo lugar de FHC é feito do PSDB. Como dito, não é: o homem ainda não tinha, naquela época, motivos para cair fora do PMDB.

Soa estranho, portanto, o tão bem articulado discurso que tenta provar que a cidade de São Paulo tem ojeriza contra o PT. Assim como parece incompreensível que o próprio partido já se apresente com a ideia de que realmente acredita não ter a cara da nossa maior metrópole.

O eleitor paulistano talvez seja mesmo antipetista. Entretanto, ele decerto ainda não sabe!

sábado, 28 de janeiro de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012

No último 25 de janeiro a cidade de São Paulo completou 458 anos de vida. Em ano de eleições municipais, o melhor presente que a cidade pode receber é alguma reflexão sobre o que o pleito deve representar para sua realidade e seu futuro.

Esta corrida eleitoral de 2012 parece que guardará diferenças significativas em relação à disputa de 2008. Há quatro anos, nossa preocupação era com o protagonismo de políticos que pareciam não ter na chefia da administração municipal o maior significado de suas vidas. O PT apresentava-se, então, na briga com Marta Suplicy, ex-prefeita e nome sempre cotado para o governo do estado, pelo que talvez, se eleita, não hesitasse em abandonar a prefeitura para disputar o outro cargo; já o PSDB naquela feita pleiteava o comando do município com Geraldo Alckmin, que já tinha sido governador e fora candidato à presidência da República, nome que decerto não se contentaria com o "rebaixamento" do cargo de prefeito.

Em 2008, por incrível que pareça, a vitória de Kassab talvez tenha premiado o candidato que, naquele momento, era o mais comprometido com o município, aparentemente menos interessado em usar a prefeitura de São Paulo como trampolim para interesses políticos maiores - bem, o "praticamente" abandono da cidade com vistas à criação do PSD veio a demonstrar que tal cálculo também estava errado! Pobre São Paulo e sua sina...

A despeito do negativo exemplo de Kassab, este pleito de 2012 pode ter como diferencial justamente a presença de candidatos que, num primeiro momento, não parecem granjear objetivos eleitorais em instâncias maiores. O único nome certo no páreo é Fernando Haddad, do PT, ex-ministro da Educação nos governos Lula e Dilma, que, a exemplo da sua "chefe" mais recente, nunca disputou uma eleição antes. Também ex-secretário de Marta Suplicy, Haddad não é neófito nas coisas da máquina municipal. Tudo indica que sabe o que está fazendo e, principalmente, querendo. No partido de gente como Marta, Mercadante, Ruy Falcão, não se pode desde já supor que, em 2014, um fortalecido Haddad, se o caso, abandonaria a cidade de São Paulo para candidatar-se ao governo do estado. Merece o benefício da dúvida, pelo menos.

O PSDB ainda não tem nome definido. O partido deve passar por prévias. Decidido, por enquanto, está que José Serra não será o candidato. Ótimo para a cidade, uma vez sabido que o ex-governador não abandonou o sonho de levar a presidência da República. Se disputasse a corrida de 2012, fá-lo-ia meramente de olho em ter um cargo somente para ganhar visibilidade, com vistas à corrida presidencial de 2014. Convenhamos, uma megalópole de 12 milhões de habitantes precisa de um governante verdadeiramente comprometido com seus rumos. Não seria, obviamente, o caso de Serra. É reconfortante, pois, saber que o PSDB, a exemplo do PT, não se apresentará ao eleitor paulistano com um "escalista eleitoral".

O quadro na cidade para este 2012, portanto, ainda está bastante indefinido. Como exposto, a poderosa força política representada pelo PSDB ainda não tem candidato; não se sabe, por enquanto, o que Kassab e o seu PSD farão; o famigerado PMDB e seu Gabriel Chalita também ainda não deixaram claro o que farão; apesar de pesquisas favoráveis, não dá para vislumbrar que dimensão tomará o apoio do ex-presidente Lula a Fernando Haddad; quanto a Haddad, impossível também dimensionar como o seu desempenho no ministério da Educação afetará seu resultado eleitoral: este blogueiro, por exemplo, considera a atuação dele naquele ministério bem acima da média, mas, de outro lado, tem um esforço do aparato midiático em provar o contrário. Aguardemos.

É inegável que a capital de São Paulo apresenta forte tendência conservadora. É perceptível também, sobretudo nos chamados estratos médios, um certo antipetismo, como já até defendido por colunistas da grande mídia, além de notória insensibilidade social. Entretanto, resultados históricos recentes - aliados à sempre crescente complexidade geográfica e demográfica da metrópole - permitem enxergar outras nuanças e, consequentemente, variar os tipos de análise. Fica para um próximo post.

sábado, 14 de maio de 2011

Uma opinião... Diferenciada!

Este diferenciado escriba não se surpreendeu com o recente ocorrido acerca da estação do Metrô no bairro de Higienópolis.

Se alguém ainda não sabe da história, o Metrô de São Paulo mudou os planos de construir uma estação no bairro que abriga gente como FHC - mais precisamente na famosa Avenida Angélica - depois de pressões da Associação Defenda Higienópolis. Entre outras coisas, os moradores temiam o crescimento de “ocorrências indesejáveis” ou de presença de "gente diferenciada" em tão nobre localidade, por conta de estação naquele belo logradouro.

O preconceito das chamadas elites com os pobres e suas práticas segregacionistas (o nome do bairro é Higienópolis, né?) não chegam a surpreender. Muita gente de bom coração, porém, ficou sem entender por que não querer uma estação de metrô bem localizada no próprio bairro em que vive. Vá lá que não se goste de pobre, mas ter estação de metrô vale o sacrifício, devem ter pensado alguns até em tom de brincadeira.

Este blogueiro, todavia, ficou meio indiferente. Em realidade, vimos nessa história apenas a materialização de ideia polêmica que corajosa e heroicamente defendemos, sofrendo oposição quase geral.

É praticamente um lugar comum afirmar-se que, em São Paulo, a galera usa freneticamente o automóvel como alternativa às péssimas condições do transporte público. O autor destas mal digitadas, por outro lado, assegura que ocorre o contrário: o transporte coletivo de São Paulo é uma porcaria porque as pessoas preferem o transporte individual.

Não resta dúvida. O leitor, se puder, que numa oportunidade procure, deseducadamente, ouvir conversas alheias no metrô, nos trens, nas filas de ônibus. Sempre ouvirá alguém bem apertado na lata de sardinha lamentando-se de "ainda" não ter um carro, ou reclamando porque é dia do rodízio, ou maldizendo o fato de o automóvel estar no conserto. Para a maioria, a solução, portanto, não está na melhora do transporte público, mas sim na aquisição, conserto ou melhora do carrão particular.

A preferência do paulista em geral - e do paulistano em particular - pelo carro em detrimento dos meios de transporte coletivo também se assoma pelas grandiosas obras viárias e pela renitente popularidade de políticos como Paulo Maluf e Adhemar de Barros. Para eles, governar era algo do tipo... É... Abrir estradas.

Por incrível que pareça, o jornal Folha de São Paulo, não há muito, em editorial sobre a questão do transporte e locomoção na megalópole, de certa maneira nos repetiu, embora de forma mais "tucana", criticando a propensão paulistana por buscar soluções individuais para os problemas coletivos. No caso deles, todavia, a preocupação deve ser porque agora o pobre está comprando carro!

Neste caldo de cultura, os investimentos em transporte público tendem a ser pífios mesmo, já que para o político será bem melhor realizar obras vistosas que sirvam aos carros, agradando por conseguinte o seu não raro solitário ocupante, do que trabalhar em prol do transporte coletivo, cujo usuário não vai dar muita bola.

Tudo isso só para dizer que o preconceito da elite paulistana contra os pobres não causa surpresa em ninguém mesmo. Já no nosso caso, indo um pouco mais além, não nos surpreende nem o fato de os moradores do principado de Higienópolis não quererem estação de metrô perto de casa.

Se me permitem, tal estupidez não me causaria estranheza mesmo se viesse de algum bairro um pouco mais pobre... Resumindo, sou diferenciado mesmo!

sábado, 12 de março de 2011

Sete milhões de problemas

Leio no sítio da revista Carta Capital que até o final de março de 2011 a cidade de São Paulo atingirá a impressionante cifra de sete milhões de automóveis parados, digo, circulando por suas ruas. Ao atingir a cifra de seis milhões, há pouco mais de três anos, escrevemos um post que parece, infelizmente, ser bastante atual. Reproduzi-lo-emos abaixo. Tirando um ajuste aqui, outro ali, ao leitor basta trocar o "seis" pelo "sete".

SÁBADO, 1 DE MARÇO DE 2008

A cidade de seis milhões de problemas

A cidade de São Paulo atingiu a marca de seis milhões de automóveis nos últimos dias. Na média aritmética é um carro para menos de duas pessoas. Trata-se de um dado assustador, como logo veremos.

Sem dúvida que tão assombroso número tem a ver com o momento razoavelmente aquecido da economia: a indústria automobilística não obstante a automação ainda gera um bom número de empregos diretos, inclusive com salários acima da média do mercado brasileiro, e, por ser o automóvel um produto de alto valor agregado, tal indústria ainda tem a capacidade de, mais notavelmente, gerar uma enormidade de empregos indiretos. Também é certo que a indústria automobilística é uma das principais responsáveis pela excepcional arrecadação de impostos observada nos últimos tempos. E não pára por aí: o setor de seguros e de financiamentos, fabricantes de acessórios e o mercado de usados lhe crescem a reboque. Não é difícil perceber que o ciclo virtuoso se instala com facilidade, graças à vertiginosa atividade de um setor ponta-de-lança como esse dos automóveis.

Mas há o outro lado da moeda: a destruição do meio ambiente, a degradação do espaço urbano, a frieza humana contrastando com o aquecimento do clima (sem qualquer tentativa de ser poético). Antes que alguém diga que isso é decorrência das péssimas condições do transporte coletivo, cuja má qualidade leva as pessoas a optarem pelo veículo particular, eu ousarei a – mais uma vez – afirmar que em verdade ocorre o contrário: o transporte coletivo numa cidade como São Paulo é muito ruim por culpa da prioridade comumente dada ao transporte individual.

Em primeiro lugar, o desenho urbano das grandes cidades em geral, e de São Paulo em particular, é pensado para o veículo individual: uma das marcas da cidade - e vocação de alguns de seus políticos mais populares - sempre foi a construção de grandiosas obras viárias, geralmente voltadas mais aos interesses particulares do que ao interesse coletivo. Em segundo lugar – se o leitor permite uma opinião idiossincrática bastante arriscada -, há o condicionamento psicológico: as pessoas não veem outra solução ao “martírio” do transporte coletivo que não seja a aquisição do carro próprio, o que sem dúvida diminui a pressão social para a solução dos problemas do sistema. E em terceiro, há a questão do esnobismo social, com a idéia de status frequentemente associada ao uso do automóvel, além da sensação de poder, de conforto e de modernidade que tal tipo de bem geralmente traz. Tudo isso parece ser um grande desestímulo a que nossos pragmáticos políticos gastem “cartucho” com investimentos no transporte coletivo, pois sabem que o eleitor se lembraria mais facilmente deles pelo que fizessem em benefício do uso do “carrão” particular.

Eis a feição de uma crise: temos um produto cujo uso de forma geral é a marca da irracionalidade, cuja popularização é danosa ao meio ambiente e à qualidade de vida, mas que se ausente nos termos em que se apresenta, poderia representar uma economia mais retraída, um Estado quebrado e pessoas inexplicavelmente mais infelizes. Ao contrário do verso de Rimbaud, “tornamo-nos mulheres velhas com coragem de amar a morte”! É realmente muito desalentador ter de às vezes regozijar-se de uma situação caótica: este blog mesmo, o leitor certamente se lembrará, em algumas oportunidades apontou os extraordinários números da indústria automobilística nacional como forma de desqualificar as incongruentes ressalvas da imprensa e da oposição à situação econômica do Brasil. É... Como se vê, não apenas os políticos são tão pragmáticos; tampouco somente a mídia tradicional o é. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Billy Blanco - Paulistana, Retrato de uma Cidade (1974)

Abaixo, resenha originalmente publicada no RateYourMusic

Acredito que não passe um 25 de janeiro no qual não se ouça um coro afinado cantando: ‘São Paulo que amanhece trabalhando’. É o “Tema de São Paulo”, de Billy Blanco, letra e melodia que são o leitmotiv deste álbum conceitual. O outro tema desta ode é “Amanhecendo”, do qual muitos vão se lembrar por ser usado nas manhãs de uma famosa rádio noticiosa de São Paulo: entre uma mentira e outra, entre um comentário que flerta com o fascismo e uma entrevista com algum porta-voz da classe média chorona, entre uma reportagem tendenciosa e um dado contestável, pode-se ouvir o coro que entoa ‘começou um novo dia, já volta quem ia, o tempo é de chegar’; depois, em “O Tempo e a Hora”, ‘vombora, vombora, olha a hora, vombora’: é bom ouvir isso direto do disco do Billy Blanco e não das ondas irradiadas por aqueles que abusam da concessão de um serviço público ofertado por toda a sociedade; muito bom ouvi-lo de uma obra produzida pela lenda Aloysio de Oliveira e não daqueles que se escondem por trás da covardia que denominam liberdade de imprensa. Aliás, amigos leitores, há uma frase de “O Tempo e a Hora” que diz, na bela voz da cantora Cláudia, que ‘o que vale é a versão, pouco interessa o fato’! Há algum freudiano aí?

E o disco fala, é claro, das coisas e das personagens de São Paulo: a carioca Elza Soares canta os imigrantes em “Capital do Tempo” e a tradição esportiva da cidade em “Pro Esporte”; Pery Ribeiro faz a “Louvação de Anchieta”, canta as “Coisas da Noite”, avança as fronteiras da cidade rumo à “Grande São Paulo” e via a “São Paulo Jovem” de então andar em duas rodas, com um rapaz guiando e uma moça na garupa, numa cena própria de um tempo em que a palavra motoboy seria um neologismo que causaria risos; a já citada Cláudia presta justiça a “Bartira”, aquela que Billy chama de índia-madre nas notas do disco; Miltinho, em “Viva o Camelô”, fala de uma figura folclórica, anterior à profissionalização do “bico” e de suas imbricações com o crime organizado; Claudette Soares nos mostra que o “Céu de São Paulo” já não era tão azul, mas que isso não importava para quem só tinha olhos para o asfalto; Nadinho da Ilha fala de uma das personagens mais conhecidas, amadas, cultuadas, desejadas e procuradas de São Paulo, a saber, “O Dinheiro”; e o coro manda ver numa irresistível levada rock para a “Rua Augusta” de Billy Blanco, que diferentemente da de Hervê Cordovil, não era espaço para a velocidade, mas para o caminhar leve, despreocupado, de moças olhando vitrines, enquanto eram admiradas nas suas roupas da moda.

Não deve ter sido à toa que o paraense Billy Blanco, para este disco produzido pelo carioca Aloysio de Oliveira, tenha convidado tantos artistas não nascidos em São Paulo: deve ter querido chamar a atenção para a idéia de cidade que tudo – e a todos - abraça. E o maestro Chiquinho de Moraes, na orquestração do álbum, valeu-se de características brasileiras numa linguagem universal, como sói acontecer com as coisas de São Paulo.

Agora, se me permitem, uma "provocaçãozinha": se eu me interessasse por política, diria apenas que o disco foi – a meu ver - por demais condescendente com nós paulistas, ao deixar de lado nosso conservadorismo e provincianismo, qualidades que, no mais, devem ser democraticamente respeitadas. Mas Billy Blanco talvez tenha até feito bem, pois para mim é muito triste lembrar que, por exemplo, Juscelino Kubitschek e Luiz Inácio Lula da Silva, dois dos presidentes mais populares da história do Brasil, dividem a nada honrosa pecha de serem os únicos que foram eleitos diretamente sem vencer em São Paulo. E olha que eu nem sou muito admirador de Juscelino... Mas São Paulo daquela feita preferiu Adhemar de Barros. Mais conservadora e provinciana impossível!

São Paulo, em 1974, ainda era a cidade das oportunidades, a cidade que mais crescia no mundo, ainda ostentava as características de city boom que mereceu chamada de capa da revista Time em 1952 (quando ainda era a segunda cidade do Brasil); em 1974, passados 20 anos, parecia que ainda não havia acordado da mística dos quatrocentos anos.

E hoje, como seria a música de uma "Paulistana 2007"? Alguém aí se habilita?

São Paulo, 29 de abril de 2007.

PS: e hoje, 25 de janeiro de 2010, como seria uma "Paulistana 2010"? Debaixo d'água certamente, mas com a imprensa provinciana dizendo que era a Veneza do século XXI!

Ouça abaixo "O Tempo e a Hora", nas vozes de Cláudia e Pery Ribeiro. Nas imagens, fotos de São Paulo, tiradas entre 2005 e 2009 pelo autor destas maldigitadas e pela esposa, Roseli Brito.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Cenas Paulistanas

Os que passeiam pela Avenida Paulista já devem ter parado por alguns segundos na calçada, enquanto aguardam veículos entrarem em estacionamentos ou saírem deles. Isso mesmo: os transeuntes param, com toda a boa vontade do mundo, para que os carros transitem, sem qualquer cerimônia, naquele que deveria ser, por excelência, espaço exclusivo do pedestre. É a típica experiência que os que lá caminham certamente já vivenciaram.

Os mais atentos talvez já tenham observado, na mesma Paulista, outra excrescência, só possível mesmo em São Paulo: os veículos saem dos estacionamentos, quase atropelando os pedestres na calçada, para, finalmente, pegar o leito carroçável; para tanto, é necessário que os motoristas tenham a mesma solicitude que os pedestres têm na saída dos estacionamentos, certo? E não é que os motoristas dos carros "de passeio" simplesmente não dão vez? Pode observar, caro leitor: em geral, quem dá a oportunidade para que o veículo atinja o asfalto são os motoristas de ônibus. Isso mesmo, meu caro integrante do MSC (movimento dos sem-carro)! Aquele mesmo motorista de ônibus que às vezes não para quando você dá sinal, ou que se recusa a parar meio metro fora do ponto, ou que não para onde vossa senhoria deseja descer... Este mesmo motorista, quando se trata de dar a vez para automóveis egressos de estacionamentos na Avenida Paulista, é o primeiro a demonstrar-se generoso, solícito e simpático.

Nada a estranhar, infelizmente. Mais uma vez, forçoso é repetir, é típico de São Paulo. Em dose cavalar, o que se tem nestes casos é a priorização do individual sobre o coletivo. A calçada - de algum modo democrática -, em vez de espaço do cidadão, que não pode se atrever a tomar o asfalto, vira ponto de passagem de automóveis que carregam, não raro, um único indivíduo dentro. E os ônibus - o "transporte coletivo" por definição -, certamente por decisão unilateral de seu motorista, faz pouco caso das dezenas de pessoas que carregam, para beneficiar o solitário ocupante de carros de todos os tipos, modelos, anos e preços.

Ah, antes que me perguntem, vou avisando que já vi alguns pouquíssimos motoristas dos carros particulares agradecendo aos condutores de ônibus pela cordialidade; aos pedestres, nunca.

sábado, 21 de novembro de 2009

"Taxab" e o IPTU: eu apoio

Qualquer pessoa responsável deve ser inexoravelmente a favor do equilíbrio nas contas públicas. Até mesmo nosso ordenamento jurídico posiciona-se de modo radical em relação a essa questão, haja vista a famigerada Lei de Responsabilidade Fiscal. Para o bem de todos, não se deve, em nenhuma hipótese, permitir a deterioração das contas públicas.

O leitor decerto obtemperará com o argumento de que não há nada de distinto no fato de se apegar à necessidade – ou exigência – da saúde das contas públicas. De fato, nada mais é do que o óbvio ululante. O que se pode, em verdade, é ter soluções diferentes para quando um eventual desequilíbrio se avizinha.

O autor destas maldigitadas, por exemplo, é da opinião de que não se deve cortar investimento público para fechar as contas. Defendemos, antes, se for o caso, o aumento da receita. As maneiras mais simples – porém não as mais fáceis – de fazê-lo são através do aperto na fiscalização e, por óbvio, do aumento dos impostos.

Um dos mantras da classe média dos grandes centros urbanos, com o eco da grande imprensa, é a choradeira acerca do “abuso” do poder público na cobrança de impostos. Dificilmente se encontrará alguém que não reclame do peso da carga tributária e muito raramente se ouvirá falar de alguém que não tente, vez ou outra, sonegar para si ou ser complacente – ou até contribuir – para a sonegação de outrem. Imposto, como o próprio nome prenuncia, é algo que só existe porque se sabe que as contribuições não nasceriam da boa vontade e da iniciativa dos cidadãos organizados.

De qualquer maneira, está-se a todo momento usando dos serviços que são pagos com o dinheiro dos impostos, seja nos hospitais públicos, seja a polícia, a organização do trânsito etc. A própria roda do sistema – no nosso caso o modelo capitalista – gira, conforme cantado em prosa e verso pelo cultuado Max Weber, amparada na existência de uma ordem dependente de um aparato burocrático que exige o suporte de toda a sociedade. Já tive a oportunidade de desafiar: a classe média que tanto gosta do nosso status quo, experimente parar de pagar impostos, e certamente não gostará de ver abaladas as pilastras que seguram o modelo político-econômico que lhe permite ter uma identidade e representar algo para o mundo; ora, isso tem preço e alguém precisa pagar por ele!

Tudo isso para dizer que, em princípio, não nos opomos ao aumento do IPTU aventado pela prefeitura de São Paulo. É preciso, ainda, entender melhor as motivações do aumento que, segundo a imprensa, pode chegar à casa dos 60%. De todo modo, num primeiro momento não vemos problemas na "garfada", desde que seja de forma progressiva e com aplicação de justiça tributária. Afinal, o prefeito paulistano poderia, se quisesse, vir com o papo furado do corte de despesas, pois esse seria o caminho que agradaria a classe média chorona que o elegeu e a mídia intrometida que lhe vem dando sustentação, não tanto pelo bem dele mas sim para agradar o seu padrinho, o governador José Serra. Mas, ao propor aumento de impostos, o prefeito ao menos sinaliza estar disposto a enfrentar o problema sem paralisar a cidade.

Não dá para simplesmente aceitar que uma cidade como São Paulo congele investimentos ou corte serviços. Portanto, se necessário for, que se aumentem as taxas e tributos, com serenidade e justiça. Paciência! Se me permitem uma opinião antipática, devo dizer que, até pelo menos onde conheço - falando inclusive em causa própria -, o IPTU paulistano é bastante camarada. Porém, que fique claro, ao defender o aumento e o rigor na cobrança de tributos, estou imaginando que o prefeito Gilberto Kassab esteja pensando em assegurar sua aplicação no social, na saúde, na educação, na valorização do funcionalismo. Que ele não me decepcione!

Mas é chegada a hora do sarcasmo nosso de cada dia! Se não nos falha a memória, a ex- prefeita Marta Suplicy, adversária no segundo turno da eleição municipal de 2008, também derrotada por Kassab em chapa com o padrinho dele em 2004, ganhou a alcunha de “Martaxa” entre a elite e classe média chorona da capital . E o atual prefeito deve boa parte do apoio e dos votos que recebeu - tanto na condição de vice em 2004, como de titular em 2008 - ao discurso fácil do corte dos gastos públicos, o qual tende a refletir numa certa moleza tributária, tanto que deu certo explorar o apelido colado na adversária. E agora, com o aumento do IPTU, como é que fica?

Vamos esperar para ver o comportamento da classe média e da imprensa em relação a esse evento. Já rola por aí o apelido de “Taxab”. É de se presumir que ele ganhe os noticiários e o boca-a-boca com a mesma velocidade do “Martaxa”. E apesar de ainda estar um pouco longe, vamos ver como serão os debates no pleito de 2012. Será que algum candidato da direita terá a coragem de incorporar o discurso antitributos e, mais do que isso, acusar o candidato de esquerda mais competitivo de ser um perdulário criador de impostos?

A propósito, há uma questão que me incomoda desde a eleição de 2008. Por que a candidata Marta Suplicy não usou em sua campanha o fato de a administração Serra/Kassab não ter abolido a taxa de iluminação pública cobrada na conta de luz? Quer dizer, não é de hoje que esses dois apenas fingem – com interesses eleitoreiros – ser tão contrários a impostos. No fundo, governante nenhum é. Pobre da classe média que acredita no tro-lo-ló deles.

sábado, 12 de setembro de 2009

Não acredite nos políticos: eles podem estar falando a verdade!

Ao contrário do que sugere o senso comum, o pior problema dos políticos não está nas inúmeras mentiras que dizem, mas nas poucas verdades que de quando em vez deixam escapar. Foi o que se viu em São Paulo nos últimos dias. Por conta da chuva que castigou a maior cidade do país no dia 08-09-2009, paralisando toda a capital, o prefeito Gilberto Kassab correu a culpar o povo "mal-educado" pela sujeira das ruas, a qual inexoravelmente entope os bueiros e acaba indo parar no leito dos rios; além disso, Kassab não facilitou para os seus antecessores, denunciando os 50 anos de erros no planejamento da metrópole.

Ao menos em parte, não dá para dizer que o alcaide não tenha seu quinhão de razão. Porém, como prefeito há mais de três anos, Kassab já deveria ter aprendido que deve administrar a cidade de forma incondicional, mesmo que o povo não tenha a educação e a civilidade dos sonhos dele. Afora isso, parece que a prefeitura não vinha, nos últimos tempos, fazendo a sua parte nos cuidados com a limpeza urbana. Descuidando do serviço público de coleta de lixo e de varrição, a tendência é enfrentar revezes na hora em que a natureza dá as suas costumeiras rebeladas, e, nesse caso, sem a devida contrapartida do setor público, nada adiantaria o paulistano ser o cidadão mais consciente, educado e "limpinho" do mundo.

No que se refere aos erros políticos dos prefeitos paulistanos das últimas cinco décadas, acreditamos que o atual mandatário modestamente esteja incluindo a si mesmo - e também ao seu padrinho José Serra - pelos descalabros cometidos. Além de verdade, haveria também um pouco de nobreza na atitude. Pena que o seu partido, o DEM (ex-PFL), e o seu aliado PSDB, aliados à mídia paulistana, nunca tenham sido igualmente generosos e tolerantes com a administração de Marta Suplicy, que a cada chuva que caía era prontamente considerada culpada pelos estragos provocados, sem direito de evocar qualquer tipo de "herança maldita". E, é evidente, a ex-prefeita, se acusasse os que lhe antecederam, não estaria se apoiando em nenhuma inverdade. De qualquer forma, de nada valeria chorar.

Ainda que seja somente da boca para fora, de maneira geral há um respeito tão obsequioso pela verdade, que ela acaba sendo tomada como um valor universal, mais ou menos nos moldes do imperativo categórico kantiano. Dessa forma, nossa tendência seria a de logo simpatizar com o prefeito que fala duras verdades na hora em que é pego numa situação tensa e difícil. Nada a se opor ao compromisso de Kassab com as verdades indigestas. Todavia, elas não podem servir como desculpa para esquivar-se das responsabilidades. Bem resumidamente, o descuido e desrespeito do cidadão para com o espaço público contribuem, sim, para as enchentes e, consequentemente, para as desgraças que lhe vêm a reboque; e, com efeito, também pagamos caríssimo hoje por uma concepção de cidade que apenas se preocupava (preocupa) com o hoje, sem plano de futuro ou de longo prazo. Pontos pacíficos, pois.

Porém - paciência -, Kassab é o atual prefeito. Em vez de reclamar do povo e dos que o antecederam, poderia no mínimo fazer sua parte, cuidando da questão do lixo nas ruas, e trabalhar com planejamento para deixar um legado melhor para o seu sucessor. Já deveria ter começado, mas, de todo modo, Até 2012 há bastante tempo para fazer alguma coisa. Isto é, se ele não sair como candidato a governador no ano que vem. Há boatos rolando...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Secretaria de Serra vai às compras

A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo vem dando o que falar. A pasta, atualmente comandada pelo Sr. Paulo Renato de Souza, ex- ministro da Educação do governo Fernando Henrique Cardoso, vem aparecendo nos meios de comunicação talvez mais do que gostaria . Poderia ser simplesmente pelo motivo de o estado mais rico da Federação, governado pelo tucanato há 15 anos, ter um dos piores ensinos do país, mas é pelo fato de os livros didáticos conterem erros grosseiros ou material impróprio para crianças.

Os “dois paraguais” presentes em mapa inserto em livro de geografia parece ter sido o que menos incomodou. Compreensível de alguma maneira. Na nossa atual condição de “potência regional”, talvez já não nos atentemos a um certo modo imperialista de agir. Colocar dois ou três paraguais num livro de geografia equivaleria – mal comparando - ao velho hábito estadunidense de afirmar que a capital do Brasil é Buenos Aires e ficar tudo por isso mesmo! Desse modo, é de somenos importância.

Já o dito conteúdo impróprio a crianças causou mais alvoroço. Foram quadrinhos com forte conotação sexual e uma poesia um tanto, digamos, marginal. As obras - todos parecem ser unânimes nisso - definitivamente não servem ao público pré-adolescente.

Mas vamos lá, amigo leitor! E quanto aos games superviolentos cultuados por garotos que mal sabem ler e escrever? E a programação da TV com cenas de violência e temas picantes a qualquer horário?

A propósito, acerca da televisão, foi por demais interessante o bombardeio que sofreu a proposta de classificação indicativa que o Ministério da Justiça tentou emplacar. Os mesmos órgãos de comunicação que agora se mostram tão surpresos com as barbeiragens do governo Serra, quando da discussão do projeto que pretendia disciplinar os horários da programação de TV, colocaram em campo a tropa-de-choque de colunistas histriônicos, sempre prontos a denunciar a censura, o bolchevismo, o dirigismo etc. etc. etc.

Alguns podem dizer que é diferente, afinal a televisão não tem a mesma responsabilidade da escola, ou de um livro didático ou, ainda, de um ente governamental. Será que não mesmo? A complexidade da nossa sociedade parece não deixar dúvidas de que se aumentou o leque de responsabilidades para a difícil tarefa de educar. Não dá para simplesmente abandonar a garotada, fazer pouco caso da programação de TV, ser liberal com games violentos, aceitar na boa que se circule à vontade por sites de relacionamento mesmo sabendo que por lá pode haver racismo ou homofobia etc., e achar que a escola - ou seus livros didáticos - pode cobrir qualquer lacuna. Isso, aliás, assemelha-se ao velho erro de achar que a figura do professor pode substituir a dos pais: "ah, deixa meu filhinho; depois o professor conserta; afinal, é trabalho dele!". E não se trata de defender o controle pelo controle ou, como já dito, a censura pura e simples; trata-se somente de não tapar os olhos para uma realidade que não somente nos bate o rosto, mas, literalmente, adentra os nossos lares. É a vida...

Olhando por esse prisma, a presepada da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, ainda que digna de críticas, mereceria ao menos o reconhecimento de que não é mais despropositada do que, por exemplo, alguma novela do horário nobre.

sábado, 2 de maio de 2009

Virada Cultural 2009

O tecladista Jon Lord deu início às atividades da Virada Cultural 2009 na histórica Av. São João. Acompanhado da Orquestra Sinfônica Municipal, o músico reproduziu o álbum Concerto for Group and Orchestra, composto por ele em 1969, no qual a sua banda, Deep Purple, tocou com a Royal Philarmonic Orchestra.

Muito atraso e um público apático, quando não desrespeitoso, não permitiram que o espetáculo fosse dos mais primorosos. Vale lembrar que aquele disco não costuma também figurar entre os trabalhos mais empolgantes do lendário grupo inglês. Este escriba, um pouco irritado com certo burburinho de uma galera que talvez não estivesse preparada para aquele tipo de espetáculo, preferiu sair um pouco antes do final, com sinceras lamentações por não ter optado por ficar em frente ao telão em vez de em frente ao palco (sorry, Walter Benjamin!), onde certamente dava para fruir melhor da apresentação.

De qualquer modo, foi uma bela iniciativa da Secretaria de Cultura de São Paulo ter trazido para essa edição da Virada um monstro do rock da grandeza de Jon Lord.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Billy Blanco - Paulistana, Retrato de uma Cidade (1974)

Neste 25 de janeiro, comemoração dos 455 anos da cidade de São Paulo, reproduzimos abaixo a resenha originalmente publicada no Rate Your Music, de clássico álbum de Billy Blanco, uma das mais belas homenagens prestadas à maior cidade do Brasil. O texto é de 2007

Paulistana, Retrato de uma Cidade
Acredito que não passe um 25 de janeiro no qual não se ouça um coro afinado cantando: ‘São Paulo que amanhece trabalhando’. É o “Tema de São Paulo”, de Billy Blanco, letra e melodia que são o leitmotiv deste álbum conceitual. O outro tema desta ode é “Amanhecendo”, do qual muitos vão se lembrar por ser usado nas manhãs de uma famosa rádio noticiosa de São Paulo: entre uma mentira e outra, entre um comentário que flerta com o fascismo e uma entrevista com algum porta-voz da classe média chorona, entre uma reportagem tendenciosa e um dado contestável, pode-se ouvir o coro que entoa ‘começou um novo dia, já volta quem ia, o tempo é de chegar’; depois, em “O Tempo e a Hora”, ‘vombora, vombora, olha a hora, vombora’: bom ouvir isso direto do disco do Billy Blanco e não das ondas irradiadas por aqueles que abusam da concessão de um serviço público ofertado por toda a sociedade, bom ouvi-lo de uma obra produzida pela lenda Aloysio de Oliveira e não daqueles que se escondem por trás da covardia que denominam liberdade de imprensa. Aliás, amigos leitores, há uma frase de “O Tempo e a Hora” que diz, na bela voz da cantora Cláudia, que ‘o que vale é a versão, pouco interessa o fato’! Há algum freudiano aí?
E o disco fala, é claro, das coisas e das personagens de São Paulo: a carioca Elza Soares canta os imigrantes em “Capital do Tempo” e a tradição esportiva da cidade em “Pro Esporte”; Pery Ribeiro faz a “Louvação de Anchieta”, canta as “Coisas da Noite”, avança as fronteiras da cidade rumo à “Grande São Paulo” e via a “São Paulo Jovem” de então andar em duas rodas, com um rapaz guiando e uma moça na garupa, numa cena própria de um tempo em que a palavra motoboy seria um neologismo que causaria risos; a já citada Cláudia presta justiça a “Bartira”, aquela que Billy chama de índia-madre nas notas do disco; Miltinho, em “Viva o Camelô”, fala de uma figura folclórica, anterior à profissionalização do “bico” e de suas imbricações com o crime organizado; Claudette Soares nos mostra que o “Céu de São Paulo” já não era tão azul, mas que isso não importava para quem só tinha olhos para o asfalto; Nadinho da Ilha fala de uma das personagens mais conhecidas, amadas, cultuadas, desejadas e procuradas de São Paulo, a saber, “O Dinheiro”; e o coro manda ver numa irresistível levada rock para a “Rua Augusta” de Billy Blanco, que diferentemente da de Hervê Cordovil, não era espaço para a velocidade, mas para o caminhar leve, despreocupado, de moças olhando vitrines, enquanto eram admiradas nas suas roupas da moda.
Não deve ter sido à toa que o paraense Billy Blanco, para este disco produzido pelo carioca Aloysio de Oliveira, tenha convidado tantos artistas não nascidos em São Paulo: deve ter querido chamar a atenção para a idéia de cidade que tudo – e a todos - abraça. E o maestro Chiquinho de Moraes, na orquestração do álbum, valeu-se de características brasileiras numa linguagem universal, como sói acontecer com as coisas de São Paulo.
Agora, se me permitem, uma "provocaçãozinha": se eu me interessasse por política, diria apenas que o disco foi – a meu ver - por demais condescendente com nós paulistas, ao deixar de lado nosso conservadorismo e provincianismo, qualidades que, no mais, devem ser democraticamente respeitadas. Mas Billy Blanco talvez tenha até feito bem, pois para mim é muito triste lembrar que, por exemplo, Juscelino Kubitschek e Luiz Inácio Lula da Silva, dois dos presidentes mais populares da história do Brasil, dividem a nada honrosa pecha de serem os únicos que foram eleitos diretamente sem vencer em São Paulo. E olha que eu nem sou muito admirador de Juscelino... Mas São Paulo daquela feita preferiu Adhemar de Barros. Mais conservadora e provinciana impossível!
São Paulo, em 1974, ainda era a cidade das oportunidades, a cidade que mais crescia no mundo, ainda ostentava as características de city boom que mereceu chamada de capa da revista Time em 1952 (quando ainda era a segunda cidade do Brasil); em 1974, passados 20 anos, parecia que ainda não havia acordado da mística dos quatrocentos anos. E hoje, como seria a música de uma Paulistana 2007? Alguém aí se habilita?
São Paulo, 29 de abril de 2007.


Mais resenhas e informações deste álbum e de seus relançamentos, clique aqui.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Vagabundos de todo o mundo, relaxemo-nos!


O que seria deste humílimo blog não fossem os criativos e-mails que nos mandam vez ou outra?!

Há poucos dias, recebi de um amigo mensagem intitulada "A resposta do ano!!!", com a imagem que ilustra o presente (veja ao lado), devidamente anexada. Como o leitor pode ler, trata-se de uma foto com uma faixa destacando a seguinte frase: "Tá perdendo Marta? Relaxa e goza!" (sic)

Não sei se realmente houve alguém que se deu ao trabalho de mandar produzir e depois, ao arrepio das leis municipais, pendurar nas vias públicas semelhante faixa. Talvez seja apenas uma montagem bem realizada... Mas, seja como for, o autor daquela bobagem não é muito devotado às regras gramaticais, haja vista que se esqueceu de separar o vocativo por vírgula (o certo seria " perdendo, Marta?). Mas, bem, deixa para lá, afinal o autor destas maldigitadas não tem tanto direito assim de ficar falando dos erros de português dos outros!

Mas, de qualquer forma, ouviu-se muito durante a campanha pela prefeitura de São Paulo a menção à infeliz frase de Marta Suplicy, proferida quando do lançamento do Plano Nacional de Turismo, em 2007, exatamente no auge da assim chamada crise aérea. A frase com certeza foi infeliz, como já dissemos. Porém, apresentada de forma recortada, ela fica descontextualizada. Em verdade, a então ministra do Turismo disse: "Relaxa e goza porque você esquece todos os transtornos depois [ao chegar ao destino]", mais adiante, arrematou: "Isso é igual a parto. Depois esquece tudo". Pois bem, amigo leitor, honestamente, você pensa de forma muito diferente? Se o paciente leitor não se importa, contarei um relato pessoal. Há exatamente três anos, minha esposa viajou para a Europa. Saiu de São Paulo animadíssima rumo a Berlim, porém com conexão em Madri. Mas, na manhãzinha do dia seguinte, eis que atendo um telefonema. Era ela chorando, xingando, reclamando: as autoridades espanholas inexplicavelmente a detiveram. Só o que ela dizia é que queria voltar, queria voltar, porque queria voltar, a viagem já era, estava tudo estragado, o sofrimento era infindável, que ela não tinha sorte, que as coisas só aconteciam com ela etc. etc. etc. E eu, de meu lado, simplesmente lhe disse: "calma, neném, vai dar tudo certo. Assim que você chegar à Alemanha e começar a fazer os passeios, a realizar as suas atividades, a curtir tudo o que planejou, você vai esquecer os dissabores. Fique tranqüila...". Olha, faltou pouco para eu dizer "relaxa e goza"! Ah, antes que eu me esqueça, só para variar eu estava coberto de razão: rapidinho ela esqueceu as sacanagens cometidas em solo espanhol.

Sei que muita gente ficou chocada com a expressão um tanto chula (relaxa e goza), talvez até mais do que com os possíveis contextos da frase da petista. Mas, cá entre nós, é um pouco de moralismo demais numa era em que as crianças falam coisas muito piores sentadas à mesa de jantar. Isso quando se sentam à mesa para jantar...

Os políticos em geral medem muito as palavras. Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, costumam deixar ser engolidos pela incontinência verbal. O povo e a mídia, entretanto, adoram isolar as besteiras por eles proferidas de seus contextos originais. A ex-ministra, portanto, não foi a primeira vítima de tal golpe baixo. Por exemplo, o "estupra mas não mata", de Paulo Maluf, também soa pior quando isolado do verdadeiro objetivo do folclórico político ao dizê-lo: em realidade, Maluf quis mostrar-se indignado com o fato de uma pessoa cometer um ato que já seria execrável por si só e ainda incrementá-lo com o "evento" morte; noutras palavras, ele, em momento de absoluta infelicidade, quis valer-se de expressão semelhante a muitas não raro repetidas por aí, do tipo "pô, já roubou, precisa bater, ou precisa matar?"... Outro que se estrepou por usar adjetivo errado no momento errado foi FHC, ao chamar certo tipo de aposentado de "vagabundo". O ex-presidente estava se referindo a um seleto grupo beneficiário de aposentadorias especiais, mas o que se viu na época foi um verdadeiro exército de velhinhos que não se enquadravam na descrição daquele "séqüito" transbordando indignação pela agressão que, a bem da verdade, repita-se, em absoluto não se dirigia a eles. Tudo bem que os tais beneficiários de aposentadorias especiais não cometeram nenhum crime, afinal estavam aposentados por força de lei da época. De todo modo, fora de contexto, a frase de Fernando Henrique soa pior do que o que ela realmente significava.

Mas, além da incontinência, há o destempero verbal. Neste quesito é difícil imaginar alguém que supere o prefeito reeleito de São Paulo, Gilberto Kassab, que, também em 2007, durante a inauguração de um posto de saúde em Pirituba, agrediu um munícipe: "sai daqui, vagabundo!", fato que o simpático leitor certamente se lembra. Com efeito, é bem a cara da elitista São Paulo: choca-se com o "conselho" de Marta Suplicy aos (em sua maioria) privilegiados usuários do transporte aéreo, punindo-a com altos índices de rejeição, mas aprova o homem público que humilha um manifestante pobre, premiando-o com respeitável votação (com perdão do eco!).

É claro que, no andar da carruagem, houve boa dose de pragmatismo e alguma memória seletiva por parte do eleitor. Mas, na época, quando do "arroubo kassabiano", houve, de fato, o ensaio de certo repúdio, aqui e acolá, tanto por parte da mídia quanto da gente comum. Mas as pessoas apenas se mostravam indignadas com a situação pelo fato de o Sr. Kaiser, o cidadão vilipendiado pelo prefeito, ser comprovadamente um homem honesto e trabalhador. Ora, mesmo que ele fosse realmente um vagabundo, não caberia ao prefeito ter agido daquela maneira tresloucada nem ter se dirigido de forma a diminuir a dignidade daquele ser humano. Noutras palavras, não é função de prefeito enxovalhar "vagabundos", mesmo quando for o caso.

Como já disse, não dá para ter certeza se existiu mesmo a tal faixa e se ela de fato foi colocada em local público. Caso tenha sido verdade, não deixa de ser irônico que um - pelo que tudo indica - eleitor do prefeito da lei "cidade limpa" não tenha tido pudores de emporcalhar a cidade, infringindo as leis de posturas municipais. Cá entre nós, é coisa típica da classe média paulistana! Pobre São Paulo!!!


sábado, 1 de novembro de 2008

Eleições municipais 2008 - São Paulo - considerações finais

Do resultado das eleições municipais de São Paulo foi falado tratar-se de uma vitória da racionalidade do eleitor, que teria votado pragmaticamente, de olho no seu interesse nas coisas que lhe diziam diretamente a respeito, o que quer dizer, sob essa leitura, que o sufrágio do paulistano foi essencialmente “municipalizado”. Por outro lado, diversos analistas, quando não os mesmos do diagnóstico anterior, viram na vitória de Kassab um trunfo do governador José Serra com vistas a 2010, o que seria ao mesmo tempo, e por conseqüência, uma derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que teria dado dimensão nacional ao escrutínio paulistano.

Ambas as análises parecem ser contraditórias entre si, além de não sobreviverem isoladamente se observadas pelo olhar crítico.

Primeiramente, os comentaristas e os cientistas políticos precisavam decidir se, afinal, o paulistano votou simplesmente preocupado com a cidade e, desse modo, premiou uma administração que considera aceitável, ou se quis ir além, mandando recados para possíveis presidenciáveis de 2010. Alguém pode até achar que as duas coisas não necessariamente se excluem mutuamente. Faltou, entretanto, explicar em suas análises como isso se dá na prática.

Em segundo lugar, merece ser questionada tanto a afirmação de ter sido racional a escolha do eleitor da capital de São Paulo quanto a de ter sido uma vitória do grupo de Serra o resultado do pleito no município.

Racionalidade?
Ao falar da racionalidade dos eleitores, os analistas quiseram se referir ao fato de que ele teria deixado de lado suas paixões e preferências lato sensu e simplesmente calculado o que seria melhor naquele momento: manter o atual prefeito e, assim, prestigiar suas políticas, ou mudar tudo de acordo com sua predileção partidária ou simpatia pessoal. Noutras palavras, de acordo com esse entendimento, o paulistano pensou acima de tudo na cidade. Muito bem. Mas é bom não deixar se perder de vista que a “moderna” cidade de São Paulo deu sobrevida ao ex-PFL, varrido do mapa até mesmo em muitos rincões que ainda lhe davam sustentação. Mas, dirão alguns, a tal escolha racional do eleitor passa justamente pelo fato de o morador da maior cidade do país não ter sequer pensado em partido na hora de votar, antes fazendo sua opção na comparação das habilidades dos candidatos. Pois bem. Se de fato racionalidade é isso, então se deve concluir que a mídia, intelectuais e até mesmo a classe política andam mentindo muito quando falam da importância do fortalecimento dos partidos, da fidelidade partidária, na necessidade de diminuir a “personalização” na política. Quer dizer, então, que os partidos políticos são de capital importância, exceto quando uma bandeira do atraso ganha na cosmopolita São Paulo?! O voto na pessoa pela pessoa é algo horrível, vejam só o Lula... Mas o voto no homem Kassab é superbacana, principalmente se for para derrotar o bem organizado partido político chamado PT!

Municipal ou nacional?
Se a eleição foi de fato por demais localizada, não se deveria atribuir os louros da vitória de Kassab ao governador José Serra, mesmo com a generosidade subserviente do prefeito reeleito, que não se importou de dividir as glórias com o peessedebista. Há que se dizer que não chega a surpreender resultado mais pró-Serra na cidade, haja vista que São Paulo sempre foi meio “do contra” quando o assunto é presidente popular. Ademais, parece que a imprensa de vez em quando se esquece, mas a eleição para presidente não ocorre apenas na maior cidade da América do Sul. Dessa forma, se é que o eleitor “brasileiro” mandou algum recado para 2010, ele foi mais favorável ao presidente Lula, que viu seu partido conquistar mais municípios espalhados por todo o país. Fora isso, será que alguém teria coragem de apostar as fichas no tucano numa eventual disputa direta entre ele e o atual presidente? Tudo bem, Lula não poderá disputar a reeleição em 2010, e como não restou provado que sua popularidade redunde na transferência de votos, o governador Serra, sob esse prisma, teria mais chances do que o candidato que vier a ser apresentado pelo Planalto. Ora, senhores analistas, não se esqueçam da tal “racionalidade” do eleitor, que bem pode querer a continuidade em 2010 e, portanto, preferir o low profile de, por exemplo, Dilma Roussef ao pop star José Serra. Se Kassab alcançou tão notável êxito, por que a ministra-chefe da Casa Civil não pode?

Mas as eleições municipais foram só... municipais, e 2010 ainda está longe. Há crise econômica internacional rolando, tem novo presidente americano chegando por aí. Guardemos, pois, nossas bolas de cristal!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Eleições Municipais 2008 - São Paulo - Debates para quem precisa

Para que servem os debates?

Os políticos sempre falam da importância deles; a imprensa lhes dá o maior cartaz; alguns eleitores dissimulados afirmam ser eles importantes na hora de decidir o voto.

Será que é tudo isso mesmo?

Na primeira pesquisa do Datafolha para o segundo turno da disputa na capital de São Paulo foi medida a cristalização do voto. Ela não era nada desprezível: a maioria esmagadora dos eleitores garantiu que ja havia definido, sem chances de mudar, o seu candidato. É de se presumir, portanto, que os debates não afetam um tão grande número de eleitores assim.

Mas, a despeito disso, já ocorreram dois debates de Marta e Kassab, um na Bandeirantes e outro na Record, e ocorrerá um terceiro na Globo. Já os vimos trocando acusações, ela falando do que fez, ele falando do que está fazendo; no mais, quase nada de propostas, apenas "promessas" que se repetiram em ambos os debates e que certamente "baterão ponto" novamente no derradeiro que está por ocorrer.

Mas toda a discussão acerca dos debates e seus desdobramentos não deve ser de graça. Provavelmente é conseqüência dos exageros da mídia, a única que realmente se beneficia dessa overdose, pois sempre pode explorar as farpas, as gafes, as polêmicas que inevitavelmente ocorrem nesse tipo de encontro.

Já para a sua excelência, o eleitor, não serve para nada. Pergunto: será quantos eleitores deixarão de votar em Gilberto Kassab por ele ter sido desmascarado, no debate da Band, quanto à questão da licença de 180 dias das servidoras do município, por exemplo? Numa pergunta sobre o assunto, Marta deu um golpe mortal no candidato do DEM, chamando atenção para o fato de que ele vetara o projeto, para depois, eleitoreiramente, reapresentá-lo. Não vi, no dia-a-dia, nenhuma ressonância sobre tão importante demonstração do caráter do candidato, numa prova cabal de que o ser péssimo e o ser ótimo no debate talvez esteja separado por uma linha muito tênue.

Seja sincero, caro leitor: algum dos candidatos foi tão melhor assim no debate da Record? Penso que não, houve um equilíbrio, sem dúvida. Mas algumas horas depois, enquete do site do Estadão dava que o prefeito fora melhor para 86% dos votantes. Ora, ainda que se admitisse que Kassab possa ter se saído melhor, não foi nada que justificasse uma "lavada" daquelas! Em verdade o que ocorre é que, como seria de se esperar, os leitores do superconservador jornal paulistano apóiam em peso o candidato democrata. Nada mais fizeram, pois, do que manifestar suas preferências. Nada de novo no front: se Kassab tivesse passado a noite inteira só olhando para a câmera, fazendo caretas ou piscando para as suas (agora) pretendentes, ele continuaria parecendo o melhor para 86% de potenciais leitores do Estadão, pode apostar!

Depois alguém me conta como foi o debate da Globo, pois eu não pretendo perder meu tempo.

Obrigado!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Eleições Municipais 2008 - São Paulo - Hipocrisias

Polêmica que vem agitando a campanha pela sucessão da prefeitura paulistana não mostra apenas a desfaçatez dos políticos, mas também diz muito sobre o caráter prático da conduta do eleitor.

Marta Suplicy, mulher que de longa data trabalha em prol do respeito à diversidade e em favor de uma melhor educação sexual, permitiu que sua equipe de campanha veiculasse propaganda que fazia insinuações sobre a vida íntima de seu adversário. Chamemos esse evento de “cara-de-pau nº1”.

Como o leitor deve ter presumido, existe uma “cara-de-pau n°2”, e ela vem justamente do prefeito e de seu partido e de seus aliados. Mostram-se ofendidos, mas sempre adoraram espezinhar sobre a vida pessoal de seus adversários e não são dados a ter papas na língua na hora de fazer críticas à dimensão meramente humana, por assim dizer, de seus antagonistas (o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que o diga!).

Quem não se lembra de a campanha de José Serra, padrinho de Kassab, em 2002, tripudiar em cima da escolaridade do então candidato Lula? Já a própria Marta, em 2004, sofreu forte onda de preconceito em decorrência de decisões pessoais concernentes à sua vida conjugal. Mas tudo isso, em vez de habilitá-la a ela e a seu partido a usarem de expediente tão baixo, deveria antes servir-lhes de recomendação para serem mais zelosos com comentários sobre a vida pessoal alheia.

Mas falemos do eleitor. Em nome da elegância, evitaremos com muito custo de falar de uma “cara-de-pau nº3”, mas a grande verdade é que nós cidadãos não sabemos bem para que lado vamos e costumamos ter um moralismo para lá de seletivo, de acordo com nossas preferências: o mesmo sujeito que sempre odiou a Sra. Marta Suplicy em virtude de sua atuação simpática às causas dos homossexuais, agora se mostra chocado com uma possível exploração sobre a vida sexual de seu adversário. O mesmo eleitor que talvez a tenha abandonado em 2004 por causa de seu casamento desfeito, considera hoje sem sentido a pergunta sobre a vida conjugal (ou a ausência dela) do prefeito Kassab.

Tudo isso só prova que estamos todos no mesmo barco: a ex-prefeita com sua incompreensível baixaria, o atual prefeito e o seu partido com sua cínica indignação, e nós os eleitores com o nosso, digamos, “pragmatismo”!