Os que passeiam pela Avenida Paulista já devem ter parado por alguns segundos na calçada, enquanto aguardam veículos entrarem em estacionamentos ou saírem deles. Isso mesmo: os transeuntes param, com toda a boa vontade do mundo, para que os carros transitem, sem qualquer cerimônia, naquele que deveria ser, por excelência, espaço exclusivo do pedestre. É a típica experiência que os que lá caminham certamente já vivenciaram.
Os mais atentos talvez já tenham observado, na mesma Paulista, outra excrescência, só possível mesmo em São Paulo: os veículos saem dos estacionamentos, quase atropelando os pedestres na calçada, para, finalmente, pegar o leito carroçável; para tanto, é necessário que os motoristas tenham a mesma solicitude que os pedestres têm na saída dos estacionamentos, certo? E não é que os motoristas dos carros "de passeio" simplesmente não dão vez? Pode observar, caro leitor: em geral, quem dá a oportunidade para que o veículo atinja o asfalto são os motoristas de ônibus. Isso mesmo, meu caro integrante do MSC (movimento dos sem-carro)! Aquele mesmo motorista de ônibus que às vezes não para quando você dá sinal, ou que se recusa a parar meio metro fora do ponto, ou que não para onde vossa senhoria deseja descer... Este mesmo motorista, quando se trata de dar a vez para automóveis egressos de estacionamentos na Avenida Paulista, é o primeiro a demonstrar-se generoso, solícito e simpático.
Nada a estranhar, infelizmente. Mais uma vez, forçoso é repetir, é típico de São Paulo. Em dose cavalar, o que se tem nestes casos é a priorização do individual sobre o coletivo. A calçada - de algum modo democrática -, em vez de espaço do cidadão, que não pode se atrever a tomar o asfalto, vira ponto de passagem de automóveis que carregam, não raro, um único indivíduo dentro. E os ônibus - o "transporte coletivo" por definição -, certamente por decisão unilateral de seu motorista, faz pouco caso das dezenas de pessoas que carregam, para beneficiar o solitário ocupante de carros de todos os tipos, modelos, anos e preços.
Ah, antes que me perguntem, vou avisando que já vi alguns pouquíssimos motoristas dos carros particulares agradecendo aos condutores de ônibus pela cordialidade; aos pedestres, nunca.
O VAR, com todas as letras
Há 4 semanas
