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domingo, 19 de março de 2017

Chuck Berry (1926-2017)

"Se você tentasse dar outro nome ao rock'n'roll, poderia chamá-lo de Chuck Berry" (John Lennon)
Desnecessário falar muito sobre essa lenda das artes do século XX, uma vez que basta ir aos sítios das principais publicações e lá encontrar inúmeros obituários, alguns enxutos, outros bem completos, dando a real dimensão dessa fera falecida no dia 18/3/2017 aos 90 anos de idade.
Vou pedir permissão apenas para juntar pequena resenha escrita, há alguns bons anos, para o sítio RateYourMusic.com acerca da excelente coletânea "The Great Twenty-Eight", desculpando-nos antecipadamente pelo mau inglês. Ao final, vídeo de Berry interpretando "Johnny B. Goode" no ano em que começava sua longa história, 1958.













Chuck Berry - The Great Twenty-Eight (1982)

I’ve recently watched a pop music documentary on TV, in which singer/songwriter Neil Sedaka talked about his method of writing songs in the fifties. He said he listened to hits of many countries, he tried to capture something common in them, put a name of a girl, a romantic lyric and the result would be a success!
I believe Chuck Berry also walked a similar way. Besides suggestions of Sedaka, the guitarist added names of cities, lyrics about cars and adult themes. 
Okay, okay! Charles Edward Berry was many steps beyond Neil, we must agree. This is because the urban blues influenced him; people as Willie DixonLafayette Leake and Otis Spann accompanied him; he recorded at “magic” Chess Records Studios that time: it would be impossible something’s gone wrong.
The Great Twenty-Eight: while you listening to it, each song that is rolling seems the best of all; changed the song, this is better; next song? You will consider it the best.
According to John Lennon“if we tried rename rock’ n’ roll, we could call it Chuck Berry. Who am I to disagree with him?



sábado, 2 de novembro de 2013

A primeira semana sem Lou Reed

 Sempre que vejo, neste início do XXI, alguma figura fundamental do mundo da arte e da cultura indo embora, costumo dizer que é o século XX morrendo. E, nos últimos tempos, tal ilustração foi tão verdadeira quanto no caso do falecimento do roqueiro Lou Reed, morto no dia 27 de outubro de 2013, aos 71 anos, brilhante primeiramente como líder do lendário The Velvet Underground e em seguida em notável carreira solo.

Falando do legado do genial artista, um amigo lembrou-me de uma triste coincidência: minha mais recente resenha para o sítio RateYourMusic foi sobre o terceiro disco do Velvet Underground, o homônimo de 1969, justamente o trabalho no qual a banda já não contava com John Cale, funcionando como grupo genuinamente de Reed, sem, é claro, desmerecer os demais integrantes.

Em homenagem ao já saudoso roqueiro, reproduzimos abaixo a pequena resenha (original aqui). Ao final, ouça a faixa "Jesus", que encerra o lado A do LP.


The Velvet Underground (1969)

Este homônimo de 1969 deve ser avaliado como uma saída para os roqueiros que não foram fisgados ao primeiro contato com o Velvet Underground.
Há aqueles que, com razão, consideram exagerado o endeusamento do primeiro disco, produzido por Andy Warhol e com participação de Nico.
Outros ficam assustados com as distorções, ruídos e experimentalismos de White Light/White Heat, o segundo álbum do grupo.
Neste terceiro, a banda, já sem John Cale, soa mais, digamos, normal, enveredando pelo rock e folk sem firulas, com direito a refrões mais ou menos pegajosos e riffs que não fazem feio para quem quer apenas ser pop.
Destaque para os vocais de Lou Reed, em seu melhor  momento: superapaixonados e com arrepiante atitude rock - não me perguntem o que é isso: sinto mas não sei explicar.
Para não perder o costume, "The Murder Mystery", em seus quase nove minutos, paga tributo aos discos anteriores, não deixando totalmente órfãos os admiradores das esquisitices dos dois primeiros.


domingo, 11 de julho de 2010

Brasil e Holanda

Por ocasião do grande sucesso da Holanda na Copa do Mundo 2010, a Record News exibiu reportagem destacando uma cidadezinha do país, toda enfeitada com a cor laranja. Chamou a atenção o fato de as residências, o comércio e até os automóveis estarem alaranjados. Pelo que mostrou no vídeo, não se viam pinturas do vibrante colorido nas calçadas ou no asfalto.

No Brasil, em época de Copa do Mundo, costuma-se liberar a fera patriótica adormecida em cada brasileiro e as cores verde e amarelo ganham a paisagem. Diferentemente da Holanda, não se veem, todavia, as paredes ou muros de casa muito decorados; antes as cores do País vão parar preferencialmente nas guias, no passeio público e no leito carroçável dos bairros.

É uma questão cultural. Se não estou enganado, Roberto da Matta tem um trabalho que justamente trata das maneiras diferentes com que se pode lidar com a "casa" e a "rua" e suas possíveis implicações. E se a reportagem da Record não foi muito simplista e superficial, dá para imaginar que os holandeses são mais preocupados com o espaço público do que somos nós brasileiros.

A cidade de São Paulo conta com uma legislação de posturas municipais por demais rígida, proibindo - caso mais uma vez não nos enganemos - intervenção de particulares no leito carroçável. Evidentemente ninguém dá a mínima: não só a galera exagerou nas pinturas no asfalto, como, para fazê-lo, teve que fechar, sem prévio aviso às autoridades, as ruas. Estranhamente, não se viu ninguém reclamando - e olha que os motoristas estão sempre prontos a choramingar quando, por qualquer motivo, são impedidos de trafegar em uma via qualquer.

Os holandeses da pequena cidade exibida na reportagem tiveram iniciativa difícil de imaginar aqui no Brasil: coloriram a própria casa e meteram tinta nos seus automóveis. Façamos um exercício: imagine o mesmo sujeito que perdeu algum tempinho pintando as vias de São Paulo jogando tinta verde e amarela nas paredes da própria casa ou, pior, passando uma demão de cores da nossa bandeira no capô do carro. Impensável, não?

Nossa cultura é mesmo assim: da casa para a rua tudo é permitido; do portão para dentro a coisa muda. O leitor decerto lembrar-se-á dos próprios pais que recriminam o uso de palavrões dentro do lar, mas, se o filho quiser falar tais "besteiras" na rua, tudo bem!

A confusão do público e privado advém daí, sem dúvida. Ao pintar guias e asfalto sem licença do poder constituído, trato aquilo que é público não tanto como se fosse particular, mas, pior, trato-o como se fosse terra de ninguém. Algo que até poderia ser bacana, se, de outro lado, os cidadãos fizessem isso por sentirem-se, em conjunto, "donos" do espaço público, o que, convenhamos, em absoluto não ocorre.

Já na Holanda parece que se preservou o espaço eminentemente público, ao passo que se reservou para o âmbito privado a exibição, na forma de cores e enfeites, do orgulho e amor à pátria.

É, portanto, da relação do público e privado que se trata. Brasil e Holanda parecem diferentes nessa abordagem, ao menos quando tomados tão isolados exemplos. Pergunta: qual das duas formas de encarar o público e o privado é mais culturalmente compatível com a corrupção?

sábado, 2 de maio de 2009

Virada Cultural 2009

O tecladista Jon Lord deu início às atividades da Virada Cultural 2009 na histórica Av. São João. Acompanhado da Orquestra Sinfônica Municipal, o músico reproduziu o álbum Concerto for Group and Orchestra, composto por ele em 1969, no qual a sua banda, Deep Purple, tocou com a Royal Philarmonic Orchestra.

Muito atraso e um público apático, quando não desrespeitoso, não permitiram que o espetáculo fosse dos mais primorosos. Vale lembrar que aquele disco não costuma também figurar entre os trabalhos mais empolgantes do lendário grupo inglês. Este escriba, um pouco irritado com certo burburinho de uma galera que talvez não estivesse preparada para aquele tipo de espetáculo, preferiu sair um pouco antes do final, com sinceras lamentações por não ter optado por ficar em frente ao telão em vez de em frente ao palco (sorry, Walter Benjamin!), onde certamente dava para fruir melhor da apresentação.

De qualquer modo, foi uma bela iniciativa da Secretaria de Cultura de São Paulo ter trazido para essa edição da Virada um monstro do rock da grandeza de Jon Lord.

domingo, 27 de abril de 2008

Virada Cultural: um comentário idem


A Virada Cultural na cidade de São Paulo está mais forte a cada edição. Em 2008 houve aumento de atrações em relação ao ano anterior. Música, cinema, dança, performances, exposições: tudo teve vez nas pouco mais de 24 horas que se iniciaram no sábado 26 às 18h.

A grande verdade é que a maior cidade brasileira é um turbilhão cultural praticamente o ano todo. Os que ficam ligados na sua programação certamente confirmarão que sempre há nela algum tipo de evento, senão gratuito, a preços populares (sem falar dos programas nem tão populares assim!).

O que a Virada traz de diferente para o panorama cultural da cidade talvez seja um elemento de condensação das atividades, além de intrinsecamente oferecer um clamoroso “convite” à população para que delas participe. O espírito do convite, em verdade, deveria existir o ano inteiro e não somente nalgum fim de semana outonal. Este escriba mesmo não quis ficar de fora da festa e assistiu ao vídeo The Velvet Underground & Nico, de Andy Warhol, no SESC Pompéia, pegou um pouco de uma jam na Barão de Itapetininga aparentemente com Andreas Kisser, Paulo Zinner e outros, viu um pouco de Bocato num improviso instrumental no Anhangabaú, acompanhou a íntegra da apresentação do lendário Afrika Bambaataa, no Parque Dom Pedro e, por fim, ainda "ouviu" (não deu para ver) um tiquinho da apresentação de Jorge Ben na São João. Numa situação normal, se bem me conheço, abdicaria, preguiçosamente, de aproveitar tais oportunidades. Se estivesse muito a fim, por exemplo, do vídeo do Velvet, comprá-lo-ia; quanto ao DJ americano, apenas guardaria a reverência pela sua importância histórica, sem chegar ao ponto de assistir a uma sua "performance", mesmo que gratuita. Mas o “ambiente” da Virada Cultural nos compele a sair de casa e participar da vida da cidade. Tal clima, diga-se, já estava presente mesmo nos dias que antecederam a este fatídico final de semana: viam-se pessoas querendo informar-se sobre as atrações, grupos reuniam-se em volta dos totens instalados nos locais dos eventos para conferir o que iria rolar por lá, os prospectos com a programação completa eram disputados quase como um troféu.

A Virada Cultural – com perdão do clichê para lá de piegas – é um evento de intensa “magia”. Mas não se deve permitir que sua intensidade restrinja a ocorrência do “abraço cultural” entre o povo e a cidade a um evento isolado. É evidente a grande dificuldade de se realizar de forma simultânea encontros tão grandiosos diversas vezes num ano. Mas, em se tratando de uma cidade -conforme já dissemos - repleta de eventos o ano inteiro, ao menos os mecanismos de divulgação poderiam ser mais eficientes. E o clima de convite à participação dos moradores é algo que deve ser trabalhado aos poucos. Isso que chamamos de “clima de convite” é mais difícil de explicar e mais complicado de expressar: ele parece estar mais no campo das sensações e, por isso, é de percepção individual, subjetiva. Talvez, para se sedimentar, ele tenha que vir num “pacote” mais completo de realizações. Um pacote que indique compromissos, por parte do poder público, de mais investimentos na cultura, educação, saúde, enfim, de mais preocupações e respeito com a coisa pública. Falamos acima de um suposto “abraço cultural” entre cidade e população. O abraço é um ato de reciprocidade. Por isso, não bastam apenas os esforços públicos na divulgação da cultura e fomento a ela. É preciso também que todos nós estejamos dispostos a fruir e a participar do que nos é colocado à disposição quase que nos 365 dias do ano na maior cidade do hemisfério sul.

Nas cidades brasileiras em que o carnaval é tradicionalmente mais forte, sempre se ouvem alguns de seus moradores manifestando o desejo de que ao menos o "clima" daquela festa persistisse o ano inteiro. Seria desejável que a “magia” da Virada Cultural também perdurasse o tempo todo em São Paulo: sem dúvida que a cidade seria mais humana, menos violenta, mais acolhedora.

Aquele abraço!