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domingo, 19 de março de 2017

Chuck Berry (1926-2017)

"Se você tentasse dar outro nome ao rock'n'roll, poderia chamá-lo de Chuck Berry" (John Lennon)
Desnecessário falar muito sobre essa lenda das artes do século XX, uma vez que basta ir aos sítios das principais publicações e lá encontrar inúmeros obituários, alguns enxutos, outros bem completos, dando a real dimensão dessa fera falecida no dia 18/3/2017 aos 90 anos de idade.
Vou pedir permissão apenas para juntar pequena resenha escrita, há alguns bons anos, para o sítio RateYourMusic.com acerca da excelente coletânea "The Great Twenty-Eight", desculpando-nos antecipadamente pelo mau inglês. Ao final, vídeo de Berry interpretando "Johnny B. Goode" no ano em que começava sua longa história, 1958.













Chuck Berry - The Great Twenty-Eight (1982)

I’ve recently watched a pop music documentary on TV, in which singer/songwriter Neil Sedaka talked about his method of writing songs in the fifties. He said he listened to hits of many countries, he tried to capture something common in them, put a name of a girl, a romantic lyric and the result would be a success!
I believe Chuck Berry also walked a similar way. Besides suggestions of Sedaka, the guitarist added names of cities, lyrics about cars and adult themes. 
Okay, okay! Charles Edward Berry was many steps beyond Neil, we must agree. This is because the urban blues influenced him; people as Willie DixonLafayette Leake and Otis Spann accompanied him; he recorded at “magic” Chess Records Studios that time: it would be impossible something’s gone wrong.
The Great Twenty-Eight: while you listening to it, each song that is rolling seems the best of all; changed the song, this is better; next song? You will consider it the best.
According to John Lennon“if we tried rename rock’ n’ roll, we could call it Chuck Berry. Who am I to disagree with him?



sábado, 2 de novembro de 2013

A primeira semana sem Lou Reed

 Sempre que vejo, neste início do XXI, alguma figura fundamental do mundo da arte e da cultura indo embora, costumo dizer que é o século XX morrendo. E, nos últimos tempos, tal ilustração foi tão verdadeira quanto no caso do falecimento do roqueiro Lou Reed, morto no dia 27 de outubro de 2013, aos 71 anos, brilhante primeiramente como líder do lendário The Velvet Underground e em seguida em notável carreira solo.

Falando do legado do genial artista, um amigo lembrou-me de uma triste coincidência: minha mais recente resenha para o sítio RateYourMusic foi sobre o terceiro disco do Velvet Underground, o homônimo de 1969, justamente o trabalho no qual a banda já não contava com John Cale, funcionando como grupo genuinamente de Reed, sem, é claro, desmerecer os demais integrantes.

Em homenagem ao já saudoso roqueiro, reproduzimos abaixo a pequena resenha (original aqui). Ao final, ouça a faixa "Jesus", que encerra o lado A do LP.


The Velvet Underground (1969)

Este homônimo de 1969 deve ser avaliado como uma saída para os roqueiros que não foram fisgados ao primeiro contato com o Velvet Underground.
Há aqueles que, com razão, consideram exagerado o endeusamento do primeiro disco, produzido por Andy Warhol e com participação de Nico.
Outros ficam assustados com as distorções, ruídos e experimentalismos de White Light/White Heat, o segundo álbum do grupo.
Neste terceiro, a banda, já sem John Cale, soa mais, digamos, normal, enveredando pelo rock e folk sem firulas, com direito a refrões mais ou menos pegajosos e riffs que não fazem feio para quem quer apenas ser pop.
Destaque para os vocais de Lou Reed, em seu melhor  momento: superapaixonados e com arrepiante atitude rock - não me perguntem o que é isso: sinto mas não sei explicar.
Para não perder o costume, "The Murder Mystery", em seus quase nove minutos, paga tributo aos discos anteriores, não deixando totalmente órfãos os admiradores das esquisitices dos dois primeiros.


sábado, 30 de julho de 2011

A mí(s)tica dos 27 anos

Muito se tem falado nos últimos dias sobre o fato incrivelmente curioso de artistas pop falecidos aos 27 anos de idade.

A morte da cantora Amy Winehouse ajudou a botar mais fogo nessa lenda, juntando-se a grupo que conta com Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, todos mortos aos 27.

Uma amiga no trabalho, em tom de pilhéria, disse que a inglesa deve ter forçado a barra para “conseguir” morrer aos 27, talvez com a garantia de se tornar “eterna”, por assim dizer.

A bem-humorada suspeita, a despeito de seu absurdo, não deixa de, paradoxalmente, fazer algum sentido. O mito dos 27 é algo já pronto: aqueles artistas dos anos 1960 evidentemente não sabiam e certamente não o quiseram mas sem dúvida o estabeleceram. Hoje, “graças a eles”, qualquer um pode voluntária e romanticamente se findar naquela fatídica idade somente com o fito de entrar definitivamente para a história.

É claro, o leitor já deve ter começado a pensar em Kurt Cobain. O líder do Nirvana suicidou-se aos 27 em 1994. Mais do que nas de Amy Winehouse, estava nas mãos dele ter continuado vivendo ou, ao menos, ter dado cabo da vida com outra idade menos emblemática.

A incrível coincidência que se abateu sobre Janis, Hendrix e Morrison ajudou a criar a mí(s)tica dos 27 anos. A lenda ganhou novo impulso com Cobain. Resta saber se ela realmente se realimenta tanto a ponto de catapultar para a eternidade uma artista bem menos interessante, como é o caso da britânica Amy Winehouse.

Também curioso, por outro lado, é o fato de alguns geniais artistas pop terem morrido em idade que rondava os 27 anos e hoje serem menos populares, menos lembrados, ainda que muito cultuados. Talvez devessem ter fenecido aos 27...

Gram Parsons, por exemplo, morreu aos 26. Com a mesma idade suicidou-se em 1974 o “maldito” Nick Drake. Um pouco depois, já aos 28, faleceu Tim Buckley. Todos cantores e compositores que, como se vê, “bateram na trave” dos 27.

O estadunidense Gram Parsons (05.11.1946 a 19.09.1973), por exemplo, foi dos maiores expoentes do chamado country rock. Integrou os Byrds em sua fase mais country e foi líder do The Flying Burrito Brothers. Deixou dois álbuns solos muito procurados mundo afora: GP (1973) e Grievous Angels (1974). Morreu de overdose aos 26.

Nascido no hoje Myanmar em 19 de junho de 1948 e morto no Reino Unido em 25 de novembro de 1974, Nick Drake, como óbvio, não esperou fazer 27. Embora seja figura reconhecidamente depressiva, e ainda que oficialmente sua morte seja tomada como suicídio, não deixa de haver algumas dúvidas e suspeitas se ele realmente se matou. A maioria, porém, se vê tomada de certeza quando ouve os momentos mais dolorosos de Five Leaves Left (1969) e Pink Moon (1972).

Nascido na capital dos Estados Unidos (14.02.1947), Tim Buckley foi um vitorioso que conseguiu ultrapassar os 27 anos de idade. Passado pouco tempo dos 28 anos completo, em 29.06.1975, o pai de Jeff (por acaso morto com pouco mais de 30) veio a morrer de overdose de heroína, pondo fim a uma carreira que não se sabia aonde poderia chegar, uma vez tratar-se ele de artista inquieto, que passava a vida a transitar do folk ao rhythm’n’blues.

Vamos ouvi-los abaixo e ajudar a fomentar a macabra dúvida: se tivessem ido com 27, seriam hoje mais populares?

De Gram Parsons, do álbum Grievous Angels (1974), ouviremos trecho de “Brass Buttons”. Com Nick Drake, do álbum Five Leaves Left (1969), teremos um pedaço de “Man in a Shed”. Por fim, descendo até 1967, curtiremos parte de “Once I Was”, de e com Tim Buckley, extraída de Goodbye and Hello.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Captain Beefheart (1941-2010)

Morreu Captain Beefheart em 17 de dezembro de 2010. Cantor e compositor, saxofonista e clarinetista, foi das figuras mais marcantes do que se convencionou chamar de rock experimental.

Sintomaticamente protegido por Frank Zappa, o velho Don Van Vliet - seu verdadeiro nome - desde o início apresentou a proposta de reinventar o rock através de certas desconstruções do blues e do jazz avant-garde, soando como se um Howlin' Wolf tocasse com arranjos de um Albert Ayler.

Pessoas mais gabaritadas consideram seu trabalho não muito marcado pela regularidade. Pode ser. De nossa parte, preferimos ficar, ao menos no dia de hoje, com os momentos mais sublimes de álbuns como Trout Mask Replica, de 1969, The Spotlight Kid e Clear Spot, ambos de 1972.

Abaixo, ouça a composição do próprio Beefheart "Moonlight on Vermont", de Trout Mask Replica, álbum produzido por Zappa. Nas imagens, a capa do clássico álbum de 1969 e uma foto de Don Van Vliet à época.

sábado, 26 de junho de 2010

Um ano sem Sky Saxon

No dia 25 de junho de 2009, o mundo perdia Michael Jackson. Como era de se presumir, passado um ano, não faltam homenagens ao grande ídolo.

Na mesmíssima data, morria em Austin, no Texas, Richard Marsh, mais conhecido como Sky Saxon.

Prevendo que todos estariam hoje só falando de Michael, comprometemo-nos, há exatamente um ano, a relembrar que o mundo támbem perdera, na mesma data, um dos gênios da psicodelia.

Saxon liderou, na segunda metade dos anos 1960, o legendário The Seeds, expoente do rock californiano, grupo conterrâneo e contemporâneo de nomes como Doors, Love, Chocolate Watchband e incontáveis outros.

A melhor homenagem a Saxon é ouvi-lo à frente dos Seeds, com música de sua própria autoria, extraída do álbum A Web of Sound, de 1966: "Mr. Farmer". Nas imagens, primeiramente foto do grupo The Seeds, basicamente a mesma que ilustra a capa do primeiro disco deles, o homônimo também de 1966, e em seguida foto do próprio Sky Saxon, do mágico ano de 1967. Logo abaixo.

Leia também:
Sky Saxon (1946-2009)
Michael Jackson (1958-2009)

domingo, 21 de março de 2010

Alex Chilton (1950-2010)

Na quarta-feira, 17 de março de 2010, Morreu em Nova Orleans o cantor, compositor, guitarrista e tecladista Alex Chilton. Ele tinha 59 anos e a causa da morte não foi confirmada - especula-se ataque cardíaco.

No final da adolescência, integrou o grupo Box Tops, de relativo sucesso internacional, lembrado pelo hit "The Letter", de 1967. A banda até hoje é admirada, sendo considerada um dos maiores expoentes do blue-eyed soul e do mod, gêneros que destacam garotos brancos arriscando-se a atuar como artistas do soul e do rhythm'n'blues. Como praxe da época, o grupo se metia a fazer releituras de temas de Bobby Womack, Burt Bacharach, B.B. King etc.

Com o fim dos Box Tops, Chilton, em 1971, passa a integrar o Big Star. Na década de 1970, a banda lançaria três ábuns, não raro incluídos entre os melhores discos de rock de todos os tempos. Nos dois primeiros, #1 Record e Radio City, respectivamente de 1972 e 1974, é latente a influência do rock sessentista, notadamente Beatles, Kinks, Byrds e Who, todavia com cara própria, sem, em nenhum momento, soar como mera cópia dessas fundamentais bandas. Em 3rd, também conhecido como Sister Lovers, lançado em 1978, ainda que estivessem presentes as mesmas influências, há, em sua concepção, um toque mais sombrio, depressivo e melancólico (características que, de resto, já estavam timidamente presentes no primeiro álbum). Não é de se estranhar a tristeza de 3rd/Sister Lovers, pois a forma como o disco veio ao mundo e a maneira como foi lançado são reflexos da sujeira do show business e, especialmente, da indústria fonográfica, o que se refletiu, por óbvio, na maneira de compor e de gravar do grupo. Na opinião do crítico Rick Clark, nas notas da reedição de 3rd, em 1992, a forma como os dramas pessoais e profissionais influenciaram a produção do disco, faz dele irmão de Tonight's the Night, de Neil Young, gravado em 1975 também sob situação de contratempos artísticos e de dificuldades na vida pessoal. Não por acaso, os dois álbuns entraram na famosa lista da New Musical Express dedicada aos trinta discos mais tristes da história - o do Big Star está em primeiro lugar e o de Neil Young, em 14º.

Quem hoje escuta os extraordinários três discos de Big Star supracitados têm dificuldade de entender como uma banda dessas pode ter sido relegada ao ostracismo e não ter conseguido o apoio e empenho das suas distribuidoras. Todavia, como não poderia deixar de ser, graças à inexorabilidade do tempo, o Big Star acabaria sendo motivo de culto mundo afora, principalmente por parte de bandas das décadas de 1980 e 1990.

É longa a lista de grupos que fizeram uma nova geração querer conhecer a saga de Alex Chilton e de seu Big Star: Replacements, R.E.M., Mercury Rev, Teenage Fanclub etc. Em 1993, o esquecido Big Star viria a comer um prato frio, voltando a se reunir, sob a liderança de Chilton, é claro, lançando discos ao vivo e de estúdio. Desnecessário dizer que sem o mesmo punch e sem a mesma mística.

Uma boa homenagem a Alex Chilton tem que vir com música de sua lavra. Ouviremos Big Star em dois momentos: primeiramente, do álbum Radio City (1974), a faixa "O My Soul"; em seguida, de 3rd (1978), o clássico "Kangaroo". A música vem acompanhada de imagens: as duas capas de Radio City e a capa da reedição em CD de 3rd/Sister Lovers, lançada em 1992; destaque também para foto do grupo Big Star, em 1971, sendo Chilton o único que está de pé, e foto do nosso homenageado sozinho, em estúdio no ano de 1973. As imagens são cortesia do engenheiro de som John Fry, figura importante na elaboração dos magníficos discos lançados pelo Big Star na década de 1970. Divirta-se!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Algo se dizendo Beach Boys veio aqui

No último dia 02.12.2009, São Paulo recebeu um dos grupos mais importantes da década de 1960, The Beach Boys. Será que recebeu os "Beach Boys" mesmo?

Pois bem, a banda californiana veio tocar no Credicard Hall trazendo apenas Mike Love de sua formação original. Não dá para levar a sério os Beach Boys sem ao menos Brian Wilson. De qualquer forma, pode ter sido uma boa diversão para os quarentões e cinquentões que devem ter comparecido à casa de shows paulistana.

Dei uma olhadela no playlist e, como seria de se esperar, estavam lá todos os velhos clássicos da surf music de inspiração juvenil, tipo "Surfin' Safari" e "I Get Around". Todavia, não deixaram de tocar três ou quatro do divisor de águas Pet Sounds, de 1966, que foi uma espécie de primeira tentativa adulta da banda, digamos assim.

Mais do que adultos, os fãs remanescentes dos Beach Boys são hoje pessoas maduras, alguns pertencentes até ao que se chama de terceira idade. Por isso, o repertório do espetáculo bem que poderia ter sido baseado no trabalho mais denso presente nos álbuns posteriores ao já mencionado clássico de 1966. Por que não? Decerto que não afugentaria os fãs - em primeiro lugar porque os admiradores de verdade do grupo apreciam muitos álbuns dessa fase e, em segundo, porque não são nenhum bicho de sete cabeças, antes são trabalhos que usam e abusam dos trejeitos pop sem qualquer tipo de cerimônia.

Vamos prová-lo aqui, ouvindo a faixa de abertura do LP Sunflower, de 1970, fase para lá de adulta dos californianos. A música é "Slip on Through", de Dennis Wilson, uma espécie de exercício power pop, gênero que faria, nos anos 1970, a alegria de fãs de Badfinger, Big Star, Todd Rundgren etc. Adiantamos que o refrão dessa canção, marca registrada dos bons trabalhos verdadeiramente pop, é, em nossa humílima opinião, um dos mais perfeitos da história do rock. Confira você mesmo logo abaixo.

sábado, 28 de novembro de 2009

Não ouça a música, não veja o clipe, não compre o disco!

Um dileto amigo, leitor e comentarista de forma esporádica deste blog, recomendou-me um polêmico videoclipe de um grupo de rock alemão, exortando-me a escrever sobre o assunto neste espaço. Trata-se de clipe da canção denominada “Pussy”, da banda Rammstein.

O som é na linha de rock meio industrial, tão sem graça que me obrigou, em respeito aos alemães, a tirar a poeira dos meus velhos discos do Can, este, sim, uma glória para o rock germânico.

Porém, o meu amigo, penso eu, não queria tanto que eu avaliasse a música; ele pretendia que eu só assistisse ao vídeo mesmo. No e-mail que me encaminhara, avisava-me que a peça seria pornográfica e que eu tinha que ser rápido para apreciá-la, antes que a censurassem.

Com efeito, depois de um mês, quando resolvi dar uma olhada no YouTube, o videoclipe já estava devidamente limado, com cores fortes, “estouradas”, borradas nas cenas que – não foi difícil deduzir – poderiam mostrar as imagens mais “pesadas”.

Antes de mais, lembremos que o recurso a imagens de conteúdo erótico não é muito raro nos clipes: mulheres bonitas e provocantes, roupas sumárias, homens chegando junto, sugestões de sadomasoquismo e coisas do gênero. Sem as imagens pornográficas, o vídeo do Rammstein parecia apenas mais um dessa mesma linhagem.

Porém, na maior curiosidade, com alguma pesquisa, não foi difícil encontrar o site oficial da banda, onde pude acompanhar o trabalho sem cortes e sem truques. Os maiores de idade que se arriscarem a fazer a busca terão facilidade em achar a peça. Antes que me perguntem, já vou dizendo que, exceto pela curiosidade, não vale a empreitada.

Pois bem. Depois de muitas insinuações, já nos segundos finais da canção, é que aparecem as tais imagens de conteúdo pornográfico. Como pornografia, entenda-se, neste caso, a exposição de genitálias desnudas. Como certa feita bem disse a sexóloga Marta Suplicy, os filmes de sexo explícito, em sua maioria, condiriam mais com a verdade se fossem denominados de “filmes de genitais explícitos”. De fato, é por demais surpreendente que um vídeo de rock - peça de divulgação por excelência nesses tempos em que imagem é tudo - radicalize de tal maneira, mostrando os genitais de seus integrantes “dividindo a cena” com os genitais e outras partes do corpo de atrizes especialmente (imagino!) convidadas para a difícil tarefa.

Tudo isso tem a ver com o fluxo do tempo, a mudança de mentalidades, o embate do velho e do novo, os costumes que se substituem ou se sobrepõem. O chocante de hoje será o normal, quiçá o “natural”, de amanhã. Enfim, todo aquele blá-blá-blá que cansaria os raros mas exigentes leitores desta página.

A propósito, dia desses recordava da sessão de cinema brasileiro chamada “sala especial”, sucesso na TV Record em meados dos anos 1980. Qualquer homem com mais de 30 deve se lembrar da expectativa para que se chegasse a sexta-feira para assistir, escondido, ao filme que, não raro, em quase duas horas talvez mostrasse três ou quatro imagens fugidias de maior apelo erótico. Era um must para todos os garotos daquela época! Atualmente, qualquer novelinha da Globo está recheada de cenas mais picantes do que as apresentadas naquelas películas dirigidas por gente como Alfredo Sternheim, David Cardoso, Aníbal Massaini Neto, entre outros.

Conta-se que, também na década de 1980, uma série da Globo chamada “Amizade Colorida”, com Antônio Fagundes, teve sua exibição autorizada somente para depois das 22 horas, em virtude de sua temática adulta. Porém, quando da retrospectiva de 30 anos da emissora carioca, episódios do programa foram exibidos no período vespertino! Que me lembre, não houve nenhuma comoção a respeito.

Tudo isso para dizer que não tarda o tempo em que se travarão polêmicas acerca da exibição de cenas de sexo explícito em alguma novela ou em algum filme de Hollywood. Da mesma forma que um dia causou espécie um simples beijo de Vida Alves e Walter Forster, chegará o momento em que vozes contra e a favor certamente se levantarão acerca da primeira vez em que se mostrará, com riqueza de detalhes, a conjunção carnal de dois namoradinhos do Brasil – ou dois rostinhos bonitinhos da América - em um folhetim da Globo ou, melhor ainda, da Record do bispo Macedo, ou em alguma produção cinematográfica “séria” norte-americana.

E a expansão da TV por assinatura e da internet tende a ajudar na antecipação desse processo. A TV aberta, como exemplo de mídia velha e ultrapassada, talvez fique com as cenas mais light, enquanto a TV fechada e a rede mundial de computadores trariam, aos que se predispusessem a pagar, os trechos mais quentes não mostrados na concessão pública.

Vendo por esse prisma, o videoclipe dos alemães do Rammstein pode ser considerado inovador e verdadeiramente revolucionário, a despeito de ser uma bela de uma porcaria. Como diria o meu amigo Clichê dos Chavões: “só o tempo dirá”!

domingo, 18 de outubro de 2009

Iggy and the Stooges - Raw Power (1973)

O Planeta Terra Festival 2009, superconcerto a ser realizado no Playcenter, em São Paulo, no dia 07 de novembro, trará pelo menos dois nomes importantes na história do rock: Sonic Youth e Iggy and the Stooges. Este último, em especial, merece o título de seminal. O show deverá ser particularmente interessante pelo fato de, segundo informações do sítio UOL, ser a primeira vez em 35 anos que o grupo tocará, na íntegra, o clássico álbum Raw Power, de 1973.

Iggy and the Stooges, em realidade, é uma espécie de segunda encarnação da banda que, no final da década de 1960, era chamada somente The Stooges. O grupo lançou dois discos notáveis pelo selo Elektra: o homônimo de 1969, e Fun House, de 1970.

O grupo voltaria a se reunir em 1972, com uma pequena mudança na formação, desta feita destacando a liderança do vocalista, também compositor de todas as faixas, Iggy Pop. Lançado pelo selo Columbia no ano seguinte, único álbum oficial efetivamente lançado como Iggy and the Stooges, Raw Power é a epítome de por que a banda de Detroit é chamada de protopunk: é que com seu estilo direto, básico e pesado - deveras diferente do progressivo ou do hard rock de então - lançou as bases para o levante punk que explodiria poucos anos depois nos dois lados do Atlântico.

Vem-me à memória uma resenha do crítico mineiro Arthur Geraldo Couto Duarte, que em comentário ao álbum Instinct, de 1988, acusou Iggy Pop de estar fazendo, naquela época, um rock pesado de quinta categoria, com riffs chupados do AC/DC. Na opinião de Arthur, era perfeitamente possível acompanhar Instinct batendo os pés no chão ao som de suas músicas. O jornalista de Minas Gerais exortava-nos a tentar fazer o mesmo ao som de "Search and Destroy", de Raw Power, não sem antes nos avisar que seria uma tarefa inglória!

Tentemos, portanto, bater os pés ao som de "Search and Destroy", composição de Iggy Pop e James Williamson, que abre o cultuado Raw Power, lançado em 1973, produzido pelo próprio Iggy e mixado por... Oh, ele, David Bowie! Ouça abaixo.

sábado, 19 de setembro de 2009

Marianne Faithful - Broken English (1979)

A Marianne Faithful de Broken English não se parece muito com a musa da Swinging London, estando antes mais afeita, ainda que sem muito jeito, com o punk/new wave vindo do outro lado do Atlântico. O estilão um tanto junkie, a voz áspera, os arranjos sujos e "econômicos" da maioria das canções compõem as características de um trabalho que parece encontrar na estadunidense Patti Smith uma inequívoca influência.

É, com efeito, gritante a diferença estética e estilística de baladas inesquecíveis como "As Tears Go By", dos anos 1960, e, por exemplo, "Why D'ya Do It", faixa em que a já mencionada influência da "sacerdotisa do punk" é mais explícita. Entretanto, ao contrário do que costuma ocorrer em boa parte dos casos de radicalismos estilísticos, a inglesa aparece autêntica, tranquila, passeando bem por entre guitarras discretas, bateria seca, baixo sombrio e teclados esparsos.

Uma dica: é um disco que talvez precise de tempo para aprender a dele gostar. Nem todas as faixas são como a bluesy "Brain Drain", a levemente soul "Guilt" ou a roqueira "Why D'ya Do It" de que já falamos, todas encantadoras à primeira audição; as demais podem requerer um pouco mais de esforço para perceber suas nuanças ou para entender e deglutir o arrojo setentista de uma das "ex" de Mick Jagger. Vale a empreitada!

Ouça abaixo Marianne Faithful interpretando "Working Class Hero", composição de John Lennon que, na gravação dela, guarda todas as qualidades do álbum que comentamos.

sábado, 27 de junho de 2009

Sky Saxon (1946-2009)

No mesmo dia do falecimento de Michael Jackson, 25-06-2009, eis que o mundo da música também perde o cantor e compositor Sky Saxon, expoente do rock psicodélico dos anos 1960, mais precisamente da corrente conhecida como psicodelia de garagem. Saxon, não obstante tenha cometido alguns trabalhos solo, será sempre lembrado como líder e vocalista do grupo The Seeds, um dos mais importantes do gênero.

Desnecessário dizer quão menor, do ponto de vista do reconhecimento popular, Saxon é em relação a Jackson. Mas o seu rock cru, áspero e direto (clichê pouco é bobagem) deixou marcas nas décadas que lhe sobrevieram: nos anos 1970, o punk e a new wave bebiam muito da fonte do rock de garagem sessentista; nos anos 1980, a influência é perceptível nos grupos independentes, sobretudo pelo trabalho de guitarras; nos anos 1990, o grunge e as guitar bands são tributários óbvios da virulência não apenas dos Seeds, mas de outras bandas fantásticas, como The Music Machine, The Blue Magoos, Shadows of Knight, Chocolate Watchband etc.

Assumo, neste momento, o compromisso de, no ano que vem, quando o mundo inteiro lembrar o primeiro ano sem Michael Jackson, prestar uma homenagem particular a Sky Saxon, ouvindo os Seeds com seu disco de estréia, o homônimo de 1966, ou o “freakaço” Future, de 1968, dois LPs de que muito me orgulho por ter em minha coleção. Ah, com um pequeno detalhe: por incrível que pareça, as bolachas são nacionais!

Abaixo, veremos dois vídeos, extraídos de programas da televisão estadunidense, com The Seeds interpretando seus dois maiores hits (localizados, esquecidos e singelos, mas hits!), ambos do primeiro disco, de 1966: “Pushin’ Too Hard” e “Can’t Seem To Make You Mine”. Grande Sky Saxon!



domingo, 14 de junho de 2009

Essa é pra tocar no rádio!

A má qualidade da programação das rádios FM vem sendo amplamente reconhecida nos últimos tempos. Confirme-o por si mesmo falando sobre o assunto com as pessoas que lhe são próximas. A internet vem contribuindo para expor essa ferida. Qualquer um pode criar sua própria rádio na rede. Até mesmo o autor destas maldigitadas conta com uma no LastFM (Se algum masoquista quiser conferir, favor clicar aqui).

Mas as rádios convencionais às vezes surpreendem – e positivamente! Estava eu preparando-me para um sono recompensador num domingo à noite, quando liguei o rádio, meio que de bobeira. Na Eldorado FM estava rolando um programa na linha de flashback (Reserva Eldorado, se não me engano). Tal qual não foi minha surpresa, começo a ouvir os primeiros acordes de "Brother Louie", do semiobscuro Stories, do ano de 1973.

O grupo contava em sua formação com o já experiente Michael Brown, que passara pelo Left Banke e pelo Montage, na segunda metade dos anos 1960. As duas bandas foram expoentes do chamado baroque pop, tendo se notabilizado com canções leves e metidas a artísticas em trabalhos altamente recomendáveis, coisa de uns três ou quatro LPs e um belo punhado de singles. Já o Stories, por seu turno, "setentista" que era, bebia na fonte do que se convencionou chamar de power-pop: pop sim, mas com uma batida mais rock, de pegada forte.

A canção que vamos ouvir também foi lançada em compacto, no mesmo ano de 1973, pelo grupo inglês de funk e soul Hot Chocolate. Aqui, na versão dos Stories, temos um clássico do gênero que se convencionou chamar de blue-eyed soul, que é a soul music ou o funk negro interpretado por garotos brancos, constituindo um paradoxal misto de canastrice e paixão (se bem que talvez não tão paradoxal assim, pois canastrice e paixão tem tudo para andar juntas!).

Ouça agora, de 1973, Stories com "Brother Louie"

sábado, 23 de maio de 2009

Zé Rodrix (1947-2009)

Muitos se lembram dele como o autor de "Casa no Campo", grande sucesso na voz de Elis Regina. Outros, os bem mais jovens, só o conhecem como criador de jingles publicitários.Mas o cantor e compositor carioca, morto em São Paulo no último dia 22, é mais do que isso: é nome fundamental do rock brasileiro dos anos 1970. Rodrix teve participação avultada no Som Imaginário (uma espécie de "supergrupo" brasileiro daquela década) e no Sá, Rodrix & Guarabyra, expoente do chamado "rock rural".

Abaixo, ouça duas composições de Zé Rodrix: com o Som Imaginário, de 1970, a faixa "Super-God". Na seqüencia, com o Sá, Rodrix & Guarabyra, de 1973, "Hoje Ainda é Dia de Rock". Nas imagens, ilustrações de Carlos Filho e fotos de autor não informado.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Dr. Feelgood - Down by the Jetty (1974)

A idade vai passando, vamos amadurecendo, ficando mais chatos e/ou exigentes. Depois de muitas audições do melhor jazz já se começa a escutar certas coisas do rock com certo distanciamento crítico. Ainda assim, discos como este merecem uma conferida sem preconceitos.

Os ingleses do Dr. Feelgood são dos melhores exemplos do chamado pub rock: simplicidade, sujeira e alguma puerilidade, devidamente extraídas da singeleza do rock dos anos 1950 e 60, da lascívia do blues e do rhythm’n’blues e do agito do soul linha Stax/Volt.

Durante muito tempo acalentei o desejo de possuir este Down by the Jetty, mas nunca tivera a oportunidade de adquiri-lo. A informação que tinha era a de que ele soava mais cru do que o segundo álbum da banda, o espetacular Malpractice. Com efeito, o primeiro conta com um rock mais áspero e direto. Mas, apesar disso, o disco de 1975 é um tiquinho melhor. Pelo menos é esta a minha visão de hoje. Deve ser a idade!

domingo, 8 de junho de 2008

Adeus a Meirelles e a Bo Diddley

Mais um pouco de século XX foi embora na semana que findou: morreram o guitarrista norte-americano Bo Diddley e o saxofonista brasileiro João Teodoro Meirelles. O primeiro foi figura fundamental para a metamorfose do blues em rock nos anos 1950, exercendo grande influência em alguns de seus contemporâneos, como Elvis Presley e Buddy Holly, por exemplo. Nos anos 1960 e 70, seu estilo sincopado e razoavelmente percussivo arrebanhou mais seguidores, dentre os quais Rolling Stones e Dr. Feelgood. Muitas de suas músicas obtiveram notáveis regravações, por ora merecendo destaque “Who Do You Love”, com os Doors, “Mona”, com os Troggs, “Before You Accuse Me”, com o Creedence, “Oh Yeah” com The Shadows of Knight, entre outras. Ellas McDaniels (seu verdadeiro nome) morreu no último dia 2. Completaria 80 anos em dezembro.

J.T. Meirelles foi um dos nomes mais importantes do assim chamado samba-jazz. O gênero foi uma espécie de desdobramento dos caminhos abertos pela bossa nova rumo a uma leitura mais moderna da música brasileira. Saxofonista e flautista fantástico, o músico passou por São Paulo como integrante da orquestra de Sylvio Mazzuca. Mas foi na sua natal Rio de Janeiro que conseguiu escrever seu nome numa página um tanto esquecida da história da música brasileira. Meirelles participou de excelentes grupos instrumentais nos anos 1960, como o espetacular Os Cobras, de Tenório Jr., Raul de Souza e Milton Banana, e também na Turma do Bom Balanço, ao lado de outros importantes nomes do samba-jazz. O músico carioca também foi o responsável pelo arranjo de diversas canções do clássico Samba Esquema Novo, de Jorge Ben, inclusive do hit internacional “Mas Que Nada”. Como líder, o artista notabilizou-se com uma famosa orquestra que levava seu nome - especializada em fazer releituras de clássicos da música brasileira de todos os tempos – e, principalmente, com os Copa 5, grupo que nos seus dois indispensáveis álbuns gravados na primeira metade dos anos 1960 contou com gente como Dom Um Romão, Eumir Deodato, Waltel Branco, Roberto Menescal etc. Meirelles e os Copa 5 voltariam à cena musical já nos anos 2000 com nova formação, novo disco e shows. Mas o melhor tinha ficado há mais de quarenta anos. Meirelles morreu no Rio aos 67 anos, no dia 03 de junho.

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