Colamos abaixo um texto do misterioso Faustus 'Mestre' Sapienza. O autor diz ser a mais absoluta ficção. Mas... Qualquer semelhança com a realidade...
A jornalista, o roqueiro e o advogado
Por Faustus 'Mestre' Sapienza
A Jornalista
Passeio no
shopping, sábado à tarde.Encontro a Priscila. Moça bacana tava ali. O bobão do
meu filho deixou escapar. Ela não se dava bem com minha mulher. Mas e daí?
Tinha que se dar bem é com o garoto, oras!
-E aí? Quanto tempo!
-Eu vou bem. E o senhor? E o Marquinho?
-Senhor tá no céu! Ih, aquele ali, só batendo cabeça, pra variar um pouco. E
você?
-Bem, não sei se o senhor... se você se recorda, mas eu tava na faculdade de
jornalismo. Me formei e estou participando de um treinamento num grande órgão
de comunicação aqui de São Paulo, com chance de efetivação.
-Que beleza! Parabéns!
-Obrigada, seu Marco! Mas vou te falar, é jogo duro. Inventaram uma gincana.
-Gincana?
-Eles dão outro nome, mas eu chamo de gincana. Tamo brincando de“jornalista
investigativo”. Nossa tarefa é descobrir alguma coisa contra o Lula ou algum
familiar dele. Não precisa ser muito sério ou muito grave, não. Tem que ser
algo só pra render umas matérias. Não importa os métodos que a gente usa. Só
não pode ser esses boatos bestas de internet. Tô quase desistindo.
-Desiste não, querida. Até porque não deve ser muito difícil encontrar alguma
falcatrua daquele bandido e daquela quadrilha que ele chama de família...
-Ah, seu Marco.
-Para com isso. Me chama só de Marco ou Marcão.
-Então, Marco, se houvesse alguma coisa contra Lula estaria todo mundo
publicando, martelando 24 horas por dia. E os figurões é que estariam assinando
as matérias. Não iam ficar pedindo pras foquinhas bobocas como nós.
-Olha... Nunca tinha pensado nisso...
-Vou nessa, seu... Desculpa, Marco. Beijão pro Marquinho!
-Dou sim. Não vai mandar pra Matilde, não? Brincadeira!
O Roqueiro
Vocês não vão
acreditar. Mal me despeço da Pri e sabe quem eu encontro? O Lupinão! Como
assim, que Lupinão? Roqueirão dos maravilhosos anos 80. Não lembra do velho
sucesso“Me estupra”? Eu canto um trecho pra você. Mas a que eu mais gostava
mesmo era de “Triste não rima com alpiste”: não é muito conhecida, mas tem uma
letra linda. É que vocês são novinhos... Não vão lembrar do Lupinão. Mas ele se
lembrou de mim. Me viu e me chamou:
-Marcão!
-Sim.
-Não se lembra de mim?
-Desculpa, mas...
-E sem os óculos?
-Lupinão?
-Falaí, meu! Que prazer!
-Fazendo o que, cara?
-Fazendo uns showzinhos, fraquinhos. Gravar disco não rola mais, você sabe.
-A moça ali acho que te reconheceu, hein? Ficou te olhando...
-Moça? É daquelas vovozinhas que vêm trazer os netinhos pra passear no
shopping! Mas tá valendo.
-E os shows, tão legais?
-Pouca coisa. Tô tramando uma coisa grande aí, com um amigo jornalista. Acho
que você não conhece. Crítico, produtor. Ele anda meio sumido. Não tenho falado
muito sobre o assunto. Você é o primeiro a ficar sabendo. A gente precisa
urgentemente voltar pra mídia.
-Mas que tipo de negócio que é? Se é que você quer mesmo falar.
-Vou falar pra você, até pra você depois não pensar que eu tô louco!
-Mas louco você é, carambola!
-Eu vou começar a parecer um cara superpolitizado, cheio de ódio ao PT e
defensor de ideias conservadoras...
-Pode parar. Eu também odeio o PT e sou cheio de ideias conservadoras. E daí?
-Esse meu amigo jornalista tem velhos amigos no meio. Ele vai entrar na mesma
onda que eu. Pelos cálculos dele, isso vai me abrir espaço pra dar entrevista.
E sabe como é? Entrevista repercute, os caras te chamam pra fazer show, por
causa do show eu volto a dar mais entrevistas bombásticas. Meu amigo vai me empresariar
e vai também escrever um ou outro texto elogiando minha coragem...
-É, mas cê sabe que vai receber saraivada de tudo quanto é lado também, né?
Esses petistas bandidos são organizados...
-Então, cara, essa é a melhor parte: vou ser vítima da censura petista,
chavista, politicamente correta e outro nome que eu não lembro. Meu amigo é que
é bom pra esses rótulos.
-Cara, muito louco mesmo o que cê tá falando. Mas será que vai dar certo?
-Tô esperançoso. Meu amigo jornalista falou que se bombar mesmo, eu posso até
sonhar em ser figura cativa de um talk show que tá pra começar aí. Vamo
aguardar. Se você já tiver de saída, eu vou aceitar uma carona...
-Não, Lupinão. Ainda preciso ver umas coisas. Foi um prazerzaço, cara!
O Advogado
Que dia incrível. Agora é o Pestana, advogado, pachorrento, todo cheio de
querer ser olhando vitrines de loja cara.
-Se não é o Dr. Pestana!
-Marcão? É vivo ainda, seu filho da mãe?! Você não engorda, não, desgraçado?
-Que é isso? Tô gordo, pô! E do que cê tá falando? Tá bem também.
-Que nada. É que o terno aqui disfarça o barrigão!
-Por falar nisso, só você mesmo pra tá de terno num sabadão desses.
-É que fui ver um caso bom. Um belo potencial de escândalo. Coisa pesada. O
sujeito tá preso. Fui conversar com a família. Eles tão querendo ver se ele
entra nesse negócio de delação premiada.
-Já ouvi falar. Parece que é bom isso, né?
-Depende. No caso dele não parece muito bom, não, pelo menos por enquanto. Os
caras delatam pra sair numa boa e ainda ficar como herói. Expliquei pra família
que não é tudo tão simples.
-Mas do jeito que a gente vê na mídia, parece que é simples sim.
-Depende do que e de quem você vai delatar. No caso do meu cliente ele tem uns
caras e uns esquemas grandes do PSDB...
-Esses são outros, viu. Esses caras podem dar as mãos pro PT e sair por aí.
Tudo farinha do...
-Sério? Lá no seu facebook tava cheio de propaganda dos candidatos deles.
-Sim, mas é que isso... Bem, e por que não entrega logo a corja do PSDB?
-Sabe como é família, né? Acha que o homem é um santo, um injustiçado, que foi
vítima dos peixes grandes tanto da política quanto de grandes empresas e quer
ver a barra dele limpa, dando entrevista em jornal como um herói. Na hora que
eles me mostraram os nomes, descartei.
-Conta aí.
-Cê tá é louco! Se eu me meter com os caras que ele tem pra delatar até minha
carreira entra em perigo. Mas dei uma missão pra eles: tentar ver se não
descola pelo menos um nome que dê pra associar com PT, Lula ou Dilma. Pode ser
uma associaçãozinha de longe; qualquer forçada de barra serve.
-Não deve ser difícil...
-Também penso que não. Tá cheio de cara que opera pros dois lados. E pra mídia,
pra polícia, pra parte da Justiça, pruns caras do MP, se puder envolver, mesmo
que indiretamente, um petista, o negócio ganha uma dimensão fora de série,
mesmo que sem provas.
-Mas pelo que cê tá falando, é uma sujeira...
-É a vida! Se a família me der um nome que dê pra ligar com o PT, um nomezinho
que seja, eu consigo um escarcéu bom. Vou precisar de ajuda pra isso, claro.
Por falar nisso, será que você não conhece alguma jornalista iniciante ou algum
roqueiro decadente pra me ajudar nesse serviço?