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sábado, 14 de maio de 2016

Faustus Sapienza: Memórias do golpe

Mais um texto de Faustus "Mestre" Sapienza. Um curioso exercício de futurologia. O que se falará do golpe de 2016 daqui a alguns anos? Pistas na pequena ficção (ficção?) a seguir.

Lembram-se do golpe de 2016? Entrevista em 2038
Faustus "Mestre" Sapienza
Gravando. Ok. De novo. Gravando. Ok.
22 de outubro de 2038.
Curso de História. Universidade digital. Doutorado. Título: "2012-2016: um golpe nem tão suave num Brasil que se acreditava solidamente democrático". Vamos entrevistar o ex-deputado federal Pitombo Macieira, mais conhecido como Bobrinha. Ele foi um dos deputados que votaram a favor do prosseguimento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016.
- Boa tarde, deputado. Obrigado pela entrevista. Vai ser muito útil para o trabalho que estamos desenvolvendo. Posso chamar o senhor de deputado mesmo?
- Rapaz, já larguei a política, como você sabe, mas todo mundo que fala comigo me chama de deputado. Até estranho quando me dão outra qualificação. 
- Muito bem. O senhor estava naquele famoso 17 de abril de 2016...
- 18 de abril. Era um domingo... Quente...
- Desculpa, deputado. Certeza que era 17.
- Bem, já faz mais de vinte anos e o historiador aqui é você. Mas que era 18, era!
- 17, deputado! Mas, enfim, naquela famosa tarde/noite de abril de 2016 o senhor votou a favor da abertura do processo contra a então presidente Dilma. Não tem sido incomum declarações de deputados e outras pessoas envolvidas demonstrando arrependimento ou tentando até renegar a participação em tudo aquilo. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
- Olha, filho, apesar de moço experiente e tudo mais, você é jovem e merece uma lição, até na sua qualidade de estudioso da história, da política e coisa e tal. A noção de importância histórica só se tem com o tempo. A gente às vezes até faz uma coisa que sabe que é errada mas não tem a dimensão do erro que está cometendo. Do tamanho que aquilo vai ganhar depois de uns anos. É muito o aqui agora...
- Por sua fala posso presumir que o senhor reconhece que foi um erro. E mais - se eu estiver errado, me corrija -, o senhor parece estar querendo dizer que já sabia que estava errando quando proferiu o voto, mas resolveu arriscar.
- Com certeza. E posso lhe garantir que muitos de meus colegas sabiam do erro que estavam cometendo.
- Mas, deputado...
- Por favor, não pense que eu estou acusando alguém de ter feito qualquer coisa errada... É... Assim do tipo... Você sabe. Tem muita história que rolou, que rola até hoje, mas eu não gosto de ficar especulando. Na verdade muito deputado só foi pela onda mesmo. E vou te falar, até em coisas que pareciam bobagem na época já havia sinais de pressões de diversas ordens.
- Como assim?
- Lembra que os votos eram dedicados a familiares, eram em nome de Deus...
- O senhor, por exemplo, além de Deus, dedicou para sua mulher, sua filha... Melhor, eu vou acionar o index eletrônico aqui e em menos de dois segundos eu encontro sua fala. Vamos ver?
- Não, filho, por favor, eu lembro muito bem de meu voto. Não gosto mais de ver. De fato dediquei à minha mulher daquela época. Era minha segunda mulher. A gente estava enfrentando uns probleminhas, por culpa minha. A verdade é que... Bem, não quero falar muito sobre isso, mas eu vinha já de umas atitudes não muito... Mas não adiantou muito. Ela continuou com a cara virada comigo, tanto que ainda naquela legislatura a gente se divorciou. E a minha filha era filha do meu primeiro casamento, hoje é deputada estadual, bastante conhecida. Também quis com aquilo fazer um agrado pra ela, já que ela não falava comigo tinha um tempo. Soube depois que ela nem ficou sabendo de nada porque não assistiu nem se interessava por nada daquilo naquele tempo. Ela era daqueles jovens que odiavam a política e que jamais perderiam um domingo vendo um monte de figura excêntrica - meus pares que me perdoem - fazendo um espetáculo grotesco daqueles. Mas, vem cá, o mais importante veio depois.
- Sim?
- No meu voto, depois de mulher e filha, meu tom de voz até aumenta para eu dedicar aquele ato também ao povo de meu estado e aos meus eleitores. Deixei bem claro que aquele voto era por eles.
- Não somente o senhor. Muitos repetiram o gesto, afirmando que o voto era pelas pessoas de suas cidades, estados.
- Exatamente. Isso não era trivial. Entende por quê?
- Se o senhor quiser explicar.
- No meu caso e de muitos outros que me confessaram, aquilo era uma forma de dizer que cometíamos aquele ato injusto por pressão da sociedade. Era para dizer que não estávamos fazendo de acordo com nossa consciência. Estava-se cometendo uma injustiça por absoluta culpa do povo. Era uma insinuação de que havia pressão externa.
- Mas, deputado, o senhor era de um estado que tinha dado maioria absoluta para Dilma, no qual não havia uma oposição orgânica a ela e a seu partido. Entidades representativas da sociedade civil em sua maioria eram contra o golpe, desculpa, impeachment...
- Pode chamar de golpe, filho. Eu sei que você acha que foi golpe mesmo. Todo mundo fala que foi golpe. Então é golpe, ora!
- Pois, então, já havia uma clara articulação contra o golpe; o apoio popular, segundo as pesquisas, vinha diminuindo...
- É que era um movimento de ricos e classe média alta. Quando eu dizia povo do meu estado, eu estava falando do sujeito que frequentava o mesmo restaurante que eu, que usava a primeira classe do mesmo voo que eu... Até havia uma coisa que chamavam de redes sociais, não sei se você chegou a conhecer. Pois bem, naquelas tais redes havia uma articulação poderosa, que pressionava, até ameaçava... Tudo alimentado pela mídia.
- E qual o papel da mídia nisso tudo?
- Filho meu, vou resumir. O deputado mais honesto teria sido aquele que, em vez de mulher, filho, Deus, povo etc, tivesse dedicado o seu 'sim' para a mídia. Em nome da mídia, eu voto sim. Seria o deputado que resumiria bem aquele fato histórico.
- A mídia foi a cabeça daquela articulação?
- Sim. A mídia e, como todos sabem, o Poder Judiciário de então. A judicialização da política, a criminalização da atividade política... Essas coisas todas facilitaram nossa vida naquela empreitada. É... Mas deixa eu te perguntar...
- Pois não.
- Eu estou proibido de fumar, filho. Não deixam cigarro chegar perto de mim. Será que você não tem um cigarro para me dar aí, não?
- Não fumo, deputado.
- Tudo bem.

sábado, 25 de julho de 2015

É a pedra no lago, estúpido

A política vive de coisas sérias e de coisas banais; de conceitos filosóficos e sabedoria popular; teorias rebuscadas e frases feitas. Duas delas (não sei classificar se “lendas”, “teorias” ou seja lá o que for) são relevantes para entender o Brasil contemporâneo.

Do Brasil se dizia há algum tempo que havia um chamado efeito “pedra no lago”: algumas pequenas ondas se formavam no "centro", por meio de formadores de opinião e de gente bem informada e articulada, tipicamente de classe média para cima, e iam aos poucos atingindo as "margens", ou seja, um público supostamente mais desinformado, pouco politizado, menos instruído, invariavelmente formado pelos mais pobres.

No Brasil ganhou corpo também o famoso bordão “é a economia, estúpido”. Sacado pelo marqueteiro James Carville, da equipe do então candidato Bill Clinton, quer dizer que, no fundo, o cidadão vai sempre se deixar guiar, em suas decisões e avaliações políticas, pelo quadro econômico, pelo bolso.

Da “pedra no lago” se chegou a decretar o fim. A reeleição de Lula, em 2006, parecia mostrar que grandes movimentos de classe média urbana e escolarizada, com apoio ostensivo da mídia, já não detinham mais a capacidade de levar o povão na lábia.

E as ondas não chegavam às margens justamente porque “é a economia, estúpido”! O bem-estar econômico era, por assim dizer, um dique que segurava as ondas.

Como bem demonstrado por André Singer em “Os sentidos do lulismo”, Lula foi reeleito em 2006 praticamente com a mesma votação de quatro anos antes, contudo graças a eleitores de perfil extremamente divergente daquele que votara nele no pleito anterior. O motivo era simples: conservador, o (muito) pobre brasileiro quer segurança, nada de aventuras, e se possível uma melhorazinha de vida. Passado o primeiro mandato, Lula, que historicamente assustava os muito pobres e conservadores, mostrou-se perfeito: não promoveu mudanças de fundo na sociedade nem na economia, mas implementou e incrementou políticas que melhoraram significativamente a vida de um segmento historicamente abandonado. Um "reformismo fraco", diz o eminente cientista político e ex-porta-voz do governo Lula, garantiu ao metalúrgico o apoio massivo dos mais pobres.

A direita brasileira entendeu - mas não aceitou - as duas coisas: apresentava dificuldades de acreditar que o povo insolentemente não se deixasse levar pela ilustrada pregação antipetista diuturna, geralmente de caráter moralista, com o tema da corrupção à frente; e consciente de que a situação econômica era o que garantia a fidelidade ao petismo, os simpatizantes da direita lamentavam, cínica e preconceituosamente, o fato de as pessoas, segundo elas, votarem com o estômago e com tamanha mesquinhez!

A avassaladora crise internacional e um possível esgotamento do modelo baseado no mercado interno e inclusão social tenderiam já a trazer adversidades para a economia brasileira, revelando, assim, dificuldades para o segundo mandato de Dilma Rousseff. A coisa, porém, foi ganhando azedume com a operação Lava Jato.

A direita brasileira, como dissemos, entendeu muito bem o que vinha acontecendo no País. O moralismo hipócrita e seletivo típico da UDN está presente nos estratos médios, de modo que, dele, não se abre mão. Mas martelar histórias de corrupção, com economia bombando, renda crescendo e emprego em alta, não tem apelo popular. E mais: independentemente da situação, seria como se o tema tivesse que ser explorado - contra os adversários, claro - nem que fosse por uma questão de honra.

A operação Lava Jato, porém, não mexe só com os ódios e medos da corrupção. Ela também afeta a economia, pois no escândalo estão envolvidos a maior de nossas empresas de economia mista e grande parte do PIB nacional, trazendo um inexorável relaxamento dos espíritos empreendedores do País.

A Lava Jato, portanto, vem com grande força moralizadora (e de forma seletiva, como tem ocorrido em outros escândalos do País), ao mesmo tempo que mina forças da economia brasileira. Convenhamos: não parece haver coisa melhor para quem apostava no discurso da corrupção como arma política, mas sempre via ele ser barrado pela sensação de bem-estar do povão.

Com a economia mais devagar, estúpido, não tem jeito: as ondas no lago acabam inevitavelmente chegando até os que estão à margem!

Se eu acreditasse em teorias da conspiração, diria que a Lava Jato foi realmente pensada para fazer a ligação das duas coisas. E se estamos no campo das comparações e metáforas, ela é a tempestade perfeita que a direita tanto esperava.

domingo, 31 de maio de 2015

Comunicação, comunicação, comunicação!


Não raramente se ouve que Dilma, seus principais auxiliares e conselheiros, além de seu partido, não têm muita noção da importância capital da comunicação para travar o debate político. Há até quem sugira haver um quê de ingenuidade em Dilma e seu staff, que acreditariam demasiadamente no espírito democrático de seus opositores e na boa intenção por trás do bombardeio midiático contra o governo e o PT, além de confundirem republicanismo com passividade extrema.

Pois não tenhamos dúvida que Dilma, seu partido e o grupo que a cerca sabem muito bem da importância da batalha da comunicação e que têm plena consciência da desproporcionalidade da cobertura midiática. Não há ingenuidade nem republicanismo pueril aí: há boa dose de cálculo político, ainda que possivelmente errado.

Por que, por exemplo, Dilma, na campanha de 2014, aceitou concorrer por coligação tão ampla? Decerto não foi pensando na tal da governabilidade, tampouco se curvando à inexorabilidade do nosso presidencialismo de coalizão. E caso tenha sido, convenhamos, foi uma estratégia por demais furada, haja vista o banho que o governo vem tomando no Congresso, com o auxílio para lá de luxuoso da base dita aliada.

A amplíssima coligação a que Dilma se submeteu se fazia necessária, isso sim, para conseguir tempo de rádio e TV no horário eleitoral gratuito. Os responsáveis pela campanha certamente sabiam que a presidenta precisaria de muita lábia no tempo de TV para fazer frente ao massacre que sofria em todas as mídias “independentes”. Tal estratégia, sim, se revelou correta, pois durante a campanha a popularidade do governo e da presidenta deu uma significativa melhorada, o que teria sido impossível se o tempo de exposição dela fosse menor do que o de seus principais adversários.

Tivemos, em decorrência dessa condição, uma situação paradoxal. Dada a virulência da campanha, e considerando a indisfarçada guinada à direita da principal oposição ao petismo,  a campanha de Dilma não teve alternativas senão radicalizar à esquerda. Por outro lado, justamente a amplitude da coligação, como dito necessária para fazer frente ao bombardeio midiático, não permitiu que Dilma assumisse, de forma programática, compromisso com mecanismos de democratização da mídia. O discurso esquerdista não passou de discurso mesmo, não tendo seus postulados encampados como parte de um programa de governo.

O resumo da ópera é um tanto desalentador: em razão de não radicalizar a discussão política e em virtude da falta de debates sobre a democratização dos meios de comunicação, o petismo, vítima diuturna da violência midiática, fica refém, em tempos de campanha, da benção – e dos minutos de TV – de grupos de direita, justamente para, esquizofrenicamente, fazer frente aos ataques da mesma direita com que supostamente se alia! E por se compor com tais grupos de tendência mais conservadora, fica obrigado a ter uma postura superpassiva em relação à questão da comunicação social no País, aceitando, em nome de uma suposta boa vontade republicana, os abusos que contra si são cometidos.


Alguma figura importante da política internacional (Tony Blair?), em campanha, certa feita disse que suas prioridades eram três: educação, educação e educação. Para Dilma e o PT elas deveriam ser, pelo menos num primeiro momento, comunicação, comunicação e comunicação.

sábado, 21 de março de 2015

O "novo partido" da ficção de 'Mestre' Sapienza

O blog publica mais um texto de Faustus 'Mestre' Sapienza. Dessa vez, o misterioso autor brinca com situação que a maioria dos leitores decerto já presenciou. Divirtam-se

O PC - Partido da Corrupção
Faustus 'Mestre' Sapienza

-Mas o que tá acontecendo com você, Fabinho? Te vi chorar em 1989, com a derrota do Lula. Agora, você não pode nem ouvir falar em PT?
-Chorar, chorar, eu não chorei. Mas confesso que fiquei triste, como um monte de gente ficou. Mas meu ódio... Quer dizer, ódio não porque eu não odeio ninguém, mas minha bronca em relação ao PT é porque eles me traíram, com essa sujeirada toda.
-Ora, mas muita coisa nem provada é, você sabe.  E tem mais: você andou votando nuns caras aí que não chegam a ser um "papa francisco"...
-Ok, ninguém presta. Mas é que o PT quando era oposição só sabia falar de ética. Era ética pra cá, ética pra lá... E agora me apronta essas coisas todas. Se tem uma coisa que eu não aceito é traição.
-Cara, que bom que você falou nisso. Eu tava sem jeito de falar com você. É que eu tô colhendo umas assinaturas aí prum partido que eu tô pretendendo fundar.
-Você?
-Eu mesmo. Bom, você manja mais do que eu, sabe das formalidades, não é fácil. Vou precisar colher muitas assinaturas. Você conhece bastante gente...
-Cara, não sei se você tá falando sério ou não, mas chega de tanto partido. Pensa noutra coisa.
-Mas esse partido vai ser a salvação, principalmente para pessoas como você.
-Ah, tá bom! Pra começar, como é o nome do partido?
-PC.
-PC? Bem, com certeza não é partido comunista! PC? Partido da...?
-PC: Partido da Corrupção.
-Sabia que era zoeira!
-Não. Tô falando sério. Já tenho pronta a declaração de princípios. É menor do que a declaração de princípios do jornal do "Cidadão Kane".
-Cidadão Kane, o filme?
-Não vi nem tenho vontade de ver. Mas me fale da declaração do seu partido.
-Ótimo filme. Tomara que mude de ideia. Mas a declaração de princípios de nosso partido se resume a: total despreocupação com a ética. Nosso partido não quer nem ouvir falar de ética. Ou melhor: nosso partido não quer mesmo é falar de ética na política, essa coisa estúpida, udenista, pequeno-burguesa.
-Vai, vai! Aonde você quer chegar?
-A lugar nenhum, por enquanto. Quero apenas sua assinatura e seu empenho para nos ajudar a fundar o partido. Afinal, temos o que você e outros milhões de pessoas querem: somos diferentes e originais na forma de encarar a política e, melhor, nunca, jamais o decepcionaremos.
-Não sei por que te dou ouvidos, mas tudo bem: explique-se.
-Somos diferentes porque, ao contrário do que você e outros milhões de pessoas dizem, o discurso político amparado nessa coisa abstrata chamada de ética nunca foi exclusividade do PT. Não saio por aí lendo estatutos de partido, mas desconfio que a maioria deles fala em compromisso com a ética, ainda que não de forma expressa, mas que dá a entender que a ética é alicerce de seu comportamento. Até porque o senso comum diz que não pode ser diferente...
-Cara, apesar de ser tudo bobagem, até que cê tá falando bonito...
-Mas o mais importante: nosso partido nunca vai decepcionar você...
-Rapaz, agora imaginei aquele magnífico locutor das propagandas do PSDB falando isso!
-E não vamos decepcioná-lo porque, ao deixar claro que não temos compromisso nenhum com a ética, quando metermos o pé na jaca, ou quando vier a imprensa fazendo seu denuncismo seletivo, seja justo ou injusto, não importa, todos vão poder dizer: bem que eles falaram que não tavam nem aí pra ética mesmo. Ou seja, meu querido Fábio, ao recusarmos a ética, de acordo com o seu modo de enxergar o mundo, estamos desobrigados de observá-la, não é isso? Consequentemente, jamais o decepcionaremos.
-Desnecessário dizer que isso é um sofisma, certo?
-Hum. Agora você é que falou bonito! Sofisma? Não diria não. Se quiser chamar de uma fábula política bem vagabunda e singela.
-Ok. Bem vagabunda, pode ser?
-Pode.
-Mas, voltando... Você falou uma coisa lá atrás que é verdade e eu não devia ter vergonha de admitir: eu chorei mesmo, de soluçar, quando o Lula perdeu pro Collor...

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Ficcão de Faustus 'Mestre' Sapienza: A jornalista, o roqueiro e o advogado

sábado, 7 de março de 2015

Ficcão de Faustus 'Mestre' Sapienza: A jornalista, o roqueiro e o advogado

Colamos abaixo um texto do misterioso Faustus 'Mestre' Sapienza. O autor diz ser a mais absoluta ficção. Mas... Qualquer semelhança com a realidade...

A jornalista, o roqueiro e o advogado
Por Faustus 'Mestre' Sapienza 

A Jornalista
Passeio no shopping, sábado à tarde.Encontro a Priscila. Moça bacana tava ali. O bobão do meu filho deixou escapar. Ela não se dava bem com minha mulher. Mas e daí? Tinha que se dar bem é com o garoto, oras!
-E aí? Quanto tempo!
-Eu vou bem. E o senhor? E o Marquinho?
-Senhor tá no céu! Ih, aquele ali, só batendo cabeça, pra variar um pouco. E você?
-Bem, não sei se o senhor... se você se recorda, mas eu tava na faculdade de jornalismo. Me formei e estou participando de um treinamento num grande órgão de comunicação aqui de São Paulo, com chance de efetivação.
-Que beleza! Parabéns!
-Obrigada, seu Marco! Mas vou te falar, é jogo duro. Inventaram uma gincana.
-Gincana?
-Eles dão outro nome, mas eu chamo de gincana. Tamo brincando de“jornalista investigativo”. Nossa tarefa é descobrir alguma coisa contra o Lula ou algum familiar dele. Não precisa ser muito sério ou muito grave, não. Tem que ser algo só pra render umas matérias. Não importa os métodos que a gente usa. Só não pode ser esses boatos bestas de internet. Tô quase desistindo.
-Desiste não, querida. Até porque não deve ser muito difícil encontrar alguma falcatrua daquele bandido e daquela quadrilha que ele chama de família...
-Ah, seu Marco.
-Para com isso. Me chama só de Marco ou Marcão.
-Então, Marco, se houvesse alguma coisa contra Lula estaria todo mundo publicando, martelando 24 horas por dia. E os figurões é que estariam assinando as matérias. Não iam ficar pedindo pras foquinhas bobocas como nós.
-Olha... Nunca tinha pensado nisso...
-Vou nessa, seu... Desculpa, Marco. Beijão pro Marquinho!
-Dou sim. Não vai mandar pra Matilde, não? Brincadeira!

O Roqueiro
Vocês não vão acreditar. Mal me despeço da Pri e sabe quem eu encontro? O Lupinão! Como assim, que Lupinão? Roqueirão dos maravilhosos anos 80. Não lembra do velho sucesso“Me estupra”? Eu canto um trecho pra você. Mas a que eu mais gostava mesmo era de “Triste não rima com alpiste”: não é muito conhecida, mas tem uma letra linda. É que vocês são novinhos... Não vão lembrar do Lupinão. Mas ele se lembrou de mim. Me viu e me chamou:
-Marcão!
-Sim.
-Não se lembra de mim?
-Desculpa, mas...
-E sem os óculos?
-Lupinão?
-Falaí, meu! Que prazer!
-Fazendo o que, cara?
-Fazendo uns showzinhos, fraquinhos. Gravar disco não rola mais, você sabe.
-A moça ali acho que te reconheceu, hein? Ficou te olhando...
-Moça? É daquelas vovozinhas que vêm trazer os netinhos pra passear no shopping! Mas tá valendo.
-E os shows, tão legais?
-Pouca coisa. Tô tramando uma coisa grande aí, com um amigo jornalista. Acho que você não conhece. Crítico, produtor. Ele anda meio sumido. Não tenho falado muito sobre o assunto. Você é o primeiro a ficar sabendo. A gente precisa urgentemente voltar pra mídia.
-Mas que tipo de negócio que é? Se é que você quer mesmo falar.
-Vou falar pra você, até pra você depois não pensar que eu tô louco!
-Mas louco você é, carambola!
-Eu vou começar a parecer um cara superpolitizado, cheio de ódio ao PT e defensor de ideias conservadoras...
-Pode parar. Eu também odeio o PT e sou cheio de ideias conservadoras. E daí?
-Esse meu amigo jornalista tem velhos amigos no meio. Ele vai entrar na mesma onda que eu. Pelos cálculos dele, isso vai me abrir espaço pra dar entrevista. E sabe como é? Entrevista repercute, os caras te chamam pra fazer show, por causa do show eu volto a dar mais entrevistas bombásticas. Meu amigo vai me empresariar e vai também escrever um ou outro texto elogiando minha coragem...
-É, mas cê sabe que vai receber saraivada de tudo quanto é lado também, né? Esses petistas bandidos são organizados...
-Então, cara, essa é a melhor parte: vou ser vítima da censura petista, chavista, politicamente correta e outro nome que eu não lembro. Meu amigo é que é bom pra esses rótulos.
-Cara, muito louco mesmo o que cê tá falando. Mas será que vai dar certo?
-Tô esperançoso. Meu amigo jornalista falou que se bombar mesmo, eu posso até sonhar em ser figura cativa de um talk show que tá pra começar aí. Vamo aguardar. Se você já tiver de saída, eu vou aceitar uma carona...
-Não, Lupinão. Ainda preciso ver umas coisas. Foi um prazerzaço, cara!

O Advogado
Que dia incrível. Agora é o Pestana, advogado, pachorrento, todo cheio de querer ser olhando vitrines de loja cara.
-Se não é o Dr. Pestana!
-Marcão? É vivo ainda, seu filho da mãe?! Você não engorda, não, desgraçado?
-Que é isso? Tô gordo, pô! E do que cê tá falando? Tá bem também.
-Que nada. É que o terno aqui disfarça o barrigão!
-Por falar nisso, só você mesmo pra tá de terno num sabadão desses.
-É que fui ver um caso bom. Um belo potencial de escândalo. Coisa pesada. O sujeito tá preso. Fui conversar com a família. Eles tão querendo ver se ele entra nesse negócio de delação premiada.
-Já ouvi falar. Parece que é bom isso, né?
-Depende. No caso dele não parece muito bom, não, pelo menos por enquanto. Os caras delatam pra sair numa boa e ainda ficar como herói. Expliquei pra família que não é tudo tão simples.
-Mas do jeito que a gente vê na mídia, parece que é simples sim.
-Depende do que e de quem você vai delatar. No caso do meu cliente ele tem uns caras e uns esquemas grandes do PSDB...
-Esses são outros, viu. Esses caras podem dar as mãos pro PT e sair por aí. Tudo farinha do...
-Sério? Lá no seu facebook tava cheio de propaganda dos candidatos deles.
-Sim, mas é que isso... Bem, e por que não entrega logo a corja do PSDB?
-Sabe como é família, né? Acha que o homem é um santo, um injustiçado, que foi vítima dos peixes grandes tanto da política quanto de grandes empresas e quer ver a barra dele limpa, dando entrevista em jornal como um herói. Na hora que eles me mostraram os nomes, descartei.
-Conta aí.
-Cê tá é louco! Se eu me meter com os caras que ele tem pra delatar até minha carreira entra em perigo. Mas dei uma missão pra eles: tentar ver se não descola pelo menos um nome que dê pra associar com PT, Lula ou Dilma. Pode ser uma associaçãozinha de longe; qualquer forçada de barra serve.
-Não deve ser difícil...
-Também penso que não. Tá cheio de cara que opera pros dois lados. E pra mídia, pra polícia, pra parte da Justiça, pruns caras do MP, se puder envolver, mesmo que indiretamente, um petista, o negócio ganha uma dimensão fora de série, mesmo que sem provas.
-Mas pelo que cê tá falando, é uma sujeira...
-É a vida! Se a família me der um nome que dê pra ligar com o PT, um nomezinho que seja, eu consigo um escarcéu bom. Vou precisar de ajuda pra isso, claro. Por falar nisso, será que você não conhece alguma jornalista iniciante ou algum roqueiro decadente pra me ajudar nesse serviço?

sábado, 8 de novembro de 2014

Choro do PSDB: tudo normal!

A choradeira do PSDB quanto à lisura das eleições presidenciais de 2014 não deve ser motivo para surpresas. Primeiramente porque o modelo brasileiro de urna eletrônica predispõe mesmo a fraudes, não devendo causar espécie alguém dela desconfiar, nem que seja por princípio. Em segundo lugar, porque resultados apertados existem mesmo para a parte perdedora espernear, já que resolvida nos detalhes - ressalte-se que mesmo sob um eventual resultado mais elástico, bastaria um quadro de grande radicalização e exacerbamento da polarização (como havido neste ano) para abrir campo para berreiros dessa espécie.

Em mensagens particulares enviadas a amigos, este blogueiro já havia antecipado a suspeita de que nos depararíamos com esse quadro. Vou colar trechos. A primeira foi em comentário de 07.10.2014 acerca de possível relação entre as chamadas jornadas de junho de 2013 e os resultados mais pró-direita do primeiro turno:
"(...) Tudo isso só para dizer que os resultados das urnas, sobretudo a escolha para os parlamentos, em nada me surpreendem. Eles são o resultado da guinada conservadora que ficou clara nos movimentos de junho de 2013. A cereja do bolo seria a derrota de Dilma, que, acho, não ocorrerá. Mas a vitória macérrima que ela terá provavelmente vai convocar novas manifestações, as quais deixarão novamente a esquerda perplexa e – de novo – com medo de dizer que não gostou do que viu."
Na mesma data, comentei especificamente sobre o segundo turno entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, com resultado fantástico para o segundo, o que me fazia relembrar 2006:
"(...) Em 2006, Alckmin teve menos votos no segundo turno do que no primeiro. Não somente não espero que isso ocorra agora, como ainda acho que Aécio crescerá muito, impondo ao petismo a sua mais magra vitória desde 2002 (52 vírgula qualquer coisa de Dilma X 47 vírgula alguma coisa de Aécio – perdõem-me pela minha porção mãe dinah). Para ser melhor que isso, Dilma precisaria ter um desempenho fantástico como Lula teve no segundo turno de 2006, o que é muito difícil: Dilma é talentosa mas não é genial como Lula; Aécio tem mais telhados de vidro, mas é mais carismático e mais bem articulado que Alckmin. (...)" 
Lembro-me de cabeça de ter lido, de alguém que pensei à época ser adepto de teorias da conspiração, haver orientação da CIA para que derrotados simpáticos a Washington sempre gritem por fraude - de forma bem barulhenta - quando as condições permitirem. Depois de Edward Snowden, já não acho que "teorias da conspiração" envolvendo os Estados Unidos sejam tão teorias da conspiração assim!

A verdade é que a "vitória mácerrima" da presidenta Dilma foi a condição que permitia abrir espaço para gritarias.

Mas para dar prova mais incontestável da absoluta falta de espanto do autor destas maldigitadas com o choro dos tucanos vou colar texto aqui publicado em 19 de junho de 2009, que falava justamente das manifestações sobre suspeitas de fraude em eleições no Irã. Leia abaixo:


SEXTA-FEIRA, 19 DE JUNHO DE 2009
Irã: eu acho...
O bacana de se pilotar um blog é poder ficar dando pitacos sobre os mais diversos assuntos de forma mais ou menos impune. Além disso, pode-se dormir com a consciência tranqüila por não estar investido da autoridade dos especialistas. É só “achismo” mesmo e ponto final.
Os chamados cientistas políticos não deveriam gozar da mesma cuca fresca, pois se aproveitam de sua condição para fazer comentários e vaticínios deveras particulares sob a aura de uma suposta expertise. Ao agir desse modo, no mais das vezes com acentuado viés ideológico e deixando transparecer seus desejos e idiossincrasias, recusam, em verdade, a honestidade intelectual e a objetividade científica possível de que fala Max Weber na sua famosa conferência intitulada A ciência como vocação.
Vamos aqui, “acientificamente”, apenas revelar nossas impressões sobre o que ocorre no Irã. (Até porque não dá para ter muito mais do que isso: meras impressões).
Eu, “euzinho da silva”, acho que não houve fraude nas eleições do Irã. O presidente Mahmoud Ahmadinejad provavelmente ganhou mesmo. Volto a dizer, trata-se, obviamente, de mera opinião pessoal. Não posso afirmar que não tenha havido fraude. Ninguém pode. Mas ninguém – repito, ninguém - pode também afirmar peremptoriamente que houve. Certo está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que atribuiu as comoções naquele país a uma provável choradeira dos derrotados. Errados estão os colunistas da grande imprensa, como Merval Pereira e Dora Kramer, que tentam desautorizar o presidente brasileiro por ele estar apoiando o seu colega iraniano reeleito. (Em realidade, Lula não está necessariamente dando apoio a Ahmadinejad; apenas faz aquilo que seria de se esperar de qualquer pessoa de bom senso: reconhecer os resultados das urnas de um país soberano; e se for o caso de haver alguma coisa errada por lá, o melhor a fazer é aguardar com cautela antes de sair atirando pedras).
Pelo que se depreende das notícias que chegam do país islâmico, as manifestações estão restritas aos grandes centros urbanos, mais especificamente à capital Teerã. O grupo oposicionista é organizado e barulhento, e o seu reclamo é ecoado pela mídia ocidental, que desde o início demonstra pouco entusiasmo com o presidente iraniano. Sabe-se que há, por outro lado, manifestações favoráveis ao presidente reeleito; mas elas não parecem contar com a mesma simpatia por parte da imprensa do ocidente.
E se o assunto é achismo puro e simples, vou externar uma opinião meio amalucada: eu, “euzinho da silva”, acho que o Brasil não esteve muito longe de situação parecida. Em 2006, se o candidato Alckmin não tivesse decepcionado parcela de seus eleitores e, especialmente, parte da imprensa, sobretudo por não ter tido coragem de defender o legado privatista dele e de seu partido, não seria de descartar que se ameaçasse falar em fraude ou em abusos e coisas do gênero para tentar melar a acachapante vitória de Lula.
Imaginemos a cena: a classe média paulista sairia às ruas, concentrar-se-ia na Av. Paulista e com a ajuda da mídia convocaria outras manifestações em grandes centros urbanos do sul-sudeste; as imagens rodariam o planeta nas telas da CNN e parariam nas páginas de internacionais dos jornais estrangeiros. Ipso facto, estariam todos mundo afora papagaiando que o presidente "populista caudilho" do Brasil fraudara as eleições. Ademais, haveria um Marco Aurélio Mello para jogar gasolina na fogueira.
Viagem pura? Certamente que é. Estou a afirmá-lo desde o começo. Mas, sincera e modestamente, não acho que meu achismo seja mais irresponsável ou mais ridículo do que o dos outros.

sábado, 25 de outubro de 2014

Dois modelos

 O blog traz novo texto do jornalista Lenon Hymalaia sobre a sucessão presidencial de 2014. SE pudéssemos resumir, diríamos: não temos que escolher entre dois candidatos; estamos à frente de dois projetos. Faça a sua opção! Leia abaixo.

Dos modelos de governo propostos, Das teorias do capitalismo e Do conhecimento político do brasileiro.

A busca por conhecimento é, talvez, a única forma de ficarmos isentos de prejuízos políticos ou de qualquer outro tipo de malefício que venha a nos prejudicar como seres humanos e, acima de tudo, como sociedade. Isto posto, começo este ensaio dizendo, antes de qualquer coisa, que é extremamente positivo para a democracia saber diferenciar sistemas políticos, uma vez que determinada escolha representa questões que nos atingem diretamente, social e ideologicamente.

Sou jornalista há quase duas décadas. Exerço a profissão. Para tentar entender um pouco o Brasil e as questões sociais do País, tenho procurado me aprofundar em informações transmitidas não pela mídia tradicional, mas sim pela mídia alternativa brasileira, que, ao contrário dos grandes veículos, são mais fiéis nas informações e permitem enxergar algumas coisas interessantes no que diz respeito a esta eleição. Por ser jornalista e por estar envolvido diariamente com a imprensa acabo conhecendo muito do que acontece nesse meio. E é lamentável dizer que, após quase duas décadas de dedicação à profissão, eu não acredito nenhum pouco na grande imprensa brasileira. Quase toda a mídia brasileira (rádios, jornais, revistas, sites e TV) tem um lado - a direita -, e é pró PSDB e seu estilo de política neoliberal, com raríssimas exceções. Portanto, tento me informar e fugir da alienação incentivada pela mídia.
Mas o que me traz aqui diz mais respeito à política do que à mídia em si. Esses dias o jornalista Paulo Moreira Leite (uma das raras exceções que faz parte do “quase toda a mídia”) publicou um artigo que dizia o seguinte: "Minha razão para votar em Dilma tem origem na convicção fundamental de que o dever principal do Estado e dos governantes é defender os humildes e os desprotegidos, os que não tiveram oportunidade". O artigo era longo, e esclarecia muito bem a questão do capitalismo de Estado e das questões sociais brasileiras. Para o jornalista “nunca foi tão necessário derrotar o pensamento conservador, o eterno obscurantismo que tenta fazer a roda da História andar para trás”(http://paulomoreiraleite.com/2014/10/01/voto-em-dilma/). Está aí para quem quiser ver e ler.
Eu concordo com ele. O que está em jogo no momento são modelos muito diferentes de governar o Brasil. Aliás, está em jogo a construção de dois Brasis completamente diferente. O modelo neoliberal proposto por Aécio é o mesmo utilizado na Europa e nos EUA (com uma ou outra modificação). E é este mesmo modelo que tragou as economias europeia e americana recentemente.

Após a crise de 29, a mais trágica da história do capitalismo, o filósofo e economista inglês John Keynes, um dos maiores pensadores do século XX, desenvolveu o que hoje conhecemos como teoria Keynesiana. E o que é a teoria Keynesiana?  Em resumo, essa teoria tem como premissa um capitalismo controlado pelo Estado (o que o Governo Dilma faz hoje). Keynes mostrou, no início dos anos 30, ser um completo erro deixar a economia de toda uma nação nas mãos do mercado, pois as crises capitalistas, em decorrência do capital especulativo, podem fugir ao controle (alguém aí se lembra de 2008)?

Para resumir, para Keynes, um poder maior do Estado na economia impediria as oscilações do capitalismo e permitiria ao Estado propiciar investimentos na economia, resultando em bom crescimento e baixo desemprego (hoje, no Brasil, vivemos uma situação de pleno emprego, como todos sabem. Com relação à economia, estamos passando por um processo complexo, que explico mais abaixo).
O problema das crises capitalistas é tão complexo que o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, um dos maiores pensadores contemporâneos, também mostrou, da mesma forma, na década de 70, as falhas do sistema capitalista. Em seu livro “A Crise de Legitimação do Capitalismo Tardio”(http://pt.wikipedia.org/wiki/Jürgen_Habermas e http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=73993), Habermas afirma que o capitalismo, sozinho, tem crises cíclicas complexas de tempos e tempos, o que traria problemas graves às sociedades modernas, corroborando com a teoria de Keynes, no que diz respeito à importância do Estado como gestor econômico.
Para os brasileiros que não estão muito antenados com a política a questão é a seguinte: Aécio, seus apoiadores e toda a turma da direita querem implantar no Brasil de hoje um modelo similar e responsável pela quebra dos países europeus nos últimos anos e até dos EUA, em 2008, quando estourou a crise dos subprimes. E é aqui que entra a questão econômica. Para não nos alongarmos, nossa economia tem patinado desde 2008, por consequência da grave crise que fez muitas nações quebrar. Nós não quebramos, como acontecia na Era do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ao contrário. O governo do PT, em uma das medidas para proteger a economia e o País, passou a potencializar o consumo interno e isso surtiu bons efeitos no início do processo. A questão principal, no entanto, foi que as nações fortemente afetadas pela crise não conseguiram se recuperar e o Brasil, sozinho, devido à globalização e ao processo “dominó” produzido por ela, não consegue deslanchar, muito em consequência da crise, uma vez que as grandes nações do mundo ainda estão sob seu efeito, que à época foi devastador.
O que Aécio e sua turma querem fazer, em resumo, é reimplanar no Brasil o modelo utilizado por FHC, que tem como uma de suas bases a teoria do economista Milton Friedman, teórico do liberalismo econômico, que defendia o livre mercado absoluto e considerado o maior defensor do Liberalismo econômico e da subsequente redução das funções do Estado frente ao domínio do mercado livre(http://pt.wikipedia.org/wiki/Milton_Friedman)
O que tudo isso significa: o PSDB fará uma política tipicamente de direita, responsável pelas maiores crises capitalistas da história humana. Uma política que devido à sua fórmula, nos dias atuais, só beneficiará as classes alta e média alta. Na Era FHC, os juros chegaram a 45% ao ano e milhões de brasileiros estavam desempregados. O provável ministro da Fazenda, caso Aécio seja eleito (Armínio Fraga), já disse que fará um política de cortes de salários (entenda salário mínimo e seguro desemprego) para supostamente "reduzir" a inflação, que hoje está em 6,5%.

Só para conhecimento, nas melhores épocas do governo FHC, que tinha o próprio Armínio Fraga como presidente do Banco Central, a inflação estava em 12,5%. Se Armínio Fraga voltar, sabe quem ganhará com isso? Os bancos, os especuladores nacionais e internacionais e os mega empresários e bancários que apoiam Aécio. Correremos o risco de ficarmos à mercê deles e, o principal, pelo estilo tucano de governar, talvez dependamos de ajuda financeira novamente - FMI (veja issohttp://www.youtube.com/watch?v=J5_s8V5tYus e isso http://www.youtube.com/watch?v=8_2coidyxOk).
É justamente aí que está a diferença. O que o PT faz atualmente uma política que segue os princípios Keynesianos e de observação a todos os problemas que o capitalismo pode apresentar, como bem observou o filósofo Jürgen Habermas. O resultado está aí: 30 milhões de brasileiros estão fora da linha da pobreza extrema. A proposta do Aécio, apenas para constar, é uma das mais atrasadas e há muito, muito tempo mesmo, já não funciona.
Por tudo isso sou mais a visão de governo da Dilma e do PT. Ainda temos problemas? Temos, é verdade. Mas é uma política que tem o povo em primeiro lugar. É uma política de amor pelo Brasil. É uma política de valorização do brasileiro. É uma política que fortalece nossas instituições. E é uma política que olhou para o passado, observou as grandes crises e faz de tudo para proteger nossa população.

Lenon Hymalaia - jornalista pós-graduado em Globalização e Cultura pela Escola Superior de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP.

sábado, 18 de outubro de 2014

Opinião: texto do jornalista Lenon Hymalaia

Da Esquerda e da Direita, da Imprensa brasileira, dos benefícios editoriais à Direita e da blindagem que a mídia faz em benefício dos tucanos.

*Lenon Hymalaia

Já expus, por diversas vezes, minhas convicções políticas. E minhas convicções políticas vêm 
fundamentadas em dois princípios básicos garantidos pela constituição, a saber: liberdade e igualdade, em todas as questões, para todos os brasileiros.

Aqueles que acompanham política e conhecem o mínimo necessário para não se deixar alienar, para não se deixar contaminar, sabem que isso, no Brasil, por conta da história medíocre deste País, que sempre beneficiou o mercado e a classe alta, relegando ao povo a miséria, só pode ser feito com um capitalismo de Estado.

Antes de mais nada, quero dizer que sou a favor da alternância de poder. Mas, acima de tudo, não desejo que isso ocorra a qualquer custo. Atualmente, milhares e milhares de brasileiros, infelizmente, carecem de ajuda. E essa ajuda, só quem pode propiciar é um Estado que enxergue o povo em primeiro lugar.

Há alguns dias compartilhei um artigo do filósofo Leonardo Boff, cujo título, por si só, já dizia muito sobre o que está em jogo nestas eleições: "As eleições à luz da história antipovo". Com maestria, o filósofo apontava não apenas as ideologias dos partidos que, agora, disputam o 2º turno das eleições presidenciais, bem como traçava um panorama histórico de tudo o que não foi feito em prol do povo brasileiro nestes 514 anos de vida do Brasil.

Mas eu quero ir além. O resquício perturbador que carregamos em nosso DNA e que nos faz irmos diretamente contra o nosso próprio povo não vem apenas de nossa herança recente, mas vem, sem dúvida, desde à Casa Grande. E não há mal pior do que isso. Pobres, negros e nordestinos sempre foram relegados à própria sorte na história. Nunca tiveram direito nem ao básico e nunca foram tratados como gente no Brasil. Não é exagero afirmar isso. Nossa própria história está aí para mostrar.

Atualmente, há um sentimento de ódio, principalmente nos Estados ricos do País, contra as políticas sociais desenvolvidas nos últimos anos pelos governos do PT. Há algumas razões para isso, tema que debaterei em outro post. No momento, quero exemplificar no tocante à imprensa.

Você, brasileiro médio, já parou para pensar no porquê deste sentimento de ódio? A resposta enfática e certeira para isso tem um único nome: imprensa! No Brasil poucos sabem que não há mídia de esquerda.
Existem, mas ainda não têm tanta representatividade. E há uma campanha imensa por parte da mídia direitista que está aí para difamar o governo do PT por conta das ações desenvolvidas até hoje em benefício dos menos favorecidos.

Esses dias saiu um dado bastante interessante sobre a imprensa, justamente a esse respeito: em nenhuma outra república do mundo acontece o que há no Brasil no que diz respeito à imprensa. Em Nenhuma outra república! Desde a Era Vargas e, depois, na ditadura militar (apoiada por parte da imprensa, lembrem-se disso) nenhum outro governo "apanhou" tanto da imprensa como o Governo do PT. E o pior: só por adotar políticas sociais que tentam fazer um acerto de contas histórico com aqueles que mais necessitam, tentando controlar, o que é, do meu ponto de vista, o poder do mercado.

Sabe qual foi o resultado disso, infelizmente? Sentimentos de ódio, raiva, desânimo e desapego com a política, e por aí vai.

A questão é tão complexa que neste final de semana o governador do Rio Grande do Sul e candidato à reeleição pelo PT, Tarso Genro, denunciou o que venho dizendo para alguns amigos faz anos: a imprensa do Brasil quer dar um golpe político para tentar derrubar o governo. Não se trata de desvarios. Está aí para quem quiser ver e entender (http://www.youtube.com/watch?v=RN8RhHqFe1I
). Em coro ao candidato Tarso Genro, o neto de João Goulart, presidente deposto pelo Golpe Militar, João Alexandre Goulart, declarou nos últimos dias que o “cerco sofrido por Dilma é maior e pior do que o enfrentado pelo avô dele”.

A verdade é só uma: a imprensa dá pesos e medidas diferentes, de acordo com seus próprios interesses. A crise hídrica de São Paulo, para a imprensa brasileira, por exemplo, é culpa de São Pedro e não da incompetência do PSDB e dos tucanos que estão há mais de 20 anos gerindo o Estado.

Dando nome aos bois, para se ter uma ideia concreta do quanto a Veja, a Folha, o Estadão, a Globo, a Band, o Valor Econômico e muitos outros canais de imprensa fazem vistas grossas para a corrupção dos governos tucanos, vai um dado muito interessante: o dinheiro desviado da ação penal 470
 (se é que houve dinheiro desviado, pois a mesma justiça que não conseguiu provar a existência do chamado Mensalão condenou os réus sem provas), que a mídia convencionou a chamar de "mensalão", foi 8 vezes (ISSO MESMO, 8 VEZES) menor do que o dinheiro desviado na reforma e na compra dos trens de São Paulo (este sim, uma esquema com provas). Ou seja: o cartel do metrô de São Paulo desviou quase R$ 1 bilhão de reais (http://brasil.elpais.com/brasil/2014/02/04/politica/1391471831_386271.html) e a imprensa, conivente com os tucanos, nada fala sobre isso, se cala.

Outro ponto interessante: As denúncias de compra de votos para a reeleição de FHC até foram aceitas pela imprensa, mas nunca foram questionadas a fundo. E as denúncias existem e muitos garantem que há provas. Os jornais mostram isso? As revistas denunciam e dizem o que foi esse esquema? Os noticiários televisivos falam disso?

E o que dizer do chamado mensalão mineiro? O Supremo Tribunal Federal 
deu pesos e medidas diferentes aos julgamentos do chamado "mensalão" do PT e ao mensalão do PSDB em Minas. Inclusive, aceitou a renúncia do candidato do PSDB, mas negou aos candidatos do PT que, mesmo deixando os cargos, foram punidos!

Sem contar o debate sobre o processo de regulamentação da mídia, que seria muito benéfico ao país, que a direita não deixa fazer (principalmente a Veja, o Estadão, a Folha e a Globo). Vale destacar que esta última já dependeu do BNDES e esteve recentemente envolvida em denúncias de sonegação.

Pois bem. O que eu estou querendo mostrar é o seguinte: Existem dois lados, duas lutas no Brasil. A primeira tenta construir um Brasil para todos, priorizando os mais pobres, os mais necessitados. A outra, nitidamente, deseja favorecer as classes mais ricas e favorecer os milionários (vejam artigo publicado na revista Carta Capital, "Separatismo de São Paulo incorpora Antipetismo" http://www.cartacapital.com.br/politica/separatismo-de-sao-paulo-incorpora-antipetismo-8127.html ). Toda a mídia está com a segunda opção. E talvez seja por isso que a maioria da população de São Paulo, por falta de acesso à informação política (em virtude da parcialidade do monopólio midiático), tem um sentimento extremamente negativo com relação ao PT, às políticas sociais desenvolvidas pelo partido em benefício dos menos favorecidos e ao processo democrático como um todo.

Sou da opinião de que só o conhecimento pode esclarecer todas as mentiras que são ditas pela imprensa. A política é uma coisa interessante e só pela política podemos mudar o Brasil. Por isso é muito interessante e positivo para a democracia quando as pessoas se interessam pela política.

Não tenho dúvidas em quem votarei e qual é a melhor opção para o Brasil. O modelo neoliberal proposto por Aécio e pelos tucanos é maléfico para o País. Observo que foi este mesmo modelo que destruiu a economia mundial.

E para aqueles que criticam o modelo econômico adotado pelo atual governo é interesse notarmos q
ue, de uma maneira geral, por vivermos em um mundo globalizado, se não estamos crescendo, é muito em conta do que tem acontecido no mundo desde 2008, quando estourou a crise dos Subprimes e que levou à quebra do Lehman Brothers, nos EUA, e por consequência, arrastou o resto do mundo para uma recessão histórica, só comparada à crise de 1929, também nos EUA.

Votar é o maior exercício democrático que podemos fazer. É a maior prova de amor que podemos dar ao nosso País. Por isso, não seja conivente com a história "antipovo". O Brasil nunca antes havia sido governado por partidos de esquerda. A esquerda está aí há apenas 12 anos e muita, muita coisa mudou nesta década. Então, neste segundo turno, faça história. Opte por um projeto que, se ainda não é perfeito, ao menos tenta priorizar nossas raízes, nosso povo, e propõe um acerto de contas
 histórico com nossos irmãos brasileiros menos favorecidos.

Lenon Hymalaia – Jornalista pós-graduado em Globalização e Cultura pela Fundação Escola Superior de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).  

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Saindo do coma em 2014

Relato anônimo

Acabo de sair do coma. É tudo estranho. Vão me contando as coisas aos poucos. Vou me recordando do que aconteceu quando sofri o fatídico acidente que me deixou anos e anos inconsciente.

Entrei em estado de coma em 2005. Lembro-me da tal crise do mensalão. Sei que o Lula ia sofrer impeachment e que o PT iria ter grandes dificuldades de ganhar qualquer coisa depois disso. Aliás, se bem me lembro, houve quem dissesse para não depor o Lula e deixá-lo sangrar até morrer para que, combalido, fosse enxotado do Planalto na eleição de 2006.

Acordo agora em setembro de 2014. É ano de eleição. Como é que é? As pesquisas são lideradas por uma tal Dilma Rousseff... O quê?! É a atual presidente? Presidenta, como queira. É a atual presidenta? Seguida de muito perto por... Marina Silva?

Agora me lembrei: Dilma Rousseff foi ministra de alguma coisa logo no começo do governo Lula... Isso, ministra de Minas e Energia, e naquela crise de 2005 ocupou o lugar de José Dirceu na Casa Civil. Não é ela?

O quê?! Dirceu? Preso? Ai, ai, ai, ai, ai... Amigos, acabei de sair do coma. Não se brinca com um homem assim!

Mas voltemos às eleições deste ano. Marina é candidata pelo PT, e a tal da Dilma tá por quem?

O quê?! Marina saiu do PT em 2008? Ela é agora o anti-PT? E a tal da Dilma é que é candidata do PT?

E o meu PSDB, onde está nessa eleição? Por que essa cara, gente?

Mas me expliquem melhor: Dilma então é a presidente candidata à reeleição, certo? Ok, ok, presidenta, prometo não me esquecer!

Então, obviamente, ela elegeu-se em... Deixe-me ver... em 2010, né? Não vai me dizer que foi pelo PT...

Sério? Mas pera aí... O PT não ia acabar em 2005? Não estava irreversivelmente derrotado? Como foi que renasceu das cinzas em 2010? Conta devagar porque é muita inform...

O quê?! Lula foi reeleito em 2006? E aquela história de impeachment? Sei, medo do povo nas ruas! Ok, ok, mas ele não ia sangrar até morrer?

E fez a sucessora em 2010?

Pode parecer tudo normal para vocês. Mas não se esqueçam que eu estava em estado de coma desde 2005. Saí de cena em 2005 com o "fim do PT" e com a espada na cabeça de Lula. Volto agora em 2014 com duas ministras de Lula durante a crise do mensalão disputando voto a voto a presidência da República, deixando para trás o candidato do meu partido.

E por falar nisso, quem é o candidato do meu partido, hein?

O quê?! Não é o Serra? Que surpreendente.

Mas vamos mudar de assunto. Que tal um pouco de amenidades?

O quê?! O Brasil sediou a Copa do Mundo deste ano? E foi um sucesso? Considerada das melhores de todos os tempos em termos de organização? Aqui, no Brasil? Ah, qual é?!

Bem, Copa disputada aqui, grande sucesso, não acredito! Mas, se é que vocês estão falando a verdade, só posso acreditar que o Brasil foi campeão, né?

Por que vocês estão se entreolhando?

O quê?! 7 a 1 pra Alemanha? Ah, nisso vocês não vão querer que eu acredite, né?

domingo, 24 de novembro de 2013

Desculpe-nos. Daqui a 50 anos!

Comecemos repisando: a Ação Penal 470, vulgo "mensalão", é revestida de grande polêmica entre políticos e juristas, inclusive de muitos não simpáticos ao principal partido e aos maiores nomes nela implicados. Há quem questione o próprio crime (no sentido penal), seus procedimentos, o modelo de julgamento, as teses utilizadas para condenar, a dosimetria adotada etc. Como não poderia deixar de ser, novas críticas seguiram ao mais recente capítulo: a execução das penas.

As críticas à prisão em regime fechado mesmo de condenados não necessariamente a tal pena foram igualmente encampadas por gente das mais diversas colorações. A medida, no entanto, foi muitíssimo festejada pela chamada grande imprensa. Salvo as exceções que confirmam a regra, só se viram alegrias, bravatas e lições de moral na maioria dos editoriais, manchetes, capas e colunas. Não faltou nem mesmo quem imprimisse ao caso um sentimento de esperança, do tipo "é só o começo; virão condenações para todos os malfeitos e de todos os partidos", de modo a disfarçar o revanchismo ou sectarismo.

O rigor científico exige que evitemos, ao máximo, comparar coisas que são essencialmente diferentes. Comparar o julgamento do chamado mensalão com o Golpe de 1964, por exemplo. A simples ideia de classificar o "ponto fora da curva" - como disse o ministro Barroso -, que caracteriza o julgamento, como sinal de golpe já é uma atitude ousada, que talvez só o velho tempo poderá bem dimensionar. Há, porém, exemplos que permitem passear pela hipótese.

Diferentemente das décadas de 1960 e 1970, as elites latino-americanas não vêm usando os militares para tentar compensar a impopularidade de suas ideias e seus desejos. Atualmente, a preferência vem recaindo pelas estruturas do Judiciário. O caso mais marcante foi o golpe em Honduras pela iniciativa da Suprema Corte do país, seguido da deposição em tempo exíguo do presidente Lugo, no Paraguai, que teve seu impeachment referendado, em tempo igualmente rápido, por sua Corte maior. Ressalte-se que questões de interesse popular na Argentina e na Venezuela, também recentemente, só não sofreram reveses judiciais porque em ambos os países houve preocupação com a coloração das supremas cortes -  tal espaço foi compreendido, por Chávez e pelos Kirchners, como elemento fundamental da arena política.

O que mais permite a comparação com 1964 é mesmo o já mencionado comportamento da mídia. O clima de torcida e agitação após a "vitória" saboreada pelo encarceramento dos "mensaleiros" assemelha-se, guardadas as proporções, ao tom expresso nas manchetes após o Golpe Militar de fim de março e início de abril de 1964. Alguém estranharia, hoje, se lesse em alguns de nossos jornalões, embaixo de uma foto de Dirceu ou Genoino preso, algo do tipo "vive a Nação dias gloriosos"? Para entender melhor, veja a compilação do sítio Carta Maior.

Passados muito poucos anos, alguns dos órgãos de imprensa que celebravam 1964 já sentiam na pele o que aquele movimento significava. Em seguida, muitos passaram a surfar noutras ondas, vendo que o processo de abertura era irreversível. Outros estiveram até o fim com os militares, coerentes com sua posição. Todavia, estes últimos, passados quase 50 anos do golpe e perto de 30 da despedida do regime, após sofrer ataques verbais nas ruas, entenderam por bem fazer um "mea culpa", demonstrando relativo arrependimento pelo embarque naquela empreitada.

Muita coisa ainda deve ser escrita e reescrita sobre o tal mensalão. A história é intrincada: envolve vingança, há de fato crimes eleitorais, existe o componente dos vícios do sistema político, jogos de interesse etc. Não obstante tudo isso, o que mais vai saltar aos olhos será o sacrifício de figuras e funcionários públicos com o fim de se fazer um grande espetáculo de que o País, em algum sentido movido por motivos nobres, estava sedento por assistir. Noutras palavras, o "ponto fora da curva" nada mais é do que um refinado eufemismo para julgamento de exceção. E tem gente - inclusive doente - indo presa, após medida arbitrária, com o fim de saciar o desejo de sangue dos bombardeados pelo discurso midiático e a fome de vingança dos derrotados nas urnas.

Um julgamento de exceção, assim como regimes de exceção, tem tudo para ser execrado um dia. Impossível prever em quanto tempo. Quando esse dia chegar, alguns dirão que foi para evitar males maiores ou que houve uma tentativa de se moralizar a política a qualquer custo, ainda que por meio de uma injustiça. Mesmo que forçados, alguns talvez peçam desculpas. Tomara não seja necessário esperar 50 anos!


sábado, 22 de junho de 2013

O que ouvi; o que senti...

Nao há dúvidas que é cedo para analisar com profundidade  as manifestações de rua deste junho de 2013 no Brasil. Tentarei passar impressões a  partir  de testemunho do que ouvi em vagão do Metrô de São Paulo na terça-feira 18.

Na estação República embarca uma enormidade de jovens de cara pintada discutindo, conversando sobre os encontros de que participaram. A primeira observação viria de Nelson Rodrigues: nenhum desdentado! Atenhamo-nos às ideias, pois.

Um dos jovens dispara de cara: em meio a tanta coisa, os vinte centavos foram a gota d'água; não bastasse - prosseguiu -, tem o preço do quilo do tomate (R$ 12, segundo o jovem); pacote de arroz a mais de R$ 20; feijão a quase R$ 3. Gostei do preço do feijão! Desconfio que o moço não faz compras, mas mesmo assim fiquei tentado em lhe perguntar qual supermercado frequentava.

Outro rapaz afirmava que na Suécia políticos não recebiam salários, preciosa informação que não confirmei. Como seria de se esperar, o moço começou a clamar por menos impostos. Todavia, sem se atentar ao significado da palavra incoerência, o carinha passou a cobrar melhoria dos serviços públicos.

Na Sé, sobe muitíssima gente, aparentemente sem ligação com os protestos. Uma manifestante puxa papo com uma mulher, logo de início reclamando das agruras do cotidiano, dela ouvindo uma crítica genérica aos políticos: "tudo safado, tudo vagabundo, tudo farinha do mesmo saco". A moça tinha a solução: era 80% dos eleitores anularem seu voto; e o legal do movimento, contava ela para a passageira, era o repúdio aos partidos.

Merece comentário: abdicar da política, anulando votos como sugeriu a manifestante, de nada serviria, pois os poucos que ofertassem votos válidos decidiriam as eleições. E mudanças não podem ser empreendidas senão por meio da política e de seus partidos, inclusive por força legal. Muitos fazem pregação moralista antipolítica por pura ignorância; o preocupante é que parcela talvez não desprezível o faz por inclinação golpista mesmo.

Talvez não por muita coincidência, durante a viagem leio texto (se não me engano de Paulo Moreira Leite) que nos lembra do fato de, na Espanha, os jovens, após longas manifestações, terem renunciado à participação e, assim, permitido a vitória dos conservadores naquele país, os quais vêm intensificando o desmando neoliberal, causa última justamente da insatisfação que levara as pessoas às praças.

Em seguida, no ônibus, um sujeito, a despeito de, segundo palavras dele, grande paixão por futebol e da alegria pela realização da Copa no Brasil, estava furioso com os gastos excessivos com a organização do evento e construção e reforma de estádios. Muitos de fato estão tristes com a situação. Talvez porque estejam decepcionados por terem as arenas ficado prontas já em tempo da Copa das Confederações, ao contrário do que se afirmava a boca pequena, inclusive em razão de nosso já proverbial complexo de vira-latas - Nelson Rodrigues de novo!

A moçada que vi e ouvi, aparentemente desligada de organizações, conforme relatado repetia, de forma voluntária, bordões da imprensa, oposição e de grupos de direita: inflação fictícia, discurso anti-imposto e antipolítica, ódio aos partidos (de esquerda, principalmente), gastos públicos - todos temas que não por acaso poderiam desgastar qualquer governo mas são especialmente caros ao federal. Neste quadro, não parecia tarefa difícil para a direita organizada cooptar os que protestavam de boa fé.

É um caso clássico de como age a fortuna de que falava Maquiavel. O governo Dilma não só não construiu diques para dela se proteger, como ainda deixou transparecer que se sentia seguro com seus altos índices de popularidade. Por sua vez a virtù - para prosseguirmos com o florentino - parece, por enquanto, estar com a mídia e demais grupos dispostos a desestabilizar o governo brasileiro. Inculcaram pacientemente, por longo tempo, ideário conservador na cabeça das pessoas. Quando sentiram o pulsar das ruas, agiram rápido, tiveram senso de história.

domingo, 16 de junho de 2013

Perspectivas para 2014 - influências dos resultados do PIB

O até certo ponto decepcionante crescimento econômico anotado no primeiro trimestre deste 2013 trouxe ânimo para a oposição e para o colunismo que lhe dá suporte na imprensa. Com ótimos índices de popularidade, sendo Dilma Rousseff favoritíssima à reeleição em 2014, qualquer espirro traz alento às hostes oposicionistas. Mas, afinal de contas, qual é efetivamente a importância dos números reais do Produto Interno Bruto na hora da eleição?

O PIB comportou-se de forma oposta nos dois últimos pleitos presidenciais: foi fraco durante o período que antecedia a corrida de 2006, e era quase chinês na disputa de 2010. As respostas das urnas parecem sugerir que a ideia de crescimento econômico, se mostrada de forma abstrata, sem relação direta com a vida das pessoas, não influencia de forma, por assim dizer, simétrica, o resultado - no limite, talvez seja meramente um elemento a mais, de importância apenas relativa, na hora de o eleitor decidir seu voto.

Em 2006, ainda antes da derrocada do neoliberalismo, o planeta vivia uma onda de prosperidade, com meio mundo ostentando números significativos de crescimento. O Brasil seguia acanhado, e o oposicionista Geraldo Alckmin, secundado pela mídia amiga, não perdia uma oportunidade de acusar o País de àquela época "estar crescendo somente mais do que o Haiti nas Américas". A despeito das lembranças e advertências do político paulista, o então presidente Lula, candidato à reeleição, obteve vitória folgada - para não dizer massacrante - no segundo turno.

Já em 2010, nos meses que marcavam a corrida pelo Planalto, a economia brasileira, diferentemente da maior parte das economias centrais do planeta, bombava, com índices de crescimento que, anualizados, orbitavam pelos 8%, números que só seriam considerados ridículos por chineses - e olhe lá! Mas eram os brasileiros que iam às urnas, e apesar do "feel good factor", impuseram um segundo turno e premiaram a oposição com 44% dos votos, números bem melhores do que o por ela alcançado quatro anos antes, quando, segundo Alckmin e a mídia, o Haiti era aqui.

Não raro veem-se críticos aos métodos de avaliação de crescimento econômico e gente que declaradamente contesta a validade do PIB para se apurar a saúde econômica e o bem-estar social num dado país. Aos estudiosos do tema, a relação, digamos, blasé que o eleitor brasileiro parece vir tendo com a matéria seria uma boa fonte de análise.

E em 2014, será que o eleitor irá às urnas com uma tabelinha do IBGE debaixo do braço?

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Meio a zero: reflexões sobre a eleição de Maduro na Venezuela

Na linguagem futebolística, sempre se diz que está valendo a vitória de "meio a zero", com gol de mão, impedido, aos 47 do segundo tempo. É vitória e ponto. De todo modo, todos esperavam resultado mais elástico a favor do chavista Nicolás Maduro contra o oposicionista Henrique Caprilles nas eleições presidenciais na Venezuela.

O chavismo coleciona vitórias nos últimos 14 anos no país sul-americano; e o pleito do domingo, 14 de abril de 2013, correu sob forte impacto emocional pela morte de Hugo Chávez. No mínimo repetir o resultado de outubro de 2013, quando o falecido ex-presidente ganhou com diferença de oito pontos, era esperado por muitos seguidores e apoiadores do regime vigente na Venezuela.

A pouca diferença a favor do candidato da situação pode se explicar por fatores como o desgaste mais ou menos normal de um grupo político no poder por mais de uma década e por problemas socioeconômicos cuja existência não vinha sendo negada nem pelo mais radical chavista. Além de fatores mais racionais, talvez seja o caso de avaliar se não há algo nas autoridades carismáticas, caso de Chávez, que seja absolutamente intransferível. 

As eleições presidenciais de 2010 no Brasil são exemplo de que parcela não desprezível do carisma fica como que "presa" exclusivamente a seu dono. Mesmo com a popularidade de Lula na estratosfera, sua candidata não conseguiu vencer no primeiro turno e, na segunda rodada, viu quase 45% dos eleitores sufragarem o nome da oposição, a despeito de o País estar crescendo próximo a taxas chinesas no momento em que se dirigia às urnas.

Outro aspecto importante já foi abordado noutro de nossos textos, que pode ser acessado abaixo. Hugo Chávez devia ter trabalhado melhor sua sucessão, e isto antes da grave doença que o acometera. Advertências já haviam sido feitas pelos ex-presidentes Kirchner e Lula. Tal providência poderia ter sido tomada mesmo com as regras eleitorais vigentes na Venezuela e ainda que sob a liderança inabalável e até centralizadora de Chávez.

No mais, a dificuldade encontrada por Maduro foi, sim, um recado duro para as esquerdas pós-neoliberais que comandam parcela importante da América do Sul. Para o Brasil, em particular, o caso deve ser visto como um aviso preocupante, em vista da falta de regulação da mídia, que indiscutivelmente age como partido de oposição, e também por conta da inclusão social realizada com melhoria material de vida desprovida, no entanto, de politização.

Não houvesse na Venezuela um sistema público de comunicação eficiente e tivesse sua população mais pobre desligada dos temas mais caros da política, e certamente Caprilles, político jovem mas tarimbado, teria dado um passeio eleitoral no domingo passado. Será que Dilma e o PT acham que a oposição no Brasil não viu isso?


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