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sábado, 7 de março de 2015

Ficcão de Faustus 'Mestre' Sapienza: A jornalista, o roqueiro e o advogado

Colamos abaixo um texto do misterioso Faustus 'Mestre' Sapienza. O autor diz ser a mais absoluta ficção. Mas... Qualquer semelhança com a realidade...

A jornalista, o roqueiro e o advogado
Por Faustus 'Mestre' Sapienza 

A Jornalista
Passeio no shopping, sábado à tarde.Encontro a Priscila. Moça bacana tava ali. O bobão do meu filho deixou escapar. Ela não se dava bem com minha mulher. Mas e daí? Tinha que se dar bem é com o garoto, oras!
-E aí? Quanto tempo!
-Eu vou bem. E o senhor? E o Marquinho?
-Senhor tá no céu! Ih, aquele ali, só batendo cabeça, pra variar um pouco. E você?
-Bem, não sei se o senhor... se você se recorda, mas eu tava na faculdade de jornalismo. Me formei e estou participando de um treinamento num grande órgão de comunicação aqui de São Paulo, com chance de efetivação.
-Que beleza! Parabéns!
-Obrigada, seu Marco! Mas vou te falar, é jogo duro. Inventaram uma gincana.
-Gincana?
-Eles dão outro nome, mas eu chamo de gincana. Tamo brincando de“jornalista investigativo”. Nossa tarefa é descobrir alguma coisa contra o Lula ou algum familiar dele. Não precisa ser muito sério ou muito grave, não. Tem que ser algo só pra render umas matérias. Não importa os métodos que a gente usa. Só não pode ser esses boatos bestas de internet. Tô quase desistindo.
-Desiste não, querida. Até porque não deve ser muito difícil encontrar alguma falcatrua daquele bandido e daquela quadrilha que ele chama de família...
-Ah, seu Marco.
-Para com isso. Me chama só de Marco ou Marcão.
-Então, Marco, se houvesse alguma coisa contra Lula estaria todo mundo publicando, martelando 24 horas por dia. E os figurões é que estariam assinando as matérias. Não iam ficar pedindo pras foquinhas bobocas como nós.
-Olha... Nunca tinha pensado nisso...
-Vou nessa, seu... Desculpa, Marco. Beijão pro Marquinho!
-Dou sim. Não vai mandar pra Matilde, não? Brincadeira!

O Roqueiro
Vocês não vão acreditar. Mal me despeço da Pri e sabe quem eu encontro? O Lupinão! Como assim, que Lupinão? Roqueirão dos maravilhosos anos 80. Não lembra do velho sucesso“Me estupra”? Eu canto um trecho pra você. Mas a que eu mais gostava mesmo era de “Triste não rima com alpiste”: não é muito conhecida, mas tem uma letra linda. É que vocês são novinhos... Não vão lembrar do Lupinão. Mas ele se lembrou de mim. Me viu e me chamou:
-Marcão!
-Sim.
-Não se lembra de mim?
-Desculpa, mas...
-E sem os óculos?
-Lupinão?
-Falaí, meu! Que prazer!
-Fazendo o que, cara?
-Fazendo uns showzinhos, fraquinhos. Gravar disco não rola mais, você sabe.
-A moça ali acho que te reconheceu, hein? Ficou te olhando...
-Moça? É daquelas vovozinhas que vêm trazer os netinhos pra passear no shopping! Mas tá valendo.
-E os shows, tão legais?
-Pouca coisa. Tô tramando uma coisa grande aí, com um amigo jornalista. Acho que você não conhece. Crítico, produtor. Ele anda meio sumido. Não tenho falado muito sobre o assunto. Você é o primeiro a ficar sabendo. A gente precisa urgentemente voltar pra mídia.
-Mas que tipo de negócio que é? Se é que você quer mesmo falar.
-Vou falar pra você, até pra você depois não pensar que eu tô louco!
-Mas louco você é, carambola!
-Eu vou começar a parecer um cara superpolitizado, cheio de ódio ao PT e defensor de ideias conservadoras...
-Pode parar. Eu também odeio o PT e sou cheio de ideias conservadoras. E daí?
-Esse meu amigo jornalista tem velhos amigos no meio. Ele vai entrar na mesma onda que eu. Pelos cálculos dele, isso vai me abrir espaço pra dar entrevista. E sabe como é? Entrevista repercute, os caras te chamam pra fazer show, por causa do show eu volto a dar mais entrevistas bombásticas. Meu amigo vai me empresariar e vai também escrever um ou outro texto elogiando minha coragem...
-É, mas cê sabe que vai receber saraivada de tudo quanto é lado também, né? Esses petistas bandidos são organizados...
-Então, cara, essa é a melhor parte: vou ser vítima da censura petista, chavista, politicamente correta e outro nome que eu não lembro. Meu amigo é que é bom pra esses rótulos.
-Cara, muito louco mesmo o que cê tá falando. Mas será que vai dar certo?
-Tô esperançoso. Meu amigo jornalista falou que se bombar mesmo, eu posso até sonhar em ser figura cativa de um talk show que tá pra começar aí. Vamo aguardar. Se você já tiver de saída, eu vou aceitar uma carona...
-Não, Lupinão. Ainda preciso ver umas coisas. Foi um prazerzaço, cara!

O Advogado
Que dia incrível. Agora é o Pestana, advogado, pachorrento, todo cheio de querer ser olhando vitrines de loja cara.
-Se não é o Dr. Pestana!
-Marcão? É vivo ainda, seu filho da mãe?! Você não engorda, não, desgraçado?
-Que é isso? Tô gordo, pô! E do que cê tá falando? Tá bem também.
-Que nada. É que o terno aqui disfarça o barrigão!
-Por falar nisso, só você mesmo pra tá de terno num sabadão desses.
-É que fui ver um caso bom. Um belo potencial de escândalo. Coisa pesada. O sujeito tá preso. Fui conversar com a família. Eles tão querendo ver se ele entra nesse negócio de delação premiada.
-Já ouvi falar. Parece que é bom isso, né?
-Depende. No caso dele não parece muito bom, não, pelo menos por enquanto. Os caras delatam pra sair numa boa e ainda ficar como herói. Expliquei pra família que não é tudo tão simples.
-Mas do jeito que a gente vê na mídia, parece que é simples sim.
-Depende do que e de quem você vai delatar. No caso do meu cliente ele tem uns caras e uns esquemas grandes do PSDB...
-Esses são outros, viu. Esses caras podem dar as mãos pro PT e sair por aí. Tudo farinha do...
-Sério? Lá no seu facebook tava cheio de propaganda dos candidatos deles.
-Sim, mas é que isso... Bem, e por que não entrega logo a corja do PSDB?
-Sabe como é família, né? Acha que o homem é um santo, um injustiçado, que foi vítima dos peixes grandes tanto da política quanto de grandes empresas e quer ver a barra dele limpa, dando entrevista em jornal como um herói. Na hora que eles me mostraram os nomes, descartei.
-Conta aí.
-Cê tá é louco! Se eu me meter com os caras que ele tem pra delatar até minha carreira entra em perigo. Mas dei uma missão pra eles: tentar ver se não descola pelo menos um nome que dê pra associar com PT, Lula ou Dilma. Pode ser uma associaçãozinha de longe; qualquer forçada de barra serve.
-Não deve ser difícil...
-Também penso que não. Tá cheio de cara que opera pros dois lados. E pra mídia, pra polícia, pra parte da Justiça, pruns caras do MP, se puder envolver, mesmo que indiretamente, um petista, o negócio ganha uma dimensão fora de série, mesmo que sem provas.
-Mas pelo que cê tá falando, é uma sujeira...
-É a vida! Se a família me der um nome que dê pra ligar com o PT, um nomezinho que seja, eu consigo um escarcéu bom. Vou precisar de ajuda pra isso, claro. Por falar nisso, será que você não conhece alguma jornalista iniciante ou algum roqueiro decadente pra me ajudar nesse serviço?

sábado, 25 de outubro de 2014

Dois modelos

 O blog traz novo texto do jornalista Lenon Hymalaia sobre a sucessão presidencial de 2014. SE pudéssemos resumir, diríamos: não temos que escolher entre dois candidatos; estamos à frente de dois projetos. Faça a sua opção! Leia abaixo.

Dos modelos de governo propostos, Das teorias do capitalismo e Do conhecimento político do brasileiro.

A busca por conhecimento é, talvez, a única forma de ficarmos isentos de prejuízos políticos ou de qualquer outro tipo de malefício que venha a nos prejudicar como seres humanos e, acima de tudo, como sociedade. Isto posto, começo este ensaio dizendo, antes de qualquer coisa, que é extremamente positivo para a democracia saber diferenciar sistemas políticos, uma vez que determinada escolha representa questões que nos atingem diretamente, social e ideologicamente.

Sou jornalista há quase duas décadas. Exerço a profissão. Para tentar entender um pouco o Brasil e as questões sociais do País, tenho procurado me aprofundar em informações transmitidas não pela mídia tradicional, mas sim pela mídia alternativa brasileira, que, ao contrário dos grandes veículos, são mais fiéis nas informações e permitem enxergar algumas coisas interessantes no que diz respeito a esta eleição. Por ser jornalista e por estar envolvido diariamente com a imprensa acabo conhecendo muito do que acontece nesse meio. E é lamentável dizer que, após quase duas décadas de dedicação à profissão, eu não acredito nenhum pouco na grande imprensa brasileira. Quase toda a mídia brasileira (rádios, jornais, revistas, sites e TV) tem um lado - a direita -, e é pró PSDB e seu estilo de política neoliberal, com raríssimas exceções. Portanto, tento me informar e fugir da alienação incentivada pela mídia.
Mas o que me traz aqui diz mais respeito à política do que à mídia em si. Esses dias o jornalista Paulo Moreira Leite (uma das raras exceções que faz parte do “quase toda a mídia”) publicou um artigo que dizia o seguinte: "Minha razão para votar em Dilma tem origem na convicção fundamental de que o dever principal do Estado e dos governantes é defender os humildes e os desprotegidos, os que não tiveram oportunidade". O artigo era longo, e esclarecia muito bem a questão do capitalismo de Estado e das questões sociais brasileiras. Para o jornalista “nunca foi tão necessário derrotar o pensamento conservador, o eterno obscurantismo que tenta fazer a roda da História andar para trás”(http://paulomoreiraleite.com/2014/10/01/voto-em-dilma/). Está aí para quem quiser ver e ler.
Eu concordo com ele. O que está em jogo no momento são modelos muito diferentes de governar o Brasil. Aliás, está em jogo a construção de dois Brasis completamente diferente. O modelo neoliberal proposto por Aécio é o mesmo utilizado na Europa e nos EUA (com uma ou outra modificação). E é este mesmo modelo que tragou as economias europeia e americana recentemente.

Após a crise de 29, a mais trágica da história do capitalismo, o filósofo e economista inglês John Keynes, um dos maiores pensadores do século XX, desenvolveu o que hoje conhecemos como teoria Keynesiana. E o que é a teoria Keynesiana?  Em resumo, essa teoria tem como premissa um capitalismo controlado pelo Estado (o que o Governo Dilma faz hoje). Keynes mostrou, no início dos anos 30, ser um completo erro deixar a economia de toda uma nação nas mãos do mercado, pois as crises capitalistas, em decorrência do capital especulativo, podem fugir ao controle (alguém aí se lembra de 2008)?

Para resumir, para Keynes, um poder maior do Estado na economia impediria as oscilações do capitalismo e permitiria ao Estado propiciar investimentos na economia, resultando em bom crescimento e baixo desemprego (hoje, no Brasil, vivemos uma situação de pleno emprego, como todos sabem. Com relação à economia, estamos passando por um processo complexo, que explico mais abaixo).
O problema das crises capitalistas é tão complexo que o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, um dos maiores pensadores contemporâneos, também mostrou, da mesma forma, na década de 70, as falhas do sistema capitalista. Em seu livro “A Crise de Legitimação do Capitalismo Tardio”(http://pt.wikipedia.org/wiki/Jürgen_Habermas e http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=73993), Habermas afirma que o capitalismo, sozinho, tem crises cíclicas complexas de tempos e tempos, o que traria problemas graves às sociedades modernas, corroborando com a teoria de Keynes, no que diz respeito à importância do Estado como gestor econômico.
Para os brasileiros que não estão muito antenados com a política a questão é a seguinte: Aécio, seus apoiadores e toda a turma da direita querem implantar no Brasil de hoje um modelo similar e responsável pela quebra dos países europeus nos últimos anos e até dos EUA, em 2008, quando estourou a crise dos subprimes. E é aqui que entra a questão econômica. Para não nos alongarmos, nossa economia tem patinado desde 2008, por consequência da grave crise que fez muitas nações quebrar. Nós não quebramos, como acontecia na Era do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ao contrário. O governo do PT, em uma das medidas para proteger a economia e o País, passou a potencializar o consumo interno e isso surtiu bons efeitos no início do processo. A questão principal, no entanto, foi que as nações fortemente afetadas pela crise não conseguiram se recuperar e o Brasil, sozinho, devido à globalização e ao processo “dominó” produzido por ela, não consegue deslanchar, muito em consequência da crise, uma vez que as grandes nações do mundo ainda estão sob seu efeito, que à época foi devastador.
O que Aécio e sua turma querem fazer, em resumo, é reimplanar no Brasil o modelo utilizado por FHC, que tem como uma de suas bases a teoria do economista Milton Friedman, teórico do liberalismo econômico, que defendia o livre mercado absoluto e considerado o maior defensor do Liberalismo econômico e da subsequente redução das funções do Estado frente ao domínio do mercado livre(http://pt.wikipedia.org/wiki/Milton_Friedman)
O que tudo isso significa: o PSDB fará uma política tipicamente de direita, responsável pelas maiores crises capitalistas da história humana. Uma política que devido à sua fórmula, nos dias atuais, só beneficiará as classes alta e média alta. Na Era FHC, os juros chegaram a 45% ao ano e milhões de brasileiros estavam desempregados. O provável ministro da Fazenda, caso Aécio seja eleito (Armínio Fraga), já disse que fará um política de cortes de salários (entenda salário mínimo e seguro desemprego) para supostamente "reduzir" a inflação, que hoje está em 6,5%.

Só para conhecimento, nas melhores épocas do governo FHC, que tinha o próprio Armínio Fraga como presidente do Banco Central, a inflação estava em 12,5%. Se Armínio Fraga voltar, sabe quem ganhará com isso? Os bancos, os especuladores nacionais e internacionais e os mega empresários e bancários que apoiam Aécio. Correremos o risco de ficarmos à mercê deles e, o principal, pelo estilo tucano de governar, talvez dependamos de ajuda financeira novamente - FMI (veja issohttp://www.youtube.com/watch?v=J5_s8V5tYus e isso http://www.youtube.com/watch?v=8_2coidyxOk).
É justamente aí que está a diferença. O que o PT faz atualmente uma política que segue os princípios Keynesianos e de observação a todos os problemas que o capitalismo pode apresentar, como bem observou o filósofo Jürgen Habermas. O resultado está aí: 30 milhões de brasileiros estão fora da linha da pobreza extrema. A proposta do Aécio, apenas para constar, é uma das mais atrasadas e há muito, muito tempo mesmo, já não funciona.
Por tudo isso sou mais a visão de governo da Dilma e do PT. Ainda temos problemas? Temos, é verdade. Mas é uma política que tem o povo em primeiro lugar. É uma política de amor pelo Brasil. É uma política de valorização do brasileiro. É uma política que fortalece nossas instituições. E é uma política que olhou para o passado, observou as grandes crises e faz de tudo para proteger nossa população.

Lenon Hymalaia - jornalista pós-graduado em Globalização e Cultura pela Escola Superior de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP.

sábado, 18 de outubro de 2014

Opinião: texto do jornalista Lenon Hymalaia

Da Esquerda e da Direita, da Imprensa brasileira, dos benefícios editoriais à Direita e da blindagem que a mídia faz em benefício dos tucanos.

*Lenon Hymalaia

Já expus, por diversas vezes, minhas convicções políticas. E minhas convicções políticas vêm 
fundamentadas em dois princípios básicos garantidos pela constituição, a saber: liberdade e igualdade, em todas as questões, para todos os brasileiros.

Aqueles que acompanham política e conhecem o mínimo necessário para não se deixar alienar, para não se deixar contaminar, sabem que isso, no Brasil, por conta da história medíocre deste País, que sempre beneficiou o mercado e a classe alta, relegando ao povo a miséria, só pode ser feito com um capitalismo de Estado.

Antes de mais nada, quero dizer que sou a favor da alternância de poder. Mas, acima de tudo, não desejo que isso ocorra a qualquer custo. Atualmente, milhares e milhares de brasileiros, infelizmente, carecem de ajuda. E essa ajuda, só quem pode propiciar é um Estado que enxergue o povo em primeiro lugar.

Há alguns dias compartilhei um artigo do filósofo Leonardo Boff, cujo título, por si só, já dizia muito sobre o que está em jogo nestas eleições: "As eleições à luz da história antipovo". Com maestria, o filósofo apontava não apenas as ideologias dos partidos que, agora, disputam o 2º turno das eleições presidenciais, bem como traçava um panorama histórico de tudo o que não foi feito em prol do povo brasileiro nestes 514 anos de vida do Brasil.

Mas eu quero ir além. O resquício perturbador que carregamos em nosso DNA e que nos faz irmos diretamente contra o nosso próprio povo não vem apenas de nossa herança recente, mas vem, sem dúvida, desde à Casa Grande. E não há mal pior do que isso. Pobres, negros e nordestinos sempre foram relegados à própria sorte na história. Nunca tiveram direito nem ao básico e nunca foram tratados como gente no Brasil. Não é exagero afirmar isso. Nossa própria história está aí para mostrar.

Atualmente, há um sentimento de ódio, principalmente nos Estados ricos do País, contra as políticas sociais desenvolvidas nos últimos anos pelos governos do PT. Há algumas razões para isso, tema que debaterei em outro post. No momento, quero exemplificar no tocante à imprensa.

Você, brasileiro médio, já parou para pensar no porquê deste sentimento de ódio? A resposta enfática e certeira para isso tem um único nome: imprensa! No Brasil poucos sabem que não há mídia de esquerda.
Existem, mas ainda não têm tanta representatividade. E há uma campanha imensa por parte da mídia direitista que está aí para difamar o governo do PT por conta das ações desenvolvidas até hoje em benefício dos menos favorecidos.

Esses dias saiu um dado bastante interessante sobre a imprensa, justamente a esse respeito: em nenhuma outra república do mundo acontece o que há no Brasil no que diz respeito à imprensa. Em Nenhuma outra república! Desde a Era Vargas e, depois, na ditadura militar (apoiada por parte da imprensa, lembrem-se disso) nenhum outro governo "apanhou" tanto da imprensa como o Governo do PT. E o pior: só por adotar políticas sociais que tentam fazer um acerto de contas histórico com aqueles que mais necessitam, tentando controlar, o que é, do meu ponto de vista, o poder do mercado.

Sabe qual foi o resultado disso, infelizmente? Sentimentos de ódio, raiva, desânimo e desapego com a política, e por aí vai.

A questão é tão complexa que neste final de semana o governador do Rio Grande do Sul e candidato à reeleição pelo PT, Tarso Genro, denunciou o que venho dizendo para alguns amigos faz anos: a imprensa do Brasil quer dar um golpe político para tentar derrubar o governo. Não se trata de desvarios. Está aí para quem quiser ver e entender (http://www.youtube.com/watch?v=RN8RhHqFe1I
). Em coro ao candidato Tarso Genro, o neto de João Goulart, presidente deposto pelo Golpe Militar, João Alexandre Goulart, declarou nos últimos dias que o “cerco sofrido por Dilma é maior e pior do que o enfrentado pelo avô dele”.

A verdade é só uma: a imprensa dá pesos e medidas diferentes, de acordo com seus próprios interesses. A crise hídrica de São Paulo, para a imprensa brasileira, por exemplo, é culpa de São Pedro e não da incompetência do PSDB e dos tucanos que estão há mais de 20 anos gerindo o Estado.

Dando nome aos bois, para se ter uma ideia concreta do quanto a Veja, a Folha, o Estadão, a Globo, a Band, o Valor Econômico e muitos outros canais de imprensa fazem vistas grossas para a corrupção dos governos tucanos, vai um dado muito interessante: o dinheiro desviado da ação penal 470
 (se é que houve dinheiro desviado, pois a mesma justiça que não conseguiu provar a existência do chamado Mensalão condenou os réus sem provas), que a mídia convencionou a chamar de "mensalão", foi 8 vezes (ISSO MESMO, 8 VEZES) menor do que o dinheiro desviado na reforma e na compra dos trens de São Paulo (este sim, uma esquema com provas). Ou seja: o cartel do metrô de São Paulo desviou quase R$ 1 bilhão de reais (http://brasil.elpais.com/brasil/2014/02/04/politica/1391471831_386271.html) e a imprensa, conivente com os tucanos, nada fala sobre isso, se cala.

Outro ponto interessante: As denúncias de compra de votos para a reeleição de FHC até foram aceitas pela imprensa, mas nunca foram questionadas a fundo. E as denúncias existem e muitos garantem que há provas. Os jornais mostram isso? As revistas denunciam e dizem o que foi esse esquema? Os noticiários televisivos falam disso?

E o que dizer do chamado mensalão mineiro? O Supremo Tribunal Federal 
deu pesos e medidas diferentes aos julgamentos do chamado "mensalão" do PT e ao mensalão do PSDB em Minas. Inclusive, aceitou a renúncia do candidato do PSDB, mas negou aos candidatos do PT que, mesmo deixando os cargos, foram punidos!

Sem contar o debate sobre o processo de regulamentação da mídia, que seria muito benéfico ao país, que a direita não deixa fazer (principalmente a Veja, o Estadão, a Folha e a Globo). Vale destacar que esta última já dependeu do BNDES e esteve recentemente envolvida em denúncias de sonegação.

Pois bem. O que eu estou querendo mostrar é o seguinte: Existem dois lados, duas lutas no Brasil. A primeira tenta construir um Brasil para todos, priorizando os mais pobres, os mais necessitados. A outra, nitidamente, deseja favorecer as classes mais ricas e favorecer os milionários (vejam artigo publicado na revista Carta Capital, "Separatismo de São Paulo incorpora Antipetismo" http://www.cartacapital.com.br/politica/separatismo-de-sao-paulo-incorpora-antipetismo-8127.html ). Toda a mídia está com a segunda opção. E talvez seja por isso que a maioria da população de São Paulo, por falta de acesso à informação política (em virtude da parcialidade do monopólio midiático), tem um sentimento extremamente negativo com relação ao PT, às políticas sociais desenvolvidas pelo partido em benefício dos menos favorecidos e ao processo democrático como um todo.

Sou da opinião de que só o conhecimento pode esclarecer todas as mentiras que são ditas pela imprensa. A política é uma coisa interessante e só pela política podemos mudar o Brasil. Por isso é muito interessante e positivo para a democracia quando as pessoas se interessam pela política.

Não tenho dúvidas em quem votarei e qual é a melhor opção para o Brasil. O modelo neoliberal proposto por Aécio e pelos tucanos é maléfico para o País. Observo que foi este mesmo modelo que destruiu a economia mundial.

E para aqueles que criticam o modelo econômico adotado pelo atual governo é interesse notarmos q
ue, de uma maneira geral, por vivermos em um mundo globalizado, se não estamos crescendo, é muito em conta do que tem acontecido no mundo desde 2008, quando estourou a crise dos Subprimes e que levou à quebra do Lehman Brothers, nos EUA, e por consequência, arrastou o resto do mundo para uma recessão histórica, só comparada à crise de 1929, também nos EUA.

Votar é o maior exercício democrático que podemos fazer. É a maior prova de amor que podemos dar ao nosso País. Por isso, não seja conivente com a história "antipovo". O Brasil nunca antes havia sido governado por partidos de esquerda. A esquerda está aí há apenas 12 anos e muita, muita coisa mudou nesta década. Então, neste segundo turno, faça história. Opte por um projeto que, se ainda não é perfeito, ao menos tenta priorizar nossas raízes, nosso povo, e propõe um acerto de contas
 histórico com nossos irmãos brasileiros menos favorecidos.

Lenon Hymalaia – Jornalista pós-graduado em Globalização e Cultura pela Fundação Escola Superior de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).  

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Saindo do coma em 2014

Relato anônimo

Acabo de sair do coma. É tudo estranho. Vão me contando as coisas aos poucos. Vou me recordando do que aconteceu quando sofri o fatídico acidente que me deixou anos e anos inconsciente.

Entrei em estado de coma em 2005. Lembro-me da tal crise do mensalão. Sei que o Lula ia sofrer impeachment e que o PT iria ter grandes dificuldades de ganhar qualquer coisa depois disso. Aliás, se bem me lembro, houve quem dissesse para não depor o Lula e deixá-lo sangrar até morrer para que, combalido, fosse enxotado do Planalto na eleição de 2006.

Acordo agora em setembro de 2014. É ano de eleição. Como é que é? As pesquisas são lideradas por uma tal Dilma Rousseff... O quê?! É a atual presidente? Presidenta, como queira. É a atual presidenta? Seguida de muito perto por... Marina Silva?

Agora me lembrei: Dilma Rousseff foi ministra de alguma coisa logo no começo do governo Lula... Isso, ministra de Minas e Energia, e naquela crise de 2005 ocupou o lugar de José Dirceu na Casa Civil. Não é ela?

O quê?! Dirceu? Preso? Ai, ai, ai, ai, ai... Amigos, acabei de sair do coma. Não se brinca com um homem assim!

Mas voltemos às eleições deste ano. Marina é candidata pelo PT, e a tal da Dilma tá por quem?

O quê?! Marina saiu do PT em 2008? Ela é agora o anti-PT? E a tal da Dilma é que é candidata do PT?

E o meu PSDB, onde está nessa eleição? Por que essa cara, gente?

Mas me expliquem melhor: Dilma então é a presidente candidata à reeleição, certo? Ok, ok, presidenta, prometo não me esquecer!

Então, obviamente, ela elegeu-se em... Deixe-me ver... em 2010, né? Não vai me dizer que foi pelo PT...

Sério? Mas pera aí... O PT não ia acabar em 2005? Não estava irreversivelmente derrotado? Como foi que renasceu das cinzas em 2010? Conta devagar porque é muita inform...

O quê?! Lula foi reeleito em 2006? E aquela história de impeachment? Sei, medo do povo nas ruas! Ok, ok, mas ele não ia sangrar até morrer?

E fez a sucessora em 2010?

Pode parecer tudo normal para vocês. Mas não se esqueçam que eu estava em estado de coma desde 2005. Saí de cena em 2005 com o "fim do PT" e com a espada na cabeça de Lula. Volto agora em 2014 com duas ministras de Lula durante a crise do mensalão disputando voto a voto a presidência da República, deixando para trás o candidato do meu partido.

E por falar nisso, quem é o candidato do meu partido, hein?

O quê?! Não é o Serra? Que surpreendente.

Mas vamos mudar de assunto. Que tal um pouco de amenidades?

O quê?! O Brasil sediou a Copa do Mundo deste ano? E foi um sucesso? Considerada das melhores de todos os tempos em termos de organização? Aqui, no Brasil? Ah, qual é?!

Bem, Copa disputada aqui, grande sucesso, não acredito! Mas, se é que vocês estão falando a verdade, só posso acreditar que o Brasil foi campeão, né?

Por que vocês estão se entreolhando?

O quê?! 7 a 1 pra Alemanha? Ah, nisso vocês não vão querer que eu acredite, né?

sábado, 23 de março de 2013

Perspectivas para 2014

Eis que em menos de uma semana três amigos perguntam quais são minhas "previsões" para 2014. Pensei que estivessem falando de Copa do Mundo. Não estavam. Queriam minhas impressões sobre as próximas eleições presidenciais. Ponderei que ainda é meio cedo, mas, mesmo assim, falei um bocado, oferecendo quase nada de opinião original recheada de observações antes apontadas por gente como Miguel do Rosário, Luiz Carlos Azenha, Emir Sader, Marcos Coimbra, Paulo Henrique Amorim, Altamiro Borges e outros. Não me recordo quem disse o quê. Consequentemente não dei - e não darei - os créditos na forma devida. Ficam as homenagens para todos eles.

Aécio e o PSDB
comungamos da opinião de que Aécio Neves só será o candidato tucano se a reeleição da presidenta Dilma Rousseff se configurar inexorável. É que os caciques paulistas do tucanato verão no pleito a oportunidade de ouro para "queimar" o "mezzo-mineiro mezzo-carioca", deixando o campo livre para uma candidatura paulista em 2018.

Ao nosso ver, se as nuvens, parafraseando Magalhães Pinto, mudarem suas formas, de maneira a mostrarem um quadro no mínimo arriscado para Dilma, os paulistas novamente dificultarão as coisas para Aécio, ofertando-lhe, como prêmio de consolação, a inestimável honra de aceitar ser vice de um bandeirante da melhor cepa!

Marina e Eduardo
Marina Silva por sua tal "rede" e Eduardo Campos pelo PSB também sugerem que sairão candidatos em 2014. Ambos vêm recebendo generoso espaço na mídia, invariavelmente com leituras simpáticas. O motivo é que eles podem impedir uma vitória do Partido dos Trabalhadores já no primeiro turno. A suspeita é de que os dois subtrairiam votos do centro e da centro-esquerda alinhados com o PT. Somente por isso angariam a simpatia dos jornalões e de seus colunistas.

No fundo, o coração midiático bate mais forte pela proposta conservadora representada pelo PSDB. Marina e Eduardo só servirão enquanto - e se - dificultarem as coisas para Dilma. Se, por outro lado, um deles vier a surpreender, desalojando os tucanos de posto de segunda força política do País, decerto vai sentir o jogo sujo dos meios de comunicação.

Marina, que segundo as mais hodiernas pesquisas sustenta o segundo lugar na preferência do eleitorado, que se cuide!

E vai dar segundo turno em 2014?
Se a grande preocupação da mídia oposicionista é, no mínimo, garantir o segundo turno, pode ficar tranquila: a corrida pela Presidência da República em 2014 deve ser resolvida somente em segundo escrutínio mesmo, caso se mantenha a atual configuração da disputa. Por quê?

Eduardo Campos deve conseguir bom desempenho não somente no seu estado natal mas em todo o nordeste. Não se perca de vista que aquela região foi fundamental para os excelentes números alcançados pelos candidatos petistas em 2006 e 2010. É sangria de votos de Dilma na certa.

Marina Silva teve, em 2010, excelente desempenho na importantíssima praça do Rio de Janeiro. Não há, a princípio, motivos para acreditar que não conseguirá repetir o mesmo êxito em 2014. A acriana também saiu-se bem em São Paulo na última corrida presidencial. Não se enxergam, no horizonte, motivos para que se saia pior na próxima contenda.

E Aécio Neves, que foi no mínimo omisso em 2006 e que cristianizou Serra em 2010, tem tudo para impedir que um petista se saia vitorioso no segundo maior colégio eleitoral do Brasil, qual seja, Minas Gerais. Aécio deve ganhar de lavada, with a little help from his mídia, é claro!

Como se vê, Dilma tem muito a perder com o quadro ora desenhado. A ausência de um paulista poderia ser uma vantagem da petista, em vista da "orfandade" do maior eleitorado brasileiro. Este escriba, porém, acredita que o eleitor paulista é dos poucos do País ainda suscetíveis ao papo furado midiático, francamente antipetista, e seguirá, em maior ou menor grau, o candidato ungido pelos meios de comunicação, possivelmente Aécio Neves.

E falta um ano e meio, hein?!...



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Eleições 2012 - São Paulo - A trivial vitória de Haddad

Numa boa navegada nas raras e recentes postagens deste blog o leitor verá que, em contraponto a colunistas da mídia tradicional, asseguramos que a cidade de São Paulo sempre esteve longe de ser uma fortaleza antipetista. Desde 1988, o Partido dos Trabalhadores é no mínimo segundo lugar nas brigas pela prefeitura.

No mesmo esforço de desconstruir mitos criados por jornalistas dos meios convencionais, mostramos, também, que o PSDB nunca chegou a ser uma força incontestável nas disputas paulistanas, tanto que desde a sua fundação somente chegou ao segundo turno da metrópole, agora, por duas vezes, ambas com José Serra - descontando-se Kassab, eleito pelo DEM em 2008, vencendo, inclusive, o peessedebista Alckmin naquele ano (noves fora a cristianização do atual governador).

Anotamos, também, que a despeito da força petista no município, sempre a garantir-lhe no mínimo o segundo turno, a adesão não era automática, em vista das nossas dificuldades de trabalhar e garantir a identificação partidária, o que explicava, em parte, o por algum tempo resiliente fenômeno Celso Russomanno.

Por fim, este blog jogou no lixo as pesquisas e apostou na vitória do petista Fernando Haddad com base somente nos resultados de Russomanno no primeiro turno, bastante consistentes justamente na periferia da cidade, reduto petista, entendendo como certa a transferência de votos do midiático político do PRB para o candidato do PT. 

Fechadas as urnas, pipocam as análises, com claras tentativas de se fazer conjeturas, sendo irresistível, num primeiro momento, apostar que o caminho para a vitória da situação no pleito de 2014 já está mais do que trilhado, assim como pode-se já estar se desenhando a destituição do PSDB do governo do estado de São Paulo.

Há que se andar devagar. Recorde-se que não faltou quem garantisse que a vitória de Kassab em 2008 indicava altíssimo prestígio do padrinho dele, José Serra, gabaritando-o para o Planalto no pleito de 2010. Razão estava, porém, com os poucos que se recusaram a nacionalizar aquela disputa, entendendo ter sido a pendenga de 2010 resolvida noutros termos, efetivamente municipais.

E em nível estadual, o discurso da turma que está há 20 anos no governo já deve estar até redigido: dono da prefeitura, dono do governo federal com chances de ser reeleito, não podemos dar ainda mais poder ao PT. O assunto é velho e tende a se repetir. Resta somente saber até quando o eleitor paulista vai sucumbir a essa baixa chantagem que usa em vão o santo nome da democracia.


sábado, 20 de outubro de 2012

Eleições Municipais 2012 - São Paulo - Haddad e Serra

Alguém que tenha enfrentado o coma durante pouco mais de um mês no período do primeiro turno, ao ver Fernando Haddad, do PT, e José Serra, do PSDB, enfrentando-se no segundo turno da cidade de São Paulo, não imaginaria que Celso Russomanno foi invariavelmente considerado um fenômeno eleitoral na maior parte desse tempo.

A "finalíssima" paulistana, portanto, nada mais representa do que o quadro mais óbvio do embate: de um lado Serra e seu fortíssimo recall, típico dos que não se cansam de se candidatar, de outro Haddad, o representante do partido que desde 1988 é no mínimo segundo lugar na metrópole, o PT.

O resultado, inesperado para alguns até no último dia da primeira fase do pleito, fez aumentar as dúvidas sobre a lisura das pesquisas. Por esse motivo, muitos entusiastas do Partido dos Trabalhadores e de Fernando Haddad estão com um pé atrás com pesquisas que lhe vêm dando, nos votos válidos, vantagem de 20 pontos percentuais sobre seu oponente. É teoria da conspiração que não acaba mais.

A nós, tal resultado não surpreende.

É saudabilíssima a desconfiança para com os institutos de pesquisa. Para sermos radicais, são indignos de crédito. Com mais moderação, digamos que no mínimo devem ter suas sondagens tomadas com cautela. Entretanto, não há, de outro lado, porque não acreditar nos números oficiais do TRE. E os resultados oficiais do primeiro turno já, no mínimo, apontavam para a possibilidade do quadro que as pesquisas dizem vir captando.

Como boa parte dos leitores deve ter visto, mapas (que abdicaremos de reproduzir aqui) mostram como o voto se dividiu em São Paulo: aparece pintado de azul no chamado centro expandido, e veio de vermelho nas regiões periféricas. Ou seja, vitória tucana no primeiro e petista no segundo. Neste quadro, em vista dos números excelentes do terceiro colocado, não havia muita dúvida de que o fiel da balança seria o eleitor de Celso Russomanno.

O aspecto mais claro dos resultados do primeiro turno era a fraca votação de Russomanno (cerca de 8%, na média) na região central, aquela que foi a mais generosa com Serra. Ora, já era de se supor que o tucano não se beneficiaria tanto com a possível transferência do grosso dos eleitores russomannistas da região, que por óbvio acrescentariam quase nada à sua votação total do primeiro turno, a qual ademais foi muito pouco acima da do petista.

Por outro lado, no chamado cinturão vermelho, o fenomenal Russomanno ainda não havia desidratado o suficiente, tendo terminado o primeiro turno acima de 20%. Entendendo que o candidato do PRB havia crescido justamente no eleitorado tipicamente petista, hegemônico naquela faixa da cidade, já se previa uma transferência maior para Fernando Haddad. Para piorar as coisas para Serra, o peso proporcional dos eleitores da periferia ainda ajudava a entender - da forma mais dolorosa - a tal de ponderação de que os estatísticos tanto falam.

A tendência pró-Haddad já era tão forte apenas com os números de Russomanno, que nem precisaria, lá, ao fim do primeiro turno, apostar que o também bem votado Gabriel Chalita e seu "capilarizado" PMDB fechariam apoio ao petista.

Entendendo, pois, não ser surpresa nenhuma a liderança extraordinária de Fernando Haddad nessa corrida do segundo turno de São Paulo, ainda assim, é válido aquele velho clichê do mundo político que diz "mineração e eleição, só depois da apuração".


Leia também outros textos do blog sobre as eleições municipais 2012 em São Paulo:

Sobre Celso Russomanno
Sobre aliança PT-PP
Sobre o drama paulistano do PSDB
Sobre a força do PT em São Paulo

sábado, 23 de junho de 2012

Eleições 2012 - São Paulo - PT e PP

A imprensa deleitou-se com fotos de encontro do ex-presidente Lula e do candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, com o deputado Paulo Maluf. Destacaram, de forma intensa, o "acordo do PT com Paulo Maluf", nestes termos. Ou seja, para a imprensa ocorreu o acerto entre um partido político e uma figura política.

O enfoque escolhido pelos meios de comunicação tenta claramente proceder a uma distorção, com fins ideológicos. Em realidade, a aliança é entre PT e PP para a disputa da capital paulista. E nela, por lógico, não pode haver nada de muito estranho, haja vista que os dois partidos têm mantido civilizada convivência desde 2003, no primeiro governo Lula.

Destaque-se que, quando, há poucas semanas, o PR juntou-se ao PSDB na cidade de São Paulo, não se viram estampas do tipo PSDB se alia ao "mensaleiro" Valdemar da Costa Neto; tampouco houve quem tripudiasse sobre intelectuais tucanos terem que engolir Tiririca e Agnaldo Timóteo, ainda que somente pela corrida municipal deste 2012.

A aliança PT-PP, para fins eleitorais, com toda a simbologia da união, sacramentada por caciques tidos como díspares - Maluf e Lula - nada mais é do que um simples fato inserido no contexto histórico mais amplo que é o das combinações partidárias capazes de permitir resultados eleitorais inesperados e, principalmente, a garantir a tal da governabilidade.

Após a queda de Collor, parece que a caiu a ficha da necessidade de maior arrojo das coalizões. Para quem não se lembra, o ex-presidente Itamar Franco conseguiu, com a oposição do PT, até trazer para seu governo uma então estrela do partido, ninguém menos do que Luiza Erundina! Seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso, sem maiores problemas aliou-se ao velho PFL; o mesmo FHC, na campanha de reeleição em 1998, a despeito de ter Mário Covas disputando o governo de São Paulo pelo PSDB, não viu problemas em aceitar o apoio -posando sorridente para fotos e tudo - do grande adversário do candidato de seu partido naquela ocasião: Paulo Maluf!

Pode-se até argumentar que talvez Lula e o PT estejam levando essa história de alianças e acordos ao paroxismo. Mas ela, com certeza, não é invenção do ex-presidente nem do seu partido. Aos trancos e barrancos, essa geleia geral tem permitido razoável governabilidade, a despeito dos entraves que provoca. Se é errada, o tempo dirá e julgará. E eventual condenação, num ambiente desapaixonado, por questão de justiça não poderá jamais recair somente sobre o Partido dos Trabalhadores e o seu mais importante fundador.


Leia também:
São Paulo 2012
Força do PT
Qual é a do PSDB

sábado, 16 de junho de 2012

Profissionais na CPMI

No dia 12.06.2012, prestou depoimento à CPMI do Cachoeira no Congresso Nacional o governador de Goiás, Marconi Perillo, do PSDB. De forma um tanto masoquista, assisti a um trecho. Minha impressão, já naquele momento, foi a de que o goiano não se saíra mal.

Na noite daquele dia, no programa Entre Aspas, da GloboNews, o cientista político José Álvaro Moisés e a historiadora Maria Aparecida de Aquino decretavam: a "performance" de Perillo tinha, de fato, sido relativamente boa.

Minha mulher, sempre irritada com as tucanices do canal do sistema Globo, tripudiou sobre o termo escolhido pelos convidados: "performance". Ora, como assim, performance?, perguntava ela. Por acaso se tratava de um show?

Pois bem. Obtemperei que, infelizmente, tudo talvez não passasse mesmo de um show. Arrisquei, bem no escuro, que o governador deveria ter treinado muito sua participação, ter se reunido por horas com marqueteiros, assessores, especialistas em imagens etc, daí ter conseguido "atuar" bem naquele "palco" montado no Congresso.

No dia seguinte, 13.06.2012, foi a vez de Agnelo Queiroz, do PT, governador do Distrito Federal, enfrentar  os deputados e senadores da mesma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Mais uma vez, excelente desempenho (quase disse performance).

Naquela mesma data, em telejornal noturno, dessa feita na RecordNews, o jornalista Luiz Monteiro relata a participação considerada bem-sucedida do governador do DF, surpreendente em razão de Agnelo ser apontado como homem "tímido", com dificuldades de expressão etc. Mas eis que havia explicação: nos dias anteriores, segundo o repórter da Record, o governador havia passado horas reunido com assessores da área jurídica e de comunicações, passando e repassando os temas que poderiam ser motivo de questionamento naquela sessão do Congresso. Confirmava-se, pois, minha suspeita quanto à justificativa para as boas "performances" dos governadores.

Não dá para imaginar "políticos profissionais" sem pensar em "profissionais da política". Estas pessoas debruçam-se sobre os temas, pressentem armadilhas, estudam estratégias; ensinam a aparecer em vídeo, a olhar para a câmera e o uso das palavras certas na hora certa; mostram as situações em que tem que parecer firme, ou fingir indignação, quiçá demonstrar humildade.

De se concluir disso que "pesos-pesados" na política tendem a oferecer muito pouco numa Comissão de Inquérito ou em qualquer outra Comissão importante do Congresso. Horas de ensaio e o envolvimento de, talvez, dezenas de profissionais levam a "atuações" que tendem a propiciar, no mínimo, a simpatia do grosso dos espectadores. A excelência dessas preparações tende, inclusive, a tornar cada vez mais sem graça os já não muito empolgantes debates eleitorais.

Neste quadro, não é descabida a seguinte pergunta: a convocação ou convite de nomes de peso do cenário político para depoimentos em CPIs ainda tem alguma serventia?

A resposta é sim. Serve ao menos para mostrar a correlação de forças. Se figura importante da oposição tem sua convocação aprovada, com o fim de que compareça para prestar esclarecimentos, decerto que se deduz haver ali um tento do governo, dos situacionistas e da base aliada. Depreende-se o contrário quando um bambambã ligado, de algum modo, ao grupo situacionista é chamado a dar explicações. Parece que não muito mais do que isso. Infelizmente.


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012 - Qual é a do PSDB?

No primeiro texto voltado às eleições municipais de 2012 em São Paulo, comemoramos o fato de José Serra ter decidido não participar do embate. Tratava-se de um claro avanço, haja vista a necessidade de a cidade ser administrada por alguém realmente interessado e disposto a enfrentar seus problemas, não por alguém que pretenda usá-la como trampolim ou, quiçá, a enxergue como mero prêmio de consolação, ante as derrotas em nível nacional.

A história todos conhecem: após ter afirmado que não disputaria a eleição municipal de 2012, José Serra voltou atrás, participou das prévias do PSDB que já estavam marcadas, venceu-as de forma um tanto decepcionante e acabou por trazer nova cara ao pleito deste ano.

José Serra não é novo nas disputas municipais na capital paulista, delas participando em 1988 e 1996, com resultados não muito estimulantes. Em 2004, todavia, conseguiu levar seu partido pela primeira vez ao comando da maior cidade do País. Parece ter sido resultado de processo que já vinha se construindo de forma gradativa, como veremos.

Ao contrário do que a mídia e o burburinho do dia-a-dia nos querem fazer acreditar, o Partido da Social Democracia Brasileira não chega a ter uma história marcante no município, em linhas gerais. Desde a fundação do partido - o que se confunde com o período da pós-redemocratização do País -, o PSDB somente chegou ao segundo turno em eleições na cidade de São Paulo no ano de 2004, justamente com Serra, que se saiu vitorioso naquele pleito. Como já tivemos a oportunidade de mostrar, o PT é o único partido que sempre esteve na briga final.

Entre 1988 e 2000, a disputa foi clara, numa franca polarização ente o PT e a corrente conhecida como malufismo. Era a peleja entre esquerda e direita. Em 1988, bem na reta final, Luiza Erundina (então do PT) atropela Paulo Maluf; em 1992, Maluf dá o troco, batendo Eduardo Suplicy (PT), no segundo turno; em 1996, sem o instituto da reeleição, Maluf lança seu secretário Celso Pitta como candidato, que consegue vencer a ex-prefeita Erundina (ainda no PT); finalmente, no ano 2000, apesar do fracasso retumbante da administração Pitta, o malufismo ainda demonstrou algum resquício de força, com seu patrono conseguindo abocanhar mais de 40% dos votos no segundo turno contra a vitoriosa Marta Suplicy, do PT.

O insistente Maluf, em 2002, na disputa pelo governo do estado de São Paulo, foi ultrapassado por José Genoíno, do PT, não conseguindo, pela primeira vez desde a instituição da eleição em dois escrutínios, chegar ao segundo turno da disputa estadual - sinal de que havia mesmo algo de estranho com o fenômeno do malufismo, cujo patrono só ficara de fora de um segundo turno em 1994 (não disputou o cargo naquele ano). Em 2004, na disputa municipal, Maluf consegue apenas um terceiro lugar, deixando o segundo turno ser disputado por Marta e Serra. Com tal resultado, não restava dúvidas de que o malufismo já não era mais o representante hegemônico do conservadorismo paulista e paulistano.

O PSDB, talvez sem querer, talvez sem o perceber, começa a ocupar o espectro mais à direita da política paulistana. Em 2008, embora disputando a corrida municipal com um nome de peso - nada menos que Geraldo Alckmin -, o partido, repetindo o aspecto mais comum de sua saga na cidade de São Paulo, ficou apenas no terceiro lugar. Não se pode olvidar, entretanto, que a reeleição de Kassab naquele ano se deu com o apoio explícito do PSDB no segundo turno e velado no primeiro - caso clássico de cristianização, sofrido por Alckmin. Dê-se um desconto, portanto, aos que consideram o feito de Kassab quase como uma vitória tucana.

Muitos entendem ser o conservadorismo a principal característica do que se pode chamar de "eleitor médio" paulistano. Eleição após eleição, foi-se vendo o malufismo perder força e o PSDB ocupar os espaços mais à direita no campo político paulistano. O partido de FHC, Covas e Serra não surgiu com tal proposta ou vocação. Talvez tenha sido empurrado para este lado por representar, em nível nacional e em diversos lugares também na seara estadual, o antipetismo, posição que ostenta por normalmente enfrentar o Partido dos Trabalhadores nas principais eleições pelo País.

A ocupação dos flancos à direita pelo PSDB, como dito, deu-se de forma bastante paulatina, talvez imperceptível e - ousaria dizer - surpreendente até para muitos de seus membros. Aos poucos, seus integrantes e correligionários foram aceitando essa nova cara do partido. Verdade seja dita, quem parece hoje melhor entender que ao PSDB pouco sobra senão tentar correr por essa vereda é mesmo José Serra, o que por si só já basta para classificá-lo como fortíssimo candidato na disputa deste ano.

Leia também:
Eleições municipais - São Paulo 2012
Eleições municipais - São Paulo 2012 - Força do PT

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012 - Força do PT

Em comentários no mês de agosto e setembro de 2011, Lucia Hippolito, colunista da CBN, qualificou a cidade de São Paulo como uma fortaleza antipetista. Decerto que ela não é original ao pensá-lo e, ainda pior, há inúmeros petistas que pensam igual, talvez até o ex-presidente Lula. Aliás, a constrangedora movimentação em busca da aliança com Kassab parece advir dessa suposição.

A análise histórica, no entanto, parece indicar situação muito diversa. Ao contrário do que sustentam os conservadores - com tanta firmeza que até conseguem engambelar petistas históricos -, o Partido dos Trabalhadores é talvez a única força política realmente coesa na complexa cidade de São Paulo após a redemocratização do País. Vamos aos fatos.

Na última eleição em turno único, em 1988, Luiza Erundina surpreendentemente bate Paulo Maluf e ganha para o PT a prefeitura da maior cidade do Brasil. Em seguida, os pleitos passariam a ser disputados com a possibilidade de realização em dois turnos. Na capital paulista, desde então, todas as disputas iriam para o segundo turno. O Partido dos Trabalhadores, se nossa memória não nos trai, foi o único partido que esteve presente em todas as pendengas finais.

Em 1992, apesar de todas as dificuldades enfrentadas por Luiza Erundina, o PT conseguiu, com Eduardo Suplicy, ir para o segundo turno contra Paulo Maluf, que, depois de diversas tentativas, finalmente vence uma eleição - era talvez o auge do paulistíssimo fenômeno do malufismo.

Em 1996, Maluf aposta todas as suas fichas em seu secretário Celso Pitta, que, no segundo turno, enfrenta e vence a ex-prefeita Luiza Erundina, na época ainda no PT. Era o Partido dos Trabalhadores mais uma vez no segundo escrutínio na cidade de São Paulo, e novamente enfrentando o malufismo.

Em 2000, para variar um pouco, o PT mais uma vez chega ao segundo turno na disputa pela prefeitura de São Paulo, naquela feita com Marta Suplicy, que vence Paulo Maluf. A briga acirrada talvez tenha sido dos últimos suspiros do malufismo.

Administrando uma verdadeira herança maldita deixada por Pitta, a petista Marta enfrentou uma série de problemas, mas mesmo assim conseguiu, em 2004, ir para o segundo turno, sendo derrotada por José Serra, à época beneficiado pelo chamado recall, eis que candidato à presidência da República dois anos antes.

Gilberto Kassab herda a prefeitura de Serra, que renuncia para candidatar-se a governador em 2006, e, após uso eficiente da máquina (atenção: não é necessariamente uma crítica), vai para o segundo turno do pleito de 2008, mais uma vez com o PT na disputa, novamente com Marta, derrotada outra vez.

Como se vê, precisava avisar os eleitores paulistanos que a cidade é fortaleza antipetista e pedir para eles pararem de levar os candidatos do Partido dos Trabalhadores para as cabeças das disputas municipais!

De se destacar que o principal antípoda do PT em nível nacional, o PSDB, apesar da hegemonia no estado, somente chegou ao segundo turno na capital paulista uma única vez, justamente quando Serra bateu Marta em 2004. Importante lembrar que Kassab em 2008 elegeu-se pelo DEM, inclusive superando, na reta final do primeiro turno, o candidato peessedebista - reparo fundamental, pois erroneamente alguns tentam creditar aos tucanos a vitória do então demista, o que não é verdade, noves fora a cristianização de Alckmin.

Frise-se, ademais, que, nesses anos todos, o PSDB não tem enfrentado as disputas municipais com "galinhas mortas". Serra e Alckmin, a exemplo do que fazem em nível estadual - e mesmo federal - são os tucanos que nas últimas corridas municipais representaram o partido. Mesmo assim, excetuando 2004, encontram dificuldades de, diretamente, superar o PT em São Paulo.

Outro importante registro histórico: em 1985, na primeira eleição direta pós-redemocratização, o PT alcançou apenas o terceiro lugar, com Eduardo Suplicy. A vitória foi de Jânio Quadros, num surpreendente arranque final contra Fernando Henrique Cardoso, na época ainda do PMDB. Cuidado, leitor, pois não falta quem tente dizer que aquele segundo lugar de FHC é feito do PSDB. Como dito, não é: o homem ainda não tinha, naquela época, motivos para cair fora do PMDB.

Soa estranho, portanto, o tão bem articulado discurso que tenta provar que a cidade de São Paulo tem ojeriza contra o PT. Assim como parece incompreensível que o próprio partido já se apresente com a ideia de que realmente acredita não ter a cara da nossa maior metrópole.

O eleitor paulistano talvez seja mesmo antipetista. Entretanto, ele decerto ainda não sabe!

sábado, 28 de janeiro de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012

No último 25 de janeiro a cidade de São Paulo completou 458 anos de vida. Em ano de eleições municipais, o melhor presente que a cidade pode receber é alguma reflexão sobre o que o pleito deve representar para sua realidade e seu futuro.

Esta corrida eleitoral de 2012 parece que guardará diferenças significativas em relação à disputa de 2008. Há quatro anos, nossa preocupação era com o protagonismo de políticos que pareciam não ter na chefia da administração municipal o maior significado de suas vidas. O PT apresentava-se, então, na briga com Marta Suplicy, ex-prefeita e nome sempre cotado para o governo do estado, pelo que talvez, se eleita, não hesitasse em abandonar a prefeitura para disputar o outro cargo; já o PSDB naquela feita pleiteava o comando do município com Geraldo Alckmin, que já tinha sido governador e fora candidato à presidência da República, nome que decerto não se contentaria com o "rebaixamento" do cargo de prefeito.

Em 2008, por incrível que pareça, a vitória de Kassab talvez tenha premiado o candidato que, naquele momento, era o mais comprometido com o município, aparentemente menos interessado em usar a prefeitura de São Paulo como trampolim para interesses políticos maiores - bem, o "praticamente" abandono da cidade com vistas à criação do PSD veio a demonstrar que tal cálculo também estava errado! Pobre São Paulo e sua sina...

A despeito do negativo exemplo de Kassab, este pleito de 2012 pode ter como diferencial justamente a presença de candidatos que, num primeiro momento, não parecem granjear objetivos eleitorais em instâncias maiores. O único nome certo no páreo é Fernando Haddad, do PT, ex-ministro da Educação nos governos Lula e Dilma, que, a exemplo da sua "chefe" mais recente, nunca disputou uma eleição antes. Também ex-secretário de Marta Suplicy, Haddad não é neófito nas coisas da máquina municipal. Tudo indica que sabe o que está fazendo e, principalmente, querendo. No partido de gente como Marta, Mercadante, Ruy Falcão, não se pode desde já supor que, em 2014, um fortalecido Haddad, se o caso, abandonaria a cidade de São Paulo para candidatar-se ao governo do estado. Merece o benefício da dúvida, pelo menos.

O PSDB ainda não tem nome definido. O partido deve passar por prévias. Decidido, por enquanto, está que José Serra não será o candidato. Ótimo para a cidade, uma vez sabido que o ex-governador não abandonou o sonho de levar a presidência da República. Se disputasse a corrida de 2012, fá-lo-ia meramente de olho em ter um cargo somente para ganhar visibilidade, com vistas à corrida presidencial de 2014. Convenhamos, uma megalópole de 12 milhões de habitantes precisa de um governante verdadeiramente comprometido com seus rumos. Não seria, obviamente, o caso de Serra. É reconfortante, pois, saber que o PSDB, a exemplo do PT, não se apresentará ao eleitor paulistano com um "escalista eleitoral".

O quadro na cidade para este 2012, portanto, ainda está bastante indefinido. Como exposto, a poderosa força política representada pelo PSDB ainda não tem candidato; não se sabe, por enquanto, o que Kassab e o seu PSD farão; o famigerado PMDB e seu Gabriel Chalita também ainda não deixaram claro o que farão; apesar de pesquisas favoráveis, não dá para vislumbrar que dimensão tomará o apoio do ex-presidente Lula a Fernando Haddad; quanto a Haddad, impossível também dimensionar como o seu desempenho no ministério da Educação afetará seu resultado eleitoral: este blogueiro, por exemplo, considera a atuação dele naquele ministério bem acima da média, mas, de outro lado, tem um esforço do aparato midiático em provar o contrário. Aguardemos.

É inegável que a capital de São Paulo apresenta forte tendência conservadora. É perceptível também, sobretudo nos chamados estratos médios, um certo antipetismo, como já até defendido por colunistas da grande mídia, além de notória insensibilidade social. Entretanto, resultados históricos recentes - aliados à sempre crescente complexidade geográfica e demográfica da metrópole - permitem enxergar outras nuanças e, consequentemente, variar os tipos de análise. Fica para um próximo post.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Beba Coca-Cola

No monótono O papel da oposição, o altamente repercutido texto de Fernando Henrique Cardoso para a revista Interesse Nacional, em certo momento ele sugere que a crítica oposicionista deva ser repetitiva, à moda da publicidade que insiste em bordões do tipo "beba Coca-Cola".

Por acaso - ou não tão por acaso assim - vêm sendo veiculadas no rádio e na TV as inserções publicitárias a que tem direito o PSDB. Uma trata de inflação, a outra de Copa do Mundo e aeroportos. Como demonstração de que o PSDB pretende continuar recusando-se a andar com as próprias pernas, as peças apresentam-se claramente amparadas em notórios bombardeios midiáticos dos últimos meses.

Terrível inflação
Num dos spots, uma mulher reclama da inflação, que teria voltado a nos assombrar, sob um certo desdém do governo federal, que estaria brincando com o tema, decerto em referência a uma certa "jogada de toalha" do Banco Central, que já deu a entender que, neste 2011, não vai lutar com unhas e dentes para trazer os números da inflação para o chamado centro da meta.

Já se vem, desde o final do governo Lula, ouvindo que a inflação teria fugido do controle das autoridades monetárias do País. De tanto que se manda beber Coca-Cola, acabamos bebendo; de tanto que se bate nessa tecla da inflação fora de controle, vamos nela acreditando e - pior - sem perceber vamos contribuindo para sua resiliência, correndo o risco até mesmo de fazer a profecia se autorrealizar.

Em 2010, a inflação efetiva foi de 5,9%, acima do chamado centro da meta, a saber, 4,5%, mas abaixo de sua margem superior de tolerância, que é de dois pontos percentuais, ou seja, 6,5%. Ainda que inquestionavelmente preocupante, o resultado do último ano Lula esteve muito longe de poder ser classificado de inflação fora do controle. E mesmo em ascensão, o acumulado dos últimos 12 meses ainda não rompeu o limite superior da meta deste ano de 2011, que também é de 6,5%.

Em meio ao terreno devidamente adubado por reportagens irresponsáveis, quase a transformar a inflação brasileira numa espécie de tsunami japonês, a propaganda peessedebista acaba parecendo apenas um alerta bem-intencionado ao governo brasileiro, ao mesmo tempo em que conclama os cidadãos brasileiros a ficarem vigilantes ao afrouxamento das autoridades no combate ao "dragão". Não se negue que é este o papel da oposição e que a atenção aos temas mais sensíveis à população é até bem-vindo. Problemáticas mesmo são as falácias contidas na estratégia.

Na propaganda, a personagem, devidamente indignada, pergunta o que "esse pessoal andou aprontando", e garante que a inflação era um mal já resolvido desde 1994.

A primeira parte quer claramente surfar em certo discurso único da mídia, hegemônico até cerca de dois meses atrás, de que suposto excesso de gastos do governo Lula - principalmente nos seus últimos dois anos - estaria na base da "terrível inflação" com que ora estamos deparando. Todavia, para azar dos tucanos, nem mesmo a sua mídia aliada vem se apoiando muito unanimemente nessa afirmação, já aceitando o fato de o inegável repique de preços ter a ver com os valores das commodities, majorados em razão da grande demanda mundial, o que, aliás, tem provocado quadros inflacionários em todo o planeta. O calendário estipulado pelo TSE fez, neste particular, a propaganda do PSDB perder o timing de tal crítica.

Quanto ao problema resolvido desde 1994, talvez convenha fazer uma visita ao histórico de metas de inflação, disponível no sítio do Banco Central do Brasil, com os efetivos resultados do IPCA desde 1999. De se relembrar que 2010, último ano do governo Lula, encerrou com acumulado de 5,91%. Vê-se que em período governado pelo PSDB, de 1999 a 2002, o ano de inflação mais baixa alcançou 5,97%, em 2000; completando o período tucano temos: 8,94% em 1999, 7,67% em 2001 e inacreditáveis 12,53% em 2002. Será que era caso resolvido mesmo desde 1994?

Copa do Mundo e aeroportos
Noutra propaganda, um sujeito demonstra preocupação com atraso de obras para a Copa do Mundo de 2014, em especial com a situação de nossos aeroportos, temendo que, ao final, saia tudo mais caro, com a já esperada "tirada de couro" do contribuinte brasileiro.

Mais uma vez é surpreendente a tabelinha do PSDB com a mídia. Reportagens envolvendo ritmo das obras para 2014 e o risco de os aeroportos brasileiros não darem conta do recado pulularam nas últimas semanas. No caso de nossa condição aeroportuária, até o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), não raramente tachado de "máquina de propaganda" do governo, entrou em campo para demonstrar certo pessimismo quanto à capacidade de o Brasil conseguir pôr os aeroportos para funcionar a contento durante o famigerado evento esportivo, dando, por assim dizer, uma mãozinha ao "patriotismo" midiático.

Crítica maravilhosa, sem dúvida. É bom mesmo ficar ligado. Bem faz o PSDB em repisar, ao lado da mídia, o espinhoso assunto. Há, porém, certo exagero, pois o Brasil, ao contrário do que se quer fazer acreditar, geralmente se sai bem na organização de eventos importantes. De todo modo, é reconfortante saber que tem gente vigilante o suficiente para não deixar o caldo entornar em 2014, ano que, aliás, já está batendo à porta.

Em todo caso, vale uma pequena censura, de outra ordem, à propaganda. O blogueiro Eduardo Guimarães informa-nos em texto sobre o mesmo assunto que, segundo a marquetagem tucana, escolheram, para protagonizar a peça, um homem negro e com sotaque nordestino, com o fim de não “paulistizar” a crítica ao governo Dilma; acrescenta o blogueiro, com ironia, que se trata justamente de "um daqueles que começaram a voar só no governo Lula…". Há aí um evidente desencontro com o já citado panfleto de FHC, texto que deve entrar para a história exatamente por ter exortado o PSDB a abandonar o povão. De qualquer forma, o rapaz com "cara de povo" acaba se traindo e expondo o jeito tucano de ser.

Após reclamar do risco de virmos a pagar caro - literalmente - pelo atraso das obras, o garoto-propaganda acaba vindo a manifestar aquele que é, no fundo, o pior dos temores das elites: que venhamos a passar vergonha perante o mundo. É o manjadíssimo complexo de vira-latas, traço do caráter brasileiro que foi enfrentado com razoável sucesso pelo governo Lula. Como se vê, o PSDB chama para protagonizar sua propaganda alguém com as características do povo de que FHC quer tanto se afastar, mas não descuida de colocar em sua boca alguns dos mantras da classe média tradicional que vem lhe dando sustentação especialmente nas últimas duas eleições presidenciais.

Revela-se, pois, graças a essa peça publicitária, uma das dificuldades do discurso oposiocionista: tentar atrair o pobre, sem afastar a classe média e a elite. Parece que vai ter de escolher um caminho... Puxa vida! Será que o FHC tem razão?

sábado, 9 de abril de 2011

E a oposição vai se desidratando...

O jornal Valor Econômico publicou, no dia 08.04.2011, explosiva entrevista do ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira concedida a Maria Inês Nassif. O economista desanca o PSDB, partido a que pertenceu, e especialmente seu ex-chefe Fernando Henrique Cardoso. O sítio Vermelho reproduziu importantes trechos da matéria (leia aqui)

Não nos causou estranheza. Já vínhamos nos surpreendendo positivamente com alguns artigos e comentários de Bresser-Pereira publicados na imprensa. Abaixo segue texto escrito no final do ano de 2009, revelando contentamento não somente com o ex-ministro Bresser, mas também com outros setuagenários mais prontamente identificados com as escolas conservadoras.


SEGUNDA-FEIRA, 2 DE NOVEMBRO DE 2009
Meus 70 e poucos anos

Nos últimos tempos, vem causando agradabilíssima surpresa o posicionamento, não raro de cunho radical, de alguns setuagenários historicamente ligados à linhagem mais conservadora da sociedade brasileira. (Agradabilíssima, bem entendido, para este escriba. Para alguns amigos, vem provocando estranheza mesmo!).

Há alguns anos, Cláudio Lembo, então governador do estado de São Paulo, na crise do PCC, desancou, em entrevista à Folha, o que chamou de minoria branca brasileira.

Recentemente, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira fez elogios rasgados ao perfil democrático do presidente Lula e, causando maior espécie, teve posicionamento equidistante – o que é quase o mesmo que defender - ao sempre demonizado MST.

Em entrevistas, além de em artigos, o também ex-ministro Adib Jatene defendeu aumento na cobrança de impostos, opondo-se, assim, a velho dogma da direita e das classes média e alta, mesmo que não necessariamente de direita.

Por fim, Delfim Netto brada aos quatro cantos para que se reconheça a superioridade do governo Lula em relação aos que lhe antecederam, especialmente em virtude de suas políticas inclusivas.

Delfim, hoje filiado ao PMDB, foi da ARENA e integrou os governos militares; Lembo pertence ao DEM, esteve ligado a figuras polêmicas como Paulo Maluf e Jânio Quadros; Jatene, além de ter sido idealizador da CPMF no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi ministro de Collor e secretário de Paulo Maluf.

De todos, talvez Bresser seja o que mais se entristeceria de estar, aqui, sendo qualificado como homem conservador, haja vista já ter se autodenominado de centro-esquerda e por ter, indubitavelmente, maiores ligações históricas com as forças democráticas. Em todo caso, foi partícipe dos governos de José Sarney e de FHC, ambos muito longe de poderem ser classificados como progressistas.

Impossível não se lembrar da famosa (infame?) frase de Willy Brandt: “Quem aos 20 anos não é comunista não tem coração; e quem assim permanece aos 40 anos, não tem inteligência”. Com os nossos amigos Lembo e companhia limitada, porém, parece que a coisa se deu de forma inversa: tinham muita "cabeça" aos 20, mas agora, não aos 40 mas aos 70, são só coração!

Não se trata, evidentemente, de comunismo, palavra que está por demais surrada. Por outro lado, dá para se falar de “direita” e “esquerda”.

O filósofo Norberto Bobbio, poucos anos após a queda do Muro de Berlim, tentou avaliar a sobrevivência e o significado da polarização entre direita e esquerda, em livro lançado no Brasil pela Editora Unesp, em 1995, intitulado justamente Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. Bobbio expõe conceitos fundamentais para se entender a recolocação da velha dicotomia. Dentre os mais importantes está o de “igualitarismo”:

(...) o elemento que melhor caracteriza as doutrinas e os movimentos que se chamam de “esquerda”, e como tais têm sido reconhecidos, é o igualitarismo, desde que entendido não como a utopia de uma sociedade em que todos são iguais em tudo, mas como tendência, de um lado, a exaltar mais o que faz os homens iguais do que o que os faz desiguais, e de outro, em termos práticos, a favorecer as políticas que objetivam tornar mais iguais os desiguais. [2ª edição, p. 125]

Penso que quem ler as entrevistas e artigos indicados das personalidades citadas neste post perceberá a preocupação - ainda que não manifesta - com a questão da igualdade, seja na forma de propostas para minimizá-las, seja na defesa do uso de mecanismos corretores da perversa desigualdade que marca o Brasil. Neste sentido, devidamente agasalhado pelo teórico italiano, os nossos amigos estão parecendo velhos militantes da esquerda!

Muitos podem não levar tão a sério o que dizem e até mesmo pensar que eles possam estar fazendo “tipo”, ou, o que é pior, avaliar que não dá para confiar em “figuras” como essas. Todavia, o efeito da fala deles, em nossa opinião, não deve ser negligenciado, pelos seguintes motivos: elogios às bem-sucedidas políticas de transferência de renda do governo Lula feitas por seus correligionários já seriam esperadas, passando despercebidas mesmo que muito bem fundamentadas; "desabafos" como o de Cláudio Lembo, se feitos por políticos de esquerda, seriam – não tenho dúvidas – tachados de fascistas; comentários “simpáticos” ao MST, normalmente classificados como defesa do “terrorismo”, se ouvido de um Bresser-Pereira, ao menos ganha alguma atenção; e, finalmente, a antipática bandeira na defesa de cobrança de impostos, quando corajosamente empunhada por políticos de esquerda, só ganha espaço na mídia se for com o objetivo de satanizá-los.

Já os senhores Lembo, Jatene, Bresser e Delfim, com seus mais de 70 anos de idade, não têm que ficar dando muitas satisfações a ninguém, tampouco se preocupar com as "terríveis" repercussões de suas falas. Justamente por isso, vale bem a pena prestar atenção ao que dizem.


P.S.: Cláudio Lembo desligou-se recentemente do DEM, engrossando as fileiras do novíssimo PSD, de Gilberto Kassab, de quem é secretário de Negócios Jurídicos na prefeitura de São Paulo.

sábado, 21 de agosto de 2010

Cartinhas

Nesta semana que finda recobrei uma velha e estéril mania: a de encaminhar mensagens para órgãos de imprensa. Mandei algumas missivas eletrônicas para a Folha de São Paulo e para a rádio CBN. Que eu saiba, apenas uma das "cartas" foi publicada na versão eletrônica do Painel do Leitor, da Folha.

Dividirei com vocês as impressões que enviei para os órgãos supracitados. Como se sabe, temos que buscar ser sucintos se quisermos ver nossas mensagens publicadas. Por isso, não há, evidentemente, nenhum aprofundamento nos temas tratados - até porque talvez não tivéssemos mesmo condições para tanto!

Eleições estaduais - São Paulo
Nesta semana ocorreu o debate Folha/UOL com os candidatos ao governo estadual, com direito a comentaristas do jornal sobre a sucessão, parecendo achar normal o quadro que traz Geraldo Alckmin (PSDB) bem à frente de Aloízio Mercadante (PT) nas pesquisas. A Folha dá como favas contadas a eleição do candidato tucano, tanto que chegou a publicar um editorial de nome "mesmice paulista". Abaixo, a "cartinha":

Geraldo Alckmin tem hoje em São Paulo o único capital político que José Serra tinha no Brasil há cerca de um ano: o recall.
Em nível federal, o destaque dado pela mídia à disputa presidencial colocou os pingos nos “is”. Talvez sem querer, a imprensa acabou mostrando que Serra não passa de um “trololó ambulante”, ao passo que Dilma Rousseff é uma mulher preparada e conhecedora do Brasil. Resultado: a petista sobe enquanto o tucano desce.
Já em São Paulo o debate acerca da pendenga estadual está – para não dizer interditado pelos meios de comunicação – obscurecido pela corrida ao governo federal. Só isso para explicar a “mesmice paulista”, com a dianteira do candidato de um governo que, depois de 16 anos, deixa como legado uma educação catastrófica, transporte público em colapso e a saúde e segurança em frangalhos.
O (e)leitor precisaria ser mais bem informado sobre o pleito no estado de São Paulo.


Ingratidão com FHC
No debate Folha/UOL com presidenciáveis, José Serra (PSDB) acusa Dilma Rousseff (PT) de ser ingrata com os anos FHC. Pilheriei com a cara de pau do tucano.

O presidenciável José Serra, no debate online Folha/UOL, chamou Dilma Rousseff de ingrata por ela não reconhecer supostos avanços dos anos FHC.
Ora, foi o Serra candidato a presidente em 2002 que tentou se esquivar do governo de Fernando Henrique Cardoso, do qual participara como ministro desde o começo. Estratégia, aliás, que viria a ser repetida por Geraldo Alckmin em 2006.
Agora, no pleito deste ano, o jingle da campanha do "Zé" exalta a era Lula, em vez de lembrar os tempos de Fernando Henrique.
Portanto, em matéria de ingratidão com FHC ninguém bate o candidato Serra!


É a Folha que infantiliza os seus leitores
Comentário sobre o editorial Pai e Mãe, de 19.08.2010:

A Folha, em vez de ter a coragem de admitir que apoia uma das candidaturas à presidência da República, aproveita o editorial “Pai e Mãe” para tentar, covardemente, desqualificar a candidata Dilma Rousseff.
Ao buscar sustentar sua opinião, o jornal desrespeita a economista, fazendo pouco caso de sua luta contra a ditadura militar, dos seus cargos como secretária municipal e estadual, ministra de Estado e personagem relevante da articulação política no bem-sucedido governo Lula, especialmente no segundo mandato.
Tomando de empréstimo a elegância e alguns argumentos de um Sérgio Buarque de Holanda, o – apesar de tudo - bem escrito editorial vai fundo demais ao tentar colar a pecha de antirrepublicana na estratégia petista que usa a metáfora da “mãe” para falar de Dilma.
Pois é a imprensa – de braços dados com a oposição – que tem tentado, nesses anos todos, ora transformar a petista numa figura manipulável, sem vontade própria, do tipo que se deixa levar, ora qualificá-la como durona, mandona, às vezes até autoritária. Convenhamos, nada mais parecido com nossas mães do que isso!
Com um pouco mais de, digamos, profundidade filosófica, o editorial da Folha apenas chancela parte das erráticas estratégias da frente serrista, mostrando, assim, que, ao contrário do que afirma, tem lado nesta campanha. Por fim, o jornal é que infantiliza os seus leitores, achando que eles não têm inteligência para perceber isso.


Alguém conhece "de verdade" o Serra?
Missiva encaminhada à Folha, estranhando críticas de Eliane Cantanhêde à candidata Dilma Rousseff, por ser ela supostamente uma incógnita, ao passo que Serra todos sabem bem quem é. Não há negar que a colunista da Folha escolheu um dos piores momentos para fazer tal tipo de afirmação em favor do tucano!

Em sua coluna “Lula lá ou Lula cá em 2011?”, Eliane Cantanhêde se mostra cheia de dúvidas de quem realmente seria Dilma Rousseff e do que se poderia esperar de um eventual governo dela – não obstante os ataques que vem desferindo à ex-ministra nestes anos todos nos fizessem pensar que, ao contrário, ela conhece a candidata petista bem demais!
Mas o principal não é isso. O mais intrigante foi a colunista falar que se sabe muito sobre José Serra. Interessante! Desse jeito ela pode até ser chamada para ajudar na campanha do tucano, haja vista que muitos dos correligionários dele parecem já não saber quem de fato é Serra.
Com efeito, qual Serra conhecemos bem? O que critica de forma dura o governo Lula ou o que tenta se aproveitar da popularidade do presidente no horário eleitoral? O que acusa Dilma de ingrata por não reconhecer avanços no governo FHC ou o candidato acostumado – desde 2002 – a esconder o ex-presidente nas suas campanhas? O que tenta se apropriar dos remédios genéricos ou aquele que admite ter sido apresentado ao programa por um companheiro de partido?
Falar que se conhece bem José Serra nessa altura do campeonato,quando o próprio tucano se perde nas suas contradições, é o tipo de postura ingênua a que jornalistas profissionais não deveriam ter direito.


Liberdade de imprensa e liberdade de expressão
Mensagem encaminhada à rádio CBN, em razão das platitudes da comentarista Lucia Hippolito, no dia 20.08.2010:

Ouvi hoje o comentário de Lucia Hippolito, no “por dentro da política”, sobre o compromisso dos candidatos à presidência da República com a liberdade de expressão.
Fiquei esperando ansiosamente que ela puxasse a orelha do candidato José Serra, que fica agredindo jornalistas da TV Brasil, um candidato a presidente que não responde diretamente às perguntas que lhe são feitas, que tenta desqualificar os entrevistadores, que acusa blogs independentes de serem “sujos” e engordados com verba federal. A propósito, os tais “blogs sujos” a que ele se recusou a nominar, por acaso podem ser alijados do sagrado direito à liberdade de expressão? Espero que a grande mídia se insurja contra essa postura autoritária do ex-governador de São Paulo!
Achei bastante oportuna a lembrança, por parte de Lucia, de que a liberdade de expressão se sobrepõe à de imprensa, informação que a mídia normalmente sonega ao público, antes querendo fazer que pensemos ser a liberdade de imprensa a própria liberdade de expressão. Por ter certamente contrariado seus patrões neste particular, Lucia merece nossos entusiasmados parabéns!
A este propósito, é muito interessante o “respeito” do candidato do PSDB também com a liberdade de expressão strictu sensu dos cidadãos. Não faz muito, no interior de São Paulo, o tucano chamou um manifestante de “energúmeno”, com certeza inspirado pela sua cria (esse, sim, um poste) Gilberto Kassab – provavelmente outro grande defensor da liberdade de expressão! – que expulsou um trabalhador de um espaço público aos gritos de "vagabundo".
Aliás, energúmeno e vagabundo é o mínimo que se fala do presidente Lula nas seções de comentários de sítios eletrônicos dos jornais, que, defensores da liberdade de expressão que são, permitem sem nenhum pudor esse tipo de descalabro. Puxa vida, e o autoritário do Lula não faz nada?!?! Como pode uma coisa dessas?!
Com tudo isso, causa estranheza a preocupação de Lucia com alguma espécie de, digamos, “ímpeto censor” do partido da candidata Dilma Rousseff, o PT. Na hora em que ela disse isso cheguei a pensar: será que integrantes do Partido dos Trabalhadores ligam para os barões da mídia pedindo a cabeça de jornalistas?
De qualquer forma, é bom saber que temos tanta gente defendendo a liberdade de expressão no Brasil, e que podemos falar de tudo, de preferência dentro dos limites das responsabilidades legais, é claro. Se bobear, podemos falar até do preço dos pedágios nas rodovias paulistas!