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domingo, 13 de setembro de 2015

E se a eleição fosse hoje? Por Faustus "Mestre" Sapienza

Abaixo, mais um texto ficcional de Faustus "Mestre" Sapienza. Desta feita, o ficcionista (pero no mucho) satiriza as pesquisas eleitorais para presidente da República em... 2018! 

Boa leitura:

Se as eleições fossem hoje
Faustus "Mestre" Sapienza 
- Boa tarde, senhora! Meu nome é Paulino Montenegro e estou fazendo uma pesquisa. A senhora poderia responder? É rapidinho. Se as eleições fossem hoje, em qual nome desta lista a senhora votaria para presidente da República? 
- Mas, meu filho, ainda estamos em 2015. A eleição pra presidente é só em 2018. Tá longe pra chuchu...
- Sem dúvida. Por isso é que a pergunta é: "SE. SE as eleições fossem hoje. SE".
- Eu entendi. Só que se as eleições fossem hoje, hoje seria o primeiro domingo de outubro de 2018. E não dá para eu responder agora sobre uma coisa que só vai acontecer daqui a três anos. Sabe como é, muita água ainda pode...
- Passar por debaixo da ponte. Sim, entendo. Mas será que a senhora não poderia usar a imaginação?
- Esse negócio de eleição com imaginação não dá muito certo. Só dava pra usar imaginação quando era cédula de papel. Um irmão meu, já falecido, corintiano fanático, numa eleição nos tempos do papel votou no Dr. Sócrates, no Biro-Biro e acho que no Casagrande. Ele sempre usava a imaginação. Aí com a urna eletrônica num dá mais...
- Interessante. Só que eu preciso saber, senhora, se a eleição fosse hoje, hoje, hoje, em qual desses nomes da minha lista a senhora votaria para presidente. SE A E-LEI-ÇAO FOS-SE HO-JE!
- Se hoje fosse mesmo a eleição, como saber se esses caras aí vão tá vivo...
- Ora, senhora, até nisso a senhora tá pensando?! Por favor...
- Em 2014 teve um que morreu, num teve?
- Tem razão. Pra dizer a verdade, nem tava lembrando disso...
- E tem outra: duvido que esse senador aqui vai sair pra presidente. Os paulistas não vão deixar ele sair de novo. Pode apostar. Duvi-de-o-dó que ele sai... Vai ser um paulista no lugar dele, num sei quem, mas vai ser.
- Vamos fazer o seguinte: os candidatos da minha lista estão vivos e eles são os candidatos escolhidos por seus partidos. Acredite em mim: chegou o dia da eleição e os candidatos são rigorosamente eles. Vamos lá, senhora, eu preciso fechar minha cota: Se as eleições fossem hoje, em qual nome desta lista a senhora votaria para presidente da República?
- Tudo bem, tudo bem. Só me diz uma coisa: a eleição é hoje, os candidatos são esses, certo? Mas quem teve mais tempo de televisão? Quem se saiu melhor nos debates? Quem fez a melhor campanha? De quem a Globo puxou mais o saco e em quem ela deu mais rasteiras? Quais escândalos estouraram na mídia e quais foram jogados pra debaixo do tapete? 
-Obrigado, senhora, desisto. Só uma perguntinha pessoal pra encerrar. Como é que era esse negócio de cédula de papel?

domingo, 6 de abril de 2014

IPEA e Datafolha

Dois temas envolvendo pesquisas e suas divulgações merecem comentário.


O erro do IPEA e o erro nosso

No dia 4 de abril de 2014 o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) corrigiu os resultados de uma pesquisa de grande repercussão no Brasil: À frase "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas", 58% disseram discordar, contra 26% que concordam total ou parcialmente. Em resultado divulgado anteriormente, constou, equivocadamente, que a maioria concordava com a frase, provocando grandes protestos e discussões inclusive em nível internacional.

Vale recordar situação decorrida de texto do escritor Antonio Prata para a Folha de São Paulo. Em crônica de refinada ironia, o autor incorporou um sujeito ultraconservador e reacionário, proferindo opiniões que expressavam um grande radicalismo de direita. Prata relata ter recebido montanhas de mensagens de apoio pela sinceridade e coragem das duras palavras, assim como recebeu diversas outras de decepção ou de contraponto às loucuras que lá emitira.

E por que muita gente não percebeu a ironia no texto de Prata? A resposta simples é porque o seu texto era verossímil. Dado o grau de acirramento dos ânimos em meios mais politizados, ninguém parece achar estranho um discurso raivoso de direita, que não demonstre mais aquela vergonha de defender pontos de vista conservadores, mesmo que com doses de obscurantismo, que aparentemente sentia até pouco tempo atrás. Daí ter passado batido que o texto era um exercício ficcional.

No caso envolvendo o erro do Ipea, é igualmente estranho que todo mundo tenha achado plenamente crível o resultado da pesquisa anunciado anteriormente e que dava mais de 60% dos entrevistados concordando com o fato de que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". Como, pergunta-se agora, ninguém percebeu que deveria ter algo errado com aquela história absurda?

Isso só pode ser explicado por nossa tolerância com o machismo e por achar relativamente normal, dentro do grau de conservadorismo que nos encontramos, que haja pessoas que pensem daquela forma. Simples, simples.


O Datafolha e a manchete antijornalística da Folha

Diz a manchete da Folha de São Paulo deste domingo, 6 de abril de 2014: "Pessimismo sobre economia cresce, e Dilma perde seis pontos". Na nova rodada de pesquisas do Datafolha, Dilma Rousseff perdeu seis pontos e, com efeito, 29% acham que a situação econômica do País vai piorar, maior do que os 27% que pensam que ela irá melhorar.

Muito bem. Quem foi mesmo que disse  ser possível contar mentiras dizendo só a verdade?

Há um aspecto esquizofrênico na pesquisa já esmiuçado em outros blogs. O eleitor acha que a situação econômica do País vai piorar, mas, por outro lado, acredita que a sua condição econômica pessoal vai melhorar! E neste último, o resultado é uma lavada: 46% acham que vai melhorar, 39% que vai ficar como está e somente 12% apostam que vai piorar.

A percepção sobre a condição pessoal deveria, em princípio, anular a visão de que as condições econômicas do País como um todo vão piorar, de modo a desautorizar manchete chamando atenção para tal aspecto.

Melhor jornalismo teria praticado a Folha se tivesse destacado em sua manchete o fato de que Dilma perdeu seis pontos, mas que seus adversários mais prováveis e diretos, Aécio e Eduardo Campos, não os capitalizaram. Mais do que isso, a petista ainda ganha com folga no primeiro turno, outro viés de maior interesse jornalístico, aparentemente negligenciado pelo(s) editor(es) de primeira página.

Para piorar as coisas para a oposição e para o jornalismo militante da Folha, o único nome (não candidato) melhor na parada do que Dilma é o do ex-presidente Lula. Manchete destacando isso, então, nem pensar!

terça-feira, 30 de março de 2010

E o jacaré ainda não fechou a boca

Pesquisa Datafolha, divulgada em 27.03.2010, mostra que José Serra ampliou vantagem sobre Dilma Rousseff, subindo de 32% para 36%, enquanto a pré-candidata do PT oscilou negativamente, de 28% para 27%.

O resultado foi, de maneira geral, tomado como surpreendente, tendo em vista que o conjunto das pesquisas vinha indicando queda livre do tucano e ascensão aparentemente ilimitada da petista. Imaginava-se que o "jacaré iria fechar a boca", em alusão ao encontro no gráfico dos índices de cada candidato, simulando a mordida do simpático réptil.

De nosso lado, acreditamos que, se chamar de previsível o resultado seria clamoroso exagero, não é absurdo dizer que ele está longe de ser surpreendente. Diferentemente do que foi reverberado, houve, sim, "fatos novos" a justificar a leve subida do governador de São Paulo.

Antes, um adendo: estes números do Datafolha, referentes a Serra, diferente da consulta anterior, estão mais próximos do resultado que o paulista vem obtendo, com grande resiliência, nas pesquisas de outros institutos, ou seja, a casa dos 35%, o que, lendo sob esse prisma, os tornam ainda menos estranhos.

Mas vamos aos fatos novos: Serra, ainda que de forma hesitante, admitiu ser candidato, em programa popular de TV. Malandramente, fê-lo elogiando o presidente Lula, numa tática tão primária, que foi rapidamente percebida e prontamente exposta pelo apresentador José Luiz Datena, qual seja, a de não criticar o governo atual e tentar fazer a comparação de biografias com a principal adversária, fugindo assim, da estratégia do modelo plebiscitário, buscada pelo PT.

Outro fato: nos últimos dias o PSDB vem usando a sua cota de inserções durante a programação de TV, com o governador paulista em pessoa falando não somente de suas supostas realizações como governador de São Paulo, mas também das conquistas que teria obtido em outros cargos públicos que ocupou. E sem o contraditório, fica fácil falar que criou os genéricos, que implementou programa de combate a AIDS, falar que a educação e a saúde de São Paulo são uma maravilha...

De outra parte, no caso de Dilma Rousseff, "fatos novos" podem até não ter comprometido muito seu desempenho, mas decerto também não ajudaram. Nos últimos dias veio a campo o requentado "caso Bancoop", com insistentes capas de revista e ampla repercussão no rádio e TV. Pouco importa se o juiz da causa fez pouco caso da representação do promotor José Carlos Blat; o despacho do Magistrado teve, evidentemente, bem menos destaque na mídia, se é que teve algum. Ainda que o denuncismo barato não pareça ser capaz de fazer grandes estragos na campanha da candidata do governo, pode, sim, ter o condão de contribuir, neste momento, para a estagnação. A conferir.

Deve vir mais emoção nos próximos dias. E, acreditamos, serão, de início, favoráveis a Serra. Ele se apresentará oficialmente como candidato no segundo final de semana de abril. A chamada grande imprensa, especialmente as revistas semanais, ofertar-lhe-á docilmente suas capas e, claro, as suas mais nobres páginas; rádio e TV, se bobear, farão um subserviente "esta é a sua vida" do governador. Nessa brincadeira, deve ganhar alguns magros pontos, ou, na pior das hipóteses, ficará onde está, mas num clima em que será difícil que a principal adversária suba ao menos um pouquinho, ou seja, no mínimo manterá a distância alcançada.

A campanha, com isso, entrará em nova fase e exigirá mais profissionalismo das equipes dos candidatos. O tempo de TV é que deve fazer a diferença, como o prova, aliás, a própria subida do tucano, ocorrida após a participação no Datena e após as aparições nas inserções do PSDB.

Quanto às pesquisas em geral, vamos sempre lembrar, neste espaço, que em 2008, na corrida pela prefeitura de São Paulo, faltando cerca de três meses para as eleições, Marta Suplicy se aproximava dos 40%, Geraldo Alckmin tinha pouco mais de 20%, e Gilberto Kassab estava tecnicamente empatado com Paulo Maluf com não mais do que 10%. No final, deu no que deu!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Por que não divulgar pesquisas

Muitos não acreditam em pesquisas; e há os que acham que o grande problema delas está na sua divulgação. Estes argumentam que o resultado das pesquisas podem influenciar o eleitor de forma não muito salutar, tornando-as um campo fértil para todo tipo de tentativa de fraude e manipulação.

A ideia é que, ao mostrar um candidato "x" em primeiro lugar ou em ascensão, pode-se vitaminar as intenções de votos nele, especialmente por parte de um grupo que poderíamos chamar de "lumpen-eleitorado", ou, ainda, dos indecisos. De outra parte, pode ocorrer o "desvio" de votos que iriam para um candidato "y" em favor de um candidato "z", pois o eleitor pode ver neste uma figura mais competitiva num segundo turno: o famigerado voto útil.

É de se presumir que a TV Globo esteja entre os que veem na divulgação a principal arma política das pesquisas. Segundo informações na internet, a emissora, em seu principal telejornal, simplesmente desprezou um dos fatos políticos mais importantes das últimas semanas: o crescimento vigoroso das intenções de voto da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para a sucessão do presidente Lula, medido pelos institutos Vox Populi e Sensus.

Os responsáveis pelo jornalismo global podem até ponderar que a emissora é contratante do IBOPE para o mesmo tipo de pesquisas e que em outras sondagens, nas quais a ministra não ia muito bem, também não fez questão de divulgar dados de concorrentes do instituto dirigido por Carlos Augusto Montenegro. De qualquer forma, é inegável o peso jornalístico da subida da ministra Dilma, que, afora ser um fato novo, é sem dúvida evento mais relevante do que o de ela, novata em eleições, ficar atrás de políticos governadores de estado ou já candidatos a presidente em outras oportunidades.

A tese que defendemos aqui é a de que a Globo simpatiza muito - para dizer o mínimo! - com a possível candidatura de José Serra. E, ao não noticiar resultados que apontam tendência de alta da candidatura praticamente certa de Dilma Rousseff, parece realmente deixar claro que acredita no fato de que mais importante do que os números de pesquisas é a sua divulgação.

Declarada a nossa suspeita, admitamos que não é nada reconfortante saber que a principal emissora de televisão do país, claramente partidária e fortemente ligada a determinado instituto de pesquisas, pareça acreditar tanto no poder que pode extrair de um simples ecoar de resultados de sondagens eleitorais.

sábado, 26 de setembro de 2009

Pesquisas

Faltando mais de um ano para as eleições de 2010, eis que se veem por aí centenas de análises dos números das pesquisas para a corrida presidencial. Serra bem à frente, mas caindo aos poucos; Dilma que subiu, mas não sai do lugar; Ciro Gomes dando a entender que a disputa centrada no PT/PSDB pode estar abalada; e Marina Silva tirando um pouquinho de votos do tucano e um pouquinho da petista.

Este blog, num de seus principais - porém não poucos - erros, apostou as fichas na vitória do tucano Geraldo Alckmin na disputa pela prefeitura de São Paulo em 2008. Os raríssimos leitores que nos honram com sua fidelidade decerto se lembram de que tínhamos - acreditamos - bons argumentos para apostar na vitória do ex-governador. Baseávamo-nos sobretudo nas pesquisas. Circa agosto daquele ano, ou seja, apenas dois meses antes do pleito, segundo os principais institutos, a petista Marta Suplicy beirava os 40%, o tucano abocanhava pouco mais de 20%, enquanto o prefeito Gilberto Kassab e o eterno candidato Paulo Maluf juntos não chegavam às intenções de voto de Alckmin. Entendíamos que no segundo turno, entre Marta e Alckmin, o tucano herdaria com facilidade os votos dos eleitores conservadores que teriam ficado com o prefeito e com o folclórico Maluf. Nunca é demais lembrar, Kassab foi reeleito, e o atual secretário de Desenvolvimento de São Paulo sequer foi para o segundo turno!

Tudo isso para dizer que não dá para levar muito a sério pesquisas acerca de algo que vai ocorrer daqui a mais de um ano. Vale lembrar os clichês usados por analistas, como a presença do "Imponderável da Silva" e a figura "garrinchesca" do "falta combinar com os russos". É claro que os políticos e marqueteiros nem se importam e, ipso facto, usam os resultados das sondagens para trabalhar nos bastidores. Nada a opor, em princípio. Afinal, bem ou mal estão munidos de uma informação, e o negócio, nesse caso, é ver o que se pode fazer - ou deixar de fazer - com ela.

Por falar em clichês, há um bastante interessante que é aplicado a pesquisas: elas são, dizem, "a fotografia do momento". Parece-nos verdadeiro, não obstante pairem, aqui no Brasil, sérias dúvidas sobre a lisura no modo de atuar dos institutos. Mas mesmo tomando como certos os números das recentes consultas divulgadas, qual seria a real importância de tal "fotografia" a essa altura do campeonato?

O que vale mesmo, por óbvio, é a "foto" que será tirada em outubro de 2010.

Ainda falaremos sobre isso.

sábado, 21 de março de 2009

Se subiu tem que descer!

Duas pesquisas (Datafolha e CNI/IBOPE) divulgadas na sexta-feira, 20-03-2009, apontam queda na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apresentando pequeno declínio tanto da aprovação de seu governo quanto de seu desempenho pessoal. Os seus números positivos, entretanto, são muito vigorosos e ainda se enquadram nos mais altos já verificados em tais tipos de consulta no Brasil (só para se ter uma idéia, de acordo com o Datafolha, Lula tem agora 65% de ótimo e bom; o pico de FHC, por exemplo, foi de apenas 47% em 1996).

É possível que o presidente brasileiro já houvesse atingido o seu ponto máximo nas pesquisas anteriores e que, portanto, só pudesse manter ou cair de agora em diante. No entanto, vem sendo afirmado que o revés da popularidade presidencial estaria ligado à deterioração da situação econômica do país, o que noutras palavras quer dizer que a crise internacional teria entrado aqui com os dois pés. Foi o que se viu enunciado, por exemplo, em matéria publicada na Folha Online, sentenciando logo de cara que “a piora da crise econômica mundial fez a aprovação do governo Lula cair”, e foi este também o tom de grande parte da repercussão dos resultados das pesquisas na TV: o canal Bloomberg, especializado em economia e finanças, deu grande destaque especialmente ao levantamento do IBOPE, o que por si só deixa bem clara a associação dos resultados com a situação econômica.

A tentação de se fazer ilações é óbvia, em virtude dos enfoques adotados pelas sondagens: deduz-se da observação rasteira do que foi exposto na mídia que aumentou a percepção da crise e que isto fez a aprovação de Lula diminuir. Em reforço à tese, lança-se mão do fato de que em novembro de 2008, de acordo com a pesquisa Datafolha, 72% dos entrevistados diziam ter conhecimento da crise, e agora o número chega a 81%. Ora, mas será que dá para considerar 72%, ou seja, quase ¾ do universo da pesquisa anterior, número tão desprezível assim? Como já expusemos acima, talvez a popularidade do presidente tenha caído porque já estava na hora de cair mesmo. Convenhamos que havia pouquíssima possibilidade de ela subir além do patamar que já alcançara.

Não apenas a “melhor informação” sobre a crise, mas o sentir seus perversos efeitos na própria pele pode ter sido outro dos fatores que contribuíram para a decaída do petista, sustentam alguns colunistas e blogues. Mas vale lembrar que a pesquisa da CNT/Sensus, com números superlativos favoráveis ao presidente Lula, havia sido colhida no mês de fevereiro último, portanto já sob os efeitos dos maus resultados no mercado de trabalho nos meses de novembro e dezembro de 2008 e janeiro de 2009 (mercado este, aliás, que já apresentou pequena recuperação em fevereiro).

No campo da política, as relações de causa e efeito não devem se pautar por tanto simplismo. Caso contrário há motivos para abraçar a preocupação já lançada pelo blogueiro Eduardo Guimarães (ela também de algum modo uma simples ilação): se se compra a certeza de que notícias de crise contribuem para a degradação da aceitação do governo Lula, e se se reconhece que elas mexem com a moral da população a ponto de provocar retração e desemprego, e se finalmente se confirma que o desemprego traz claro descontentamento com o ocupante do Palácio do Planalto, logo se pode concluir que o catastrofismo midiático tende a se agigantar nos próximos meses, já de olho em 2010.

A idéia mais ou menos geral é que somente um Lula muito forte pode conseguir dar vida à candidatura da ministra Dilma Roussef. A popularidade assoberbada do presidente assusta -e muito - a oposição (incluindo a mídia). Por isso, a queda do presidente, ainda que muito pequena, certamente tem sido motivo de comemoração nas “alamedas barão de limeira” e nos “jardins botânicos” da vida, talvez mais até mesmo do que, por exemplo, no Palácio dos Bandeirantes. (e por falar no Bandeirantes, que tal uma pesquisa sobre a popularidade do governo Serra e da administração Kassab, especialmente nesses dias de crise na segurança ou de caos provocado por chuvas?).

sábado, 20 de dezembro de 2008

Pai dos ricos?

A espetacular popularidade do presidente Lula decerto que não constitui novidade. Novo, isto sim, é o bom resultado do presidente entre os mais ricos e mais escolarizados, segundo todos os levantamentos recentes. Para entender tal fenômeno seriam necessárias pesquisas qualitativas com as pessoas de tais perfis, como forma de se saber quais são os motivos que têm feito tal contingente, depois de anos, entusiasmar-se com o presidente que já era dos mais queridos da população pobre em toda a história do país. Este blog, porém, na base do “chutômetro” mesmo, dará um palpite sobre o assunto.

Os mais ricos e os mais escolarizados, como se sabe, fazem parte do grosso dos consumidores de jornais e de revistas de grande circulação e são grandes leitores (ou ouvintes, telespectadores) dos principais colunistas da mídia nativa. E por isso foram bombardeados durante pelo menos cinco anos com a tese de que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva só se saía razoavelmente bem porque nadava nas águas calmas da bonança internacional. Os luminares de nossa imprensa, não satisfeitos apenas em desqualificar Lula, ainda por cima tentavam justificar a mediocridade de seu antecessor com a afirmação de que ele (FHC), sim, enfrentara importantes crises internacionais em sua gestão, o que explicaria alguns resultados esquecíveis de seu governo. (Em verdade, mais do que pela má sorte, o Brasil ficou muito vulnerável às crises dos anos 1990 em virtude do populismo cambial e das políticas suicidas – que muitos reconhecem ter sido necessárias – para se conter a inflação; mas aí é outra história).

Porém, há pelo menos um ano só se ouve falar de crise internacional, e, diferentemente daquelas da era FHC, em vez de na periferia do sistema, os resultados assustadores se mostram localizados nos Estados Unidos e em países da Europa. Desde os primeiros apuros, já se viam em fóruns da Internet alguns usuários prevendo que o Brasil iria à bancarrota em semanas, afinal o governo só se segurava por causa da calmaria externa. Não era diferente na imprensa dita especializada, sempre apostando que as coisas já começariam a quebrar imediatamente.

Mas conforme se divulgam os dados da economia, vê-se que, de forma geral, o Brasil ainda se segura bem, e, mais do que isso, o governo procura tomar algumas medidas preventivas contra a crise, e seus representantes, a começar pelo próprio presidente da República, não hesitam em se mostrar otimistas, irritando a imprensa, porém passando confiança ao povo. Não há negar, todavia, que alguns dados já se mostram deteriorados, e praticamente todos sabem que alguma retração virá; ainda assim, parece haver consenso de que o Brasil sofrerá menos do que muitos países centrais.

A classe média, os leitores de jornais, os mais escolarizados devem ter se sentido ludibriados pela grande mídia e seus estafetas, afinal uma crise nos Estados Unidos não é brincadeira. E o “presidente sortudo” vem se mostrando capaz de enfrentá-la, diferentemente do que diziam os colunistas e editorialistas da nossa combativa imprensa. Isso talvez tenha feito a classe média acordar de seu sono midiático e ter chegado à conclusão que durante todos esses anos houve – e tem havido – uma má vontade gritante contra o presidente Lula e uma desavergonhada torcida pelo insucesso de seu governo. E como burrice tem limites, nem todo mundo vai achar bacana o país quebrar só para rir da cara do presidente. Os que pensam assim (e - você sabe, amigo - eles existem na cifra de 6 ou 7%) precisam urgentemente de um laudo do Jacob Pinheiro Goldberg.

Para finalizar, duas observações: em primeiro lugar, se é que o caso é de boa ou má fortuna, reforçamos opinião já repetida alhures de que é melhor um presidente com sorte do que outro azarado! Em segundo lugar, alguém aí reparou que parece estar ocorrendo no Brasil a inversão do “efeito pedra no lago”?

domingo, 17 de agosto de 2008

Eleições Municipais 2008 - São Paulo - nova pesquisa IBOPE

Einstein certa vez disse que se num primeiro momento uma idéia não é absurda, então há esperança para ela. A idéia de que Marta Suplicy pode voltar a sagrar-se prefeita de São Paulo no próximo pleito está muito longe de ser absurda. Este blog, entretanto, continua insistindo que as condições são mais favoráveis ao ex-governador Geraldo Alckmin, a despeito da pesquisa IBOPE que mostra a prefeita com 15 pontos de vantagem.

A aritmética conspira a favor do tucano. De acordo com a última pesquisa, Maluf e Kassab detêm juntos 17% da preferência. Parece-nos muito razoável que a maioria esmagadora desse contingente caia nos braços do ex-governador na primeira oportunidade, mesmo que essa oportunidade seja somente no segundo turno. Um ajustezinho aqui, outro acolá, e Alckmin levaria, mesmo que de forma um pouco apertada.

Marta Suplicy pode, porém, estar tendo a seu favor a medíocre administração de Kassab, que traz a lembrança de que ele foi, em verdade, eleito como vice do tucano José Serra, que, apesar das reiteradas promessas, abandonou a prefeitura. Ainda que de forma indireta, isso pode estar atrapalhando Alckmin, pois o eleitor rapidamente o associa com a figura do atual governador e talvez fique vislumbrando a possibilidade de a história se repetir daqui a dois anos. A ex-prefeita, derrotada em 2004, seria a beneficiária natural dessa insatisfação do eleitor por conta daquela, digamos, “traição”. Além disso, Marta, que já conta com boa penetração nas periferias da cidade, pode também estar conquistando algum espaço nas regiões mais centrais e nos redutos de classe média por conta principalmente do trânsito caótico. Ainda que de forma insuficiente, seus investimentos em transporte coletivo e a construção de corredores quando prefeita representaram iniciativas importantes nesse campo. Hoje, dificilmente um jornal de grande circulação estamparia na sua primeira página a reclamação de um comerciante da Avenida Rebouças de que seria um absurdo ele fazer, de carro, em 40 minutos, o mesmo trajeto que um ônibus fazia em dez após a entrada em operação de corredor naquele logradouro! Que “inversão de valores”, deve àquela época ter pensado o rapaz, chancelado pelo nosso grande jornal! A cabeça da classe média tradicional pode ter mudado um tiquinho sobre o assunto e isso talvez esteja beneficiando, ainda que timidamente, a ex-ministra do Turismo.

A pesquisa IBOPE mostra que este blog talvez tenha exagerado no acreditar que as coisas seriam mais fáceis para Geraldo Alckmin na pendenga deste ano. Agora é torcer para que também estejamos errados quanto ao possível abandono da prefeitura antes do tempo tanto por parte da petista quanto do tucano.