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sábado, 4 de junho de 2011

Archie Shepp no Sesc Pompeia - São Paulo

O espetáculo do último dia 29.05 foi inegavelmente um excelente show de jazz. Mas, paradoxalmente, não é certo que foi uma grande apresentação de Archie Shepp.

Explicando: figura importante da vanguarda dos anos 1960, o - principalmente - saxofonista Archie Shepp tocou numa linha supernormal no evento que fez parte do "Jazz na Fábrica", projeto que marcou o mês na unidade Pompeia da famosa entidade classista.

Shepp mandou ver em standards do quilate de "Don't Get Around Much Anymore", por exemplo, e além de seu sax marcante, soltou o vozeirão em diversos momentos do show: revelou-se grande cantor de blues, na linha dos velhos shouters das décadas de 1940 e 1950. Tal faceta - confessemos - foi uma grande surpresa para este escriba.

Abaixo, ouviremos a canção de abertura do espetáculo, uma espécie de meio-termo entre a vanguarda dos 1960 e a linha mais mainstream que foi a tônica do show. A música, composição do próprio Shepp, se chama "U-Jamaa", tendo ao fundo detalhe da capa do disco Mama Too Tight, de 1966. Favor não reparar na péssima qualidade do áudio!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ornette Coleman no SESC Pinheiros

Além de Paul McCartney e Lou Reed, outra lenda da música do século XX a pisar nos palcos paulistanos em novembro foi o revolucionário Ornette Coleman, saxofonista considerado o pai do gênero conhecido como free jazz.

A despeito de ser um artista associado à vanguarda jazzística, sua apresentação no SESC Pinheiros não foi necessariamente marcada por grandes improvisações ou pelos arroubos de nonsense tão comuns ao movimento, antes optando por interpretações competentes mas contidas, num quase hard bop, por assim dizer. Tanto foi assim que foram raras as vezes em que Ornette Coleman se arriscou no trompete ou no violino, instrumentos que toca de forma extremamente particular, geralmente de modo a causar estranhamento nos ouvintes.

Ainda que tudo tenha corrido dentro de uma normalidade que, em princípio, não seria de se esperar de artista tão inquieto, situações inusitadas ocorreram no show da noite de 28.11.2010. A primeira delas decorre de um infortúnio: durante execução da canção "Peace", ocorre falta de energia, causando grande apreensão na platéia. De repente, apenas com as luzes de emergência funcionando, os músicos começam a tocar, de forma desplugada, a atemporal "Lonely Woman", para delírio do público. Como se não bastasse, apagam-se também as luzes de emergência e, sob o breu total, a galera vai à loucura, aparentemente entendendo que o clássico de 1959 cai muito bem naquelas condições.

Outra grande surpresa foi quando, ao final absoluto, ou seja, depois do bis, o músico dirigiu-se ao público e começou a cumprimentar alguns espectadores da primeira fila. Todos que estavam mais atrás correram até a beira do palco e foram conversar com o mestre. O genial Ornette Coleman, que havia tratado com frieza jornalistas da grande imprensa brasileira, foi paciente e simpático com os fãs, distribuindo cumprimento e autógrafos, além de se deixar filmar e fotografar e até mesmo posar para fotos ao lado de alguns mais atirados.

E minha intuição funcionou parcialmente naquela noite. Se, por um lado, falhei feio em não levar máquina fotográfica para o evento, por outro lado, acertei em cheio em ir munido da capinha do CD de The Shape of Jazz to Come, um dos melhores discos de todos os tempos. Foi o primeiro dos muitos autógrafos que Ornette Coleman distribuiu naquela noite. Ele grafou meu nome errado na capinha; mas quem se importa?

Abaixo, um pequeno vídeo com a capa do CD autografada pelo veterano artista, com fundo musical da gravação do áudio da sequência acima descrita, com a interpretação de "Peace", a queda de energia, e a retomada com "Lonely Woman". Tudo obra de Coleman, exceto o probleminha técnico!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Pharoah Sanders em São Paulo

Com um pouco de atraso, comento o show de Pharoah Sanders no Sesc Pinheiros, em São Paulo, no dia 22 de agosto de 2010.

Um dos nomes mais importantes da história do jazz, o saxofonista estadunidense apresentou-se acompanhado de um excelente time, formado por figuras respeitáveis como o seu conterrâneo Rob Mazurek e Maurício Takara.

A exemplo de outros jazzistas fundamentais que têm se apresentado em São Paulo nos últimos anos, a figura de Sanders também se mostrava um pouco debilitada pela idade, fazendo duvidar, de cara, da qualidade da performance que viria. Qual nada! Com todo o respeito, o velhinho manda bem demais! Com grande fôlego e com o timbre que faz lembrar seus discos do final dos anos 1960 e início dos 1970.

O mais legal de tudo foram os arroubos free aos finais de peças um tanto "orientais", místicas, contemplativas. Em suma, o show foi mesmo a cara dos melhores discos de Pharoah Sanders.

Para quem quer conhecer um pouco de Pharoah Sanders, abaixo temos uma faixa do LP Karma, lançado pela Impulse! em 1969, destacando o baixo de Ron Carter e os vocais de inflexão soul de Leon Thomas. A canção chama-se "Colors" e tem autoria de Sanders e Thomas.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ron Carter - Teatro do Sesi - São Paulo - 02.06.2010

Não é de se estranhar que os fãs de jazz - mesmo aqueles que se prezem - não tenham nenhum disco solo de Ron Carter na coleção. Por outro lado, é praticamente inconcebível que os apreciadores do gênero americano - inclusive os mais desprezíveis entre eles - não possuam pelo menos uma meia dúzia de álbuns com participação do famoso contrabaixista.

Com efeito, Carter sempre aparece nas contracapas de alguns dos melhores discos de jazz da história, tocando com endeusados do calibre de um Wayne Shorter ou com subestimados como Eddie Harris.

Nesta apresentação no Sesi, num formato de trio, Carter foi acompanhado por piano e pela guitarra do respeitado Russell Malone. Como não poderia deixar de ser, o contrabaixista foi a grande figura de noite, fazendo um show em que o seu instrumento dominava os arranjos, lavando a alma daqueles que a vida toda foram obrigados a se contentar com os tímidos solos de baixo que costumam aparecer nos discos.

Ouça abaixo Ron Carter mostrando que também se sai muito bem tocando cello. A faixa é "The Baron", do álbum do Out There, do mestre avant-garde Eric Dolphy, gravada em 15.08.1960. O vanguardista é o próprio autor da canção.

domingo, 16 de maio de 2010

Virada Cultural 2010 - Booker T. Jones

Não tenho dúvidas de que a presença de Booker T. Jones na Virada Cultural 2010 tenha sido dos pontos altos do evento. Líder dos lendários Booker T. & the MG's, nesta vinda a São Paulo o organista veio com uma banda muito bem entrosada, prejudicada apenas por uma discreta má qualidade do som que, contudo, não comprometeu o resultado final da apresentação iniciada no finalzinho do sábado e concluída no início do domingo - bem na "virada", literalmente.

Relembrado pelos seus trabalhos como organista nos anos 1960, Booker T., neste show, também cantou e tocou guitarra. Além de clássicos de seu repertório junto com os MG's, o músico interpretou gemas que ficaram famosas na voz de Albert King e Otis Redding. Tudo a ver! Ao apreciar algumas das principais canções do selo Stax, o leitor, talvez sem o saber, está ouvindo ao fundo Booker T. & the MG's, uma vez que eles acompanharam muitos dos grandes artistas que gravaram naqueles históricos estúdios de Memphis.

A este escriba causou agradabilíssima surpresa o público volumoso, formado em sua maioria por uma garotada que, surpreendentemente, parecia conhecer bem o repertório. Deve ser a internet... Mais próximo ao palco, em lugares privilegiadíssimos, viam-se alguns "vips": Charles Gavin, Luiz Calanca, o jornalista Álvaro Pereira Jr. e o radialista Daniel Daibem (a quem coube a honra de anunciar o mestre).

Espero que Booker T. Jones e a excelente banda que o acompanhou tenham também ficado positivamente impressionados com a acolhida do público paulistano. Quem sabe não vem uma miniturnê por aí?

Abaixo, o registro de gravação de aúdio feita por este blogueiro na apresentação de Booker T. Jones. Pedimos desculpas pela péssima qualidade. Foi feita de forma muito rústica, apenas para registrar, na Virada Cultural 2010, a presença de um artista tão importante para a história da música do século XX. A canção é a clássica "Green Onions", de 1962, composta por ele, Steve Cropper, Al Jackson Jr. e Lewis Steinberg. A ilustração é foto de Booker T. & the MG's, no início dos anos 1960, extraída dos arquivos da Fantasy Inc.

domingo, 29 de novembro de 2009

Showzão gratuito no Parque da Independência

A tarde do domingo, dia 29.11.2009, foi especial pela apresentação grátis de Dianne Reeves e Buddy Guy, no Parque da Independência, em São Paulo. Foi mais uma edição do Telefonica Open Jazz, evento patrocinado pela horrorosa empresa espanhola de telefonia, referência da "privataria" e símbolo de ineficiência. A empreitada contou também com o apoio da Prefeitura do Município de São Paulo, do Governo do Estado de São Paulo e do Governo Federal. Acho importante destacar a atuação dos três níveis de governo na organização do evento, já que poucos se lembram do quanto é fundamental a participação do Poder Público para a realização de shows de qualidade gratuitos como este dos dois grandes artistas estadunidenses.

A cantora Dianne Reeves subiu primeiro ao palco, com repertório que misturava o jazz na linha interpretada pelas grandes divas do gênero, devidamente misturado ao soul e ao rhythm'n'blues. Foi um belo show de abertura, do tipo que esquenta a platéia. Platéia para a qual ela voltaria a dar uma "canja" um pouco mais tarde, cantando "It Feels Like Rain", ao lado de Buddy Guy.

O lendário guitarrista, influência confessa de nada menos do que Jimi Hendrix e Eric Clapton, realizou uma apresentação absolutamente incendiária, fazendo a guitarra gritar, chorar, cantar... Tocou com a camisa, com os dentes, de costas... A lenda viva do blues cantou com propriedade temas de Muddy Waters ("I'm Your Hoochie Coochie Man", "She's Nineteen Years Old", "Got My Mojo Workin'"), de John Lee Hooker ("Boom Boom") e do soulman Bill Withers (Use Me); do próprio repertório, levou a galera ao delírio com "Damn Right, I've Got the Blues".

Destaques: em primeiro lugar, o comportamento sensacional do público, que não arredou o pé do local, mesmo com uma chuva torrencial de cerca de 30 minutos. Em segundo, a ousadia do velho guitarrista, que, quebrando o protocolo, desceu do palco, empunhando a sua guitarra, e foi tocar junto da platéia, sendo prontamente cercado pelos fãs, munidos de seus celulares e câmeras para registrar o inusitado episódio.

Lembra de que falamos de quão importante foi Buddy Guy para a formação artística de guitar heroes como Hendrix e Clapton? Pois bem. Para finalizar, o moço mandou ver num medley de versões instrumentais de "Voodoo Chile" e "Sunshine of Your Love". A molecada, que quase não gosta de hinos roqueiros - desnecessário dizer -, foi à loucura.

Guy sai ovacionado, enquanto a banda toca "I Go Crazy", clássico na voz de James Brown. Showzaço!

Arriscamo-nos a tirar algumas fotos; ficaram horríveis. Ainda assim, preparamos um pequeno clipe com elas. Vale pela trilha sonora que escolhemos: "First Time I Met the Blues", com Buddy Guy, composição de E. Montgomery, gravada em Chicago, para o selo Chess, no dia 02.03.1960. Veja logo abaixo.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Bob Dylan no Brasil: vai ser difícil ver


É praticamente certa a vinda de Bob Dylan ao Brasil em março de 2008. Informações preliminares dão conta de que, em São Paulo, a lenda fará apresentação única na Via Funchal.

A casa paulistana é conhecida pelos seus preços para lá de salgados; para a apresentação de um mito do século XX, eles - juntamente com os organizadores, claro - podem “meter a faca” à vontade que os ingressos certamente se esgotarão rapidinho.

Seria ótimo se houvesse uma apresentação desse genial artista de graça e ao ar livre, nos moldes daquela dos Rolling Stones na praia de Copacabana em 2006, ou dos já longínquos shows de Ray Charles e de B.B. King na Praça da Paz do Parque do Ibirapuera, em 1995 e 96, respectivamente.

Ter-se-ia – como dizia Garrincha – que combinar com o adversário: precisaria apurar quanto o artista cobraria numa apresentação desse tipo e se ele toparia fazê-la. Fora isso, seria necessário o apoio de empresas. Há que se recordar, ainda, que as inesquecíveis performances de Ray Charles e B.B. King contaram com o beneplácito da prefeitura de São Paulo. Parece não haver neste momento clima para tal tipo de “gasto”.

Torcemos para que Dylan, que há alguns anos foi parar no hospital por problemas no coração, tenha uma vida muitíssimo longa e produtiva. Mas a sensação é de que essa terceira será a sua última apresentação no Brasil. Quem viu, viu... Aos que não virem, restará apenas entoar o velho refrão: “it’s all over now, baby blue”.