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domingo, 17 de maio de 2015

B.B. King (1925-2015)

Mais um pouco de século XX se vai com a morte de Riley Ben King. Vamos homenagear o grande artista com uma pequena resenha do disco Live in Cook County Jail, de 1970, escrita originalmente para o site RateYourMusic, no ano de 2007, agora com pequenas correções.

B.B. KING - LIVE IN COOK COUNTY JAIL (1971)

Tive a oportunidade de assistir a uma apresentação de B.B. King no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, no final do ano de 1996. Ele ainda estava fantástico: carismático, simpático, perfeito com sua Lucille, tanto nos slow blues quanto nos temas mais agitados. 

Vi a performance de B.B. King, portanto, 25 anos depois deste fantástico álbum ao vivo: foi o deparar-se com um mito; imagino quão emocionante deve ter sido acompanhar uma apresentação dele no auge, no início dos anos 1970. 

Perdoem-me pela pilhéria de absoluto mau gosto, mas as pessoas recolhidas nessa importante prisão americana foram privilegiadas em assistir a essa fantástica exibição! Incluo Live In Cook County Jail na minha lista de melhores álbuns ao vivo de todos os tempos - ressalvando, porém, que não sou grande entusiasta dos live albums, de maneira geral. 

Sei que B.B. King lançou outros discos ao vivo memoráveis, especialmente Live at the Regal, de 1965. Mas como não o possuo na minha coleção, o maioral mesmo é, para mim, este petardo de 1971. Até porque ele talvez seja o único disco que se inicie com uma sonora vaia. Mas acalmemo-nos, não é para o "Rei do Blues", não! É para o diretor do famoso presídio de Chicago!

Os presidiários deliciaram-se naquela data com "Everyday I Have the Blues", "Sweet Sixteen", "How Blue Can You Get", "The Thrill Is Gone", entre outras. 

36 anos depois, continuemos deliciando-nos com este maravilhoso disco, só que no recôndito de nossos lares. Ainda bem!

sábado, 21 de janeiro de 2012

Etta James (1938-2012)

A cantora norte-americana Etta James completaria 79 anos de idade em 25 de janeiro. Não deu tempo. Uma das grandes divas da música popular estadunidense do Século XX faleceu no dia 20.01.2012.

Etta James passeava com muita facilidade entre o soul, o jazz, o blues e o rhythm'n'blues. Sua linha era das cantoras de estilo mais vibrante e agressivo, diferenciando-se, sob esse aspecto, de algumas outras estrelas da música negra suas contemporâneas. Não por acaso o melhor de seu trabalho, nas décadas de 1960 e 1970, foi cometido para o selo Chess, celeiro dos trabalhos mais marcantes do blues de Chicago, ou produzido em Muscle Shoals, no Alabama, sob a batuta do produtor Rick Hall, cujos estúdios eram conhecidos pela mistura bem equilibrada de blues, rock e soul, não raro com alguma pitada de country.

A peculiaridade desse seu estilo - mais "sujo", por assim dizer - não era meramente casual, como sugere pequena história que vamos aqui ventilar. Não raro passa nalguma TV fechada aqueles famosos documentários, segmentados em capítulos, dedicados à história do Rock ou da música pop. Num dos episódios, justamente voltado à soul music e - salvo engano - com destaque às mulheres, a nossa Etta James revela jamais ter gostado das Supremes, de Diana Ross. Num gesto hilário, ela cantarola, num estilo sarcasticamente lânguido, o clássico "Baby Love", megahit do trio. Desse modo, sem conhecer Etta James, qualquer ouvinte já intuiria ser ela, naquele final dos anos 1960, na sua melhor fase, adepta do soul mais áspero, portanto mais próxima da linha da Stax/Volt do que da Motown.

Sintomaticamente, Etta influenciou cantoras de rock que bebiam muito da fonte do soul e do blues, dentre as quais Janis Joplin, Bonnie Raitt e Christine Perfect; vai lá, ouvem-se alguns ecos esparsos até mesmo em Amy Winehouse e Adele!

Abaixo, ouviremos trecho de gravação perpetrada em 24.08.1967, que faz parte do rol dos trabalhos feitos em Muscle Shoals. Trata-se de "Tell Mama", composição do soulman Clarence Carter, também gravada por Janis Joplin. Ouça Etta James, com nossas saudades.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Captain Beefheart (1941-2010)

Morreu Captain Beefheart em 17 de dezembro de 2010. Cantor e compositor, saxofonista e clarinetista, foi das figuras mais marcantes do que se convencionou chamar de rock experimental.

Sintomaticamente protegido por Frank Zappa, o velho Don Van Vliet - seu verdadeiro nome - desde o início apresentou a proposta de reinventar o rock através de certas desconstruções do blues e do jazz avant-garde, soando como se um Howlin' Wolf tocasse com arranjos de um Albert Ayler.

Pessoas mais gabaritadas consideram seu trabalho não muito marcado pela regularidade. Pode ser. De nossa parte, preferimos ficar, ao menos no dia de hoje, com os momentos mais sublimes de álbuns como Trout Mask Replica, de 1969, The Spotlight Kid e Clear Spot, ambos de 1972.

Abaixo, ouça a composição do próprio Beefheart "Moonlight on Vermont", de Trout Mask Replica, álbum produzido por Zappa. Nas imagens, a capa do clássico álbum de 1969 e uma foto de Don Van Vliet à época.

domingo, 29 de novembro de 2009

Showzão gratuito no Parque da Independência

A tarde do domingo, dia 29.11.2009, foi especial pela apresentação grátis de Dianne Reeves e Buddy Guy, no Parque da Independência, em São Paulo. Foi mais uma edição do Telefonica Open Jazz, evento patrocinado pela horrorosa empresa espanhola de telefonia, referência da "privataria" e símbolo de ineficiência. A empreitada contou também com o apoio da Prefeitura do Município de São Paulo, do Governo do Estado de São Paulo e do Governo Federal. Acho importante destacar a atuação dos três níveis de governo na organização do evento, já que poucos se lembram do quanto é fundamental a participação do Poder Público para a realização de shows de qualidade gratuitos como este dos dois grandes artistas estadunidenses.

A cantora Dianne Reeves subiu primeiro ao palco, com repertório que misturava o jazz na linha interpretada pelas grandes divas do gênero, devidamente misturado ao soul e ao rhythm'n'blues. Foi um belo show de abertura, do tipo que esquenta a platéia. Platéia para a qual ela voltaria a dar uma "canja" um pouco mais tarde, cantando "It Feels Like Rain", ao lado de Buddy Guy.

O lendário guitarrista, influência confessa de nada menos do que Jimi Hendrix e Eric Clapton, realizou uma apresentação absolutamente incendiária, fazendo a guitarra gritar, chorar, cantar... Tocou com a camisa, com os dentes, de costas... A lenda viva do blues cantou com propriedade temas de Muddy Waters ("I'm Your Hoochie Coochie Man", "She's Nineteen Years Old", "Got My Mojo Workin'"), de John Lee Hooker ("Boom Boom") e do soulman Bill Withers (Use Me); do próprio repertório, levou a galera ao delírio com "Damn Right, I've Got the Blues".

Destaques: em primeiro lugar, o comportamento sensacional do público, que não arredou o pé do local, mesmo com uma chuva torrencial de cerca de 30 minutos. Em segundo, a ousadia do velho guitarrista, que, quebrando o protocolo, desceu do palco, empunhando a sua guitarra, e foi tocar junto da platéia, sendo prontamente cercado pelos fãs, munidos de seus celulares e câmeras para registrar o inusitado episódio.

Lembra de que falamos de quão importante foi Buddy Guy para a formação artística de guitar heroes como Hendrix e Clapton? Pois bem. Para finalizar, o moço mandou ver num medley de versões instrumentais de "Voodoo Chile" e "Sunshine of Your Love". A molecada, que quase não gosta de hinos roqueiros - desnecessário dizer -, foi à loucura.

Guy sai ovacionado, enquanto a banda toca "I Go Crazy", clássico na voz de James Brown. Showzaço!

Arriscamo-nos a tirar algumas fotos; ficaram horríveis. Ainda assim, preparamos um pequeno clipe com elas. Vale pela trilha sonora que escolhemos: "First Time I Met the Blues", com Buddy Guy, composição de E. Montgomery, gravada em Chicago, para o selo Chess, no dia 02.03.1960. Veja logo abaixo.

domingo, 22 de novembro de 2009

Sonny Boy Williamson. Qual deles?

Não são raros os casos de artistas musicais que ostentam o mesmo nome. Raros, porém, são os casos em que isso chega a provocar muita confusão. Os bons ouvintes dificilmente se confundem, pois, a despeito do nome idêntico, um vem dos anos 1960, enquanto o outro pertence à década de 1980; se um provém da Nova Zelândia, o outro, da Argentina; se um é muito famoso, o outro é quase desconhecido. Um exemplo: no boom do rock nacional dos anos 1980, o crítico Kid Vinil liderou, no Brasil, um grupo chamado Magazine, o mesmo nome de uma banda inglesa importante da cena pós-punk. É difícil imaginar que algum incauto tenha levado para casa um disco do grupo paulistano quando queria, em realidade, ter adquirido uma bolacha da banda de Manchester.

Por outro lado, pode haver certo problema quando artistas homônimos pertencem ao mesmo gênero, são igualmente cantores e compositores e, ainda por cima, tocam, de maneira exímia, o mesmo instrumento. Foi o que ocorreu no mundo do blues com o(s) gaitista(s) Sonny Boy Williamson. Qual deles? Ora, os dois.

Os iniciados dão números a ambos, de modo a diferenciá-los: há o Sonny Boy Williamson I e o Sonny Boy Williamson II. O primeiro deles era mais jovem e morreu mais cedo. Seu nome verdadeiro é John Lee Williamson, nasceu em 1914 e faleceu em 1948. Apesar de ser o primeiro, é provavelmente o menos famoso. Quando você ouvir alguém falar de Sonny Boy Williamson, pura e simplesmente, é bem possível que esteja se referindo ao Sonny Boy II.

Alex Ford "Rice" Miller, o Sonny Boy Williamson II, nasceu em 1899 e morreu em 1965. Entrou no mundo da música já depois dos 40 anos, após, portanto, do seu homônimo mais jovem. Diferentemente do estilo folk do primeiro, este Sonny Boy é adepto do blues mais moderno, elétrico e urbano.

O primeiro dos gaitistas, como toda boa lenda do blues, teve suas músicas gravadas por blueseiros também legendários, como Junior Wells, Muddy Waters, Johnny Winter e outros; o segundo, até pelo seu punch mais roqueiro, foi homenageado por New York Dolls e Alman Brothers Band e chegou a gravar com os Animals e os Yardbirds.

No Brasil, há uma ótima coletânea de Sonny Boy Williamson I, lançada pela Sony-BMG, com o título Blue Bird Blues, destacando 24 gravações cometidas entre 1937 e 1947, além de belo encarte com texto, fotos e curiosidades.

Já de Sonny Boy Williamson II, com um pouco de sorte talvez ainda se encontre em sebos uma coletânea lançada na década de 1990 pela Movieplay chamada Don’t Start Me To Talkin’, com 20 faixas para o selo Chess no período 1955-1961. Vale a procura.

Ouçamos abaixo os dois Sonny Boy Williamson. Primeiramente, o John Lee Williamson, o "I", com “Good Morning, School Girl”, gravada no Leland Hotel, em Aurora, Illinois, no dia 5 de maio de 1937.
Em seguida, o Alex "Rice" Miller, o "II", com “Don’t Start Me To Talkin’”, gravação realizada em Chicago, no dia 12 de agosto de 1955.
As fotos que ilustram os clipes pertencem a Showtime Archives e a Michael Occhs Archives, respectivamente.


domingo, 10 de agosto de 2008

Buddy Guy & Junior Wells - Live in Montreux (1978)

A bem-sucedida parceria do guitarrista Buddy Guy e do gaitista Junior Wells nasceu ainda no final dos anos 1950, portanto antes de eles lançarem discos como dupla: Wells já participara de antigas gravações de Buddy Guy cometidas no selo Chess no ano de 1960, com especial destaque às gravações de “Ten Years Gone” e de “I Got a Strange Feeling”; o guitarrista, por seu turno, acompanhara o gaitista no álbum Hoodoo Man Blues, lançado pela Delmark em 1965.

Efetivamente como dupla, propiciaram um dos melhores álbuns de blues de todos os tempos, o indispensável Buddy Guy & Junior Wells Play the Blues, de 1972. Seis anos depois, fizeram esta bem entrosada apresentação em Montreux, a qual resultou num disco que mais parece uma homenagem aos seus ídolos, haja vista as interpretações de dois clássicos do gaitista Sonny Boy Williamsom (o II) e as releituras de temas dos guitarristas Magic Sam, Freddie King e Guitar Slim.

Sem dúvida que vale a conferida. Mas se o amigo leitor conseguir encontrar o disco de 1972 certamente ficará mais feliz!

domingo, 8 de junho de 2008

Adeus a Meirelles e a Bo Diddley

Mais um pouco de século XX foi embora na semana que findou: morreram o guitarrista norte-americano Bo Diddley e o saxofonista brasileiro João Teodoro Meirelles. O primeiro foi figura fundamental para a metamorfose do blues em rock nos anos 1950, exercendo grande influência em alguns de seus contemporâneos, como Elvis Presley e Buddy Holly, por exemplo. Nos anos 1960 e 70, seu estilo sincopado e razoavelmente percussivo arrebanhou mais seguidores, dentre os quais Rolling Stones e Dr. Feelgood. Muitas de suas músicas obtiveram notáveis regravações, por ora merecendo destaque “Who Do You Love”, com os Doors, “Mona”, com os Troggs, “Before You Accuse Me”, com o Creedence, “Oh Yeah” com The Shadows of Knight, entre outras. Ellas McDaniels (seu verdadeiro nome) morreu no último dia 2. Completaria 80 anos em dezembro.

J.T. Meirelles foi um dos nomes mais importantes do assim chamado samba-jazz. O gênero foi uma espécie de desdobramento dos caminhos abertos pela bossa nova rumo a uma leitura mais moderna da música brasileira. Saxofonista e flautista fantástico, o músico passou por São Paulo como integrante da orquestra de Sylvio Mazzuca. Mas foi na sua natal Rio de Janeiro que conseguiu escrever seu nome numa página um tanto esquecida da história da música brasileira. Meirelles participou de excelentes grupos instrumentais nos anos 1960, como o espetacular Os Cobras, de Tenório Jr., Raul de Souza e Milton Banana, e também na Turma do Bom Balanço, ao lado de outros importantes nomes do samba-jazz. O músico carioca também foi o responsável pelo arranjo de diversas canções do clássico Samba Esquema Novo, de Jorge Ben, inclusive do hit internacional “Mas Que Nada”. Como líder, o artista notabilizou-se com uma famosa orquestra que levava seu nome - especializada em fazer releituras de clássicos da música brasileira de todos os tempos – e, principalmente, com os Copa 5, grupo que nos seus dois indispensáveis álbuns gravados na primeira metade dos anos 1960 contou com gente como Dom Um Romão, Eumir Deodato, Waltel Branco, Roberto Menescal etc. Meirelles e os Copa 5 voltariam à cena musical já nos anos 2000 com nova formação, novo disco e shows. Mas o melhor tinha ficado há mais de quarenta anos. Meirelles morreu no Rio aos 67 anos, no dia 03 de junho.

Quem quiser ver os dois grandes artistas em ação, clique aqui e faça uma visita ao mezzo cool mezzo funk.