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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Ornette Coleman (1930-2015)

O mundo ficou menos criativo em junho de 2015. A frase, lugar-comum e piegas, decerto não seria aprovada pelo saxofonista (também trompetista e violinista) Ornette Coleman, morto por parada cardíaca no último dia 11 em Nova Iorque. O texano, nascido em 9-3-1930, era um símbolo da improvisação, da inquietude, das buscas e experiências. O subgênero chamado de Free Jazz, do qual ele sempre foi o maior expoente, adveio do título de um de seus mais importantes discos, gravado e lançado em 1960.

Duas curiosidades pessoais:

- Tive a oportunidade de cumprimentar Coleman pessoalmente em São Paulo, no ano de 2010. Na oportunidade, o gênio, já octogenário, após belíssima apresentação, autografou a capa do CD The Shape of Jazz to Come, um dos grandes discos de sempre. Como vocês veem na ilustração, ele errou a grafia do meu nome - mas... E daí?! Escrevemos sobre o assunto na época, conforme link: Ornette Coleman no Sesc Pinheiros.

- A postagem mais popular deste blog, com talvez três vezes mais visualizações do que a segunda colocada, foi um texto que escrevemos em 2009 para, então, comemorar os 50 anos do gênero Free Jazz. Lá, também pode-se ouvir uma faixa do supramencionado The Shape of Jazz to Come. Se quiser engrossar as estatísticas da postagem, segue o link: Free Jazz, 50 anos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sam Rivers (1923 - 2011)

No dia 26.12.2011, morreu em Orlando, na Flórida, o genial saxofonista e flautista Sam Rivers.

Nascido em 25.09.1923, diferentemente de outros importantes músicos de jazz, só foi lançar seus discos próprios depois dos 40 anos, em meados da década de 1960, após participar de grandes bandas de apoio, incluindo um dos quintetos de Miles Davis. E Rivers iniciou a carreira própria com dois petardos: Contours e Fuchsia Swing Song, ambos de 1965.

Entre idas e vindas, lançou diversos álbuns, geralmente na linha do chamado free jazz.

Falando em idas e vindas, colo abaixo resenha, em inglês bem tosco - pelo que pedimos desculpas -, especialmente escrita para o sítio RateYourMusic, acerca do álbum Dimensions & Extensions, gravado em 1967. Engavetado à época pelo selo Blue Note, as faixas do disco viriam a público em 1976, na compilação Involution. Já Dimensions & Extensions propriamente dito, tal como concebido originalmente, só apareceria no ano de 1986.

Sam Rivers - Dimensions & Extensions (1967 - lançado em 1986)

This album must have been issued in 1967, but contractual problems obstruct its release that year. Its songs remained unissued until 1976, when they appeared in album Involution.

In 1987, It was finally released as being conceived in second-half of 1960s. It's important mention Dimensions and Extensions gained that time, besides the title, the cover art and catalog number, according to information of Bob Blumenthal in his "a new look at", written in 2008 especially to RVG edition. Thus, the album from 1987 is the same that could have been issued in 1967.

Before taping the session of the album that would be this Dimensions and Extensions, Blue Note Records already had launched two great Sam Rivers albums: 1965's Fuchsia Swing Song and Contours. Dimensions and Extensions could have completed a kind of saga of this musician, representing something like a medium of those classics from 1965: the album recorded in 1967, entirely written by Rivers, brings the typical elements of hard bop (as Fuchsia) mixed to avant-garde (predominant in Contours).

Sam Rivers (tenor and soprano sax and flute in this album) is one of those artists that we always read the name in personnel lists of great jazz albums. It's very satisfying listen to him here as a jazz leader. There's no doubt he deserves to be in the pantheon of the most important figures of jazz history.


Ouça, de Dimensions & Extensions, trecho da faixa "Helix", composição do próprio Sam Rivers (tenor e soprano sax e flauta), gravada em 17.03.1967, numa sessão integrada também por Donald Byrd (trompete), Julian Priester (trombone), James Spaulding (sax alto e flauta), Cecil McBee (baixo) e Steve Ellington (bateria). Na ilustração, a capa de Dimensions & Extensions, que, aliás, é a original que já havia sido escolhida para o frustrado lançamento em 1967.

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sábado, 4 de junho de 2011

Archie Shepp no Sesc Pompeia - São Paulo

O espetáculo do último dia 29.05 foi inegavelmente um excelente show de jazz. Mas, paradoxalmente, não é certo que foi uma grande apresentação de Archie Shepp.

Explicando: figura importante da vanguarda dos anos 1960, o - principalmente - saxofonista Archie Shepp tocou numa linha supernormal no evento que fez parte do "Jazz na Fábrica", projeto que marcou o mês na unidade Pompeia da famosa entidade classista.

Shepp mandou ver em standards do quilate de "Don't Get Around Much Anymore", por exemplo, e além de seu sax marcante, soltou o vozeirão em diversos momentos do show: revelou-se grande cantor de blues, na linha dos velhos shouters das décadas de 1940 e 1950. Tal faceta - confessemos - foi uma grande surpresa para este escriba.

Abaixo, ouviremos a canção de abertura do espetáculo, uma espécie de meio-termo entre a vanguarda dos 1960 e a linha mais mainstream que foi a tônica do show. A música, composição do próprio Shepp, se chama "U-Jamaa", tendo ao fundo detalhe da capa do disco Mama Too Tight, de 1966. Favor não reparar na péssima qualidade do áudio!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Captain Beefheart (1941-2010)

Morreu Captain Beefheart em 17 de dezembro de 2010. Cantor e compositor, saxofonista e clarinetista, foi das figuras mais marcantes do que se convencionou chamar de rock experimental.

Sintomaticamente protegido por Frank Zappa, o velho Don Van Vliet - seu verdadeiro nome - desde o início apresentou a proposta de reinventar o rock através de certas desconstruções do blues e do jazz avant-garde, soando como se um Howlin' Wolf tocasse com arranjos de um Albert Ayler.

Pessoas mais gabaritadas consideram seu trabalho não muito marcado pela regularidade. Pode ser. De nossa parte, preferimos ficar, ao menos no dia de hoje, com os momentos mais sublimes de álbuns como Trout Mask Replica, de 1969, The Spotlight Kid e Clear Spot, ambos de 1972.

Abaixo, ouça a composição do próprio Beefheart "Moonlight on Vermont", de Trout Mask Replica, álbum produzido por Zappa. Nas imagens, a capa do clássico álbum de 1969 e uma foto de Don Van Vliet à época.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ornette Coleman no SESC Pinheiros

Além de Paul McCartney e Lou Reed, outra lenda da música do século XX a pisar nos palcos paulistanos em novembro foi o revolucionário Ornette Coleman, saxofonista considerado o pai do gênero conhecido como free jazz.

A despeito de ser um artista associado à vanguarda jazzística, sua apresentação no SESC Pinheiros não foi necessariamente marcada por grandes improvisações ou pelos arroubos de nonsense tão comuns ao movimento, antes optando por interpretações competentes mas contidas, num quase hard bop, por assim dizer. Tanto foi assim que foram raras as vezes em que Ornette Coleman se arriscou no trompete ou no violino, instrumentos que toca de forma extremamente particular, geralmente de modo a causar estranhamento nos ouvintes.

Ainda que tudo tenha corrido dentro de uma normalidade que, em princípio, não seria de se esperar de artista tão inquieto, situações inusitadas ocorreram no show da noite de 28.11.2010. A primeira delas decorre de um infortúnio: durante execução da canção "Peace", ocorre falta de energia, causando grande apreensão na platéia. De repente, apenas com as luzes de emergência funcionando, os músicos começam a tocar, de forma desplugada, a atemporal "Lonely Woman", para delírio do público. Como se não bastasse, apagam-se também as luzes de emergência e, sob o breu total, a galera vai à loucura, aparentemente entendendo que o clássico de 1959 cai muito bem naquelas condições.

Outra grande surpresa foi quando, ao final absoluto, ou seja, depois do bis, o músico dirigiu-se ao público e começou a cumprimentar alguns espectadores da primeira fila. Todos que estavam mais atrás correram até a beira do palco e foram conversar com o mestre. O genial Ornette Coleman, que havia tratado com frieza jornalistas da grande imprensa brasileira, foi paciente e simpático com os fãs, distribuindo cumprimento e autógrafos, além de se deixar filmar e fotografar e até mesmo posar para fotos ao lado de alguns mais atirados.

E minha intuição funcionou parcialmente naquela noite. Se, por um lado, falhei feio em não levar máquina fotográfica para o evento, por outro lado, acertei em cheio em ir munido da capinha do CD de The Shape of Jazz to Come, um dos melhores discos de todos os tempos. Foi o primeiro dos muitos autógrafos que Ornette Coleman distribuiu naquela noite. Ele grafou meu nome errado na capinha; mas quem se importa?

Abaixo, um pequeno vídeo com a capa do CD autografada pelo veterano artista, com fundo musical da gravação do áudio da sequência acima descrita, com a interpretação de "Peace", a queda de energia, e a retomada com "Lonely Woman". Tudo obra de Coleman, exceto o probleminha técnico!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Pharoah Sanders em São Paulo

Com um pouco de atraso, comento o show de Pharoah Sanders no Sesc Pinheiros, em São Paulo, no dia 22 de agosto de 2010.

Um dos nomes mais importantes da história do jazz, o saxofonista estadunidense apresentou-se acompanhado de um excelente time, formado por figuras respeitáveis como o seu conterrâneo Rob Mazurek e Maurício Takara.

A exemplo de outros jazzistas fundamentais que têm se apresentado em São Paulo nos últimos anos, a figura de Sanders também se mostrava um pouco debilitada pela idade, fazendo duvidar, de cara, da qualidade da performance que viria. Qual nada! Com todo o respeito, o velhinho manda bem demais! Com grande fôlego e com o timbre que faz lembrar seus discos do final dos anos 1960 e início dos 1970.

O mais legal de tudo foram os arroubos free aos finais de peças um tanto "orientais", místicas, contemplativas. Em suma, o show foi mesmo a cara dos melhores discos de Pharoah Sanders.

Para quem quer conhecer um pouco de Pharoah Sanders, abaixo temos uma faixa do LP Karma, lançado pela Impulse! em 1969, destacando o baixo de Ron Carter e os vocais de inflexão soul de Leon Thomas. A canção chama-se "Colors" e tem autoria de Sanders e Thomas.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ron Carter - Teatro do Sesi - São Paulo - 02.06.2010

Não é de se estranhar que os fãs de jazz - mesmo aqueles que se prezem - não tenham nenhum disco solo de Ron Carter na coleção. Por outro lado, é praticamente inconcebível que os apreciadores do gênero americano - inclusive os mais desprezíveis entre eles - não possuam pelo menos uma meia dúzia de álbuns com participação do famoso contrabaixista.

Com efeito, Carter sempre aparece nas contracapas de alguns dos melhores discos de jazz da história, tocando com endeusados do calibre de um Wayne Shorter ou com subestimados como Eddie Harris.

Nesta apresentação no Sesi, num formato de trio, Carter foi acompanhado por piano e pela guitarra do respeitado Russell Malone. Como não poderia deixar de ser, o contrabaixista foi a grande figura de noite, fazendo um show em que o seu instrumento dominava os arranjos, lavando a alma daqueles que a vida toda foram obrigados a se contentar com os tímidos solos de baixo que costumam aparecer nos discos.

Ouça abaixo Ron Carter mostrando que também se sai muito bem tocando cello. A faixa é "The Baron", do álbum do Out There, do mestre avant-garde Eric Dolphy, gravada em 15.08.1960. O vanguardista é o próprio autor da canção.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Free Jazz, 50 anos

Neste fim de 2009, a Folha On Line destacou, oportunamente, os 50 anos do movimento musical chamado Free Jazz. Houve, todavia, uma pequena gafe: a chamada na página principal falava nos “50 anos do ‘Festival’ Free Jazz”! O jovem responsável pelas manchetes certamente pensou que a comemoração se referia ao famoso festival jazzístico realizado nos anos 1980 e 1990, no Rio e em São Paulo, e não no radical subgênero do jazz. Como consolo, vale recordar a história – não sei se verdadeira – de que o gênio Ornette Coleman, convidado a participar de uma edição do Free Jazz Festival na década de 1990, empolgou-se com o que ele pensou tratar-se de um encontro inteirinho dedicado ao gênero “free jazz”, realizado no Brasil. Até que contaram para ele acerca da famosa marca de cigarros, patrocinadora do evento!

Acertadamente, o sítio da Folha viu o ano de 1959 como fundamental para o estilo free jazz, ainda que muitos enxerguem o alicerce do gênero nalgumas interpretações atonais de Lennie Tristano, na passagem dos 1940 para os 1950. Em verdade, 1959 não foi importante somente para o free jazz, foi um ano singular para o jazz de maneira geral: ano de lançamento de Giant Steps, de John Coltrane, Kind of Blue, de Miles Davis, Mingus Ah Um, de Charlie Mingus, Time Out, de Dave Brubeck, entre outros. No caso específico do free jazz, é digna de atenção a proficuidade criativa, naquele ano, do nosso já mencionado Ornette Coleman.

Após um disco relativamente “normal” pela Contemporary, Something Else!!!!(1958), Coleman lançou, no ano seguinte, outro álbum pela gravadora, ainda no mesmo caminho, mas radicalizando nos “gritos”, "risadas" e “choros” de seu saxofone: Tomorrow is the Question. Ainda no ano de 1959, entraria duas vezes em estúdios de Hollywood, com o fim de gravar, para o selo Atlantic, as sessões que resultariam nos álbuns The Shape of Jazz to Come, lançado no mesmo ano, e Change of the Century, editado no ano seguinte. Sob essa ótica, tem-se, com efeito, que as pedras incontroversamente fundamentais do que viria a ser chamado de free jazz foram realmente assentadas há 50 anos.

Todo o atonalismo, as incontidas improvisações, a radicalização dos ensinamentos de Charlie Parker e, claro, a pura liberdade no ato de executar ganhariam timbres bem mais acentuados nos discos que seriam lançados nos anos 1960, dentre eles exatamente o famoso Free Jazz, álbum que intitularia o gênero que ora homenageamos. A capa de Free Jazz já chamava a atenção com o belo quadro “White Light”, de Jackson Pollock. Talvez esteja aí parte do que nos permite entender um pouco do processo criativo de Coleman àquela época. Veja o que ele diz acerca de suas canções, conforme contado a Gary Kramer, em texto da contracapa do disco Change of the Century:

(...). Uma é completamente diferente da outra, mas, de certa forma, não há começo nem fim para cada uma de minhas composições. Há uma continuidade de expressão, fios de pensamento que amarram todas as minhas canções. Talvez seja algo como as pinturas de Jackson Pollock.

Não se deve negligenciar parte do aspecto político, que contrapunha o novo jazz, realizado sob os auspícios dos caminhos abertos por Parker, ao jazz mainstream, já abraçado pelos brancos, já devidamente abraçado ao gosto dito elitista, afastado de suas origens negras. Entretanto, Coleman mirava a reinvenção e o progresso no jazz, percebendo que mesmo a revolução capitaneada por Charlie Parker poderia, dependendo do que se fizesse com ela, ter um efeito conservador. Na mesma contracapa de Change of the Century, Gary Kramer reproduz as palavras de Ornette Coleman, acerca da faixa sintomaticamente denominada “Bird Food”:

“Bird Food” tem ecos do estilo de Charlie Parker. Bird [alcunha de Parker] nos teria compreendido. Ele teria aprovado nossa aspiração a algo além do que ele nos legou. Estranhamente, no entanto, a idolatria acerca de Bird, com as pessoas querendo tocar exatamente como ele, e não fazer sua própria busca interior, tem, definitivamente, sido um impedimento para o progresso no jazz.

Impossível não pensar em Karl Marx. A revolução não pode ser um fim em si mesma. As contradições continuam existindo, e o progresso é sempre possível e necessário. Coleman realmente acreditava nisso, tanto que, inquietamente, continuaria radicalizando, ora com a formação de quartetos duplos, ora tocando violino de forma sui generis, outrora com a formação dos grupos harmolódicos.

Além de Ornette Coleman, contribuíram para a revolução representada pelo free jazz nomes como John Coltrane, Don Cherry, Albert Ayler, Archie Shepp, Sunny Murray, Cecil Taylor, Art Ensemble of Chicago, Eric Dolphy, Charlie Haden, Peter Brötzmann, Roscoe Mitchell etc. A história e as motivações do gênero são muitíssimo interessantes; mas o melhor de tudo é ouvir!

Ouça abaixo a beleza atemporal do free jazz, em dois importantes momentos de sua história: do que se pode chamar de primeiros passos do gênero, ouviremos o saxofonista Ornette Coleman, acompanhado pelo trompetista Don Cherry, pelo baixista Charlie Haden e pelo baterista Billy Higgins, interpretando a faixa “Eventually”, do álbum The Shape of Jazz to Come, gravação realizada em 22.05.1959.
Na sequência, ouviremos o também saxofonista Albert Ayler, do álbum Spirits Rejoice (1966), gravação de 23.09.1965, tocando "Prophet", com destaque para a bateria de Sunny Murray e ao duo de contrabaixistas Henry Grimes e Gary Peacock.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Miles Davis - Bags' Groove (1957)

Seria uma espécie de sacanagem comigo mesmo deixar de ter este disco em minha humilde coleção. Nos últimos tempos, adquiri vários trabalhos de Miles, aproveitando os preços baixíssimos de alguns CDs da fase da Columbia, especialmente dos álbuns ao vivo dos anos 1960, além de petardos de estúdio, como o clássico 'Round Midnight, de 1957, e o subestimado Seven Steps to Heaven, de 1963. Lançado pela Prestige Records em 1957, Bags' Groove supera todos os discos mencionados; só perde feio mesmo para os lançamentos da fase jazz-rock, como In a Silent Way, Tribute to Jack Johnson e Bitches Brew, também obtidos a preços módicos nos últimos cinco ou seis anos.

Em gravações originais de 1954, Bags' Groove apresenta Miles acompanhado do grupo imodestamente chamado The Modern Jazz Giants, que incluía gente como Sonny Rollins, Milt Jackson e Horace Silver, todos bem jovens e ainda não consagrados nas respectivas carreiras. Rollins é compositor de três canções, que deveriam ser apresentadas aos que se iniciam no mundo do jazz, pois acessíveis de algum modo, em virtude de seus temas principais memoráveis e pontes bem construídas, constituindo-se um perfeito cartão de visitas aos "neófitos".

Devo dizer que, apesar de tudo, não estive de todo órfão durante esses anos todos: na coletânea dupla Tallest Trees, lançada em 1972, a qual já possuíamos de longa data, este Bags' Groove se fazia presente praticamente na íntegra. Foi lá que aprendemos a dele gostar. De qualquer forma, é sempre bacana ter o álbum original e, neste caso, conforme já expusemos, era uma espécie de dívida pessoal.

Ouça Miles Davis and The Modern Jazz Giants interpretando "Doxy", de Sonny Rollins, gravada em Hackensack, New Jersey, em 29 de junho de 1954.

domingo, 29 de novembro de 2009

Showzão gratuito no Parque da Independência

A tarde do domingo, dia 29.11.2009, foi especial pela apresentação grátis de Dianne Reeves e Buddy Guy, no Parque da Independência, em São Paulo. Foi mais uma edição do Telefonica Open Jazz, evento patrocinado pela horrorosa empresa espanhola de telefonia, referência da "privataria" e símbolo de ineficiência. A empreitada contou também com o apoio da Prefeitura do Município de São Paulo, do Governo do Estado de São Paulo e do Governo Federal. Acho importante destacar a atuação dos três níveis de governo na organização do evento, já que poucos se lembram do quanto é fundamental a participação do Poder Público para a realização de shows de qualidade gratuitos como este dos dois grandes artistas estadunidenses.

A cantora Dianne Reeves subiu primeiro ao palco, com repertório que misturava o jazz na linha interpretada pelas grandes divas do gênero, devidamente misturado ao soul e ao rhythm'n'blues. Foi um belo show de abertura, do tipo que esquenta a platéia. Platéia para a qual ela voltaria a dar uma "canja" um pouco mais tarde, cantando "It Feels Like Rain", ao lado de Buddy Guy.

O lendário guitarrista, influência confessa de nada menos do que Jimi Hendrix e Eric Clapton, realizou uma apresentação absolutamente incendiária, fazendo a guitarra gritar, chorar, cantar... Tocou com a camisa, com os dentes, de costas... A lenda viva do blues cantou com propriedade temas de Muddy Waters ("I'm Your Hoochie Coochie Man", "She's Nineteen Years Old", "Got My Mojo Workin'"), de John Lee Hooker ("Boom Boom") e do soulman Bill Withers (Use Me); do próprio repertório, levou a galera ao delírio com "Damn Right, I've Got the Blues".

Destaques: em primeiro lugar, o comportamento sensacional do público, que não arredou o pé do local, mesmo com uma chuva torrencial de cerca de 30 minutos. Em segundo, a ousadia do velho guitarrista, que, quebrando o protocolo, desceu do palco, empunhando a sua guitarra, e foi tocar junto da platéia, sendo prontamente cercado pelos fãs, munidos de seus celulares e câmeras para registrar o inusitado episódio.

Lembra de que falamos de quão importante foi Buddy Guy para a formação artística de guitar heroes como Hendrix e Clapton? Pois bem. Para finalizar, o moço mandou ver num medley de versões instrumentais de "Voodoo Chile" e "Sunshine of Your Love". A molecada, que quase não gosta de hinos roqueiros - desnecessário dizer -, foi à loucura.

Guy sai ovacionado, enquanto a banda toca "I Go Crazy", clássico na voz de James Brown. Showzaço!

Arriscamo-nos a tirar algumas fotos; ficaram horríveis. Ainda assim, preparamos um pequeno clipe com elas. Vale pela trilha sonora que escolhemos: "First Time I Met the Blues", com Buddy Guy, composição de E. Montgomery, gravada em Chicago, para o selo Chess, no dia 02.03.1960. Veja logo abaixo.

sábado, 1 de agosto de 2009

Duke Ellington & John Coltrane (1962)

No começo dos anos 1990, Jô Soares não era uma figura de todo insuportável. Apresentava um simpático programa de entrevistas no SBT, com a vantagem de ser ele um pouco menos afetado e, principalmente, por não abrir espaço para “meninas” tagarelas falarem bobagem.

Ele apresentava também um programa de jazz no rádio. Só apresentava mesmo. A produção e o texto ficavam a cargo de outra pessoa, mas o nosso Jô, vaidoso e cara-de-pau que só ele, não nos avisava, de modo que muitos pensavam que todo o conhecimento e o bom gosto jazzístico provinham dele mesmo!

Foi no programa radiofônico apresentado por ele que ouvi pela primeira vez, na íntegra, este importantíssimo Duke Ellington & John Coltrane. Ele havia sido lançado no Brasil à época, tanto no formato LP quanto em CD, mas sumiu das prateleiras rapidinho. O autor destas maldigitadas, portanto, vivia desde então uma longa e dolorosa espera, haja vista que não o encontrava nos sebos, tampouco conseguia pagar os preços proibitivos dos importados - isso quando aparecia...

Mas, final e felizmente, a lacuna foi preenchida! Consegui achar o CD, numa bela edição, por preço não tão extorsivo. Não quis arriscar de não levar. Vai que a gangue da FIESP, auxiliada pela mídia sem assunto, consegue pressionar o frouxo governo brasileiro, a ponto de obrigá-lo a intervir no câmbio, encarecendo, da noite para o dia, esses nossos pequenos objetos do desejo!

Exatamente no dia 17 de setembro de 1962, Duke Ellington havia participado das sessões que originariam o absolutamente clássico Money Jungle, para o selo Blue Note, ao lado da perfeita cozinha de Charlie Mingus e Max Roach. Decerto o leitor já está acostumado com nossa falta de imaginação, expressa pelo abuso de clichês; sentimos muito, mas vai mais um: aquele foi o típico encontro de mestre e discípulos. Ellington já estava, a bem dizer, na sua quarta década jazzística, mas aceitava humildemente a companhia de músicos que, embora experientes, estavam em pleno auge criativo, fazendo história no gênero. O encontro do velho e do novo (mais chavão!) proporcionou um disco denso, tradicional e vanguadista a um só tempo, ademais com um toque levemente erudito.

A menção à experiência de Money Jungle se justifica porque ela antecipa, em apenas nove dias, novo encontro genial de duas gerações. Desta feita para o selo Impulse!, o maestro se encontra com a grande sensação da época, o já cultuado John Coltrane. Mas não se trata somente de Coltrane; em verdade, Ellington, em pelo menos três faixas, se junta ao grupo do saxofonista, à época formado pelo baixista Jimmy Garrison e o baterista Elvin Jones. Na prática, é como se Coltrane fosse gravar um disco próprio, substituindo o pianista McCoy Tyner por ninguém menos que Duke Ellington. Apesar da genialidade do quarteto que deu ao mundo discos como A Love Supreme, penso que ninguém reclamaria de uma troca dessas!

Além do baixista e do baterista de Coltrane, revezam-se nas faixas o baixista Aaron Bell e o baterista Sam Woodyard, na competente produção de Bob Thiele. A propósito, muitos dos responsáveis pelas sessões de jazz, especialmente nos anos 1950 e 1960, mereceriam, em alguns casos, dividir os créditos com os artistas cujos discos produzem, tamanha a influência que têm no desenho dos álbuns.

Dentre as inúmeras qualidades do disco, há uma que não pode deixar de ser mencionada – e que se dane se ela for outro clichê! Trata-se da aparente tentativa empreendida por John Coltrane de ficar à sombra de Duke Ellington. Desnecessário dizer que o saxofonista não consegue! Isso fica muito latente na beleza atemporal do standard “In a Sentimental Mood”, quando o sopro de Coltrane tenta ser contido, mas parece se sentir convidado a “perder as estribeiras”, graças ao toque moderno, arrojado de Duke Ellington, semelhante, no mais, ao modo de tocar presente no citado Money Jungle. Mas não precisava mesmo de tanta reverência, afinal Ellington sabia com quem estava lidando. O maestro honrou o companheiro de disco com a exuberante “Take the Coltrane”, homenagem que é um belo trocadilho com a famosa “Take the A-Train”, tema clássico do repertório de Ellington, escrito por Billy Strayhorn, compositor que, aliás, aparece no disco com “My Little Brown Book”.

Por conta da coesão e da mistura perfeita de simplicidade e arrojo, talvez seja o caso de dizer que este é mais um dos – muitos – discos que podem servir para aqueles que querem se iniciar no maravilhoso – e não tão difícil como dizem – mundo do jazz. Desejo que sua espera seja menor e menos amarga do que a minha.


Ouça "Take the Coltrane", composta por Ellington. Além dos dois gênios da música do século XX, temos, na faixa, o baixista Jimmy Garrison e o baterista Elvin Jones. A gravação é de 26 de setembro de 1962. As fotos são de Bob Guiraldini.

sábado, 16 de maio de 2009

Jackie McLean - Demon's Dance (1970)

Lançado em 1970, Demon’s Dance foi em realidade gravado em 1967. Neste ano, McLean já havia dividido uma sessão com o “trompetista” (com todas as aspas do mundo!) Ornette Coleman, que resultou no ótimo New and Old Gospel, álbum que contou com o baixo de Scott Holt e o piano de Lamont Johnson.

O pianista e o baixista foram mantidos em Demon’s Dance. A eles se juntaram o trompetista (agora sem quaisquer aspas!) Woody Shaw e o baterista Jack DeJohnette. O disco segue a trilha do hard bop, paradoxalmente soando algo menos radical do que, por exemplo, Destination Out, lançado em 1963. Tenho para mim que seria de se esperar arroubos mais vanguardistas do trabalho cometido no emblemático ano de 1967 e, ainda por cima, lançado já no limiar dos “loucos” anos 1970. Mas, dentro da normalidade possível, Demon’s Dance é outro dos grandes acertos de um dos maiores saxofonistas da História.


Ouça abaixo a faixa-título do álbum, composta pelo próprio McLean. Nas imagens, temos a reprodução da capa do disco, desenhada por Bob Vanosa, e foto do saxofonista pertencente à coleção de Francis Wolff, também produtor da bolacha.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Dois discos, duas críticas

The Persuaders - Thin Line Between Love and Hate (1971)


Discos como este nos fazem entender a importância que o velho e bom compacto teve especialmente nas décadas de 1960 e 1970, e notadamente na soul music. A faixa-título, single de grande vendagem em 1971, vale cada centavo pago no elepê. Pode-se dizer, portanto, que, se em vez do “bolachão”, o discófilo encontrar apenas o “7 polegadas”, pode pegar, ainda que o preço lhe pareça salgado para apenas duas músicas.

E não pense que no geral seja um disco ruim. Ao contrário, no todo é bastante respeitável. Mas “Thin Line Between Love and Hate”, a canção, está muito acima dos demais temas do álbum e - talvez não seja exagero dizer - merece estar no panteão das melhores canções pop de todos os tempos. Tema inspirado, a música teve boa releitura dos Pretenders no álbum Middle of the Road e uma horrível, absolutamente esquecível, de Annie Lennox.

A soul music, no mais, está cheia de exemplos assim, ou seja, artistas com algum número absolutamente transcendental em meio a trabalhos que, embora dignos, são desprovidos de brilho mais duradouro. Pode-se citar de sopetão Brenton Wood e a sua acachapante “Gimme Little Sign”, Deon Jackson e a notável “Love Makes the World Go Round” e, por fim, a belíssima “What Does it Take (To Win Your Love for Me)”, de Jr. Walker & All Stars.




Jimmy Smith - The Sermon! (1959)

The Sermon!, do organista Jimmy Smith, foi concebido para o formato de LP mesmo, com suas longas três faixas que perfazem um total de mais de quarenta minutos de jazz num estilo bluesy. Chamá-lo de disco conceitual seria um tanto anacrônico, mas é assim que ele soa, com sua coesão e regramento na maneira de se improvisar e solar. Atenção: regra aqui não significa limite, mas, sim, o modo que os temas se desenvolvem. Afinal, trata-se de um “sermão”, e dessa maneira precisa soar, já diz o radialista Daniel Daibem, como se se estivesse discursando, ou contando uma história, enfim, dizendo algo.

E os “pregadores” presentes aqui matam de inveja qualquer instituição religiosa que se imagine, com destaque ao subestimado saxofonista Tina Brooks e ao guitarrista Kenny Burrell.

Aos interessados, outros discos irretocavelmente coesos de Jimmy Smith: The Cat (1964) e Monster (1965), pelo menos.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Sérgio Mendes & Bossa Rio - Você Ainda Não Ouviu Nada! (1964)

Tem-se aqui um Sérgio Mendes que ainda não merece ser catalogado como easy listening, antes merecendo com toda a pompa a categorização de samba-jazz – e mais jazzy do que samba, diga-se.

Com perdão do trocadilho para lá de infame, mas quem dá o “tom” do disco é o maestro Jobim: ele assina alguns dos arranjos e tem cinco clássicos do seu repertório interpretados por Sérgio Mendes e uma turminha que contava com nomes como Raul de Souza, Edison Machado e Hector Costita.

Como já foi dito alhures acerca dos grupos de samba-jazz ou bossa instrumental, é um tanto maçante a mania que eles tinham de sempre gravar as mesmas músicas. É certo que só dizemos isso sob o olhar privilegiado do tempo – talvez na época fosse divertido ficar comparando e avaliando quem melhor interpretava “Garota de Ipanema”, por exemplo. Mas a verdade é que o melhor deste álbum de 1964 está justamente no que foge do lugar-comum: há duas composições de Moacir Santos (apesar de que uma delas é a famigerada Nanã, regravada ad nauseam, mas não por acaso aqui numa de suas mais perfeitas versões), há duas maravilhas da própria pena de Mendes (com destaque para a excepcional “Primitivo”), e encerra o disco uma composição de J.T. Meirelles, a emblemática “Neurótico”. Essa metade é boa demais para nos deixar abater com a possível irritação advinda dos primeiros acordes reconhecíveis de uma manjada “Corcovado”, por exemplo.

Mas não gostaria que o leitor pensasse que as canções de Antonio Carlos Jobim presentes no disco não sejam dignas de apreço. Longe disso! Estão ótimas sob belos arranjos (bem jazzísticos, reforcemos) e tocadas com garra. Mas é que os meus (poucos) neurônios se sentem mais agradavelmente atingidos pela estranheza de uma “Coisa nº 2”, de Moacir, ou pela modernidade sambista de “Nôa Nôa”, do próprio Sérgio. Só isso.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Don Cherry - Symphony for Improvisers (1967)

O improviso é uma das principais características do jazz em geral – e é da essência do free jazz em particular. O trompetista Don Cherry está entre os principais artífices do gênero, tendo tocado ao lado de Coltrane, Ayler e, principalmente, Ornette Coleman.

Neste álbum, o músico chama um time multinacional, com um argentino (o famoso Gato Barbieri), um alemão e um francês; dentre os americanos, músicos já tarimbados da vanguarda jazzística: Pharoah Sanders (sax, piccolo) , Henry Grimes (baixo) e Ed Blackwell (bateria). Sanders traz um toque de lirismo ao non-sense predominante nas duas suítes que integram o disco, qualidade que surgiria esmerada no seu próprio Karma, lançado dois anos depois. Blackwell aparece incansável na sua batida rápida e marcante, fazendo-nos querer ouvir novamente os discos de Ornette Coleman de que participa.

As duas faixas que compõem o disco são divididas em quatro partes. Há coesão na composição, mas suas subdivisões são devidamente nuançadas, de modo que poderiam bem sobreviver como canções à parte. Acho que Cherry não se reviraria no túmulo se soubesse que algum ouvinte preferiu meter o dedo no “avança rápido” para se fixar num trecho que considere mais apetecível de qualquer das peças. É do gosto do freguês, portanto!

sábado, 13 de dezembro de 2008

Bobby Hutcherson - Dialogue (1965)

Mesmo as boas coleções de jazz podem parecer incompletas. É o caso daquelas que não contam com ao menos um disco de Bobby Hutcherson como líder. De todo modo, dificilmente haverá um bom colecionador que possa dizer que em sua discoteca não há a presença do sensacional vibrafonista. Com efeito, ele sempre aparece como membro de bandas de gente como Donald Byrd, Archie Shepp e Jackie McLean. (Sintomaticamente, em 2007 o músico esteve no Brasil não como artista principal, mas como integrante do grupo do organista Joey DeFrancesco).

Em Dialogue, foi a vez de Hutcherson receber o apoio de grandes nomes do jazz, com especial destaque ao pianista Andrew Hill, autor da maioria das canções do álbum. Hill, talvez em homenagem à versatilidade do festejado vibrafonista, compôs belas faixas que passam pela latinidade, pelo blues e pelo free. Ah! O grupo conta também com Freddie Hubbard e Sam Rivers. O último, por sinal, também freqüenta os melhores acervos geralmente não como líder, mas como integrante de vigorosas bandas de apoio. Trata-se de injustiça que também merece ser reparada quando possível.

sábado, 25 de outubro de 2008

Sonny Rollins no Ibirapuera

Uma apresentação gratuita de Sonny Rollins no aprazível Parque do Ibirapuera sem dúvida que era programa imperdível.

Não consigo ir ao Parque sem me estarrecer com o disparate que é chegar a ele a pé. É um rematado absurdo que uma das principais áreas de lazer de São Paulo, de alta (e rara) concentração de verde, própria para caminhadas e “bicicletadas”, imponha tão inacreditáveis óbices para os pedestres. De qualquer modo, não deixa de ser didático: isto talvez explique por que a classe média paulistana tem tanta ira de políticos que priorizam o transporte coletivo. Qualquer homem público ajuizado vai sempre facilitar a vida dos que andam de carro, mesmo que seja num lugar onde o tráfego deveria até ser proibido.

Além do excesso de veículos que não me deixavam atravessar a rua, talvez sol e o calor de mais de 30 graus também tenham contribuído para aumentar meu mau humor. Mas havia a certeza de que ele se dissiparia com o show do lendário saxofonista. Dito e feito, o artista, quase octogenário, já apresentando dificuldades de locomoção, mostrou que não há idade para quem lida com a música. Tudo bem, eu sei, é um clichê. Pois bem, aí vai mais um: Rollins, apesar da idade avançada, tocou como um garoto, acompanhado por uma banda competente. E vale dizer que o músico não se escondeu atrás do grupo. Ao contrário, o grande saxofonista solou incansavelmente quase o tempo inteiro e fazia intervenções quando das sessões dos demais músicos.

Pontos altos: a balada “In a Sentimental Mood”, pela força de seu contraste em relação à predominância do hard bop na apresentação; o outro foi a passagem de som alguns minutos antes do show: o pouco público que lá se encontrava vibrou bastante com o ensaio dos músicos, inclusive do próprio Rollins, o que já teria valido a pena para quem, por algum motivo, precisasse ir embora antes do concerto.

Espero que você, leitor, tenha sido um dos privilegiados presentes no Ibirapuera, na manhã de 25 de outubro de 2008.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Art Ensemble of Chicago

Grupo pelo qual passou pelo menos meia dúzia de artistas fundamentais do free jazz, o Art Ensemble of Chicago apresentou-se em São Paulo reduzido a um quarteto. De seus integrantes históricos, estavam somente o saxofonista Roscoe Mitchell e o baterista Famoudou Don Moye.

Dando razão à máxima que afirma ser necessário o domínio das regras antes de romper com elas, a banda demonstrou, no final de um show repleto do non-sense tipicamente vanguardista, que também tem pleno controle dos elementos mais clássicos, tradicionais e/ou palatáveis do jazz: os dois últimos números ficaram no meio do caminho do bebop e do hard bop e, no bis, o quarteto quase levou a platéia a chacoalhar num extraordinário avant-funk.

A performance dos estadunidenses fez parte da Mostra SESC de Artes, que segue até o dia 18 de outubro.

sábado, 4 de outubro de 2008

Jazz em outubro


No mês de outubro, a cidade de São Paulo contará com pelo menos duas atrações imperdíveis para os fãs de jazz: o grupo Art Ensemble of Chicago, dias 10, 11 e 12 no SESC Vila Mariana, e o saxofonista Sonny Rollins, dia 21 no Auditório Ibirapuera e dia 25 do lado externo da casa. A segunda apresentação é gratuita!

Que não se pense, porém, que o jazzófilo tenha que assistir às apresentações dos dois nomes. Não há dúvida que há diferenças abissais entre os artistas: Rollins está ligado aos caracteres mais, digamos, normais do jazz, tendo passeado pelo bebop, hard-bop e cool jazz, especialmente em carreira solo, mas também ao lado de mestres como Thelonious Monk e Miles Davis. Já o Art Ensemble of Chicago, grupo surgido nos anos 1960, é devoto da mais radical vanguarda jazzística mesclada com a ancestralidade africana do gênero, numa paradoxal mistura de passado e futuro. É perfeitamente compreensível, portanto, que haja aqueles que se engalfinhem para prestigiar um deles, enquanto rechaçam veementemente o outro.

Do show de Rollins, pode-se esperar virtuosismo, energia e alguns standards. Da performance do Art Ensemble of Chicago, temas inusitados, teatralizações e, eventualmente, o silêncio.

Se tudo correr bem, este blogueiro desprovido de preconceitos exaltará a diferença - e genialidade - de ambos.

sábado, 9 de agosto de 2008

Pharoah Sanders: Black Unity (1972)

O saxofonista Pharoah Sanders é devoto das longas improvisações, repletas de percussões com forte acento africano, além de alguns lampejos de orientalismo. A sua obra sofre inegavelmente a influência dos trabalhos mais vanguardistas de John Coltrane, especialmente daqueles ditos mais “espiritualizados”, meditativos ou contemplativos. Não por acaso Sanders acompanhava Coltrane circa 1965, estando presente nos shows de free jazz incontido que resultariam no álbum Live in Seattle. Ah! Se alguém também pensar em Albert Ayler, não estará cometendo nenhum desvario.

Tanto Coltrane quanto Ayler estavam mortos quando do lançamento deste Black Unity, em 1972. Talvez seja o caso de dizer que o álbum é uma espécie de seguimento do legado deixado pelos dois inquietos saxofonistas. Ao contrário do que se poderia pensar, a tal unidade apregoada pelo título do disco e de sua única canção de 37 minutos não é de conteúdo político, pelo menos não unicamente. Sanders está pensando também no sentimento de se estar junto, tanto das pessoas entre si como delas com o mundo e com o seu Criador. E é a música que tem a capacidade de expressar a necessidade e a possibilidade de tal união.

Desligando-se das idéias e centrando-se na parte meramente musical, deve-se recomendar este disco para os fãs de jazz avant-garde em geral, mas particularmente para os aficionados por contrabaixo: o já experiente Cecil McBee dividia as glórias com um então novato chamado Stanley Clarke. Quer mais? E tem mais! Embora pareça impossível, Black Unity consegue a proeza de ir além daqueles elementos expostos com verdadeira mestria no também imperdível Karma, de 1969.