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domingo, 15 de março de 2009

Deu na "Folha": melhor checar

Pequena reviravolta no caso Folha-ditabranda-Comparato: o diário paulistano chamou Fábio Konder Comparato, professor da USP, de cínico e mentiroso por se mostrar indignado com a utilização do termo ditabranda em referência ao regime militar brasileiro, enquanto se mostraria simpático a regimes ditatoriais de esquerda, como seria o caso de Cuba. Porém, o blog do Rodrigo Vianna trouxe nessa semana missiva, publicada no Painel do Leitor de 1º de junho de 2004, na qual o jurista fazia críticas à situação da democracia e dos direitos humanos na ilha centro-americana. Leia:

"O professor François Chesnais ("Ruptura radical" é a saída para o Brasil, defende professor francês", Entrevista da 2ª, 31/5) tem dado uma excelente contribuição à causa do mundo subdesenvolvido ao mostrar, em seus vários livros, de que forma a globalização capitalista, comandada pelos EUA, aprofunda a divisão entre ricos e pobres até dentro dos países mais ricos do planeta. Mas, ao apontar em sua entrevista a experiência política cubana como exemplo a ser seguido pelos países subdesenvolvidos, especialmente o Brasil, o ilustre professor prestou um desserviço àquela nobre causa. A mundialização humanista, pela qual lutamos, funda-se no respeito integral à democracia e aos direitos humanos, caminho que, infelizmente, não tem sido seguido pelo governo cubano." Fábio Konder Comparato, professor titular da Faculdade de Direito da USP (São Paulo, SP)

Desde a primeira hora foram muitos os que não apenas se indignaram com a debochada expressão utilizada pela Folha de São Paulo, mas que se revoltaram com a grosseira resposta não apenas ao professor Comparato mas também à sua colega Maria Victoria Benevides. Inúmeros blogues saíram em defesa dos professores, porém comprando a tese de que eles realmente simpatizavam sem reservas com o regime cubano. Os argumentos em geral eram bons: alguns afirmaram que o fato de simpatizar com Cuba não tira o direito de quem quer que seja de assegurar que houve uma ditadura militar de fato no Brasil; outros asseveraram que, na condição de brasileiros, os professores estavam mais preparados – e com maior autoridade – de fazer críticas mais abertas e francas aos anos de exceção no Brasil do que às ditaduras de outras plagas; e até o autor destas maldigitadas tentou pegar a falta de razoabilidade lógica na deseducação da Folha, modestamente lembrando o arrogante jornal que é impossível afirmar que o “sentimento” de outrem, coisa absolutamente subjetiva, é mentiroso (você me diz que está triste e eu, que não estou no seu cérebro, simplesmente digo que é mentira e tudo bem!).

Mas há lições a se tirar de tudo isso.

Apesar da análise fria e crítica que se faz hoje da imprensa, mesmo com a certeza de que os jornais não são confiáveis e não obstante a postura arrogante dos jornalistas e de seus patrões, nós,os seus críticos, simplesmente aceitamos a afirmação da Folha de que Fábio Konder Comparato era um apologeta cego do que ocorre em Cuba, ou seja, demos-lhes altíssima credibilidade mesmo sabendo que eles não merecem praticamente nenhuma. É sinal de que a imprensa ainda tem o poder de repetir a mentira e transformá-la em verdade, levando no bico até mesmo aqueles que sabem ser necessário, no caso da mídia tupiniquim, viver com o “desconfiômetro” sempre ligado.

Observe-se que no ato convocado pelo Movimento dos Sem Mídia em 07-03-2009 ninguém, que me lembre, fez discurso indicando que a Folha, ela sim, era mentirosa, pois afirmava que o professor jamais se opusera ao regime cubano, quando em verdade o próprio jornal já publicara cartas do jurista com críticas a Cuba. Ressalte-se também que o próprio professor Comparato não veio a público para apontar o mau-caratismo do diário dos Frias.

“Deu na Folha!”. Bem sabemos que isso não é motivo para se levar algo tão a sério. Agora, mais do que nunca, é preciso ter um pouco mais de diligência e, antes de qualquer coisa, já ficar com um pé atrás com os arroubos agressivos tão impunemente lançados pelo jornal. Quando se ouvir “deu na Folha”, fique esperto! Se for o caso, é bom pôr o Google e outros mecanismos de busca para funcionar...

Leia também:
Os estados mentais de Benevides e Comparato
Manifestação contra a "ditabranda"

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Os estados mentais de Benevides e Comparato

Deu pano para manga a “ditabranda” da Folha de São Paulo. Referindo-se ao regime militar brasileiro, o jornalão usou a estranha expressão num editorial sobre a Venezuela, colocando-se, assim, no centro de apaixonada polêmica - o que talvez tenha sido mesmo o objetivo de seus responsáveis, haja vista que o diário paulistano sempre foi dado a fazer de si mesmo a notícia e o centro das atenções.

Como seria de se esperar, houve várias manifestações de leitores, muitas devidamente publicadas na seção de cartas. Dentre os missivistas estavam os professores da USP Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, ambos críticos ao termo utilizado pela Folha. O jornal respondeu aos manifestantes da seguinte maneira: “Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa”.

Acerca da falta de cordialidade devida a todos os leitores – figuras públicas ou não – o ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva, ainda que laconicamente, tratou na sua coluna de domingo 22 de fevereiro. Diversas outras críticas e análises pulularam durante a semana. Certos aspectos mais sutis, no entanto, foram ignorados.

Acusar Benevides e Comparato de cínicos em relação a esse caso é algo aceitável, mesmo quando disso se discorde, pois é uma proposição dotada do mínimo de plausibilidade lógica. Afinal, de acordo com a ingenuidade linear da Folha e daqueles que com ela concordam, se se aceita candidamente o regime cubano, muitas vezes acusado de ditatorial, não há sentido reagir tão prontamente à associação da idéia de brandura com os anos de chumbo no Brasil. Está-se, é claro, usando a idéia de cinismo na sua acepção popular, qual seja, de descaramento e de desfaçatez. Neste caso, pois – devem pensar os editores do diário -, os professores da USP estariam usando pesos e medidas diferentes para situações similares ou estariam puxando a brasa para a sardinha de que gostam, enquanto demonstram intolerância com uma situação pela qual antipatizam – questão meramente ideológica, portanto. Ainda que provida de lógica a acusação, o jornal não percebeu, porém, que a sua resposta parece ter dado razão aos críticos, pois a sua referência a Cuba como efeito de comparação, com a afirmação de que lá vigora uma ditadura, de certo modo admite que a utilização do termo “ditabranda” pode ter sido despropositada. Afinal, na nota o jornal não defendeu a utilização da curiosa palavra e, ainda que implicitamente, admitiu que o nome que melhor define o que houve aqui no Brasil durante o período militar é, sim, com efeito, “ditadura”, vocábulo usado para se referir ao governo cubano!

E quanto a chamá-los de mentirosos? Neste ponto a coisa se complica de vez para “o maior jornal do país”. O fato de ser o maior não lhe dá o direito de afirmar que alguém mente, a não ser que amparado em fatos concretos. No caso em tela, o que se discute é apenas um sentimento individual: a indignação. Seria necessário ter acesso privilegiado aos estados mentais dos sujeitos Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides para se afirmar, de forma tão peremptória, que a indignação deles é mentirosa. Noutras palavras, se alguém se declara indignado com algo, temos a obrigação de acreditar no que diz, haja vista que a suposta indignação está sendo sentida por ele. É possível, talvez, que num viés “wittgensteiniano” se possa objetar com a alegação de que fatos mostram que a indignação não é verdadeira. Tal fato, poderia dizer o pessoal da Folha, seria a revolta dos professores com as ditaduras de direita e a sua condescendência com as de esquerda. Mas esse é o tema do parágrafo anterior. Caso queira, que se chame tal sentimento de cínico, incoerente, hipócrita; de mentiroso, não! Repitamos, pode haver aí um problema de ideologia. E o “sentimento” (frisemos bem a palavra) vai variar de acordo com o gosto (ideológico) do freguês. Somente o Fábio e a Maria Victoria poderiam dizer que mentiram quando se manifestaram com indignação. Para uma pessoa dizer que a indignação alheia é mentirosa, ou seja, afirmar que dado sujeito se diz indignado quando em verdade não está, só seria possível se ela tivesse o poder de ter acesso aos estados mentais dele (Que se saiba, a Folha também não tem tal poder. Ainda!). Ou, quem sabe, os editores do principal jornal paulistano sejam muito dados a mentir quando se dizem indignados, de modo que sejam capazes de perceber – e de certa forma entrever – a mentira por trás da indignação – o que provavelmente seria, mais uma vez, um recurso “wittgeinsteiniano”.


P.S. As referências indiretas ao filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) foram utilizadas com alguma irresponsabilidade, haja vista que este escriba não se sente (ou pelo menos não deveria se sentir) muito seguro de recorrer a este grande nome do pensamento do século XX. De qualquer forma, acreditamos que isso não chega a comprometer o texto, o qual, aliás, deve estar eivado de outros defeitos potencialmente mais graves.