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domingo, 6 de abril de 2014

IPEA e Datafolha

Dois temas envolvendo pesquisas e suas divulgações merecem comentário.


O erro do IPEA e o erro nosso

No dia 4 de abril de 2014 o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) corrigiu os resultados de uma pesquisa de grande repercussão no Brasil: À frase "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas", 58% disseram discordar, contra 26% que concordam total ou parcialmente. Em resultado divulgado anteriormente, constou, equivocadamente, que a maioria concordava com a frase, provocando grandes protestos e discussões inclusive em nível internacional.

Vale recordar situação decorrida de texto do escritor Antonio Prata para a Folha de São Paulo. Em crônica de refinada ironia, o autor incorporou um sujeito ultraconservador e reacionário, proferindo opiniões que expressavam um grande radicalismo de direita. Prata relata ter recebido montanhas de mensagens de apoio pela sinceridade e coragem das duras palavras, assim como recebeu diversas outras de decepção ou de contraponto às loucuras que lá emitira.

E por que muita gente não percebeu a ironia no texto de Prata? A resposta simples é porque o seu texto era verossímil. Dado o grau de acirramento dos ânimos em meios mais politizados, ninguém parece achar estranho um discurso raivoso de direita, que não demonstre mais aquela vergonha de defender pontos de vista conservadores, mesmo que com doses de obscurantismo, que aparentemente sentia até pouco tempo atrás. Daí ter passado batido que o texto era um exercício ficcional.

No caso envolvendo o erro do Ipea, é igualmente estranho que todo mundo tenha achado plenamente crível o resultado da pesquisa anunciado anteriormente e que dava mais de 60% dos entrevistados concordando com o fato de que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". Como, pergunta-se agora, ninguém percebeu que deveria ter algo errado com aquela história absurda?

Isso só pode ser explicado por nossa tolerância com o machismo e por achar relativamente normal, dentro do grau de conservadorismo que nos encontramos, que haja pessoas que pensem daquela forma. Simples, simples.


O Datafolha e a manchete antijornalística da Folha

Diz a manchete da Folha de São Paulo deste domingo, 6 de abril de 2014: "Pessimismo sobre economia cresce, e Dilma perde seis pontos". Na nova rodada de pesquisas do Datafolha, Dilma Rousseff perdeu seis pontos e, com efeito, 29% acham que a situação econômica do País vai piorar, maior do que os 27% que pensam que ela irá melhorar.

Muito bem. Quem foi mesmo que disse  ser possível contar mentiras dizendo só a verdade?

Há um aspecto esquizofrênico na pesquisa já esmiuçado em outros blogs. O eleitor acha que a situação econômica do País vai piorar, mas, por outro lado, acredita que a sua condição econômica pessoal vai melhorar! E neste último, o resultado é uma lavada: 46% acham que vai melhorar, 39% que vai ficar como está e somente 12% apostam que vai piorar.

A percepção sobre a condição pessoal deveria, em princípio, anular a visão de que as condições econômicas do País como um todo vão piorar, de modo a desautorizar manchete chamando atenção para tal aspecto.

Melhor jornalismo teria praticado a Folha se tivesse destacado em sua manchete o fato de que Dilma perdeu seis pontos, mas que seus adversários mais prováveis e diretos, Aécio e Eduardo Campos, não os capitalizaram. Mais do que isso, a petista ainda ganha com folga no primeiro turno, outro viés de maior interesse jornalístico, aparentemente negligenciado pelo(s) editor(es) de primeira página.

Para piorar as coisas para a oposição e para o jornalismo militante da Folha, o único nome (não candidato) melhor na parada do que Dilma é o do ex-presidente Lula. Manchete destacando isso, então, nem pensar!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Protesto do MSM e o texto de Benjamin



O Movimento dos Sem-Mídia (MSM) realizou neste sábado, 05-12-2009, manifestação em frente ao jornal Folha de São Paulo, em repúdio a artigo (para mim, uma espécie de crônica) escrito por César Benjamin, publicado em 27-11-2009, no qual relatava que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria confessado, em almoço no qual estavam presentes outras pessoas, que tentara "subjugar" um jovem quando esteve na prisão. Desnecessário dizer que o jornal publicou sem checar a informação e sem ouvir o outro lado, talvez apegado ao fato de que tão pequenos detalhes são prescindíveis em texto "opinativo", como parece pensar o ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva.

No ato deste sábado, Eduardo Guimarães leu o manifesto que pode ser encontrado no blog dele, abrindo, em seguida, o microfone para quem quisesse acrescentar algo. Sobrou para a "ditabranda", para a parcialidade do jornal, para a relação promíscua com Serra e o PSDB e para outros órgãos do chamado PiG (Partido da Imprensa Golpista). Dentre as mais de 100 pessoas, havia gente do Rio de Janeiro, Paraíba e Santa Catarina.

O "artigo" de Benjamin
Quem reparar bem na fatídica edição de 27.11.2009, perceberá que o texto "Os filhos do Brasil", do economista César Benjamin, não está lá por acaso. Em verdade, ele faz parte de um turbilhão de tentativas de desqualificar o filme "Lula, o filho do Brasil", de Fábio Barreto. Na mesma data, em matéria sobre a película, o jornalista Rubens Valente aponta omissões de episódios "polêmicos" da vida de Lula sindicalista, deixando transparecer a ideia de que o filme escondia fatos que pudessem "empanar o brilho do personagem heroico construído pelo roteiro". O texto de Benjamin, nesse caso, seria a cobertura no bolo, pois trazia a demonstração cabal de que aquele "filho do Brasil" não seria exatamente do tipo que uma mãe - ou um país - gostaria de ter.

Ora, mas por que tudo isso?

No fundo, trata-se de situacão que faz parte da tradição oligárquica, elitista e preconceituosa da mídia paulista. Em verdade, sem o admitir, a Folha, aliada de setores conservadores não apenas de sua cidade mas de todo o Brasil, acredita que a maior parte da população, sobretudo os mais pobres e menos escolarizados, é composta de pessoas incapazes de avaliar uma obra cinematográfica e sem quaisquer condições de discernir uma peça fictícia de um documentário. Disso resulta o medo de que os espectadores votem, em 2010, de olho no mito que aparece nas telas, sufragando a candidata que ele indicar, motivo pelo qual parece entender necessário - custe o que custar - sair a campo, por antecipação, com um processo de desmitificação (e desmistificação) da figura do operário e sindicalista que um dia se tornaria o presidente mais popular da história do País, minimizando ou anulando os "estragos" que o filme de Barreto poderia causar nas "mentes ignorantes" dos que não leem jornais.

O longo "artigo" de César Benjamin decerto que serve a tal propósito. A começar pelo próprio título, "Os filhos do Brasil", o ex-militante petista quer deixar claro que tal epíteto soaria melhor se aplicado a muitos presos comuns que há por aí, pois, afinal de contas, o presidente brasileiro seria, em realidade uma besta fera que ataca jovens, enquanto ele, Benjamin, jovem preso pela ditadura, era respeitado pelos "barras pesadas" com quem dividira as celas nos anos 1970. O recado é curto e direto: Lula é moralmente inferior a ladrões e homicidas que superlotam os nossos presídios.

A julgar pelas missivas que, nas edições imediatamente posteriores, comentavam o texto do economista, muitos brasileiros leitores do diário paulistano sentiram-se de alma lavada com a história lá contada, o que, a princípio, é surpreendente por pelo menos dois motivos. Em primeiro lugar, porque a mesma seção de cartas da Folha já foi espaço para leitores expressarem o mais violento ódio e ressentimento aos apenados pobres brasileiros, sobretudo quando se envolvem em protestos e rebeliões, tornando curioso o fato de que eles (os leitores) tenham sido tocados pela simpatia com que alguns "criminosos comuns" são descritos - homenageados - por Benjamin. Em segundo, porque a certa altura Benjamin diz não saber quem é o "menino do MEP", o "subjugado" pelo presidente, mas imaginava que ele estivesse vivo, pois provavelmente branco de classe média, não teria corrido os mesmos riscos de morte precoce dos negros e pobres brasileiros; está aí mais um tipo de opinião que deveria provocar a antipatia da média de leitores da Folha, para os quais a existência racismo ou da luta de classes no Brasil só existe na cabeça dos lunáticos da esquerda. Imagino que se o assunto tratado pelo economista fosse qualquer outro que não implicasse agressão ao presidente ou ao PT, talvez a mesma seção de cartas veria leitores insurgindo-se contra a perigosa pregação comunista do colaborador, espumando ódio contra a sua defesa de bandidos e em oposição à sua herética insinuação de que não há democracia racial no País.

Uma outra curiosidade - a bem da verdade uma pilhéria - é que para os editores da Folha o relato de Benjamin, descrevendo porões da ditadura, deve ter sido visto como uma obra surreal, afinal, para eles, por aqui houve somente uma "ditabranda"!

Por fim, há de se ver na estratégia adotada pela Folha - de tentativa de desqualificação do filme "Lula, o filho do Brasil", a serviço da qual usou até o texto infame de Benjamin -, não somente desrespeito à instituição Presidência da República ou à figura humana do presidente, mas uma agressão à inteligência do eleitor, enxergado como alguém incapaz de ir ao cinema fruir de uma obra de arte, sem que ela necessariamente interfira na sua maneira de votar.

domingo, 15 de março de 2009

Deu na "Folha": melhor checar

Pequena reviravolta no caso Folha-ditabranda-Comparato: o diário paulistano chamou Fábio Konder Comparato, professor da USP, de cínico e mentiroso por se mostrar indignado com a utilização do termo ditabranda em referência ao regime militar brasileiro, enquanto se mostraria simpático a regimes ditatoriais de esquerda, como seria o caso de Cuba. Porém, o blog do Rodrigo Vianna trouxe nessa semana missiva, publicada no Painel do Leitor de 1º de junho de 2004, na qual o jurista fazia críticas à situação da democracia e dos direitos humanos na ilha centro-americana. Leia:

"O professor François Chesnais ("Ruptura radical" é a saída para o Brasil, defende professor francês", Entrevista da 2ª, 31/5) tem dado uma excelente contribuição à causa do mundo subdesenvolvido ao mostrar, em seus vários livros, de que forma a globalização capitalista, comandada pelos EUA, aprofunda a divisão entre ricos e pobres até dentro dos países mais ricos do planeta. Mas, ao apontar em sua entrevista a experiência política cubana como exemplo a ser seguido pelos países subdesenvolvidos, especialmente o Brasil, o ilustre professor prestou um desserviço àquela nobre causa. A mundialização humanista, pela qual lutamos, funda-se no respeito integral à democracia e aos direitos humanos, caminho que, infelizmente, não tem sido seguido pelo governo cubano." Fábio Konder Comparato, professor titular da Faculdade de Direito da USP (São Paulo, SP)

Desde a primeira hora foram muitos os que não apenas se indignaram com a debochada expressão utilizada pela Folha de São Paulo, mas que se revoltaram com a grosseira resposta não apenas ao professor Comparato mas também à sua colega Maria Victoria Benevides. Inúmeros blogues saíram em defesa dos professores, porém comprando a tese de que eles realmente simpatizavam sem reservas com o regime cubano. Os argumentos em geral eram bons: alguns afirmaram que o fato de simpatizar com Cuba não tira o direito de quem quer que seja de assegurar que houve uma ditadura militar de fato no Brasil; outros asseveraram que, na condição de brasileiros, os professores estavam mais preparados – e com maior autoridade – de fazer críticas mais abertas e francas aos anos de exceção no Brasil do que às ditaduras de outras plagas; e até o autor destas maldigitadas tentou pegar a falta de razoabilidade lógica na deseducação da Folha, modestamente lembrando o arrogante jornal que é impossível afirmar que o “sentimento” de outrem, coisa absolutamente subjetiva, é mentiroso (você me diz que está triste e eu, que não estou no seu cérebro, simplesmente digo que é mentira e tudo bem!).

Mas há lições a se tirar de tudo isso.

Apesar da análise fria e crítica que se faz hoje da imprensa, mesmo com a certeza de que os jornais não são confiáveis e não obstante a postura arrogante dos jornalistas e de seus patrões, nós,os seus críticos, simplesmente aceitamos a afirmação da Folha de que Fábio Konder Comparato era um apologeta cego do que ocorre em Cuba, ou seja, demos-lhes altíssima credibilidade mesmo sabendo que eles não merecem praticamente nenhuma. É sinal de que a imprensa ainda tem o poder de repetir a mentira e transformá-la em verdade, levando no bico até mesmo aqueles que sabem ser necessário, no caso da mídia tupiniquim, viver com o “desconfiômetro” sempre ligado.

Observe-se que no ato convocado pelo Movimento dos Sem Mídia em 07-03-2009 ninguém, que me lembre, fez discurso indicando que a Folha, ela sim, era mentirosa, pois afirmava que o professor jamais se opusera ao regime cubano, quando em verdade o próprio jornal já publicara cartas do jurista com críticas a Cuba. Ressalte-se também que o próprio professor Comparato não veio a público para apontar o mau-caratismo do diário dos Frias.

“Deu na Folha!”. Bem sabemos que isso não é motivo para se levar algo tão a sério. Agora, mais do que nunca, é preciso ter um pouco mais de diligência e, antes de qualquer coisa, já ficar com um pé atrás com os arroubos agressivos tão impunemente lançados pelo jornal. Quando se ouvir “deu na Folha”, fique esperto! Se for o caso, é bom pôr o Google e outros mecanismos de busca para funcionar...

Leia também:
Os estados mentais de Benevides e Comparato
Manifestação contra a "ditabranda"

sábado, 7 de março de 2009

Manifestação contra a "ditabranda"

Foi realizada sábado, 7 de março, manifestação convocada pelo Movimento dos Sem Mídia (MSM), na frente das instalações do jornal Folha de São Paulo, contra a qualificação, por parte daquele órgão, de “ditabranda” ao período do regime militar brasileiro. O evento serviu também como ato de desagravo pela resposta que a redação do jornal ousou dar aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato, ambos da USP, acusando-os de cínicos e mentirosos.

O presidente do MSM, Eduardo Guimarães, leu o manifesto do ato, o qual pode ser conferido na íntegra em postagem daquela data no blog cidadania.com. Seguiram-se diversos pronunciamentos de sindicalistas, estudantes, ex-vítimas e familiares de mortos e desaparecidos. Por lá discursaram o jornalista Celso Lungaretti e o padre Júlio Lancelotti, ambos excelentes conhecedores, por motivos próprios, dos “democráticos” métodos utilizados não apenas pela Folha, mas por toda assim chamada grande imprensa brasileira.

No seu discurso, Eduardo relembrou observação anteriormente realizada no seu blog, qual seja, a de que “colocar gente na rua sem ser por meio de movimentos sociais ou de sindicatos hoje, no Brasil, não é fácil”. É a pura verdade. Por isso, o encontro de 7 de março merece uma análise bastante atenta.

Aspecto notável foi levantado por um integrante da CUT. O sindicalista oportunamente apontou que o grande problema não está apenas no fato da proposta de revisão histórica incutida no uso de uma expressão como “ditabranda” para se referir a um dos períodos mais sombrios de nossa história. Gravíssimo também, disse ele, é todo o comportamento recente da mídia, ou seja, a história atual que eles pretendem escrever nas suas páginas, percebida na diligente defesa do interesse de poderosos, na criminalização de movimentos sociais, no enxovalhamento de pessoas que não estão no rol de seus queridinhos. As duas coisas, portanto, estão ligadas: passado e presente encontram-se nas páginas dos grandes jornais, e não no bom sentido! Penso que vem daí o sucesso da manifestação de ontem, que provavelmente foi assistida por mais de quinhentas pessoas, gente de toda faixa etária, tanto os que viveram aqueles "brandos" anos, quanto uma moçada mais jovem e que deve estar percebendo as artimanhas falseadoras diariamente usadas pelos meios de comunicação.

Foi um ato acima de tudo político. As pessoas que lá estavam pretendiam fazer uma manifestação essencialmente política. E não se está aqui falando de política na sua dimensão antropológica ou na sua amplitude tão bem mostrada em famoso poema de Brecht. Não se quer dizer, pois, que o ato foi político porque no fundo tudo é político. Em verdade, foi-se protestar contra um poder - não instituído -, mas um poder usurpador. A imprensa mais do que nunca se acredita o quarto poder: tenta deflagrar crises, pensa que pode interferir na vida verdadeiramente institucional do país, quer ser a grande dona do país, sendo uma espécie de ventríloquo de alguns políticos conhecidos nossos.

Foi um ato, portanto, político do ponto de vista institucional mesmo, como seria, por exemplo, um panelaço contra o governo. Tal assunto merece estudo mais aprofundado de sociólogos, cientistas políticos e historiadores.

Não à toa vêem-se políticos da oposição – falo, é claro, do PSDB e do DEM – mostrando simpatia com a grande imprensa, ganhando espaço privilegiado nela, sendo tratado a pão-de-ló por colunistas que, como disse o presidente Lula, não querem de jeito nenhum passar pela mágoa de virem a ser chamados de chapa-branca. Vamos ver se tais jornalistas continuarão com esse temor se algum dia a dobradinha PSDB-DEM voltar ao governo Federal!

E não se trata de "achismos". Há estudos como o do IUPERJ que buscaram analisar cientificamente o partidarismo da grande mídia nas eleições presidenciais de 2006. Dentro da própria Folha, os dois últimos ombudsmans já apontaram a diferença de tratamento por parte do jornal para “escândalos federais” e escândalos estaduais e municipais em São Paulo e não deixaram também de observar a certa blindagem ao hoje mais bem cotado candidato oposicionista à sucessão de Lula.

A grande imprensa brasileira, portanto, como é de sua tradição histórica, continua querendo ser um ator político. No caso de São Paulo, conforme bem apontado num dos discursos da manifestação da Alameda Barão de Limeira, a Folha e o Estadão apoiaram o golpe militar de 1964. O jornal dos Mesquitas, porém, não deu salvaguarda ao período mais duro do regime, sendo até mesmo censurado à época; já o dos Frias deu até apoio logístico aos militares nos anos 1970. Algum tempo depois, a Folha quis passar a imagem de jornal mais arrojado, mais moderno e arejado do que seu concorrente. Mas, conforme dito por um dos manifestantes do sábado, agora a máscara da Folha definitivamente caiu.

Mas nada é muito de graça. Certamente que a proposta de revisão histórica deve ter algum objetivo mais latente. Pode ser que se queira levantar um debate que leve a questionamentos acerca de indenizações a vítimas e a parentes de vítimas do regime militar, assunto que atiça a “classe média pagadora de impostos”, sempre pronta a exalar seu moralismo seletivo. Outro intento talvez seja o de calar as idéias de abertura de arquivos do regime. A imprensa, com isso, é certo que atende aos interesses de muita gente com culpa no cartório. No caso da Folha em particular, a preocupação deve ser com a própria pele.

Congratulações a todos que estiveram presente na bonita, cívica e democrática manifestação de ontem, 07-03-2009, entre 10h00 e 12h35, na Alameda Barão de Limeira, 425, centro de São Paulo! Ah, eu também estive lá!

sexta-feira, 6 de março de 2009

Ato em frente à Folha, dia 7 de março

Leiam abaixo a mensagem encaminha pelo blogueiro Eduardo Guimarães, presidente do Movimento dos Sem-Mídia, à Polícia Militar do Estado de São Paulo, com todas as informações necessárias sobre a manifestação que ocorrerá em frente ao jornal Folha de São Paulo, em repúdio à sua qualificação de "ditabranda" ao rigoroso regime militar brasileiro.

Ref: Comunicação de realização de Ato Público em frente ao Jornal Folha de São Paulo.

Prezado Senhor

Venho, através do presente, comunicar a essa D. Corporação que realizaremos, juntamente com representantes e entidades da sociedade civil brasileira, um Ato Público no próximo dia 07/03/2009 (sábado), a partir das 10,00 horas da manhã, em frente ao jornal Folha de São Paulo, situado na Alameda Barão de Limeira, nº 425, Campos Elíseos, nesta Capital.

A manifestação em questão, como outras já feitas por esta entidade na capital, terá caráter pacífico e será um protesto dos cidadãos brasileiros e entidades, inconformados com o editorial do Jornal Folha de São Paulo de 17/02/2009, que minimizou e relativizou ações do regime militar brasileiro, que durou de 1964 à 1985, em relação a danos e sofrimentos que provocou em cidadãos e seus familiares.

O citado Ato Público também terá caráter de desagravo em relação a Professora Maria Victória Benevides e ao Jurista Fabio Konder Comparato, notórios defensores de direitos humanos no Brasil e no Exterior, que foram igualmente ofendidos pelo jornal Folha, em resposta a indignação que ambos manifestaram contra essa revisão histórica promovida pelo citado jornal.

O Ato Público será realizado de maneira a respeitar o direito de ir e vir dos demais cidadãos paulistanos, procurando não interferir no trânsito da via pública, nem haverá passeata após o término do ato.

Atenciosamente
Eduardo Guimarães
ONG MOVIMENTO DOS SEM MÍDIA-MSM
Presidente
Mais informações no cidadania.com

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Os estados mentais de Benevides e Comparato

Deu pano para manga a “ditabranda” da Folha de São Paulo. Referindo-se ao regime militar brasileiro, o jornalão usou a estranha expressão num editorial sobre a Venezuela, colocando-se, assim, no centro de apaixonada polêmica - o que talvez tenha sido mesmo o objetivo de seus responsáveis, haja vista que o diário paulistano sempre foi dado a fazer de si mesmo a notícia e o centro das atenções.

Como seria de se esperar, houve várias manifestações de leitores, muitas devidamente publicadas na seção de cartas. Dentre os missivistas estavam os professores da USP Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, ambos críticos ao termo utilizado pela Folha. O jornal respondeu aos manifestantes da seguinte maneira: “Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa”.

Acerca da falta de cordialidade devida a todos os leitores – figuras públicas ou não – o ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva, ainda que laconicamente, tratou na sua coluna de domingo 22 de fevereiro. Diversas outras críticas e análises pulularam durante a semana. Certos aspectos mais sutis, no entanto, foram ignorados.

Acusar Benevides e Comparato de cínicos em relação a esse caso é algo aceitável, mesmo quando disso se discorde, pois é uma proposição dotada do mínimo de plausibilidade lógica. Afinal, de acordo com a ingenuidade linear da Folha e daqueles que com ela concordam, se se aceita candidamente o regime cubano, muitas vezes acusado de ditatorial, não há sentido reagir tão prontamente à associação da idéia de brandura com os anos de chumbo no Brasil. Está-se, é claro, usando a idéia de cinismo na sua acepção popular, qual seja, de descaramento e de desfaçatez. Neste caso, pois – devem pensar os editores do diário -, os professores da USP estariam usando pesos e medidas diferentes para situações similares ou estariam puxando a brasa para a sardinha de que gostam, enquanto demonstram intolerância com uma situação pela qual antipatizam – questão meramente ideológica, portanto. Ainda que provida de lógica a acusação, o jornal não percebeu, porém, que a sua resposta parece ter dado razão aos críticos, pois a sua referência a Cuba como efeito de comparação, com a afirmação de que lá vigora uma ditadura, de certo modo admite que a utilização do termo “ditabranda” pode ter sido despropositada. Afinal, na nota o jornal não defendeu a utilização da curiosa palavra e, ainda que implicitamente, admitiu que o nome que melhor define o que houve aqui no Brasil durante o período militar é, sim, com efeito, “ditadura”, vocábulo usado para se referir ao governo cubano!

E quanto a chamá-los de mentirosos? Neste ponto a coisa se complica de vez para “o maior jornal do país”. O fato de ser o maior não lhe dá o direito de afirmar que alguém mente, a não ser que amparado em fatos concretos. No caso em tela, o que se discute é apenas um sentimento individual: a indignação. Seria necessário ter acesso privilegiado aos estados mentais dos sujeitos Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides para se afirmar, de forma tão peremptória, que a indignação deles é mentirosa. Noutras palavras, se alguém se declara indignado com algo, temos a obrigação de acreditar no que diz, haja vista que a suposta indignação está sendo sentida por ele. É possível, talvez, que num viés “wittgensteiniano” se possa objetar com a alegação de que fatos mostram que a indignação não é verdadeira. Tal fato, poderia dizer o pessoal da Folha, seria a revolta dos professores com as ditaduras de direita e a sua condescendência com as de esquerda. Mas esse é o tema do parágrafo anterior. Caso queira, que se chame tal sentimento de cínico, incoerente, hipócrita; de mentiroso, não! Repitamos, pode haver aí um problema de ideologia. E o “sentimento” (frisemos bem a palavra) vai variar de acordo com o gosto (ideológico) do freguês. Somente o Fábio e a Maria Victoria poderiam dizer que mentiram quando se manifestaram com indignação. Para uma pessoa dizer que a indignação alheia é mentirosa, ou seja, afirmar que dado sujeito se diz indignado quando em verdade não está, só seria possível se ela tivesse o poder de ter acesso aos estados mentais dele (Que se saiba, a Folha também não tem tal poder. Ainda!). Ou, quem sabe, os editores do principal jornal paulistano sejam muito dados a mentir quando se dizem indignados, de modo que sejam capazes de perceber – e de certa forma entrever – a mentira por trás da indignação – o que provavelmente seria, mais uma vez, um recurso “wittgeinsteiniano”.


P.S. As referências indiretas ao filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) foram utilizadas com alguma irresponsabilidade, haja vista que este escriba não se sente (ou pelo menos não deveria se sentir) muito seguro de recorrer a este grande nome do pensamento do século XX. De qualquer forma, acreditamos que isso não chega a comprometer o texto, o qual, aliás, deve estar eivado de outros defeitos potencialmente mais graves.

sábado, 24 de janeiro de 2009

O preconceito venceu o jornalismo (uma inconfidência)

Transcrevo mensagem que encaminhei ao ombudsman da Folha de São Paulo um dia após à cerimônia de posse do presidente Barack Obama:

Antes de mais, já digo que não li a íntegra da Folha de hoje. Apenas acompanhei, como faço todos os dias, a sua primeira página e fiquei chocado com o fato de o jornal não ter lembrado que a frase do presidente Obama, de que "a esperança superou o medo", remete ao que disse o presidente Lula na sua posse de 2003. Então quer dizer que um dos principais presidentes dos Estados Unidos em todos os tempos, na cerimônia de posse mais concorrida da história, diz uma frase que praticamente repete o que foi dito por um colega brasileiro, e a Folha simplesmente finge que não percebeu?

Talvez o senhor, os editores e redatores do jornal achem que isso realmente não seja importante. Talvez não seja mesmo. Mas reparo que o diário
Agora, da mesma "família Folha", deu manchete principal para o quase-repeteco do que fora dito pelo presidente do Brasil. Estranho que seja importante para o "popular" Agora, e não o seja para a "refinada" Folha.

O senhor arriscaria uma explicação?


Pois bem. O ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva gentilmente me retornou, informando-me que encaminhara a minha mensagem aos jornalistas responsáveis pela seção "Mundo" do jornal.

Mas não parou nisso - e é aí que vem a inconfidência, já que tomarei a liberdade de expor mensagem que me foi passada em caráter particular. O ombudsman acrescentou que, de sua parte, achava que a formulação de esperança versus medo é relativamente banal no discurso político eleitoral pelo mundo todo. Disse ele: "No passado recente, que me lembre, foi mote – além de Lula e Obama – de Tony Blair na campanha de 1997, Bill Clinton na campanha presidencial de 1992, Deval Patrick na campanha para governador de Massachusetts em 2006, entre muitos outros."

Como de praxe, agradeci o amável retorno, mas repliquei, ainda que de forma um tanto tacanha:

É... Pode ser. Mas não pareceu banal para o Agora, do grupo Folha, a frase ser muito parecida com a que foi dita por Lula. E o fato de ela ter sido proferida por outros estadistas não tira a importância de ter sido dita também pelo presidente do Brasil. Aliás, para os brasileiros - leitores da Folha ou não - tem mais importância o fato de ter sido encampada com bastante sucesso pelo presidente Lula do que ter sido utilizada também por Blair, Clinton e outros.

Tinha me dado por satisfeito com a solução do ombudsman, ainda que continuasse achando que era obrigação não apenas da Folha, mas de todos os jornais, ter lembrado que Obama disse frase que, em nosso nível nacional, foi emplacada com mestria pelo presidente Lula - inclusive porque foi um belo jogo de palavras com a ridícula situação protagonizada pela atriz Regina Duarte em 2002. Mas para minha surpresa, poucas horas depois recebo mensagem de Carlos Eduardo Lins da Silva, retransmitindo-me a resposta da editora do caderno "Mundo". (E aí os senhores têm mais inconfidências): "O leitor tem razão na queixa, o correspondente que fez a matéria até pediu que acrescentássemos a informação aqui, e na correria acabamos esquecendo.
Mas é bom lembrar que o uso por Barack Obama da mesma frase usada pelo presidente Lula em 2002 já havia acontecido na campanha. Então não era a novidade do discurso que ele fez ontem."

Pois é. A despeito da prodigiosa memória do ombudsman, e apesar da sua relativização da importância do caso, a editora reconheceu que o fato por mim apresentado mereceria melhor tratamento por parte do jornal, não obstante a ressalva de que o presidente americano já a usara em campanha.

A resposta foi dada. De todo modo, fica uma dúvida: será que, se Obama tivesse repetido alguma frase dita por FHC, os editores da Folha - ou de qualquer outro grande jornal - teriam esquecido ou teriam se deixado engolir pela correria de fechamento de tão importante edição?

domingo, 7 de dezembro de 2008

A impopularidade dos jornais

A edição da Folha de 6 de dezembro está por demais risível. O jornal faz malabarismos para tentar justificar o recorde de aprovação ao governo Lula: um de seus editoriais, colunistas da página dois e intelectuais ouvidos pelo diário foram unânimes em dizer que o excelente resultado do presidente se deve ao fato de a crise econômica internacional ainda não ter batido com toda a sua força aqui no Brasil. De algum modo, acrescentaram eles, Lula também está sendo hábil em “vender” a idéia de que a crise não terá maiores efeitos por aqui e que o país está pronto para enfrentá-la na dimensão que ela se apresentar.

Se os editorialistas, colunistas e intelectuais estão certos nas suas assertivas, forçoso é concluir que a Folha – e de resto toda a imprensa – está perdendo a guerra de comunicação para o presidente. Os que lêem os jornais certamente que teriam todos os motivos do mundo para estar em pânico com a crise, haja vista o reiterado terrorismo praticado todo santo dia acerca dela. No entanto, as pessoas parecem não estar tão aterrorizadas assim, ou, se estão, não devem estar responsabilizando o presidente pelos maus bocados que talvez se avizinhem.

Aliás, é interessante a leitura que todos parecem fazer da popularidade de Lula. É como se ela estivesse fora dele. Hoje a popularidade está em alta porque a economia ainda vai relativamente bem. Amanhã, prognosticam eles, ela deve despencar porque alguns dados tendem a se deteriorar. Mas, de acordo com todas as análises, a culpa não será de Lula e de seu governo, e sim da crise que teve seu início lá fora, especialmente nos países centrais. Tudo isso bem explicado, mesmo aquele que sofrer com os desdobramentos do “tsunami” – ou da “marolinha” – poderá ainda ficar na “lua-de-mel” com o presidente, pois não será dele a responsabilidade pela “dor de barriga” que tendemos a sofrer em 2009.

E o pior de tudo - para a imprensa - é que desta vez eles não podem dizer, ou estimular outros a dizerem, que a popularidade do presidente se segura nos pobres beneficiários de programas sociais ou nos pouco escolarizados desinformados. Nesta oportunidade, Lula é considerado ótimo e bom também pela maioria dos mais ricos e com maior nível de instrução, inclusive do Sul e Sudeste.

A situação é complicada: nem a classe média alta nem a famosa "zelite" parecem levar a imprensa a sério! Daí talvez a quase indisfarçável torcida para que a marolinha seja mesmo um tsunami daqueles. Quem sabe depois de milhões desempregados, com deterioração dos salários, crise social e tudo mais, esse povinho passa a acreditar mais nos nossos bem-intencionados donos de jornais e nos seus colunistas casados com gente ligada ao PSDB?!

Sinceramente, amigos, estou pouco ligando para a popularidade de Lula. Ela estando nas alturas ou caindo abaixo do chão, o que eu realmente gostaria é que a crise realmente não abatesse muito o Brasil e que o país de fato conseguisse, como vem dizendo não o presidente Lula mas organismos como a OCDE, passar por ela de forma muito mais tranqüila do que certamente ocorrerá - e em alguns casos já vem ocorrendo - com outras nações.

sábado, 28 de junho de 2008

Honrarás teu nome

Na segunda-feira 23, a Folha estampou, na sua primeira página, chamada que noticiava possíveis complicações para um tal “compadre de Lula”. Ao contrário do que se poderia pensar, o moço tem nome: Roberto Teixeira.

Não é a primeira vez que o diário paulistano usa desse expediente para se referir a pessoas próximas ao presidente envoltas em algum tipo de, digamos, dificuldade legal. Não existiu um Silas Rondeau, mas sim um “ministro de Lula” suspeito de receber propina. Do mesmo modo nunca houve um Vavá ou Genival; para a Folha de São Paulo ele era apenas o “irmão de Lula” investigado pela Polícia Federal.

É compreensível, e até desejável, que o jornal lembre da proximidade de tais pessoas com a figura mais importante da República: não há negar que isso é notícia. Mas sem dúvida que os atos individuais ou de grupos (ou vai lá, as suspeitas que recaem sobre eles) são mais importantes do que as ligações que os cidadãos ou órgaos possam ter com os seus “chegados” mais importantes. Afinal, não se vê quando das elogiáveis ações da já citada Polícia Federal a Folha referir-se a uma “PF de Lula” (o que seria aceitável tendo em vista a diferença do trabalho atual da instituição em relação a de gestões anteriores), tampouco se lê em vez de Patrus Ananias, responsável pela bem-sucedida pasta de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o epíteto “ministro de Lula”. Resta claro que, para o jornal, a relação com o presidente ou a subordinação a ele só são importantes quando levam a algum tipo de constrangimento. Sem dúvida que é o que se pode chamar de perseguição.

Entretanto, caso o jornalão paulistano entenda como legítimo o método de, em algumas circunstâncias, caracterizar a pessoa não pelo nome mas pela suas possíveis ligações, deveria urgentemente generalizar a prática, coisa que aparentemente não faz. Seria assim: se a Folha viesse algum dia a dar importância para o “caso Alstom”, ou “constrangidamente” viesse a reproduzir as matérias do The Wall Street Journal sobre o assunto, poderia em vez de pelos nomes, chamar os implicados de “isso de Covas”, “aquilo de Alckmin”, eventualmente de "não-sei-o-que-lá de Serra”. Será que eles fazem, fariam ou farão isso, leitor?

E a vida continua para o “jornal dos Frias” (soa tão ridículo, não?!).

P.S.: Vejo que na data de hoje (28-06), a Folha foi ainda mais fundo na sua tática: em vez de IGP-M, trombeteia a "inflação do aluguel". Isso é que é didatismo!

domingo, 13 de abril de 2008

Peito de homem

Neste domingo faz exatamente uma semana que a Folha publicou a despedida do ombudsman Mário Magalhães, sem dúvida o melhor que já passou pela função. O motivo de sua saída foi o impasse quanto à crítica diária: o jornal não queria que ela continuasse sendo colocada disponível na Internet; Mário Magalhães não aceitava tal condição.

As críticas aos meios de comunicação têm se tornado mais freqüentes pelo menos nos últimos dois anos. Não deixa de haver, todavia, aqueles que defendem a atuação da imprensa e que vêem exagero por parte de seus críticos. No caso da saída do ombudsman, porém, não se tem visto manifestações por parte daqueles que ainda têm alguma coragem de defender os meios de comunicação. Em vez de buscar confirmação do que dizemos nos órgãos independentes, talvez valesse a pena uma visita à seção de cartas da própria Folha (do jornal impresso e também do Folha Online), para se ter a dimensão do repúdio à situação que provocou a saída de Mário Magalhães.

A figura do ombudsman foi uma idéia bem-vinda desde a primeira hora. E a publicação, no site, da crítica diária do titular do posto era uma maneira de o leitor acompanhar as ressalvas e elogios à correria do dia-a-dia de um jornal. Por meio da crítica diária, poder-se-ia até voltar a ler uma matéria, para confirmar ou para entender melhor as assertivas do ombudsman. Está certo que talvez internamente não ajudasse muito na qualidade do jornal, haja vista que, em memorável texto de crítica semanal, o próprio Mário Magalhães comparou o ombudsman a “peito de homem”: existe, mas ninguém sabe se serve para alguma coisa! Mas independentemente da falta de ressonância das críticas na redação, ninguém poderia deixar de reconhecer que a medida era um oásis de transparência no jornalismo brasileiro.

E agora, como é que fica o discurso da transparência? A Folha decerto que não poderá mais encampá-lo. O já citado destaque que as seções de cartas deram aos leitores que reclamavam da saída de Magalhães certamente que faz parte de uma tentativa desesperada por parte do jornal de reafirmar sua independência, sua clareza de propósitos, sua abertura a críticas etc.

Muitos enxergaram na determinação de não mais permitir a publicação da crítica diária um ardil por parte da Folha, que provavelmente sabia que o ombudsman não aceitaria tal imposição. O jornal talvez não quisesse mesmo era a continuidade de Mário Magalhães. Afinal, não deve ser nada fácil ter que aturar alguém freqüentemente apontando a parcialidade do jornal, a blindagem em relação a José Serra, a falta de tom crítico ao PSDB, a inexplicável diferença de tratamento ao atual e ao anterior Governo Federal etc.

O jornal já tem um novo ombudsman? Se tem ou deixa de ter não faz mais nenhuma diferença. Por mais que um novo titular consiga adquirir a confiança do leitor, sempre ficará uma pulga atrás da orelha: “será que por baixo dos panos esse cara não acata imposições da diretoria do jornal?”, é o que bem pode perguntar um desconfiado leitor.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Será que novos editoriais de primeira página virão?

Finalmente o Movimento dos Sem-Mídia informa que pretende fazer representação junto ao Ministério Público contra determinados órgãos de imprensa que supostamente provocaram pânico na população, noticiando uma epidemia de febre amarela, sempre negada pelo Ministério da Saúde, que teria levado pessoas a se vacinarem desnecessariamente, expondo-se assim aos riscos e aos efeitos colaterais da vacina.

Este escriba, tanto neste blog, quanto em missiva encaminhada à Folha, em trecho não publicado no “Painel do Leitor”, já apresentara a desconfiança de que o editorial de primeira página, “intimidação e má-fé”, publicado em 19 de fevereiro último, tinha menos a preocupação de reclamar dos possíveis abusos do direito de demandar por parte dos fiéis da Igreja Universal do que o de já se acautelar contra os prováveis processos que poderia sofrer por conta dos exageros cometidos em um caso de saúde pública. (Registre-se que o próprio jornal reconheceu em editorial o despropositado alarmismo midiático sobre a febre amarela, e acerca do episódio sofreu crítica interna de seu próprio ombudsman).

Se a própria Folha ou outros órgãos de imprensa citados pelo MSM não se manifestarem, certamente não faltarão os “observadores” de sempre para lhes tomar a dor, afirmando que se trata de um ataque à liberdade de expressão e ao direito à informação dos cidadãos. Tudo bem! Desde que a “liberdade de expressão” inclua a instauração do pânico entre a população divulgando uma epidemia inexistente, e desde que também se pense que o cidadão tenha o “direito” a ficar informado de que deve tomar uma vacina sem ser avisado dos riscos a que pode estar, desnecessariamente, se expondo...

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Lute pelos seus direitos! Mas nunca processe a "Folha", tá?!

O jornal Folha de São Paulo causou espécie com o seu editorial de primeira página do dia 19 intitulado “Intimidação e má-fé”, no qual repudia ações judiciais promovidas em todo o Brasil por seguidores da Igreja Universal do Reino de Deus que teriam se ofendido com reportagem da jornalista Elvira Lobato sobre atividades da organização. O jornal aproveita para denunciar a possibilidade de cerceamento da liberdade de expressão e reafirma seu compromisso com o direito dos cidadãos à informação.

Difícil não receber tal iniciativa com alguma desconfiança.

Se os cidadãos têm o sagrado direito à informação, têm-no também de buscar socorro no Judiciário quando achar que convém. Como bem disse Wilson Bolognesi, no “Painel do Leitor” de 20-02-2008, “se o sistema permite as ações, a Folha que se defenda com as regras da lei”. Há, porém, situações em que as pessoas podem abusar do direito de demandar. E, com efeito, já há alguns fiéis da Universal que vêm sendo condenados por litigância de má-fé nesse episódio. Isso deveria ser um motivo a mais para o jornal despreocupar-se das ações que lhe vêm sendo apresentadas em todo o país, haja vista o reconhecimento, por parte do “sistema”, da impertinência de algumas delas.

Não se pode também valer-se da liberdade de expressão como um escudo. Diga-se, aliás, que sempre que aparece alguém tentando propor algum tipo de regra ao setor de comunicações, usando para isso os notórios exemplos de abuso da mídia, sempre surge um outro que diz bastar aos que se sintam ofendidos ou injustiçados que procurem reparação judicial nos moldes em que reza a Constituição. Perfeito! Como disse um velho conhecido meu (conhecidíssimo, aliás!), que também teve a honra de ver sua mensagem publicada no “Painel do Leitor”, “o jornal deve estar preparado para as reações que suas reportagens suscitam”. Ou como disse de forma bem mais didática o presidente Lula, em fala reproduzida na mesma edição de 20 de fevereiro, “quem fala o que quer, ouve o que não quer”. É isso mesmo: é esse o Estado de Direito de que tanto gostamos! A liberdade de imprensa pressupõe responsabilidade; logo, ela não é um fim em si mesmo, antes podendo provocar respostas dos mais diversos matizes e nas mais variadas instâncias.

O jornal - e parece que de certo modo alguns juízes também - vê no “milagre da multiplicação de ações” de fiéis em todos os rincões do Brasil uma tentativa de impor dificuldades à defesa, obrigando a jornalista responsável pelas matérias a deslocar-se para os mais diversos pontos do país para prestar esclarecimentos e coisas do gênero. Ora, mas a Folha de há muito que não é "de São Paulo", mas de todo o Brasil! O jornal, aliás, não raro se mostra bastante orgulhoso da influência que exerce em todo o país. Se amanhã o governador do Amazonas, por exemplo, der uma entrevista em que cite a Folha para confirmar ou negar algo, o jornal soberbamente reproduzirá suas palavras. Mas quando leitores do interior do Acre, valendo-se de prerrogativas que a lei lhes permite, recorrem à Justiça contra a mesma Folha é porque estão sendo instados por seus pastores ou porque estão participando de um ardil orquestrado? É simples, Folha de São Paulo: limite a sua circulação à cidade onde fica a Alameda Barão de Limeira, e certamente as petições em nível nacional tenderão a rarear!

O editorial fala em intimidação. Mas não seria o caso de perguntar se ele próprio, o editorial, não tem a tentativa de intimidar, não os juízes, figuras independentes por definição, mas possíveis futuros litigantes dentre a gente comum? É bom lembrar que houve alguns exageros na imprensa sobre a questão da febre amarela, por exemplo. Houve quem morresse por reações à vacinação; houve quem corresse risco de morte por dupla vacinação; houve quem se expusesse a riscos em regiões endêmicas por não conseguir vacinas em certos locais, por culpa da aplicação desnecessária em pessoas alarmadas pela mídia. Algumas organizações já manifestaram a intenção de acionar judicialmente órgãos de imprensa e alguns jornalistas pela conduta irresponsável no episódio. Será que a Folha está se antecipando ao fato e, desse modo, pretendendo “intimidar” os que vierem a processá-la por este ou qualquer outro motivo?

Disso tudo se depreende que a tal imprensa burguesa não serve nem para ser liberal. Senão vejamos: uma jornalista séria e competente pesquisa, investiga e produz uma boa matéria; um jornal supostamente sério a publica, expondo-se às reações que sua iniciativa pode provocar; pessoas que se sentem ofendidas buscam reparação na Justiça, dispondo-se também a responder por seus atos; juízes em todos os grotões do país vêm decidindo ou tomando as medidas cabíveis. Em suma, o sistema funciona perfeitamente de acordo com o que se chama Estado de Direito. Tudo muito simples: não merecia, jamais, um pomposo editorial de primeira página! A não ser que a intenção tenha sido realmente outra...