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domingo, 24 de novembro de 2013

Desculpe-nos. Daqui a 50 anos!

Comecemos repisando: a Ação Penal 470, vulgo "mensalão", é revestida de grande polêmica entre políticos e juristas, inclusive de muitos não simpáticos ao principal partido e aos maiores nomes nela implicados. Há quem questione o próprio crime (no sentido penal), seus procedimentos, o modelo de julgamento, as teses utilizadas para condenar, a dosimetria adotada etc. Como não poderia deixar de ser, novas críticas seguiram ao mais recente capítulo: a execução das penas.

As críticas à prisão em regime fechado mesmo de condenados não necessariamente a tal pena foram igualmente encampadas por gente das mais diversas colorações. A medida, no entanto, foi muitíssimo festejada pela chamada grande imprensa. Salvo as exceções que confirmam a regra, só se viram alegrias, bravatas e lições de moral na maioria dos editoriais, manchetes, capas e colunas. Não faltou nem mesmo quem imprimisse ao caso um sentimento de esperança, do tipo "é só o começo; virão condenações para todos os malfeitos e de todos os partidos", de modo a disfarçar o revanchismo ou sectarismo.

O rigor científico exige que evitemos, ao máximo, comparar coisas que são essencialmente diferentes. Comparar o julgamento do chamado mensalão com o Golpe de 1964, por exemplo. A simples ideia de classificar o "ponto fora da curva" - como disse o ministro Barroso -, que caracteriza o julgamento, como sinal de golpe já é uma atitude ousada, que talvez só o velho tempo poderá bem dimensionar. Há, porém, exemplos que permitem passear pela hipótese.

Diferentemente das décadas de 1960 e 1970, as elites latino-americanas não vêm usando os militares para tentar compensar a impopularidade de suas ideias e seus desejos. Atualmente, a preferência vem recaindo pelas estruturas do Judiciário. O caso mais marcante foi o golpe em Honduras pela iniciativa da Suprema Corte do país, seguido da deposição em tempo exíguo do presidente Lugo, no Paraguai, que teve seu impeachment referendado, em tempo igualmente rápido, por sua Corte maior. Ressalte-se que questões de interesse popular na Argentina e na Venezuela, também recentemente, só não sofreram reveses judiciais porque em ambos os países houve preocupação com a coloração das supremas cortes -  tal espaço foi compreendido, por Chávez e pelos Kirchners, como elemento fundamental da arena política.

O que mais permite a comparação com 1964 é mesmo o já mencionado comportamento da mídia. O clima de torcida e agitação após a "vitória" saboreada pelo encarceramento dos "mensaleiros" assemelha-se, guardadas as proporções, ao tom expresso nas manchetes após o Golpe Militar de fim de março e início de abril de 1964. Alguém estranharia, hoje, se lesse em alguns de nossos jornalões, embaixo de uma foto de Dirceu ou Genoino preso, algo do tipo "vive a Nação dias gloriosos"? Para entender melhor, veja a compilação do sítio Carta Maior.

Passados muito poucos anos, alguns dos órgãos de imprensa que celebravam 1964 já sentiam na pele o que aquele movimento significava. Em seguida, muitos passaram a surfar noutras ondas, vendo que o processo de abertura era irreversível. Outros estiveram até o fim com os militares, coerentes com sua posição. Todavia, estes últimos, passados quase 50 anos do golpe e perto de 30 da despedida do regime, após sofrer ataques verbais nas ruas, entenderam por bem fazer um "mea culpa", demonstrando relativo arrependimento pelo embarque naquela empreitada.

Muita coisa ainda deve ser escrita e reescrita sobre o tal mensalão. A história é intrincada: envolve vingança, há de fato crimes eleitorais, existe o componente dos vícios do sistema político, jogos de interesse etc. Não obstante tudo isso, o que mais vai saltar aos olhos será o sacrifício de figuras e funcionários públicos com o fim de se fazer um grande espetáculo de que o País, em algum sentido movido por motivos nobres, estava sedento por assistir. Noutras palavras, o "ponto fora da curva" nada mais é do que um refinado eufemismo para julgamento de exceção. E tem gente - inclusive doente - indo presa, após medida arbitrária, com o fim de saciar o desejo de sangue dos bombardeados pelo discurso midiático e a fome de vingança dos derrotados nas urnas.

Um julgamento de exceção, assim como regimes de exceção, tem tudo para ser execrado um dia. Impossível prever em quanto tempo. Quando esse dia chegar, alguns dirão que foi para evitar males maiores ou que houve uma tentativa de se moralizar a política a qualquer custo, ainda que por meio de uma injustiça. Mesmo que forçados, alguns talvez peçam desculpas. Tomara não seja necessário esperar 50 anos!


sábado, 11 de agosto de 2012

O imprensalão


Que papelão da imprensa, hein?

Nos últimos meses, matérias enviesadas e colunistas e âncoras raivosos estavam conseguindo me convencer de que havia, de fato, um  clamor pelo julgamento do chamado mensalão. Um clamor decerto subterrâneo e silencioso, já que eu não ouvia muita gente dando bola para o assunto. De todo modo, muitas das ondas e movimentações sociais ocorrem na surdina, na moita, o que dava verossimilhança à gritaria acerca do irrefreável desejo da opinião pública em assistir ao "julgamento do século".

Pois bem. Iniciado o julgamento, com barulheira, matérias especiais, cadernos especiais, discussões com especialistas etc.,  e o que se vê? Tirando os muito politizados e os interessados de sempre, ninguém está dando a menor bola. A bem da verdade, nem mesmo os mais politizados parecem estar muito entusiasmados com o assunto.

Conclui-se disso que colunistas, diretores de jornalismo, âncoras, redatores, editorialistas mentiam e manipulavam, com a clara intenção de "meter a faca no pescoço" do STF, ou seja, pressionar a instância máxima do Judiciário brasileiro. Tudo bem pensando com o fito de contaminar o processo eleitoral deste 2012.

Agora o pior.

Iniciado o julgamento, com pompa e circunstância, depois de todo o bombardeio midiático e o inegável prejulgamento dos "mensaleiros" e da "quadrilha" denunciada pela Procuradoria-Geral da República, a impressão que dá é a de que, dada a voz ao contraditório, o jogo começa a virar de forma até um tanto humilhante para os algozes.

Posso estar enganado, mas a sensação é a de que as defesas estão, de modo geral, dando um show, desbancando com folga a acusação, e principalmente estão contando um lado da história que a imprensa sonegou ao público durante esses anos todos, o que neste particular é um belo tapa na cara dos meios de comunicação, sempre muito preparados a encher a boca para falar de democracia.

Mas o que mais me intriga é que, enfraquecidas as teses da acusação como parecem estar, não se vê a outrora dedicada imprensa, com seu jornalismo investigativo e blá blá blá, vir a campo para contra-atacar, mostrando que o tal mensalão realmente existiu, que foram compradas, sim,consciências de congressistas, que aquele foi, realmente, o "maior escândalo de corrupção da história do Brasil".

É claro que, como todos sabemos, o que realmente vale, para a Justiça, é o que está nos autos. Mas não é possível que a imprensa que falava do tal mensalão com tanta carga emotiva, com termos tão grandiloquentes, simplesmente não tenha, agora, nada para mostrar.


De qualquer forma, como bem disse um advogado famoso anos atrás, "de bumbum de neném e de cabeça de juiz não se sabe o que pode vir". Portanto alguns dos dorminhocos ministros do STF podem até achar que houve mensalão mesmo, que é todo mundo tão ou mais criminoso do que a mídia havia assegurado, que a "opinião pública" quer resposta exemplar etc etc etc. De todo modo, é difícil apagar a impressão de que a imprensa, neste caso, se prestou a um dos papéis mais ridículos de sua história. E olha que não foram poucos, hein?!

Leia também:

"Mensalãodependentes"

domingo, 30 de outubro de 2011

Imprensa: crise de identidade e necessidade de autoafirmação

Quando num futuro talvez não muito distante historiadores se debruçarem sobre os dias de hoje no Brasil, não faltarão os que não hesitarão em afirmar que nesta era o País vivia sob uma ditadura midiática.

O caso envolvendo o já ex-ministro dos esportes Orlando Silva ainda vai ser motivo de estudo e decerto vai ser marcado como dos mais grosseiros atos de injustiça de nossa história. De quebra, ainda será marca registrada da pusilanimidade do governo brasileiro de plantão.

Roteiro estúpido: requentam-se, via revista de grande circulação, por intermédio de um sujeito enrascado com a Justiça, acusações que já vinham sendo objeto de investigação; acusa-se o então ministro de, in person, receber dinheiro numa garagem qualquer; o sujeito fala que vai apresentar provas no momento oportuno; não se apresentam as provas; a imprensa parte para o linchamento, sinalizando estar num braço de ferro com o governo; Procurador-Geral e Supremo Tribunal Federal, após pedido do próprio Orlando Silva, entram na jogada, usando de suas atribuições normais; a mídia vale-se dos expedientes legais instalados - normais, repetimos -, para intensificar os ataques ao ministro; depois de uma semana de resistência, Orlando Silva joga a toalha e apresenta a demissão.

Se o governo brasileiro teve um comportamento covarde no caso, a oposição, por sua vez, só para variar também agiu de forma patética, deixando bem claro que, conforme repetido ad nauseam, o verdadeiro partido oposicionista hoje é a mídia: sem a pauta da imprensa, a ausência de discurso dos políticos oposicionistas transformá-los-ia em verdadeiras nulidades.

A falta de limites da imprensa
Por que estaria a imprensa agindo de forma tão tresloucada? Seria em razão de uma sanha golpista descontrolada, como acusam alguns? É caso de antipetismo doentio? Não mira tanto Dilma, antes pretendendo atingir o ex-presidente Lula, querendo a todo custo anulá-lo em 2014?

Há um pouco de tudo acima. Mas nessa operação “derruba-ministros em série” a mídia vetusta parece estar, antes de tudo, tomada, a um só tempo, dos demasiadamente humanos dramas conhecidos como crise de identidade e necessidade de autoafirmação.

Houve um tempo em que se construíam consensos, de forma paulatina, através da imprensa. O chamado “efeito pedra no lago” era uma realidade. Burburinhos se espalhavam, por assim dizer, em camadas: começavam nos grandes centros urbanos com os que liam jornais, até, aos poucos, ganhar os grotões. Os roteiros políticos eram previsíveis.

O fenômeno Lula mostrou que a coisa mudou. Em 2002, pode-se dizer que a imprensa fez um pouco de “corpo mole”, pois havia uma ideia no ar de que, mais cedo ou mais tarde, o Partido dos Trabalhadores levaria a presidência da República, de modo que se tivesse que acontecer, que acontecesse logo; ademais, o “previsível” fracasso do governo petista enterraria as pretensões futuras do partido. A situação em 2006, todavia, desconcertou os que acreditavam já estar o roteiro estabelecido. Sofrendo campanha sórdida, desde o chamado mensalão, ainda assim Lula conseguiu resultado expressivo na sua reeleição contra o candidato do império midiático, obtendo especialmente o voto dos mais pobres e da população das regiões mais afastadas do País, que não deram bola para os esforços dos coronéis da velha imprensa.

Em 27 de dezembro de 2006, capa da revista CartaCapital estampava: “É o fim dos grotões, enquanto só nas classes A e B há quem vote de cabresto”. Em belo texto daquele número, assim expressou-se o jornalista Mino Carta:

(...) O vetusto voto de cabresto, destinado pelos donos do poder ao povo dos grotões, onde quer que os houvesse, mostrou valer, este ano, só mesmo nos rincões das classes A e B, onde a mídia ainda chega, sobretudo em São Paulo, o estado mais rico, ou menos pobre, e mais reacionário da Federação.” [Edição nº 425].


Em 2010, novamente a influência da velha mídia não conseguiu avançar além do andar de cima dos grandes centros urbanos, insistindo as águas dos lagos em ficar paradas, apesar das inúmeras pedras que lhes eram atiradas: o seu candidato, já derrotado em 2002, figura de importância histórica no cenário brasileiro, perdeu fragorosamente para um “poste” ungido por Lula.

A pauta da corrupção – somente no governo federal -, com consequente exploração de irregularidades em ministérios – certamente existentes em quaisquer secretarias estaduais e municipais do País -, trouxe para a mídia, neste 2011, a sensação de que pode ainda ter alguma relevância. Conseguir derrubar ministros, mais do que uma prática “esportiva”, virou questão de honra. Os jornalistas Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues, entre outros, jactam-se do fato de o governo vir fazendo sua faxina supostamente na cola da barulheira midiática: é como se dissessem algo do tipo “não elegemos presidente, mas determinamos o rumo desse governinho incompetente e indicamos o único caminho possível da oposição... idem!”.

Perigos?
Bobagens de adolescentes (necessidade de se autoafirmar), dificuldades de homens de meia-idade (crise de identidade), "prática esportiva", questão de honra. Seja lá o que for, a grande verdade é que o resultado do troca-troca de ministros, por pressão e capricho da imprensa, tem sido o de deixar o governo federal na defensiva. Pior é que o caminho escolhido é do discurso fácil e ao mesmo tempo sem foco do combate à corrupção, que virou uma espécie de tema único nos debates sobre o País. Não por acaso, essa onda moralista vem sendo devidamente chamada de neoudenismo.

Eis o risco: a velha UDN foi o braço civil do golpe de 1964. A oposição sem discurso parece estar se deixando gostosamente levar por tal fantasma. Temos visto marchas meio disformes para lá e para cá, e a grita acerca da corrupção parece ser o último “bastião” de uma oposição que age como se tivesse perdido o bonde da história. Essas são justamente as horas propícias a aparecem aventureiros e justiceiros, sempre com o apoio do império dos meios de comunicação.

Não parece razoável classificar de neuróticos os que veem golpismo no agir dos grandes grupos de mídia. Além do prestígio de outrora, tais grupos andaram nos últimos tempos perdendo grana também, em vista da ampliação do rol de veículos que passaram a receber verbas publicitárias federais. Sob ditaduras, os grandões faturaram mais. Portanto...

Crise de identidade e necessidade de autoafirmação geralmente deixam traumas. Cuidemo-nos, pois.

domingo, 15 de agosto de 2010

Ação e reação

A presença firme de Dilma Rousseff no Jornal Nacional de 9 de agosto de 2010, respondendo de forma segura aos ataques desferidos pelo casal apresentador do programa, pegou de calças curtas não somente os políticos da oposição, como também aqueles que fazem a "verdadeira oposição" no Brasil, a saber, os dedicados escribas da mídia.

Durante todo o tempo, representantes da oposição (política e midiática) vinham apostando em tropeços da candidata do PT quando tivesse, na TV, que se deparar com o contraditório. O desempenho apenas razoável que ela teve no debate da Band, muitíssimo longe de ser o desastre com que muitos sonharam, não deixou de dar algumas esperanças às hostes oposicionistas. Daí talvez a rápida reação contra a boa participação da petista no principal telejornal do País.

Dora Kramer e as "mentiras" sobre a inflação de 2002
Em coluna de O Estado de São Paulo de 11 de agosto de 2010, a jornalista Dora Kramer afirma que Dilma "mentiu ao se referir a inexistente descontrole inflacionário em 2003", no JN. Em verdade, a colunista quis dizer 2002, o último ano do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Pois é. Dilma não mentiu, Dora. Pelo menos não "necessariamente". Em 2002, para uma meta de 3,5% ao ano, a inflação efetiva, pelo IPCA, foi de 12,53% ao ano, ou seja, já passada a sempre temível casa dos dois dígitos. Disse eu que Dilma não "necessariamente" mentiu, porque é, com efeito, uma questão subjetiva considerar 12,53% ao ano como uma inflação descontrolada. Quero com isso dizer que não estranharia ouvir alguém que não considerasse pouco mais de 12% de inflação como exemplo de descontrole de preços. Lembro, no entanto, que não foram raros nos últimos anos o terror perpetrado pela mesma imprensa de Dora Kramer sempre que os índices de inflação anualizados ultrapassavam em décimos de ponto percentual o centro da meta estipulada pelo Banco Central - eu disse o "centro" da meta e não a meta em si. Imagino que uma boa parcela dos leitores hoje teria ataque cardíaco com uma inflação de 12,53%!

Quem quiser conferir os números da inflação de 2002 e compará-la com os de outros anos, ainda nos anos FHC e já na era Lula, favor clicar aqui: http://www.bcb.gov.br/Pec/metas/TabelaMetaseResultados.pdf

Por falar em entrevistas no Jornal Nacional, guardo bem na memória a vez do então candidato Lula em 2002. Uma das perguntas feitas por telespectadores versava justamente sobre a inflação, que já assustava no período de campanha. No debate final com José Serra, também na Globo, uma das convidadas também perguntou aos postulantes sobre a inflação daquela época, acrescentando que "estava muito preocupada". Pelo jeito, o dragão só não fazia parte dos medos de Dora!

E perguntar não ofende: se é verdade que, em 2002, com mais de 12,5% de inflação, a coisa não estava descontrolada, será que, quando se faz um carnaval acerca de qualquer singelo aumento de preços, a imprensa no fundo não quer apenas forçar a elevação dos juros? Com a palavra, a jornalista Dora Kramer.

Miriam Leitão procurando culpados
O Blog Cidadania, de Eduardo Guimarães, comentou e reproduziu texto de Miriam Leitão, publicado no jornal O Globo também em 11 de agosto de 2010, igualmente sobre a participação de Dilma Rousseff no telejornal campeão de audiências e seguindo a mesma trilha de Dora Kramer. Veja o post do Eduardo aqui: http://www.blogcidadania.com.br/2010/08/historias-do-pig-para-boi-dormir/

Miriam esperneia, mas, de certo modo, admite que a inflação na casa dos 12% de 2002 era algo, por assim dizer, "fora do script", para não dizermos fora do controle, haja vista que ela também rechaça essa tese - justo ela, que é das que mais veem inflação em qualquer solucinho de preços! Todavia, a culpa do aumento de preços não era do governo do presidente FHC, afirma a jornalista, mas sim do candidato e presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, que, amedrontando o mercado, provocou a disparada nos preços.

Eis uma tese risível e que expõe o amadorismo dos jornalistas brasileiros. A coisa ficaria mais fácil se eles admitissem seu partidarismo. O problema é que tentam posar de imparciais. Estranho é não se atentarem às suas contradições e, pior ainda, é acharem que o leitor é estúpido o suficiente para não perceber.

Veja bem, caro leitor: quantas vezes já não vimos reverberar a tese de que todo o sucesso do governo Lula é, no fundo, mérito de FHC? Pois bem. A mim me parece um tanto paradoxal: o que é bom no governo Lula deve ser creditado a Fernando Henrique Cardoso, mas o que foi desastroso no ocaso do governo FHC foi culpa do Lula?!

Respondam-me: como levar uma colunista dessas a sério?

Josias de Souza não pode
O experiente repórter e blogueiro da Folha de São Paulo Josias de Souza foi escalado para analisar o desempenho dos presidenciáveis na série de entrevistas a William Bonner e Fátima Bernardes. Já no dia 10 de agosto de 2010, o jornalista acusou a preferida de Lula de tergiversar sobre assuntos importantes, especialmente acerca de alianças estranhas do PT, notadamente com gente como o presidente do Senado Federal, José Sarney.

Acho extremamente divertido quando vejo alguém dos quadros da Folha pegando no pé de Sarney. É que o bigodudo conta com uma coluna cativa na nobilíssima página de opinião do jornal há mais de década. É de estranhar que o mesmo periódico que abriga gente tão impoluta e desinteressada como um Josias de Souza abra espaço tão nobre para figura tão desprezível quanto o ex-presidente da República José Sarney.

Em verdade, o imortal Sarney, mais do que aliado de Lula e Dilma, é, em verdade, um quase colega não somente de Josias, mas de Clóvis Rossi, Eliane Cantanhêde, Fernando Barros e Silva etc. A diferença do Sarney para o Josias, na corporação Folha da Manhã S.A., é que o maranhense conta com muito mais liberdade para escrever, podendo até, como no seu artigo da sexta-feira 13 de agosto de 2010, falar de um certo "populismo midiático". Já o Josias, tem que medir um pouco mais as palavras, sempre pensando em não desagradar o patrão.

Enfim, sem tergiversações: deixa a Dilma se aliar também ao seu colega Sarney, meu caro Josias!

Leia também:
Os 6 (seis) anos do Plano Real
Imprensa comum

sábado, 17 de abril de 2010

A primeira semana de 2010

Com o lançamento da pré-candidatura do tucano José Serra, quase dois meses após do da petista Dilma Rousseff, o quadro das eleições presidenciais de 2010 definitivamente fica mais induvidoso, com a possível repetição da polarização - PT e PSDB - que marca a política nacional desde 1994.

Mais do que nunca, a mídia se destaca como figura importante, atuante, da pendenga. Dessa feita, a afirmação não parte das constatações de analistas independentes ou de políticos ligados à esquerda ou à base de Lula, mas da própria presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Maria Judith Brito, que admitiu, sem qualquer cerimônia, que a imprensa atua como um "partido de oposição". Confira a declaração dela, com os nossos grifos:

A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo.

A confissão da presidente da ANJ apenas reforça o que todos no fundo já sabiam. Agora, que a campanha já começou, já dá para perceber a tônica de como a disputa se dará (aparecerá) na mídia: crítica virulenta ao governo Lula, esforços para tornar negativa a agenda da candidata Dilma e, por fim, simbiose entre imprensa e candidato da oposição.

Peguemos alguns fatos (ou factoides) da semana e sua divulgação (análise) nos meios de comunicação.

Quem ignora quem?
A Folha de São Paulo, em 14.04.2010, veio com a seguinte manchete: "Obama ignora Lula e pede sanções imediatas ao Irã". A chamada principal de O Estado de São Paulo na mesma data foi "Obama ignora Lula e mantém pressão por sanções ao Irã". As manchetes quase idênticas, além de darem uma boa pista da "diversidade" no império midiático, comportam uma dificuldade para os diários paulistanos, genuínos depositários do complexo de vira-latas brasileiro, na feliz expressão de Nelson Rodrigues.

Com efeito, levando em conta que temos um presidente da República não raro admoestado nos editoriais dos mesmos jornalões por sua soberba, sempre convidado a lembrar-se de nossa desimportância, fica estranho de repente incluí-lo entre os que tiram o sono do chefe de Estado mais importante do mundo, mandatário-mor da nação mais influente do planeta. Se Lula é somente um megalomaníaco a quem ninguém dá ouvidos, por que justo o Obama esquentaria a cabeça com ele, ainda que fosse para ignorá-lo, a ele se opondo? Mais sensato, parece-nos, seria a nós dispensar a indiferença com a qual toda a vida nos acostumamos.

A melhor leitura do caso parece ter sido a do historiador Gilberto Maringoni, que em depoimento ao sítio Carta Maior sugeriu que seria mais prudente a inversão das manchetes da Folha e do Estadão para algo do tipo "Lula ignora Obama e mantém negociações com o Irã". Em nossa opinião, Maringoni mandou bem e venceu o jogo no próprio campo dos principais jornais de São Paulo. Afinal, como ser crítico feroz da política externa do governo Lula reconhecendo de forma tão categórica a importância internacional das posições adotadas pelo País?

Ah, só para lembrar, os principais críticos do governo Lula, incluindo a mídia, depositam esperanças na possibilidade de que a oposição, se vitoriosa, mude os princípios independentes e assertivos da atual política externa brasileira.

O "problemão" de Dilma
No mesmo 14.04.2010, o Estadão avisa que Dilma tem problemas com alianças em 15 estados da Federação, o que atingiria, pela conta do jornal, 63% do eleitorado brasileiro. Sabe a que se resume o problema da candidata do PT, caro leitor? Ao excesso - isso mesmo, "excesso" - de palanques!

Acredite se quiser, amigo (e)leitor: o que talvez fizesse Serra abrir alguns de seus raros - e pouco francos - sorrisos é, segundo o centenário jornal paulistano, um problemão para a candidata Dilma. Deve ser verdade. Já imaginaram se a ex-ministra tiver que, na mesma semana, visitar o candidato a governador X às segundas, quartas e sextas, e nas terças, quintas e sábados precisar subir ao palanque com o candidato Y, ferrenho adversário de X? Que confusão! Imagina a ciumeira entre eles!

Como bem definiu o deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ) em interessante postagem em seu blog, trata-se de um caso de wishful thinking do Estadão, ou seja, vejo as coisas na ótica que entendo ser mais favorável para mim ou como gostaria que elas se revelassem. Na dura realidade, porém, o excesso de aliados nos estados não é problema de Dilma Rousseff; a falta deles é que é para Serra.

O que foi que você disse?
O dia 14.04.2010 parece ter sido profícuo no discurso unificado da imprensa. Na mesma data, dessa vez na Folha, o colunista Fernando Rodrigues comenta a polêmica, disseminada na mídia, sobre frase que, aliás, não foi dita por Dilma Rousseff. A petista, em discurso no ABC paulista, falou generalidades acerca de não abandonar a luta. Alguns interpretaram como críticas aos que se exilaram durante o período militar, como é o caso de Serra. Pior do que isso, a mesma Folha transcreveu incorretamente o que disse a ministra, incluindo trecho sobre exilados em sua fala, o que de fato não ocorreu.

O mais interessante, porém, foi Rodrigues puxar a orelha da petista, buscando ensinar-lhe que, em política, "tudo o que precisa ser explicado não é bom". Acrescentou que "Dilma Rousseff tem se explicado muito". Teorizou que "são apenas sinais da inexperiência de Dilma quando se trata de ficar sob a tensão de uma campanha".

Rodrigues deve estar de brincadeira. Brincadeira pior do que quando, no programa Roda Viva com Protógenes Queiroz, sugeriu que agentes secretos deveriam fazer seu trabalho revelando a identidade! A questão é simples: Dilma precisa se explicar muito porque dela são cobradas explicações, inclusive sobre fatos inverídicos. Suas falas "reais" não revelam inexperiência em campanhas; somente são frases fortes que chamam, naturalmente, a atenção na mídia, que quer a ela impor uma agenda negativa a todo custo - e não é de hoje, diga-se. À candidata, nada resta senão apagar os incêndios, os quais a muitos sequer deu causa. Não é justo, mas é assim que as coisas funcionam. Infelizmente.

Do outro lado, do candidato José Serra não são cobradas explicações. Por exemplo, o que fez a imprensa quando o governador soltou os cachorros para cima de repórter da TV Brasil que lhe fez pergunta incômoda numa coletiva de imprensa? Absolutamente nada. Ora, seria o caso de tentar ver se a sua defesa da liberdade de imprensa, cantada em prosa e verso inclusive no lançamento de sua candidatura, é para valer mesmo ou se, em caso de ser eleito, os jornalistas terão que lhe fazer apenas as indagações que lhe agradem.

Em resumo, não é Dilma que tem tido de se explicar muito. É Serra que não tem explicado nada.

Pitta estava para Maluf como Kassab está para Serra
Serra, como é de todos sabido, é o candidato da oposição mas, esquizofrenicamente, não quer fazer oposição a Lula. Vai entender...! Aposta tudo na comparação de sua biografia com a da ex-ministra. Ademais, ele está no melhor dos mundos, pois enquanto preserva o presidente brasileiro, seus jornalistas amigos trabalham arduamente para não somente fazer balanços negativos do governo como, especialmente, esconder os dados positivos, dentre os quais, a criação recorde de empregos no primeiro trimestre. É um bate-bola perfeito!

Vejamos a que ponto chega a tentativa de fugir do debate de projetos. Em entrevista à rádio Bandeirantes, para fustigar a candidata "desconhecida" do presidente mais popular da nossa história, o ex-governador valeu-se do exemplo do falecido Celso Pitta, o fracassado ex-prefeito de São Paulo, um "estranho" que se elegeu no vácuo da boa avaliação de Paulo Maluf. Serra, ainda por cima, aproveitou a ocasião para elogiar a administração de Maluf, concluindo que nem sempre a criatura repete o criador.

Primeiramente, observemos que boa parte das declarações na política não é feita de forma tão desinteressada. Com a simpática referência a Maluf, Serra pretende, num primeiro momento, reforçar a imagem positiva que vem obtendo junto ao eleitorado mais conservador, às vezes até de extrema-direita. No vale-tudo eleitoral, não dá para dispensar os velhos entusiastas do "rouba-mas-faz" e coisas do gênero; e não importa que tenham, Serra e Maluf, militado em lados opostos durante as respectivas trajetórias políticas. Todavia, não é isso o mais intrigante nesse caso.

O curioso, sem dúvida, é que Serra também tem o seu "Pitta". E o mais interessante é que se trata de um homem que foi, ironicamente, secretário de planejamento justamente do falecido ex-prefeito. Estamos a falar, é claro, do atual prefeito paulistano Gilberto Kassab. Político pouco conhecido, de partido sem grande representatividade em São Paulo, Kassab herdou a prefeitura porque Serra, descumprindo promessa de campanha, a abandonou para disputar o governo do estado. Já para a sua reeleição, o alcaide contou com o apoio velado de Serra, que traiu naquela feita o candidato Geraldo Alckmin, num dos mais notáveis casos recentes de cristianização na política brasileira.

Fosse mais corajoso, Serra esqueceria Maluf e Pitta. Para acusar Dilma de "poste", falaria de si mesmo e de Kassab.

Pelo jeito, em sua campanha, o presidenciável do PSDB não se esconderá somente de FHC. Decerto também dará uma de desentendido no caso do implacável Gilberto Kassab. Uns dirão que é deslealdade; outros, cautela.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Veja no além

A mais recente edição de Veja, depois de duas semanas requentando o "caso Bancoop", cedeu ao imenso interesse despertado pelo julgamento do casal Nardoni, no que foi seguida pelos outros hebdomadários, à (honrosa) exceção de CartaCapital. Na capa, a manchete: "Condenados! Agora, Isabella pode descansar em paz".

Em primeiro lugar, seria interessante que a revista nos contasse de onde vem toda essa certeza de existência de vida após morte. Questão meramente de fé. E ingênuos como eu pensam que órgãos informativos supostamente sérios deveriam buscar ser mais racionais... Pior do que isso: pelo jeito a Veja ainda por cima tem acesso direto à alma da garotinha, a qual, afirma, não vinha tendo o devido e merecido descanso. Poder mediúnico ou mera pretensão?

O semanário da Abril, no entanto, não quer ficar apenas no mundo sobrenatural. Tampouco o quer, segundo ele, a garota brutalmente assassinada. A despeito da pouca idade que tinha quando morreu - ou que teria agora -, a pequena Isabella jamais conseguiria descansar enquanto ao caso não se aplicasse a justiça dos homens, com os ritos processuais e condenações prescritos nos códigos, levados em frente sob os auspícios do Direito Positivo. Revistinha esperta: "temos pinta de religiosos, mas com os dois pés fincados no mundo terreno mesmo!".

Já que é Semana Santa, fica a torcida para que a revista não caia na tentação de descer novamente à terra. Que continue no "outro mundo", no "além", uma vez que tem esse privilégio que muitos de nós não temos. E caso desça ao mundo terreno, que não seja para nos torrar a paciência com o já citado "caso Bancoop". Todavia, se for para falar nele - afinal ninguém é de ferro! -, que ofereça destaque ao "pito" que o juiz da causa deu no, por assim dizer, precipitado promotor que cuida do caso!

sábado, 9 de janeiro de 2010

Crise? E que crise, hein?

Nos últimos dias, o Senado Federal voltou a cometer das suas, como destaca texto de Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa:

Sabe-se que o Senado Federal aproveitou a desatenção do público para consolidar alguns privilégios que foram causa de tanto escândalo no ano passado, por conta de medidas secretas e outras maracutaias. Soube-se, por exemplo, que a Mesa do Senado liberou "restos a viajar", autorizando os senadores a utilizar neste ano o saldo das cotas de viagem não usadas em 2009.
Nas edições de quinta-feira (07.01.2010), os jornais tentam recuperar o atraso colocando suas lentes novamente em Brasília, e o Globo chega a publicar um minieditorial alertando que o fato de o Senado ter deixado de aparecer com freqüência no noticiário de escândalos brasilienses "não significa uma licença para prevaricar".

À exceção do "minieditorial" mencionado pelo Luciano, a imprensa, em geral, pouco repercutiu o caso; entre os colunistas políticos em particular, nenhuma indignação. Nada a ver, portanto, com o bombardeio ocorrido durante o evento conhecido como “crise do Senado Federal”, que monopolizava até bem pouco tempo atrás as atenções da mídia e, consequentemente, de parcela da opinião pública.

O presidente Lula, a ministra Dilma e parte da imprensa alternativa denunciavam que havia naquele rompante uma campanha pessoal contra o presidente da Casa, José Sarney, talvez com o intuito de atingir o Planalto. E mais: sugeriam que uma absoluta moralização para as condenáveis práticas seculares da Câmara Alta brasileira não estaria no horizonte da mídia e dos políticos de oposição. Aparentemente, tinham razão...

O atual desinteresse pelas brincadeiras com o dinheiro público, perpetradas pelo outrora vigiadíssimo Senado, deve ser porque as mais recentes reinações da Casa viraram, agora, café pequeno perto das novas crises de plantão. E para a imprensa "golpista", elas não poderiam ser melhores: são crises que envolvem diretamente a - ou chamam a atenção da - cúpula militar, quais sejam, a "crise" da compra dos caças e a do terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos. Se hodiernamente o único poder da imprensa, como denunciou o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, é o de deflagrar crises – e de alimentá-las, acrescentaríamos nós -, não poderia haver nada mais oportuno do que crises que envolvem militares. Afinal, com "fantasmas" assim, quem liga para as sacanagens "reais" do Senado?

domingo, 6 de dezembro de 2009

Imprensa força a barra da imparcialidade

O jornalismo praticado no Brasil deve ser enxergado sob o olhar da desconfiança. A análise dele não é simples. Além do que, é de nossa natureza moderna o hábito de ter dúvida de tudo. Destaco pequeno trecho de trabalho que cometi para a disciplina História da Filosofia Contemporânea, ministrada pela professora Yolanda Glória Gamboa Muñoz para o curso de Filosofia, da Universidade São Judas Tadeu, de São Paulo:

Sob a influência do pensamento de Freud é possível que alguém pergunte o que uma pessoa realmente quis dizer ao proferir algo, ou quais são suas reais intenções por trás das palavras ou, ainda, se “deixou escapar algo”, se cometeu um ato falho etc.; na mesma linha de entendimento, pela influência do pensamento de Marx, não são raras as vezes que se pergunta quais são os verdadeiros interesses por trás de um comportamento, a quem tais interesses atendem ou qual a verdadeira motivação do ato. Por exemplo, no caso de uma guerra, talvez seja mais apropriado aos que a defendem e/ou patrocinam dizer que ela tem o objetivo de depor um ditador sanguinário, encontrar armas de destruição em massa ou instaurar os benfazejos ares da democracia, em vez de dizer que o seu principal interesse são, digamos, reservas de petróleo.

Pedimos desculpas pela ingenuidade das observações, as quais faziam a abertura de atividade que versava sobre o tema “ideologia”, após todo um semestre imerso nos pensadores alemães mencionados na epígrafe.

Convém entender quais são as intenções da imprensa, neste momento difícil pelo qual ela passa, vendo – literalmente – cenas explícitas de corrupção recair nas costas dos seus apaniguados, justamente sobre aqueles que ajudavam a reverberar o moralismo presente em seus editoriais, ao mesmo tempo que municiavam suas editorias de política com CPIs, discursos inflamados e frases bombásticas, especialmente acerca da questão ética.

A verdade é que na última sexta-feira, dia 04.12.2009, os três mais importantes jornais do país trouxeram manchetes sobre a aceitação de denúncia, no STF, contra o senador Eduardo Azeredo, do PSDB de Minas. Até aí tudo bem. A questão está no fato de terem destacado a sigla a que o ex-governador mineiro pertence. Durante todo esse tempo, ao falar de tal escândalo, a mídia referia-se a “mensalão mineiro” ou “valerioduto mineiro”, numa clara tentativa de preservar o partido de José Serra, Geraldo Alckmin e Fernando Henrique Cardoso; na última sexta-feira, porém, falaram em “mensalão tucano” e “mensalão do PSDB”, com todas as letras. O que há por trás do fato de os maiores jornais do País terem, surpreendentemente, feito jornalismo, dando nome aos bois em tão complicado imbróglio?

O primeiro ponto é que não se deve negligenciar o fato de as gravações comprometedoras de corrupção do DEM, velho aliado tucano, terem imposto uma situação vexatória para todos que patrocinaram a atuação de tal partido na cena política brasileira, dando-lhe guarida por ter apoiado FHC, por apoiar Serra em São Paulo, por ser a sigla de Gilberto Kassab na capital paulista e, principalmente, por fazer cerrada oposição ao governo Lula. Em segundo lugar, que não se olvide do fato de que as dores de cabeça que se concentram no Distrito Federal resvalaram no PSDB local, mas ameaçam chegar a políticos das duas siglas em outros estados da Federação, notadamente em São Paulo, complicando a vida não apenas de Serra, mas também do prefeito da capital, Gilberto Kassab. Portanto, a imprensa ficou em situação tão difícil que talvez não fosse mesmo o caso de querer tergiversar numa hora dessas.

Mas não é só isso. O caso dos panetones, dinheiro nas meias, cuecas e tudo mais deu à imprensa a inesperada oportunidade de posar de imparcial: “ora, nós batemos pesado no mensalão do PT, mas agora estamos detonando com o mensalão tucano”. Pois é. Só que nunca haviam qualificado o mensalão de Azeredo como “mensalão tucano” antes. De qualquer forma, para os que não acompanham a imprensa muito de perto, ou que ingenuamente acreditam que o partidarismo dela sempre foi bem-intencionado, do tipo que nada mais era do que uma intransigente defesa da ética, tal argumento vai ser de grande serventia.

A desconfiança nos obriga a enxergar mais coisas por trás disso tudo. A imprensa bem pode estar apenas se antecipando aos desdobramentos do processo contra o chamado mensalão federal, aquele que envolve políticos do PT e da base aliada do governo Lula no Congresso Nacional. Saindo notícias bombásticas sobre tal caso, poderá explorá-las e a respeito delas exagerar à vontade, pois terá nas mãos a “prova” de que falou do mensalão dos outros também. E ninguém ficará contando quantas laudas foram oferecidas a cada um dos escândalos. Ademais, os responsáveis pela mídia já devem estar pensando que na cabeça do eleitor prevalecerá o “crime” mais recente. Fora isso, os barões dos meios de comunicação devem estar acreditando piamente que algum aloprado petista apronta alguma nos próximos dias para equilibrar o noticiário.

No entanto, questões ideológicas costumam trazer implicações mais graves. Vejamos.

O ex-PFL está cheio de oligarcas representantes do atraso, e o PSDB deu, nos últimos tempos, uma boa guinada para o centro-direita. De todo modo, seja como for, são partidos que atuam na via institucional, tendo como maior pecado justamente a terceirização da política que ofereceram à medíocre imprensa brasileira nos últimos tempos. O perigo, no entanto, pode ser de, por trás da repentina “imparcialidade” da imprensa, estar uma tentativa de desmoralização absoluta da política, abrindo espaço para a extrema-direita ou para aventureiros golpistas. Bem aqui perto, em Honduras, foi dada a senha para tal tipo de maluquice, ainda com direito à institucionalização forjada da "situação de fato".

Este último ponto, admitimos (e torcemos), é pura teoria da conspiração, não parecendo encontrar, por enquanto, maiores lastros na realidade. De qualquer forma, é bom ficarmos atentos.

No meu supracitado trabalho escolar, vali-me de O dezoito brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx. Encerrei-o de um modo que parece caber aos propósitos esposados aqui:

Vê-se [no relato de Marx] a profusão de interesses que pode estar por trás de atos que no desenrolar histórico parecem plenamente normais. É neste ponto que a ideologia pode ser entendida como um mascaramento natural de interesses subjacentes. É exatamente aí que caberia aquela suspeita dos que perguntam: “quais serão os verdadeiros interesses que estão escondidos atrás disso tudo?”. Para encontrar a resposta, há “um contínuo processo de distinção, desmascaramento, e manifestação do que está aí. Para realizá-lo será necessária uma escavação constante que traga à luz os interesses subjacentes que naturalmente se mascaram” (MUÑOZ, Y.G.G. Ainda a ideologia?, in Integração: ensino, pesquisa, extensão, - ano X, nº 39, São Paulo: Centro de Pesquisa da Universidade São Judas Tadeu, 2004.)

sábado, 14 de novembro de 2009

Multidão de especialistas

No conto A multidão, de Ray Bradbury, o protagonista, ao sofrer um acidente de carro, incomoda-se com a rapidez da multidão que, poucos segundos depois, se avoluma em frente ao corrido. A personagem principal começa a reparar que o mesmo se dá noutras situações da mesma natureza, o que o leva a investigar o porquê de aparecer com tamanha rapidez uma massa humana de curiosos quando do acidente de automóveis.

No Brasil, em vez da multidão de Bradbury, o que provoca estranheza é o grupo de especialistas que surge em eventos de grande repercussão, como, por exemplo, acidentes de avião. Está certo que, em situação diferente da galera nas batidas de carro, eles só aparecem porque são convidados pelos meios de comunicação, os quais, na primeira hora, estão tão destituídos de informações precisas quanto qualquer do povo. O próprio especialista não sabe de nada, mas, mesmo assim, não abdica de lançar suspeitas (no caso dos mais honestos), ou proferir certezas e vaticínios (quando mais ávidos de minutos de fama) acerca do evento ocorrido.

No conto A multidão, a turbamulta, aproveitando-se do anonimato, e fingindo-se de desentendida, contraria a clássica orientação dos paramédicos e mexe nos acidentados, deixando-os com graves sequelas ou até mesmo os levando a morte. Os especialistas que aparecem nos meios de comunicação em situações de desastres também dão uma de bobo; porém, de forma diferente da multidão do conto, que tenta se aproveitar da ignorância que em geral se lhe atribui, os experts, por seu turno, valem-se justamente de sua suposta autoridade, servindo, assim - dependendo da natureza do sinistro – como “idiotas úteis” para um ou outro propósito político.

Ressalte-se que não são só os especialistas; costumam lhes fazer as vezes também alguns jornalistas, cheios de opiniões e certezas, mesmo antes de apurados os fatos nos quais estão metendo o bedelho. A multidão do conto a que nos referimos, observa seu protagonista, quando chega em poucos segundos ao local do acidente, decide se o sujeito vai viver ou se vai morrer. Tem ela, portanto, o que se poderia chamar de “utilidade”. Os especialistas também são, conforme já dito, deveras úteis: servem ao teste de hipóteses a que certa feita se referiu Ali Kamel, o mandachuva do jornalismo da Globo.

O acidente da TAM em 2007, todos hão de se lembrar, era, num primeiro momento, culpa do chamado “caos aéreo”, o que, em última instância, significava que era responsabilidade exclusiva do Governo Federal. Todavia, em tempo razoável, já se sabia que a tragédia tinha outras causas, não diretamente relacionadas com a crise naquele setor. Foi aí que veio o Sr. Kamel desculpar toda a imprensa, dizendo que a intenção era das melhores, pois enquanto persistiam dúvidas, os “patrióticos” meios de comunicação ofereciam, generosamente, “hipóteses” ao público sedento de informações.

No caso do blecaute de 10.11.2009 percebe-se situação semelhante. Como bem observado por Eduardo Guimarães, no Cidadania.com, já foi digna de “surpresa” a rapidez com que os jornais conseguiram fechar suas edições de quarta-feira, com vasta cobertura de problema ocorrido depois das 22 horas do dia anterior. No rádio, poucos minutos depois, já se ouviam os palpiteiros dando ideias do que havia ocorrido, na lacuna das informações oficiais, chegando a responsabilizar os pobres que andam comprando geladeiras e outros eletrodomésticos, graças à isenção de IPI! Alguns deles, sem dúvida, são mais rápidos do que a multidão do conto de Ray Bradbury...!

Uma boa objeção: talvez a culpa seja das autoridades, que, a exemplo do próprio caso TAM, no dia do blecaute demoraram para dar satisfações oficiais do ocorrido. Mesmo dentre os mais equilibrados ou menos críticos ao governo brasileiro, há quem pense que a demora em se pronunciar leva à derrota da comunicação. Trata-se, com efeito, de observação perspicaz e de crítica bastante razoável. Entretanto, é bom ponderar que, diferentemente de jornalistas irresponsáveis e de sabichões empolgados com câmeras e microfones, as autoridades não podem – ou não devem - se dar ao luxo de fazer uso de “achismos” inconsequentes.

Há, pois, que se dar um desconto, afinal o governo e seus técnicos, no caso, são como as equipes de resgate em acidentes de carro: muito dificilmente conseguem chegar antes da “multidão”!


Para os interessados: A multidão está presente na seleção de contos O país de outubro, lançada pela editora Francisco Alves em 1981, juntamente com outras dezoito histórias do escritor estadunidense Ray Bradbury, autor do clássico Fahrenheit 451 e roteirista do filme Moby Dick, dirigido por John Huston em 1956.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Marolinha. Ainda!

Eis que vejo na televisãozinha do Metrô a notícia, publicada no Le Monde, dando conta que o presidente Lula acertou ao afirmar que a crise econômica no Brasil seria só uma marolinha. Confirmei a informação no Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha, que reproduziu a matéria do jornal francês, que, aliás, não era apenas sobre o Brasil, mas acerca da importância do chamado BRIC no novo cenário econômico internacional que se desenha após a crise.

Também, nesta semana, vi no BandNews TV reportagem sobre a forma como a crise atingiu o Brasil, e como o país a está deixando para trás. Foi absolutamente hilário ver o Sr. Luiz Carlos Mendonça de Barros, o homem da "telegangue", do "limite da irresponsabilidade", admitindo, com um sorriso mais ou menos amarelo, que o presidente tinha razão: "a crise no Brasil foi só uma marolinha mesmo e não um tsunami". Sem dúvida que é deveras surpreendente ouvir isso, sobretudo quando se teve a oportunidade de ler as barbaridades que o economista, ex-ministro do governo FHC, escrevia na sua coluna da Folha, sempre criticando o presidente e as autoridades brasileiras por, segundo ele, estarem fazendo pouco caso da "terrível crise".

Por tudo isso, tomamos a liberdade de reproduzir texto que publicamos neste espaço no dia 27.03.2009, e que, nessa altura do campeonato, soa bastante atual. Felizmente, diga-se!

Sexta-feira, 27 de Março de 2009
Marolinha sem aspas

Alguns colunistas da mídia adotaram a expressão marolinha, utilizada pelo presidente Lula para se referir ao tamanho com que a crise econômico-financeira internacional iria atingir o Brasil. O vocábulo tem sido geralmente destacado entre aspas. O uso desses sinais não parece estar sendo com o intuito de indicar que se trata de uma metáfora, ou de gíria ou algo que o valha; em verdade, o que se quer é sugerir que o presidente pode ter dado uma bola fora ao utilizá-lo, ainda mais que a imprensa tem sido bastante competente no tentar demonstrar que a crise teria desembarcado no Brasil em níveis que mereceriam ser associados a fenômenos naturais bem mais devastadores. Noutras palavras, as aspas que envolvem a marolinha presidencial, quando empregadas pelos estafetas da imprensa, estão carregadas de ironia e sarcasmo.

Lula sabia que a crise atingiria o Brasil em alguma medida, tanto que admitiu que seríamos tocados por ela na forma da tal marolinha, o que significa dizer que ele não se iludia com o fato de que ela não chegaria de nenhuma maneira aqui, como tentaram distorcer alguns. O presidente, em verdade, buscou apenas demonstrar que não haveria tsunami (metáfora antípoda à do presidente brasileiro) na economia brasileira e por isso escolheu um termo que, na opinião dele, melhor dimensionaria os efeitos da crise neste país tropical. Que se analisem friamente os dados após cerca de dois anos de maus resultados em nível global e forçoso será concluir que, com efeito, no Brasil a crise é só a tal marolinha mesmo.

A bem da verdade, não foi apenas o presidente da República que se mostrou, por assim dizer, otimista com os possíveis efeitos da crise no país. Órgãos como a OCDE e o FMI já haviam, antes dele, afirmado que o Brasil era das nações menos vulneráveis aos maus bocados internacionais e que, ipso facto, levaria poucos arranhões oriundos desse acidente universal. O ingrato Lula deveria ter dado os créditos!

A imagem da marolinha brasileira vem sofrendo a tentativa de desmoralização promovida pela mídia calcada principalmente em dois resultados bastante significativos: a queda do PIB no quarto trimestre de 2008 e os fechamentos de vagas no mercado de trabalho nos meses de dezembro e janeiro últimos. Mas vamos lá: não obstante a contundência com que o mercado foi atingido em 2008, a grande verdade é que dezembro sempre foi um mês de expressiva dizimação de empregos, mesmo em anos de bonança internacional; já o PIB do último quartel do ano passado – nunca é exagerado lembrar – foi desastroso se comparado com o terceiro trimestre, mas positivo se confrontado com idêntico período de 2007 – fora o fato de que no acumulado do ano obteve excelente resultado, como já apontamos noutra postagem. Merece nota também a informação de que o mês de fevereiro foi positivo na criação de vagas do mercado formal de trabalho. No caso deste último, a imprensa, como se sabe, quis minimizar o resultado que, realmente, é marcadamente inferior ao do mesmo mês de 2008; mas, num mundo em que se comemora até mesmo quando o desemprego aumenta em nível menor do que o esperado, deveria ser celebrado o tímido porém consistente resultado do mercado de trabalho brasileiro no segundo mês de 2009.

Os jornais brasileiros fizeram, por motivo político, uma aposta na crise. Tentam de toda forma mostrar que acertaram. Já a rede norte-americana CNN parece pensar de maneira diversa: o mais famoso canal noticioso do mundo afirmou, quando do encontro dos presidentes Lula e Obama, que uma das grandes qualidades do Brasil neste momento é que o país tem sofrido muito menos com a crise quando comparado a outros países da mesma importância. Yes, nós temos marola!

Um amigo conta-me que propaganda do DEM – à qual não tive oportunidade de assistir – vem tentando explorar a metáfora molhada de Lula, procurando mostrar a suposta infelicidade da fala presidencial. O cerco se fecha: o partido de José Agripino Maia tem na grande imprensa o mentor intelectual de seu discurso. O assunto crise econômico-financeira internacional (a bola da vez) tem que ser martelado diuturnamente na mídia, para que partidos oposicionistas, claramente sem projeto, tenham do que falar e possam dar suas alfinetadas de vez em quando. É essa, infelizmente, a importância que resta à vetusta imprensa no Brasil de hoje!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Censurado!

E eis que o jornal O Estado de São Paulo se apresenta como vítima de censura.

O diário, no entanto, apenas está proibido, por força de decisão judicial, de divulgar informações de inquérito protegido por segredo de justiça, especialmente os áudios da chamada "operação boi barrica", envolvendo gente do chamado "clã Sarney", para usar expressão do próprio Estado. Nada os impede, todavia, de citar, criticar os - ou esculhambar com - os implicados no caso.

Muitas discussões e questionamentos podem advir do episódio: afinal, é censura ou não é? A liberdade de imprensa está acima de tudo? Se é sigiloso, tem que ser respeitado e pronto? Se era segredo, e alguém permitiu que chegasse às mãos de repórteres do jornal, que mal há em publicar?

São várias as perguntas, e todas legítimas.

Entrar no mérito de que se houve ou não censura pode proporcionar uma discussão infindável. De todo modo, há aquela máxima, tão ao gosto dos que adoram bradar pela santidade do estado de direito, que afirma: "decisão judicial não se discute, cumpre-se!"

Mas penso que uma outra indagação precisa ser feita: e agora, o que o Estadão pensa acerca da "grampolândia", do "estado policialesco", da "invasão da privacidade"?! O centenário jornal esteve entre os órgãos que mais esbravejavam com o excesso de grampos do "aparelho repressor do Estado petista". Porém, ao publicar com tanto estardalhaço gravações constrangedoras dos familiares de Sarney, há de se deduzir que mudou de opinião!

Voltando à suposta censura: tal tema vem preocupando muita gente bem-intencionada.

Como já dito, é difícil avaliar se há ou não há censura neste caso; e talvez não caiba a leigos entrar com os dois pés no mérito da questão.

O que vale mesmo é pensar noutras modalidades, bastante curiosas, de censura, pois elas parecem nascer de dentro dos próprios órgãos de imprensa. O caso Miriam Dutra, por exemplo. Estranhamente não foi necessária nenhuma decisão judicial proibindo a divulgação do caso. Os próprios jornais trataram de soterrá-lo, fazendo dele tema defesíssimo nas redações. Não foi preciso que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso perdesse seu precioso tempo recorrendo à Justiça para ter sua intimidade preservada, pois, aparentemente, os próprios donos de jornais trataram de "censurar" suas redações, seus repórteres e colunistas acerca do assunto. E não adianta falar que é porque se trata de um assunto privado, que só interessa às partes envolvidas. Ora, todos nós sabemos muito bem que a imprensa não está nem aí para isso. Além do que, FHC é figura muito importante, e Miriam Dutra era repórter da principal rede de televisão do país. Só para efeito de comparação, Renan Calheiros não contou com o mesmo beneplácito da mídia!

Poder-se-ia ir além nessa história de "autocensura". Que tal pensar na sociedade das "Verônicas", a Serra e a Dantas? Como foi tal sociedade? Ela acabou? E por quê? Vamos lá, Estadão, pode, se quiser, falar disso à vontade. A Justiça, por enquanto, não proibiu, quer dizer, "censurou"!

sábado, 18 de julho de 2009

Virgens no bordel (copyright Jabor!)

Paulo Maluf foi padrinho de casamento de Fernando Collor de Melo.

O deputado Fernando Collor votou no candidato Paulo Maluf para presidente, em eleição indireta no colégio eleitoral, contra Tancredo Neves.

No segundo turno da disputa presidencial de 1989, Paulo Maluf ofereceu seu apoio para o candidato Collor, contra Luiz Inácio Lula da Silva.

Collor recusou o apoio de Maluf, o que provocou a ironia do velho político paulista:

- Servi para ser padrinho de casamento. Servi até para ser presidente da República. Agora, para dar um simples apoio não sirvo???

Lembro-me vagamente dessa história. Ela é tão boa que, acredito, não deve ter sido criada pelo meu subconsciente!

Impossível não se recordar dela ao ver a reação que o encontro de Lula e Collor despertou na imprensa e em alguns de seus colunistas, além de em alguns leitores missivistas, todos enojados com a imagem do abraço entre o ex e o atual presidente, adversários ferrenhos no pleito de 1989.

A grande imprensa, majoritariamente, apoiou o Sr. Fernando Collor na primeira eleição direta para presidente após a redemocratização. Como se sabe, o público de perfil mais conservador, por sua feita, não se fez de rogado e, sem maiores cerimônias, também caiu, de corpo e alma, nos braços do "caçador de marajás".

Irresistível, pois, não parafrasear Maluf: para eles, Collor serviu direitinho para ser presidente da República; agora, senador eleito, não serve nem para receber um simples cumprimento público do presidente em evento oficial???

Está em ação o velho "homem cordial" de que fala Sérgio Buarque de Hollanda no clássico Raízes do Brasil. Mas não pense que a cordialidade mencionada se refere ao gesto de civilidade do presidente Lula e do senador por Alagoas. O senso comum faz pensar que é disso que se trata quando se fala do homem cordial. Em verdade, a palavra "cordial", como sabido, vem de "coração". Tal expressão, portanto, é cabível também - ou principalmente - naquelas situações em que agimos de forma tresloucada, de maneira irracional, pondo a emoção à frente. Portanto, a idéia também concerne àquelas situações em que as pessoas se deixam levar pela pessoalidade pura e simples, sem maior apreço pelo republicanismo.

Dessa forma, que se dane a disputa política civilizada, que se dane a governabilidade, que se dane o respeito mútuo entre políticos que um dia foram adversários. Que viva o ódio! Que viva a inimizade! Viva aquela pequenez de gestos que, curiosamente, fingimos condenar no dia-a-dia!

Assim sendo, os jornalistas e alguns leitores, além da hipocrisia acima sugerida, estão agindo de forma "cordial", no sentido de que não estão dando pelota para a razão, a qual sem dúvida aconselharia não haver motivos para desespero ao ver que dois políticos brasileiros, eleitos pelo voto direto, preferem trocar cumprimentos em vez de sopapos num evento público!

Os admiradores de Sérgio Buarque de Hollanda talvez se sintam desconfortáveis ao ver o nome do grande intelectual num texto em que foram proferidas, com certa liberalidade, as graças de Paulo Maluf e de Fernando Collor de Melo. Pois para piorar as coisas, vou terminar usando uma expressão comum na boca do também (talvez até mais) desprezível Arnaldo Jabor: a maior parte dos que se mostraram indignados com o abraço do presidente e do senador, eleitores entusiasmados de Collor que provavelmente foram um dia, nada mais fazem do que se comportar como "virgens no bordel"!

sábado, 11 de julho de 2009

Que independência?

No dia 09.07.2009, a jornalista Eliane Cantanhêde participou de bate-papo promovido pelo UOL sobre a crise no Senado. Vários internautas enviaram perguntas à especialista em política brasileira, pessoa que acompanha tudo muito de perto, de Brasília.

Faltou inspiração à maioria das perguntas, em geral óbvias, e que, talvez por isso, mereceram respostas básicas, do tipo que nada acrescentam.

Mas a melhor pergunta, senão a única realmente boa, não somente ficou sem resposta, como ainda sofreu o desprezo da colunista da Folha. Transcrevo o trecho abaixo:

(05:35:45) Dante fala para eliane cantanhêde: Uma questão urgente. Que se acuse ou investigue o Sarney. Mas a imprensa faz é campanha. Por que não faz o mesmo com as graves acusações contra o senador Arthur Virgílio? Ou com o rumoroso caso do governo do Rio Grande do Sul?

(05:37:24) eliane cantanhêde: Dante: Ih, pronto. Você é daqueles que, em vez de enxergar os fatos, os atos, os cheques, as provas, prefere ficar culpando a imprensa. Campanha??? E o que você diz sobre parentada, mordomo, Fundação Sarney, ato secreto, etc. etc?


Diz ela que o rapaz culpou a imprensa antes de enxergar os fatos. Ora, como pode, se a primeira coisa que o moço fala é para se acusar ou investigar Sarney?! Ele apenas em seguida pondera que o mesmo deveria ser feito com o Arthur Virgílio, também no Senado, ou sobre a administração no mínimo polêmica da gaúcha Yeda Crusius.

Vejam que Eliane Cantanhêde se esquiva da pergunta. E olha que ela poderia tê-lo feito com mais classe, dizendo que o caso da governadora do Rio Grande do Sul não cabia na discussão, embora de todo modo ficasse faltando maiores explicações do porquê de não haver tanto furor investigativo no caso dela. Já os problemas do senador Arthur Virgílio eram, sim, assuntos que poderiam ser abordados no bate-papo, o que teria sido uma ótima oportunidade para o conhecimento da opinião pública, haja vista que as trapalhadas do senador amazonense têm sido relativamente negligenciadas pela mídia.

Uma primeira lembrança: o bate-papo não era sobre a situação de José Sarney, mas sim sobre a “crise no Senado”. Veja como foram as chamadas da Folha Online (com os nossos grifos):

Leia íntegra do bate-papo com Eliane Cantanhêde sobre a crise no Senado

A jornalista Eliane Cantanhêde, colunista da Folha e da Folha Online em Brasília, participou de bate-papo nesta quinta-feira (9) sobre os escândalos no Senado.

Converse agora com a colunista da Folha e da Folha Online, Eliane Cantanhêde, sobre a crise do Senado.

Ou seja, se a discussão era sobre crise no Senado, a jornalista não poderia ter feito pouco caso do internauta que quis ouvir um pouco mais sobre Arthur Virgílio, que até onde se sabe é senador da República, e é apenas mais um – ao lado de Heráclito Fortes, Efraim de Moraes - dos que estão no turbilhão crítico daquela Casa.

Uma segunda lembrança: Virgílio e Yeda são do PSDB, portanto não são aliados do governo do presidente Lula. A imprensa não vem, ao que parece, fazendo muita questão de esconder que seu negócio é fazer oposição ao Governo Federal, ao governo do PT. E ponto final.

Observe-se que a própria Eliane Cantanhêde escreveu coluna nesta mesma semana intitulando a imprensa a que serve como “independente”. Seu colega Clóvis Rossi, que ao lado dela também é ironicamente colega de página de José Sarney às sextas-feiras, fala, no dia 10.07.2009, que a história de “mídia golpista” é coisa de político enrascado e de imprensa chapa-branca.

Pelo que se vê, os grandes jornais não querem esconder o oposicionismo ao governo, quase como se nada mais fizessem do que sua obrigação. O próprio presidente Lula já o observara na famosa entrevista à revista piauí: a coisa mais dura para um jornalista, disse ele, é ser tido como chapa-branca. Por muito pouco, os colunistas da Folha não o confessam: “não queremos nunca ser chamados de chapa-branca, por isso faremos todo tipo de oposicionismo sistemático que fustigue o governo”.

Esperemos, sinceramente, que seja só isso. Mas não nos esqueçamos que Sarney, além de aliado de Lula, é desafeto de José Serra, e por isso é importante que preventivamente se lhe tire qualquer resquício de respeitabilidade, para o caso de ele voltar seu arsenal contra o governador paulista. É bom lembrar também que os donos de jornais andam muito bravos com a democrática medida do governo Lula de diversificar os contemplados pela publicidade governamental. Sabe como é, quando mexem com o bolso... Maquiavel, em contexto um tanto diferente, disse que o homem esquece mais depressa da morte do próprio pai do que da perda do patrimônio. Pode advir daí a bronca com o atual presidente: incluiu digitalmente boa parte da população, enfraquecendo, de forma indireta, o suposto poder (leia-se grana) da grande mídia; e de maneira direta, tira-lhes verba de que sempre estiveram acostumados e as repassa para pequenos meios de comunicação Brasil afora.

A grande imprensa e seus colunistas não gostam, mas é democrático!

Mas sejam quais forem os motivos de tanta “independência”, a grande verdade é que ela não precisaria poupar tanto os senadores do DEM e do PSDB, nem a governadora gaúcha, tampouco a aliança de Quércia e Serra em São Paulo, esta tão estarrecedora quanto a de Lula e Sarney. Ah, tá, mas a "independência" é só em relação ao governo Lula!

sábado, 4 de julho de 2009

Os 6 (seis) anos do Plano Real!

Nesta semana, muito se falou dos quinze anos do Plano Real, comemorado dia 1º de julho. Como já era de se esperar, a mídia, juntamente com seus colunistas e articulistas, pegou pesado no puxa-saquismo a Fernando Henrique Cardoso.

Um pouco de história: o Plano Real foi obra do governo Itamar Franco. O sociólogo Fernando Henrique foi seu ministro da Fazenda, liderando, nessa posição, um grupo de verdadeiros economistas como André Lara Rezende e Pérsio Arida, certamente mais importantes na elaboração do programa do que ele, FH. Mas o mais importante a se destacar é que FHC já não era mais ministro no fatídico 1º de julho 1994. Coube a Rubens Ricupero a tarefa de conduzir o início do plano, talvez no seu momento mais difícil. Derrubado por uma parabólica, Ricupero foi substituído pelo pindamonhangabense Ciro Gomes. Parece-nos óbvio que Ciro e Ricupero foram mais importantes para o Real do que o ex-presidente Cardoso.

Tudo poderia ser pura babação de ovo da mídia para cima de FHC, mas, como eles não dão ponto sem nó, talvez seja uma desesperada tentativa de melhorar a imagem do ex-presidente, haja vista que nas eleições de 2010 o PT certamente terá um “patrono” de quem se orgulhar, e não seria de bom tom o PSDB ir para a terceira eleição consecutiva fingindo que Fernando Henrique nunca existiu.

Mas em meio a tanta celebração salvou-se equilibrada reportagem da Agência Brasil. O especial do sítio noticioso falou dos méritos do plano e dos avanços obtidos graças à estabilidade que, desde então, passou a ser um “dogma saudável” de nossa economia. Porém, graças a importante intervenção do economista Ricardo Amorim, do IPEA, foi dado também o lado sombrio do Plano Real, aspecto devidamente esquecido na grande mídia. O plano, para dar certo, teve que, de algum modo, provocar pequenas quebradeiras na economia brasileira – talvez sem alternativa, acrescentamos generosamente. A memória inflacionária, ou componente inercial ou o nome que se queira dar era muito forte, e qualquer aquecimento manteria a inflação a pleno vapor. Para matar o dragão era preciso exagerar no remédio. Desse modo, apostou-se no dólar barato, pois assim entrariam importados aos montes no país, o que impediria a subida dos preços dos produtos nacionais. Em conseqüência, com os importados tomando conta, a indústria nacional se ressentia, pois não tinha como concorrer com a enxurrada de produtos mais baratos; as exportações, por seu turno, eram desestimuladas pelo dólar na rédea curta das bandas cambiais. Resultado: desemprego e achatamento de salários. Desempregado não compra; salários baixos também não ajudam. Noves fora, inflação fica controlada. Eis um lado nefasto - talvez necessário, não descartemos - que não cairia mesmo bem mencionar num dia de aniversário!

As análises na grande imprensa também não pouparam Lula e o PT, que, segundo os adorados escribas da mídia, teriam combatido o plano em seu início, mas no final das contas acabaram descobrindo a importância da estabilidade e dado seqüência ao bem-sucedido plano de FHC (na verdade, de Itamar). Ora, bem que as críticas podiam ser ainda mais duras com o governo petista que ora comanda o Brasil, acusando-lhes, Lula e seu partido, de serem mais realistas do que o rei, pois no fundo o governo que se iniciou em 2003 é que de fato salvou o plano de estabilização iniciado por Itamar, em alguns momentos pegando até pesado demais nessa coisa de controle da inflação (alô, Meirelles!). Talvez não seja errado dizer que a estabilidade só passou a ser um valor seguro mesmo sob Lula. Se o leitor se der ao trabalho de dar uma pesquisada, verá que no final do segundo mandato de FHC a inflação já havia passado de dois dígitos; Lula assumiria seu primeiro mandato sob a égide de uma economia mais ou menos descontrolada, com poucas reservas internacionais, risco-país explosivo, dívida pública de mais de 50% do PIB e dólar fora de controle.

Hoje, mesmo com “a maior crise da história do capitalismo”, o Brasil se segura bem, tirando uma marolinha aqui, outra ali. É, portanto, muita desonestidade intelectual querer dar os créditos da razoável saúde que ora goza a economia brasileira ao governo anterior, justamente um governo que costumou atribuir suas dificuldades (ou seus fracassos mesmo) a crises internacionais muito menores do que as que o mundo observa hoje. Não sei quanto a vocês, mas isso sempre me pareceu ilógico, afinal, como pode o governo bem-sucedido que enfrenta crise maior ser considerado mera cópia de outro que sucumbiu por "marolinhas" localizadas e de menor intensidade?

Caso se queira associar o “Real” à idéia de estabilidade, ter-se-á que mudar sua idade e passar a considerá-lo como tendo seis anos, pois este é o tempo em que ele se mostra realmente sólido e estável. E se a alguém se deve atribuir o sucesso da estabilização, forçoso seria reconhecer a importância de Lula, pois sob ele, sim, a luta contra a inflação foi realmente levada a sério e, mais do que isso, foi efetivamente vencida. E olha que nada disso deve ser tomado como elogio na sua plenitude, não, pois para alcançá-lo foi preciso muito remédio amargo: os juros altos que ajudam os bancos, inibem a produção e desempregam; e a busca cega pelo superávit primário que tira dinheiro da saúde, da educação e da promoção social. Digamos que é uma espécie de PT americanizado: No pain, no gain!

sábado, 20 de junho de 2009

Imprensa comum

Nesta semana, o presidente Lula saiu em defesa do enrascado José Sarney. Falou da história do presidente do Senado, sugerindo que ele mereceria mais respeito por não ser uma “pessoa comum”.

A imprensa, de maneira geral, não gosta das coisas que Lula fala. Imagine, então, quando seu discurso alfineta o liberalismo de mentirinha de que a mídia é a porta-voz.

A grita foi geral: “como assim não é pessoa comum?”; “todos são iguais perante a lei”; “Para Lula, alguns são mais comuns do que outros”. O jornalista Clóvis Rossi asseverou que a fala do presidente brasileiro era uma versão do “você sabe com quem está falando?”.

Ora, Sarney não deve ser mesmo uma pessoa comum. Tanto que ocupa, às sextas-feiras, bem ao lado do simpático Clóvis Rossi, uma nobre coluna na página 2 da Folha de São Paulo. O jornalão paulistano não costuma ceder tal espaço para gente muito ordinária: ocupam-no ou já o ocuparam pessoas como Delfim Netto, Emílio Odebrecht, José Serra, Florestan Fernandes, Marcos Nobre, Marina Silva, Kenneth Maxwell e outras menos comuns do que aquelas que têm suas missivas devidamente editadas na página seguinte, numa menos nobre sessão conhecida como “Painel do leitor”!

Por falar em Folha, e de resto toda a imprensa, seria interessante que se colocasse em prática esse reconhecimento da igualdade entre os cidadãos. Um bom começo seria aceitar numa boa que possíveis prejudicados buscassem socorro no Judiciário, sem serem acusados de estar atacando a liberdade de imprensa ou - sacrilégio! - a liberdade de expressão. Noutras palavras, se, por exemplo, seguidores da Igreja Universal se sentissem ofendidos por matérias de jornais, poderiam, sem ser agredidos com editoriais de primeira página, recorrer à Justiça. Afinal, donos de jornais também são pessoas comuns, e, por conseqüência, as empresas que lhes dão lucros não merecem qualquer status especial,o que quer dizer que podem ser processados como "qualquer um". Ou será que Lula tem razão, e na verdade esse papo de igualdade é conversa mole para boi dormir?

Lula não defendeu apenas Sarney. Em verdade, o presidente brasileiro intercedeu em favor do Senado Federal e, em última análise, do Congresso Nacional. O fato, negligenciado pela imprensa, mereceria melhor análise.

Passou pela cabeça de alguém a idéia de que o presidente poderia, em realidade, faturar com um Congresso combalido? Pensemos bem: sem dúvida que diversos governantes em todo o mundo sonhariam ter a popularidade extraordinária de Lula com um parlamento desacreditado. Seria difícil para muitos resistir à tentação de botar em prática a mão de ferro. Imaginemos um FHC, com a aceitação popular que tem o atual presidente, governando com um Congresso Nacional tão impopular: que sonhos estariam passando pela cabeça dele? E quais os conselhos que lhe estariam dando os donos de jornais?

Observe-se, também, que Lula, mais do que na Câmara, costuma passar por maus bocados nas votações do Senado. Ou seja, ele teria milhões de motivos para deixar a Câmara Alta chafurdar sem precisar arranhar o seu prestígio fazendo-lhe uma defesa que, a bem da verdade, não deixa de ser inútil. Pensando bem, Lula atuou como estadista: agiu em favor da harmonia dos poderes. Não é todo dia que o chefe do Executivo sai em defesa de outro Poder, ainda mais quando não se tem tanta certeza de que ele lhe é tão favoravelmente complementar.

E quem parece que melhor matou a charada mesmo foi o jornalista Paulo Henrique Amorim. Disse ele que a perseguição capitaneada pela mídia contra Sarney somente agora, depois de “quinhentos anos” de abusos e "ligações perigosas" do ex-presidente, deve ser em virtude de ele não dar moleza para José Serra, por conta da sabotagem cometida contra a pré-candidatura da filha para o pleito de 2002, e também pelo fato de cometer o supremo pecado de apoiar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. De fato, é muito para o PiG!

Leia o divertidíssimo texto de PHA clicando aqui.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Irã: eu acho...

O bacana de se pilotar um blog é poder ficar dando pitacos sobre os mais diversos assuntos de forma mais ou menos impune. Além disso, pode-se dormir com a consciência tranqüila por não estar investido da autoridade dos especialistas. É só “achismo” mesmo e ponto final.

Os chamados cientistas políticos não deveriam gozar da mesma cuca fresca, pois se aproveitam de sua condição para fazer comentários e vaticínios deveras particulares sob a aura de uma suposta expertise. Ao agir desse modo, no mais das vezes com acentuado viés ideológico e deixando transparecer seus desejos e idiossincrasias, recusam, em verdade, a honestidade intelectual e a objetividade científica possível de que fala Max Weber na sua famosa conferência intitulada A ciência como vocação.

Vamos aqui, “acientificamente”, apenas revelar nossas impressões sobre o que ocorre no Irã. (Até porque não dá para ter muito mais do que isso: meras impressões).

Eu, “euzinho da silva”, acho que não houve fraude nas eleições do Irã. O presidente Mahmoud Ahmadinejad provavelmente ganhou mesmo. Volto a dizer, trata-se, obviamente, de mera opinião pessoal. Não posso afirmar que não tenha havido fraude. Ninguém pode. Mas ninguém – repito, ninguém - pode também afirmar peremptoriamente que houve. Certo está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que atribuiu as comoções naquele país a uma provável choradeira dos derrotados. Errados estão os colunistas da grande imprensa, como Merval Pereira e Dora Kramer, que tentam desautorizar o presidente brasileiro por ele estar apoiando o seu colega iraniano reeleito. (Em realidade, Lula não está necessariamente dando apoio a Ahmadinejad; apenas faz aquilo que seria de se esperar de qualquer pessoa de bom senso: reconhecer os resultados das urnas de um país soberano; e se for o caso de haver alguma coisa errada por lá, o melhor a fazer é aguardar com cautela antes de sair atirando pedras).

Pelo que se depreende das notícias que chegam do país islâmico, as manifestações estão restritas aos grandes centros urbanos, mais especificamente à capital Teerã. O grupo oposicionista é organizado e barulhento, e o seu reclamo é ecoado pela mídia ocidental, que desde o início demonstra pouco entusiasmo com o presidente iraniano. Sabe-se que há, por outro lado, manifestações favoráveis ao presidente reeleito; mas elas não parecem contar com a mesma simpatia por parte da imprensa do ocidente.

E se o assunto é achismo puro e simples, vou externar uma opinião meio amalucada: eu, “euzinho da silva”, acho que o Brasil não esteve muito longe de situação parecida. Em 2006, se o candidato Alckmin não tivesse decepcionado parcela de seus eleitores e, especialmente, parte da imprensa, sobretudo por não ter tido coragem de defender o legado privatista dele e de seu partido, não seria de descartar que se ameaçasse falar em fraude ou em abusos e coisas do gênero para tentar melar a acachapante vitória de Lula.

Imaginemos a cena: a classe média paulista sairia às ruas, concentrar-se-ia na Av. Paulista e com a ajuda da mídia convocaria outras manifestações em grandes centros urbanos do sul-sudeste; as imagens rodariam o planeta nas telas da CNN e parariam nas páginas de internacionais dos jornais estrangeiros. Ipso facto, estariam todos mundo afora papagaiando que o presidente "populista caudilho" do Brasil fraudara as eleições. Ademais, haveria um Marco Aurélio Mello para jogar gasolina na fogueira.

Viagem pura? Certamente que é. Estou a afirmá-lo desde o começo. Mas, sincera e modestamente, não acho que meu achismo seja mais irresponsável ou mais ridículo do que o dos outros.

sábado, 13 de junho de 2009

Um blog incomoda muita gente!

O blog da Petrobras vem sendo vítima da fúria de colunistas e editores de jornais Brasil afora. A celeuma é emblemática da falta de norte do jornalismo, em especial o impresso, em face do poder e alcance da Internet. Irresistível é dizer logo de cara: bem-vindos ao século XXI, senhores jornalistas!

A idéia da Petrobras de criar um blog em que antecipa as declarações e os dados que repassa à imprensa vem sendo acusada de antiética e de prática típica de brucutus. Grande bobagem ou puro desespero daqueles que o dizem. A única preocupação deveria ser, em realidade, quanto à legalidade da medida. Em princípio, não parece haver problemas em relação a isso, pois a “empresa de economia mista” apenas reproduz as informações de que é dona por direito.

No que se refere à ética, é de se suspeitar que a petroleira, no fundo, tem bons motivos para não acreditar na imprensa. Aliás, se os propósitos midiáticos fossem indubitavelmente honestos, é de se supor que os órgãos não se sentiriam tão incomodados com a salutar e transparente medida da nossa mezzo estatal. Noutras palavras, é mais livremente presumível que a Petrobras, ela sim, é que, ao divulgar a íntegra do que lhe perguntam e do que ela responde, parece estar se protegendo de uma eventual falta de ética jornalística. Será que não?

A iniciativa da Petrobras também tem sido acusada de tentativa de intimidação. Como assim? Será que há motivos para os jornalistas se intimidarem? Ora, bem-intencionados que são, os profissionais de imprensa, comprometidos com a verdade e com a lisura de seu trabalho, nada certamente têm a temer do "terror" praticado pela “petrossauro”.

De resto é risível que a imprensa, tão dada a pedir transparência de todos, fique chocada com a abertura escancarada cometida pela Petrobras em seu blog.

A grande verdade é que a imprensa sofreu um golpe. Ela vinha recentemente prestando o nobre papel de criar manchetes para a oposição municiar a sua CPI da Petrobras, tida quase como um último recurso para enfraquecer o governo federal. Com o blog, torna-se difícil a velha e boa manipulação que todo mundo, no fundo, sabe que vigora nas práticas jornalísticas.

E por fim: juro que não me lembro; quantos jornalistas incontidos e quantos editoriais raivosos se insurgiram contra a PetroBrax, nos “bons tempos” de FHC? Se alguém souber, por favor, “cartas para a redação”!

domingo, 15 de março de 2009

Deu na "Folha": melhor checar

Pequena reviravolta no caso Folha-ditabranda-Comparato: o diário paulistano chamou Fábio Konder Comparato, professor da USP, de cínico e mentiroso por se mostrar indignado com a utilização do termo ditabranda em referência ao regime militar brasileiro, enquanto se mostraria simpático a regimes ditatoriais de esquerda, como seria o caso de Cuba. Porém, o blog do Rodrigo Vianna trouxe nessa semana missiva, publicada no Painel do Leitor de 1º de junho de 2004, na qual o jurista fazia críticas à situação da democracia e dos direitos humanos na ilha centro-americana. Leia:

"O professor François Chesnais ("Ruptura radical" é a saída para o Brasil, defende professor francês", Entrevista da 2ª, 31/5) tem dado uma excelente contribuição à causa do mundo subdesenvolvido ao mostrar, em seus vários livros, de que forma a globalização capitalista, comandada pelos EUA, aprofunda a divisão entre ricos e pobres até dentro dos países mais ricos do planeta. Mas, ao apontar em sua entrevista a experiência política cubana como exemplo a ser seguido pelos países subdesenvolvidos, especialmente o Brasil, o ilustre professor prestou um desserviço àquela nobre causa. A mundialização humanista, pela qual lutamos, funda-se no respeito integral à democracia e aos direitos humanos, caminho que, infelizmente, não tem sido seguido pelo governo cubano." Fábio Konder Comparato, professor titular da Faculdade de Direito da USP (São Paulo, SP)

Desde a primeira hora foram muitos os que não apenas se indignaram com a debochada expressão utilizada pela Folha de São Paulo, mas que se revoltaram com a grosseira resposta não apenas ao professor Comparato mas também à sua colega Maria Victoria Benevides. Inúmeros blogues saíram em defesa dos professores, porém comprando a tese de que eles realmente simpatizavam sem reservas com o regime cubano. Os argumentos em geral eram bons: alguns afirmaram que o fato de simpatizar com Cuba não tira o direito de quem quer que seja de assegurar que houve uma ditadura militar de fato no Brasil; outros asseveraram que, na condição de brasileiros, os professores estavam mais preparados – e com maior autoridade – de fazer críticas mais abertas e francas aos anos de exceção no Brasil do que às ditaduras de outras plagas; e até o autor destas maldigitadas tentou pegar a falta de razoabilidade lógica na deseducação da Folha, modestamente lembrando o arrogante jornal que é impossível afirmar que o “sentimento” de outrem, coisa absolutamente subjetiva, é mentiroso (você me diz que está triste e eu, que não estou no seu cérebro, simplesmente digo que é mentira e tudo bem!).

Mas há lições a se tirar de tudo isso.

Apesar da análise fria e crítica que se faz hoje da imprensa, mesmo com a certeza de que os jornais não são confiáveis e não obstante a postura arrogante dos jornalistas e de seus patrões, nós,os seus críticos, simplesmente aceitamos a afirmação da Folha de que Fábio Konder Comparato era um apologeta cego do que ocorre em Cuba, ou seja, demos-lhes altíssima credibilidade mesmo sabendo que eles não merecem praticamente nenhuma. É sinal de que a imprensa ainda tem o poder de repetir a mentira e transformá-la em verdade, levando no bico até mesmo aqueles que sabem ser necessário, no caso da mídia tupiniquim, viver com o “desconfiômetro” sempre ligado.

Observe-se que no ato convocado pelo Movimento dos Sem Mídia em 07-03-2009 ninguém, que me lembre, fez discurso indicando que a Folha, ela sim, era mentirosa, pois afirmava que o professor jamais se opusera ao regime cubano, quando em verdade o próprio jornal já publicara cartas do jurista com críticas a Cuba. Ressalte-se também que o próprio professor Comparato não veio a público para apontar o mau-caratismo do diário dos Frias.

“Deu na Folha!”. Bem sabemos que isso não é motivo para se levar algo tão a sério. Agora, mais do que nunca, é preciso ter um pouco mais de diligência e, antes de qualquer coisa, já ficar com um pé atrás com os arroubos agressivos tão impunemente lançados pelo jornal. Quando se ouvir “deu na Folha”, fique esperto! Se for o caso, é bom pôr o Google e outros mecanismos de busca para funcionar...

Leia também:
Os estados mentais de Benevides e Comparato
Manifestação contra a "ditabranda"

sábado, 7 de março de 2009

Manifestação contra a "ditabranda"

Foi realizada sábado, 7 de março, manifestação convocada pelo Movimento dos Sem Mídia (MSM), na frente das instalações do jornal Folha de São Paulo, contra a qualificação, por parte daquele órgão, de “ditabranda” ao período do regime militar brasileiro. O evento serviu também como ato de desagravo pela resposta que a redação do jornal ousou dar aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato, ambos da USP, acusando-os de cínicos e mentirosos.

O presidente do MSM, Eduardo Guimarães, leu o manifesto do ato, o qual pode ser conferido na íntegra em postagem daquela data no blog cidadania.com. Seguiram-se diversos pronunciamentos de sindicalistas, estudantes, ex-vítimas e familiares de mortos e desaparecidos. Por lá discursaram o jornalista Celso Lungaretti e o padre Júlio Lancelotti, ambos excelentes conhecedores, por motivos próprios, dos “democráticos” métodos utilizados não apenas pela Folha, mas por toda assim chamada grande imprensa brasileira.

No seu discurso, Eduardo relembrou observação anteriormente realizada no seu blog, qual seja, a de que “colocar gente na rua sem ser por meio de movimentos sociais ou de sindicatos hoje, no Brasil, não é fácil”. É a pura verdade. Por isso, o encontro de 7 de março merece uma análise bastante atenta.

Aspecto notável foi levantado por um integrante da CUT. O sindicalista oportunamente apontou que o grande problema não está apenas no fato da proposta de revisão histórica incutida no uso de uma expressão como “ditabranda” para se referir a um dos períodos mais sombrios de nossa história. Gravíssimo também, disse ele, é todo o comportamento recente da mídia, ou seja, a história atual que eles pretendem escrever nas suas páginas, percebida na diligente defesa do interesse de poderosos, na criminalização de movimentos sociais, no enxovalhamento de pessoas que não estão no rol de seus queridinhos. As duas coisas, portanto, estão ligadas: passado e presente encontram-se nas páginas dos grandes jornais, e não no bom sentido! Penso que vem daí o sucesso da manifestação de ontem, que provavelmente foi assistida por mais de quinhentas pessoas, gente de toda faixa etária, tanto os que viveram aqueles "brandos" anos, quanto uma moçada mais jovem e que deve estar percebendo as artimanhas falseadoras diariamente usadas pelos meios de comunicação.

Foi um ato acima de tudo político. As pessoas que lá estavam pretendiam fazer uma manifestação essencialmente política. E não se está aqui falando de política na sua dimensão antropológica ou na sua amplitude tão bem mostrada em famoso poema de Brecht. Não se quer dizer, pois, que o ato foi político porque no fundo tudo é político. Em verdade, foi-se protestar contra um poder - não instituído -, mas um poder usurpador. A imprensa mais do que nunca se acredita o quarto poder: tenta deflagrar crises, pensa que pode interferir na vida verdadeiramente institucional do país, quer ser a grande dona do país, sendo uma espécie de ventríloquo de alguns políticos conhecidos nossos.

Foi um ato, portanto, político do ponto de vista institucional mesmo, como seria, por exemplo, um panelaço contra o governo. Tal assunto merece estudo mais aprofundado de sociólogos, cientistas políticos e historiadores.

Não à toa vêem-se políticos da oposição – falo, é claro, do PSDB e do DEM – mostrando simpatia com a grande imprensa, ganhando espaço privilegiado nela, sendo tratado a pão-de-ló por colunistas que, como disse o presidente Lula, não querem de jeito nenhum passar pela mágoa de virem a ser chamados de chapa-branca. Vamos ver se tais jornalistas continuarão com esse temor se algum dia a dobradinha PSDB-DEM voltar ao governo Federal!

E não se trata de "achismos". Há estudos como o do IUPERJ que buscaram analisar cientificamente o partidarismo da grande mídia nas eleições presidenciais de 2006. Dentro da própria Folha, os dois últimos ombudsmans já apontaram a diferença de tratamento por parte do jornal para “escândalos federais” e escândalos estaduais e municipais em São Paulo e não deixaram também de observar a certa blindagem ao hoje mais bem cotado candidato oposicionista à sucessão de Lula.

A grande imprensa brasileira, portanto, como é de sua tradição histórica, continua querendo ser um ator político. No caso de São Paulo, conforme bem apontado num dos discursos da manifestação da Alameda Barão de Limeira, a Folha e o Estadão apoiaram o golpe militar de 1964. O jornal dos Mesquitas, porém, não deu salvaguarda ao período mais duro do regime, sendo até mesmo censurado à época; já o dos Frias deu até apoio logístico aos militares nos anos 1970. Algum tempo depois, a Folha quis passar a imagem de jornal mais arrojado, mais moderno e arejado do que seu concorrente. Mas, conforme dito por um dos manifestantes do sábado, agora a máscara da Folha definitivamente caiu.

Mas nada é muito de graça. Certamente que a proposta de revisão histórica deve ter algum objetivo mais latente. Pode ser que se queira levantar um debate que leve a questionamentos acerca de indenizações a vítimas e a parentes de vítimas do regime militar, assunto que atiça a “classe média pagadora de impostos”, sempre pronta a exalar seu moralismo seletivo. Outro intento talvez seja o de calar as idéias de abertura de arquivos do regime. A imprensa, com isso, é certo que atende aos interesses de muita gente com culpa no cartório. No caso da Folha em particular, a preocupação deve ser com a própria pele.

Congratulações a todos que estiveram presente na bonita, cívica e democrática manifestação de ontem, 07-03-2009, entre 10h00 e 12h35, na Alameda Barão de Limeira, 425, centro de São Paulo! Ah, eu também estive lá!

sábado, 24 de janeiro de 2009

O preconceito venceu o jornalismo (uma inconfidência)

Transcrevo mensagem que encaminhei ao ombudsman da Folha de São Paulo um dia após à cerimônia de posse do presidente Barack Obama:

Antes de mais, já digo que não li a íntegra da Folha de hoje. Apenas acompanhei, como faço todos os dias, a sua primeira página e fiquei chocado com o fato de o jornal não ter lembrado que a frase do presidente Obama, de que "a esperança superou o medo", remete ao que disse o presidente Lula na sua posse de 2003. Então quer dizer que um dos principais presidentes dos Estados Unidos em todos os tempos, na cerimônia de posse mais concorrida da história, diz uma frase que praticamente repete o que foi dito por um colega brasileiro, e a Folha simplesmente finge que não percebeu?

Talvez o senhor, os editores e redatores do jornal achem que isso realmente não seja importante. Talvez não seja mesmo. Mas reparo que o diário
Agora, da mesma "família Folha", deu manchete principal para o quase-repeteco do que fora dito pelo presidente do Brasil. Estranho que seja importante para o "popular" Agora, e não o seja para a "refinada" Folha.

O senhor arriscaria uma explicação?


Pois bem. O ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva gentilmente me retornou, informando-me que encaminhara a minha mensagem aos jornalistas responsáveis pela seção "Mundo" do jornal.

Mas não parou nisso - e é aí que vem a inconfidência, já que tomarei a liberdade de expor mensagem que me foi passada em caráter particular. O ombudsman acrescentou que, de sua parte, achava que a formulação de esperança versus medo é relativamente banal no discurso político eleitoral pelo mundo todo. Disse ele: "No passado recente, que me lembre, foi mote – além de Lula e Obama – de Tony Blair na campanha de 1997, Bill Clinton na campanha presidencial de 1992, Deval Patrick na campanha para governador de Massachusetts em 2006, entre muitos outros."

Como de praxe, agradeci o amável retorno, mas repliquei, ainda que de forma um tanto tacanha:

É... Pode ser. Mas não pareceu banal para o Agora, do grupo Folha, a frase ser muito parecida com a que foi dita por Lula. E o fato de ela ter sido proferida por outros estadistas não tira a importância de ter sido dita também pelo presidente do Brasil. Aliás, para os brasileiros - leitores da Folha ou não - tem mais importância o fato de ter sido encampada com bastante sucesso pelo presidente Lula do que ter sido utilizada também por Blair, Clinton e outros.

Tinha me dado por satisfeito com a solução do ombudsman, ainda que continuasse achando que era obrigação não apenas da Folha, mas de todos os jornais, ter lembrado que Obama disse frase que, em nosso nível nacional, foi emplacada com mestria pelo presidente Lula - inclusive porque foi um belo jogo de palavras com a ridícula situação protagonizada pela atriz Regina Duarte em 2002. Mas para minha surpresa, poucas horas depois recebo mensagem de Carlos Eduardo Lins da Silva, retransmitindo-me a resposta da editora do caderno "Mundo". (E aí os senhores têm mais inconfidências): "O leitor tem razão na queixa, o correspondente que fez a matéria até pediu que acrescentássemos a informação aqui, e na correria acabamos esquecendo.
Mas é bom lembrar que o uso por Barack Obama da mesma frase usada pelo presidente Lula em 2002 já havia acontecido na campanha. Então não era a novidade do discurso que ele fez ontem."

Pois é. A despeito da prodigiosa memória do ombudsman, e apesar da sua relativização da importância do caso, a editora reconheceu que o fato por mim apresentado mereceria melhor tratamento por parte do jornal, não obstante a ressalva de que o presidente americano já a usara em campanha.

A resposta foi dada. De todo modo, fica uma dúvida: será que, se Obama tivesse repetido alguma frase dita por FHC, os editores da Folha - ou de qualquer outro grande jornal - teriam esquecido ou teriam se deixado engolir pela correria de fechamento de tão importante edição?