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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Hitchcockianas


O Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo apresenta até o dia 24 de julho de 2011 "retrospectiva completa da obra do cineasta Alfred Hitchcock (1899-1980), que traz 54 longas, 2 curtas e 2 filmes complementares, além de todos os trabalhos que ele fez para a televisão", conforme divulgado pelos próprios organizadores.

Aproveitando a mostra, vamos fazer algumas idiossincráticas listas do repertório do genial diretor, com escolhas limitadas pelo nosso apenas razoável conhecimento da obra do inglês.

Top ten
Uma pequena lista, em constante mutação – exceto pelos três primeiros -, dos nossos “hitchcocks” prediletos:
-Intriga Internacional (1959)
-Os Pássaros (1963)
-Psicose (1960)
-Janela Indiscreta (1954)
-Festim Diabólico (1948)
-Disque “M” para Matar (1954)
-Frenesi (1971)
-A Dama Oculta (1938)
-Pacto Sinistro (1951)
-A Sombra de uma Dúvida (1943)

Loiras
Dificilmente lê-se algo sobre Hitchcock em que não haja menção à sua preferência pelas loiras. Este texto não pretende inovar neste sentido. Então aí vão nossas escolhas, com atrizes que participaram de, no mínimo, dois filmes do cineasta:
-Loira bonita e elegante: Grace Kelly em “Disque ‘M’ para Matar”, “Janela Indiscreta” e “Ladrão de Casaca” (1955).
-Loira bonita e sensual: Tippi Hedren em “Os Pássaros” e “Marnie, Confissões de uma Ladra” (1964).
-Loira bonita mas sem sal: Ingrid Bergman em "Quando Fala o Coração" (1945), “Interlúdio” (1946) e “Sob o Signo de Capricórnio” (1949).

Vilões
Alguns destaques:
-Leonard, interpretado por Martin Landau, é o coadjuvante que rouba a cena do protagonista malvado interpretado por James Mason, em “Intriga Internacional”.
-Tio Charlie, personagem de Joseph Cotten, em “A Sombra de uma Dúvida”.
-Tony Wendice, por Ray Millan, em “Disque ‘M’ para Matar”.

Cenas inesquecíveis
Nada de “morte no chuveiro”, em “Psicose”. Legais para valer mesmo são as seguintes:
-Cary Grant tumultuando um leilão em “Intriga Internacional”.
-Também em “Intriga Internacional”, Grant é perseguido por um avião, até ver a aeronave espatifar-se contra um caminhão de combustível.
-As crianças saem correndo da escola, fugindo do ataque de aves em “Os Pássaros”.
-Paul Newman, com auxílio de uma camponesa, luta contra um agente do governo alemão oriental, até asfixiá-lo num forno a gás, em “Cortina Rasgada” (1965).

Melhores trilhas
Do compositor Bernard Herrmann, as três melhores são:
-Psicose
-Intriga Internacional
-Um Corpo que Cai (1958)

Melhores aparições
Diz a lenda que muitos iam assistir aos filmes esperando para ver o próprio Alfred Hitchcock aparecer na tela, nas famosas pontas que fazia em seus trabalhos. Algumas interessantes:
-Em “Um Barco e Nove Destinos” (1944), a foto de Hitchcock aparece numa página de jornal, em anúncio publicitário do tipo "antes e depois" de produto para tratamento contra obesidade.
-Já não original, mas ainda assim de forma inteligente, em “Disque ‘M” para Matar”, o diretor está em fotografia de reunião de turma de faculdade.
-No clima “animal” do clássico “Os Pássaros”, um bonachão Hitchcock passeia com cachorros.

“Do it yourself”
Cada um deve ter suas próprias listas “hitchcockianas”. Se quiser deixar-nos saber quais são...

sábado, 12 de junho de 2010

Oliver Stone - Ao Sul da Fronteira


Em cartaz nalgumas raras salas alternativas, o documentário Ao Sul da Fronteira (South of the Border), dirigido por Oliver Stone, pode ser tomado como uma espécie de “direito de resposta” dos líderes de esquerda latino-americanos. À exceção do cubano Raul Castro, os entrevistados do cineasta estadunidense – todos eles presidentes sul-americanos – ascenderam aos seus postos como resposta popular a séculos de descaso das elites, em especial a políticas que tiveram sua culminância no descalabro neoliberal que reinou em seus países nas décadas de 1980 e 1990.

Destacam-se no filme os presidentes Lula, Rafael Correa (Equador), Fernando Lugo (Paraguai), Cristina Kirchner (Argentina). Tem-se, também, a oportuna participação do ex-presidente argentino Nestor Kirchner, com sóbrias opiniões, inclusive acerca de Hugo Chávez. Mas as duas principais “estrelas” são exatamente o venezuelano Chávez e o boliviano Evo Morales. Não por acaso, os dois últimos são os que mais sofreram ataques do fundamentalismo de direita dos Estados Unidos, especialmente do fomentado pela mídia.

Stone faz um belo apanhado da história recente da Venezuela, passando pelas tentativas de golpe, tanto a perpetrada pelo então coronel Hugo Chávez Frias, quanto a que ele, como presidente legitimamente eleito, sofreria em 2002, por obra de grupos que se organizaram com o apoio externo dos Estados Unidos e, internamente, em torno da mídia. No caso deste último, o cineasta valeu-se das informações e imagens já utilizadas no imperdível documentário The Revolution Will Not Be Televised, facilmente encontrável no YouTube.

Com Evo Morales, o cineasta deve ter provocado enfartes nalguns adeptos do Tea Party, ao consumir um punhado de folhas de coca enquanto ouve o boliviano falar da importância de se ter o domínio sobre os recursos naturais, justo no país que teve a própria água privatizada em favor de uma empresa americana, sob regras que proibiriam as pessoas de armazenar a água da chuva! Já em um momento de descontração, jogam um pouco de futebol.

Como uma não identificada personagem do filme está uma instituição: a imprensa. O que Stone parece tentar fazer é justamente desvelar a mistificação que a mídia procura impingir a esses presidentes latino-americanos. Trata-se de um acerto do diretor buscar entender a importância dos meios de comunicação nesse processo. Com efeito, os oposicionistas de direita ou de centro-direita na região encontram-se fragilizados, sem discurso. Por isso a mídia se arvora no papel de fazer as vezes de oposição política. É difícil para os políticos defender um legado de privatizações, de submissão ao FMI, de desregulamentação no mundo do trabalho; a mídia, ao contrário, não tem pudores de proteger tal modelo, mesmo sabendo – ou talvez exatamente por isso – que isso só encontra eco numa parcela ínfima da população, sobretudo entre os mais bem aquinhoados.

E é justamente de imagens tiradas de programas jornalísticos da TV americana que se têm os momentos mais hilários do documentário. Alguns depoimentos e notas são tão cômicos no radicalismo de direita que chegam a se parecer com as extraordinárias sátiras do professor Hariovaldo de Almeida Prado. Neste particular, Stone aproxima-se de seu conterrâneo Michael Moore, que sempre usa dos recursos do sarcasmo e da ironia para expor parte do absurdo do ideário político conservador. Moore, aliás, aparece no documentário em imagens tiradas de uma sua participação na CNN, descascando para cima do âncora Wolf Blitzer, acusando toda a mídia pelo endosso às mentiras de George W. Bush acerca do Iraque.

Uma crítica fácil seria imputar certa falta de objetividade ao diretor, acusando o viés ideológico do filme. Poder-se-ia, em vista disso, argumentar que não seria difícil produzir um documentário demonizando os governos retratados por Oliver Stone. Ora, como apontava o filósofo Isaiah Berlin, política é acima de tudo ideologia, devendo-se desconfiar das tentativas de a ela atribuir caráter científico. De qualquer forma, Stone documenta, apresenta dados confiáveis, exibe “confissões” de jornalistas.

De todo modo, aquele que assiste ao filme pode dele gostar ou não, pode levá-lo a sério ou não. O mais importante é que, no fim das contas, um cineasta norte-americano, ironicamente, é quem dá voz a políticos que, de alguma maneira, são censurados pela mídia de seus próprios países.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Protesto do MSM e o texto de Benjamin



O Movimento dos Sem-Mídia (MSM) realizou neste sábado, 05-12-2009, manifestação em frente ao jornal Folha de São Paulo, em repúdio a artigo (para mim, uma espécie de crônica) escrito por César Benjamin, publicado em 27-11-2009, no qual relatava que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria confessado, em almoço no qual estavam presentes outras pessoas, que tentara "subjugar" um jovem quando esteve na prisão. Desnecessário dizer que o jornal publicou sem checar a informação e sem ouvir o outro lado, talvez apegado ao fato de que tão pequenos detalhes são prescindíveis em texto "opinativo", como parece pensar o ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva.

No ato deste sábado, Eduardo Guimarães leu o manifesto que pode ser encontrado no blog dele, abrindo, em seguida, o microfone para quem quisesse acrescentar algo. Sobrou para a "ditabranda", para a parcialidade do jornal, para a relação promíscua com Serra e o PSDB e para outros órgãos do chamado PiG (Partido da Imprensa Golpista). Dentre as mais de 100 pessoas, havia gente do Rio de Janeiro, Paraíba e Santa Catarina.

O "artigo" de Benjamin
Quem reparar bem na fatídica edição de 27.11.2009, perceberá que o texto "Os filhos do Brasil", do economista César Benjamin, não está lá por acaso. Em verdade, ele faz parte de um turbilhão de tentativas de desqualificar o filme "Lula, o filho do Brasil", de Fábio Barreto. Na mesma data, em matéria sobre a película, o jornalista Rubens Valente aponta omissões de episódios "polêmicos" da vida de Lula sindicalista, deixando transparecer a ideia de que o filme escondia fatos que pudessem "empanar o brilho do personagem heroico construído pelo roteiro". O texto de Benjamin, nesse caso, seria a cobertura no bolo, pois trazia a demonstração cabal de que aquele "filho do Brasil" não seria exatamente do tipo que uma mãe - ou um país - gostaria de ter.

Ora, mas por que tudo isso?

No fundo, trata-se de situacão que faz parte da tradição oligárquica, elitista e preconceituosa da mídia paulista. Em verdade, sem o admitir, a Folha, aliada de setores conservadores não apenas de sua cidade mas de todo o Brasil, acredita que a maior parte da população, sobretudo os mais pobres e menos escolarizados, é composta de pessoas incapazes de avaliar uma obra cinematográfica e sem quaisquer condições de discernir uma peça fictícia de um documentário. Disso resulta o medo de que os espectadores votem, em 2010, de olho no mito que aparece nas telas, sufragando a candidata que ele indicar, motivo pelo qual parece entender necessário - custe o que custar - sair a campo, por antecipação, com um processo de desmitificação (e desmistificação) da figura do operário e sindicalista que um dia se tornaria o presidente mais popular da história do País, minimizando ou anulando os "estragos" que o filme de Barreto poderia causar nas "mentes ignorantes" dos que não leem jornais.

O longo "artigo" de César Benjamin decerto que serve a tal propósito. A começar pelo próprio título, "Os filhos do Brasil", o ex-militante petista quer deixar claro que tal epíteto soaria melhor se aplicado a muitos presos comuns que há por aí, pois, afinal de contas, o presidente brasileiro seria, em realidade uma besta fera que ataca jovens, enquanto ele, Benjamin, jovem preso pela ditadura, era respeitado pelos "barras pesadas" com quem dividira as celas nos anos 1970. O recado é curto e direto: Lula é moralmente inferior a ladrões e homicidas que superlotam os nossos presídios.

A julgar pelas missivas que, nas edições imediatamente posteriores, comentavam o texto do economista, muitos brasileiros leitores do diário paulistano sentiram-se de alma lavada com a história lá contada, o que, a princípio, é surpreendente por pelo menos dois motivos. Em primeiro lugar, porque a mesma seção de cartas da Folha já foi espaço para leitores expressarem o mais violento ódio e ressentimento aos apenados pobres brasileiros, sobretudo quando se envolvem em protestos e rebeliões, tornando curioso o fato de que eles (os leitores) tenham sido tocados pela simpatia com que alguns "criminosos comuns" são descritos - homenageados - por Benjamin. Em segundo, porque a certa altura Benjamin diz não saber quem é o "menino do MEP", o "subjugado" pelo presidente, mas imaginava que ele estivesse vivo, pois provavelmente branco de classe média, não teria corrido os mesmos riscos de morte precoce dos negros e pobres brasileiros; está aí mais um tipo de opinião que deveria provocar a antipatia da média de leitores da Folha, para os quais a existência racismo ou da luta de classes no Brasil só existe na cabeça dos lunáticos da esquerda. Imagino que se o assunto tratado pelo economista fosse qualquer outro que não implicasse agressão ao presidente ou ao PT, talvez a mesma seção de cartas veria leitores insurgindo-se contra a perigosa pregação comunista do colaborador, espumando ódio contra a sua defesa de bandidos e em oposição à sua herética insinuação de que não há democracia racial no País.

Uma outra curiosidade - a bem da verdade uma pilhéria - é que para os editores da Folha o relato de Benjamin, descrevendo porões da ditadura, deve ter sido visto como uma obra surreal, afinal, para eles, por aqui houve somente uma "ditabranda"!

Por fim, há de se ver na estratégia adotada pela Folha - de tentativa de desqualificação do filme "Lula, o filho do Brasil", a serviço da qual usou até o texto infame de Benjamin -, não somente desrespeito à instituição Presidência da República ou à figura humana do presidente, mas uma agressão à inteligência do eleitor, enxergado como alguém incapaz de ir ao cinema fruir de uma obra de arte, sem que ela necessariamente interfira na sua maneira de votar.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Jean-Luc Godard - Alphaville (1965)

Alphaville é um filme visionário e arcaico ao mesmo tempo: Godard aponta o futuro, com uma sociedade totalitária, dominada por uma máquina, enquanto explora os recursos de "preto-e-branco", dando um toque absurdamente sombrio às suas imagens, passando um ar retrô aparentemente inspirado nos velhos filmes noir dos anos 1940.

Como boa referência na seara literária, impossível não pensar no 1984, de George Orwell. Pode-se, por isso, classificar Alphaville como uma distopia, e a exemplo do livro do romancista inglês, de conteúdo essencialmente político.

No clássico filme, a já sugerida fotografia em 'preto-e-branco', o 'livre' e 'ocupado' dos gabinetes de interrogatório, o 'Figaro Pravda' de 'Ivan Johnson' são metáforas para falar de um mundo marcado por pólos antagônicos, claramente representados nos seculares conceitos de "direita" e "esquerda", e isso em pleno auge da Guerra Fria!

Como se não bastasse, Godard, inteligentemente, escolheu o computador para ser o grande dominador. Afinal, nada mais dual do que o código binário para representar uma sociedade maniqueísta e dividida.

sábado, 21 de junho de 2008

Dica de cinema


O Hulk está em cartaz nos cines de São Paulo. Quanta ação!

Não raro os detratores de tal tipo de filme dizem que, no cinema, a “ação” é inversamente proporcional à inteligência. Maldade! Depende da “ação”, depende do filme...

Filmes de ação caracterizam-se pela movimentação rápida, pelo clima tenso, pelos arroubos de violência, numa palavra, pela adrenalina. Os olhos de quem os está vendo mal piscam, os músculos às vezes se retesam, o coração não raro dispara.

Nada deveria impedir, entretanto, que um filme de ação possa abrir espaços para questionamentos morais, para a profundidade psicológica, para análises de contextos históricos. Sem dúvida que é perfeitamente possível a simbiose de “cérebro” e “ação” no cinema.

Não obstante possam estar catalogados noutras categorias, idiossincraticamente considero grandes filmes de ação os fenomenais Intriga Internacional (Alfred Hitchcock, 1959) e Sob o Domínio do Medo (Sam Peckinpah, 1971). O primeiro é um thriller que tem como pano de fundo os serviços de inteligência e de espionagem no contexto da guerra fria, e como isso poderia pôr de cabeça para baixo a vida de um homem comum. O segundo reserva toda a ação para o final, depois de ver construído passo a passo o clima que desembocará num ambiente explosivo que envolve violência gratuita, inveja, intolerância, vingança e injustiça numa cidade pequena e provinciana.

Mas as coisas felizmente não param por aí! Depois de muita espera, acabei finalmente vendo no TCM o clássico Círculo do Medo (J. Lee Thompson, 1961). Trata-se do suspense refilmado por Martin Scorsese nos anos 1990 que, no Brasil, ganhou o título de Cabo do Medo. No remake estrelado por Robert de Niro como o ex-presidiário que não quer dar sossego para o advogado interpretado por Nick Nolte, ficam latentes aquelas características brutas dos filmes de ação que acima enumeramos. No original do início dos anos 1960, o advogado interpretado por Gregory Peck precisa proteger a família da fúria do vingativo Robert Mitchum. Mas neste, apesar da adrenalina pura, há também discussões sobre legalidade, justiça e limites humanos, que o colocam milhões de anos-luz à frente daquela refilmagem.

Por favor, caro leitor, não pense que são necessárias justificativas "intelectualóides" para se curtir um bom filme, afinal não há nada de errado no fato de ele ser um mero passatempo. Mas, antes, pensemos na questão por um ângulo invertido: será que filmes como os três mencionados não serviriam como porta de entrada para o mundo de um cinema mais bem articulado e recheado de idéias para aqueles que em geral não têm muita paciência com os clássicos e com os trabalhos mais cerebrais da sétima arte?

Os que não querem perder tempo pensando na questão, que tomem, por favor, o presente post apenas como uma singela “dica de cinema”.