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domingo, 1 de maio de 2011

Preconceito é a única resposta

Em janeiro de 2010,escrevi texto neste espaço, exortando aos nossos raros - quase inexistentes - leitores que nos respondessem sobre tema que nos intrigava desde 2003. Segue abaixo trecho daquele post:

DOMINGO, 3 DE JANEIRO DE 2010
Responda-me


(...)

Nosso questionamento refere-se ao – talvez - mais comum reparo ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os seus principais críticos não costumam contemporizar: o governo Lula é um desastre. Já o de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, foi uma maravilha. Até aí tudo bem. Além de ser questão de gosto, temos nisso um pouco da beleza da democracia: a maioria esmagadora dos brasileiros prefere o governo de Lula, mas há uma minoria que entende terem sido as coisas melhores durante o mandato de FHC. Não há, em absoluto, nenhum problema quanto a isso.

O grande problema reside no fato de que, segundo os críticos – até mesmo os mais respeitáveis – de Lula, seu governo é uma mera cópia ou seguimento do de FHC. Em linhas gerais, é como se se dissesse que Lula nada mais faz do que o seu antecessor ou alguém de seu partido faria caso estivesse hoje investido da posição de presidente da República. Muitíssimo bem. Trata-se de um modo de enxergar e uma opinião de alguma maneira bem sustentada. O problema, repitamos, é tal opinião advir de pessoas que não apenas são críticas a Lula, mas, mais do que isso, são entusiastas do governo que o antecedeu.

Vamos à pergunta!

Se FHC foi tão bom, e Lula apenas o imita, como pode o governo Lula ser considerado tão ruim justamente pelos principais admiradores do sociólogo? Ou ao contrário: se o governo Lula é tão ruim, e é mera cópia de seu antecessor, como pode este ser tão idolatrado pelos críticos do metalúrgico? Não seria mais lógico admitir que o governo Lula é bacaninha, afinal apenas segue o governo de seu antecessor, considerado fantástico? Ou, de outro modo, não seria mais razoável admitir que o governo Lula é ruim, porque é igualzinho ao de FHC, mas o de FHC, por sua vez, também não prestou? Em resumo, como pode Lula ser ruim, FHC ser bom, mas Lula ser igual FHC?

Deixamos a pergunta no ar. Ficaríamos gratos a quem se habilitasse a dar a resposta. Como já dissemos, interessante seria uma resposta mesmo, não uma opinião. Ter um juízo sobre o assunto, opinar por que há pessoas que odeiam o governo Lula, adoram o de FHC e tentam justificar os bons resultados de Lula alegando que este apenas imita o tucano, não é das tarefas mais difíceis; respostas de verdade, simples e diretas, no entanto, tendem a ser raras e, via de regra, são trabalhosas.


Somente dois abnegados leitores responderam. Ficamos aguardando mais, sem sucesso, até por conta da já mencionada escassez de leitores - do que não reclamamos: parafraseando Groucho Marx, jamais seguiria um blog que fosse escrito por mim!

Mas eis que nesta semana começa a circular texto de Luís Fernando Veríssimo sobre o tema, estimulando-me a recuperar o meu velho post do trecho acima destacado.

E é do Veríssimo mesmo. Bom que se diga, pois o escritor gaúcho - juntamente com Arnaldo Jabor e Zíbia Gasparetto - é dos mais "falsificados" em mensagens que circulam na internet.

Vamos botar na íntegra o texto de Luís Fernando Veríssimo, da forma como publicado no site Conversa Afiada:


Luis Fernando Verissimo: sobre Lula, FHC e a classe média


Diálogo urbano, no meio de um engarrafamento. Carro a carro.


— É nisso que deu, oito anos de governo Lula. Este caos. Todo o mundo com carro, e todos os carros na rua ao mesmo tempo. Não tem mais hora de pique, agora é pique o dia inteiro. Foram criar a tal nova classe média e o resultado está aí: ninguém consegue mais se mexer. E não é só o trânsito. As lojas estão cheias. Há filas para comprar em toda parte. E vá tentar viajar de avião. Até para o exterior — tudo lotado. Um inferno. Será que não previram isto? Será que ninguém se deu conta dos efeitos que uma distribuição de renda irresponsável teria sobre a população e a economia? Que botar dinheiro na mão das pessoas só criaria esta confusão? Razão tinha quem dizia que um governo do PT seria um desastre, que era melhor emigrar. Quem pode viver em meio a uma euforia assim? E o pior: a nova classe média não sabe consumir. Não está acostumada a comprar certas coisas. Já vi gente apertando secador de cabelo e lepitopi como e fosse manga na feira. É constrangedor. E as ruas estão cheias de motoristas novatos com seu primeiro carro, com acesso ao seu primeiro acelerador e ao seu primeiro delírio de velocidade. O perigo só não é maior porque o trânsito não anda. É por isso que eu sou contra o Lula, contra o que ele e o PT fizeram com este país. Viver no Brasil ficou insuportável.


— A nova classe média nos descaracterizou?


— Exatamente. Nós não éramos assim. Nós nunca fomos assim. Lula acabou com o que tínhamos de mais nosso, que era a pirâmide social. Uma coisa antiga, sólida, estruturada…


— Buuu para o Lula, então?


— Buuu para o Lula!


— E buuu para o Fernando Henrique?


— Buuu para o… Como, “buuu para o Fernando Henrique”?!


— Não é o que estão dizendo? Que tudo que está aí começou com o Fernando Henrique? Que só o que o Lula fez foi continuar o que já tinha sido começado? Que o governo Lula foi irrelevante?


— Sim. Não. Quer dizer…


— Se você concorda que o governo Lula foi apenas o governo Fernando Henrique de barba, está dizendo que o verdadeiro culpado do caos é o Fernando Henrique.


— Claro que não. Se o responsável fosse o Fernando Henrique eu não chamaria de caos, nem seria contra.


— Por quê?


— Porque um é um e o outro é outro, e eu prefiro o outro.


— Então você não acha que Lula foi irrelevante e só continuou o que o Fernando Henrique começou, como dizem os que defendem o Fernando Henrique?


— Acho, mas……………


Nesse momento o trânsito começou a andar e o diálogo acabou.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Protesto do MSM e o texto de Benjamin



O Movimento dos Sem-Mídia (MSM) realizou neste sábado, 05-12-2009, manifestação em frente ao jornal Folha de São Paulo, em repúdio a artigo (para mim, uma espécie de crônica) escrito por César Benjamin, publicado em 27-11-2009, no qual relatava que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria confessado, em almoço no qual estavam presentes outras pessoas, que tentara "subjugar" um jovem quando esteve na prisão. Desnecessário dizer que o jornal publicou sem checar a informação e sem ouvir o outro lado, talvez apegado ao fato de que tão pequenos detalhes são prescindíveis em texto "opinativo", como parece pensar o ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva.

No ato deste sábado, Eduardo Guimarães leu o manifesto que pode ser encontrado no blog dele, abrindo, em seguida, o microfone para quem quisesse acrescentar algo. Sobrou para a "ditabranda", para a parcialidade do jornal, para a relação promíscua com Serra e o PSDB e para outros órgãos do chamado PiG (Partido da Imprensa Golpista). Dentre as mais de 100 pessoas, havia gente do Rio de Janeiro, Paraíba e Santa Catarina.

O "artigo" de Benjamin
Quem reparar bem na fatídica edição de 27.11.2009, perceberá que o texto "Os filhos do Brasil", do economista César Benjamin, não está lá por acaso. Em verdade, ele faz parte de um turbilhão de tentativas de desqualificar o filme "Lula, o filho do Brasil", de Fábio Barreto. Na mesma data, em matéria sobre a película, o jornalista Rubens Valente aponta omissões de episódios "polêmicos" da vida de Lula sindicalista, deixando transparecer a ideia de que o filme escondia fatos que pudessem "empanar o brilho do personagem heroico construído pelo roteiro". O texto de Benjamin, nesse caso, seria a cobertura no bolo, pois trazia a demonstração cabal de que aquele "filho do Brasil" não seria exatamente do tipo que uma mãe - ou um país - gostaria de ter.

Ora, mas por que tudo isso?

No fundo, trata-se de situacão que faz parte da tradição oligárquica, elitista e preconceituosa da mídia paulista. Em verdade, sem o admitir, a Folha, aliada de setores conservadores não apenas de sua cidade mas de todo o Brasil, acredita que a maior parte da população, sobretudo os mais pobres e menos escolarizados, é composta de pessoas incapazes de avaliar uma obra cinematográfica e sem quaisquer condições de discernir uma peça fictícia de um documentário. Disso resulta o medo de que os espectadores votem, em 2010, de olho no mito que aparece nas telas, sufragando a candidata que ele indicar, motivo pelo qual parece entender necessário - custe o que custar - sair a campo, por antecipação, com um processo de desmitificação (e desmistificação) da figura do operário e sindicalista que um dia se tornaria o presidente mais popular da história do País, minimizando ou anulando os "estragos" que o filme de Barreto poderia causar nas "mentes ignorantes" dos que não leem jornais.

O longo "artigo" de César Benjamin decerto que serve a tal propósito. A começar pelo próprio título, "Os filhos do Brasil", o ex-militante petista quer deixar claro que tal epíteto soaria melhor se aplicado a muitos presos comuns que há por aí, pois, afinal de contas, o presidente brasileiro seria, em realidade uma besta fera que ataca jovens, enquanto ele, Benjamin, jovem preso pela ditadura, era respeitado pelos "barras pesadas" com quem dividira as celas nos anos 1970. O recado é curto e direto: Lula é moralmente inferior a ladrões e homicidas que superlotam os nossos presídios.

A julgar pelas missivas que, nas edições imediatamente posteriores, comentavam o texto do economista, muitos brasileiros leitores do diário paulistano sentiram-se de alma lavada com a história lá contada, o que, a princípio, é surpreendente por pelo menos dois motivos. Em primeiro lugar, porque a mesma seção de cartas da Folha já foi espaço para leitores expressarem o mais violento ódio e ressentimento aos apenados pobres brasileiros, sobretudo quando se envolvem em protestos e rebeliões, tornando curioso o fato de que eles (os leitores) tenham sido tocados pela simpatia com que alguns "criminosos comuns" são descritos - homenageados - por Benjamin. Em segundo, porque a certa altura Benjamin diz não saber quem é o "menino do MEP", o "subjugado" pelo presidente, mas imaginava que ele estivesse vivo, pois provavelmente branco de classe média, não teria corrido os mesmos riscos de morte precoce dos negros e pobres brasileiros; está aí mais um tipo de opinião que deveria provocar a antipatia da média de leitores da Folha, para os quais a existência racismo ou da luta de classes no Brasil só existe na cabeça dos lunáticos da esquerda. Imagino que se o assunto tratado pelo economista fosse qualquer outro que não implicasse agressão ao presidente ou ao PT, talvez a mesma seção de cartas veria leitores insurgindo-se contra a perigosa pregação comunista do colaborador, espumando ódio contra a sua defesa de bandidos e em oposição à sua herética insinuação de que não há democracia racial no País.

Uma outra curiosidade - a bem da verdade uma pilhéria - é que para os editores da Folha o relato de Benjamin, descrevendo porões da ditadura, deve ter sido visto como uma obra surreal, afinal, para eles, por aqui houve somente uma "ditabranda"!

Por fim, há de se ver na estratégia adotada pela Folha - de tentativa de desqualificação do filme "Lula, o filho do Brasil", a serviço da qual usou até o texto infame de Benjamin -, não somente desrespeito à instituição Presidência da República ou à figura humana do presidente, mas uma agressão à inteligência do eleitor, enxergado como alguém incapaz de ir ao cinema fruir de uma obra de arte, sem que ela necessariamente interfira na sua maneira de votar.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Acho que é pela TERCEIRA vez

Já tivemos ocasião de falar na possibilidade de um terceiro mandato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tal tema corre solto desde o processo sucessório de 2006, quando se começou a perceber que o presidente poderia se reeleger ainda no primeiro turno; persistiu quando, mesmo tendo que disputar um segundo escrutínio, o presidente demonstrou que sairia consagrado com vitória esmagadora. O assunto, num primeiro momento, só ganhou espaço por conta dos exageros da mídia e da falta de projetos da oposição, com clara intenção de criar uma espécie de terrorismo institucional.

Mas agora o tópico volta à tona graças à ação do deputado Jackson Barreto (PMDB-SE), que coleta assinaturas para colocar em tramitação no Congresso uma proposta de emenda constitucional que permitiria o instituto da segunda reeleição. Parece também fazer parte de tal proposta a possibilidade de um plebiscito ou referendo. O presidente Lula jura que não tem nada a ver com essa história e que já conta com candidato, quer dizer, candidata para 2010.

Situação complicada...

Quando Maquiavel falava da "fortuna" estava querendo se referir às condições concretas com que o governante eventualmente depara, as quais nem sempre dependem de sua vontade. O grande pensador a comparou a um grande rio que, quando enche, provoca estragos. Mas, ponderava ele, no momento de calmaria deve-se se preparar de modo a sofrer o mínimo possível quando sobrevier a cheia.

A maré está a favor de Lula. Se as eleições fossem hoje, e ele pudesse disputar o terceiro mandato, provavelmente ganharia mais quatro anos. Mas "a sorte é mulher", advertia o florentino, como dizendo que há que se cuidar dela.

Imaginemos que se coloque em tramitação a PEC do terceiro mandato. E se ela não for aprovada? Ou, de outro lado, se aprovada no Congresso, mas dependente de um referendo - ou de um plebiscito questionando acerca da sua possibilidade -, a proposta, em quaisquer dos casos, for rechaçada pela população?

Bem, no caso de fracasso da proposta, volta-se ao velho e bom plano Dilma. Simples assim!

É claro que não é tão simples.

A candidatura Dilma vem ganhando musculatura. A proposta de terceiro mandato tem tudo para esvaziá-la com mais virulência do que conseguiria qualquer propaganda maledicente da mídia ou dos grupos de extrema-direita. E, ademais, é improvável que as pessoas acreditassem que o presidente não tem nada a ver com isso, ainda que ele negue reiteradamente que queira ser candidato em 2010.

Neste caso, a principal mensagem seria a de que só se iria de Dilma se o presidente realmente não pudesse disputar mais uma eleição consecutiva. Para o eleitor, seria como se ela tivesse passado de "plano A" para "plano B" num piscar de olhos. Em vez da mulher forte, de idéias firmes e luz própria, ter-se-ia a marionete do Planalto, um quebra-galho ou um tapa-buraco, útil somente no caso da impossibilidade da candidatura daquele que é "insubstituível" nos quadros do Partido dos Trabalhadores.

Este blog gostaria de deixar bem claro que não é, em princípio, contrário à tese de terceiro mandato - não o é nem mesmo da possibilidade de reeleições infinitas. Somos, porém, a favor de medidas que não sejam oportunistas como foi a da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Aceitamos, também em princípio, que um referendo ou plebiscito possa diminuir o tom casuísta de uma mudança constitucional que altere as regras enquanto o jogo está rolando. Mas, voltando, isso só funcionaria se desse 100% certo. Para isso, ter-se-ia que combinar com os russos e deixar o "imponderável da silva" afastado do campo político por uns tempos, o que, por óbvio, é praticamente impossível.

E Dilma, meus amigos, tem muitas chances de levar em 2010 - está aí a recente pesquisa Vox Populi que não nos deixa mentir. Ou será mais acertado dizer que ela "teria"?

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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Tô com medo!

Numa das cenas mais patéticas da história recente do país, a atriz Regina Duarte admitiu que tinha medo da eventual eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, quando o ex-metalúrgico enfrentava o hoje governador José Serra. Nunca pensei que eu representaria tão ridículo papel, até porque não tenho e nem faço questão de ter o “talento” daquela que já foi “namoradinha do Brasil”, mas a verdade é que devo admitir, caro leitor, que tenho medo do que possa ocorrer com o próximo presidente do país. É isso aí: agora, eu é que estou com medo!

A situação não será nada fácil para Dilma Roussef, para o já citado José Serra ou para quem quer que seja o próximo ocupante do Planalto. O presidente Lula caminha a passos largos para se consolidar como um mito de nossa era, como a figura política mais importante de nossa história. E isso, infelizmente, não é algo que se possa considerar muito bom. O sucessor do petista terá dificuldades de se projetar como um pós-Lula ou, se for o caso, como o seguidor da figura mítica.

Estou, evidentemente, pensando na espetacular popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada pela pesquisa CNT/Sensus, divulgada na terça-feira (04-02-2009). Sinceramente acreditava que o presidente já havia atingido seu limite. Imaginava também que, nessa pesquisa, ele cairia um pouco, talvez dentro da margem de erro, mas o suficiente para fazer a alegria da “imprensa festiva”. Mas não, o homem subiu!

Há, além do mais, outra informação bastante relevante (e assustadora), sutilmente escondida pela grande mídia: na sondagem para 2010, nas respostas espontâneas, o desejo da maioria é que fosse eleito presidente ninguém menos do que... Lula. Isso mesmo, caro leitor! Lula não pode se candidatar a mais um mandato consecutivo, mas mesmo assim, na pesquisa espontânea, ou seja, aquela em que a pessoa simplesmente responde sem lista de nomes em quem votaria se a eleição fosse hoje, Lula ganharia com o dobro dos votos de José Serra, líder da mesma pesquisa na sua forma estimulada.

Tenho medo, pois, da sombra que pairará sobre a cabeça do sucessor do presidente Lula. Como poderá o sucessor se sobrepor a uma figura que consegue, contra a mídia, contra os poderosos, num ambiente de crise, manter-se em tão elevado índice de popularidade?

A liderança de Lula conseguiu, ainda que aos trancos e barrancos, unir o PT, o que não é pouca coisa, e tem conseguido deixar acuada uma oposição que lhe poderia ser mais radical. Observemos que mesmo os candidatíssimos Serra e Aécio não encontram facilidades em se mostrar como anti-Lula. Parece que esse não será o caminho abraçado pelos dois, a menos que a crise econômico-financeira recrudesça muito por aqui. (Daí talvez todo o terrorismo midiático).

O próximo presidente necessitará de habilidade e terá que contar com alguma sorte, caso contrário, e a despeito da aparente estabilidade de nossa democracia, talvez surja algum movimento do tipo “Volta, Lula”!

Interessante notar que, vendo por esse lado, apesar da extraordinária crise nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama parece estar em melhores lençóis do que tenderá a estar o próximo mandatário do Brasil, sobretudo se a coisa não ficar muito feia por aqui. Paradoxal, não?

sábado, 17 de janeiro de 2009

Velho assunto novo

Até o momento em que comecei a catar milho elaborando este post, não tive a oportunidade de ver a repercussão da fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que defendeu, na Venezuela, a mudança da constituição daquele país, ainda a ser referendada, que permitirá infinitas reeleições aos mandatários do país vizinho. Posso – e sinceramente espero – estar enganado, mas é muito provável que algum jornal de hoje (17-01-2009) já traga estampada a opinião de que Lula deu uma senha para tentativa de mais um mandato para si, não obstante o presidente tenha aproveitado para reiterar que não quer um terceiro mandato, embora admita que vá trabalhar dedicadamente para fazer seu sucessor.

Antes que o leitor me acuse de estar sendo leviano por falar de algo que admito não saber se realmente ocorreu, peço que o amigo primeiro acuse os meios de comunicação por serem tão previsíveis, e, dessa forma, darem tanta munição aos seus críticos.

O presidente brasileiro disse também que, estivesse o Brasil andando bem das pernas no final do mandato de Fernando Henrique Cardoso, provavelmente algum deputado da base governista apresentaria uma proposta de emenda para dar sobrevida a FHC. Isso foi, com efeito, um golpe de mestre de Lula. Também por antecipação, talvez imaginando a forma negativa que sua fala tenderia a repercutir na mídia brasileira, o presidente mandou um recado, talvez insinuando que faltou indignação quando o sociólogo ex-presidente foi beneficiado por uma mudança constitucional em 1997. Lula poderia ter ido além e lembrado também dos desejos atuais de um tal Uribe...

Mas analisando o mérito de questões envolvendo terceiros mandatos ou reeleições indefinidas, a sempre humílima opinião deste blogueiro é de que o problema delas seria somente a alteração de regras no meio do jogo, como foi, repitamos, a ocorrida no Brasil há mais de uma década. Por isso, as mudanças na Venezuela não deveriam, em princípio, beneficiar Hugo Chávez , assim como eventuais propostas de terceiro mandato consecutivo no Brasil e na Colômbia não deveriam servir a Lula ou a Alvaro Uribe. Tirando isso, não há maior gravidade nelas.

A possibilidade de reeleições indefinidas deixa os eleitores à vontade para permitir a continuidade de um governante – ou de projetos – que mais o agradem, do mesmo modo que não impedem o eleitor de rechaçá-las, se for o caso. Não há pensar que a alternância no poder seja um valor em si. No parlamentarismo, por exemplo, a continuidade de um grupo ou de uma figura à frente da chefia de governo não costuma encontrar amarras. Aqui no Brasil, um partido como o PSDB já está há quinze anos à frente do governo do maior estado do país sem que a mídia faça o mínimo de lamentação. E que não venham com o papo que a mudança dos governadores significa alternância no poder, pois há todo um discurso montado em favor da supremacia do partido sobre as figuras políticas. Houvesse honestidade e coerência na imprensa, sobretudo a paulista, já deveria ter sido adotado um discurso contra a hegemonia tucana em São Paulo.

Mas há uma crítica que, caso tenha sido observada em algum órgão da imprensa brasileira, mereceria elogio: seria a que dissesse talvez não ser de bom tom o presidente brasileiro ir à Venezuela fazer comentários sobre uma contenda interna daquele país, ainda mais levando em consideração que ela ainda deverá passar pelo crivo popular. Mas o substrato da fala de Lula é absolutamente perfeito, além de ser um tapa na cara da oposição brasileira, tanto a representada pelos políticos quanto a ilegitimamente encampada pela mídia.

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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Obama e Lula

Do muito que se foi falado sobre a vitória de Barack Obama, o melhor veio da boca do presidente Lula - só para variar um pouquinho! Disse o presidente que a vitória do democrata foi um "feito extraordinário" e que "um negro sagrar-se presidente dos Estados Unidos não é pouca coisa". É verdade e não é de surpreender que Lula o tenha dito. O que causou estranheza mesmo foram os editoriais dos jornais e a comemoração de certa parcela da população brasileira.

Os jornais e algumas figuras aqui do Brasil falaram da trajetória do senador, de suas origens, de quão notável é o fato de alguém como ele chegar ao posto a que chegou, num país em que o racismo não é velado como o nosso, e que também não é dado a aventurar-se ou ter arroubos de modernidade e experimentação. Ora, guardadas as devidas proporções e feitas as necessárias adaptações o mesmo se pode dizer da gloriosa vitória de um nordestino torneiro mecânico aqui no Brasil. Mas, em vez das explosões de fogos e todo alvoroço da mídia e da classe média brasileiras, Lula sempre teve que amargar hostilidades e má vontade.

A Folha até que chegou a ousar, colocando na primeira página, no dia da eleição, o depoimento de brasileiro radicado nos Estados Unidos, que apontou as semelhanças de trajetória de Barack Hussein Obama e de Luiz Inácio Lula da Silva. Será que alguém leu atentamente? O presidente Hugo Chávez também lembrou que a vitória do afrodescente no pleito estadunidense guardava alguma ligação com a onda democrática que elegeu presidentes populares de esquerda na América Latina. A mídia brasileira desconversou sobre o assunto.

Pelo jeito, nem tudo o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.

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Que "coisa"!
São outros valores, estúpido!

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Atenção: este país tem um "alarde"!

Os leitores um pouco mais velhos, mas ainda possuidores de razoável memória, talvez se lembrem de uma antiga campanha publicitária do jornal Folha de São Paulo que dizia: “Atenção: este país tem um alarme”. O “alarme”, por óbvio, era o diário paulistano, que naqueles tempos destacava-se por um jornalismo investigativo e perscrutador.

Lembrei-me disso porque, para o Presidente Luiz Inácio da Silva, está-se fazendo muito “alarde” na questão dos mais recentes dados sobre o desmatamento (o desmate, como diz a Folha) na Amazônia. O alarde é do INPE, das ONGs e até mesmo do Ministério do Meio Ambiente, mas está sendo sobejamente difundido pela nossa dedicadíssima imprensa. O presidente, sabedor da opção preferencial da mídia pela má notícia, talvez tivesse vontade de dizer: “Atenção: este país tem um ‘alarde’”.

Sei bem quão infame é o trocadilho e não nego que possa ser algo despropositada a brincadeira. Mas fiquei com isso na cabeça ao acompanhar a força crítica que a triste notícia vem ganhando nos órgãos midiáticos tupiniquins.

O primeiro ponto a se levantar é o de que o Brasil apresentou nos últimos três anos dados que apontavam para um ritmo consideravelmente menor de desmatamento. Propagados na imprensa estrangeira, os números, dignos de rasgados elogios nos mais importantes órgãos informativos mundo afora, não mereceram muito “alarde” por parte da mídia nativa.

O segundo aspecto a ser destacado é a má vontade apresentada por certos setores, inclusive a imprensa, para com o Ministério comandado por Marina Silva, acusado de ser linha-dura o suficiente a ponto de impedir o crescimento do PIB brasileiro acima de outros países que não o açoitado Haiti, especialmente no ano eleitoral de 2006. O jornal O Estado de São Paulo chegou a publicar editorial responsabilizando uma suposta pequenez de visão dos ecologistas pelos números então raquíticos do crescimento brasileiro. E os ecologistas e toda a turma do Ministério do Meio Ambiente que se preparem: se faltar, por exemplo, energia no Brasil, os jornais vão soltar o verbo, acusando a trupe de Marina, as ONGs e os demais simpatizantes da causa verde pelas dificuldades de concessão de licenças ambientais e pelo atraso de licitações para obras de interesse da matéria.

Um terceiro e bastante representativo viés sobre o assunto são os rumores de que o desmate se deu por conta do aumento de produção de gêneros ligados à pecuária e ao setor de agronegócios. Não por acaso os dois segmentos são responsáveis, em grande medida, pela relativa melhoria nos indicadores econômicos brasileiros, o que comprova a evidente hipocrisia dos meios de comunicação, que, agora – e somente agora –, fingem estar preocupados com a dizimação de nossas florestas. É fácil falar do que se vê; difícil é imaginar o “como seria”. Mas não duvido que se o setor agrário estivesse caindo pelas tabelas, porém com uma Amazônia preservada, a mídia também estaria descendo o pau no governo brasileiro, com direito a alguns estilhaços aos ecologistas “retrógrados”.

Muitos sempre torcem o nariz quando o assunto escorrega para um terreno ideologicamente pantanoso, mas a grande verdade é que o drama ecológico, em todas as suas formas, está ligado ao que se poderia chamar de ordem capitalista internacional. Não há o que dizer: a discussão sobre o tema se resume a uma situação de crise estrutural do sistema. Em verdade, a própria agenda ecológica somente ganhou espaço nas últimas décadas porque o capital passou a se reproduzir num ritmo mais rápido do que a natureza. Com efeito, é assombroso pensar que boa parte do que se consome diariamente no mundo é puro desperdício ou é mau uso de recursos naturais. Mais apavorante ainda é pensar que, se amanhã acordássemos todos conscientes e passássemos a apenas consumir o que de fato necessitamos e – mais ainda - fôssemos tomados do mais cerimonioso respeito pela natureza, o mundo, sem sombra de dúvidas, iria à bancarrota.

Bobagem? Os problemas ambientais nada têm a ver com o modelo de produção econômica? Ótimo! Então que se avise aos Estados Unidos, para que ratifiquem logo o Protocolo de Kyoto! E as florestas de países mais desenvolvidos, onde é que estão?