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domingo, 24 de julho de 2011

Inflação: política e economia

O factoide inflação continua rendendo – com ou sem trocadilhos, você decide!. Começou como mero jogo político capitaneado pela oposição e pela mídia, passando, num segundo momento, a sofrer exploração da turma da economia-finanças – nesta etapa, também com o apoio do oligopólio midiático.

Já no fim de 2010, e especialmente no início de 2011, as figuras de oposição – e tanto faz falar de jornalistas ou políticos – passaram a dizer que vivíamos um clima de descontrole inflacionário. A estratégia parecia ser a de colar em Lula a responsabilidade por certa “herança maldita” legada ao País, e, neste caso, uma herança particularmente maléfica para a população mais pobre, não por acaso justamente os maiores apoiadores do ex-presidente. Alegava-se certo afrouxamento do pernambucano no combate ao “dragão”, que, por sua vez, teria sido alimentado pelo abuso nos gastos públicos dos últimos anos com o fim de ajudar sua candidata à sucessão.

O ano de 2010 fechou, com efeito, com inflação acima do centro da meta (5,91% contra 4,5%), ainda que abaixo do limite superior de tolerância, que era de 6,5% ao ano. Nunca é demais lembrar que em seu último ano, 2002, o presidente Fernando Henrique Cardoso entregou a Lula um País com 12,53% de inflação. É bom não se olvidar também que, durante a corrida presidencial do ano passado, a então candidata Dilma Rousseff trouxe à baila o assustador resultado do ocaso do ex-presidente tucano, vindo a sofrer desautorizações e censuras de colunistas da grande imprensa, assim como de um ou outro luminar dos partidos oposicionistas.

Esquecendo-se dos detalhes acima, explorou-se nos últimos meses o tanto que deu – e na medida do necessário – o assunto inflação, de modo a quase transformar o Brasil na Alemanha pré-nazista. Chegava a ser engraçado ouvir âncoras de rádios noticiosas reportando-se aos tempos da hiperinflação de Sarney, enquanto se esqueciam de mencionar o preocupante resultado do ano de despedida de FHC!

Mas o tópico inflação foi aos poucos esfriando do ponto de vista político. O primeiro motivo talvez tenha sido o de que não daria para martelar muito no tema, em vista das reiteradas informações de que o pequeno repique de preços iniciado em fins de 2010 devia-se, sobretudo, ao elevado valor das commodities, ou seja, não tinha muita ligação com fatores internos, tanto que diversos países vinham – e vêm – sofrendo com aumentos nas prateleiras.

E, muito melhores do que a “dura realidade” do parágrafo anterior, vieram histórias que mexem com o ânimo neoudenista não somente da oposição (política e midiática) mas também da classe média – mais sobejamente a tradicional – dos grandes centros urbanos. Trata-se do factoide Palocci e do escândalo do ministério dos Transportes. Com tais “combustíveis” em mão, capazes de acender o fogo do moralismo seletivo de importante contingente da população brasileira, torna-se bobagem brigar com fatos, querendo convencer o povo de que ele estaria vivendo o pior quadro inflacionário desde o início do Real, quando se sabe que isso é uma mentira deslavada.

Ora, dirão alguns, a coisa não parece estar rolando bem assim, haja vista os aumentos de juros, as declarações defensivas de ministros da área econômica e as falas cautelosas da própria presidenta Dilma. Pois bem: é aqui que entra o trabalho bem feito do pessoal da economia-finanças, ou, se preferir, o tal “mercado”.

É simples: os “mercadistas” querem juros. Viram no terrorismo inflacionário a oportunidade de não ter, sob novo governo e nova direção do Banco Central, o esperado estancamento da elevação contínua de juros. E para tal mister a mídia lhes serve com a mesma dedicação que normalmente presta para a oposição política.

O IPCA de maio e de junho tiveram quedas significativas. No entanto as pressões para se aumentar os juros soaram forte aqui e ali, tanto que a SELIC recebeu mais 0,25% nesta semana.

A imprensa, sempre prestativa, estampa em suas manchetes o acumulado da inflação de 12 meses, apontando-o como número acima do extremo da meta de 6,5%, deixando, contudo, de esclarecer que o BC não se compromete com resultados dos últimos 12 meses, mas sim com o consolidado do ano, ou seja, trabalha para não ultrapassar os 6,5% de inflação no ano de 2011.

A mídia esconde também que de junho a agosto de 2010 a inflação foi muito próxima de zero. Desse modo, no cálculo do acumulado de 12 meses está-se subtraindo zero e acrescentando qualquer resultado positivo, mesmo que baixo, que se venha atualmente apresentando, o que obviamente empurra para cima o somatório do período. Situação inversa pode ocorrer nos últimos meses deste ano: de outubro a dezembro do ano passado os índices estiveram sempre acima de 0,60%; possíveis resultados menores no mesmo período em 2011 inevitavelmente trarão o acumulado para baixo.

Em resumo, a inflação não traz riscos mais sérios, como já bem perceberam os políticos oposicionistas, muito mais empolgados com suspeitas ou escândalos de corrupção do que com as estripulias de um dragão que, embora desperto, continua bastante calmo no seu canto.

O pessoal do chamado mercado, porém, não pode deixar escapar o “diamante bruto” que a guerrinha política lhe jogou no colo. Não obstante as provas de que não há maiores riscos inflacionários a se considerar, o assunto não pode esmorecer, para que continuem a faturar com a farra dos juros.

Num e noutro viés, temos a mídia sempre dando suporte. Num e noutro caso, vemos o País sempre perdendo.


Leia também:
O inflacionado mercado das mentiras

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Beba Coca-Cola

No monótono O papel da oposição, o altamente repercutido texto de Fernando Henrique Cardoso para a revista Interesse Nacional, em certo momento ele sugere que a crítica oposicionista deva ser repetitiva, à moda da publicidade que insiste em bordões do tipo "beba Coca-Cola".

Por acaso - ou não tão por acaso assim - vêm sendo veiculadas no rádio e na TV as inserções publicitárias a que tem direito o PSDB. Uma trata de inflação, a outra de Copa do Mundo e aeroportos. Como demonstração de que o PSDB pretende continuar recusando-se a andar com as próprias pernas, as peças apresentam-se claramente amparadas em notórios bombardeios midiáticos dos últimos meses.

Terrível inflação
Num dos spots, uma mulher reclama da inflação, que teria voltado a nos assombrar, sob um certo desdém do governo federal, que estaria brincando com o tema, decerto em referência a uma certa "jogada de toalha" do Banco Central, que já deu a entender que, neste 2011, não vai lutar com unhas e dentes para trazer os números da inflação para o chamado centro da meta.

Já se vem, desde o final do governo Lula, ouvindo que a inflação teria fugido do controle das autoridades monetárias do País. De tanto que se manda beber Coca-Cola, acabamos bebendo; de tanto que se bate nessa tecla da inflação fora de controle, vamos nela acreditando e - pior - sem perceber vamos contribuindo para sua resiliência, correndo o risco até mesmo de fazer a profecia se autorrealizar.

Em 2010, a inflação efetiva foi de 5,9%, acima do chamado centro da meta, a saber, 4,5%, mas abaixo de sua margem superior de tolerância, que é de dois pontos percentuais, ou seja, 6,5%. Ainda que inquestionavelmente preocupante, o resultado do último ano Lula esteve muito longe de poder ser classificado de inflação fora do controle. E mesmo em ascensão, o acumulado dos últimos 12 meses ainda não rompeu o limite superior da meta deste ano de 2011, que também é de 6,5%.

Em meio ao terreno devidamente adubado por reportagens irresponsáveis, quase a transformar a inflação brasileira numa espécie de tsunami japonês, a propaganda peessedebista acaba parecendo apenas um alerta bem-intencionado ao governo brasileiro, ao mesmo tempo em que conclama os cidadãos brasileiros a ficarem vigilantes ao afrouxamento das autoridades no combate ao "dragão". Não se negue que é este o papel da oposição e que a atenção aos temas mais sensíveis à população é até bem-vindo. Problemáticas mesmo são as falácias contidas na estratégia.

Na propaganda, a personagem, devidamente indignada, pergunta o que "esse pessoal andou aprontando", e garante que a inflação era um mal já resolvido desde 1994.

A primeira parte quer claramente surfar em certo discurso único da mídia, hegemônico até cerca de dois meses atrás, de que suposto excesso de gastos do governo Lula - principalmente nos seus últimos dois anos - estaria na base da "terrível inflação" com que ora estamos deparando. Todavia, para azar dos tucanos, nem mesmo a sua mídia aliada vem se apoiando muito unanimemente nessa afirmação, já aceitando o fato de o inegável repique de preços ter a ver com os valores das commodities, majorados em razão da grande demanda mundial, o que, aliás, tem provocado quadros inflacionários em todo o planeta. O calendário estipulado pelo TSE fez, neste particular, a propaganda do PSDB perder o timing de tal crítica.

Quanto ao problema resolvido desde 1994, talvez convenha fazer uma visita ao histórico de metas de inflação, disponível no sítio do Banco Central do Brasil, com os efetivos resultados do IPCA desde 1999. De se relembrar que 2010, último ano do governo Lula, encerrou com acumulado de 5,91%. Vê-se que em período governado pelo PSDB, de 1999 a 2002, o ano de inflação mais baixa alcançou 5,97%, em 2000; completando o período tucano temos: 8,94% em 1999, 7,67% em 2001 e inacreditáveis 12,53% em 2002. Será que era caso resolvido mesmo desde 1994?

Copa do Mundo e aeroportos
Noutra propaganda, um sujeito demonstra preocupação com atraso de obras para a Copa do Mundo de 2014, em especial com a situação de nossos aeroportos, temendo que, ao final, saia tudo mais caro, com a já esperada "tirada de couro" do contribuinte brasileiro.

Mais uma vez é surpreendente a tabelinha do PSDB com a mídia. Reportagens envolvendo ritmo das obras para 2014 e o risco de os aeroportos brasileiros não darem conta do recado pulularam nas últimas semanas. No caso de nossa condição aeroportuária, até o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), não raramente tachado de "máquina de propaganda" do governo, entrou em campo para demonstrar certo pessimismo quanto à capacidade de o Brasil conseguir pôr os aeroportos para funcionar a contento durante o famigerado evento esportivo, dando, por assim dizer, uma mãozinha ao "patriotismo" midiático.

Crítica maravilhosa, sem dúvida. É bom mesmo ficar ligado. Bem faz o PSDB em repisar, ao lado da mídia, o espinhoso assunto. Há, porém, certo exagero, pois o Brasil, ao contrário do que se quer fazer acreditar, geralmente se sai bem na organização de eventos importantes. De todo modo, é reconfortante saber que tem gente vigilante o suficiente para não deixar o caldo entornar em 2014, ano que, aliás, já está batendo à porta.

Em todo caso, vale uma pequena censura, de outra ordem, à propaganda. O blogueiro Eduardo Guimarães informa-nos em texto sobre o mesmo assunto que, segundo a marquetagem tucana, escolheram, para protagonizar a peça, um homem negro e com sotaque nordestino, com o fim de não “paulistizar” a crítica ao governo Dilma; acrescenta o blogueiro, com ironia, que se trata justamente de "um daqueles que começaram a voar só no governo Lula…". Há aí um evidente desencontro com o já citado panfleto de FHC, texto que deve entrar para a história exatamente por ter exortado o PSDB a abandonar o povão. De qualquer forma, o rapaz com "cara de povo" acaba se traindo e expondo o jeito tucano de ser.

Após reclamar do risco de virmos a pagar caro - literalmente - pelo atraso das obras, o garoto-propaganda acaba vindo a manifestar aquele que é, no fundo, o pior dos temores das elites: que venhamos a passar vergonha perante o mundo. É o manjadíssimo complexo de vira-latas, traço do caráter brasileiro que foi enfrentado com razoável sucesso pelo governo Lula. Como se vê, o PSDB chama para protagonizar sua propaganda alguém com as características do povo de que FHC quer tanto se afastar, mas não descuida de colocar em sua boca alguns dos mantras da classe média tradicional que vem lhe dando sustentação especialmente nas últimas duas eleições presidenciais.

Revela-se, pois, graças a essa peça publicitária, uma das dificuldades do discurso oposiocionista: tentar atrair o pobre, sem afastar a classe média e a elite. Parece que vai ter de escolher um caminho... Puxa vida! Será que o FHC tem razão?

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O inflacionado mercado das mentiras

O assunto inflação vem, neste começo de 2011, ocupando bastante espaço na imprensa e ganhando lugar nas discussões de nosso cotidiano.

O medo é grande, dizem, pois a inflação está em níveis preocupantes. E a expansão de gastos - supostamente exagerada - dos últimos anos do governo Lula estaria na origem da escalada dos preços.

A presidenta Dilma Rousseff, ao que tudo indica, também está bastante assustada, e o resultado do IPCA de janeiro, indicando certa resiliência do "dragão", pode ter contribuído para o relativamente pesado "ajuste fiscal" que anunciou nesta semana.

Paradoxalmente - ou não tão paradoxalmente assim, vai saber... - o comportamento da equipe econômica de Dilma acaba por dar munição aos que, de forma oportunista, chegam a falar de uma "herança maldita" deixada pelos anos Lula.

Mas que tal um pouco de verdade sobre a "terrível" inflação deixada por Lula, sobrevivente em janeiro, e que tem tudo para pôr a perder as hodiernas conquistas do trabalhador brasileiro?

Antes de mais, gostaria de deixar claro que o autor destas mal digitadas, velhinho que é, viveu sob inflação e sabe que ela não tem nada de agradável, além de ser, como já exaustivamente repetido por aí, uma espécie de imposto pago justamente pelos mais pobres.

Portanto, este escriba jamais deixará de enxergar com bons olhos esforços que sejam empreendidos para controle da inflação.

Mas íamos nos meter a falar sobre a verdade por trás dessa história de inflação.

Pois bem, recordemo-nos da campanha presidencial de 2010. Nos debates e especialmente numa entrevista à Rede Globo, a então candidata Dilma Rousseff evocou um tal descontrole inflacionário que teria sido deixado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como herança ao seu sucessor, o petista Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma recebeu críticas da oposição e da imprensa, chegando a ser chamada de mentirosa por uma grande colunista de nossos jornais. Como o leitor pode conferir aqui, em 2002, ano de despedida de FHC, para um limite máximo de 5,5% de meta de inflação, o Brasil efetivamente registrou 12,53%, ou seja, havia ultrapassado a casa dos dois dígitos. Como já tive oportunidade de dizer, não critico de forma muito dura os que afirmam que Dilma mentiu ao falar em descontrole inflacionário no ocaso de FHC, pois não estou bem certo de que 12,53% seja número tão superlativo assim, a ponto de poder ser qualificado como descontrole, embora não reste dúvidas de que ele inspira os maiores cuidados.

Já em 2010, último ano do presidente Lula, para um limite máximo de 6,5% de meta de inflação, o resultado do IPCA foi de 5,91%, ou seja, quase 10% menor do que o limite da meta. Todavia, ficou acima do chamado centro da meta, que é de 4,5%, e é aí que os catastrofistas se seguram para falar que a inflação está saindo dos eixos. Enganam os interlocutores ao omitir que o centro da meta é o mais desejável, mas não é a própria meta em si, que, como já dissemos, tinha em 2010, como limite máximo, o número de 6,5%.

Agora a pergunta que não quer calar: se em 2002, com 12,53%, a inflação não estava fora de controle, como afirmaram certos colunistas da grande imprensa, por que os 5,91% de 2010, dentro da meta, devem ser tomados quase como uma herança maldita de Lula? Em 2002, com mais de 12% de inflação não havia descontrole, mas em 2010, com menos de 6% temos uma herança maldita? Ora, ora, ora! Será que somos todos idiotas?

E ainda há mais, o PIB brasileiro em 2002 foi de 2,7%, ao passo que o de 2010 deve superar os 7%, o que quer dizer estarmos hoje com uma economia extremamente mais bem aquecida do que a do último ano de governo tucano. Além disso, Em 2002 o País estava em plena escalada do desemprego, já em 2010, por seu turno, atingiu-se quase uma situação de pleno emprego. Numa análise fria, pois, seria mais razoável uma inflação de no máximo 6% em 2002, e não surpreenderia muito algo na casa dos dois dígitos em 2010, uma vez que, evidentemente, a pressão de demanda foi bastante mais significativa no último ano do que foi oito anos atrás. Tal quadro indica, sem sombra de dúvidas, que a situação deixada ao final de 2002 é que era digna de assustar.

Há, portanto, algo de muito estranho nessa barulheira sobre inflação. Longe de mim querer arriscar que isso possa ter a ver com lobby do mercado financeiro para aumentar os juros. Aliás, se é que tinha, pode ser que o ajuste fiscal anunciado pela presidenta nesta semana seja tomado como um balde de água fria, haja vista que ele indica a possibilidade do uso de outros mecanismos no controle da inflação além da taxa Selic. A conferir.

No mais, sugiro ao leitor que, antes de começar a estocar alimentos, pare, reflita, pesquise, compare: por exemplo, faça uma busca e veja o que disse um certo colunista sobre o comportamento da economia em 2002 e coteje com o que ele diz agora. Preocupar-se com o comportamento dos preços nunca é demais; mas não precisa se desesperar nem ver pelo em ovo. Ademais, há sempre fortes interesses políticos e/ou do mercado nas campanhas bem organizadas via mídia. Pensemos nisso.

sábado, 5 de julho de 2008

Possível lado bom da perseguição

Talvez os barões da mídia não saibam disso, mas a doentia perseguição contra o governo do presidente Lula pode até ser boa para o país às vezes – eles devem pensar o mesmo, mas não necessariamente nos termos em que pretendemos expor! Refiro-me, principalmente, à cobertura sobre o relativo arranque inflacionário que ora se verifica no Brasil (a exemplo de todo o mundo). É necessário dizer que, a bem da verdade, a mídia acerta em destacar o caso; o problema poderia estar no tom que utiliza.

“Poderia”. Em realidade, por incrível que pareça, o tom catastrófico e de certo exagero no noticiário talvez acabe contribuindo para que as pessoas fiquem mais zelosas e vigilantes quanto ao aumento de preços, além de contribuir para que elas busquem produtos alternativos, façam pesquisas, retardem uma ou outra compra, sempre na medida do possível, é claro! Não se trata, pelo menos num primeiro momento, de redução da demanda – embora isso possa naturalmente vir a ocorrer por diversos motivos -, mas de substituição de produtos ou mudança de hábitos.

Analisemos friamente a inflação brasileira. O índice oficial, o IPCA, aproxima-se da casa dos 6% ao ano. É preocupante, sem dúvida, mas, ao contrário do que alguns telejornais e as manchetes da imprensa escrita nos querem fazer acreditar, não está, pelo menos por enquanto, tão fora de controle assim. Tal indicador ainda está dentro dos limites da meta de inflação brasileira, que é um máximo de 6,5% a.a. E como o leitor certamente já sabe, em vários países que também trabalham com semelhante sistema, o resultado já extrapolou o que fora determinado por suas autoridades monetárias.

Antes que alguém diga que a imprensa apenas cumpre o seu papel de ficar atenta à tendência de aumento de preços e que, conseqüentemente, não há aí nenhum viés político na sua cobertura, gostaria de lembrar que já houve alguns rompantes inflacionários na “era do real”. No final do segundo mandato de FHC, por exemplo, o IPCA bateu nos 12,53% anual contra um limite de meta de 5,5%! Não se viu, entretanto, grande agito por parte da mídia naquela oportunidade. E olha que seria de se esperar uma comoção maior, pois, ao contrário do que se verifica atualmente, não havia naquela época uma crise internacional de preços, o que deixava a inflação brasileira de então com cara de mero desequilíbrio interno mesmo. Noutras palavras, o melancólico fim da “era FHC” é que era merecedor de uma cobertura um pouco mais politizada por parte dos nossos meios de comunicação.

Outro índice que vem assustando é o IGP-M, indexador de diversos contratos, inclusive dos de aluguel. Nos últimos 12 meses, foi apurada uma “paulada” de mais de 13%. No caso do Índice Geral de Preços ao Mercado também está havendo alguma exposição de meias-verdades por parte da mídia. Até mesmo jornalistas sérios, como Joelmir Beting, andaram dizendo bobagens sobre o temível indicador. Em comentário no BandNews, o jornalista especializado em economia afirmou que o IGP-M assusta porque “sempre” opera acima do IPCA. Não é verdade. Pelo menos nos anos de 2006 e 2007 o índice apurado pela FGV foi sensivelmente inferior ao IPCA: em 2006, por exemplo, quem tinha aluguel reajustado sobre o acumulado de 12 meses apurado no fim de janeiro daquele ano sofreu aumento de 1,74%.

O principal motivo da obsessão midiática pelo ainda adormecido dragão inflacionário reside no fato de que ele pode pôr fim à lua-de-mel dos mais pobres com o presidente Lula. Com efeito, a inflação é especialmente mais dolorosa para as pessoas com menos poder aquisitivo, sobretudo se concentrada – como parece ser o caso – nos chamados itens de primeira necessidade. Daí a constrangedora quase indisfarçável torcida dos brasileiros com “B” maiúsculo donos de jornais e seus colunistas que não querem perder o emprego.

Mas voltemos ao tema da possível “mãozinha” ao controle de preços involuntariamente dada pela mídia. Os jornais, o rádio e a TV bem que poderiam se comportar como no final de 2002, quando, repitamos, a inflação oficial ultrapassou os12%, e fingir que estamos no melhor dos mundos, longe de qualquer risco inflacionário. O clima de segurança seria maior, e como a economia, apesar do BC, ainda tem demonstrado algum fôlego, as pessoas poderiam se sentir à vontade para gastar de forma despreocupada. Mas, aparentemente, a mudança de perfil da imprensa quanto à preocupação com o tema – sensivelmente diferente dos tempos em que o presidente era FHC – tem levado os consumidores a pensar duas vezes antes de levar um produto, a “pisar no freio”, a escolher produtos mais baratos. O resultado, talvez, acabe sendo uma inflação encorpada porém bem-comportada, do tipo que não fuja das metas estabelecidas.

Mas de todo modo, dirão alguns, o resultado vai ser um crescimento menor da economia, com conseqüente diminuição de abertura de vagas de emprego, com redução da expansão industrial, e, assim, o tiro não terá saído pela culatra, ou seja, de uma forma ou de outra, a mídia anti-Lula terá feito um tento. Ora, fazer o quê? No fundo, ninguém poderia esperar algo muito diferente de semelhante cenário, haja vista a política adotada pelo BC ainda em 2007, quando cautelosamente já cessara a redução da SELIC, para reiniciar a alta já no começo deste ano. É um desarranjo do qual o país precisaria se livrar, mas que exigiria mudanças no modelo econômico, o que, pelo que tudo indica, poucos estariam dispostos a abraçar. Mais uma vez, leitor, isso é o que podemos chamar de problemas estruturais ligados à ordem capitalista. É como se se dissesse: que se “pise no acelerador” e que se cresça desmesuradamente, depois disso, agüente-se a inflação que corroerá os possíveis ganhos; ou, diferentemente, que se trabalhe em prol de uma inflação na rédea curta, mas num clima de estagnação, com poucos empregos, poucas perspectivas, produtos de pequeno valor, cenário de baixo faturamento e de crescimento abaixo de medíocre.

Mas se o assunto agora é o controle de inflação, que cuidemos disso. Obtido sucesso nessa empreitada, esperemos pela grita contra o “crescimento maior só que o do Haiti”. Um problema de cada vez para o governo e para a mídia brasileiros!

E já que a mídia não gosta de cultivar a memória nacional, por favor, clique aqui.

domingo, 20 de abril de 2008

Independência ou... Independência

Se há alguma unanimidade entre os que se dizem – ou se acham – modernos no Brasil, sem dúvida que é a reivindicação da independência do Banco Central. Neoliberais, jornalistas especializados em economia, empresários, políticos de centro a direita, todos clamam as vantagens e a conveniência de um banco central independente (ou autônomo, dependendo do gosto “vernacular” do freguês). Por independente, entenda-se, independente do(s) governo(s): a política monetária, dizem eles, deve estar sempre livre das vontades e dos humores dos governantes de plantão.

A medida da última quarta-feira, mediante a qual o Banco Central, por decisão do Conselho de Política Monetária, resolveu aumentar a taxa de juros básica da economia em meio ponto percentual, comprova que o Brasil tem, com efeito, um BC para lá de independente.

Ouviram-se, nos dias que antecederam a reunião do COPOM, declarações do Presidente da República, dos Ministros de Estado, de políticos da base aliada e de militantes do principal partido de situação condenando um possível aumento da SELIC. A despeito disso, os conselheiros majoraram a taxa num valor que foi considerado alto até para quem dava como favas contadas o aumento dos juros, numa clara demonstração – ou mais, reiteração – de independência.

Trata-se de uma situação inesperada para os comentaristas de economia: como associar o arrocho monetário à política governamental quando o próprio presidente Lula usa das suas famosas expressões incontinentes para criticar a medida? E como exigir um Banco Central independente sabendo que a instituição presidida pelo tucano Henrique Meirelles faz pouquíssimo caso do clamor em prol de uma política de juros menos severa e aumenta a taxa básica em um nível acima do que os próprios conservadores já acharam exagerada? Fica claro que o discurso único daqueles comentaristas é um mero exercício de retórica.

Mas e o aumento de juros, é culpa dos riscos de inflação? Não. Talvez culpa da forma como a imprensa divulga os indicadores. É bom lembrar que o IPCA não se descolou da meta de inflação. Em verdade, os mais recentes dados dão conta de que, nos últimos 12 meses, o resultado apurado superou em coisa de 0,15 ponto percentual o chamado “centro da meta”, que é de 4,5% ao ano. Noutras palavras, aparentemente a inflação não está fora de controle e está longe de constituir uma grande preocupação no momento. Mas seja como for, Meirelles e sua trupe deram de bandeja manchetes catastróficas para a imprensa: ao menos o Estadão e O Globo cinicamente estamparam nas respectivas primeiras páginas que o “risco de inflação” levou o BC a tomar a amarga medida.

Mas a idéia de aumentar a taxa básica de juros como forma de controle inflacionário se liga a um tipo de problema mais sério da ordem capitalista no Brasil. É como se se dissesse que é necessário menos crescimento, menos gente empregada, menos consumo, enfim, menos desenvolvimento econômico, para que o país não entre em bancarrota, engolido pelo dragão da inflação. Já faz algum tempo que tais idéias vigoram no Brasil. O próprio “sucesso” do Plano Real parece ter sido em virtude da desaceleração econômica, com a conseqüente quebra de empresas, recordes de desemprego, consumo de produtos de menor valor agregado etc, ou seja, num clima nada propício para aumento de preços.

Quando da “parada técnica” da queda dos juros no Brasil, em outubro de 2007, escrevemos um texto para o blog Veritas, que parece vir ao encontro do tema que ora tratamos. Leia-o abaixo:

27.10.07
JURO que não entendo
No último encontro do COPOM, optou-se por cessar a queda na taxa básica de juros, estacionando-a nos 11,25%. Enquanto não sai a ata da reunião, os especialistas identificam como principal motivo dessa parada técnica um pequeno temor de inflação, isso porque o mercado está razoavelmente aquecido, o nível de emprego aumentou um pouco e a renda do trabalhador melhorou um bocadinho, o que, “noves fora”, pode indicar um campo fértil para o aumento de preços.
É relativamente fácil compreender a preocupação do Banco Central, afinal, conforme já repetido ad nauseam por aí, a inflação é uma espécie de “imposto” pago pelos mais pobres. O que não parece estar claro é por que tanta grita pela redução dos juros, já que o resultado final de tal política vai ser a volta do “dragão” que engole o salário do trabalhador sem que ele perceba.
Sempre foi dito que, com juros menores, as empresas investiriam mais, conseqüentemente contratariam mais, as pessoas consumiriam mais, com mais vendas as empresas poderiam remunerar um pouco melhor os seus funcionários, que por causa disso consumiriam mais ainda, o que faria empresas produzirem mais, contratarem mais, pagarem mais, e isso... Em suma, o ciclo virtuoso se instalaria de forma quase natural; tão natural que justifica o simplismo da exposição deste humilde não-especialista.
Mas se as análises dos experts - que atribuem ao risco inflacionário o zelo de Meirelles e sua equipe - estiverem corretas, será lícito se chegar à conclusão de que não há muita luz no fim do túnel. Se a significativa queda na taxa de juros, que nos anos do governo Lula caiu cerca de 15 pontos percentuais, realmente tem algo a ver com a pequena melhora na economia brasileira, não seria de todo esdrúxulo concluir que o “cavalo de pau” do BC esteja sugerindo que o Brasil andaria melhor se as empresas investissem menos, contratassem menos, pois com as pessoas consumindo menos, com menos vendas, poderia haver algumas demissões, e com mais desempregados os salários de quem ainda trabalha tenderiam a cair, aí as pessoas comprariam ainda menos, as empresas demitiriam ainda mais, e conseqüentemente os preços não subiriam. Em resumo, o círculo vicioso se instalaria naturalmente, o que explica, naturalmente, a "pentelhice" repetitiva deste chatérrimo blogueiro!
Se a oposição política parece trabalhar muito com a tese do “quanto pior, melhor”, na realidade econômica, o Banco Central e seu honorável Conselho de Política Monetária apostam as fichas no “quanto melhor, pior”! Mas o mais importante de tudo é que, aparentemente, há alguma lógica nos argumentos apresentados pelos que aprovam essa maior rigidez da política monetária. Se a forma como as coisas de fato funcionam realmente justificam medidas que, em última análise, podem vir a trazer algumas dificuldades aos trabalhadores, talvez seja forçoso reconhecer que o capitalismo realmente encontra algumas barreiras intransponíveis. A crítica a tal sistema econômico vem sendo considerada ultimamente quase um crime de lesa-majestade, ou como coisa típica de românticos ou de retrógrados; Evidentemente que não se trata disso, afinal, vez ou outra, ouvem-se críticas ou apresentam-se limitações ao sistema vindas de gente que se poderia chamar de tudo, menos de seguidores de Che Guevara ou de guerrilheiros sedentos de transformações radicais. O que precisava era se abrir um debate que tentasse degringolar a crueza de uma realidade em que, dentre outras contradições, os trabalhadores tenham que, às vezes, amargar um desemprego ou serem obrigados a deixar de consumir e realizar os seus sonhos para não correr o risco de, empregados e felizes, terem que pagar à tarde um preço mais alto do que aquele que pagaram pela manhã.
Será que há alguém que queira discutir isso desapaixonadamente?

criado por iendiS
15:19:13