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sábado, 12 de fevereiro de 2011

O inflacionado mercado das mentiras

O assunto inflação vem, neste começo de 2011, ocupando bastante espaço na imprensa e ganhando lugar nas discussões de nosso cotidiano.

O medo é grande, dizem, pois a inflação está em níveis preocupantes. E a expansão de gastos - supostamente exagerada - dos últimos anos do governo Lula estaria na origem da escalada dos preços.

A presidenta Dilma Rousseff, ao que tudo indica, também está bastante assustada, e o resultado do IPCA de janeiro, indicando certa resiliência do "dragão", pode ter contribuído para o relativamente pesado "ajuste fiscal" que anunciou nesta semana.

Paradoxalmente - ou não tão paradoxalmente assim, vai saber... - o comportamento da equipe econômica de Dilma acaba por dar munição aos que, de forma oportunista, chegam a falar de uma "herança maldita" deixada pelos anos Lula.

Mas que tal um pouco de verdade sobre a "terrível" inflação deixada por Lula, sobrevivente em janeiro, e que tem tudo para pôr a perder as hodiernas conquistas do trabalhador brasileiro?

Antes de mais, gostaria de deixar claro que o autor destas mal digitadas, velhinho que é, viveu sob inflação e sabe que ela não tem nada de agradável, além de ser, como já exaustivamente repetido por aí, uma espécie de imposto pago justamente pelos mais pobres.

Portanto, este escriba jamais deixará de enxergar com bons olhos esforços que sejam empreendidos para controle da inflação.

Mas íamos nos meter a falar sobre a verdade por trás dessa história de inflação.

Pois bem, recordemo-nos da campanha presidencial de 2010. Nos debates e especialmente numa entrevista à Rede Globo, a então candidata Dilma Rousseff evocou um tal descontrole inflacionário que teria sido deixado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como herança ao seu sucessor, o petista Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma recebeu críticas da oposição e da imprensa, chegando a ser chamada de mentirosa por uma grande colunista de nossos jornais. Como o leitor pode conferir aqui, em 2002, ano de despedida de FHC, para um limite máximo de 5,5% de meta de inflação, o Brasil efetivamente registrou 12,53%, ou seja, havia ultrapassado a casa dos dois dígitos. Como já tive oportunidade de dizer, não critico de forma muito dura os que afirmam que Dilma mentiu ao falar em descontrole inflacionário no ocaso de FHC, pois não estou bem certo de que 12,53% seja número tão superlativo assim, a ponto de poder ser qualificado como descontrole, embora não reste dúvidas de que ele inspira os maiores cuidados.

Já em 2010, último ano do presidente Lula, para um limite máximo de 6,5% de meta de inflação, o resultado do IPCA foi de 5,91%, ou seja, quase 10% menor do que o limite da meta. Todavia, ficou acima do chamado centro da meta, que é de 4,5%, e é aí que os catastrofistas se seguram para falar que a inflação está saindo dos eixos. Enganam os interlocutores ao omitir que o centro da meta é o mais desejável, mas não é a própria meta em si, que, como já dissemos, tinha em 2010, como limite máximo, o número de 6,5%.

Agora a pergunta que não quer calar: se em 2002, com 12,53%, a inflação não estava fora de controle, como afirmaram certos colunistas da grande imprensa, por que os 5,91% de 2010, dentro da meta, devem ser tomados quase como uma herança maldita de Lula? Em 2002, com mais de 12% de inflação não havia descontrole, mas em 2010, com menos de 6% temos uma herança maldita? Ora, ora, ora! Será que somos todos idiotas?

E ainda há mais, o PIB brasileiro em 2002 foi de 2,7%, ao passo que o de 2010 deve superar os 7%, o que quer dizer estarmos hoje com uma economia extremamente mais bem aquecida do que a do último ano de governo tucano. Além disso, Em 2002 o País estava em plena escalada do desemprego, já em 2010, por seu turno, atingiu-se quase uma situação de pleno emprego. Numa análise fria, pois, seria mais razoável uma inflação de no máximo 6% em 2002, e não surpreenderia muito algo na casa dos dois dígitos em 2010, uma vez que, evidentemente, a pressão de demanda foi bastante mais significativa no último ano do que foi oito anos atrás. Tal quadro indica, sem sombra de dúvidas, que a situação deixada ao final de 2002 é que era digna de assustar.

Há, portanto, algo de muito estranho nessa barulheira sobre inflação. Longe de mim querer arriscar que isso possa ter a ver com lobby do mercado financeiro para aumentar os juros. Aliás, se é que tinha, pode ser que o ajuste fiscal anunciado pela presidenta nesta semana seja tomado como um balde de água fria, haja vista que ele indica a possibilidade do uso de outros mecanismos no controle da inflação além da taxa Selic. A conferir.

No mais, sugiro ao leitor que, antes de começar a estocar alimentos, pare, reflita, pesquise, compare: por exemplo, faça uma busca e veja o que disse um certo colunista sobre o comportamento da economia em 2002 e coteje com o que ele diz agora. Preocupar-se com o comportamento dos preços nunca é demais; mas não precisa se desesperar nem ver pelo em ovo. Ademais, há sempre fortes interesses políticos e/ou do mercado nas campanhas bem organizadas via mídia. Pensemos nisso.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Marolinha. Ainda!

Eis que vejo na televisãozinha do Metrô a notícia, publicada no Le Monde, dando conta que o presidente Lula acertou ao afirmar que a crise econômica no Brasil seria só uma marolinha. Confirmei a informação no Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha, que reproduziu a matéria do jornal francês, que, aliás, não era apenas sobre o Brasil, mas acerca da importância do chamado BRIC no novo cenário econômico internacional que se desenha após a crise.

Também, nesta semana, vi no BandNews TV reportagem sobre a forma como a crise atingiu o Brasil, e como o país a está deixando para trás. Foi absolutamente hilário ver o Sr. Luiz Carlos Mendonça de Barros, o homem da "telegangue", do "limite da irresponsabilidade", admitindo, com um sorriso mais ou menos amarelo, que o presidente tinha razão: "a crise no Brasil foi só uma marolinha mesmo e não um tsunami". Sem dúvida que é deveras surpreendente ouvir isso, sobretudo quando se teve a oportunidade de ler as barbaridades que o economista, ex-ministro do governo FHC, escrevia na sua coluna da Folha, sempre criticando o presidente e as autoridades brasileiras por, segundo ele, estarem fazendo pouco caso da "terrível crise".

Por tudo isso, tomamos a liberdade de reproduzir texto que publicamos neste espaço no dia 27.03.2009, e que, nessa altura do campeonato, soa bastante atual. Felizmente, diga-se!

Sexta-feira, 27 de Março de 2009
Marolinha sem aspas

Alguns colunistas da mídia adotaram a expressão marolinha, utilizada pelo presidente Lula para se referir ao tamanho com que a crise econômico-financeira internacional iria atingir o Brasil. O vocábulo tem sido geralmente destacado entre aspas. O uso desses sinais não parece estar sendo com o intuito de indicar que se trata de uma metáfora, ou de gíria ou algo que o valha; em verdade, o que se quer é sugerir que o presidente pode ter dado uma bola fora ao utilizá-lo, ainda mais que a imprensa tem sido bastante competente no tentar demonstrar que a crise teria desembarcado no Brasil em níveis que mereceriam ser associados a fenômenos naturais bem mais devastadores. Noutras palavras, as aspas que envolvem a marolinha presidencial, quando empregadas pelos estafetas da imprensa, estão carregadas de ironia e sarcasmo.

Lula sabia que a crise atingiria o Brasil em alguma medida, tanto que admitiu que seríamos tocados por ela na forma da tal marolinha, o que significa dizer que ele não se iludia com o fato de que ela não chegaria de nenhuma maneira aqui, como tentaram distorcer alguns. O presidente, em verdade, buscou apenas demonstrar que não haveria tsunami (metáfora antípoda à do presidente brasileiro) na economia brasileira e por isso escolheu um termo que, na opinião dele, melhor dimensionaria os efeitos da crise neste país tropical. Que se analisem friamente os dados após cerca de dois anos de maus resultados em nível global e forçoso será concluir que, com efeito, no Brasil a crise é só a tal marolinha mesmo.

A bem da verdade, não foi apenas o presidente da República que se mostrou, por assim dizer, otimista com os possíveis efeitos da crise no país. Órgãos como a OCDE e o FMI já haviam, antes dele, afirmado que o Brasil era das nações menos vulneráveis aos maus bocados internacionais e que, ipso facto, levaria poucos arranhões oriundos desse acidente universal. O ingrato Lula deveria ter dado os créditos!

A imagem da marolinha brasileira vem sofrendo a tentativa de desmoralização promovida pela mídia calcada principalmente em dois resultados bastante significativos: a queda do PIB no quarto trimestre de 2008 e os fechamentos de vagas no mercado de trabalho nos meses de dezembro e janeiro últimos. Mas vamos lá: não obstante a contundência com que o mercado foi atingido em 2008, a grande verdade é que dezembro sempre foi um mês de expressiva dizimação de empregos, mesmo em anos de bonança internacional; já o PIB do último quartel do ano passado – nunca é exagerado lembrar – foi desastroso se comparado com o terceiro trimestre, mas positivo se confrontado com idêntico período de 2007 – fora o fato de que no acumulado do ano obteve excelente resultado, como já apontamos noutra postagem. Merece nota também a informação de que o mês de fevereiro foi positivo na criação de vagas do mercado formal de trabalho. No caso deste último, a imprensa, como se sabe, quis minimizar o resultado que, realmente, é marcadamente inferior ao do mesmo mês de 2008; mas, num mundo em que se comemora até mesmo quando o desemprego aumenta em nível menor do que o esperado, deveria ser celebrado o tímido porém consistente resultado do mercado de trabalho brasileiro no segundo mês de 2009.

Os jornais brasileiros fizeram, por motivo político, uma aposta na crise. Tentam de toda forma mostrar que acertaram. Já a rede norte-americana CNN parece pensar de maneira diversa: o mais famoso canal noticioso do mundo afirmou, quando do encontro dos presidentes Lula e Obama, que uma das grandes qualidades do Brasil neste momento é que o país tem sofrido muito menos com a crise quando comparado a outros países da mesma importância. Yes, nós temos marola!

Um amigo conta-me que propaganda do DEM – à qual não tive oportunidade de assistir – vem tentando explorar a metáfora molhada de Lula, procurando mostrar a suposta infelicidade da fala presidencial. O cerco se fecha: o partido de José Agripino Maia tem na grande imprensa o mentor intelectual de seu discurso. O assunto crise econômico-financeira internacional (a bola da vez) tem que ser martelado diuturnamente na mídia, para que partidos oposicionistas, claramente sem projeto, tenham do que falar e possam dar suas alfinetadas de vez em quando. É essa, infelizmente, a importância que resta à vetusta imprensa no Brasil de hoje!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Torcida

Em recente entrevista ao Roda Viva, o economista Luiz Gonzaga Belluzo afirmou que as previsões econômicas nada mais são do que pura torcida dos que as proferem. Não é à toa que se vêem sempre os mesmos catastrofistas fazendo vaticínios na mídia, que, por sua vez, se esquece de cobrá-los dos erros não raro grosseiros que cometem.

A bola da vez no assunto predição econômica é a iminência de crise fiscal que explodirá circa 2011, a qual deixará para o sucessor de Lula – garantem dez entre dez economistas, valendo-se de expressão usada pelo petista em relação a FHC – uma verdadeira “herança maldita”.

Tal prognóstico baseia-se na queda de arrecadação, verificada nos primeiros seis meses do ano de 2009, associada a suposto aumento de gastos públicos, especialmente com folha de pagamento do funcionalismo, além de mudanças no cálculo do superávit primário que estariam abdicando de esforço fiscal às duras penas mantido durante o governo Lula.

A previsão de descontrole das contas públicas talvez não passe mesmo de torcida, como sugere Belluzo, pois desse modo já se prepararia o terreno para acusar Lula da débâcle de futuro governo, sobretudo se este for do protegido da mídia, o governador José Serra; de outro lado, se for a ministra Dilma a escolhida, o fracasso teria pelo menos o condão de fechar as portas para o retorno do atual presidente, em 2014.

Já a velha e boa realidade, sempre a pregar peças nas apostas precipitadas, diz que, em verdade, a queda na arrecadação, na casa de 7% no acumulado do primeiro semestre, não chega a ser uma tragédia, inclusive porque até o terceiro trimestre de 2008, ou seja, no chamado período pré-crise, a economia crescia de forma bastante robusta, deixando a comparação desigual. Há de se obtemperar que a “marolinha”, como não poderia deixar de ser, acabou trazendo pequena retração da atividade econômica, fator que obviamente reflete na diminuição das receitas públicas. Ademais, o Governo Federal, como parte de sua política anticíclica, fez mudanças no Imposto de Renda da Pessoa Física e na cobrança do IPI, de modo a abdicar de receita em favor do consumo e da geração de renda. Noutras palavras, a queda na arrecadação faz parte do script.

A tal crise fiscal, conforme prognosticada pelo coro dos descontentes e consoante já dissemos, explodiria o mais tardar em 2011. Para que isso venha de fato a ocorrer, os gastos públicos teriam que aumentar radicalmente e de forma sustentada, pois até os “torcedores” mais pessimistas prevêem crescimento do PIB na casa de 4% em 2010. Se no ano de 2009, que já viu no seu primeiro trimestre a economia recuar perto de 1%, tem-se manchetes indignadas com recordes de “carga tributária”, o que não se pode realmente esperar do ano tendente a apresentar crescimento de 4%? Falando sério, será que dá mesmo para comprar a tese do desequilíbrio fiscal em futuro tão próximo?

E aqui não faremos previsões, até porque não somos economistas e nada entendemos da ciência de Srafa e Myrdal, mas vamos, isto sim, admitir nossa “torcida” de que não teremos crise fiscal tão cedo; vamos, ao contrário, “apostar” em incremento de arrecadação em 2010. “Recordes históricos” virão por aí!

sábado, 4 de julho de 2009

Os 6 (seis) anos do Plano Real!

Nesta semana, muito se falou dos quinze anos do Plano Real, comemorado dia 1º de julho. Como já era de se esperar, a mídia, juntamente com seus colunistas e articulistas, pegou pesado no puxa-saquismo a Fernando Henrique Cardoso.

Um pouco de história: o Plano Real foi obra do governo Itamar Franco. O sociólogo Fernando Henrique foi seu ministro da Fazenda, liderando, nessa posição, um grupo de verdadeiros economistas como André Lara Rezende e Pérsio Arida, certamente mais importantes na elaboração do programa do que ele, FH. Mas o mais importante a se destacar é que FHC já não era mais ministro no fatídico 1º de julho 1994. Coube a Rubens Ricupero a tarefa de conduzir o início do plano, talvez no seu momento mais difícil. Derrubado por uma parabólica, Ricupero foi substituído pelo pindamonhangabense Ciro Gomes. Parece-nos óbvio que Ciro e Ricupero foram mais importantes para o Real do que o ex-presidente Cardoso.

Tudo poderia ser pura babação de ovo da mídia para cima de FHC, mas, como eles não dão ponto sem nó, talvez seja uma desesperada tentativa de melhorar a imagem do ex-presidente, haja vista que nas eleições de 2010 o PT certamente terá um “patrono” de quem se orgulhar, e não seria de bom tom o PSDB ir para a terceira eleição consecutiva fingindo que Fernando Henrique nunca existiu.

Mas em meio a tanta celebração salvou-se equilibrada reportagem da Agência Brasil. O especial do sítio noticioso falou dos méritos do plano e dos avanços obtidos graças à estabilidade que, desde então, passou a ser um “dogma saudável” de nossa economia. Porém, graças a importante intervenção do economista Ricardo Amorim, do IPEA, foi dado também o lado sombrio do Plano Real, aspecto devidamente esquecido na grande mídia. O plano, para dar certo, teve que, de algum modo, provocar pequenas quebradeiras na economia brasileira – talvez sem alternativa, acrescentamos generosamente. A memória inflacionária, ou componente inercial ou o nome que se queira dar era muito forte, e qualquer aquecimento manteria a inflação a pleno vapor. Para matar o dragão era preciso exagerar no remédio. Desse modo, apostou-se no dólar barato, pois assim entrariam importados aos montes no país, o que impediria a subida dos preços dos produtos nacionais. Em conseqüência, com os importados tomando conta, a indústria nacional se ressentia, pois não tinha como concorrer com a enxurrada de produtos mais baratos; as exportações, por seu turno, eram desestimuladas pelo dólar na rédea curta das bandas cambiais. Resultado: desemprego e achatamento de salários. Desempregado não compra; salários baixos também não ajudam. Noves fora, inflação fica controlada. Eis um lado nefasto - talvez necessário, não descartemos - que não cairia mesmo bem mencionar num dia de aniversário!

As análises na grande imprensa também não pouparam Lula e o PT, que, segundo os adorados escribas da mídia, teriam combatido o plano em seu início, mas no final das contas acabaram descobrindo a importância da estabilidade e dado seqüência ao bem-sucedido plano de FHC (na verdade, de Itamar). Ora, bem que as críticas podiam ser ainda mais duras com o governo petista que ora comanda o Brasil, acusando-lhes, Lula e seu partido, de serem mais realistas do que o rei, pois no fundo o governo que se iniciou em 2003 é que de fato salvou o plano de estabilização iniciado por Itamar, em alguns momentos pegando até pesado demais nessa coisa de controle da inflação (alô, Meirelles!). Talvez não seja errado dizer que a estabilidade só passou a ser um valor seguro mesmo sob Lula. Se o leitor se der ao trabalho de dar uma pesquisada, verá que no final do segundo mandato de FHC a inflação já havia passado de dois dígitos; Lula assumiria seu primeiro mandato sob a égide de uma economia mais ou menos descontrolada, com poucas reservas internacionais, risco-país explosivo, dívida pública de mais de 50% do PIB e dólar fora de controle.

Hoje, mesmo com “a maior crise da história do capitalismo”, o Brasil se segura bem, tirando uma marolinha aqui, outra ali. É, portanto, muita desonestidade intelectual querer dar os créditos da razoável saúde que ora goza a economia brasileira ao governo anterior, justamente um governo que costumou atribuir suas dificuldades (ou seus fracassos mesmo) a crises internacionais muito menores do que as que o mundo observa hoje. Não sei quanto a vocês, mas isso sempre me pareceu ilógico, afinal, como pode o governo bem-sucedido que enfrenta crise maior ser considerado mera cópia de outro que sucumbiu por "marolinhas" localizadas e de menor intensidade?

Caso se queira associar o “Real” à idéia de estabilidade, ter-se-á que mudar sua idade e passar a considerá-lo como tendo seis anos, pois este é o tempo em que ele se mostra realmente sólido e estável. E se a alguém se deve atribuir o sucesso da estabilização, forçoso seria reconhecer a importância de Lula, pois sob ele, sim, a luta contra a inflação foi realmente levada a sério e, mais do que isso, foi efetivamente vencida. E olha que nada disso deve ser tomado como elogio na sua plenitude, não, pois para alcançá-lo foi preciso muito remédio amargo: os juros altos que ajudam os bancos, inibem a produção e desempregam; e a busca cega pelo superávit primário que tira dinheiro da saúde, da educação e da promoção social. Digamos que é uma espécie de PT americanizado: No pain, no gain!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

"Recessão técnica"

Conforme previsto no post anterior, o PIB do primeiro trimestre de 2009 recuou em relação ao período anterior. Ainda que a queda tenha sido sensivelmente menor do que a esperada, os jornais não deixaram de ecoar a tal “recessão técnica”, que é definida por dois trimestres com resultados negativos em relação ao anterior.

Observe-se que a recessão lato sensu tem um significado bem mais, por assim dizer, assustador: “Conjuntura de declínio da atividade econômica, caracterizada por queda da produção, aumento do desemprego, diminuição da taxa de lucros e crescimento dos índices de falência e concordatas.” (Dicionário de economia, Org. e Sup. de Paulo Sandroni. São Paulo: Best Seller, 1989). Não é, com efeito, a real situação da economia brasileira, daí porque ter que se buscar a expressão “recessão técnica”, de definição mais objetiva, para se conseguir dar notícias em tom catastrofista.

E de nada adiantaram as advertências de que o PIB divulgado seria, nas palavras do ministro Guido Mantega, um olhar no retrovisor, afinal se referem a um trimestre encerrado há mais de dois meses. Também não foi dada a devida atenção para o fato de que o recuo trimestral representou um importante avanço em relação ao péssimo resultado do último período de 2008. Isso sem falar do descaso com os dados mais hodiernos da economia do país, os quais não se coadunam de nenhuma forma com os elementos que efetivamente fazem uma recessão, de acordo com a definição do dicionário de Sandroni. A Folha, por exemplo, não se fez de rogada e manchetou na quarta (10-06-2009): “Brasil está em recessão” - ainda que esquizofrenicamente tenha colado à manchete análise de economista dizendo que a coisa não estava feia para nós!

À exceção da Agência Brasil, não logrei ver em nenhum órgão a importante informação de que no acumulado de 12 meses o crescimento foi de 3,1% (leia aqui). Quer dizer, se, por hipótese, março tivesse sido o fim de um ano, o PIB brasileiro teria sido digno de consideração para tempos de crise. A Itália, por exemplo, certamente não teria a mesma sorte, haja vista que tem queda no seu produto interno bruto por quatro trimestres consecutivos. Os italianos, sim, sabem o que é recessão!

De todo modo, por incrível que pareça, o resultado trimestral da economia brasileira acabou sendo bom ao menos nos seus desdobramentos: a queda está longe de poder ser considerada catastrófica, mas permitiu que o Banco Central fizesse um corte até que profundo na SELIC. Não é improvável que se os números viessem positivos, como certamente virão no segundo trimestre, o COPOM tivesse uma das suas recaídas conservadoras.

Feliz recessão – técnica – para você também!

sábado, 6 de junho de 2009

"Delay" do resultado do PIB

Delfim Netto, na sua coluna da Folha na quarta-feira (03-06-2009), tratou da problemática da divulgação de resultados do PIB. Tal tema, não há muito, foi também abordado no blog do Stephen Kanitz. A questão é que os dados trimestrais sobre o PIB só saem quando já está findando o trimestre subseqüente, o que, dada a volatilidade dos períodos de marolinha, pode desenhar algum retrato irreal da economia.

Vejamos: até o terceiro trimestre de 2008 a economia brasileira vinha obtendo um crescimento bastante significativo; tal dado só veio à luz quando, na prática, a nossa economia já se desacelerava, em parte por causa da crise internacional e, principalmente, por conta do terrorismo da mídia, por isso, governo e parcela da sociedade comemoraram algo que no “mundo real” já não ocorria. Já o PIB do quarto trimestre, divulgado no início de março deste ano, levou um tombo para lá de considerável, resultado que foi ecoado pelos quatro cantos num momento em que a queda possivelmente já se mostrava acentuadamente desacelerada.

E, agora, as informações sobre o primeiro trimestre de 2009 devem ser divulgadas já neste mês, ou seja, praticamente no final do segundo trimestre. O triste é que deve trazer números negativos, ainda que melhores em comparação com os do último trimestre de 2008 do que estes confrontado com os do penúltimo. Dizemos que é triste especialmente porque o resultado abrirá caminho para os jornais se regozijarem com uma tal “recessão técnica” num momento em que a economia real, provavelmente, já esteja em situação positiva, pelo menos conforme sustentam alguns analistas, dentre os quais o nosso já citado Kanitz.

Talvez fosse o caso de o IBGE tentar computar os dados com mais rapidez, para divulgá-los ainda em cima da pinta, enquanto vigora o retrato que fotografou. Do jeito que está, visualizar o PIB é como se se estivesse olhando para trás, para uma realidade que já passou, não servindo para muita coisa (se bem que talvez não sirva para nada mesmo, de maneira geral).

Mas, com o perdão do leitor, vamos filosofar um pouquinho! Vivemos num mundo afogado em números, viciado em dados, soterrado por estatísticas que obscurecem as reflexões. Se o crescimento econômico está alto ou está baixo, por que só se tem coragem de afirmar isso quando os números oficiais são apresentados? Explico-me melhor: um número representa algo real, é a mera expressão desse algo, logo, esse "algo" deveria se apresentar por si só. As pessoas teriam que estar reclamando e apontando a deficiência do crescimento, se fosse o caso, antes de os números serem publicados, e deveriam continuar a fazê-lo mesmo que o número divulgado surpreendesse e batesse a inacreditável casa dos 10%, por exemplo. Afinal, o que vale é o mundo real, o que se "sente na pele", não o número que o expressa. Não é possível que um dado seja mais importante do que a realidade que supostamente representa; ou mais: não é possível que a mera divulgação do dado seja mais importante do que o dado em si!!! Será que fui claro?

Mas para que ser claro? Para que explicações? O que vale é a frieza do número, a ser informado no momento oportuno: três meses depois!

sábado, 7 de março de 2009

Dica para a oposição (política e midiática)

Já passou da hora de a imprensa parar de bater na tecla da crise. Talvez seja o caso de aqueles que relutam em enxergar bons resultados na condução da política econômica do atual governo apelarem para algum tipo de crítica que tire um pouco o foco dos resultados positivos de que o presidente em pessoa não cansa de se gabar. Como fazer isso? Buscando elementos ou fatores negativos em notícias que de acordo com o senso comum são boas no atacado.

Automóveis
No caso dos extraordinários números da indústria automobilística, é só apontar logo de cara os sérios problemas ecológicos provocados pelos carros. Pode-se apelar também para as preocupações com os aterrorizantes números da violência do trânsito. Há que se lembrar também que o ótimo desempenho que se vê no momento é resultado das medidas de incentivo ao setor, o que em última instância significa apenas um retardamento de uma retração que mais cedo ou mais tarde virá. Senão vejamos: há um problema logístico – cidades como São Paulo não suportam mais carros; o crescimento no patamar que ora se observa não é sustentável a longo prazo, ou seja, uma hora terá que acabar; a renúncia fiscal, como a do IPI, não é justa com os demais setores da economia e, ainda por cima, retrai a arrecadação, o que pode provocar algum risco de desequilíbrio fiscal. Tais ressalvas podem, com efeito, dissuadir até um cristão-novo paulistano. Acredite!

Seguros
Ouviu-se do presidente Lula, durante almoço oferecido pela Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde, Suplementar e Capitalização (CNSeg) em 03-03-2009, justamente na semana do anúncio da ajuda do governo dos Estados Unidos a AiG, que o setor de seguros do Brasil, diferentemente do que ocorre lá, está blindado. Deve ser verdade. Mas a turma que não dá o braço a torcer tem bons motivos para minimizar a importância disso: primeiramente, lance-se o infalível argumento de que os seguros de maneira geral são caríssimos no Brasil; em segundo lugar, deve-se exortar àqueles que já precisaram acionar a companhia de seguros a lembrar do inferno por que tiveram que passar para ser devidamente atendidos; por fim, os que já precisaram receber um seguro precisam ser convidados a se lembrar do calvário que enfrentaram, muitas vezes necessitando recorrer à justiça para conseguir, depois de muitas idas e vindas, perceber ao menos parte do seu prêmio. Num ambiente desses, como poderia um setor que mexe com seguros passar por dificuldades no Brasil?

Bancos
É claro que não poderiam faltar os bancos. Enquanto se vêem péssimos resultados em todo o mundo, a coisa por aqui vai de vento em popa para o setor. Instituições que apresentam prejuízos históricos nos principais centros financeiros mundiais divulgam lucros recordes no Brasil. Mas, ainda que se fale da importância de uma saúde sistêmica no setor, os ganhos absurdos dos bancos brasileiros refletem uma brutal transferência de renda advinda dos trabalhadores e do setor produtivo. E os banqueiros não têm sequer a boa vontade de liberar o crédito num momento difícil como o atual, o que teria feito definitivamente do Brasil um país absolutamente imune à crise internacional. Todos sabem que não é de hoje que os bancos faturam muito no Brasil; mas o governo do presidente Lula não mexeu uma palha para tentar equilibrar pelo menos um pouco as relações com os demais setores da sociedade, e a manutenção de Henrique Meirelles à frente do Banco Central é indicativo de que este segmento não verá, sob o atual governo, o seu inestimável poder se pulverizar.

São singelas dicas à oposição. Como se vê, há como criticar a situação econômica do país, mesmo sem precisar fazer malabarismos ridículos que tentem negar o óbvio ululante, qual seja, de que o Brasil não está no olho do furacão da crise. Que me lembre, apenas o cientista político José Augusto Guilhon de Albuquerque, em programa da Record News, arriscou dar um passo nessa vereda, dizendo naquela oportunidade que a razoável blindagem brasileira podia ser atribuída ao fato de não estarmos devidamente inseridos na globalização! Segundo Guilhon de Albuquerque, nossa caipirice é o que ainda nos segura. Quando o ouvi dizer isso pensei que a moda ia pegar e que outros intelectuais, políticos, colunistas e jornalistas antenados com os tucanos iriam sair dizendo aquela bobagem feitos papagaios. De qualquer forma, seria pelo menos uma mudança de disco!

sábado, 17 de janeiro de 2009

Poder? Que poder?

O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos afirmou algum tempo atrás que o único poder que restava à mídia era o de deflagrar crises – contra o Governo Federal, acrescentamos. E ela bem que vem tentando: é uma atrás da outra (caso TAM, caso Renan, caso dossiê etc.). Agora há uma um pouco mais palpável, a famigerada crise econômico-financeira internacional. Não obstante o Brasil venha apresentando desde o início robustas chances de ser um dos países menos tendentes a sofrer com a turbulência internacional, a mídia tem estado num alvoroço danado no aguardo de uma deterioração da saúde da economia brasileira. Mas por que tudo isso? Ora, é a chance da vida, afinal ‘é a economia, estúpido’! Só assim para o governo Lula levar uma rasteira de verdade, é o que devem pensar eles.

Nesta semana já se fez muito barulho, em praticamente todo os noticiosos, por conta da demissão de trabalhadores temporários da General Motors, embora todo mundo no fundo soubesse que a onda de crescimento da indústria automobilística um dia teria um fim. E o diário O Estado de São Paulo, de forma exclusiva, veio antecipando extra-oficialmente, na segunda-feira, informação que dá conta de que o fechamento de vagas em dezembro de 2008 foi próximo ao dobro da média histórica para o mês. O jornalão, na sua chamada de primeira página, chamou o resultado daquele mês de “desastre”, apesar de ele não estar confirmado até aquela data. Mas há, parece-nos, dois problemas: primeiramente, seria necessário esperar a divulgação oficial dos dados e verificar o seu real contexto; em segundo lugar, o juízo de valor, na forma de uma metáfora (desastre), não parece medida adequada para uma chamada de notícia de primeira página. Mas sejamos curtos e diretos: o centenário jornal paulistano simplesmente não conseguiu disfarçar o contentamento pelo eventual mau resultado do emprego no último mês do ano passado.

Na disputa política, a tese do “quanto pior melhor” é sempre muito cara a qualquer oposição. Quem está de fora vê aumentarem as suas chances de conquistar ou retomar o poder somente quando quem está na situação aparece enterrado em problemas. Não deverá causar estranheza, pois, se o ex-PFL e o PSDB estourarem fogos com um possível recrudescimento da crise em terras brasileiras. Sintomático, todavia, é o comportamento da imprensa, aparentemente mais atuante na torcida pela decadência do governo petista do que as agremiações políticas organizadas. Forçoso é concluir que a mídia age como partido político. Mas, se a democracia brasileira é do tipo representativa, ou seja, caracterizada pela escolha de representantes através de voto direto, que atuam em nome da sociedade cujos membros os sufragaram, fica difícil enquadrar o papel midiático nesse processo. A mídia não foi eleita para nada! De qualquer modo, ela julga-se representante talvez da classe média tradicional dos grandes centros urbanos, e mesmo assim de forma incompleta. Mas apesar da indigência dessa condição dos meios de comunicação, os partidos de oposição no Brasil, destituídos de projetos e impotentes diante da popularidade do presidente Lula, aceitam docilmente a posição de meros coadjuvantes do processo, não obstante sejam mais dotados de legitimidade política para liderá-lo.

Luiz Carlos Azenha, do imperdível Vi o Mundo, disse que a direita é capaz de quebrar o país para tentar retomar o poder. Eduardo Guimarães, do ótimo Cidadania.com, em memorável artigo afirmou ter ficado com medo quando percebeu que os donos de jornais são capazes de incentivar uma crise - que fatalmente os afetará também - só para ver José Serra levar a presidência da República. Com efeito, é muita insanidade da meia dúzia de famílias que querem de qualquer jeito impor suas vontades ao Brasil, não acham?

sábado, 27 de dezembro de 2008

2009

As perspectivas econômicas para o Brasil em 2009 não vêm sendo apresentadas com as cores mais alegres: o crescimento econômico deverá ficar muito abaixo do de 2008; o desemprego deve começar em alta; a renda do trabalhador ficará estagnada. Tudo isso é somente parte do que dizem e é visto como conseqüência da crise internacional.

Mas será que dá para levar tais previsões tão a sério assim?

No final de 2007, as projeções para 2008 também não eram das melhores. Temia-se no final daquele ano que a crise do subprime não tardaria a resvalar no mercado brasileiro já nos primeiros meses de 2008, o que evidentemente não ocorreu, pelo menos não de modo a afetar o cotidiano das pessoas. Na última ou penúltima reunião do COPOM em 2007 cessara a gradual queda dos juros que até então vinha sendo operada, o que fez a maioria dos analistas antever algum período de retração, situação que certamente não será confirmada pelo crescimento do PIB deste ano. Por fim, com a derrota do governo na votação da CPMF, era dada como certa uma abrupta queda na arrecadação, previsão que viria a ser fragorosamente desmentida já nos primeiros meses de 2008. Posto isto, se os economistas e analistas de hoje “acertarem” no mesmo patamar do de 2007, não haverá motivo para tanta preocupação em 2009!

E há mais: no decorrer do próprio ano de 2008 apostou-se que a inflação iria extrapolar as bandas da meta do Banco Central. Os mesmos analistas ouvidos pelo BC acreditam agora, no final de 2008, que o IPC-A não passará dos 6% a.a., diante do extremo da meta que é de 6,5% a.a.

Um professor dos cursos de pós-graduação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo certa feita disse que fazer previsão não é algo que mereça ser levado muito em consideração, afinal este bem pode ser – até com maior autoridade - o métier das cartomantes, dos sensitivos, jogadores de búzios etc. O máximo que se pode fazer são projeções de “cenários”, baseadas, é claro, em fatos concretos da política e da economia. A dura realidade, entretanto, pode pregar algumas peças nos videntes de plantão. Os números do natal surgem como parte de tal “dura realidade”: contraria muito do que se lia na imprensa a respeito de queda de vendas e acerca da crise que já se instalaria no final deste ano.

Que tal voltarmos, em breve, a falar do que “é” em vez do que "poderia ser”. É bem mais fácil...

sábado, 4 de outubro de 2008

Dólar

Eis que as coisas parecem voltar ao normal: a subida do dólar timidamente recupera seu posto de indicador de crises, dificuldades, anomalias.

Cabe explicação.

Talvez o leitor se lembre de 2002. Naquele ano eleitoral, a moeda americana aproximou-se dos quatro reais. Havia crise na Argentina e, no campo interno, havia o efeito Lula, que, segundo alguns, era o grande responsável pela valorização da moeda internacional. Com a iminente vitória do petista, os ajuizados de plantão recomendavam a aplicação no dólar, que, segundo eles, tenderia a continuar subindo no eventual governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Com a chegada de Lula ao governo o que se viu, no entanto, foi uma queda livre do dólar. Daí ocorreu o inesperado: diversos economistas, alguns comentaristas e os representantes dos setores exportadores começaram a reclamar da crescente apreciação do real frente à moeda norte-americana. Tal choradeira tornava-se incompreensível pelo menos em três frentes, duas delas ligadas à racionalidade econômica e a terceira ao mero cálculo político: a primeira é que a então alegada sobrevalorização do real, diferentemente do que ocorrera no primeiro mandato de FHC, se dava no modelo de câmbio flutuante, ou seja, era pautada pelo “deus-mercado”. A segunda é que, a despeito das “enormes dificuldades” dos exportadores, os saldos de balança comercial renovavam a cada mês o seu recorde. E por fim, o dólar barato, que na maioria das subconsciências era tido como algo positivo, passava a ser visto como um vilão, um entrave para o desenvolvimento de certos setores.

Mas agora, com a crise dos Estados Unidos, a obtenção de musculatura do dólar volta a ser apontada como prenunciação de tempos sombrios. Nossas subconsciências agradecem essa volta à normalidade! Os jornais parecem ter se esquecido de como abriam suas páginas para os experts que maldiziam o real “sobrevalorizado”(?); tampouco se lembram dos espaços que ofertavam aos políticos de oposição para que eles esbravejassem contra a “equivocada política cambial do governo brasileiro”. No ano eleitoral de 2006, um ouvinte encaminhou mensagem ao jornalista Mauro Halfeld, da CBN, questionando justamente se, afinal de contas, o dólar barato era bom ou era ruim para o país. Decerto que aquele ouvinte encontrava-se desconcertado pelas inúmeras entrevistas e comentários daquela emissora que criticavam a queda livre do dólar, que, salvo engano, àquele momento operava na faixa dos R$2,30 a R$2,40, ou seja, cerca de 20% a mais do que hoje.

E onde estão os críticos do dólar barato? Gostaria de ver suas celebrações ou ouvir o ecoar do grito que lhes deve estar engasgado desde o início do governo Lula: viva a subida do dólar!

Mas, afinal, é bom ou é ruim para o Brasil?...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

É a estupidez, economista!

De uns anos para cá virou um clichê na fala de políticos, jornalistas e economistas afirmar que alguns razoáveis resultados da economia brasileira eram em virtude dos bons ventos que sopravam no cenário internacional desde que o ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência. Muitos não apenas o diziam como forma de desqualificar o trabalho do atual presidente e de seus colaboradores, mas, principalmente, como forma de justificar os resultados abaixo de medíocre de seu antecessor.

Mas finalmente uma crise internacional chegou; e ela vem justamente da maior potência econômica do planeta, grande balizadora de um mundo interligado e de economia altamente globalizada. E por incrível que pareça o Brasil não foi à bancarrota.

“Não foi ainda”, dizem alguns. É verdade. Não há pensar que o Brasil ficará tão incólume assim, caso a recessão americana se aprofunde. Não deixa de ser surpreendente, porém, o fato de o Brasil não ter enviado, “ainda”, algum ministro para Washington com o pires na mão, como se apressou em dizer o próprio presidente Lula. Como o leitor deve se lembrar, há alguns anos, no primeiro sinal de crise, todo mundo aqui no Brasil começava a pedir os sais.

Aliás, tem sido um tanto constrangedora a posição dos que apostam no agravamento da crise americana e de seus inevitáveis estragos na economia brasileira, pois muitos não conseguem sequer disfarçar o clima de torcida para que isso ocorra.

Este blog, mais despreocupado das coisas da política, espera humildemente que o Brasil sofra o menos possível com a crise. O governo, de algum modo, fez sua parte, ao rechaçar a ALCA e em ter ampliado o número de parceiros comerciais em todos os continentes, o que, sem dúvida, dá algum alento no momento em que a crise parece bem localizada em terras estadunidenses.

Não vou me lembrar com exatidão, pois já faz algum tempo, mas houve uma revista brasileira de grande circulação que tripudiou com o fato de a política externa brasileira mostrar-se um pouco distante dos Estados Unidos. A sua capa dizia algo como sendo aquela atitude “arrogância ou estupidez”. Sejam quais tenham sido os substantivos usados pelo semanário, eles refletem o que muita gente sempre pensou da ousadia de um posicionamento não tão próximo da “nação-umbigo” do mundo.

Até o momento – quem diria! - parece que a tal “estupidez” vem nos segurando.