Mostrando postagens com marcador BandNews. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BandNews. Mostrar todas as postagens

domingo, 16 de agosto de 2009

MST (Movimento dos Sem Trânsito)

Nesta semana, o MST realizou protestos em várias partes do país.

A marcha cometida em São Paulo provocou a ira do pessoal da Band.

Por dois dias seguidos, o canal BandNews destacou a confusão que as manifestações do MST teriam causado no trânsito de São Paulo.

Nas reportagens, foi dado destaque ao fato de que a marcha atrapalhava o acesso a hospitais. Alguns motoristas entrevistados pela emissora corroboravam a preocupação com a necessidade de se ter caminho livre para as casas de saúde da cidade.

É uma verdadeira pilhéria!

Todos sabem muito bem que o trânsito da capital paulista já é caótico todos os dias, com ou sem manifestações. É sabido também que as áreas que concentram hospitais não raro possuem tráfego intenso de veículos, o que é elemento dificultador para a chegada das ambulâncias ou de parentes que vão fazer visitas. A mídia superestima muito a burrice do telespectador quando sugere que ele é incapaz de observar trivialidades, como, por exemplo, essa de que o trânsito paulistano é horroroso em quaisquer circunstâncias. Ou será que eles acreditam que o idiota que está do outro lado vai achar que só há congestionamentos em São Paulo quando há manifestações de trabalhadores?

Com efeito, é cena comum na Avenida Paulista, por exemplo, ouvir o “grito” intermitente de sirenes de ambulância tentando, sem grande sucesso, furar o bloqueio de centenas de veículos particulares parados no trânsito, veículos estes que, em mais de 90% dos casos, carregam apenas o seu condutor.

A “satanização” dos movimentos sociais já é uma velha conhecida de todos que acompanham a mídia brasileira. E nada melhor do que usar algum apelo “sentimentalóide” para tentar desqualificar as manifestações de grupos organizados. É claro que demonstrar preocupação com vias livres para se ter acesso a hospitais passa a imagem de que não se está querendo criminalizar o movimento, mas sim que se está, em última análise, defendendo uma espécie de preocupação humanitária com quem precisa usar os serviços de saúde. Me engana...

Mas qual seria, amigo leitor, o impacto de reportagens do tipo, se mostrassem algum caso de pessoas que ficaram sem atendimento médico por não ter conseguido chegar a hospitais não por culpa do MST, mas sim em virtude de não ter podido, num dia qualquer, abrir, como por milagre, o caminho tomado por veículos particulares de um único ocupante?

Interessante observar que os motoristas entrevistados repetiam a mesma preocupação, falando mais ou menos assim: “o problema não é me atrapalhar, mas é atrapalhar aqueles que precisam ir para os hospitais”. É muita cara-de-pau! É de se presumir que os que realmente estejam preocupados com isso talvez usem menos o automóvel, para não atrapalhar o trânsito, e, especialmente, evitem trajetos que devam ser usados preferencialmente como acesso a hospitais. Aparentemente, não era o caso daqueles que foram entrevistados!

Despertou curiosidade também o distanciamento com que falavam dos manifestantes. Os integrantes do MST eram os “eles” (“eles” isso, “eles” aquilo, "se 'eles' querem tal coisa..."). Trata-se, com efeito, de uma falta de interesse e identidade com a causa, que reforça a dualidade brasileira tão bem trabalhada por teóricos das ciências sociais sobretudo a partir dos anos 1950. De fato, não seria absurdo, para descrever a mencionada falta de solidariedade, abusar de clichês como o dos “dois brasis”, “arcaico x moderno”, “agrário x industrial”, “atrasado x dinâmico”, e por aí vai. O pensamento da turminha da Band e dos motoristas paulistanos é o do que “eu não tenho nada a ver com a causa desses caras, por que tenho que pagar o pato?”.

De fato, o Brasil dos sem-terra não parece ser o mesmo da São Paulo tomada de carros. São outras as preocupações e anseios de São Paulo, cidade onde tudo é de pedra, inclusive os corações. Apesar de que os corações até que dão uma amolecida às vezes, principalmente quando algum malvado atrapalha a chegada aos hospitais!

sábado, 21 de março de 2009

Demissão oportunista - ou pacto de elites

Delfim Neto certa feita disse que “jornalismo de economia não é nem uma coisa nem outra”. A frase é perfeita para gente como Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg. Não a merece, todavia, o competente Joelmir Betting, do grupo Bandeirantes.

Joelmir, na sua coluna para o BandNews em 13-03-2009 (assista aqui) comentou acerca do fenômeno “demissão oportunista”. Em linhas gerais, isso se dá quando se aproveita um “ambiente de crise” para fazer um enxugamento nas empresas, mesmo que disso não haja tanta necessidade. O comentarista da Band sentencia que o discurso da crise acaba por dar uma “roupagem politicamente correta” a demissões sem sentido.

Antes de mais, registre-se que essa bola já vinha sido cantada em muitos blogues e sites independentes, além de por sindicalistas e por alguns nomes do governo. Ademais, fica sugerida no comentário de Betting a responsabilidade dos meios de comunicação nos dramas vividos pelos trabalhadores. O terrorismo midiático, levado a cabo mesmo em momentos que a situação se mantinha sob controle no Brasil, serviu aos grandes grupos empresariais (não por acaso grandes anunciantes) como desculpa para fazer alguns “pequenos ajustes” no seu contingente de força de trabalho.

Já tivemos dois exemplos recentes de como jogar água no moinho do discurso da crise: o PIB brasileiro de 2008 alcançou extraordinários 5,1%, mas a notícia que a imprensa considerou “boa” mesmo foi a da queda de 3,6% no último trimestre (!); a excelente notícia de que a criação de vagas formais em fevereiro ficou positiva foi minimizada, por sua vez, pela informação de que o resultado é extremamente inferior ao do mesmo mês do ano passado.

Se quisesse, portanto, a imprensa poderia escolher os aspectos mais positivos das notícias. Mas isso, convenhamos, também não seria de todo certo; o melhor a fazer seria contextualizá-las e, conseqüentemente, equilibrá-las. Mas ao adotar sempre o pior ângulo, a mídia aprofunda o sentimento de crise e deixa tranqüila a consciência dos empresários que querem reduzir custos dizimando postos de trabalho (de quebra, ainda ajuda os seus amigos do PSDB e do DEM). Isto é que é pacto de elites!

domingo, 25 de janeiro de 2009

'Espectro' industrial de reserva

As idéias de Marx continuam aparecendo com força. Alguns dirão que elas estiveram sempre em voga, e que a diferença agora é que a chamada crise financeira internacional as está colocando em maior evidência.

No caso do Brasil, por conta da propalada - não muito bem esclarecida – “onda de desemprego”, está-se vendo a entrada em cena do velho conceito marxista do exército industrial de reserva. Como o próprio nome já deixa subentender, trata-se de um grupo que está fora do mercado, mas que pode vir a ser por ele utilizado a qualquer momento, ou, melhor do que isso, pode muito bem ser utilizado mesmo quando – ou principalmente porque – está na reserva.

Há duas situações básicas que provêm da existência de um exército de reserva. A primeira delas é a menor pressão sobre os salários, pois não há porque pagar mais aos trabalhadores se há um bom contingente de desempregados disposto a entrar no mercado para receber valores menores. A outra é o desdobramento do desempenho daqueles que estão empregados, pressionados psicologicamente pelo exército que se agiganta do lado de fora do mercado.

Por enquanto, passaremos ao largo das implicações políticas envolvidas na questão, como a choradeira empresarial e as pressões pela flexibilização de legislação trabalhista. Tendemos a elas voltar noutro momento.

Continuando com o assunto desemprego e a pressão do exército industrial de reserva, merecem atenção o comportamento que já se observa nas pessoas no dia-a-dia, decerto influenciadas pelo catastrofismo veiculado na mídia, e o viés de notícias apresentadas em alguns telejornais.

O BandNews, por exemplo, mostrou reportagem “sugerindo” que os trabalhadores devem, nesse momento de crise, mostrar mais serviço e, principalmente, não ficar reclamando muito. A matéria apresentou um escriturário que está até levando trabalho para casa como forma de se diferenciar no escritório e, assim, não ser pego pela crise. Noutro caso, um entregador que fazia doze entregas por dia, agora vem fazendo dezesseis, preocupado que está com o fantasma do desemprego.

Que raio de crise é essa que um cidadão até leva trabalho para casa, numa clara demonstração de que as suas horas normais não são suficientes para realizar a quantidade que tem de tarefas? Como pode uma reportagem sobre o risco de desemprego mostrar um trabalhador que está fazendo um terço a mais de seu trabalho normal, e nem sequer questionar qual é, afinal de contas, a verdadeira dimensão dessa crise? Aparentemente caberia a pergunta de até que ponto não há especulação, o que é fato e o que é mito, enfim, o que há de realmente verdadeiro nessa história toda.

E o exército industrial de reserva, onde entra? Bem, certamente o velho Marx, ainda que fosse de algum modo um homem de imprensa, não seria capaz de imaginar o poder que a mídia viria a ter. Mas a verdade é que só foi aparecer o resultado do CAGED, com algumas divulgações não muito bem contextualizadas, além dos casos de algumas grandes empresas demitindo, em situações também não muito bem explicadas, e as pessoas já começaram a se sentir incomodadas com o espectro dos que estão de fora. E a mídia, pelo que tudo indica, apenas cumpre o seu papel, que é o de amedrontar os trabalhadores: os que estão empregados, intimidados que ficam, já começam a trabalhar mais do que seria o normal; e a ironia tragicômica disso é que alguns trabalhadores poderão mesmo perder seus empregos, pois os empregadores sabem que os remanescentes, devidamente assustados, trabalharão em dobro para suprir a ausência do demitido. Nos casos relatados acima, por exemplo, a cada três dias o simpático entregador faz o trabalho de uma outra pessoa; se outros eventuais funcionários daquela empresa agirem da mesma forma, pelo menos mais um poderá ser cortado rapidinho. Já o escriturário, por sua vez, deixa em dificílima situação o colega que não queira, ou não possa, levar trabalho para casa; e se todos entrarem no jogo, certamente não haverá trabalho para todo mundo.

Seria o caso de falar em alienação? Ih, olha o alemão barbudo aí de novo! Fica para um próximo post.

domingo, 17 de agosto de 2008

Tudo o que você sempre quis saber sobre a Ossétia do Sul

Muitos foram dormir sem saber que existia “uma” Ossétia do Sul; no dia seguinte, ouviam a imprensa referindo-se à região como se estivesse falando de Catanduva, Sete Lagoas, Resende, Campos Mourão, Viamão, Mossoró, Itabuna etc. Noutras palavras, a mídia pretendia nos fazer acreditar que a Ossétia do Sul seria um lugar que não chega a ser São Paulo, Nova York, Manchester, Karachi, Johannesburg etc., mas que seria logo lembrado, ou pelo menos não-estranhado, pela maioria de que dela ouvisse falar.

As informações sobre o conflito que envolve a Rússia e a Geórgia, especialmente na TV, vieram desacompanhadas de alguma explicação sobre suas motivações. A imprensa escrita e alguns sites ainda que pretenderam demonstrar as possíveis implicações geopolíticas da peleja, indicaram o status legal da região e não negligenciaram o substrato econômico da briga, tendo em vista interesses de Rússia e Estados Unidos por uma região que pode ser estratégica para a distribuição de petróleo – até de reaquecimento da guerra fria foi falado.

Mas a BandNews, com o atraso de alguns dias, resolveu fazer um “entenda o conflito”, e ganhou um ponto para a televisão ao tocar num tema que ajudaria o brasileiro médio a compreender as idéias de nacionalismo e separatismo que tanto povoam o noticiário internacional em geral e o caso da Ossétia do Sul - e também da Abkhasia - em particular. Vários confrontos são deflagrados ou sustentados por levantes nacionalistas e separatistas sem que as pessoas consigam entender exatamente o que ocorre e o que está por detrás deles. O trabalho da editoria de internacional da Band foi feliz ao explicar que "a maioria dos moradores da Ossétia do Sul se sentem bem mais ligados à Rússia do que à Geórgia".

Pertencimento: seria essa a expressão indiretamente tocada pelos jornalistas do Grupo Bandeirantes. O conceito de “nação” depende muito dessa idéia. Eu sou de uma nação à medida que me sinto como “pertencente” a ela. No caso do Kosovo, por exemplo, a maioria albanesa da região não se sentia como “pertencendo” à Sérvia; a minoria sérvia do Kosovo, por outro lado, não via motivos por que não “pertencer” à Sérvia e não se sentia, definitivamente, como “pertencente” ao Kosovo.

Mas é claro que tal idéia de pertencimento vai ficar num segundo plano para as grandes potências e para os grandes blocos, que preferirão ver quais as vantagens que podem tirar de uma dada região, sobretudo se ela for rica em minérios ou petróleo! Já as populações dos lugares de disputas nacionalistas e separatistas talvez passem ao largo da preocupação com suas riquezas naturais e com suas condições de sobrevivência e crescimento autônomos, antes se lançando à briga, nas palavras de Eric Hobsbawm, do “nós” contra os “eles”, sem se ter muita certeza do que “nós” temos de diferente “deles”.

Como diria o Paulo Henrique Amorim, a dona Maria, lá da Ossétia do Sul, apesar de estar dentro do Estado da Geórgia, sente-se russa e não georgiana, e daí vêm as idéias de separatismo. Depois disso vêm os senhores da guerra, preocupados com a política, com o poder, com a economia, aproveitando-se da situação, calculando o que se pode ganhar com um possível redesenho da região, além de um Atlas geográfico atualizado. Este foi mais ou menos o jeito que o BandNews explicou o conflito. Talvez tenha ajudado a nós, os leigos, a entendê-lo um pouquinho melhor!