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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Marolinha. Ainda!

Eis que vejo na televisãozinha do Metrô a notícia, publicada no Le Monde, dando conta que o presidente Lula acertou ao afirmar que a crise econômica no Brasil seria só uma marolinha. Confirmei a informação no Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha, que reproduziu a matéria do jornal francês, que, aliás, não era apenas sobre o Brasil, mas acerca da importância do chamado BRIC no novo cenário econômico internacional que se desenha após a crise.

Também, nesta semana, vi no BandNews TV reportagem sobre a forma como a crise atingiu o Brasil, e como o país a está deixando para trás. Foi absolutamente hilário ver o Sr. Luiz Carlos Mendonça de Barros, o homem da "telegangue", do "limite da irresponsabilidade", admitindo, com um sorriso mais ou menos amarelo, que o presidente tinha razão: "a crise no Brasil foi só uma marolinha mesmo e não um tsunami". Sem dúvida que é deveras surpreendente ouvir isso, sobretudo quando se teve a oportunidade de ler as barbaridades que o economista, ex-ministro do governo FHC, escrevia na sua coluna da Folha, sempre criticando o presidente e as autoridades brasileiras por, segundo ele, estarem fazendo pouco caso da "terrível crise".

Por tudo isso, tomamos a liberdade de reproduzir texto que publicamos neste espaço no dia 27.03.2009, e que, nessa altura do campeonato, soa bastante atual. Felizmente, diga-se!

Sexta-feira, 27 de Março de 2009
Marolinha sem aspas

Alguns colunistas da mídia adotaram a expressão marolinha, utilizada pelo presidente Lula para se referir ao tamanho com que a crise econômico-financeira internacional iria atingir o Brasil. O vocábulo tem sido geralmente destacado entre aspas. O uso desses sinais não parece estar sendo com o intuito de indicar que se trata de uma metáfora, ou de gíria ou algo que o valha; em verdade, o que se quer é sugerir que o presidente pode ter dado uma bola fora ao utilizá-lo, ainda mais que a imprensa tem sido bastante competente no tentar demonstrar que a crise teria desembarcado no Brasil em níveis que mereceriam ser associados a fenômenos naturais bem mais devastadores. Noutras palavras, as aspas que envolvem a marolinha presidencial, quando empregadas pelos estafetas da imprensa, estão carregadas de ironia e sarcasmo.

Lula sabia que a crise atingiria o Brasil em alguma medida, tanto que admitiu que seríamos tocados por ela na forma da tal marolinha, o que significa dizer que ele não se iludia com o fato de que ela não chegaria de nenhuma maneira aqui, como tentaram distorcer alguns. O presidente, em verdade, buscou apenas demonstrar que não haveria tsunami (metáfora antípoda à do presidente brasileiro) na economia brasileira e por isso escolheu um termo que, na opinião dele, melhor dimensionaria os efeitos da crise neste país tropical. Que se analisem friamente os dados após cerca de dois anos de maus resultados em nível global e forçoso será concluir que, com efeito, no Brasil a crise é só a tal marolinha mesmo.

A bem da verdade, não foi apenas o presidente da República que se mostrou, por assim dizer, otimista com os possíveis efeitos da crise no país. Órgãos como a OCDE e o FMI já haviam, antes dele, afirmado que o Brasil era das nações menos vulneráveis aos maus bocados internacionais e que, ipso facto, levaria poucos arranhões oriundos desse acidente universal. O ingrato Lula deveria ter dado os créditos!

A imagem da marolinha brasileira vem sofrendo a tentativa de desmoralização promovida pela mídia calcada principalmente em dois resultados bastante significativos: a queda do PIB no quarto trimestre de 2008 e os fechamentos de vagas no mercado de trabalho nos meses de dezembro e janeiro últimos. Mas vamos lá: não obstante a contundência com que o mercado foi atingido em 2008, a grande verdade é que dezembro sempre foi um mês de expressiva dizimação de empregos, mesmo em anos de bonança internacional; já o PIB do último quartel do ano passado – nunca é exagerado lembrar – foi desastroso se comparado com o terceiro trimestre, mas positivo se confrontado com idêntico período de 2007 – fora o fato de que no acumulado do ano obteve excelente resultado, como já apontamos noutra postagem. Merece nota também a informação de que o mês de fevereiro foi positivo na criação de vagas do mercado formal de trabalho. No caso deste último, a imprensa, como se sabe, quis minimizar o resultado que, realmente, é marcadamente inferior ao do mesmo mês de 2008; mas, num mundo em que se comemora até mesmo quando o desemprego aumenta em nível menor do que o esperado, deveria ser celebrado o tímido porém consistente resultado do mercado de trabalho brasileiro no segundo mês de 2009.

Os jornais brasileiros fizeram, por motivo político, uma aposta na crise. Tentam de toda forma mostrar que acertaram. Já a rede norte-americana CNN parece pensar de maneira diversa: o mais famoso canal noticioso do mundo afirmou, quando do encontro dos presidentes Lula e Obama, que uma das grandes qualidades do Brasil neste momento é que o país tem sofrido muito menos com a crise quando comparado a outros países da mesma importância. Yes, nós temos marola!

Um amigo conta-me que propaganda do DEM – à qual não tive oportunidade de assistir – vem tentando explorar a metáfora molhada de Lula, procurando mostrar a suposta infelicidade da fala presidencial. O cerco se fecha: o partido de José Agripino Maia tem na grande imprensa o mentor intelectual de seu discurso. O assunto crise econômico-financeira internacional (a bola da vez) tem que ser martelado diuturnamente na mídia, para que partidos oposicionistas, claramente sem projeto, tenham do que falar e possam dar suas alfinetadas de vez em quando. É essa, infelizmente, a importância que resta à vetusta imprensa no Brasil de hoje!

sábado, 2 de maio de 2009

1º de maio: um dos dias do Trabalho

Sexta-feira foi o Dia do Trabalho. Em momentos de crise, a situação, por óbvio, é especialmente difícil para os trabalhadores, ainda mais numa era em que todo mundo já se acostumou com a precarização do mundo do trabalho e com uma quase "natural" (para desespero de Brecht) dizimação do emprego humano. Este blog não se furtou a tratar do tema em alguma medida. Abaixo, seguem os links de duas postagens recentes que trataram do assunto:

Demissão oportunista - ou pacto de elites
'Espectro' industrial de reserva

A associação da presente crise com a vivida em 1929 não tem sido rara. Por isso, tem-se lembrado muito da figura de Keynes no campo da teoria e de Franklin Delano Roosevelt, na política. No momento histórico deste grande presidente norte-americano, com sua famosa política do New Deal, houve o recobro da esperança que se perdera com a Grande Depressão. Mas, infelizmente - e como sempre -, não foram todos os trabalhadores que se sentiram realmente recuperados por aquelas medidas econômicas de iniciativa do Estado. Como talvez o leitor rapidamente deduza, os negros faziam parte do grupo que, a despeito de quaisquer iniciativas, ainda vivia em situação de abandono.

A este propósito, o grande guitarrista Big Bill Broonzy gravou para o selo Vocalion, de propriedade da Columbia, em 31.03.1938, a extraordinária "Unemployment Stomp", canção que, ademais, é significativa da absorção de elementos mais modernos pelo blues, com acompanhamento de banda, diferente das gravações do início dos anos 1930, nas quais Broozy aparecia solitário com sua guitarra. Ouça abaixo a bela gravação (verdadeira canção de protesto!) e observe também as raras fotos da coleção de Frank Driggs.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Marolinha sem aspas

Alguns colunistas da mídia adotaram a expressão marolinha, utilizada pelo presidente Lula para se referir ao tamanho com que a crise econômico-financeira internacional iria atingir o Brasil. O vocábulo tem sido geralmente destacado entre aspas. O uso desses sinais não parece estar sendo com o intuito de indicar que se trata de uma metáfora, ou de gíria ou algo que o valha; em verdade, o que se quer é sugerir que o presidente pode ter dado uma bola fora, ainda mais que a imprensa tem sido bastante competente no tentar demonstrar que a crise teria desembarcado no Brasil em níveis que mereceriam ser associados a fenômenos naturais bem mais devastadores. Noutras palavras, as aspas que envolvem a marolinha presidencial, quando utilizadas pelos estafetas da imprensa, estão carregadas de ironia e sarcasmo.

Lula sabia que a crise atingiria o Brasil em alguma medida, tanto que admitiu que seríamos tocados por ela na forma da tal marolinha, o que significa dizer que ele não se iludia com o fato de que ela não chegaria de nenhuma maneira aqui, como tentaram distorcer alguns. O presidente, em verdade, buscou apenas demonstrar que não haveria tsunami (metáfora antípoda à do presidente brasileiro) na economia brasileira e por isso escolheu um termo que, na opinião dele, melhor dimensionaria os efeitos da crise neste país tropical. Que se analisem friamente os dados após cerca de dois anos de maus resultados em nível global e forçoso será concluir que, com efeito, no Brasil a crise é só a tal marolinha mesmo.

A bem da verdade, não foi apenas o presidente da República que se mostrou por assim dizer otimista com os possíveis efeitos da crise no país. Órgãos como a OCDE e o FMI já haviam, antes dele, afirmado que o Brasil era das nações menos vulneráveis aos maus bocados internacionais e que, ipso facto, levaria poucos arranhões oriundos desse acidente universal. O ingrato Lula deveria ter dado os créditos!

A imagem da marolinha brasileira vem sofrendo a tentativa de desmoralização promovida pela mídia calcada principalmente em dois resultados bastante significativos: a queda do PIB no quarto trimestre de 2008 e os fechamentos de vagas no mercado de trabalho nos meses de dezembro e janeiro últimos. Mas vamos lá: não obstante a contundência com que o mercado foi atingido em 2008, a grande verdade é que dezembro sempre foi um mês de expressiva dizimação de empregos, mesmo em anos de bonança internacional; já o PIB do último quartel do ano passado – nunca é exagerado lembrar – foi desastroso se comparado com o terceiro trimestre, mas positivo se confrontado com idêntico período de 2007 – fora o fato de que no acumulado do ano obteve excelente resultado, como já apontamos noutra postagem. Merece nota também a informação de que o mês de fevereiro foi positivo na criação de vagas do mercado formal de trabalho. A imprensa, como se sabe, quis minimizar o resultado que, realmente, é marcadamente inferior ao do mesmo mês de 2008; mas, num mundo em que se comemora quando o desemprego aumenta em nível menor do que o esperado, deveria ser celebrado o tímido porém consistente resultado do mercado de trabalho brasileiro no segundo mês de 2009.

Os jornais brasileiros fizeram, por motivo político, uma aposta na crise. Tentam de toda forma mostrar que acertaram. Já a rede norte-americana CNN parece pensar de maneira diversa: o mais famoso canal noticioso do mundo afirmou, quando do encontro dos presidentes Lula e Obama, que uma das grandes qualidades do Brasil neste momento é que o país tem sofrido muito menos com a crise quando comparado a outros países da mesma importância. Yes, nós temos marola!

Um amigo conta-me que propaganda do DEM – que não tive oportunidade de assistir – vem tentando explorar a metáfora molhada de Lula, procurando mostrar a suposta infelicidade da fala presidencial. O cerco se fecha: o partido de José Agripino Maia tem na grande imprensa o mentor intelectual de seu discurso. O assunto crise econômico-financeira internacional (a bola da vez) tem que ser martelado diuturnamente na mídia, para que partidos oposicionistas, claramente sem projeto, tenham do que falar e possam dar suas alfinetadas de vez em quando. É essa a importância da vetusta imprensa no Brasil de hoje!

sábado, 21 de março de 2009

Demissão oportunista - ou pacto de elites

Delfim Neto certa feita disse que “jornalismo de economia não é nem uma coisa nem outra”. A frase é perfeita para gente como Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg. Não a merece, todavia, o competente Joelmir Betting, do grupo Bandeirantes.

Joelmir, na sua coluna para o BandNews em 13-03-2009 (assista aqui) comentou acerca do fenômeno “demissão oportunista”. Em linhas gerais, isso se dá quando se aproveita um “ambiente de crise” para fazer um enxugamento nas empresas, mesmo que disso não haja tanta necessidade. O comentarista da Band sentencia que o discurso da crise acaba por dar uma “roupagem politicamente correta” a demissões sem sentido.

Antes de mais, registre-se que essa bola já vinha sido cantada em muitos blogues e sites independentes, além de por sindicalistas e por alguns nomes do governo. Ademais, fica sugerida no comentário de Betting a responsabilidade dos meios de comunicação nos dramas vividos pelos trabalhadores. O terrorismo midiático, levado a cabo mesmo em momentos que a situação se mantinha sob controle no Brasil, serviu aos grandes grupos empresariais (não por acaso grandes anunciantes) como desculpa para fazer alguns “pequenos ajustes” no seu contingente de força de trabalho.

Já tivemos dois exemplos recentes de como jogar água no moinho do discurso da crise: o PIB brasileiro de 2008 alcançou extraordinários 5,1%, mas a notícia que a imprensa considerou “boa” mesmo foi a da queda de 3,6% no último trimestre (!); a excelente notícia de que a criação de vagas formais em fevereiro ficou positiva foi minimizada, por sua vez, pela informação de que o resultado é extremamente inferior ao do mesmo mês do ano passado.

Se quisesse, portanto, a imprensa poderia escolher os aspectos mais positivos das notícias. Mas isso, convenhamos, também não seria de todo certo; o melhor a fazer seria contextualizá-las e, conseqüentemente, equilibrá-las. Mas ao adotar sempre o pior ângulo, a mídia aprofunda o sentimento de crise e deixa tranqüila a consciência dos empresários que querem reduzir custos dizimando postos de trabalho (de quebra, ainda ajuda os seus amigos do PSDB e do DEM). Isto é que é pacto de elites!

sábado, 31 de janeiro de 2009

Enfim, o Fórum Social Mundial

O Fórum Social Mundial, que ocorre em Belém neste ano de 2009, está tendo uma espécie de edição da desforra: depois de anos sendo considerado um evento de utópicos, retrógrados, românticos, bichos-grilo e outros adjetivos menos simpáticos, o FSM aparece agora como o espaço que durante muito tempo desferiu não apenas críticas ao pensamento hegemônico, mas também como um lugar que apresentou soluções aos diversos problemas mundiais.

Já dissemos noutros momentos que os discursos não mudam, mas dependendo de quem os profere, ou da situação na qual o fazem, eles podem ser recebidos das mais diversas formas. O leitor mais assíduo decerto que se lembra de nossa estranheza com o fato de as bolsas de valores terem subido com as palavras de um já eleito Barack Obama, que se declarava disposto até a quebrar o orçamento para fazer a roda da economia voltar a girar, o que seria uma heresia numa era em que se acostumou a tratar a responsabilidade fiscal quase como um dogma. O mesmo fiel leitor – se é que ele existe! – também se recordará de nosso espanto com o fato de altas autoridades mundo afora ganharem espaço na mídia, no auge da crise internacional de alimentos, acusando os biocombustíves pela escassez e conseqüente encarecimento de comestíveis, mais ou menos um ano depois de Fidel e Chávez terem sido ridicularizados por dizer o mesmo.

No caso do Fórum Social Mundial, as afirmações de que o estado deveria ter um papel mais relevante em todos os países, de que não se poderia deixar as coisas à mercê do mercado, de que alguma regulamentação era necessária e de que a questão ambiental não merecia ser deixada de lado eram vistas como mera retórica tipicamente esquerdista. Hoje, o papo dos “caipiras” e “neobobos” (como diria o ex-presidente FHC) está até no esvaziado Fórum Econômico Mundial, que ocorre em Davos, concomitantemente ao FSM.

A esperança de todos é que a crise econômico-financeira internacional seja solucionada. (Nem de todos: a oposição brasileira, tanto a política quanto a midiática, querem ver o circo pegar fogo no Brasil). Mas isso ocorrendo, não se deve permitir o retrocesso aos desvarios neoliberais. Para tanto, os recados de fóruns como este que está ocorrendo no Pará devem ser cada vez mais contundentes e não podem esmorecer nunca.

domingo, 25 de janeiro de 2009

'Espectro' industrial de reserva

As idéias de Marx continuam aparecendo com força. Alguns dirão que elas estiveram sempre em voga, e que a diferença agora é que a chamada crise financeira internacional as está colocando em maior evidência.

No caso do Brasil, por conta da propalada - não muito bem esclarecida – “onda de desemprego”, está-se vendo a entrada em cena do velho conceito marxista do exército industrial de reserva. Como o próprio nome já deixa subentender, trata-se de um grupo que está fora do mercado, mas que pode vir a ser por ele utilizado a qualquer momento, ou, melhor do que isso, pode muito bem ser utilizado mesmo quando – ou principalmente porque – está na reserva.

Há duas situações básicas que provêm da existência de um exército de reserva. A primeira delas é a menor pressão sobre os salários, pois não há porque pagar mais aos trabalhadores se há um bom contingente de desempregados disposto a entrar no mercado para receber valores menores. A outra é o desdobramento do desempenho daqueles que estão empregados, pressionados psicologicamente pelo exército que se agiganta do lado de fora do mercado.

Por enquanto, passaremos ao largo das implicações políticas envolvidas na questão, como a choradeira empresarial e as pressões pela flexibilização de legislação trabalhista. Tendemos a elas voltar noutro momento.

Continuando com o assunto desemprego e a pressão do exército industrial de reserva, merecem atenção o comportamento que já se observa nas pessoas no dia-a-dia, decerto influenciadas pelo catastrofismo veiculado na mídia, e o viés de notícias apresentadas em alguns telejornais.

O BandNews, por exemplo, mostrou reportagem “sugerindo” que os trabalhadores devem, nesse momento de crise, mostrar mais serviço e, principalmente, não ficar reclamando muito. A matéria apresentou um escriturário que está até levando trabalho para casa como forma de se diferenciar no escritório e, assim, não ser pego pela crise. Noutro caso, um entregador que fazia doze entregas por dia, agora vem fazendo dezesseis, preocupado que está com o fantasma do desemprego.

Que raio de crise é essa que um cidadão até leva trabalho para casa, numa clara demonstração de que as suas horas normais não são suficientes para realizar a quantidade que tem de tarefas? Como pode uma reportagem sobre o risco de desemprego mostrar um trabalhador que está fazendo um terço a mais de seu trabalho normal, e nem sequer questionar qual é, afinal de contas, a verdadeira dimensão dessa crise? Aparentemente caberia a pergunta de até que ponto não há especulação, o que é fato e o que é mito, enfim, o que há de realmente verdadeiro nessa história toda.

E o exército industrial de reserva, onde entra? Bem, certamente o velho Marx, ainda que fosse de algum modo um homem de imprensa, não seria capaz de imaginar o poder que a mídia viria a ter. Mas a verdade é que só foi aparecer o resultado do CAGED, com algumas divulgações não muito bem contextualizadas, além dos casos de algumas grandes empresas demitindo, em situações também não muito bem explicadas, e as pessoas já começaram a se sentir incomodadas com o espectro dos que estão de fora. E a mídia, pelo que tudo indica, apenas cumpre o seu papel, que é o de amedrontar os trabalhadores: os que estão empregados, intimidados que ficam, já começam a trabalhar mais do que seria o normal; e a ironia tragicômica disso é que alguns trabalhadores poderão mesmo perder seus empregos, pois os empregadores sabem que os remanescentes, devidamente assustados, trabalharão em dobro para suprir a ausência do demitido. Nos casos relatados acima, por exemplo, a cada três dias o simpático entregador faz o trabalho de uma outra pessoa; se outros eventuais funcionários daquela empresa agirem da mesma forma, pelo menos mais um poderá ser cortado rapidinho. Já o escriturário, por sua vez, deixa em dificílima situação o colega que não queira, ou não possa, levar trabalho para casa; e se todos entrarem no jogo, certamente não haverá trabalho para todo mundo.

Seria o caso de falar em alienação? Ih, olha o alemão barbudo aí de novo! Fica para um próximo post.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Crise crônica: domingo no hipermercado

Acabo de chegar de um hipermercado instalado num tradicional bairro de classe média de São Paulo. Pude ver de perto o tamanho da crise alardeada pela Folha, pelo Estadão, pela CBN, Rede Globo e outros menos cotados: corredores intransitáveis, funcionários todos ocupados, filas intermináveis nos caixas.

Senti falta de algum repórter dos órgãos supracitados. Ele poderia escrever a matéria da vida dele; observar, in loco, a devastação cometida pela crise econômica que abate o Brasil! Adoraria também encontrar por lá algum comentarista do nível de Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg ou Rolf Kuntz, que, quem sabe, poderia fazer um rápido discurso para afugentar aquela multidão e, assim, tornar mais transitáveis os corredores, deixar os funcionários um pouco mais aliviados e, principalmente, tornar as filas mais curtas.

Não pude deixar de pensar na irresponsabilidade daqueles consumidores. Pô, uma crise danada dessas sobre a gente e o povinho gastando loucamente! Pára com isso...! Será que eles não estão dando bola para a imprensa? Ora, mas o hipermercado fica, como já dissemos, num bairro classe média de São Paulo e é estabelecimento do tipo não muito dado a oferecer os melhores preços; não seria de se estranhar se, por lá, estivessem alguns abnegados leitores do chamado PIG. Por que, então, não estão levando a sério a crise diariamente estampada nas manchetes, descrita na boa lavra dos colunistas e especialistas, ou dissecada em tons sombrios nos editoriais?

Nessa altura do campeonato, o inteligente leitor já deve ter ressalvado que estamos no primeiro domingo após o quinto dia útil do mês, ou seja, as pessoas estão fazendo sua comprinha de depois do pagamento. Certamente isso pesa. Só que o discurso da crise não abre espaços para esse tipo de ponderação. A quebradeira é iminente. E, num mês em que já se começa a se preocupar com o IPVA, IPTU, matrícula e material escolar, seria de se esperar que as pessoas ajuizadamente começassem a se pelar de medo dos prognósticos dos luminares incrustados na imprensa brasileira.

Trata-se de caso isolado... Não dá para levar a sério... O pior da crise ainda não chegou no Brasil... Nhem nhem nhem, nhem nhem nhem, nhem nhem nhem, como diria o invejoso, quer dizer, “saudoso” Fernando Henrique Cardoso! E mais: um crítico dotado de bons argumentos insistiria que não posso tirar minhas conclusões de uma observação rasteira de pouco menos de uma hora num domingo matinal. Ora, mas o empirismo ainda deve servir para alguma coisa. A grande verdade é que, honestamente, saí do recôndito do lar acreditando que encontraria um hipermercado mais tranqüilo. Está certo que se deu de forma inconsciente, mas me dirigi até lá quase como aquele pesquisador imbuído de uma teoria e que sai a campo para prová-la ou, ao menos, para verificar se a experiência lhe dá um mínimo de respaldo. Se fosse um caso de estudo verdadeiro, o isolado experimento faria o estudioso ter que repensar os fundamentos de sua tese ou, pelo menos, reformulá-la!

Mas nem tudo está perdido para o mundo do conhecimento. Se tal fato deixa a cabeça toda atrapalhada e nos faz nos sentir indefesos em meio a tantas dúvidas e confusões provocadas pelos gênios dos meios de comunicação brasileiros, ao menos ele serve para explicar certos paradoxos da política tupiniquim. Explico-me: talvez o que vi hoje dê bons indicativos de por que alguém como Abílio Diniz, representante típico da burguesia nacional, virou um simpatizante do governo do presidente Lula, mesmo a despeito do famoso imbróglio do seqüestro de 1989. Talvez os felizes consumidores que lotavam o hipermercado, bons membros da classe média que são, por motivos de mero preconceito não gostem tanto assim do atual governo. Mas os donos de hipermercados como aquele talvez não possam se dar ao luxo de ser tão irracionais assim...

Já os poucos donos dos meios de comunicação do Brasil parecem não ter motivos para gostar do governo Lula. Por que será? A explicação talvez esteja na fala do próprio presidente, proferida em entrevista à revista Piauí: “Eu trato os empresários do meio de comunicação como eu trato os empresários da construção civil, como eu trato os bancos, como eu trato o pessoal do setor siderúrgico, ou seja, é um cidadão que apresenta uma pauta de reivindicação. (...) Eu acho normal que um empresário de meio de comunicação, se precisar de dinheiro emprestado do BNDES, entre com o mesmo pedido como entra uma empresa de construção civil, como entra uma indústria automobilística. É um direito que ele tem de fazer investimento, o Brasil tem um banco que empresta, portanto, ele não deve favor nem ao banco e nem ao país.” Quer dizer, ao contrário do que gostariam, os empresários dos meios de comunicação não merecem tratamento especial, e contrariamente ao que pensam, eles não são melhores do que ninguém. E já que tomamos essa vereda, na mesma entrevista, a respeito da publicidade governamental nos meios de comunicação, Lula disse: “O que o companheiro Franklin estabeleceu, e é correto, é a participação em função da questão técnica. O cidadão vai ter proporcional ao que ele pode ter, nem mais, nem menos. Você não pode ter alguém que tenha uma audiência de 30% recebendo o equivalente a 70%; como você não pode ter uma que tem 10% recebendo o equivalente a 5%. Então, quando você cria critérios técnicos para poder cuidar da publicidade, obviamente que algumas pessoas que mamavam começam a ficar chateadas”. Sentiram o drama? A quem será que o presidente da República dirigiu seu comentário? Quem será que mamava?

Mas a crise, para a alegria dos empresários da mídia, deve dar uma apertada logo, logo. Mas, por enquanto, caso o amigo leitor tenha que ir às compras, vá de espírito preparado para enfrentar filas.

Bom domingo!

sábado, 27 de dezembro de 2008

2009

As perspectivas econômicas para o Brasil em 2009 não vêm sendo apresentadas com as cores mais alegres: o crescimento econômico deverá ficar muito abaixo do de 2008; o desemprego deve começar em alta; a renda do trabalhador ficará estagnada. Tudo isso é somente parte do que dizem e é visto como conseqüência da crise internacional.

Mas será que dá para levar tais previsões tão a sério assim?

No final de 2007, as projeções para 2008 também não eram das melhores. Temia-se no final daquele ano que a crise do subprime não tardaria a resvalar no mercado brasileiro já nos primeiros meses de 2008, o que evidentemente não ocorreu, pelo menos não de modo a afetar o cotidiano das pessoas. Na última ou penúltima reunião do COPOM em 2007 cessara a gradual queda dos juros que até então vinha sendo operada, o que fez a maioria dos analistas antever algum período de retração, situação que certamente não será confirmada pelo crescimento do PIB deste ano. Por fim, com a derrota do governo na votação da CPMF, era dada como certa uma abrupta queda na arrecadação, previsão que viria a ser fragorosamente desmentida já nos primeiros meses de 2008. Posto isto, se os economistas e analistas de hoje “acertarem” no mesmo patamar do de 2007, não haverá motivo para tanta preocupação em 2009!

E há mais: no decorrer do próprio ano de 2008 apostou-se que a inflação iria extrapolar as bandas da meta do Banco Central. Os mesmos analistas ouvidos pelo BC acreditam agora, no final de 2008, que o IPC-A não passará dos 6% a.a., diante do extremo da meta que é de 6,5% a.a.

Um professor dos cursos de pós-graduação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo certa feita disse que fazer previsão não é algo que mereça ser levado muito em consideração, afinal este bem pode ser – até com maior autoridade - o métier das cartomantes, dos sensitivos, jogadores de búzios etc. O máximo que se pode fazer são projeções de “cenários”, baseadas, é claro, em fatos concretos da política e da economia. A dura realidade, entretanto, pode pregar algumas peças nos videntes de plantão. Os números do natal surgem como parte de tal “dura realidade”: contraria muito do que se lia na imprensa a respeito de queda de vendas e acerca da crise que já se instalaria no final deste ano.

Que tal voltarmos, em breve, a falar do que “é” em vez do que "poderia ser”. É bem mais fácil...

sábado, 13 de dezembro de 2008

Está todo mundo louco!

Na segunda-feira, dia 8 de dezembro, as bolsas de valores ao redor do mundo deram uma bela disparada. O motivo teria sido a proposta do presidente eleito dos Estados Unidos de investir em obras públicas, com o fim de dar uma força na geração de empregos. Como bem sabemos, a receita não é nova, antes encontra inspiração histórica em Roosevelt e teórica em Keynes. Obama foi além, dizendo que não é hora de se preocupar com a camisa-de-força representada pelo orçamento.

Atenção, você que acaba de sair do coma nos últimos dias, este blogueiro não está enganado: as principais bolsas de todo o mundo dispararam (e não despencaram) após esse anúncio do democrata eleito, mesmo tendo ele falado, em outras palavras, que não está esquentando muito a cabeça com déficits públicos.

Assistir aos movimentos nos tempos de crise tem, com efeito, dado nós em cabeças que se acostumaram a acompanhar noticiários e a ler ensaios tanto no campo da política quanto da economia. Aqueles que até alguns dias atrás se ajoelhavam diante do “deus-mercado”, agora falam de necessidade de regulamentação; os arautos da livre iniciativa, da concorrência e do risco, repentinamente saem em defesa de ajudas bilionárias a indústrias que foram a própria imagem do desenvolvimento capitalista; e finalmente, e em resumo, o velho Estado passa a ser um ente simpático, em vez de um estorvo para os empreendedores e cidadãos de uma sociedade livre.

Ok, amigos! Bem sei que já está virando clichê e soando enfadonho o apontamento dessas incongruências observadas não somente nos analistas econômicos e operadores do mercado financeiro, mas também na mídia e na boca da gente comum (o que é praticamente a mesma coisa, pois não raro as pessoas apenas repetem as besteiras que ouvem de nomes como Miriam Leitão, por exemplo). Mas, a despeito do abuso da paciência do leitor, vale a pena citar um exemplo doméstico e falar da estranheza que provoca ver algumas pessoas defendendo alguma rédea ao Banco Central do Brasil. Ora bolas, irritam-se eles, enquanto o mundo inteiro baixa os juros, o COPOM, na última reunião do ano, mantém inalterada a altíssima taxa brasileira. Isto, amigos, goste-se ou não, chama-se independência. A mesma independência que diziam que Lula iria tirar se fosse presidente. Tal afirmação, aliás, era uma das determinantes do chamado “risco Lula”, que tanto assustavam o mercado antes de o ex-metalúrgico sagrar-se presidente pela primeira vez. Assim não dá para entender! Então quer dizer que algo que deixava as "reginas duartes" da vida com medo de Lula agora é apresentado como uma necessidade por seus mais cruéis opositores?

Acompanhando tal série de desdobramentos, chega-se à conclusão que ramos como a economia, a política e a sociologia são objetos que tendem a sobreviver mais como ideologia do que como ciência. De científico mesmo, sob a ótica positivista, talvez somente a hipocrisia dos discursos – ela, sim, é a constante das análises. Mas, no varejo, como levar a sério uma “ciência” que hoje diz uma coisa que será negada amanhã. E pior que não dá nem para apelar para o falsificacionismo ou para as mudanças de paradigmas, pois não há avanço nas metamorfoses de visão, mas antes se volta a idéias que, no verão anterior, eram classificadas de retrógradas. Os mais simpáticos e menos desbocados podem dizer, no entanto, que em vez de hipocrisia dever-se-ia falar que análises do tipo dependem das condições reais, concretas de cada momento histórico. Pode ser. Mas vejo aí o espectro de Marx. O barbudo alemão e seus seguidores sempre disseram algo meio nessa linha. Mas o diabo é que pensadores como Popper viam nisso um fator que justamente dificultaria a concessão do status de ciência ao marxismo, pois baseado em algo tão pouco objetivo, como as assim chamadas condições concretas, encontrar-se-ia desculpa (palavra melhor do que justificativa) para tudo que se quisesse demonstrar: se as coisas ocorrem conforme um dado prognóstico, houve acerto; se fracassam, é que certas condições concretas não permitiram o resultado!

É um tanto confuso, bem sei. Mas neste mundo maluco, alguém me culparia por isso?!

domingo, 7 de dezembro de 2008

A impopularidade dos jornais

A edição da Folha de 6 de dezembro está por demais risível. O jornal faz malabarismos para tentar justificar o recorde de aprovação ao governo Lula: um de seus editoriais, colunistas da página dois e intelectuais ouvidos pelo diário foram unânimes em dizer que o excelente resultado do presidente se deve ao fato de a crise econômica internacional ainda não ter batido com toda a sua força aqui no Brasil. De algum modo, acrescentaram eles, Lula também está sendo hábil em “vender” a idéia de que a crise não terá maiores efeitos por aqui e que o país está pronto para enfrentá-la na dimensão que ela se apresentar.

Se os editorialistas, colunistas e intelectuais estão certos nas suas assertivas, forçoso é concluir que a Folha – e de resto toda a imprensa – está perdendo a guerra de comunicação para o presidente. Os que lêem os jornais certamente que teriam todos os motivos do mundo para estar em pânico com a crise, haja vista o reiterado terrorismo praticado todo santo dia acerca dela. No entanto, as pessoas parecem não estar tão aterrorizadas assim, ou, se estão, não devem estar responsabilizando o presidente pelos maus bocados que talvez se avizinhem.

Aliás, é interessante a leitura que todos parecem fazer da popularidade de Lula. É como se ela estivesse fora dele. Hoje a popularidade está em alta porque a economia ainda vai relativamente bem. Amanhã, prognosticam eles, ela deve despencar porque alguns dados tendem a se deteriorar. Mas, de acordo com todas as análises, a culpa não será de Lula e de seu governo, e sim da crise que teve seu início lá fora, especialmente nos países centrais. Tudo isso bem explicado, mesmo aquele que sofrer com os desdobramentos do “tsunami” – ou da “marolinha” – poderá ainda ficar na “lua-de-mel” com o presidente, pois não será dele a responsabilidade pela “dor de barriga” que tendemos a sofrer em 2009.

E o pior de tudo - para a imprensa - é que desta vez eles não podem dizer, ou estimular outros a dizerem, que a popularidade do presidente se segura nos pobres beneficiários de programas sociais ou nos pouco escolarizados desinformados. Nesta oportunidade, Lula é considerado ótimo e bom também pela maioria dos mais ricos e com maior nível de instrução, inclusive do Sul e Sudeste.

A situação é complicada: nem a classe média alta nem a famosa "zelite" parecem levar a imprensa a sério! Daí talvez a quase indisfarçável torcida para que a marolinha seja mesmo um tsunami daqueles. Quem sabe depois de milhões desempregados, com deterioração dos salários, crise social e tudo mais, esse povinho passa a acreditar mais nos nossos bem-intencionados donos de jornais e nos seus colunistas casados com gente ligada ao PSDB?!

Sinceramente, amigos, estou pouco ligando para a popularidade de Lula. Ela estando nas alturas ou caindo abaixo do chão, o que eu realmente gostaria é que a crise realmente não abatesse muito o Brasil e que o país de fato conseguisse, como vem dizendo não o presidente Lula mas organismos como a OCDE, passar por ela de forma muito mais tranqüila do que certamente ocorrerá - e em alguns casos já vem ocorrendo - com outras nações.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Deixa o homem voar!

Causou um pouco de mal-estar o uso de jatinhos particulares por parte de executivos de montadoras que se dirigiam ao Congresso americano em busca de ajuda para as grandes corporações do setor. A utilização de tão refinado meio de transporte, exatamente para pedir auxílio num momento de crise, causou indignação por parte dos congressistas e de nomes da imprensa do país.

Pura hipocrisia.

Há pouco tempo atrás, o modus vivendi dos mesmos executivos era motivo de bajulação e era tido como exemplo a ser seguido ou, melhor dizendo, como uma espécie de conquista a ser por todos almejada. Só para registrar, a rede CNN, de onde obtive a notícia, conta na sua grade com programas especializados em exaltar o opulento e exibicionista modo de vida de altos funcionários de megacorporações, tais quais o Agenda Ejecutiva (na CNN en Español) e os apresentados por Richard Quest, na International. E o Congresso dos Estados Unidos, por sua vez, nunca se importou em ser um antro de lobistas dos mais diversos interesses corporativos do país: como será que eles acham que aqueles distintos senhores sempre chegaram lá?

Mas os tempos são outros, podem alegar os congressistas e jornalistas, novos críticos do comportamento dos representantes das montadoras. Tudo bem, mas ninguém nega que, mesmo quando a bolha não dava sinais de que iria estourar e a onda de crescimento generalizado parecia não ter fim, a farra de executivos era desproporcional ao modo de vida mais, digamos, frugal da maioria dos trabalhadores de suas indústrias. Mas antes da tal crise, seria difícil imaginar um congressista ou um jornalista de qualquer lugar do mundo chocando-se com o grande empresário ou com o alto funcionário que chegasse de helicóptero à planta que administra enquanto o funcionário da linha de montagem tivesse que pegar dois ônibus, enfrentar o estresse do trânsito e ter algo do salário descontado por atrasos pelos quais não teve culpa.

Mas o clima do momento, talvez, seja o de salvar o próprio capitalismo. Se se resgatam as idéias de Keynes e de Marx, é porque se está realmente acreditando que o sistema permitiu abusos que lhe tiram a credibilidade. Daí a necessidade do apelo à simbologia que poderia vir contida numa forma mais humilde, mais franciscana de se pedir ajuda, o que não teria sido observado pelos altos executivos das montadoras em crise.

Jornalistas e congressistas americanos talvez queiram resgatar a essência que muitos acreditam estar na origem do sistema, tais como a industriosidade e poupança de que falava Max Weber, ou no bem comum a que se pode chegar na busca honesta pelo próprio interesse, como diria Adam Smith. Mas a grande verdade é que o capitalismo chegou a um ponto em que, para sua sobrevivência, ele precisa também do exagero, da opulência, das aparências, do desperdício. Os jatinhos particulares, os helicópteros, as limusines etc. são partes da engrenagem. A roda tem que girar.

Capitalismo de sandálias nesta altura do campeonato, senhores? Agora não!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Boa notícia ruim

Há notícias que de tão boas chegam a ser ruins (!). A informação divulgada pelo IBGE na semana anterior, a de que o índice de desemprego registrado no mês de outubro foi o segundo menor da história, é motivo de preocupação se cruzada com os informes de setembro que afirmavam estar o comércio diminuindo o ritmo de encomendas e estar a indústria, por conseqüência, pisando no freio da produção, tudo por conta da famigerada crise internacional.

É muito simples. Como o leitor sabe, ao chegar dezembro, as pessoas empregadas gostam de consumir um pouquinho mais do que nos outros meses do ano. Por seu turno, o comércio, que se deixou ressabiar pelo discurso da crise, tenderá a estar com menos estoque para atender aos consumidores. O resultado lógico, se é que a lei da oferta e da procura ainda tem alguma credibilidade, será um repique inflacionário: muita gente querendo comprar poucos produtos resulta em preços mais altos.

O blogueiro Eduardo Guimarães, no seu imperdível cidadania.com, já havia chamado a atenção para o terrorismo que vinha sendo feito acerca da crise, não obstante não se devesse negligenciar - reconhecia ele - os seus riscos e a sua importância. Mas, já com o assunto crise em pauta, o que se ouvia, no entanto, era a divulgação de dados sobre a economia brasileira que apontavam para uma situação muito diferente da que se tem verificado na maioria dos países centrais: inflação controlada, consumo em alta, alguma geração de empregos. Eduardo, então, advertiu para os efeitos da profecia auto-realizável, ou seja, começa-se a falar de uma crise chegando, todos se apavoram, passam a investir menos, as pessoas consomem menos e, aí sim, a reboque vem a diminuição do consumo, o que leva à supressão de investimentos, o que traz desemprego, e o círculo vicioso se instala naturalmente, provocando, sim, uma avassaladora crise de fato.

Em se tendo pressão inflacionária no final do ano – o que poderá ocorrer por causa do aquecimento da economia no período associado à oferta reprimida graças ao terrorismo da crise -, 2009 entrará com tendência de mais juros, o que levará a uma situação de retração nos níveis profetizados (desejados) pela imprensa e pela oposição, os arautos do quanto-pior-melhor. A profecia terá se auto-realizado, e como “é a economia, estúpido” que segura os índices de aprovação do presidente Lula, ficará aberto o caminho para algum nome forte da oposição.
Trocando em miúdos, há lógica econômica no discurso da crise e é recomendável ter preocupação e cautela. Porém, o que se viu – e se tem visto – são gestos quase indisfarçáveis de desejo pela ocorrência do pior. Dados concretos apontam que o terror era exagerado, mas, ao mesmo tempo, eles ajudam a confirmar que o risco de haver desequilíbrios futuros é bastante iminente, justamente porque se acreditou no discurso da crise! Tomara que haja alguma forma de se reverter isso.

sábado, 25 de outubro de 2008

O neoliberalismo parece ter morrido. Já os neoliberais...

Provavelmente nunca houve na história ideário que tenha sofrido tão forte revés como o que ora se abate sobre o neoliberalismo. Nem mesmo a queda do assim chamado socialismo real teve tanto impacto sobre um conjunto de idéias. Afinal, o simpatizante socialista teve – e tem – a seu favor a defesa de que nunca, de fato, o modelo existiu numa forma pura. Afinal, dir-se-ia - o que existiu no Leste Europeu, por exemplo, foi um forte estatismo, economia centralizada/planificada, ou até mesmo, para nos valermos de expressão empregada por Robert Kurz, um socialismo de estado altamente concentrador, sem verdadeira propriedade social dos meios de produção, sem sombra sequer de ditadura do proletariado, antes havendo a ditadura das burocracias dirigentes dos regimes, com direito até a cultos de personalidade de alguns líderes.

O projeto neoliberal, por sua vez, existiu de verdade, foi levado a cabo em nações capitalistas de diversas tendências e tamanhos, foi-lhe assegurada a maioria de suas características, de forma a merecer poucos reparos, sempre se apostando nos dogmas de estado mínimo e da total liberdade cumulada com absoluta supremacia dos mercados, com direito ao mais completo descaso para com as questões sociais e de interesse do mundo do trabalho.

Mas a supercrise internacional deu um forte golpe na seara neoliberal, com a entrada em cena do “vil e desprezível” Estado, que a custa de todos aparece agora para salvar os empreendedores do admirável mundo novo idealizado pelos "Chicago Boys" e logo de cara abraçado por Thatcher, Reagan e outros.

É estarrecedor ver os circunspetos economistas de plantão e alguns colunistas da grande imprensa apoiando o intervencionismo estatal nos Estados Unidos e na Europa. Mas, como a fábula do sapo e do escorpião, há um sério problema de natureza envolvido na questão. Nesta semana, vi no BandNews TV um rapaz sendo entrevistado pela repórter de economia da emissora, direto da BM&F. O moço, não me lembro se da Academia ou se do mercado, comentando os últimos desdobramentos da crise, falou da importância da intervenção “temporária, transitória” do Estado nos negócios da economia. Isto mesmo: o garoto, talvez num ato falho – ou nem tão falho assim -, deixou claro que a fundamental atuação do Estado, a qual ele aprova, deve ser pontual, temporária, transitória! Quer dizer, o rapaz já está antevendo – ou talvez propondo – que, passado o "tsunami", o Estado e suas regras devam cair fora, deixando o espaço livre novamente para os lucros, que, ao contrário dos socializados prejuízos das quebradeiras, merecem voltar a ser devidamente privatizados.

Viu-se também muita gritaria na imprensa brasileira por conta da MP que abre caminho para a Caixa e o BB arrebanharem bancos menores em dificuldades. A primeira página de O Globo chegou a atribuir os maus resultados do mercado naquele dia ao susto que o governo brasileiro havia pregado com essa conversa (esqueceram-se de que a “volatilidade” da Bolsa e a instabilidade do dólar já estão aí há bem mais de mês, muito antes da tal Medida Provisória amedrontadora). Na Folha, por seu turno, chamada de primeira página trazia trecho de texto de um colunista dizendo que o PROER era melhor e mais transparente. Se eu bem entendi, o rapaz quis dizer que tudo ok quando o Estado entra na jogada, desde que seja para sanear bancos para o capital privado. Será que o leitor ficaria muito chocado se eu classificasse tudo isso de cara-de-pau das mais deslavadas?

Se o neoliberalismo morreu, o discurso neoliberal, como se vê, mantém-se vivo, ao menos no Brasil.

Uma objeção inteligente que o leitor bem pode fazer é a de que, se as idéias ainda encontram defensores, a colocação delas em prática não pode, do ponto de vista lógico, ser a priori descartada. Portanto, o neoliberalismo não pode ter morrido se os seus apologetas estão vivíssimos.

Mas nesse caso talvez teremos o embate, proposto por Weber, entre a “ética de responsabilidades” e a “ética de princípios”. Sem dúvida que aparecerão muitos - inclusive políticos - tentando novamente puxar a brasa para a sardinha do mercado, fazendo discursos liberalizantes, aproveitando-se do “cartaz” que isso dará, encontrando nisso uma forma de ganhar espaço privilegiado na mídia, junto aos empresários etc. Entretanto, em postos decisórios, faltará coragem a essas mesmas pessoas para propor desregulamentações, ausências de controle, o deixa-estar-para-ver-como-fica etc. Noutras palavras, ninguém quererá, a despeito da fé mais cega, apostar as fichas no deus-dará do mercado, pelo menos não enquanto ainda for viva a memória dessa avassaladora crise internacional.