De três temas que mobilizaram a opinião pública nos últimos meses ouvi diálogos que nos permitem ligeiras e superficiais reflexões. Aventureiros - se mais bem preparados -, se quiserem, podem até fazer longas viagens sociológicas e filosóficas com as historinhas. Fica a dica!
Os temas são o "caso goleiro bruno", a violência em São Paulo e a Ação Penal 470 do STF, vulgo mensalão.
Goleiro Bruno
Metrô lotado. Dois sujeitos conversam. Misto de tristeza e indignação com as suspeitas que recaem sobre o ex-goleiro Bruno, as quais não precisamos por ora repisar. Além de erroneamente já falar do caso como se o esportista já estivesse condenado, os dois concordavam noutro ponto:
-Como pode o cara cair numa dessas? Tinha tudo.
-Pois é. Fama, dinheiro. Jogar tudo isso fora...
-Será que na hora não pensa que vai pôr tudo a perder?
-E ele ia ter uma carreira bonita pela frente, hein?
Ouviram-se, aqui e ali, variações desse diálogo. O leitor certamente deparou-se com algum do tipo ou até mesmo repetiu coisa parecida por aí.
O triste da história é que o corolário de tal modo de pensar é que a gravidade do comportamento atribuído ao goleiro Bruno parece se circunscrever ao que ele perdeu.
Aparentemente, tendemos a aceitar que homens exterminem namoradas, mesmo com requintes de crueldade, se ele estiver no rol dos que não têm nada - ou têm muito pouco - a perder, ou seja, fizer parte da maioria esmagadora da população, infelizmente.
Bruno tinha aquelas coisas com que as pessoas em geral sonham de olhos abertos: sucesso, dinheiro, reconhecimento. E mandar tudo pelos ares por "umazinha qualquer"? No fundo é só o que leva a nossa sociedade desalmada a repudiar o suposto crime do ex-arqueiro do Flamengo.
Violência em São Paulo
A Record News apresenta uma reportagem sobre a onda de violência em São Paulo, destacando mais um caso de chacina ocorrido em cidade do entorno da Capital. Dentre os atingidos, um cidadão consegue safar-se com vida, apesar de ferimentos graves. Entrevistado, com a identidade evidentemente preservada, o jovem alvejado no ataque faz comentários surpreendentes:
-Não sei por que isso aconteceu. A moçada tava só conversando na rua. Ninguém tinha passagem...
-Ninguém tinha passagem pela polícia? - pede confirmação a incrédula repórter.
-Ninguém. Pode checar.
Não é difícil chegar à conclusão de que, ao que tudo indica, é perfeitamente compreensível que justiceiros exterminem, com a maior tranquilidade, jovens que já tenham frequentado o sistema prisional ou, para usar o jargão, carreguem alguma "bronca".
Se tal ponto de vista é expressado pelas próprias vítimas - de fato ou em potencial -, o que esperar daqueles que se sentem imunes ao risco de cair na mão - ou de ficar no caminho - de grupos de extermínio, sejam de que origem for?
Ação penal 470
Foi no local de trabalho. Duas amigas, juristas das boas, falavam acerca do mensalão. A mais empolgada delas não perdia as transmissões da TV Justiça e recomendava efusivamente que a outra colega as acompanhasse também, para usufruir da excelente qualidade do voto dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
-Você precisa ver a argumentação dos caras. O caso, você sabe, é complexo. Os caras fazem uma ginástica intelectual de tirar o fôlego - disse ela, com ênfase na expressão "ginástica intelectual".
Só esclarecendo, tratava-se claramente de um elogio.
Não tenho o conhecimento jurídico de minha amiga. Por isso, fico dependente da análise dos bons especialistas da matéria. Uma das melhores sobre o caso pertence ao professor da PUC-SP Pedro Estevam Serrano, também colunista da revista Carta Capital. Em texto naquele hebdomadário (vale pesquisar no site da publicação), o jurista chamava a atenção para o fato de que no caso mensalão o STF estaria julgando uma ação penal originária do Tribunal, tendo que se portar, neste particular, como corte criminal e não política.
Sob tal leitura, é especialmente preocupante que os integrantes da Corte tenham tido que caprichar tanto na argumentação, que tenham tido de fazer tanta "ginástica intelectual". Melhor seria terem se baseado em provas irrefutáveis. Na falta delas, tiveram mesmo que usar de muita "ginástica intelectual", é o que se supõe.
Em casos em que age como corte constitucional, essencialmente política, não raro seus ministros precisam mesmo de muita ginástica intelectual, pois estão em jogo interpretações dependentes de leituras várias, de entendimentos interdisciplinares, de busca de informações históricas etc.
Agindo como corte criminal, diferentemente, é de se preocupar que precisem tanto de "ginásticas intelectuais", sobretudo quando é para condenar pessoas, inclusive com penas de restrição de liberdade. Em suma, as tais "ginásticas intelectuais" em julgamentos criminais deveriam ser antes motivo de lamento, de indignação, em vez de ocasião para elogios aos espalhafatosos ministros do Supremo.
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sábado, 22 de dezembro de 2012
domingo, 18 de novembro de 2012
Decisão judicial cumpre-se (mas se discute)
É famosa a frase: "decisão judicial não se discute; cumpre-se". Como o título da presente explicita, pretendemos aqui inverter a máxima: "decisão judicial cumpre-se; mas se discute, sim".
Em uma postagem anterior (link abaixo), demonstrávamos nossa crença de que, na ação penal 470 do STF, vulgo "mensalão", a acusação era fraca e as defesas, ao contrário, bem articuladas. Acrescentávamos a suspeita de que, se houvesse provas robustas das acusações lá contidas, a nossa diligente imprensa já as teria exposto, de forma caudalosa, em suas páginas e programas.
Acreditávamos que, sob um julgamento técnico, não se iria muito longe no caso, mas, prudentemente, deixamos uma porta aberta para o risco do julgamento político, de olho nos anseios da "opinião pública". Aconteceu este último.
O resultado do julgamento tem feito maior parte da imprensa vibrar e deixado seus colunistas permitirem-se dar como certas as acusações da Procuradoria-Geral da República, afinal houve condenações dos principais acusados e, neste caso, a última palavra é do Supremo.
Decisões judiciais, como já dito, não devem ser tomadas por inexpugnáveis. Ninguém, em sã consciência, afasta a hipótese do erro judiciário. Não raro descobre-se, após muitos anos, que pessoas condenadas à morte eram inocentes da autoria dos crimes que lhe foram atribuídos. O terem ido ao corredor da morte não transformou em verdadeira a acusação que era falsa, evidentemente - a menos, talvez, para os que acreditam que a verdade é só uma "quimera"!
Apesar do clima festivo, ouvem-se no entanto, mesmo na imprensa conservadora, vozes dissonantes, preocupadas principalmente com condenações baseadas em indícios e suposições, amarradas pela polêmica teoria do "domínio do fato". Com supedâneo na tal tese, pegou-se principalmente o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu. Como o leitor deve ter acompanhado, o jurista Claus Roxin, um dos desenvolvedores da ideia, andou desautorizando a interpretação que a Corte brasileira fez da teoria.
De todo modo, na nossa humílima opinião, o problema não está no mau uso da teoria do domínio do fato. Convenhamos que todo intrincado esquema criminoso, complexo e cheio de gente envolvida, deva sempre ter alguma figura importante e influente por trás. De se supor também que essa figura, dado seu grau de poder ainda que transitório, consiga circular sem deixar provas robustas de suas ações - afinal, testas-de-ferro estão aí para isso!
O grande problema da ação penal 470, porém, é a de que, em nossa opinião, não há provas de que existiu esse troço chamado mensalão, entendido como uma paga a parlamentares para votar projetos de interesse do governo Lula. Não havendo ação criminosa, logo não há chefe de tal prática, nem diretamente nem por domínio do fato.
Como reconhecido até pelo procurador-geral da República, e demonstrado por estudos, o governo federal perdeu votações na Câmara, durante o período em que teria vigorado o mensalão, mesmo em épocas em que ocorreram repasses (leia aqui o estudo do Movimento Universitário em Defesa do Estado de Direito).
Grana rolando solta com certeza houve e isso está demonstrado nos autos. Ao que tudo indica, resultado dos acordos financeiros feitos por partidos aliados, prática comum nas negociações políticas, representando o famigerado - e abominável - caixa 2 de campanha. Como já sabido, ironicamente o PT valeu-se de Marcos Valério e sua expertise conquistada no trabalho realizado anteriormente para o PSDB.
Já a corrupção pura e simples, de dinheiro sendo dado em troca de votos no Congresso, não somente não foi comprovada como ainda há, conforme o estudo citado, prova em contrário.
As coalizões políticas permitem a governabilidade. E os acordos, já de longa data, têm sido feitos de forma desavergonhada por partidos tidos como representantes de setores mais modernos da sociedade brasileira com grupos tidos como representantes do atraso, das velhas oligarquias e tudo mais. Foi assim com Fernando Henrique Cardoso e o então PFL, de gente como Antônio Carlos Magalhães; o mesmo ocorreu com Lula e o PL e mais grande guarda-chuva que aceitava a trupe de Sarney, Renan e outros.
O que se chama de mensalão nada mais é que o resultado das costuras políticas vistas como normais no cenário brasileiro. O amplo e variado leque que elas representam todavia permite a gente como Joaquim Barbosa tomar como prova da existência do mensalão - no sentido de compra efetiva de consciências - o fato de o PT coligar-se com o PP. Ora, pergunta-se ele, por que partidos tão díspares do ponto de vista ideológico se uniriam não fosse meramente por dinheiro?
Junta-se a tudo isso a cultura antipolítica, a visão de que a política é uma grande bandalheira e os políticos, figuras prontas a se vender na primeira esquina. A grita do mensalão, além de perseguição ao PT e o que representa, é, em última análise, manifestação típica das posições neoudenistas, fortes sobretudo nos estratos médios dos grandes centros urbanos. E seu grau de hipocrisia vai ser posto à prova no dia em que chegar - se chegar - o julgamento do chamado mensalão mineiro, o mensalão do PSDB de Minas Gerais. Quem sabe durante a corrida eleitoral de 2014!
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Em uma postagem anterior (link abaixo), demonstrávamos nossa crença de que, na ação penal 470 do STF, vulgo "mensalão", a acusação era fraca e as defesas, ao contrário, bem articuladas. Acrescentávamos a suspeita de que, se houvesse provas robustas das acusações lá contidas, a nossa diligente imprensa já as teria exposto, de forma caudalosa, em suas páginas e programas.
Acreditávamos que, sob um julgamento técnico, não se iria muito longe no caso, mas, prudentemente, deixamos uma porta aberta para o risco do julgamento político, de olho nos anseios da "opinião pública". Aconteceu este último.
O resultado do julgamento tem feito maior parte da imprensa vibrar e deixado seus colunistas permitirem-se dar como certas as acusações da Procuradoria-Geral da República, afinal houve condenações dos principais acusados e, neste caso, a última palavra é do Supremo.
Decisões judiciais, como já dito, não devem ser tomadas por inexpugnáveis. Ninguém, em sã consciência, afasta a hipótese do erro judiciário. Não raro descobre-se, após muitos anos, que pessoas condenadas à morte eram inocentes da autoria dos crimes que lhe foram atribuídos. O terem ido ao corredor da morte não transformou em verdadeira a acusação que era falsa, evidentemente - a menos, talvez, para os que acreditam que a verdade é só uma "quimera"!
Apesar do clima festivo, ouvem-se no entanto, mesmo na imprensa conservadora, vozes dissonantes, preocupadas principalmente com condenações baseadas em indícios e suposições, amarradas pela polêmica teoria do "domínio do fato". Com supedâneo na tal tese, pegou-se principalmente o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu. Como o leitor deve ter acompanhado, o jurista Claus Roxin, um dos desenvolvedores da ideia, andou desautorizando a interpretação que a Corte brasileira fez da teoria.
De todo modo, na nossa humílima opinião, o problema não está no mau uso da teoria do domínio do fato. Convenhamos que todo intrincado esquema criminoso, complexo e cheio de gente envolvida, deva sempre ter alguma figura importante e influente por trás. De se supor também que essa figura, dado seu grau de poder ainda que transitório, consiga circular sem deixar provas robustas de suas ações - afinal, testas-de-ferro estão aí para isso!
O grande problema da ação penal 470, porém, é a de que, em nossa opinião, não há provas de que existiu esse troço chamado mensalão, entendido como uma paga a parlamentares para votar projetos de interesse do governo Lula. Não havendo ação criminosa, logo não há chefe de tal prática, nem diretamente nem por domínio do fato.
Como reconhecido até pelo procurador-geral da República, e demonstrado por estudos, o governo federal perdeu votações na Câmara, durante o período em que teria vigorado o mensalão, mesmo em épocas em que ocorreram repasses (leia aqui o estudo do Movimento Universitário em Defesa do Estado de Direito).
Grana rolando solta com certeza houve e isso está demonstrado nos autos. Ao que tudo indica, resultado dos acordos financeiros feitos por partidos aliados, prática comum nas negociações políticas, representando o famigerado - e abominável - caixa 2 de campanha. Como já sabido, ironicamente o PT valeu-se de Marcos Valério e sua expertise conquistada no trabalho realizado anteriormente para o PSDB.
Já a corrupção pura e simples, de dinheiro sendo dado em troca de votos no Congresso, não somente não foi comprovada como ainda há, conforme o estudo citado, prova em contrário.
As coalizões políticas permitem a governabilidade. E os acordos, já de longa data, têm sido feitos de forma desavergonhada por partidos tidos como representantes de setores mais modernos da sociedade brasileira com grupos tidos como representantes do atraso, das velhas oligarquias e tudo mais. Foi assim com Fernando Henrique Cardoso e o então PFL, de gente como Antônio Carlos Magalhães; o mesmo ocorreu com Lula e o PL e mais grande guarda-chuva que aceitava a trupe de Sarney, Renan e outros.
O que se chama de mensalão nada mais é que o resultado das costuras políticas vistas como normais no cenário brasileiro. O amplo e variado leque que elas representam todavia permite a gente como Joaquim Barbosa tomar como prova da existência do mensalão - no sentido de compra efetiva de consciências - o fato de o PT coligar-se com o PP. Ora, pergunta-se ele, por que partidos tão díspares do ponto de vista ideológico se uniriam não fosse meramente por dinheiro?
Junta-se a tudo isso a cultura antipolítica, a visão de que a política é uma grande bandalheira e os políticos, figuras prontas a se vender na primeira esquina. A grita do mensalão, além de perseguição ao PT e o que representa, é, em última análise, manifestação típica das posições neoudenistas, fortes sobretudo nos estratos médios dos grandes centros urbanos. E seu grau de hipocrisia vai ser posto à prova no dia em que chegar - se chegar - o julgamento do chamado mensalão mineiro, o mensalão do PSDB de Minas Gerais. Quem sabe durante a corrida eleitoral de 2014!
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O imprensalão
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sábado, 11 de agosto de 2012
O imprensalão
Que papelão da imprensa, hein?
Nos últimos meses, matérias enviesadas e colunistas e âncoras raivosos estavam conseguindo me convencer de que havia, de fato, um clamor pelo julgamento do chamado mensalão. Um clamor decerto subterrâneo e silencioso, já que eu não ouvia muita gente dando bola para o assunto. De todo modo, muitas das ondas e movimentações sociais ocorrem na surdina, na moita, o que dava verossimilhança à gritaria acerca do irrefreável desejo da opinião pública em assistir ao "julgamento do século".
Pois bem. Iniciado o julgamento, com barulheira, matérias especiais, cadernos especiais, discussões com especialistas etc., e o que se vê? Tirando os muito politizados e os interessados de sempre, ninguém está dando a menor bola. A bem da verdade, nem mesmo os mais politizados parecem estar muito entusiasmados com o assunto.
Conclui-se disso que colunistas, diretores de jornalismo, âncoras, redatores, editorialistas mentiam e manipulavam, com a clara intenção de "meter a faca no pescoço" do STF, ou seja, pressionar a instância máxima do Judiciário brasileiro. Tudo bem pensando com o fito de contaminar o processo eleitoral deste 2012.
Agora o pior.
Iniciado o julgamento, com pompa e circunstância, depois de todo o bombardeio midiático e o inegável prejulgamento dos "mensaleiros" e da "quadrilha" denunciada pela Procuradoria-Geral da República, a impressão que dá é a de que, dada a voz ao contraditório, o jogo começa a virar de forma até um tanto humilhante para os algozes.
Posso estar enganado, mas a sensação é a de que as defesas estão, de modo geral, dando um show, desbancando com folga a acusação, e principalmente estão contando um lado da história que a imprensa sonegou ao público durante esses anos todos, o que neste particular é um belo tapa na cara dos meios de comunicação, sempre muito preparados a encher a boca para falar de democracia.
Mas o que mais me intriga é que, enfraquecidas as teses da acusação como parecem estar, não se vê a outrora dedicada imprensa, com seu jornalismo investigativo e blá blá blá, vir a campo para contra-atacar, mostrando que o tal mensalão realmente existiu, que foram compradas, sim,consciências de congressistas, que aquele foi, realmente, o "maior escândalo de corrupção da história do Brasil".
É claro que, como todos sabemos, o que realmente vale, para a Justiça, é o que está nos autos. Mas não é possível que a imprensa que falava do tal mensalão com tanta carga emotiva, com termos tão grandiloquentes, simplesmente não tenha, agora, nada para mostrar.
De qualquer forma, como bem disse um advogado famoso anos atrás, "de bumbum de neném e de cabeça de juiz não se sabe o que pode vir". Portanto alguns dos dorminhocos ministros do STF podem até achar que houve mensalão mesmo, que é todo mundo tão ou mais criminoso do que a mídia havia assegurado, que a "opinião pública" quer resposta exemplar etc etc etc. De todo modo, é difícil apagar a impressão de que a imprensa, neste caso, se prestou a um dos papéis mais ridículos de sua história. E olha que não foram poucos, hein?!
Leia também:
"Mensalãodependentes"
sábado, 2 de junho de 2012
Mídia ou... Mídia!
Em abril de 2009, este blog publicou uma postagem acerca de bate-boca no Supremo Tribunal Federal envolvendo os ministros Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes, este então presidente daquela Corte. Para entender a polêmica daquela época, clique aqui.
E em semana que mais uma vez Gilmar Mendes não apenas protagoniza caso que ganha a mídia (entenda um pouco aqui), mas ocupa, ele mesmo, muito espaço nos meios de comunicação, convém reproduzir aquele nosso texto de 2009, até porque ele parece, infelizmente, bastante atual. Confira:
E em semana que mais uma vez Gilmar Mendes não apenas protagoniza caso que ganha a mídia (entenda um pouco aqui), mas ocupa, ele mesmo, muito espaço nos meios de comunicação, convém reproduzir aquele nosso texto de 2009, até porque ele parece, infelizmente, bastante atual. Confira:
DOMINGO, 26 DE ABRIL DE 2009
Mídia ou rua?
Estar nas ruas é uma coisa; estar na mídia é outra. É o que se pode depreender da censura do ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa dirigida ao presidente daquela corte, Gilmar Mendes (o leitor deve ter acompanhado).
Não se tratava de uma mera constatação, mas de uma crítica – por que não dizer um ataque – dirigida ao ministro Gilmar Mendes. Por isso, não nos parece despropositado supor que Joaquim Barbosa quis também dar uma cutucada na mídia. Foi como se ele dissesse que sair às ruas é bom; por outro lado, estar na mídia...
Creio que a assim chamada grande mídia, aquela representada pelas grandes oligarquias do setor, sentiu o golpe, tanto que deixou transparecer alguma simpatia por Gilmar Mendes e não escondeu certa reprovação (quem são eles?) por Joaquim Barbosa.
Não é caso de se entrar no mérito da questão que se discutia naquela sessão – que isso fique para os juristas e para as partes envolvidas na pendenga. Mas é bom ver se realmente a pobre da mídia merecia mesmo ter sido chamada a protagonizar tão áspero diálogo na mais alta instância do Poder Judiciário brasileiro.
Apenas um fato já seria suficiente para dar razão a Barbosa na sua indireta crítica aos meios de comunicação. E ela vem justamente da falta de ressonância de uma ousadia do ministro contra o presidente do Supremo. Ele disse qualquer coisa a respeito de capangas do Mato Grosso. Por que a mídia não foi atrás de saber do que se tratava, perguntou um atônito Luciano Martins Costa noObservatório da Imprensa. Não se trata de prejulgar nem de levar a sério a insinuação de Joaquim Barbosa; mas seria aplicação do bom jornalismo correr atrás de fatos e desnudá-los para que o cidadão que acompanha o caso não ficasse, digamos, “boiando”. Reparemos que, em virtude disso, o sempre sarcástico Mino Carta sugeriu que a revista que edita deve figurar entre as leituras de Barbosa!
E a mídia e as ruas, como ficam? Ora, basta ver os resultados das eleições presidenciais de 2002 e 2006; se não for o bastante é só acompanhar o índice de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: de fato, o descompasso entre mídia e rua é algo colossal, não?
Mas é claro que não se quer que a mídia (os formadores de opinião) tenha sempre posições que sigam as ruas, afinal não nos esqueçamos do maciço apoio popular de que gozava o nazismo na Alemanha, por exemplo, ou, em nível doméstico, lembremo-nos de como tende a se posicionar a população em relação a questões de direitos humanos. A sugestão seria que, para a mídia, estar nas ruas é fazer jornalismo de verdade, relatar fatos, não editorializar matérias, pautar-se pelo máximo equilíbrio possível, tomar partido se for o caso, mas de forma clara e de maneira honesta com o leitor - em suma, é basicamente seguir os manuais de redação da maioria dos órgãos!
Mas, para finalizar, as ruas bem que poderiam fazer uma observação e emendá-la a uma pergunta: não há, em princípio, maiores problemas no fato de o presidente do STF aparecer muito na mídia, afinal ele é pessoa pública e suas opiniões bem podem ser de grande interesse; mas, pergunta-se, por que ele tem tanto espaço na mídia? O que o leva a aparecer mais do que os presidentes anteriores? Deve haver alguma resposta – e pode até não haver nada de mais nela. Mas “as ruas” mereceriam saber...
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sábado, 28 de abril de 2012
Cotas raciais - reprodução de texto de 2008
Em vista da histórica decisão do Supremo Tribunal Federal nesta semana, considerando constitucional a adoção de cotas raciais em exames vestibulares, republicaremos texto acerca do assunto aqui postado em 2008. Naquela época, foram entregues a Gilmar Mendes, então presidente daquela Corte, um manifesto contrário e outro favorável à adoção do sistema de cotas. Pretendíamos ter escrito mais sobre o assunto, tanto que aquela postagem foi classificada como primeira parte da discussão. Lamentavelmente não o fizemos. Agora, felizmente talvez não seja mais necessário.
Reproduzamos aquele texto, então.
DOMINGO, 10 DE AGOSTO DE 2008
O STF estará julgando em breve uma ADIN representada contra a lei de cotas nos concursos vestibulares das universidades estaduais do Rio de Janeiro. Por conta disso, foram apresentados àquela Corte dois manifestos assinados por nomes importantes da sociedade civil brasileira, um contrário ao sistema de cotas e outro favorável. O documento anticotas intitulava-se “113 Cidadãos Anti-Racistas Contra as Leis Raciais” e conta entre os seus signatários com gente como Aguinaldo Silva, autor de telenovelas da Rede Globo, e Reinaldo Azevedo, jornalista da revista Veja. O texto é bem escrito, mas peca pela excessiva auto-indulgência. A todo momento lembrando o leitor de que não são racistas, os manifestantes mais parecem aquela personagem do conto Arranjo em branco e preto, da escritora norte-americana Dorothy Parker!
Do outro lado, o “Manifesto em Defesa da Justiça e Constitucionalidade das Cotas” é assinado por, entre outros, Oscar Niemeyer, pelo jurista Fábio Konder Comparato e pelo teatrólogo Augusto Boal. Apresentado no Supremo após a entrega do manifesto anticotas, o documento, mais do que uma defesa, é um contra-ataque aos argumentos apresentados pelos antagonistas.
Sem dúvida que é inquietante a celeuma provocada pela simples alusão às cotas nos concursos vestibulares. Inquietante e incompreensível. Afinal, o Brasil é, de forma geral, um país altamente tolerante com o sistema de cotas e reservas. Não se ouve falar de oposição organizada à reserva de vagas para portadores de deficiência física em concursos públicos. Tampouco se sabe de ações judiciais contra a obrigatoriedade de se assegurar um mínimo de candidatas mulheres por partido político (embora, nesse caso, o legislador tenha sido inteligente em não assegurar um mínimo de vagas para um dos sexos, mas antes evitar que qualquer um deles obtenha mais do que 70% das candidaturas, mas ninguém é ingênuo o suficiente a ponto de não perceber que, em última análise, a lei protege a mulher na política). Os anticotas tentam desqualificar os argumentos que usam tal analogia, mas não conseguem demonstrar claramente que eles não têm no mínimo a mesma raiz (por isso talvez a quase paranóica necessidade de ter de demonstrar que sua posição contrária às cotas para negros nos vestibulares não tem nada a ver com racismo).
O portador de deficiência por óbvio que depara com grandes dificuldades de entrar no mercado de trabalho, daí a “discriminação inversa” da reserva de vagas nos concursos para ingresso no setor público. E historicamente a mulher ficou relegada a um segundo plano no quadro político do país, sendo necessária alguma compensação que tente minimizar tal desequilíbrio. Mas tanto os portadores de deficiência quanto as mulheres precisam efetivamente participar dos respectivos processos seletivos ou de escolha a que se submetem, e independentemente de qualquer reserva de vagas, são obrigados a obter resultados mínimos ou apresentar características que estão enquadradas no já consagrado - ainda que discutível - princípio do mérito.
O mesmo se dá com a questão do negro na sociedade em geral e no campo escolar em particular. Os dados estatísticos comprovam - mas mesmo sem eles qualquer observação empírica denuncia - que a participação do negro na riqueza do Brasil e no universo escolar é desproporcional ao seu contingente geral no país. O sistema de cotas é apenas um pequeno passo na tentativa de se alterar tal realidade, a qual tem origem não somente nos árduos anos de escravidão, mas talvez principalmente na não-inserção do negro na sociedade brasileira pós-abolição. E a exemplo dos deficientes nos concursos públicos, e das mulheres nos partidos políticos, os negros beneficiários dos sistemas de cotas são obrigados a também ter desempenhos mínimos para ingressar nos cursos no número de vagas que lhes couber.
E por falar em mérito, vale recorrer a Peter Singer (ele de novo!), que no seu indispensável Ética prática questiona por que apenas a inteligência é usada nos concursos de ingresso nas universidades. O filósofo sustenta que outras qualidades ou características são também fundamentais para as mais diversas atividades e, portanto, poderiam ser usadas como critério de admissão de estudantes. Indo além, Singer alega que a seleção pelos testes de inteligência pode ser enquadrada no mesmo nível de qualquer outra utilizada pelos programas de “discriminação inversa”. Noutras palavras, se as universidades passassem a usar outro critério para fomentar seus programas de ação afirmativa em vez dos tradicionais testes que supostamente medem a inteligência, estariam apenas mudando sua política, e se isso trouxesse descontentamento, seria apenas a choradeira típica dos beneficiários do modelo anterior. Ainda sobre isso, o texto em defesa das cotas marca um de seus melhores tentos ao asseverar que “uma sociedade democrática sabe que o mérito deve ser um ponto de chegada e não um ponto de partida”. (grifo nosso)
(...).
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domingo, 26 de abril de 2009
Mídia ou rua?
Estar nas ruas é uma coisa; estar na mídia é outra. É o que se pode depreender da censura do ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa dirigida ao presidente daquela corte, Gilmar Mendes (o leitor deve ter acompanhado).
Não se tratava de uma mera constatação, mas de uma crítica – por que não dizer um ataque – dirigida ao ministro Gilmar Mendes. Por isso, não nos parece despropositado supor que Joaquim Barbosa quis também dar uma cutucada na mídia. Foi como se ele dissesse que sair às ruas é bom; por outro lado, estar na mídia...
Creio que a assim chamada grande mídia, aquela representada pelas grandes oligarquias do setor, sentiu o golpe, tanto que deixou transparecer alguma simpatia por Gilmar Mendes e não escondeu certa reprovação (quem são eles?) por Joaquim Barbosa.
Não é caso de se entrar no mérito da questão que se discutia naquela sessão – que isso fique para os juristas e para as partes envolvidas na pendenga. Mas é bom ver se realmente a pobre da mídia merecia mesmo ter sido chamada a protagonizar tão áspero diálogo na mais alta instância do Poder Judiciário brasileiro.
Apenas um fato já seria suficiente para dar razão a Barbosa na sua indireta crítica aos meios de comunicação. E ela vem justamente da falta de ressonância de uma ousadia do ministro contra o presidente do Supremo. Ele disse qualquer coisa a respeito de capangas do Mato Grosso. Por que a mídia não foi atrás de saber do que se tratava, perguntou um atônito Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa. Não se trata de prejulgar nem de levar a sério a insinuação de Joaquim Barbosa; mas seria aplicação do bom jornalismo correr atrás de fatos e desnudá-los para que o cidadão que acompanha o caso não ficasse, digamos, “boiando”. Reparemos que, em virtude disso, o sempre sarcástico Mino Carta sugeriu que a revista que edita deve figurar entre as leituras de Barbosa!
E a mídia e as ruas, como ficam? Ora, basta ver os resultados das eleições presidenciais de 2002 e 2006; se não for o bastante é só acompanhar o índice de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: de fato, o descompasso entre mídia e rua é algo colossal, não?
Mas é claro que não se quer que a mídia (os formadores de opinião) tenha sempre posições que sigam as ruas, afinal não nos esqueçamos do maciço apoio popular de que gozava o nazismo na Alemanha, por exemplo, ou, em nível doméstico, lembremo-nos de como tende a se posicionar a população em relação a questões de direitos humanos. A sugestão seria que, para a mídia, estar nas ruas é fazer jornalismo de verdade, relatar fatos, não editorializar matérias, pautar-se pelo máximo equilíbrio possível, tomar partido se for o caso, mas de forma clara e de maneira honesta com o leitor: em suma, é basicamente seguir os manuais de redação da maioria dos órgãos!
Mas, para finalizar, as ruas bem que poderiam fazer uma observação e emendá-la a uma pergunta: não há, em princípio, maiores problemas no fato de o presidente do STF aparecer muito na mídia, afinal ele é pessoa pública e suas opiniões bem podem ser de grande interesse; mas, pergunta-se, por que ele tem tanto espaço na mídia? O que o leva a aparecer mais do que os presidentes anteriores? Deve haver alguma resposta – e pode até não haver nada de mais nela. Mas “as ruas” mereceriam saber...
Não se tratava de uma mera constatação, mas de uma crítica – por que não dizer um ataque – dirigida ao ministro Gilmar Mendes. Por isso, não nos parece despropositado supor que Joaquim Barbosa quis também dar uma cutucada na mídia. Foi como se ele dissesse que sair às ruas é bom; por outro lado, estar na mídia...
Creio que a assim chamada grande mídia, aquela representada pelas grandes oligarquias do setor, sentiu o golpe, tanto que deixou transparecer alguma simpatia por Gilmar Mendes e não escondeu certa reprovação (quem são eles?) por Joaquim Barbosa.
Não é caso de se entrar no mérito da questão que se discutia naquela sessão – que isso fique para os juristas e para as partes envolvidas na pendenga. Mas é bom ver se realmente a pobre da mídia merecia mesmo ter sido chamada a protagonizar tão áspero diálogo na mais alta instância do Poder Judiciário brasileiro.
Apenas um fato já seria suficiente para dar razão a Barbosa na sua indireta crítica aos meios de comunicação. E ela vem justamente da falta de ressonância de uma ousadia do ministro contra o presidente do Supremo. Ele disse qualquer coisa a respeito de capangas do Mato Grosso. Por que a mídia não foi atrás de saber do que se tratava, perguntou um atônito Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa. Não se trata de prejulgar nem de levar a sério a insinuação de Joaquim Barbosa; mas seria aplicação do bom jornalismo correr atrás de fatos e desnudá-los para que o cidadão que acompanha o caso não ficasse, digamos, “boiando”. Reparemos que, em virtude disso, o sempre sarcástico Mino Carta sugeriu que a revista que edita deve figurar entre as leituras de Barbosa!
E a mídia e as ruas, como ficam? Ora, basta ver os resultados das eleições presidenciais de 2002 e 2006; se não for o bastante é só acompanhar o índice de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: de fato, o descompasso entre mídia e rua é algo colossal, não?
Mas é claro que não se quer que a mídia (os formadores de opinião) tenha sempre posições que sigam as ruas, afinal não nos esqueçamos do maciço apoio popular de que gozava o nazismo na Alemanha, por exemplo, ou, em nível doméstico, lembremo-nos de como tende a se posicionar a população em relação a questões de direitos humanos. A sugestão seria que, para a mídia, estar nas ruas é fazer jornalismo de verdade, relatar fatos, não editorializar matérias, pautar-se pelo máximo equilíbrio possível, tomar partido se for o caso, mas de forma clara e de maneira honesta com o leitor: em suma, é basicamente seguir os manuais de redação da maioria dos órgãos!
Mas, para finalizar, as ruas bem que poderiam fazer uma observação e emendá-la a uma pergunta: não há, em princípio, maiores problemas no fato de o presidente do STF aparecer muito na mídia, afinal ele é pessoa pública e suas opiniões bem podem ser de grande interesse; mas, pergunta-se, por que ele tem tanto espaço na mídia? O que o leva a aparecer mais do que os presidentes anteriores? Deve haver alguma resposta – e pode até não haver nada de mais nela. Mas “as ruas” mereceriam saber...
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sábado, 6 de setembro de 2008
E agora, como ficam os grampos?
É de nos encher de orgulho o conteúdo do belíssimo diálogo entre o senador Demóstenes Torres e o Presidente do STF, Gilmar Mendes, supostamente captado por escutas telefônicas ilegais. Coisa mais linda! Sem palavrões, nada de informações constrangedoras, nada de confissões perigosas. Os dois apenas falaram de preocupações sobre o andamento de CPIs e da ordem jurídico-institucional do país. Que maravilha!
Onde estão os calorosos elogios a esses dois grandes brasileiros? Puxa vida, pela primeira vez na nossa história o conteúdo de uma escuta telefônica, não importa se legal ou ilegal, vem a público sem constranger pelo menos um dos interlocutores, e mesmo assim não saímos por aí cantando loas e compondo poemas épicos para falar da honradez de ambos! E a indignação tem mesmo que ser muito grande com o expediente do grampo. Afinal, um Senador da República e o Ministro-Presidente do Supremo são ilegalmente grampeados, quando apenas queriam discutir questões nobres, que deveriam ser do interesse de toda a sociedade. Que injustiça.
Depois de uma dessas, fica mesmo difícil haver clima para tal tipo de serviço, ainda que ele seja necessário e feito de forma legal. Por isso, a coisa deve se complicar para quem for realizar certas investigações. O Governo Federal sentiu-se acuado e “mordeu a isca”, e mudanças vêm por aí.
Deve haver gente comemorando...
Onde estão os calorosos elogios a esses dois grandes brasileiros? Puxa vida, pela primeira vez na nossa história o conteúdo de uma escuta telefônica, não importa se legal ou ilegal, vem a público sem constranger pelo menos um dos interlocutores, e mesmo assim não saímos por aí cantando loas e compondo poemas épicos para falar da honradez de ambos! E a indignação tem mesmo que ser muito grande com o expediente do grampo. Afinal, um Senador da República e o Ministro-Presidente do Supremo são ilegalmente grampeados, quando apenas queriam discutir questões nobres, que deveriam ser do interesse de toda a sociedade. Que injustiça.
Depois de uma dessas, fica mesmo difícil haver clima para tal tipo de serviço, ainda que ele seja necessário e feito de forma legal. Por isso, a coisa deve se complicar para quem for realizar certas investigações. O Governo Federal sentiu-se acuado e “mordeu a isca”, e mudanças vêm por aí.
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sábado, 19 de julho de 2008
Espetáculos e espetáculos
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, após reunião com o presidente Lula e o ministro da Justiça, Tarso Genro, buscou esclarecer, em entrevista coletiva, o seu ponto de vista em relação aos supostos abusos de autoridade que ele vem observando nas ações de agentes públicos no Brasil.
O ministro alegou que os abusos não vêm apenas da polícia e do Judiciário, mas também de parte de outras instituições públicas, como a Receita Federal e demais órgãos com atribuições de controle e fiscalização. Gilmar Mendes tentou demonstrar que o combate a supostos exageros é, em larga medida, uma iniciativa em prol da própria coisa pública, pois, segundo ele, os implicados não raro pedem socorro na Justiça e acabam recebendo gordas indenizações do erário. Noutras palavras, o presidente do Supremo quis dar a entender que está, em última instância, preocupado com os cofres públicos. E como republicanismo pouco é bobagem, o ministro esclareceu que os casos de grande repercussão, como os que envolvem a exposição de banqueiros ou políticos poderosos, podem trazer luzes às humilhações rotineiramente praticadas contra os mais pobres.
Muito bem! Este blog mesmo, no post anterior, a propósito da operação Satiagraha, desfraldou humildemente esta bandeira, qual seja, a de que não se deve comemorar atos violentos e degradantes somente porque eles nos saciam e aparecem como uma espécie de vingança contra aqueles que sempre foram protegidos pela Justiça brasileira. Ressalvávamos, porém, que toda a indignação de Gilmar Mendes e de alguns políticos parecia um pouco seletiva demais...
Lembremos que Mendes falara de certa “espetacularização” nas ações da Polícia Federal. Ora, um espetáculo só ganha sentido quando dirigido ao público. E na era das comunicações, sociedade de massas, indústria cultural etc., o espetáculo precisa de um veículo para se propagar e, se for o caso, chegar a um maior número de pessoas. Deste modo, se, nas operações da PF, há de fato a “espetacularização” diagnosticada por Mendes, ela só se consagra com a sua difusão principalmente por meio de vídeos e imagens. Posto isto, é inegável o papel fundamental realizado pela mídia nesse processo, talvez especialmente – não unicamente - pela televisão.
Cada um trata dos problemas que lhe estão mais próximos, e talvez por isso Gilmar Mendes se sinta mais à vontade para falar das ações da PF, cujos efeitos tendem a parar de forma mais imediata na Corte que ele preside. Mas é do STF a guarda da Constituição. Por isso, em última análise, quaisquer abusos e “espetacularizações” da polícia ou nas ações de aplicação das leis por parte de qualquer órgão deveriam incomodar não apenas seu presidente mas todos os seus componentes.
Vejamos a propósito o que vem ocorrendo nas operações da chamada “lei seca”. Algumas reportagens de TV têm mostrado pessoas embriagadas, evidentemente fora de seu juízo normal, “pagando o maior mico” em rede nacional. Alguns dos que são expostos em tais “espetáculos” talvez nem sejam bebedores contumazes, mas por azar foram pegos justamente num dia em que abusaram do álcool, e uma vez mostrados em situações ridículas e humilhantes na tela, ficarão sempre marcados como “bebuns”, sofrerão prejuízos sociais e trarão dissabores para familiares e amigos. E onde estão o presidente do Supremo e os políticos do PSDB e do DEM para maldizer a “espetacularização” das prisões de embriagados? Os motoristas que têm sido pegos no teste do bafômetro sofrem sanções administrativas e podem, dependendo do caso, responder criminalmente pelos seus atos, o que é ótimo para um país campeão de acidentes de trânsito. Mas, pergunta-se, para que a “espetacularização”, sobretudo quando o sujeito está sem condições sequer de procurar evitar, por conta própria, a sua exposição pública e, ao contrário, acaba se entregando docilmente a um ridículo papelão que o deixará marcado pelo resto da vida?
Talvez alguns espetáculos sejam mais espetaculares do que outros...
O ministro alegou que os abusos não vêm apenas da polícia e do Judiciário, mas também de parte de outras instituições públicas, como a Receita Federal e demais órgãos com atribuições de controle e fiscalização. Gilmar Mendes tentou demonstrar que o combate a supostos exageros é, em larga medida, uma iniciativa em prol da própria coisa pública, pois, segundo ele, os implicados não raro pedem socorro na Justiça e acabam recebendo gordas indenizações do erário. Noutras palavras, o presidente do Supremo quis dar a entender que está, em última instância, preocupado com os cofres públicos. E como republicanismo pouco é bobagem, o ministro esclareceu que os casos de grande repercussão, como os que envolvem a exposição de banqueiros ou políticos poderosos, podem trazer luzes às humilhações rotineiramente praticadas contra os mais pobres.
Muito bem! Este blog mesmo, no post anterior, a propósito da operação Satiagraha, desfraldou humildemente esta bandeira, qual seja, a de que não se deve comemorar atos violentos e degradantes somente porque eles nos saciam e aparecem como uma espécie de vingança contra aqueles que sempre foram protegidos pela Justiça brasileira. Ressalvávamos, porém, que toda a indignação de Gilmar Mendes e de alguns políticos parecia um pouco seletiva demais...
Lembremos que Mendes falara de certa “espetacularização” nas ações da Polícia Federal. Ora, um espetáculo só ganha sentido quando dirigido ao público. E na era das comunicações, sociedade de massas, indústria cultural etc., o espetáculo precisa de um veículo para se propagar e, se for o caso, chegar a um maior número de pessoas. Deste modo, se, nas operações da PF, há de fato a “espetacularização” diagnosticada por Mendes, ela só se consagra com a sua difusão principalmente por meio de vídeos e imagens. Posto isto, é inegável o papel fundamental realizado pela mídia nesse processo, talvez especialmente – não unicamente - pela televisão.
Cada um trata dos problemas que lhe estão mais próximos, e talvez por isso Gilmar Mendes se sinta mais à vontade para falar das ações da PF, cujos efeitos tendem a parar de forma mais imediata na Corte que ele preside. Mas é do STF a guarda da Constituição. Por isso, em última análise, quaisquer abusos e “espetacularizações” da polícia ou nas ações de aplicação das leis por parte de qualquer órgão deveriam incomodar não apenas seu presidente mas todos os seus componentes.
Vejamos a propósito o que vem ocorrendo nas operações da chamada “lei seca”. Algumas reportagens de TV têm mostrado pessoas embriagadas, evidentemente fora de seu juízo normal, “pagando o maior mico” em rede nacional. Alguns dos que são expostos em tais “espetáculos” talvez nem sejam bebedores contumazes, mas por azar foram pegos justamente num dia em que abusaram do álcool, e uma vez mostrados em situações ridículas e humilhantes na tela, ficarão sempre marcados como “bebuns”, sofrerão prejuízos sociais e trarão dissabores para familiares e amigos. E onde estão o presidente do Supremo e os políticos do PSDB e do DEM para maldizer a “espetacularização” das prisões de embriagados? Os motoristas que têm sido pegos no teste do bafômetro sofrem sanções administrativas e podem, dependendo do caso, responder criminalmente pelos seus atos, o que é ótimo para um país campeão de acidentes de trânsito. Mas, pergunta-se, para que a “espetacularização”, sobretudo quando o sujeito está sem condições sequer de procurar evitar, por conta própria, a sua exposição pública e, ao contrário, acaba se entregando docilmente a um ridículo papelão que o deixará marcado pelo resto da vida?
Talvez alguns espetáculos sejam mais espetaculares do que outros...
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sábado, 12 de julho de 2008
Nunca na história deste país...
Nunca antes na história deste país se viu gente tão importante passar noites na cadeia. Nunca antes na história deste país a Polícia Federal trabalhou tanto. Nunca antes na história deste país viram-se juízes tão firmes na realização de seu trabalho.
Mas, numa democracia, é natural que nem todos estejam tão contentes com essa situação, “nunca antes vista na história deste país”. O presidente do STF – acompanhado de alguns políticos, sobretudo dos partidos de oposição no Congresso – acha que está havendo exageros por parte da PF: houve reclamações quanto ao uso de algemas e também com a exposição pública dos presos pela operação satiagraha.
De tudo isso se presume que o ministro Gilmar Mendes e alguns de nossos políticos – como aliás seria de se esperar de homens tão refinados como eles – nunca assistiram aos populares programas policiais da TV, e conseqüentemente não tiveram oportunidade anterior para se indignar com a expiação pública de suspeitos, de acusados ou mesmo de condenados. Quanto às algemas, o famoso criminalista Alberto Zacharias Toron, em ocasião semelhante, já indicara sem muita cerimônia para que “tipo de gente” elas foram feitas.
Mas sejamos frios e sensatos, amigos: se realmente ocorrem abusos nas prisões e operações, eles devem ser por todos condenados. Não é porque ficamos de alma lavada com o fato de a polícia e a justiça estarem indo para cima de banqueiros, políticos e megaespeculadores que vamos aceitar um Estado “policialesco”. De todo modo, não se deve concordar com a idéia, mais brasileira do que “orwelliana”, de que “alguns são mais iguais do que os outros”. Noutras palavras, poder-se-ia aproveitar tais episódios para abrir uma discussão acerca das diferenças de tratamento nas questões policiais e jurídicas no Brasil: quem nunca viu pobres suspeitos sendo tranqüilamente chamados de “bandidos” pela imprensa? Já os homens de classe média que espancam empregadas domésticas em pontos de ônibus são simplesmente chamados de “jovens de classe média que espancaram uma empregada doméstica num ponto de ônibus”! A mídia e de resto todos nós entendemos como perfeitamente normal os dois pesos e duas medidas. Quando aceitamos esse tipo de coisa, sem perceber estamos abrindo espaço para que naturalmente se contemple uma seletiva preocupação humanitária com banqueiros acusados de milionárias operações fraudulentas, para dizer o mínimo.
Quando digo banqueiro, o leitor o sabe, estou falando de Daniel Dantas. Tal nome é deveras conhecido dos leitores de Carta Capital e dos freqüentadores do sítio de Paulo Henrique Amorim. Mas é de se suspeitar que muita gente, leitora da maioria dos grandes jornais brasileiros ou telespectadora dos principais telejornais ou, ainda, ouvinte das principais rádios noticiosas, nunca tivesse ouvido falar dele. E do dia para a noite, literalmente, vêem-se os cínicos órgãos da nossa imprensa dando manchetes sobre Dantas, falando dele como se ele fosse um habitué de suas páginas, telas e ondas, como se estivessem se referindo a um Pelé ou a um Roberto Carlos da mídia brasileira! Faz-me lembrar de minha adolescência, quando ouvia muito rádio FM: havia algumas pioneiras “rádios-rock” em São Paulo, a saber, a 97 FM e a 89 FM. Elas eram as únicas que tocavam bandas como The Cure, Echo & the Bunnymen e Siouxsie & the Banshees, por exemplo. Mas quando estes grupos fizeram turnê pelo Brasil, ainda nos anos 1980, rádios que nunca os haviam tocado, como a Jovem Pan II, começaram a fazer especiais, promoções etc. É o que está fazendo a hipócrita mídia brasileira em relação a Daniel Dantas; e o que é pior, esquecendo-se de lembrar de suas estripulias nos tempos da privatização da “iluminada ‘era FHC’”.
Mas, numa democracia, é natural que nem todos estejam tão contentes com essa situação, “nunca antes vista na história deste país”. O presidente do STF – acompanhado de alguns políticos, sobretudo dos partidos de oposição no Congresso – acha que está havendo exageros por parte da PF: houve reclamações quanto ao uso de algemas e também com a exposição pública dos presos pela operação satiagraha.
De tudo isso se presume que o ministro Gilmar Mendes e alguns de nossos políticos – como aliás seria de se esperar de homens tão refinados como eles – nunca assistiram aos populares programas policiais da TV, e conseqüentemente não tiveram oportunidade anterior para se indignar com a expiação pública de suspeitos, de acusados ou mesmo de condenados. Quanto às algemas, o famoso criminalista Alberto Zacharias Toron, em ocasião semelhante, já indicara sem muita cerimônia para que “tipo de gente” elas foram feitas.
Mas sejamos frios e sensatos, amigos: se realmente ocorrem abusos nas prisões e operações, eles devem ser por todos condenados. Não é porque ficamos de alma lavada com o fato de a polícia e a justiça estarem indo para cima de banqueiros, políticos e megaespeculadores que vamos aceitar um Estado “policialesco”. De todo modo, não se deve concordar com a idéia, mais brasileira do que “orwelliana”, de que “alguns são mais iguais do que os outros”. Noutras palavras, poder-se-ia aproveitar tais episódios para abrir uma discussão acerca das diferenças de tratamento nas questões policiais e jurídicas no Brasil: quem nunca viu pobres suspeitos sendo tranqüilamente chamados de “bandidos” pela imprensa? Já os homens de classe média que espancam empregadas domésticas em pontos de ônibus são simplesmente chamados de “jovens de classe média que espancaram uma empregada doméstica num ponto de ônibus”! A mídia e de resto todos nós entendemos como perfeitamente normal os dois pesos e duas medidas. Quando aceitamos esse tipo de coisa, sem perceber estamos abrindo espaço para que naturalmente se contemple uma seletiva preocupação humanitária com banqueiros acusados de milionárias operações fraudulentas, para dizer o mínimo.
Quando digo banqueiro, o leitor o sabe, estou falando de Daniel Dantas. Tal nome é deveras conhecido dos leitores de Carta Capital e dos freqüentadores do sítio de Paulo Henrique Amorim. Mas é de se suspeitar que muita gente, leitora da maioria dos grandes jornais brasileiros ou telespectadora dos principais telejornais ou, ainda, ouvinte das principais rádios noticiosas, nunca tivesse ouvido falar dele. E do dia para a noite, literalmente, vêem-se os cínicos órgãos da nossa imprensa dando manchetes sobre Dantas, falando dele como se ele fosse um habitué de suas páginas, telas e ondas, como se estivessem se referindo a um Pelé ou a um Roberto Carlos da mídia brasileira! Faz-me lembrar de minha adolescência, quando ouvia muito rádio FM: havia algumas pioneiras “rádios-rock” em São Paulo, a saber, a 97 FM e a 89 FM. Elas eram as únicas que tocavam bandas como The Cure, Echo & the Bunnymen e Siouxsie & the Banshees, por exemplo. Mas quando estes grupos fizeram turnê pelo Brasil, ainda nos anos 1980, rádios que nunca os haviam tocado, como a Jovem Pan II, começaram a fazer especiais, promoções etc. É o que está fazendo a hipócrita mídia brasileira em relação a Daniel Dantas; e o que é pior, esquecendo-se de lembrar de suas estripulias nos tempos da privatização da “iluminada ‘era FHC’”.
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