quarta-feira, 29 de julho de 2009

Jean-Luc Godard - Alphaville (1965)

Alphaville é um filme visionário e arcaico ao mesmo tempo: Godard aponta o futuro, com uma sociedade totalitária, dominada por uma máquina, enquanto explora os recursos de "preto-e-branco", dando um toque absurdamente sombrio às suas imagens, passando um ar retrô aparentemente inspirado nos velhos filmes noir dos anos 1940.

Como boa referência na seara literária, impossível não pensar no 1984, de George Orwell. Pode-se, por isso, classificar Alphaville como uma distopia, e a exemplo do livro do romancista inglês, de conteúdo essencialmente político.

No clássico filme, a já sugerida fotografia em 'preto-e-branco', o 'livre' e 'ocupado' dos gabinetes de interrogatório, o 'Figaro Pravda' de 'Ivan Johnson' são metáforas para falar de um mundo marcado por pólos antagônicos, claramente representados nos seculares conceitos de "direita" e "esquerda", e isso em pleno auge da Guerra Fria!

Como se não bastasse, Godard, inteligentemente, escolheu o computador para ser o grande dominador. Afinal, nada mais dual do que o código binário para representar uma sociedade maniqueísta e dividida.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Torcida

Em recente entrevista ao Roda Viva, o economista Luiz Gonzaga Belluzo afirmou que as previsões econômicas nada mais são do que pura torcida dos que as proferem. Não é à toa que se vêem sempre os mesmos catastrofistas fazendo vaticínios na mídia, que, por sua vez, se esquece de cobrá-los dos erros não raro grosseiros que cometem.

A bola da vez no assunto predição econômica é a iminência de crise fiscal que explodirá circa 2011, a qual deixará para o sucessor de Lula – garantem dez entre dez economistas, valendo-se de expressão usada pelo petista em relação a FHC – uma verdadeira “herança maldita”.

Tal prognóstico baseia-se na queda de arrecadação, verificada nos primeiros seis meses do ano de 2009, associada a suposto aumento de gastos públicos, especialmente com folha de pagamento do funcionalismo, além de mudanças no cálculo do superávit primário que estariam abdicando de esforço fiscal às duras penas mantido durante o governo Lula.

A previsão de descontrole das contas públicas talvez não passe mesmo de torcida, como sugere Belluzo, pois desse modo já se prepararia o terreno para acusar Lula da débâcle de futuro governo, sobretudo se este for do protegido da mídia, o governador José Serra; de outro lado, se for a ministra Dilma a escolhida, o fracasso teria pelo menos o condão de fechar as portas para o retorno do atual presidente, em 2014.

Já a velha e boa realidade, sempre a pregar peças nas apostas precipitadas, diz que, em verdade, a queda na arrecadação, na casa de 7% no acumulado do primeiro semestre, não chega a ser uma tragédia, inclusive porque até o terceiro trimestre de 2008, ou seja, no chamado período pré-crise, a economia crescia de forma bastante robusta, deixando a comparação desigual. Há de se obtemperar que a “marolinha”, como não poderia deixar de ser, acabou trazendo pequena retração da atividade econômica, fator que obviamente reflete na diminuição das receitas públicas. Ademais, o Governo Federal, como parte de sua política anticíclica, fez mudanças no Imposto de Renda da Pessoa Física e na cobrança do IPI, de modo a abdicar de receita em favor do consumo e da geração de renda. Noutras palavras, a queda na arrecadação faz parte do script.

A tal crise fiscal, conforme prognosticada pelo coro dos descontentes e consoante já dissemos, explodiria o mais tardar em 2011. Para que isso venha de fato a ocorrer, os gastos públicos teriam que aumentar radicalmente e de forma sustentada, pois até os “torcedores” mais pessimistas prevêem crescimento do PIB na casa de 4% em 2010. Se no ano de 2009, que já viu no seu primeiro trimestre a economia recuar perto de 1%, tem-se manchetes indignadas com recordes de “carga tributária”, o que não se pode realmente esperar do ano tendente a apresentar crescimento de 4%? Falando sério, será que dá mesmo para comprar a tese do desequilíbrio fiscal em futuro tão próximo?

E aqui não faremos previsões, até porque não somos economistas e nada entendemos da ciência de Srafa e Myrdal, mas vamos, isto sim, admitir nossa “torcida” de que não teremos crise fiscal tão cedo; vamos, ao contrário, “apostar” em incremento de arrecadação em 2010. “Recordes históricos” virão por aí!

sábado, 18 de julho de 2009

Virgens no bordel (copyright Jabor!)

Paulo Maluf foi padrinho de casamento de Fernando Collor de Melo.

O deputado Fernando Collor votou no candidato Paulo Maluf para presidente, em eleição indireta no colégio eleitoral, contra Tancredo Neves.

No segundo turno da disputa presidencial de 1989, Paulo Maluf ofereceu seu apoio para o candidato Collor, contra Luiz Inácio Lula da Silva.

Collor recusou o apoio de Maluf, o que provocou a ironia do velho político paulista:

- Servi para ser padrinho de casamento. Servi até para ser presidente da República. Agora, para dar um simples apoio não sirvo???

Lembro-me vagamente dessa história. Ela é tão boa que, acredito, não deve ter sido criada pelo meu subconsciente!

Impossível não se recordar dela ao ver a reação que o encontro de Lula e Collor despertou na imprensa e em alguns de seus colunistas, além de em alguns leitores missivistas, todos enojados com a imagem do abraço entre o ex e o atual presidente, adversários ferrenhos no pleito de 1989.

A grande imprensa, majoritariamente, apoiou o Sr. Fernando Collor na primeira eleição direta para presidente após a redemocratização. Como se sabe, o público de perfil mais conservador, por sua feita, não se fez de rogado e, sem maiores cerimônias, também caiu, de corpo e alma, nos braços do "caçador de marajás".

Irresistível, pois, não parafrasear Maluf: para eles, Collor serviu direitinho para ser presidente da República; agora, senador eleito, não serve nem para receber um simples cumprimento público do presidente em evento oficial???

Está em ação o velho "homem cordial" de que fala Sérgio Buarque de Hollanda no clássico Raízes do Brasil. Mas não pense que a cordialidade mencionada se refere ao gesto de civilidade do presidente Lula e do senador por Alagoas. O senso comum faz pensar que é disso que se trata quando se fala do homem cordial. Em verdade, a palavra "cordial", como sabido, vem de "coração". Tal expressão, portanto, é cabível também - ou principalmente - naquelas situações em que agimos de forma tresloucada, de maneira irracional, pondo a emoção à frente. Portanto, a idéia também concerne àquelas situações em que as pessoas se deixam levar pela pessoalidade pura e simples, sem maior apreço pelo republicanismo.

Dessa forma, que se dane a disputa política civilizada, que se dane a governabilidade, que se dane o respeito mútuo entre políticos que um dia foram adversários. Que viva o ódio! Que viva a inimizade! Viva aquela pequenez de gestos que, curiosamente, fingimos condenar no dia-a-dia!

Assim sendo, os jornalistas e alguns leitores, além da hipocrisia acima sugerida, estão agindo de forma "cordial", no sentido de que não estão dando pelota para a razão, a qual sem dúvida aconselharia não haver motivos para desespero ao ver que dois políticos brasileiros, eleitos pelo voto direto, preferem trocar cumprimentos em vez de sopapos num evento público!

Os admiradores de Sérgio Buarque de Hollanda talvez se sintam desconfortáveis ao ver o nome do grande intelectual num texto em que foram proferidas, com certa liberalidade, as graças de Paulo Maluf e de Fernando Collor de Melo. Pois para piorar as coisas, vou terminar usando uma expressão comum na boca do também (talvez até mais) desprezível Arnaldo Jabor: a maior parte dos que se mostraram indignados com o abraço do presidente e do senador, eleitores entusiasmados de Collor que provavelmente foram um dia, nada mais fazem do que se comportar como "virgens no bordel"!

sábado, 11 de julho de 2009

Que independência?

No dia 09.07.2009, a jornalista Eliane Cantanhêde participou de bate-papo promovido pelo UOL sobre a crise no Senado. Vários internautas enviaram perguntas à especialista em política brasileira, pessoa que acompanha tudo muito de perto, de Brasília.

Faltou inspiração à maioria das perguntas, em geral óbvias, e que, talvez por isso, mereceram respostas básicas, do tipo que nada acrescentam.

Mas a melhor pergunta, senão a única realmente boa, não somente ficou sem resposta, como ainda sofreu o desprezo da colunista da Folha. Transcrevo o trecho abaixo:

(05:35:45) Dante fala para eliane cantanhêde: Uma questão urgente. Que se acuse ou investigue o Sarney. Mas a imprensa faz é campanha. Por que não faz o mesmo com as graves acusações contra o senador Arthur Virgílio? Ou com o rumoroso caso do governo do Rio Grande do Sul?

(05:37:24) eliane cantanhêde: Dante: Ih, pronto. Você é daqueles que, em vez de enxergar os fatos, os atos, os cheques, as provas, prefere ficar culpando a imprensa. Campanha??? E o que você diz sobre parentada, mordomo, Fundação Sarney, ato secreto, etc. etc?


Diz ela que o rapaz culpou a imprensa antes de enxergar os fatos. Ora, como pode, se a primeira coisa que o moço fala é para se acusar ou investigar Sarney?! Ele apenas em seguida pondera que o mesmo deveria ser feito com o Arthur Virgílio, também no Senado, ou sobre a administração no mínimo polêmica da gaúcha Yeda Crusius.

Vejam que Eliane Cantanhêde se esquiva da pergunta. E olha que ela poderia tê-lo feito com mais classe, dizendo que o caso da governadora do Rio Grande do Sul não cabia na discussão, embora de todo modo ficasse faltando maiores explicações do porquê de não haver tanto furor investigativo no caso dela. Já os problemas do senador Arthur Virgílio eram, sim, assuntos que poderiam ser abordados no bate-papo, o que teria sido uma ótima oportunidade para o conhecimento da opinião pública, haja vista que as trapalhadas do senador amazonense têm sido relativamente negligenciadas pela mídia.

Uma primeira lembrança: o bate-papo não era sobre a situação de José Sarney, mas sim sobre a “crise no Senado”. Veja como foram as chamadas da Folha Online (com os nossos grifos):

Leia íntegra do bate-papo com Eliane Cantanhêde sobre a crise no Senado

A jornalista Eliane Cantanhêde, colunista da Folha e da Folha Online em Brasília, participou de bate-papo nesta quinta-feira (9) sobre os escândalos no Senado.

Converse agora com a colunista da Folha e da Folha Online, Eliane Cantanhêde, sobre a crise do Senado.

Ou seja, se a discussão era sobre crise no Senado, a jornalista não poderia ter feito pouco caso do internauta que quis ouvir um pouco mais sobre Arthur Virgílio, que até onde se sabe é senador da República, e é apenas mais um – ao lado de Heráclito Fortes, Efraim de Moraes - dos que estão no turbilhão crítico daquela Casa.

Uma segunda lembrança: Virgílio e Yeda são do PSDB, portanto não são aliados do governo do presidente Lula. A imprensa não vem, ao que parece, fazendo muita questão de esconder que seu negócio é fazer oposição ao Governo Federal, ao governo do PT. E ponto final.

Observe-se que a própria Eliane Cantanhêde escreveu coluna nesta mesma semana intitulando a imprensa a que serve como “independente”. Seu colega Clóvis Rossi, que ao lado dela também é ironicamente colega de página de José Sarney às sextas-feiras, fala, no dia 10.07.2009, que a história de “mídia golpista” é coisa de político enrascado e de imprensa chapa-branca.

Pelo que se vê, os grandes jornais não querem esconder o oposicionismo ao governo, quase como se nada mais fizessem do que sua obrigação. O próprio presidente Lula já o observara na famosa entrevista à revista piauí: a coisa mais dura para um jornalista, disse ele, é ser tido como chapa-branca. Por muito pouco, os colunistas da Folha não o confessam: “não queremos nunca ser chamados de chapa-branca, por isso faremos todo tipo de oposicionismo sistemático que fustigue o governo”.

Esperemos, sinceramente, que seja só isso. Mas não nos esqueçamos que Sarney, além de aliado de Lula, é desafeto de José Serra, e por isso é importante que preventivamente se lhe tire qualquer resquício de respeitabilidade, para o caso de ele voltar seu arsenal contra o governador paulista. É bom lembrar também que os donos de jornais andam muito bravos com a democrática medida do governo Lula de diversificar os contemplados pela publicidade governamental. Sabe como é, quando mexem com o bolso... Maquiavel, em contexto um tanto diferente, disse que o homem esquece mais depressa da morte do próprio pai do que da perda do patrimônio. Pode advir daí a bronca com o atual presidente: incluiu digitalmente boa parte da população, enfraquecendo, de forma indireta, o suposto poder (leia-se grana) da grande mídia; e de maneira direta, tira-lhes verba de que sempre estiveram acostumados e as repassa para pequenos meios de comunicação Brasil afora.

A grande imprensa e seus colunistas não gostam, mas é democrático!

Mas sejam quais forem os motivos de tanta “independência”, a grande verdade é que ela não precisaria poupar tanto os senadores do DEM e do PSDB, nem a governadora gaúcha, tampouco a aliança de Quércia e Serra em São Paulo, esta tão estarrecedora quanto a de Lula e Sarney. Ah, tá, mas a "independência" é só em relação ao governo Lula!

sábado, 4 de julho de 2009

Os 6 (seis) anos do Plano Real!

Nesta semana, muito se falou dos quinze anos do Plano Real, comemorado dia 1º de julho. Como já era de se esperar, a mídia, juntamente com seus colunistas e articulistas, pegou pesado no puxa-saquismo a Fernando Henrique Cardoso.

Um pouco de história: o Plano Real foi obra do governo Itamar Franco. O sociólogo Fernando Henrique foi seu ministro da Fazenda, liderando, nessa posição, um grupo de verdadeiros economistas como André Lara Rezende e Pérsio Arida, certamente mais importantes na elaboração do programa do que ele, FH. Mas o mais importante a se destacar é que FHC já não era mais ministro no fatídico 1º de julho 1994. Coube a Rubens Ricupero a tarefa de conduzir o início do plano, talvez no seu momento mais difícil. Derrubado por uma parabólica, Ricupero foi substituído pelo pindamonhangabense Ciro Gomes. Parece-nos óbvio que Ciro e Ricupero foram mais importantes para o Real do que o ex-presidente Cardoso.

Tudo poderia ser pura babação de ovo da mídia para cima de FHC, mas, como eles não dão ponto sem nó, talvez seja uma desesperada tentativa de melhorar a imagem do ex-presidente, haja vista que nas eleições de 2010 o PT certamente terá um “patrono” de quem se orgulhar, e não seria de bom tom o PSDB ir para a terceira eleição consecutiva fingindo que Fernando Henrique nunca existiu.

Mas em meio a tanta celebração salvou-se equilibrada reportagem da Agência Brasil. O especial do sítio noticioso falou dos méritos do plano e dos avanços obtidos graças à estabilidade que, desde então, passou a ser um “dogma saudável” de nossa economia. Porém, graças a importante intervenção do economista Ricardo Amorim, do IPEA, foi dado também o lado sombrio do Plano Real, aspecto devidamente esquecido na grande mídia. O plano, para dar certo, teve que, de algum modo, provocar pequenas quebradeiras na economia brasileira – talvez sem alternativa, acrescentamos generosamente. A memória inflacionária, ou componente inercial ou o nome que se queira dar era muito forte, e qualquer aquecimento manteria a inflação a pleno vapor. Para matar o dragão era preciso exagerar no remédio. Desse modo, apostou-se no dólar barato, pois assim entrariam importados aos montes no país, o que impediria a subida dos preços dos produtos nacionais. Em conseqüência, com os importados tomando conta, a indústria nacional se ressentia, pois não tinha como concorrer com a enxurrada de produtos mais baratos; as exportações, por seu turno, eram desestimuladas pelo dólar na rédea curta das bandas cambiais. Resultado: desemprego e achatamento de salários. Desempregado não compra; salários baixos também não ajudam. Noves fora, inflação fica controlada. Eis um lado nefasto - talvez necessário, não descartemos - que não cairia mesmo bem mencionar num dia de aniversário!

As análises na grande imprensa também não pouparam Lula e o PT, que, segundo os adorados escribas da mídia, teriam combatido o plano em seu início, mas no final das contas acabaram descobrindo a importância da estabilidade e dado seqüência ao bem-sucedido plano de FHC (na verdade, de Itamar). Ora, bem que as críticas podiam ser ainda mais duras com o governo petista que ora comanda o Brasil, acusando-lhes, Lula e seu partido, de serem mais realistas do que o rei, pois no fundo o governo que se iniciou em 2003 é que de fato salvou o plano de estabilização iniciado por Itamar, em alguns momentos pegando até pesado demais nessa coisa de controle da inflação (alô, Meirelles!). Talvez não seja errado dizer que a estabilidade só passou a ser um valor seguro mesmo sob Lula. Se o leitor se der ao trabalho de dar uma pesquisada, verá que no final do segundo mandato de FHC a inflação já havia passado de dois dígitos; Lula assumiria seu primeiro mandato sob a égide de uma economia mais ou menos descontrolada, com poucas reservas internacionais, risco-país explosivo, dívida pública de mais de 50% do PIB e dólar fora de controle.

Hoje, mesmo com “a maior crise da história do capitalismo”, o Brasil se segura bem, tirando uma marolinha aqui, outra ali. É, portanto, muita desonestidade intelectual querer dar os créditos da razoável saúde que ora goza a economia brasileira ao governo anterior, justamente um governo que costumou atribuir suas dificuldades (ou seus fracassos mesmo) a crises internacionais muito menores do que as que o mundo observa hoje. Não sei quanto a vocês, mas isso sempre me pareceu ilógico, afinal, como pode o governo bem-sucedido que enfrenta crise maior ser considerado mera cópia de outro que sucumbiu por "marolinhas" localizadas e de menor intensidade?

Caso se queira associar o “Real” à idéia de estabilidade, ter-se-á que mudar sua idade e passar a considerá-lo como tendo seis anos, pois este é o tempo em que ele se mostra realmente sólido e estável. E se a alguém se deve atribuir o sucesso da estabilização, forçoso seria reconhecer a importância de Lula, pois sob ele, sim, a luta contra a inflação foi realmente levada a sério e, mais do que isso, foi efetivamente vencida. E olha que nada disso deve ser tomado como elogio na sua plenitude, não, pois para alcançá-lo foi preciso muito remédio amargo: os juros altos que ajudam os bancos, inibem a produção e desempregam; e a busca cega pelo superávit primário que tira dinheiro da saúde, da educação e da promoção social. Digamos que é uma espécie de PT americanizado: No pain, no gain!

domingo, 28 de junho de 2009

Responda rápido

O questionamento tem fama de dar origens às descobertas e às grandes formulações. A filosofia, por exemplo, desde os tempos dos pré-socráticos buscava respostas às inquietações. O próprio Sócrates usava o sistema de se fazer grande número de perguntas para se alcançar o entendimento de algo, ou ao menos concluir que, no fundo, nada sabia. O mesmo vale para a psicanálise e para diversos métodos científicos.

Estamos longe de, aqui, querer fazer ciência ou implementar investigações filosóficas. De todo modo, aceitamos a idéia de que um bom número de perguntas pode trazer alguma luz a inquietações em diversas áreas do interesse humano, e talvez, principalmente, para os assuntos mais mundanos e ordinários.

Gostaria de propor tal tipo de exercício: colocarei, a seguir, diversas perguntas espalhadas, girando sobre o mesmo tema, e o leitor, se assim o quiser, pode respondê-las mentalmente e, também somente se o quiser, tirar algumas conclusões. Comecemos:

José Sarney é um novato, ou é uma velha raposa da política?

Sarney sempre foi um tipo meio “coronelesco” de um Estado da Federação atrasado, ou ele só começou a significar algo ruim na política nos últimos meses?

A mídia sempre perseguiu Sarney, em virtude de ele ser um representante das oligarquias retrógradas do país, ou só começou a realmente fazê-lo nos últimos meses?

José Sarney por acaso não tem uma coluna no jornal Folha de São Paulo?

Por conta dos escândalos no Senado Federal, a Folha parou de publicar a supramencionada coluna, ou a continua publicando?

O presidente do Senado, José Sarney, é amigão do peito, ou é desafeto do governador José Serra?

Sarney faz oposição cerrada, ou é aliado de primeira hora do governo Lula?

Senadores como Heráclito Fortes e Efraim Moraes têm ligações com escândalos da Câmara Alta. Você vê ou ouve a mídia dar a mesma atenção às suspeitas que recaem sobre eles?

Os dois senadores do parágrafo anterior pertencem aos Democratas. O DEM é da base aliada, ou faz oposição ao governo Lula?

Termino aqui a bateria de perguntas. Tenho certeza que a maioria esmagadora dos brasileiros não encontraria dificuldades de responder a cada uma delas. Acredito, ainda, que se fosse feita uma enquete, a resposta ganhadora de cada uma das questões o seria de forma quase unânime. Não há, nos parece em princípio, possibilidade de imaginar que as questões acima são complexas ou que suscitariam polêmicas quanto a suas respostas. Elas são simples, diretas e parecem não abrir muito espaço para grandes discussões. São questões singelas que mereceriam respostas singelas, nada que seja digno de um Platão ou de um Freud!

Uma última – e mais difícil - pergunta: baseado nas respostas que deu acima, por que, em sua opinião, a mídia está agora – e somente agora – pegando tanto no pé de Sarney?

sábado, 27 de junho de 2009

Sky Saxon (1946-2009)

No mesmo dia do falecimento de Michael Jackson, 25-06-2009, eis que o mundo da música também perde o cantor e compositor Sky Saxon, expoente do rock psicodélico dos anos 1960, mais precisamente da corrente conhecida como psicodelia de garagem. Saxon, não obstante tenha cometido alguns trabalhos solo, será sempre lembrado como líder e vocalista do grupo The Seeds, um dos mais importantes do gênero.

Desnecessário dizer quão menor, do ponto de vista do reconhecimento popular, Saxon é em relação a Jackson. Mas o seu rock cru, áspero e direto (clichê pouco é bobagem) deixou marcas nas décadas que lhe sobrevieram: nos anos 1970, o punk e a new wave bebiam muito da fonte do rock de garagem sessentista; nos anos 1980, a influência é perceptível nos grupos independentes, sobretudo pelo trabalho de guitarras; nos anos 1990, o grunge e as guitar bands são tributários óbvios da virulência não apenas dos Seeds, mas de outras bandas fantásticas, como The Music Machine, The Blue Magoos, Shadows of Knight, Chocolate Watchband etc.

Assumo, neste momento, o compromisso de, no ano que vem, quando o mundo inteiro lembrar o primeiro ano sem Michael Jackson, prestar uma homenagem particular a Sky Saxon, ouvindo os Seeds com seu disco de estréia, o homônimo de 1966, ou o “freakaço” Future, de 1968, dois LPs de que muito me orgulho por ter em minha coleção. Ah, com um pequeno detalhe: por incrível que pareça, as bolachas são nacionais!

Abaixo, veremos dois vídeos, extraídos de programas da televisão estadunidense, com The Seeds interpretando seus dois maiores hits (localizados, esquecidos e singelos, mas hits!), ambos do primeiro disco, de 1966: “Pushin’ Too Hard” e “Can’t Seem To Make You Mine”. Grande Sky Saxon!



Michael Jackson (1958-2009)

Em belíssimo texto para a Village Voice, em 29 de agosto de 1977, o crítico Lester Bangs perguntava: onde você estava quando Elvis morreu? O que você estava fazendo? A idéia dele era estabelecer uma comparação com eventos como o ataque a Pearl Harbour e o assassinato de Kennedy. Com efeito, as pessoas tendem a tomar um choque com notícias de maior grandiloqüência a ponto de ficar na memória a situação em que a receberam. Lembro-me, por exemplo, de como fui informado dos ataques de 11 de setembro de 2001. A exemplo do maior atentado terrorista da História, a morte de Michael Jackson também foi evento que ganhou o mundo de forma up-to-date, estando o planeta varrido pela triste notícia em pouquíssimos minutos. E a forma como a recebi parece-me simbólica de nossa era – Lester Bangs talvez gostaria de saber!

Como já deve ter dado para perceber, soube da morte do artista pela internet. Estava navegando pelo site RateYourMusic e resolvi dar uma passada pela sua comunidade em português, quando tomei um susto ao ver um tópico de discussões intitulado “RIP Michael Jackson”. Não estava sabendo de nada e entrei no tópico, que não contava, ainda, com nenhuma mensagem. Na hora me passou pela cabeça que pudesse ser uma brincadeira; por não haver nenhuma notícia ou comentário ilustrando a chamada, cogitei também que poderia ser um engano. Acessei algum sítio noticioso, e lá estava, em letras garrafais, gritando, que Michael Joseph Jackson morre aos 50 anos em Los Angeles.

Michael nasceu em 1958, portanto depois do estouro do nosso já citado Elvis, depois de a TV já se encontrar na maioria dos lares norte-americanos, depois de as gravadoras já saberem que a imagem poderia ajudar a vender música e exatamente numa época em que se começava a sacar a possibilidade de empurrar sucessos goela abaixo dos ouvintes. Como disse Adorno, “em vez do valor da própria coisa, o critério de julgamento é o fato de a canção de sucesso ser reconhecida de todos; gostar de um disco de sucesso é quase exatamente o mesmo que reconhecê-lo.” (O fetichismo na música e a regressão da audição, coleção Os Pensadores, São Paulo: Abril Cultural, 1975). E olha que o filósofo alemão, "pop star" (heresiazinha!) da Escola de Frankfurt, dizia isso do jazz! O que não falar da música verdadeiramente pop, qual seja, aquela bem banal, pegajosa e "sem caráter" cometida a partir da segunda metade do século XX?

Nossos leitores mais fiéis (se é que eles existem!) sabem que, sempre que falece alguém importante do mundo cultural neste primeiro decênio do terceiro milênio, logo digo que é um pouco de século XX que está morrendo. Nunca tal ilustração foi tão verdadeira. Michael Jackson era, de fato, um cara dos “novecentos”. Ele era um artista para quem a divulgação representava muito, a imagem era tudo, esquisitices e escândalos eram importantes... Ah, sim, um pouco de música poderia, eventualmente, cair bem! O Jackson Five e os Jacksons eram musicalmente legais; o álbum Off the Wall, de 1979, é respeitabilíssimo. Já o megaplatinado Thriller, de 1982, tem grande importância histórica, mas não o considero bacana de ouvir. Isso mesmo, Thriller, em minha humílima opinião, não tem lá tão boa música. Mas isso não importa tanto, como veremos.

Lembram-se de termos falado que Michael é um sujeito da era da imagem, da autopromoção, do “choque”? Pois bem, Thriller foi o disco certo na hora certa. A produção de Quincy Jones apostou na facilidade sonora, num álbum bem mais pasteurizado do que o anterior, o supracitado Off the Wall, o que não impediu, todavia, a presença de canções respeitáveis como “Billie Jean” e “Wanna Be Startin’ Somethin’”. Mas o que fez a diferença foram as imagens. Se o autor destas maldigitadas não se engana, ao menos no Brasil, a canção “Beat It” e, principalmente, a faixa-título estouraram primeiramente como videoclipes para depois ganhar as ondas do rádio. É paradoxal que o “disco sonoro” mais vendido da história tenha dependido tanto daquilo que se gostava de “ver” à época. Isso é de importância histórica inequívoca. Acabou virando moda: depois disso, a MTV passaria a ditar uma boa dose dos sucessos, que ganhariam reconhecimento somente após serem vistos na tela. Bem, se a alguém interessa saber, este blogueiro considera os clipes extraídos de Thriller tremendas bobagens; preferimos “ouvir” canções como “I Can't Help It”, do álbum de 1979, que sobrevive somente de sua beleza musical, sem necessidade de imagens.

Depois de todo o estouro, não valia mais a pena se interessar pelo trabalho de Michael, tampouco por sua vida pessoal, seus dramas, bizarrices e tudo mais.

O pop, em toda a sua banalidade e “descartabilidade”, perdeu o seu, por assim dizer, resumo. O pop nem sempre é bom; o pop nem sempre nos enche de orgulho se nos entusiasmamos por ele; o pop, em verdade, chega às vezes a nos corar de vergonha ao admitir que dele gostamos. O pop era Michael Jackson mesmo.

Abaixo, The Jacksons (e não Jackson Five, como erroneamente aparece), com "Blame It On the Boogie", de 1978, um trabalho de transição do Michael Jackson criança para o artista... "um pouco menos criança" que se tornaria.

sábado, 20 de junho de 2009

Imprensa comum

Nesta semana, o presidente Lula saiu em defesa do enrascado José Sarney. Falou da história do presidente do Senado, sugerindo que ele mereceria mais respeito por não ser uma “pessoa comum”.

A imprensa, de maneira geral, não gosta das coisas que Lula fala. Imagine, então, quando seu discurso alfineta o liberalismo de mentirinha de que a mídia é a porta-voz.

A grita foi geral: “como assim não é pessoa comum?”; “todos são iguais perante a lei”; “Para Lula, alguns são mais comuns do que outros”. O jornalista Clóvis Rossi asseverou que a fala do presidente brasileiro era uma versão do “você sabe com quem está falando?”.

Ora, Sarney não deve ser mesmo uma pessoa comum. Tanto que ocupa, às sextas-feiras, bem ao lado do simpático Clóvis Rossi, uma nobre coluna na página 2 da Folha de São Paulo. O jornalão paulistano não costuma ceder tal espaço para gente muito ordinária: ocupam-no ou já o ocuparam pessoas como Delfim Netto, Emílio Odebrecht, José Serra, Florestan Fernandes, Marcos Nobre, Marina Silva, Kenneth Maxwell e outras menos comuns do que aquelas que têm suas missivas devidamente editadas na página seguinte, numa menos nobre sessão conhecida como “Painel do leitor”!

Por falar em Folha, e de resto toda a imprensa, seria interessante que se colocasse em prática esse reconhecimento da igualdade entre os cidadãos. Um bom começo seria aceitar numa boa que possíveis prejudicados buscassem socorro no Judiciário, sem serem acusados de estar atacando a liberdade de imprensa ou - sacrilégio! - a liberdade de expressão. Noutras palavras, se, por exemplo, seguidores da Igreja Universal se sentissem ofendidos por matérias de jornais, poderiam, sem ser agredidos com editoriais de primeira página, recorrer à Justiça. Afinal, donos de jornais também são pessoas comuns, e, por conseqüência, as empresas que lhes dão lucros não merecem qualquer status especial,o que quer dizer que podem ser processados como "qualquer um". Ou será que Lula tem razão, e na verdade esse papo de igualdade é conversa mole para boi dormir?

Lula não defendeu apenas Sarney. Em verdade, o presidente brasileiro intercedeu em favor do Senado Federal e, em última análise, do Congresso Nacional. O fato, negligenciado pela imprensa, mereceria melhor análise.

Passou pela cabeça de alguém a idéia de que o presidente poderia, em realidade, faturar com um Congresso combalido? Pensemos bem: sem dúvida que diversos governantes em todo o mundo sonhariam ter a popularidade extraordinária de Lula com um parlamento desacreditado. Seria difícil para muitos resistir à tentação de botar em prática a mão de ferro. Imaginemos um FHC, com a aceitação popular que tem o atual presidente, governando com um Congresso Nacional tão impopular: que sonhos estariam passando pela cabeça dele? E quais os conselhos que lhe estariam dando os donos de jornais?

Observe-se, também, que Lula, mais do que na Câmara, costuma passar por maus bocados nas votações do Senado. Ou seja, ele teria milhões de motivos para deixar a Câmara Alta chafurdar sem precisar arranhar o seu prestígio fazendo-lhe uma defesa que, a bem da verdade, não deixa de ser inútil. Pensando bem, Lula atuou como estadista: agiu em favor da harmonia dos poderes. Não é todo dia que o chefe do Executivo sai em defesa de outro Poder, ainda mais quando não se tem tanta certeza de que ele lhe é tão favoravelmente complementar.

E quem parece que melhor matou a charada mesmo foi o jornalista Paulo Henrique Amorim. Disse ele que a perseguição capitaneada pela mídia contra Sarney somente agora, depois de “quinhentos anos” de abusos e "ligações perigosas" do ex-presidente, deve ser em virtude de ele não dar moleza para José Serra, por conta da sabotagem cometida contra a pré-candidatura da filha para o pleito de 2002, e também pelo fato de cometer o supremo pecado de apoiar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. De fato, é muito para o PiG!

Leia o divertidíssimo texto de PHA clicando aqui.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Irã: eu acho...

O bacana de se pilotar um blog é poder ficar dando pitacos sobre os mais diversos assuntos de forma mais ou menos impune. Além disso, pode-se dormir com a consciência tranqüila por não estar investido da autoridade dos especialistas. É só “achismo” mesmo e ponto final.

Os chamados cientistas políticos não deveriam gozar da mesma cuca fresca, pois se aproveitam de sua condição para fazer comentários e vaticínios deveras particulares sob a aura de uma suposta expertise. Ao agir desse modo, no mais das vezes com acentuado viés ideológico e deixando transparecer seus desejos e idiossincrasias, recusam, em verdade, a honestidade intelectual e a objetividade científica possível de que fala Max Weber na sua famosa conferência intitulada A ciência como vocação.

Vamos aqui, “acientificamente”, apenas revelar nossas impressões sobre o que ocorre no Irã. (Até porque não dá para ter muito mais do que isso: meras impressões).

Eu, “euzinho da silva”, acho que não houve fraude nas eleições do Irã. O presidente Mahmoud Ahmadinejad provavelmente ganhou mesmo. Volto a dizer, trata-se, obviamente, de mera opinião pessoal. Não posso afirmar que não tenha havido fraude. Ninguém pode. Mas ninguém – repito, ninguém - pode também afirmar peremptoriamente que houve. Certo está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que atribuiu as comoções naquele país a uma provável choradeira dos derrotados. Errados estão os colunistas da grande imprensa, como Merval Pereira e Dora Kramer, que tentam desautorizar o presidente brasileiro por ele estar apoiando o seu colega iraniano reeleito. (Em realidade, Lula não está necessariamente dando apoio a Ahmadinejad; apenas faz aquilo que seria de se esperar de qualquer pessoa de bom senso: reconhecer os resultados das urnas de um país soberano; e se for o caso de haver alguma coisa errada por lá, o melhor a fazer é aguardar com cautela antes de sair atirando pedras).

Pelo que se depreende das notícias que chegam do país islâmico, as manifestações estão restritas aos grandes centros urbanos, mais especificamente à capital Teerã. O grupo oposicionista é organizado e barulhento, e o seu reclamo é ecoado pela mídia ocidental, que desde o início demonstra pouco entusiasmo com o presidente iraniano. Sabe-se que há, por outro lado, manifestações favoráveis ao presidente reeleito; mas elas não parecem contar com a mesma simpatia por parte da imprensa do ocidente.

E se o assunto é achismo puro e simples, vou externar uma opinião meio amalucada: eu, “euzinho da silva”, acho que o Brasil não esteve muito longe de situação parecida. Em 2006, se o candidato Alckmin não tivesse decepcionado parcela de seus eleitores e, especialmente, parte da imprensa, sobretudo por não ter tido coragem de defender o legado privatista dele e de seu partido, não seria de descartar que se ameaçasse falar em fraude ou em abusos e coisas do gênero para tentar melar a acachapante vitória de Lula.

Imaginemos a cena: a classe média paulista sairia às ruas, concentrar-se-ia na Av. Paulista e com a ajuda da mídia convocaria outras manifestações em grandes centros urbanos do sul-sudeste; as imagens rodariam o planeta nas telas da CNN e parariam nas páginas de internacionais dos jornais estrangeiros. Ipso facto, estariam todos mundo afora papagaiando que o presidente "populista caudilho" do Brasil fraudara as eleições. Ademais, haveria um Marco Aurélio Mello para jogar gasolina na fogueira.

Viagem pura? Certamente que é. Estou a afirmá-lo desde o começo. Mas, sincera e modestamente, não acho que meu achismo seja mais irresponsável ou mais ridículo do que o dos outros.