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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Acho que é pela TERCEIRA vez

Já tivemos ocasião de falar na possibilidade de um terceiro mandato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tal tema corre solto desde o processo sucessório de 2006, quando se começou a perceber que o presidente poderia se reeleger ainda no primeiro turno; persistiu quando, mesmo tendo que disputar um segundo escrutínio, o presidente demonstrou que sairia consagrado com vitória esmagadora. O assunto, num primeiro momento, só ganhou espaço por conta dos exageros da mídia e da falta de projetos da oposição, com clara intenção de criar uma espécie de terrorismo institucional.

Mas agora o tópico volta à tona graças à ação do deputado Jackson Barreto (PMDB-SE), que coleta assinaturas para colocar em tramitação no Congresso uma proposta de emenda constitucional que permitiria o instituto da segunda reeleição. Parece também fazer parte de tal proposta a possibilidade de um plebiscito ou referendo. O presidente Lula jura que não tem nada a ver com essa história e que já conta com candidato, quer dizer, candidata para 2010.

Situação complicada...

Quando Maquiavel falava da "fortuna" estava querendo se referir às condições concretas com que o governante eventualmente depara, as quais nem sempre dependem de sua vontade. O grande pensador a comparou a um grande rio que, quando enche, provoca estragos. Mas, ponderava ele, no momento de calmaria deve-se se preparar de modo a sofrer o mínimo possível quando sobrevier a cheia.

A maré está a favor de Lula. Se as eleições fossem hoje, e ele pudesse disputar o terceiro mandato, provavelmente ganharia mais quatro anos. Mas "a sorte é mulher", advertia o florentino, como dizendo que há que se cuidar dela.

Imaginemos que se coloque em tramitação a PEC do terceiro mandato. E se ela não for aprovada? Ou, de outro lado, se aprovada no Congresso, mas dependente de um referendo - ou de um plebiscito questionando acerca da sua possibilidade -, a proposta, em quaisquer dos casos, for rechaçada pela população?

Bem, no caso de fracasso da proposta, volta-se ao velho e bom plano Dilma. Simples assim!

É claro que não é tão simples.

A candidatura Dilma vem ganhando musculatura. A proposta de terceiro mandato tem tudo para esvaziá-la com mais virulência do que conseguiria qualquer propaganda maledicente da mídia ou dos grupos de extrema-direita. E, ademais, é improvável que as pessoas acreditassem que o presidente não tem nada a ver com isso, ainda que ele negue reiteradamente que queira ser candidato em 2010.

Neste caso, a principal mensagem seria a de que só se iria de Dilma se o presidente realmente não pudesse disputar mais uma eleição consecutiva. Para o eleitor, seria como se ela tivesse passado de "plano A" para "plano B" num piscar de olhos. Em vez da mulher forte, de idéias firmes e luz própria, ter-se-ia a marionete do Planalto, um quebra-galho ou um tapa-buraco, útil somente no caso da impossibilidade da candidatura daquele que é "insubstituível" nos quadros do Partido dos Trabalhadores.

Este blog gostaria de deixar bem claro que não é, em princípio, contrário à tese de terceiro mandato - não o é nem mesmo da possibilidade de reeleições infinitas. Somos, porém, a favor de medidas que não sejam oportunistas como foi a da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Aceitamos, também em princípio, que um referendo ou plebiscito possa diminuir o tom casuísta de uma mudança constitucional que altere as regras enquanto o jogo está rolando. Mas, voltando, isso só funcionaria se desse 100% certo. Para isso, ter-se-ia que combinar com os russos e deixar o "imponderável da silva" afastado do campo político por uns tempos, o que, por óbvio, é praticamente impossível.

E Dilma, meus amigos, tem muitas chances de levar em 2010 - está aí a recente pesquisa Vox Populi que não nos deixa mentir. Ou será mais acertado dizer que ela "teria"?

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Aí tem!
Terceiras intenções

sábado, 4 de abril de 2009

Sutilmente...

Em semana de encontro do G-20, com direito a descontraídas tiradas entre o presidente estadunidense e seu colega brasileiro, passou despercebida uma sutileza da mídia em relação à política local, observada mais especificamente no portal UOL e na Folha OnLine.

Na segunda-feira (30-03) foram divulgados os resultados da pesquisa CNT/Sensus sobre o goveno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A exemplo do Datafolha e do IBOPE, a popularidade de Lula teve uma pequena queda, mas ainda se mantendo em índices considerados extraordinariamente altos. Como seria de se esperar, a crise foi apontada como a grande vilã (este blog, porém, humildemente acredita no aspecto inercial da queda da popularidade presidencial: ela estava em patamar dificilmente superável e, além disso, é muito complicado manter índices tão altos num país complexo como o Brasil, não havendo, pois, novidade nas pequenas quedas ora verificadas). Mas é só um adendo; queremos mesmo falar de outra coisa.

Juntamente à consulta acerca da situação presidencial, foi feita sondagem sobre o pleito de 2010. É aí que entra a sutileza supramencionada. O UOL e a Folha OnLine apresentaram a dianteira de José Serra de uma forma blasé, como quem diz não haver novidade. Mas o mais interessante foi o destaque que deram à subida de Dilma Roussef (leia aqui). Até aí tudo bem, afinal para o grupo Folha equilíbrio pouco é bobagem! A esperteza, porém, veio na atenção dispensada à informação de que, se o adversário for Aécio Neves, a ministra-chefe da Casa Civil, segundo a pesquisa, consegue emparelhar. Aparentemente, o UOL e a Folha OnLine apenas prestam o seu nobre serviço de bem informar o cidadão. Mas será que só se trata disso?

A Folha, pelo menos por meio de seus braços “internéticos”, parece ter intentado mandar recados ao PSDB e, mais especialmente, para o governador mineiro e seus simpatizantes; não chegou ao ponto de dizer “pó pará, governador”, mas insinuou que “prévias não, obrigado!”. O neto de Tancredo ainda não desistiu de sua candidatura e decerto pensa ter chances de ser o escolhido numa consulta interna do partido. E este blogueiro tem sérias dúvidas se ele não conseguiria, principalmente se souber explorar bem o discurso contra o “paulicentrismo”, discurso este, aliás, já por ele encampado timidamente noutras oportunidades. Mas a mídia – a princípio a paulista, mas talvez não só ela - tentará convencer o partido da furada que isso pode representar e, além disso, já está buscando incutir na cabeça dos eleitores oposicionistas a certeza de que Dilma tem chances, mas apenas se o adversário for o governador das Minas Gerais.

A imprensa paulista tem passado a impressão de que não dará sossego ao pobre governador Aécio, pelo menos até a definitiva indicação de Serra à sucessão presidencial. Mas suponhamos que, assim como Alckmin, o mineiro surpreenda e seja ele o indicado, deixando o governador paulista chupando o dedo (tudo na política é possível); nesse caso, podemos apostar numa repentina mudança nas redações dos jornais e de seus portais: entre Dilma e Aécio, a preferência midiática deve recair sobre o segundo, e por isso o aventureiro namorador e otras cositas más dará lugar ao governador empreendedor e bem avaliado de um dos maiores estados do Brasil. Já vimos esse filme: em 2006, após o trunfo de Alckmin dentro do partido, a imprensa mais do que depressa jogou para debaixo do tapete os escândalos do ex-governador que vinham sendo relativamente bem abordados enquanto ele disputava a indicação com Serra. Mas isso tudo, sempre de forma muito, mas muito sutil!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Tô com medo!

Numa das cenas mais patéticas da história recente do país, a atriz Regina Duarte admitiu que tinha medo da eventual eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, quando o ex-metalúrgico enfrentava o hoje governador José Serra. Nunca pensei que eu representaria tão ridículo papel, até porque não tenho e nem faço questão de ter o “talento” daquela que já foi “namoradinha do Brasil”, mas a verdade é que devo admitir, caro leitor, que tenho medo do que possa ocorrer com o próximo presidente do país. É isso aí: agora, eu é que estou com medo!

A situação não será nada fácil para Dilma Roussef, para o já citado José Serra ou para quem quer que seja o próximo ocupante do Planalto. O presidente Lula caminha a passos largos para se consolidar como um mito de nossa era, como a figura política mais importante de nossa história. E isso, infelizmente, não é algo que se possa considerar muito bom. O sucessor do petista terá dificuldades de se projetar como um pós-Lula ou, se for o caso, como o seguidor da figura mítica.

Estou, evidentemente, pensando na espetacular popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada pela pesquisa CNT/Sensus, divulgada na terça-feira (04-02-2009). Sinceramente acreditava que o presidente já havia atingido seu limite. Imaginava também que, nessa pesquisa, ele cairia um pouco, talvez dentro da margem de erro, mas o suficiente para fazer a alegria da “imprensa festiva”. Mas não, o homem subiu!

Há, além do mais, outra informação bastante relevante (e assustadora), sutilmente escondida pela grande mídia: na sondagem para 2010, nas respostas espontâneas, o desejo da maioria é que fosse eleito presidente ninguém menos do que... Lula. Isso mesmo, caro leitor! Lula não pode se candidatar a mais um mandato consecutivo, mas mesmo assim, na pesquisa espontânea, ou seja, aquela em que a pessoa simplesmente responde sem lista de nomes em quem votaria se a eleição fosse hoje, Lula ganharia com o dobro dos votos de José Serra, líder da mesma pesquisa na sua forma estimulada.

Tenho medo, pois, da sombra que pairará sobre a cabeça do sucessor do presidente Lula. Como poderá o sucessor se sobrepor a uma figura que consegue, contra a mídia, contra os poderosos, num ambiente de crise, manter-se em tão elevado índice de popularidade?

A liderança de Lula conseguiu, ainda que aos trancos e barrancos, unir o PT, o que não é pouca coisa, e tem conseguido deixar acuada uma oposição que lhe poderia ser mais radical. Observemos que mesmo os candidatíssimos Serra e Aécio não encontram facilidades em se mostrar como anti-Lula. Parece que esse não será o caminho abraçado pelos dois, a menos que a crise econômico-financeira recrudesça muito por aqui. (Daí talvez todo o terrorismo midiático).

O próximo presidente necessitará de habilidade e terá que contar com alguma sorte, caso contrário, e a despeito da aparente estabilidade de nossa democracia, talvez surja algum movimento do tipo “Volta, Lula”!

Interessante notar que, vendo por esse lado, apesar da extraordinária crise nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama parece estar em melhores lençóis do que tenderá a estar o próximo mandatário do Brasil, sobretudo se a coisa não ficar muito feia por aqui. Paradoxal, não?

sábado, 3 de janeiro de 2009

Mais um "ano eleitoral"

Em 2009 não haverá eleições. O ano, no entanto, deve ter muito de eleitoral, com a antecipação do clima de sucessão presidencial, a qual somente se dará no ano que vem. Em verdade, as urnas mal estavam fechadas em 2006, e já se falava do pleito de 2010. O ambiente sucessório, portanto, já se mostra presente desde o fim do primeiro mandato do presidente Lula.

Parece estar fechada questão no fato de que o próximo ocupante do Palácio do Planalto será o economista José Chirico Serra, que, como brinca Paulo Henrique Amorim, por enquanto apenas faz um estágio no governo do Estado de São Paulo! Mas, parafraseando pela enésima vez Mané Garrincha, é preciso combinar com os adversários! No caso de Serra, há que entrar num acordo também com os “aliados”...

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, já deixou bem claro que também é pré-candidato para 2010 e exorta seu partido a fazer prévias para escolher o postulante a ser o pós-Lula, como já se apressam em dizer alguns. Não é por nada, não, mas Aécio teria boas chances. O governador mineiro bem que poderia se aproveitar do descontentamento com o chamado “paulicentrismo”, que, com efeito, vem mesmo irritando alguns políticos de fora do maior estado do país, insatisfeitos com a hegemonia paulista na política brasileira desde a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso. (Lembrando que nem FHC nem Lula são paulistas de nascimento, mas, como se sabe, adotaram o estado e nele fizeram carreira política). Ademais, o presidente Lula bateu de forma esmagadora dois candidatos paulistas, inclusive o próprio Serra, nas duas últimas pendengas. O governador de Minas bem pode querer usar esses fatos recentes para superar o governador de São Paulo numa eventual disputa interna.

Isso tudo somente para dizer que Serra talvez já encontre alguma dificuldade dentro do próprio PSDB. Há, ainda, mais nomes importantes de outros partidos que correm por fora, como, por exemplo, o ex-ministro e ex-governador do Ceará, o paulista Ciro Gomes e, é claro, a ministra Dilma Roussef.

Dilma pode se beneficiar dos resultados práticos do atual governo, que, caso mantenha os bons índices de popularidade que ora ostenta, poderá ser seu principal cabo eleitoral. Na sucessão municipal de 2008 falou-se que restou demonstrado que o presidente Lula não tem tanta capacidade assim de transferência de prestígio. Que seja. Mas, por outro lado, alguns dos resultados das eleições nas prefeituras deixaram claro que a população não hesita em manter as coisas como estão se estiver satisfeita com o andar da carruagem (Kassab que o diga!).

Político hábil, experiente e inteligente, é possível que José Serra esteja atento às bobagens que escrevemos aqui. Ele deve saber que para realizar seu sonho de ser presidente da República Federativa do Brasil não bastarão editoriais vergonhosos, como o recentemente publicado no Estadão (O PAC paulista é melhor, de 13-11-2008), que só não se parece com uma peça de propaganda porque os marqueteiros não são tão caras-de-pau quanto os delirantes editores de jornais. O governador tampouco poderá contar somente com o puxa-saquismo de colunistas da mídia, como o de Paulo Rabelo de Castro, que em artigo na Folha (2009, um ano de (pré) eleição, de 17-12-2008), disse que Serra é inteligente e sagaz em tudo o que faz... Logo o Paulo, que costuma ver erro em tudo!

Trocando em miúdos, muita água deve passar por debaixo da ponte. Lembremos que, por volta de agosto de 2008, as pesquisas para a prefeitura de São Paulo mostravam Marta com cerca de 40%, Alckmin com pouco mais de 20% e Gilberto Kassab com não mais do que 10%. No final, o leitor o sabe, deu no que deu!

sábado, 21 de junho de 2008

"Qualquer um" acha que pode falar "qualquer coisa"

O blog do Azenha colocou à disposição dos leitores trecho de comentário de Lucia Hippolito na rádio CBN que, para criticar o técnico Dunga, encontrou um jeito de dizer que o presidente Lula teria feito um mal ao país, pois, por culpa dele, que nunca foi “nada” e virou presidente, “qualquer um no Brasil se achava capaz de fazer qualquer coisa”. Ela aproveitou para dizer, de quebra, que o mesmo valia para a ministra Dilma Roussef, que, segundo ela, quer “do nada” ser candidata no ainda longínquo pleito de 2010.

Então quer dizer que o presidente Lula nunca havia sido “nada”? Sindicalista em plena ditadura, deputado federal constituinte, presidente de partido político, presidente de instituto: tudo isso é “nada”? Dilma Roussef, por seu turno, já houvera passado por secretarias de governos estaduais; é ministra desde o início do governo Lula, atualmente ocupando uma segunda pasta. Ademais, pelo que me consta, ela não é candidata a absolutamente nada. E se fosse, não caberia à Lucia Hippolito decretar a impertinência de sua candidatura, sobretudo proferindo sua opinião num objeto de “concessão pública”.

A comparação das situações de Dunga e Lula, em minha opinião, não se sustenta numa análise mais aprofundada. O presidente Lula foi alçado ao seu posto pelo voto direto: após ser escolhido em convenção partidária, colocou-se à disposição do eleitor, que poderia, se quisesse, ter sufragado algum outro preferido de Lucia Hippolito. Já o caso de Dunga não foi o de escolha democrática. Provavelmente o técnico não foi bater à porta da CBF para pedir o cargo. Certamente os cartolas da entidade é que o procuraram: Dunga talvez não tenha achado que pudesse ser técnico da seleção; "acharam" isso para ele! O ex-capitão da seleção decerto não contava com o apoio popular e, ouso dizer, não assumiria o posto se dependesse de escolha por sufrágio universal. Trata-se, portanto, de situações muito diversas, não merecedoras da leitura – um tanto ingênua – da cientista política e historiadora.

Agora imagine outra situação, leitor: o técnico do escrete canarinho poderia muito bem dizer: “tem gente aí que – provavelmente – nunca jogou bola, que é comentarista de política, e acha que pode ficar falando de futebol, acha que pode palpitar a respeito de quem deve ou não deve ser técnico; será que ela acha que ‘qualquer um’ pode do ‘nada fazer qualquer coisa’, como usar uma rádio para espinafrar um técnico de seleção, por exemplo?”. Só que tem a liberdade de expressão... Senha para todo tipo de irresponsabilidade midiática.

Mas sejamos condescendentes com a Lucia. Vê-se no blog dela que ela lida com o futebol de maneira singela, como mera torcedora mesmo, com direito aos arroubos de paixão e de irracionalidade geralmente emprestados à prática. Observem que ela, não obstante sua formação científica, na hora do “vamuvê” até apela para a reza!

E por falar nisso, quanto mais eu rezo...

sábado, 10 de maio de 2008

Senador kantiano

O senador democrata José Agripino Maia deve ser grande entusiasta das idéias do filósofo Immanuel Kant (1724-1804). Nesta semana, Agripino sugeriu que a ministra Dilma Roussef pode ter mentido em relação ao dossiê das tapiocas do ex-presidente FHC, baseado no fato de que ela mentira para os seus torturadores durante o período do regime militar.

Na sua Crítica da razão prática, Kant lança os "imperativos categóricos", os quais devem ter exercido grande influência sobre a vida e o modo de pensar do senador potiguar. O imperativo categórico desvincula-se de qualquer condição. Sua formulação é a seguinte: “age de tal maneira que o motivo que te levou a agir possa ser convertido em lei universal”. Ora, diria Agripino, se a ministra mentiu sob tortura para aqueles que tentavam lhe tirar a verdade à força, certamente que mente em quaisquer circunstâncias. E a decepção do senador talvez seja ainda maior pelo fato de a titular da Casa Civil não ter, ela mesma, buscado universalizar seu ato e conseqüentemente ter chegado à conclusão que o fato de ela mentir poderia deixar todo mundo sob suspeita, pois se alguém acha que mentir pode ser desculpável em certas situações, forçoso será concluir que não se pode confiar em ninguém.

O filósofo prussiano certamente não merece simplificação tão grosseira; e é certo também que o imperativo categórico é digno de críticas e é posto em xeque em qualquer sociedade complexa que se imagine.

Agripino Maia é, provavelmente, um “deontologista”, ou seja, considera a ética como um conjunto de normas definidas, e, desse modo, defende que, se uma família, na Alemanha sob o nazismo, escondesse judeus em casa, deveria entregá-los à Gestapo, caso a polícia fizesse uma busca na sua residência. O senador certamente não é adepto da concepção “conseqüencialista”, a qual não parte de regras morais, mas de objetivos. Para o conseqüencialismo, mentir, por exemplo, será mau em algumas circunstâncias e bom em outras, dependendo das conseqüências que o ato acarretar.

As idéias do parágrafo anterior são praticamente coladas do livro Ética prática, do filósofo australiano Peter Singer, o qual, por incrível que pareça, não deve ter sido lido pelo senador democrata nem por seus abnegados assessores e colaboradores. Aos que ficaram interessados, a editora é a Martins Fontes e o preço médio está na casa de 50 reais.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Eleições 2010. Já?

Pesquisa CNT/Sensus publicada na última semana mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atingiu o segundo mais alto índice de popularidade desde o início de sua gestão. Não é de se estranhar, pois a semana também trouxe bons dados referentes ao emprego, à venda de automóveis e de outros bens de consumo duráveis e até em relação à dívida externa (pela primeira vez na história, o Brasil, segundo o Banco Central, pode ter se tornado credor externo).

A pesquisa também fez sondagens em relação à sucessão presidencial de 2010. O presidente Lula, em informação pouco divulgada, lidera a pesquisa nas respostas espontâneas, bem à frente do segundo colocado. Na estimulada, a liderança em todos os cenários é do governador de São Paulo, José Serra. A Constituição não permite o terceiro mandato consecutivo para presidente, por isso Lula não consta das opções apresentadas aos pesquisados na consulta estimulada. Os nomes do partido do presidente não aparecem bem em nenhum dos resultados, o que já fez alguns cientistas políticos suspeitarem que o PT deva pressionar o atual presidente a propor mudanças na Carta Magna para tentar mais um mandato consecutivo.

O exercício de futurologia não é para qualquer um, ainda mais no campo da política. Mas é muito cedo para afirmar que o PT, partido que desde a redemocratização do Brasil protagoniza a maioria das disputas importantes em todos os níveis no país, não tenha nenhum nome capaz de representá-lo para a sucessão do presidente Lula, sobretudo se ele prosseguir com os bons índices de aprovação que ora ostenta.

Façamos uma viagem no tempo: muito antes das primeiras eleições diretas após a redemocratização do Brasil, todos sabiam que Lula, Brizola e Covas dariam o que falar na disputa, mas poucos imaginavam que um certo Fernando Collor teria alguma chance naquele quadro. O êxito de Fernando Henrique Cardoso em 1994 não foi exatamente surpreendente, mas a possibilidade de vitória no primeiro turno, como efetivamente se deu, não era tranqüilamente aventada por especialistas muito tempo antes do início da corrida. O furacão Roseana Sarney também foi uma surpresa em 2002, até ter sua candidatura implodida pela atuação firme da Polícia Federal sobre as atividades de seu marido, atuação esta, aliás, que foi uma raridade no órgão durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso. Em 2005, no auge da crise do mensalão, era impensável a hipótese da reeleição do presidente Lula um ano depois. Muitos especialistas não acreditavam nas possibilidades eleitorais do ex-governador Geraldo Alckmin, mas ele conseguiu levar a pendenga de 2006 para o segundo turno contra o presidente Lula, um mito verdadeiro, como reconheceu o próprio ex-governador, em recente entrevista ao canal Record News. Por essas e muitas outras é que se deveria pensar duas vezes antes de se fazer afirmações tão peremptórias em relação a uma eleição que somente ocorrerá daqui a dois anos.

Há a possibilidade de o PT fazer o sucessor de Lula, mas não como cabeça de chapa. Isso dependeria de Aécio Neves trocar o ninho tucano pelo PMDB. Há quem diga que isso é uma espécie de desejo secreto do presidente. Mas será que não há mesmo ninguém no Partido dos Trabalhadores sonhando em ocupar o Planalto depois de Lula?

Um nome do PT que é sempre lembrado é o da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Ela tem se destacado pela atuação firme e pela imagem de técnica inteligente. Ela poderia ser ajudada por um turbilhão de presença feminina ativa na política internacional: Michele Bachelet no Chile e Cristina Kirschner na Argentina; nos Estados Unidos, a pré-candidatura de Hillary Clinton. A ministra Dilma, se o governo Lula continuar numa maré de razoabilidade, ainda terá a seu favor um bom cabo eleitoral para 2010.

Conforme sugerimos acima, é precipitado fazer desde já projeções para 2010. É bom não esquecer que José Serra, grande favorito para a próxima corrida presidencial, não vive um momento tão esplendoroso assim na sua carreira. No seu governo, há grandes problemas semelhantes aos que vive o governo federal, envolvendo inclusive cartões de natureza parecida com os corporativos. Ademais, foram descobertas recentemente suspeitas de irregularidade na sua campanha presidencial de 2002. E o governador tem encontrado dificuldades até mesmo de emplacar suas idéias no partido, notadamente as referentes à sucessão da prefeitura paulistana, na qual ele gostaria de ver seu partido engajado na reeleição de Gilberto Kassab. Todo esse clima tende a se agravar – ou se ampliar – até o pleito de 2010.

Dilma Roussef, se se mantiver em posição desfavorável nas pesquisas, certamente será num primeiro momento poupada de ataques. Tendo, porém, seu nome mais divulgado, expor-se-á às críticas, mas ficará mais conhecida do eleitor. A postura séria, decidida e equilibrada que ela mostra nas suas aparições certamente tem o objetivo de, por antecipação, apagar – ou polir – a imagem de guerrilheira que, provavelmente, será rememorada pelos adversários se ela entrar na disputa. Mas, depois de Lula, é provável que o eleitor não acredite mais em histórias de bicho-papão!

E ainda estamos em fevereiro de 2008...