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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Eleições 2012 - São Paulo - A trivial vitória de Haddad

Numa boa navegada nas raras e recentes postagens deste blog o leitor verá que, em contraponto a colunistas da mídia tradicional, asseguramos que a cidade de São Paulo sempre esteve longe de ser uma fortaleza antipetista. Desde 1988, o Partido dos Trabalhadores é no mínimo segundo lugar nas brigas pela prefeitura.

No mesmo esforço de desconstruir mitos criados por jornalistas dos meios convencionais, mostramos, também, que o PSDB nunca chegou a ser uma força incontestável nas disputas paulistanas, tanto que desde a sua fundação somente chegou ao segundo turno da metrópole, agora, por duas vezes, ambas com José Serra - descontando-se Kassab, eleito pelo DEM em 2008, vencendo, inclusive, o peessedebista Alckmin naquele ano (noves fora a cristianização do atual governador).

Anotamos, também, que a despeito da força petista no município, sempre a garantir-lhe no mínimo o segundo turno, a adesão não era automática, em vista das nossas dificuldades de trabalhar e garantir a identificação partidária, o que explicava, em parte, o por algum tempo resiliente fenômeno Celso Russomanno.

Por fim, este blog jogou no lixo as pesquisas e apostou na vitória do petista Fernando Haddad com base somente nos resultados de Russomanno no primeiro turno, bastante consistentes justamente na periferia da cidade, reduto petista, entendendo como certa a transferência de votos do midiático político do PRB para o candidato do PT. 

Fechadas as urnas, pipocam as análises, com claras tentativas de se fazer conjeturas, sendo irresistível, num primeiro momento, apostar que o caminho para a vitória da situação no pleito de 2014 já está mais do que trilhado, assim como pode-se já estar se desenhando a destituição do PSDB do governo do estado de São Paulo.

Há que se andar devagar. Recorde-se que não faltou quem garantisse que a vitória de Kassab em 2008 indicava altíssimo prestígio do padrinho dele, José Serra, gabaritando-o para o Planalto no pleito de 2010. Razão estava, porém, com os poucos que se recusaram a nacionalizar aquela disputa, entendendo ter sido a pendenga de 2010 resolvida noutros termos, efetivamente municipais.

E em nível estadual, o discurso da turma que está há 20 anos no governo já deve estar até redigido: dono da prefeitura, dono do governo federal com chances de ser reeleito, não podemos dar ainda mais poder ao PT. O assunto é velho e tende a se repetir. Resta somente saber até quando o eleitor paulista vai sucumbir a essa baixa chantagem que usa em vão o santo nome da democracia.


sábado, 20 de outubro de 2012

Eleições Municipais 2012 - São Paulo - Haddad e Serra

Alguém que tenha enfrentado o coma durante pouco mais de um mês no período do primeiro turno, ao ver Fernando Haddad, do PT, e José Serra, do PSDB, enfrentando-se no segundo turno da cidade de São Paulo, não imaginaria que Celso Russomanno foi invariavelmente considerado um fenômeno eleitoral na maior parte desse tempo.

A "finalíssima" paulistana, portanto, nada mais representa do que o quadro mais óbvio do embate: de um lado Serra e seu fortíssimo recall, típico dos que não se cansam de se candidatar, de outro Haddad, o representante do partido que desde 1988 é no mínimo segundo lugar na metrópole, o PT.

O resultado, inesperado para alguns até no último dia da primeira fase do pleito, fez aumentar as dúvidas sobre a lisura das pesquisas. Por esse motivo, muitos entusiastas do Partido dos Trabalhadores e de Fernando Haddad estão com um pé atrás com pesquisas que lhe vêm dando, nos votos válidos, vantagem de 20 pontos percentuais sobre seu oponente. É teoria da conspiração que não acaba mais.

A nós, tal resultado não surpreende.

É saudabilíssima a desconfiança para com os institutos de pesquisa. Para sermos radicais, são indignos de crédito. Com mais moderação, digamos que no mínimo devem ter suas sondagens tomadas com cautela. Entretanto, não há, de outro lado, porque não acreditar nos números oficiais do TRE. E os resultados oficiais do primeiro turno já, no mínimo, apontavam para a possibilidade do quadro que as pesquisas dizem vir captando.

Como boa parte dos leitores deve ter visto, mapas (que abdicaremos de reproduzir aqui) mostram como o voto se dividiu em São Paulo: aparece pintado de azul no chamado centro expandido, e veio de vermelho nas regiões periféricas. Ou seja, vitória tucana no primeiro e petista no segundo. Neste quadro, em vista dos números excelentes do terceiro colocado, não havia muita dúvida de que o fiel da balança seria o eleitor de Celso Russomanno.

O aspecto mais claro dos resultados do primeiro turno era a fraca votação de Russomanno (cerca de 8%, na média) na região central, aquela que foi a mais generosa com Serra. Ora, já era de se supor que o tucano não se beneficiaria tanto com a possível transferência do grosso dos eleitores russomannistas da região, que por óbvio acrescentariam quase nada à sua votação total do primeiro turno, a qual ademais foi muito pouco acima da do petista.

Por outro lado, no chamado cinturão vermelho, o fenomenal Russomanno ainda não havia desidratado o suficiente, tendo terminado o primeiro turno acima de 20%. Entendendo que o candidato do PRB havia crescido justamente no eleitorado tipicamente petista, hegemônico naquela faixa da cidade, já se previa uma transferência maior para Fernando Haddad. Para piorar as coisas para Serra, o peso proporcional dos eleitores da periferia ainda ajudava a entender - da forma mais dolorosa - a tal de ponderação de que os estatísticos tanto falam.

A tendência pró-Haddad já era tão forte apenas com os números de Russomanno, que nem precisaria, lá, ao fim do primeiro turno, apostar que o também bem votado Gabriel Chalita e seu "capilarizado" PMDB fechariam apoio ao petista.

Entendendo, pois, não ser surpresa nenhuma a liderança extraordinária de Fernando Haddad nessa corrida do segundo turno de São Paulo, ainda assim, é válido aquele velho clichê do mundo político que diz "mineração e eleição, só depois da apuração".


Leia também outros textos do blog sobre as eleições municipais 2012 em São Paulo:

Sobre Celso Russomanno
Sobre aliança PT-PP
Sobre o drama paulistano do PSDB
Sobre a força do PT em São Paulo

domingo, 7 de novembro de 2010

O vermelho é mais vermelho, o azul é menos azul, mas isso não tem importância

Pouparei o leitor da reprodução do mapa brasileiro, pintado de vermelho nos estados da Federação em que Dilma Rousseff, do PT, bateu José Serra, do PSDB, e de azul nas unidades do País em que se deu o contrário. A mídia o fez ad nauseam e, provavelmente sem querer, ajudou a desencadear até ondas de preconceito e intolerância na rede mundial de computadores contra o nordeste, região supostamente responsável pela vitória da candidata petista.

É um grande clichê dizer que os números normalmente escondem realidades concretas só perceptíveis quando sobre eles nos debruçamos. E justamente por ser um chavão é de se encarar com tristeza o fato de as análises terem deixado de tomar certos cuidados. A bem da verdade, alguns órgãos de imprensa, de forma tímida e um pouco atrasada, correram a lembrar que, mesmo se se desconsiderasse o nordeste, ainda assim Dilma venceria as eleições, mesmo que de forma extremamente apertada.

Abrindo parênteses, cabe lembrar o belo comentário do jornalista Rodrigo Vianna, advertindo-nos de que não se deve cogitar a ideia de se excluir a votação da região nordeste para dar maior legitimidade ao trunfo da petista. Em verdade, a legitimidade de sua eleição vem justamente do ótimo resultado que ela obteve em todo o País, inclusive - é óbvio - no nordeste.

Voltando à realidade que se esconde atrás dos números, não se descarte o fato de a candidata da coligação liderada pelo PT ter vencido também na região sudeste, com êxito extraordinário nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, com números rondando a casa dos 60%, um pouco a mais no primeiro e um tiquinho abaixo no segundo, situação que vem em reforço da desconstrução da tese que quer atribuir ao voto nordestino o sucesso de Dilma.

Além disso, melhor mapa seria aquele que trouxesse gradações de cores. Sim, pois em alguns estados o vermelho dilmista deveria vir em tons mais fortes, caso de Amazonas, Pernambuco e Bahia, por exemplo, onde alcançou mais de 70% dos votos válidos. O azul serrista, por seu turno, teria que vir mais enfraquecido em estados como Rio Grande do Sul, Goiás e Espírito Santo, lugares em que faturou com pouco mais dos 50% dos votos válidos.

A leitura simplista dos números impede, também, de se ver as nuanças de cada localidade. No estado de São Paulo, por exemplo, onde Serra foi vitorioso com respeitável vantagem, foi digna de nota a dianteira da presidente eleita em importantes municípios, como Osasco, São Bernardo do Campo, Mauá, Diadema, Ferraz de Vasconcelos, Poá, Franco da Rocha, Francisco Morato, Carapicuíba, Barueri e Itapecerica da Serra, todas na grande São Paulo, cidades marcadas por considerável pujança econômica, por um lado, ou tidas como cidades-dormitório, por outro, ou seja, Dilma Rousseff, ao que parece, empolgou de forma massiva boa parte da classe trabalhadora urbana do entorno da capital paulista.

De se realçar, também, o bom resultado da primeira mulher a se eleger presidente da República na região de Campinas, repetindo, aliás, êxito do primeiro turno, faturando em Sumaré, Hortolândia, Santa Bárbara D'Oeste e outras. Nesta área, mesmo Aloízio Mercadante navegou bem no primeiro escrutínio, na sua malfadada disputa pelo governo do estado.

Do lado de Serra, registre-se que, derrotado nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, foi o preferido em vários municípios fluminenses e mineiros, borrando fortemente de azul os majoritariamente avermelhados mapas dessas unidades da Federação. Em desfavor do tucano, destaque-se que não ganhou em nenhum município do Amazonas, o que é surpreendente se se levar em consideração os expressivos resultados que obteve nos nortistas Roraima e Acre.

Pois bem, senhores. Dentro de uma caixa há outra caixa. Pegue-se o mapa do Brasil, com seus estados tingidos de vermelho ou azul: tem-se parte da história. Em seguida, isole um dos estados e ver-se-ão seus municípios também pintados daquelas duas cores, indicando, portanto, que as opções não foram categoricamente hegemônicas. Mesmo sem os dados, arriscamo-nos a dizer que informações ainda mais contraditórias ou surpreendentes viriam se se isolassem os bairros ou distritos de cada cidade, e dentro deles tivéssemos acesso aos resultados das diferentes zonas e seções. Se me permitem mais um chavão, a questão é deveras complexa. E só!

Alguma análise, de cujo autor indesculpavelmente não me lembro, apontou muito bem que a eleição brasileira é na base do sufrágio universal, não representando as unidades da Federação nenhuma espécie de colégio eleitoral, como é o caso dos Estados Unidos. Como cada voto é um voto, e como leva aquele que consegue o maior somatório de sufrágios, pouca importância há se os eleitores vêm do Tocantins ou do Paraná, se é de Itabaiana ou de Belford Roxo, ou se é do bairro da Penha ou da Lapa do Rio de Janeiro, ou da Penha ou da Lapa de São Paulo.

sábado, 21 de agosto de 2010

Cartinhas

Nesta semana que finda recobrei uma velha e estéril mania: a de encaminhar mensagens para órgãos de imprensa. Mandei algumas missivas eletrônicas para a Folha de São Paulo e para a rádio CBN. Que eu saiba, apenas uma das "cartas" foi publicada na versão eletrônica do Painel do Leitor, da Folha.

Dividirei com vocês as impressões que enviei para os órgãos supracitados. Como se sabe, temos que buscar ser sucintos se quisermos ver nossas mensagens publicadas. Por isso, não há, evidentemente, nenhum aprofundamento nos temas tratados - até porque talvez não tivéssemos mesmo condições para tanto!

Eleições estaduais - São Paulo
Nesta semana ocorreu o debate Folha/UOL com os candidatos ao governo estadual, com direito a comentaristas do jornal sobre a sucessão, parecendo achar normal o quadro que traz Geraldo Alckmin (PSDB) bem à frente de Aloízio Mercadante (PT) nas pesquisas. A Folha dá como favas contadas a eleição do candidato tucano, tanto que chegou a publicar um editorial de nome "mesmice paulista". Abaixo, a "cartinha":

Geraldo Alckmin tem hoje em São Paulo o único capital político que José Serra tinha no Brasil há cerca de um ano: o recall.
Em nível federal, o destaque dado pela mídia à disputa presidencial colocou os pingos nos “is”. Talvez sem querer, a imprensa acabou mostrando que Serra não passa de um “trololó ambulante”, ao passo que Dilma Rousseff é uma mulher preparada e conhecedora do Brasil. Resultado: a petista sobe enquanto o tucano desce.
Já em São Paulo o debate acerca da pendenga estadual está – para não dizer interditado pelos meios de comunicação – obscurecido pela corrida ao governo federal. Só isso para explicar a “mesmice paulista”, com a dianteira do candidato de um governo que, depois de 16 anos, deixa como legado uma educação catastrófica, transporte público em colapso e a saúde e segurança em frangalhos.
O (e)leitor precisaria ser mais bem informado sobre o pleito no estado de São Paulo.


Ingratidão com FHC
No debate Folha/UOL com presidenciáveis, José Serra (PSDB) acusa Dilma Rousseff (PT) de ser ingrata com os anos FHC. Pilheriei com a cara de pau do tucano.

O presidenciável José Serra, no debate online Folha/UOL, chamou Dilma Rousseff de ingrata por ela não reconhecer supostos avanços dos anos FHC.
Ora, foi o Serra candidato a presidente em 2002 que tentou se esquivar do governo de Fernando Henrique Cardoso, do qual participara como ministro desde o começo. Estratégia, aliás, que viria a ser repetida por Geraldo Alckmin em 2006.
Agora, no pleito deste ano, o jingle da campanha do "Zé" exalta a era Lula, em vez de lembrar os tempos de Fernando Henrique.
Portanto, em matéria de ingratidão com FHC ninguém bate o candidato Serra!


É a Folha que infantiliza os seus leitores
Comentário sobre o editorial Pai e Mãe, de 19.08.2010:

A Folha, em vez de ter a coragem de admitir que apoia uma das candidaturas à presidência da República, aproveita o editorial “Pai e Mãe” para tentar, covardemente, desqualificar a candidata Dilma Rousseff.
Ao buscar sustentar sua opinião, o jornal desrespeita a economista, fazendo pouco caso de sua luta contra a ditadura militar, dos seus cargos como secretária municipal e estadual, ministra de Estado e personagem relevante da articulação política no bem-sucedido governo Lula, especialmente no segundo mandato.
Tomando de empréstimo a elegância e alguns argumentos de um Sérgio Buarque de Holanda, o – apesar de tudo - bem escrito editorial vai fundo demais ao tentar colar a pecha de antirrepublicana na estratégia petista que usa a metáfora da “mãe” para falar de Dilma.
Pois é a imprensa – de braços dados com a oposição – que tem tentado, nesses anos todos, ora transformar a petista numa figura manipulável, sem vontade própria, do tipo que se deixa levar, ora qualificá-la como durona, mandona, às vezes até autoritária. Convenhamos, nada mais parecido com nossas mães do que isso!
Com um pouco mais de, digamos, profundidade filosófica, o editorial da Folha apenas chancela parte das erráticas estratégias da frente serrista, mostrando, assim, que, ao contrário do que afirma, tem lado nesta campanha. Por fim, o jornal é que infantiliza os seus leitores, achando que eles não têm inteligência para perceber isso.


Alguém conhece "de verdade" o Serra?
Missiva encaminhada à Folha, estranhando críticas de Eliane Cantanhêde à candidata Dilma Rousseff, por ser ela supostamente uma incógnita, ao passo que Serra todos sabem bem quem é. Não há negar que a colunista da Folha escolheu um dos piores momentos para fazer tal tipo de afirmação em favor do tucano!

Em sua coluna “Lula lá ou Lula cá em 2011?”, Eliane Cantanhêde se mostra cheia de dúvidas de quem realmente seria Dilma Rousseff e do que se poderia esperar de um eventual governo dela – não obstante os ataques que vem desferindo à ex-ministra nestes anos todos nos fizessem pensar que, ao contrário, ela conhece a candidata petista bem demais!
Mas o principal não é isso. O mais intrigante foi a colunista falar que se sabe muito sobre José Serra. Interessante! Desse jeito ela pode até ser chamada para ajudar na campanha do tucano, haja vista que muitos dos correligionários dele parecem já não saber quem de fato é Serra.
Com efeito, qual Serra conhecemos bem? O que critica de forma dura o governo Lula ou o que tenta se aproveitar da popularidade do presidente no horário eleitoral? O que acusa Dilma de ingrata por não reconhecer avanços no governo FHC ou o candidato acostumado – desde 2002 – a esconder o ex-presidente nas suas campanhas? O que tenta se apropriar dos remédios genéricos ou aquele que admite ter sido apresentado ao programa por um companheiro de partido?
Falar que se conhece bem José Serra nessa altura do campeonato,quando o próprio tucano se perde nas suas contradições, é o tipo de postura ingênua a que jornalistas profissionais não deveriam ter direito.


Liberdade de imprensa e liberdade de expressão
Mensagem encaminhada à rádio CBN, em razão das platitudes da comentarista Lucia Hippolito, no dia 20.08.2010:

Ouvi hoje o comentário de Lucia Hippolito, no “por dentro da política”, sobre o compromisso dos candidatos à presidência da República com a liberdade de expressão.
Fiquei esperando ansiosamente que ela puxasse a orelha do candidato José Serra, que fica agredindo jornalistas da TV Brasil, um candidato a presidente que não responde diretamente às perguntas que lhe são feitas, que tenta desqualificar os entrevistadores, que acusa blogs independentes de serem “sujos” e engordados com verba federal. A propósito, os tais “blogs sujos” a que ele se recusou a nominar, por acaso podem ser alijados do sagrado direito à liberdade de expressão? Espero que a grande mídia se insurja contra essa postura autoritária do ex-governador de São Paulo!
Achei bastante oportuna a lembrança, por parte de Lucia, de que a liberdade de expressão se sobrepõe à de imprensa, informação que a mídia normalmente sonega ao público, antes querendo fazer que pensemos ser a liberdade de imprensa a própria liberdade de expressão. Por ter certamente contrariado seus patrões neste particular, Lucia merece nossos entusiasmados parabéns!
A este propósito, é muito interessante o “respeito” do candidato do PSDB também com a liberdade de expressão strictu sensu dos cidadãos. Não faz muito, no interior de São Paulo, o tucano chamou um manifestante de “energúmeno”, com certeza inspirado pela sua cria (esse, sim, um poste) Gilberto Kassab – provavelmente outro grande defensor da liberdade de expressão! – que expulsou um trabalhador de um espaço público aos gritos de "vagabundo".
Aliás, energúmeno e vagabundo é o mínimo que se fala do presidente Lula nas seções de comentários de sítios eletrônicos dos jornais, que, defensores da liberdade de expressão que são, permitem sem nenhum pudor esse tipo de descalabro. Puxa vida, e o autoritário do Lula não faz nada?!?! Como pode uma coisa dessas?!
Com tudo isso, causa estranheza a preocupação de Lucia com alguma espécie de, digamos, “ímpeto censor” do partido da candidata Dilma Rousseff, o PT. Na hora em que ela disse isso cheguei a pensar: será que integrantes do Partido dos Trabalhadores ligam para os barões da mídia pedindo a cabeça de jornalistas?
De qualquer forma, é bom saber que temos tanta gente defendendo a liberdade de expressão no Brasil, e que podemos falar de tudo, de preferência dentro dos limites das responsabilidades legais, é claro. Se bobear, podemos falar até do preço dos pedágios nas rodovias paulistas!

domingo, 18 de julho de 2010

Dilma, Serra, mídia e o feel good factor

"Garimpo e eleição, só depois da apuração". A frase, atribuída a Tancredo Neves, encerra a dificuldade de se fazer previsões acerca do resultado de escrutínios. Não obstante isso, o uso da razão permite apostar as fichas na vitória de Dilma Rousseff, do PT, na corrida presidencial de 2010. Muitos analistas têm enveredado por esse caminho.

Tem-se usado muito uma expressão emprestada do inglês, o "feel good factor", para afirmar que as condições atuais do Brasil favorecem, em nível federal, uma onda situacionista: previsão de crescimento do PIB em torno de 6%, resultados positivos na criação de empregos, inflação controlada, aumento da renda do trabalhador, expansão do crédito. Para usar outra expressão bastante batida, "é a economia, estúpido".

As hostes oposicionistas sentem o golpe. Apresentar-se como oposição contra um governo com aprovação acima de três quartos da população não é tarefa fácil. Parece que nada funciona para afinar o discurso. Lula e o PT, no pleito de 1994, enfrentaram o mesmo problema em virtude do megassucesso do Plano Real - e o resultado das eleições todos sabemos qual foi.

O candidato José Serra, do PSDB, valendo-se do mote de seu concorrente Aécio Neves, até que tentou se colocar como um pós-Lula, apostando todas as fichas numa simples comparação de biografias contra os demais candidatos, notadamente, é claro, contra a candidata Dilma. Como parte da estratégia, tenta-se fugir da ideia plebiscitária de comparação dos oito anos de governo do PSDB e dos oito anos de PT, certamente por entender que as coisas são favoráveis a este último período; antes, busca-se falar de avanços que supostamente se iniciaram com a redemocratização do País. Como corolário disso, a afirmação de que PT e PSDB, Lula e FHC, Dilma e Serra são, no fundo, tudo a mesma coisa.

A estratégia até que não seria ruim não fossem as ligações perigosas da oposição com a mídia. Durante oito anos o conglomerado midiático tenta desconstruir o governo Lula, sempre pintando-o como um fracasso, superlativando seus defeitos, fazendo-lhe cobranças desproporcionais em relação ao que exige, por exemplo, dos governos estaduais a cargo do PSDB. Agora vem o candidato da mídia e diz que não é tão oposição assim, que não se trata disso, que, bem-intencionado, apenas acha que o Brasil pode mais!

As duas vitórias de Lula - principalmente a de 2006 - e a resiliência de sua popularidade provam que a mídia não vive seus melhores dias; mais do que isso, ficar de braços dados com ela é carregar um peso morto. PSDB, DEM e PPS vão perceber, mais cedo ou mais tarde, ter sido um grande erro terceirizar o trabalho de oposição para os meios de comunicação, senão vejamos: para continuar, por motivos eleitoreiros, elogiando Lula e o governo, Serra teria que pedir aos seus amigos da imprensa que parassem de malhar diariamente o presidente; por outro lado, se, em coro com a mídia, o tucano começasse a reverberar o ódio e o preconceito de seus companheiros colunistas, bateria de frente com o povão que apoia o governo. Ambas as iniciativas sairiam caras para o candidato.

A saída mais honrosa para a oposição talvez tivesse sido arregimentar novos filiados e escolher um deles para lançar como anticandidato, só para marcar presença na disputa. Três nomes me vêm à mente: Judith Brito, Arnaldo Jabor e Otávio Frias Filho.

sábado, 1 de maio de 2010

Pedro, Gilberto e Alberto

Responda-me, amigo (e)leitor de São Paulo: em 1994, você votaria em Pedro Piva para senador pelo estado? Em 2004, escolheria Gilberto Kassab para prefeito da capital? Em 2006, sufragaria Alberto Goldman para governador?

Aos que disseram sim, por favor, não fiquem bravos comigo se eu concluir que a maioria responderia um sonoro não.

No entanto, durante a maior parte do tempo entre 1995 e 2003, São Paulo se fez representar no Senado Federal justamente pelo empresário Pedro Piva; a capital paulista, por sua vez, já a partir do início de 2005, teve efetivamente à sua frente o então desconhecido Gilberto Kassab, oriundo do naquela época PFL, partido sem tradição em São Paulo; e, por fim, atualmente o estado está nas mãos de Alberto Goldman, veterano político que ainda não tem seu nome na ponta da língua da maioria dos cidadãos paulistas.

Piva, Kassab e Goldman tiveram a sorte de ser suplente ou vices de cargos eletivos de titularidade de José Serra.

Eleito senador com excelente votação em 1994, Serra de cara o preteriu para ocupar o importante Ministério do Planejamento no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Posteriormente, ocuparia, também no governo FHC, a pasta da Saúde. Como se vê, o “senador” ficou praticamente todo o período do mandato ocupando cargos no governo que hoje procura esconder. Coube a Pedro Piva representar a população de São Paulo, que, maciçamente, votou em José Serra para senador.

Em 2004, Serra derrota Marta Suplicy na corrida pela prefeitura de São Paulo. Apesar de reiteradas promessas de que cumpriria os quatro anos de mandato, o alcaide, cotado à época até para ser candidato a presidente, abandonou a prefeitura para disputar o governo do estado em 2006, ou seja, após pouco mais de um ano de administração. Cumpriu-se a profecia da campanha petista de 2004, que, ciente da desmedida ambição de Serra, já alertava o eleitor de que a prefeitura ficaria, inexoravelmente, nas mãos do “incógnito” Kassab.

Agora, por força das exigências da legislação eleitoral, pré-candidato à presidência da República, Serra - depois de uma administração sem brilho, nas insuspeitas palavras da Folha de São Paulo -, deixa o estado nas mãos de Alberto Goldman, para um mandato tampão de poucos meses.

Em vista dessas informações, causa estranheza uma mensagem eletrônica que vem circulando em forma de “corrente”, dando destaque ao fato de que uma possível vantagem de José Serra sobre a sua principal adversária seria o fato de já ter disputado diversas eleições e, mais do que isso, ter ocupado cargos eletivos. O corolário disso é que Serra teria mais experiência. A mensagem não informa, todavia, que o candidato não concluiu justamente os principais mandatos para os quais foi eleito, não havendo, neste caso, muito sentido em se falar do impreciso conceito (em política) de experiência.

Tudo bem que boa parte do proselitismo encaminhado via e-mail, em especial os apócrifos, não prima pelo respeito à verdade, dado o seu caráter de pura propaganda e dado sua falta de compromisso ético. O problema, porém, é que a própria pré-campanha do ex-governador – assim como a de seus aliados na mídia – também bate na tecla do “experiente concorrente em eleições e ocupante de importantes mandatos eletivos”, que botaria Serra, do PSDB, em vantagem sobre Dilma Rousseff, candidata do PT.

E pensar que Serra, o homem que não costuma honrar os mandatos que os eleitores lhe confiam, poderia ter tido como vice, para este pleito de 2010, ninguém menos do que um José Roberto Arruda! E não para por aí: há o risco iminente de ele ter como vice a ruralista Kátia Abreu, representante do mais pragmático conservadorismo que poderíamos imaginar. Será que disso a Regina Duarte não tem medo? Decerto que não...

sábado, 17 de abril de 2010

A primeira semana de 2010

Com o lançamento da pré-candidatura do tucano José Serra, quase dois meses após do da petista Dilma Rousseff, o quadro das eleições presidenciais de 2010 definitivamente fica mais induvidoso, com a possível repetição da polarização - PT e PSDB - que marca a política nacional desde 1994.

Mais do que nunca, a mídia se destaca como figura importante, atuante, da pendenga. Dessa feita, a afirmação não parte das constatações de analistas independentes ou de políticos ligados à esquerda ou à base de Lula, mas da própria presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Maria Judith Brito, que admitiu, sem qualquer cerimônia, que a imprensa atua como um "partido de oposição". Confira a declaração dela, com os nossos grifos:

A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo.

A confissão da presidente da ANJ apenas reforça o que todos no fundo já sabiam. Agora, que a campanha já começou, já dá para perceber a tônica de como a disputa se dará (aparecerá) na mídia: crítica virulenta ao governo Lula, esforços para tornar negativa a agenda da candidata Dilma e, por fim, simbiose entre imprensa e candidato da oposição.

Peguemos alguns fatos (ou factoides) da semana e sua divulgação (análise) nos meios de comunicação.

Quem ignora quem?
A Folha de São Paulo, em 14.04.2010, veio com a seguinte manchete: "Obama ignora Lula e pede sanções imediatas ao Irã". A chamada principal de O Estado de São Paulo na mesma data foi "Obama ignora Lula e mantém pressão por sanções ao Irã". As manchetes quase idênticas, além de darem uma boa pista da "diversidade" no império midiático, comportam uma dificuldade para os diários paulistanos, genuínos depositários do complexo de vira-latas brasileiro, na feliz expressão de Nelson Rodrigues.

Com efeito, levando em conta que temos um presidente da República não raro admoestado nos editoriais dos mesmos jornalões por sua soberba, sempre convidado a lembrar-se de nossa desimportância, fica estranho de repente incluí-lo entre os que tiram o sono do chefe de Estado mais importante do mundo, mandatário-mor da nação mais influente do planeta. Se Lula é somente um megalomaníaco a quem ninguém dá ouvidos, por que justo o Obama esquentaria a cabeça com ele, ainda que fosse para ignorá-lo, a ele se opondo? Mais sensato, parece-nos, seria a nós dispensar a indiferença com a qual toda a vida nos acostumamos.

A melhor leitura do caso parece ter sido a do historiador Gilberto Maringoni, que em depoimento ao sítio Carta Maior sugeriu que seria mais prudente a inversão das manchetes da Folha e do Estadão para algo do tipo "Lula ignora Obama e mantém negociações com o Irã". Em nossa opinião, Maringoni mandou bem e venceu o jogo no próprio campo dos principais jornais de São Paulo. Afinal, como ser crítico feroz da política externa do governo Lula reconhecendo de forma tão categórica a importância internacional das posições adotadas pelo País?

Ah, só para lembrar, os principais críticos do governo Lula, incluindo a mídia, depositam esperanças na possibilidade de que a oposição, se vitoriosa, mude os princípios independentes e assertivos da atual política externa brasileira.

O "problemão" de Dilma
No mesmo 14.04.2010, o Estadão avisa que Dilma tem problemas com alianças em 15 estados da Federação, o que atingiria, pela conta do jornal, 63% do eleitorado brasileiro. Sabe a que se resume o problema da candidata do PT, caro leitor? Ao excesso - isso mesmo, "excesso" - de palanques!

Acredite se quiser, amigo (e)leitor: o que talvez fizesse Serra abrir alguns de seus raros - e pouco francos - sorrisos é, segundo o centenário jornal paulistano, um problemão para a candidata Dilma. Deve ser verdade. Já imaginaram se a ex-ministra tiver que, na mesma semana, visitar o candidato a governador X às segundas, quartas e sextas, e nas terças, quintas e sábados precisar subir ao palanque com o candidato Y, ferrenho adversário de X? Que confusão! Imagina a ciumeira entre eles!

Como bem definiu o deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ) em interessante postagem em seu blog, trata-se de um caso de wishful thinking do Estadão, ou seja, vejo as coisas na ótica que entendo ser mais favorável para mim ou como gostaria que elas se revelassem. Na dura realidade, porém, o excesso de aliados nos estados não é problema de Dilma Rousseff; a falta deles é que é para Serra.

O que foi que você disse?
O dia 14.04.2010 parece ter sido profícuo no discurso unificado da imprensa. Na mesma data, dessa vez na Folha, o colunista Fernando Rodrigues comenta a polêmica, disseminada na mídia, sobre frase que, aliás, não foi dita por Dilma Rousseff. A petista, em discurso no ABC paulista, falou generalidades acerca de não abandonar a luta. Alguns interpretaram como críticas aos que se exilaram durante o período militar, como é o caso de Serra. Pior do que isso, a mesma Folha transcreveu incorretamente o que disse a ministra, incluindo trecho sobre exilados em sua fala, o que de fato não ocorreu.

O mais interessante, porém, foi Rodrigues puxar a orelha da petista, buscando ensinar-lhe que, em política, "tudo o que precisa ser explicado não é bom". Acrescentou que "Dilma Rousseff tem se explicado muito". Teorizou que "são apenas sinais da inexperiência de Dilma quando se trata de ficar sob a tensão de uma campanha".

Rodrigues deve estar de brincadeira. Brincadeira pior do que quando, no programa Roda Viva com Protógenes Queiroz, sugeriu que agentes secretos deveriam fazer seu trabalho revelando a identidade! A questão é simples: Dilma precisa se explicar muito porque dela são cobradas explicações, inclusive sobre fatos inverídicos. Suas falas "reais" não revelam inexperiência em campanhas; somente são frases fortes que chamam, naturalmente, a atenção na mídia, que quer a ela impor uma agenda negativa a todo custo - e não é de hoje, diga-se. À candidata, nada resta senão apagar os incêndios, os quais a muitos sequer deu causa. Não é justo, mas é assim que as coisas funcionam. Infelizmente.

Do outro lado, do candidato José Serra não são cobradas explicações. Por exemplo, o que fez a imprensa quando o governador soltou os cachorros para cima de repórter da TV Brasil que lhe fez pergunta incômoda numa coletiva de imprensa? Absolutamente nada. Ora, seria o caso de tentar ver se a sua defesa da liberdade de imprensa, cantada em prosa e verso inclusive no lançamento de sua candidatura, é para valer mesmo ou se, em caso de ser eleito, os jornalistas terão que lhe fazer apenas as indagações que lhe agradem.

Em resumo, não é Dilma que tem tido de se explicar muito. É Serra que não tem explicado nada.

Pitta estava para Maluf como Kassab está para Serra
Serra, como é de todos sabido, é o candidato da oposição mas, esquizofrenicamente, não quer fazer oposição a Lula. Vai entender...! Aposta tudo na comparação de sua biografia com a da ex-ministra. Ademais, ele está no melhor dos mundos, pois enquanto preserva o presidente brasileiro, seus jornalistas amigos trabalham arduamente para não somente fazer balanços negativos do governo como, especialmente, esconder os dados positivos, dentre os quais, a criação recorde de empregos no primeiro trimestre. É um bate-bola perfeito!

Vejamos a que ponto chega a tentativa de fugir do debate de projetos. Em entrevista à rádio Bandeirantes, para fustigar a candidata "desconhecida" do presidente mais popular da nossa história, o ex-governador valeu-se do exemplo do falecido Celso Pitta, o fracassado ex-prefeito de São Paulo, um "estranho" que se elegeu no vácuo da boa avaliação de Paulo Maluf. Serra, ainda por cima, aproveitou a ocasião para elogiar a administração de Maluf, concluindo que nem sempre a criatura repete o criador.

Primeiramente, observemos que boa parte das declarações na política não é feita de forma tão desinteressada. Com a simpática referência a Maluf, Serra pretende, num primeiro momento, reforçar a imagem positiva que vem obtendo junto ao eleitorado mais conservador, às vezes até de extrema-direita. No vale-tudo eleitoral, não dá para dispensar os velhos entusiastas do "rouba-mas-faz" e coisas do gênero; e não importa que tenham, Serra e Maluf, militado em lados opostos durante as respectivas trajetórias políticas. Todavia, não é isso o mais intrigante nesse caso.

O curioso, sem dúvida, é que Serra também tem o seu "Pitta". E o mais interessante é que se trata de um homem que foi, ironicamente, secretário de planejamento justamente do falecido ex-prefeito. Estamos a falar, é claro, do atual prefeito paulistano Gilberto Kassab. Político pouco conhecido, de partido sem grande representatividade em São Paulo, Kassab herdou a prefeitura porque Serra, descumprindo promessa de campanha, a abandonou para disputar o governo do estado. Já para a sua reeleição, o alcaide contou com o apoio velado de Serra, que traiu naquela feita o candidato Geraldo Alckmin, num dos mais notáveis casos recentes de cristianização na política brasileira.

Fosse mais corajoso, Serra esqueceria Maluf e Pitta. Para acusar Dilma de "poste", falaria de si mesmo e de Kassab.

Pelo jeito, em sua campanha, o presidenciável do PSDB não se esconderá somente de FHC. Decerto também dará uma de desentendido no caso do implacável Gilberto Kassab. Uns dirão que é deslealdade; outros, cautela.

terça-feira, 30 de março de 2010

E o jacaré ainda não fechou a boca

Pesquisa Datafolha, divulgada em 27.03.2010, mostra que José Serra ampliou vantagem sobre Dilma Rousseff, subindo de 32% para 36%, enquanto a pré-candidata do PT oscilou negativamente, de 28% para 27%.

O resultado foi, de maneira geral, tomado como surpreendente, tendo em vista que o conjunto das pesquisas vinha indicando queda livre do tucano e ascensão aparentemente ilimitada da petista. Imaginava-se que o "jacaré iria fechar a boca", em alusão ao encontro no gráfico dos índices de cada candidato, simulando a mordida do simpático réptil.

De nosso lado, acreditamos que, se chamar de previsível o resultado seria clamoroso exagero, não é absurdo dizer que ele está longe de ser surpreendente. Diferentemente do que foi reverberado, houve, sim, "fatos novos" a justificar a leve subida do governador de São Paulo.

Antes, um adendo: estes números do Datafolha, referentes a Serra, diferente da consulta anterior, estão mais próximos do resultado que o paulista vem obtendo, com grande resiliência, nas pesquisas de outros institutos, ou seja, a casa dos 35%, o que, lendo sob esse prisma, os tornam ainda menos estranhos.

Mas vamos aos fatos novos: Serra, ainda que de forma hesitante, admitiu ser candidato, em programa popular de TV. Malandramente, fê-lo elogiando o presidente Lula, numa tática tão primária, que foi rapidamente percebida e prontamente exposta pelo apresentador José Luiz Datena, qual seja, a de não criticar o governo atual e tentar fazer a comparação de biografias com a principal adversária, fugindo assim, da estratégia do modelo plebiscitário, buscada pelo PT.

Outro fato: nos últimos dias o PSDB vem usando a sua cota de inserções durante a programação de TV, com o governador paulista em pessoa falando não somente de suas supostas realizações como governador de São Paulo, mas também das conquistas que teria obtido em outros cargos públicos que ocupou. E sem o contraditório, fica fácil falar que criou os genéricos, que implementou programa de combate a AIDS, falar que a educação e a saúde de São Paulo são uma maravilha...

De outra parte, no caso de Dilma Rousseff, "fatos novos" podem até não ter comprometido muito seu desempenho, mas decerto também não ajudaram. Nos últimos dias veio a campo o requentado "caso Bancoop", com insistentes capas de revista e ampla repercussão no rádio e TV. Pouco importa se o juiz da causa fez pouco caso da representação do promotor José Carlos Blat; o despacho do Magistrado teve, evidentemente, bem menos destaque na mídia, se é que teve algum. Ainda que o denuncismo barato não pareça ser capaz de fazer grandes estragos na campanha da candidata do governo, pode, sim, ter o condão de contribuir, neste momento, para a estagnação. A conferir.

Deve vir mais emoção nos próximos dias. E, acreditamos, serão, de início, favoráveis a Serra. Ele se apresentará oficialmente como candidato no segundo final de semana de abril. A chamada grande imprensa, especialmente as revistas semanais, ofertar-lhe-á docilmente suas capas e, claro, as suas mais nobres páginas; rádio e TV, se bobear, farão um subserviente "esta é a sua vida" do governador. Nessa brincadeira, deve ganhar alguns magros pontos, ou, na pior das hipóteses, ficará onde está, mas num clima em que será difícil que a principal adversária suba ao menos um pouquinho, ou seja, no mínimo manterá a distância alcançada.

A campanha, com isso, entrará em nova fase e exigirá mais profissionalismo das equipes dos candidatos. O tempo de TV é que deve fazer a diferença, como o prova, aliás, a própria subida do tucano, ocorrida após a participação no Datena e após as aparições nas inserções do PSDB.

Quanto às pesquisas em geral, vamos sempre lembrar, neste espaço, que em 2008, na corrida pela prefeitura de São Paulo, faltando cerca de três meses para as eleições, Marta Suplicy se aproximava dos 40%, Geraldo Alckmin tinha pouco mais de 20%, e Gilberto Kassab estava tecnicamente empatado com Paulo Maluf com não mais do que 10%. No final, deu no que deu!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

PSDB, DEM, Serra, Aécio: aonde vocês pensam que vão?

Desde 1994, quando da primeira candidatura de Fernando Henrique Cardoso a presidente, o DEM (ex-PFL) é o parceiro preferencial do PSDB. Estiveram juntos nos dois mandatos de FHC e, até hoje em dia, caminham afinados na oposição ao governo Lula, além de permanecerem aliados em diversos estados e municípios.

Para as eleições presidenciais de 2010, a união entre os dois partidos já vinha sendo tomada como certa. O DEM se apresentava como a noiva controladora e que gosta de impor limites. Nem se discutia quanto ao líder da relação, que é, indubitavelmente, o PSDB. Todavia, importantes quadros democratas, dentre eles o deputado Rodrigo Maia e o senador José Agripino Maia, cobravam uma definição urgente por parte dos tucanos, indecisos quanto à candidatura do governador de São Paulo, José Serra, ou de Aécio Neves, governador de Minas Gerais.

Aécio defendia publicamente que o partido lançasse logo o candidato; José Serra não queria que a escolha ocorresse antes de março de 2010. É, portanto, difícil acreditar que o posicionamento dos democratas, firmes na exigência pela definição tucana, não fosse um aceno aos propósitos do governador mineiro, que claramente colocava sua candidatura à disposição, com sinalização mais forte de que estava preparado a assumir a briga. De sua parte, José Serra, mais “tucanamente”, vem, esse tempo todo, passando a imagem de que pode, na hora “h”, desistir da empreitada.

Eis que a noiva, toda certinha, é pega aprontando das suas. Nessa hora, o noivo, que até então vivia acabrunhado, sente que é a hora de dar o troco, deixando claro que o casamento só sai se – ou na hora em - que ele quiser. As cenas de corrupção explícita do DEM fizeram o partido baixar a bola, e Serra passou a dar as cartas. Já Aécio, cujo maior trunfo era a sua oferta de garantia da solidez da aliança demotucana, preocupado que está com seu futuro político, resolveu largar o barco, informando que disputará uma cadeira no Senado Federal por seu estado. Ou seja, Arruda e sua gangue deixaram o governador de Minas sem a claque para reverberar, na mídia, seu posicionamento, o qual era desafiador ao todo-poderoso governador de São Paulo.

A saída de Aécio obriga o governador Serra a tomar logo uma decisão, até porque a principal adversária, a ministra Dilma Rousseff, do PT, não esconde de ninguém o jeitão de candidata em 2010; o mineiro, esperto, deixou uma porta aberta para voltar atrás, caso o partido precise, na última hora, de um candidato a presidente; não se descarta, por fim, a possibilidade – ainda que remota - de uma chapa puro-sangue, com os dois governadores tucanos. São muitas as conjeturas do para lá de indefinido quadro tucano.

Num primeiro momento, a maior vítima do chamado DEMsalão é, sem dúvida, Aécio Neves, que vinha ganhando musculatura na sua briga interna com Serra, justamente por conta de sua capacidade agregadora, em clara oposição ao estilo truculento e concentrador de seu oponente e de resto de todo o grupo paulista que comanda o PSDB. Havia até mesmo, nos bastidores da disputa interna, um pouco da luta contra o chamado paulicentrismo, fantasma que ronda, silenciosamente, a política brasileira. A posição do mineiro ficou tão complicada que chega a ser suspeita toda essa exposição das entranhas do DEM.

Reconhecer o segundo plano a que já estava relegada a candidatura de Aécio Neves, mesmo antes de sua desistência, não é o mesmo que acreditar que ele estaria obrigado a aceitar qualquer imposição de seu partido - se é que o partido, principalmente por parte de seus caciques de São Paulo, está em condições de lhe impor alguma coisa. Noutras palavras, a pequena derrota do governador mineiro não seria suficiente para deixá-lo de joelhos, a ponto de aceitar ser vice do governador de São Paulo, ainda mais depois de ter feito amiúde discursos contra a centralidade da política paulista em nível nacional. Ao contrário, há quem veja em sua desistência um golpe contra o grupo de Serra, que terá que ir, de uma vez por todas, para o tudo ou nada.

sábado, 21 de novembro de 2009

"Taxab" e o IPTU: eu apoio

Qualquer pessoa responsável deve ser inexoravelmente a favor do equilíbrio nas contas públicas. Até mesmo nosso ordenamento jurídico posiciona-se de modo radical em relação a essa questão, haja vista a famigerada Lei de Responsabilidade Fiscal. Para o bem de todos, não se deve, em nenhuma hipótese, permitir a deterioração das contas públicas.

O leitor decerto obtemperará com o argumento de que não há nada de distinto no fato de se apegar à necessidade – ou exigência – da saúde das contas públicas. De fato, nada mais é do que o óbvio ululante. O que se pode, em verdade, é ter soluções diferentes para quando um eventual desequilíbrio se avizinha.

O autor destas maldigitadas, por exemplo, é da opinião de que não se deve cortar investimento público para fechar as contas. Defendemos, antes, se for o caso, o aumento da receita. As maneiras mais simples – porém não as mais fáceis – de fazê-lo são através do aperto na fiscalização e, por óbvio, do aumento dos impostos.

Um dos mantras da classe média dos grandes centros urbanos, com o eco da grande imprensa, é a choradeira acerca do “abuso” do poder público na cobrança de impostos. Dificilmente se encontrará alguém que não reclame do peso da carga tributária e muito raramente se ouvirá falar de alguém que não tente, vez ou outra, sonegar para si ou ser complacente – ou até contribuir – para a sonegação de outrem. Imposto, como o próprio nome prenuncia, é algo que só existe porque se sabe que as contribuições não nasceriam da boa vontade e da iniciativa dos cidadãos organizados.

De qualquer maneira, está-se a todo momento usando dos serviços que são pagos com o dinheiro dos impostos, seja nos hospitais públicos, seja a polícia, a organização do trânsito etc. A própria roda do sistema – no nosso caso o modelo capitalista – gira, conforme cantado em prosa e verso pelo cultuado Max Weber, amparada na existência de uma ordem dependente de um aparato burocrático que exige o suporte de toda a sociedade. Já tive a oportunidade de desafiar: a classe média que tanto gosta do nosso status quo, experimente parar de pagar impostos, e certamente não gostará de ver abaladas as pilastras que seguram o modelo político-econômico que lhe permite ter uma identidade e representar algo para o mundo; ora, isso tem preço e alguém precisa pagar por ele!

Tudo isso para dizer que, em princípio, não nos opomos ao aumento do IPTU aventado pela prefeitura de São Paulo. É preciso, ainda, entender melhor as motivações do aumento que, segundo a imprensa, pode chegar à casa dos 60%. De todo modo, num primeiro momento não vemos problemas na "garfada", desde que seja de forma progressiva e com aplicação de justiça tributária. Afinal, o prefeito paulistano poderia, se quisesse, vir com o papo furado do corte de despesas, pois esse seria o caminho que agradaria a classe média chorona que o elegeu e a mídia intrometida que lhe vem dando sustentação, não tanto pelo bem dele mas sim para agradar o seu padrinho, o governador José Serra. Mas, ao propor aumento de impostos, o prefeito ao menos sinaliza estar disposto a enfrentar o problema sem paralisar a cidade.

Não dá para simplesmente aceitar que uma cidade como São Paulo congele investimentos ou corte serviços. Portanto, se necessário for, que se aumentem as taxas e tributos, com serenidade e justiça. Paciência! Se me permitem uma opinião antipática, devo dizer que, até pelo menos onde conheço - falando inclusive em causa própria -, o IPTU paulistano é bastante camarada. Porém, que fique claro, ao defender o aumento e o rigor na cobrança de tributos, estou imaginando que o prefeito Gilberto Kassab esteja pensando em assegurar sua aplicação no social, na saúde, na educação, na valorização do funcionalismo. Que ele não me decepcione!

Mas é chegada a hora do sarcasmo nosso de cada dia! Se não nos falha a memória, a ex- prefeita Marta Suplicy, adversária no segundo turno da eleição municipal de 2008, também derrotada por Kassab em chapa com o padrinho dele em 2004, ganhou a alcunha de “Martaxa” entre a elite e classe média chorona da capital . E o atual prefeito deve boa parte do apoio e dos votos que recebeu - tanto na condição de vice em 2004, como de titular em 2008 - ao discurso fácil do corte dos gastos públicos, o qual tende a refletir numa certa moleza tributária, tanto que deu certo explorar o apelido colado na adversária. E agora, com o aumento do IPTU, como é que fica?

Vamos esperar para ver o comportamento da classe média e da imprensa em relação a esse evento. Já rola por aí o apelido de “Taxab”. É de se presumir que ele ganhe os noticiários e o boca-a-boca com a mesma velocidade do “Martaxa”. E apesar de ainda estar um pouco longe, vamos ver como serão os debates no pleito de 2012. Será que algum candidato da direita terá a coragem de incorporar o discurso antitributos e, mais do que isso, acusar o candidato de esquerda mais competitivo de ser um perdulário criador de impostos?

A propósito, há uma questão que me incomoda desde a eleição de 2008. Por que a candidata Marta Suplicy não usou em sua campanha o fato de a administração Serra/Kassab não ter abolido a taxa de iluminação pública cobrada na conta de luz? Quer dizer, não é de hoje que esses dois apenas fingem – com interesses eleitoreiros – ser tão contrários a impostos. No fundo, governante nenhum é. Pobre da classe média que acredita no tro-lo-ló deles.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

É proibido raciocinar!

As enquetes, tão comuns na internet, não merecem ser levadas muito a sério, especialmente por serem destituídas de caráter científico. Mas se é que elas servem para alguma coisa, seria por dar alguma indicação de onde anda a cabeça do leitor de determinado órgão. Por exemplo: em sondagem acerca do segundo turno à sucessão para a prefeitura de São Paulo em 2008, a Folha Online perguntou aos seus leitores em quem votariam. Lembro-me que em dada altura Kassab batia nos 80%, o que dava a única certeza de que os freqüentadores daquela página eram em sua maioria esmagadora simpatizantes do político do DEM ou, o que não é de se descartar, antipáticos à sua adversária, a petista Marta Suplicy. Como se sabe, o prefeito se reelegeu com boa margem, mas sem atingir a extraordinária marca do site do jornal paulistano.

A mesma Folha Online aparece agora com uma enquete sobre projeto de lei que proíbe cigarros em quase todos os ambientes fechados públicos ou particulares no estado de São Paulo. O resultado (às 17h11 do dia 9 de abril de 2009) é de 78% favoráveis à medida, 20% contrários e de apenas 1% de usuários do sítio que ainda não têm opinião formada. Levando em conta o aspecto – como já mencionado – não-científico da consulta, o que se pode deduzir de tudo isso?

Tenho uma fantasia: os 78% favoráveis são, em sua maioria, seguidores radicais do governador José Serra, do tipo que não vão dar o braço a torcer, sendo muitos deles, inclusive, fumantes inveterados que não pretendem respeitar a lei; a maioria dos 20% contrários é anti-serrista, daqueles que se oporão a tudo o que o governador fizer, mesmo que sejam antitabagistas desde criancinha e velhos pregadores dos males provocados pelo fumo; já os gatos pingados que formam o mísero 1% que ainda analisam o caso devem ser aqueles que vêem méritos na nova regra, mas são céticos quanto à sua aplicabilidade e incertos de que ela não seja um exagero, haja vista as possibilidades práticas de se resolver o problema, sem mexer com o direito dos que querem se matar com o cigarro.

Dentre as tais soluções práticas estão as famosas áreas reservadas a fumantes, existentes na maioria dos ambientes fechados públicos e particulares. Que cada um pense no seu local de trabalho, por exemplo, e veja se a existência das áreas reservadas não funciona. Ah, não funciona? Bem, nesse caso talvez falte organização e pressão no local para fazer cumprir a regra, e, pior ainda, talvez isso seja indicativo de que a lei, caso não haja uma fiscalização muitíssimo rigorosa, será mais uma do tipo que não vai pegar.

Mas, a exemplo da obrigatoriedade do cinto de segurança, imaginemos que quase todos resolvam cumprir tal lei. Isso deve fazer muita gente diminuir o consumo, trazendo efeitos para lá de positivos na saúde, ajudando até mesmo o saturado sistema público, o qual precisa despender muito dinheiro e energia para tratar doenças ligadas ao uso do cigarro. Nesse caso, a medida que tanto agride a boa consciência liberal, será tida como vitoriosa.

Resultado: a “turma do 1%” por enquanto está certa, o que quer dizer que são os únicos que ainda raciocinam sobre a medida.

Aproveitemos o ensejo para fazer um comentário retardatário, meio que a título de um post scriptum, mas que nos traz uma luz acerca da já comentada dificuldade de se fazer cumprir e fiscalizar lei tão rigorosa. Há algum tempo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acendeu sua cigarrilha durante entrevista no Palácio do Planalto. Naquela feita, um repórter o lembrou de que o fumo era proibido por decreto naquela casa. O presidente não perdeu tempo, dizendo que somente ele mandava na sala dele. À exceção de ótimo texto de Luiz Weis no Observatório da Imprensa, o assunto não teve muita repercussão (aliás, uma curiosidade, quando Lula não fala besteira, como na história do “branco de olhos azuis”, todo mundo cai matando; quando realmente dá uma bola fora, como no caso do descumprimento de regra a todos – ou aos outros – imposta, quase ninguém liga!). A “insubordinação” de Lula a um decreto em seu local de trabalho de certo modo é indicativo de que, em muitos outros “menos nobres” locais de trabalho, a tal lei paulista que bane cigarros não venha a ser seguida muito à risca.

Vamos aguardar. Por enquanto, eu sou 1%!

sábado, 4 de abril de 2009

Sutilmente...

Em semana de encontro do G-20, com direito a descontraídas tiradas entre o presidente estadunidense e seu colega brasileiro, passou despercebida uma sutileza da mídia em relação à política local, observada mais especificamente no portal UOL e na Folha OnLine.

Na segunda-feira (30-03) foram divulgados os resultados da pesquisa CNT/Sensus sobre o goveno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A exemplo do Datafolha e do IBOPE, a popularidade de Lula teve uma pequena queda, mas ainda se mantendo em índices considerados extraordinariamente altos. Como seria de se esperar, a crise foi apontada como a grande vilã (este blog, porém, humildemente acredita no aspecto inercial da queda da popularidade presidencial: ela estava em patamar dificilmente superável e, além disso, é muito complicado manter índices tão altos num país complexo como o Brasil, não havendo, pois, novidade nas pequenas quedas ora verificadas). Mas é só um adendo; queremos mesmo falar de outra coisa.

Juntamente à consulta acerca da situação presidencial, foi feita sondagem sobre o pleito de 2010. É aí que entra a sutileza supramencionada. O UOL e a Folha OnLine apresentaram a dianteira de José Serra de uma forma blasé, como quem diz não haver novidade. Mas o mais interessante foi o destaque que deram à subida de Dilma Roussef (leia aqui). Até aí tudo bem, afinal para o grupo Folha equilíbrio pouco é bobagem! A esperteza, porém, veio na atenção dispensada à informação de que, se o adversário for Aécio Neves, a ministra-chefe da Casa Civil, segundo a pesquisa, consegue emparelhar. Aparentemente, o UOL e a Folha OnLine apenas prestam o seu nobre serviço de bem informar o cidadão. Mas será que só se trata disso?

A Folha, pelo menos por meio de seus braços “internéticos”, parece ter intentado mandar recados ao PSDB e, mais especialmente, para o governador mineiro e seus simpatizantes; não chegou ao ponto de dizer “pó pará, governador”, mas insinuou que “prévias não, obrigado!”. O neto de Tancredo ainda não desistiu de sua candidatura e decerto pensa ter chances de ser o escolhido numa consulta interna do partido. E este blogueiro tem sérias dúvidas se ele não conseguiria, principalmente se souber explorar bem o discurso contra o “paulicentrismo”, discurso este, aliás, já por ele encampado timidamente noutras oportunidades. Mas a mídia – a princípio a paulista, mas talvez não só ela - tentará convencer o partido da furada que isso pode representar e, além disso, já está buscando incutir na cabeça dos eleitores oposicionistas a certeza de que Dilma tem chances, mas apenas se o adversário for o governador das Minas Gerais.

A imprensa paulista tem passado a impressão de que não dará sossego ao pobre governador Aécio, pelo menos até a definitiva indicação de Serra à sucessão presidencial. Mas suponhamos que, assim como Alckmin, o mineiro surpreenda e seja ele o indicado, deixando o governador paulista chupando o dedo (tudo na política é possível); nesse caso, podemos apostar numa repentina mudança nas redações dos jornais e de seus portais: entre Dilma e Aécio, a preferência midiática deve recair sobre o segundo, e por isso o aventureiro namorador e otras cositas más dará lugar ao governador empreendedor e bem avaliado de um dos maiores estados do Brasil. Já vimos esse filme: em 2006, após o trunfo de Alckmin dentro do partido, a imprensa mais do que depressa jogou para debaixo do tapete os escândalos do ex-governador que vinham sendo relativamente bem abordados enquanto ele disputava a indicação com Serra. Mas isso tudo, sempre de forma muito, mas muito sutil!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Tô com medo!

Numa das cenas mais patéticas da história recente do país, a atriz Regina Duarte admitiu que tinha medo da eventual eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, quando o ex-metalúrgico enfrentava o hoje governador José Serra. Nunca pensei que eu representaria tão ridículo papel, até porque não tenho e nem faço questão de ter o “talento” daquela que já foi “namoradinha do Brasil”, mas a verdade é que devo admitir, caro leitor, que tenho medo do que possa ocorrer com o próximo presidente do país. É isso aí: agora, eu é que estou com medo!

A situação não será nada fácil para Dilma Roussef, para o já citado José Serra ou para quem quer que seja o próximo ocupante do Planalto. O presidente Lula caminha a passos largos para se consolidar como um mito de nossa era, como a figura política mais importante de nossa história. E isso, infelizmente, não é algo que se possa considerar muito bom. O sucessor do petista terá dificuldades de se projetar como um pós-Lula ou, se for o caso, como o seguidor da figura mítica.

Estou, evidentemente, pensando na espetacular popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada pela pesquisa CNT/Sensus, divulgada na terça-feira (04-02-2009). Sinceramente acreditava que o presidente já havia atingido seu limite. Imaginava também que, nessa pesquisa, ele cairia um pouco, talvez dentro da margem de erro, mas o suficiente para fazer a alegria da “imprensa festiva”. Mas não, o homem subiu!

Há, além do mais, outra informação bastante relevante (e assustadora), sutilmente escondida pela grande mídia: na sondagem para 2010, nas respostas espontâneas, o desejo da maioria é que fosse eleito presidente ninguém menos do que... Lula. Isso mesmo, caro leitor! Lula não pode se candidatar a mais um mandato consecutivo, mas mesmo assim, na pesquisa espontânea, ou seja, aquela em que a pessoa simplesmente responde sem lista de nomes em quem votaria se a eleição fosse hoje, Lula ganharia com o dobro dos votos de José Serra, líder da mesma pesquisa na sua forma estimulada.

Tenho medo, pois, da sombra que pairará sobre a cabeça do sucessor do presidente Lula. Como poderá o sucessor se sobrepor a uma figura que consegue, contra a mídia, contra os poderosos, num ambiente de crise, manter-se em tão elevado índice de popularidade?

A liderança de Lula conseguiu, ainda que aos trancos e barrancos, unir o PT, o que não é pouca coisa, e tem conseguido deixar acuada uma oposição que lhe poderia ser mais radical. Observemos que mesmo os candidatíssimos Serra e Aécio não encontram facilidades em se mostrar como anti-Lula. Parece que esse não será o caminho abraçado pelos dois, a menos que a crise econômico-financeira recrudesça muito por aqui. (Daí talvez todo o terrorismo midiático).

O próximo presidente necessitará de habilidade e terá que contar com alguma sorte, caso contrário, e a despeito da aparente estabilidade de nossa democracia, talvez surja algum movimento do tipo “Volta, Lula”!

Interessante notar que, vendo por esse lado, apesar da extraordinária crise nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama parece estar em melhores lençóis do que tenderá a estar o próximo mandatário do Brasil, sobretudo se a coisa não ficar muito feia por aqui. Paradoxal, não?

sábado, 3 de janeiro de 2009

Mais um "ano eleitoral"

Em 2009 não haverá eleições. O ano, no entanto, deve ter muito de eleitoral, com a antecipação do clima de sucessão presidencial, a qual somente se dará no ano que vem. Em verdade, as urnas mal estavam fechadas em 2006, e já se falava do pleito de 2010. O ambiente sucessório, portanto, já se mostra presente desde o fim do primeiro mandato do presidente Lula.

Parece estar fechada questão no fato de que o próximo ocupante do Palácio do Planalto será o economista José Chirico Serra, que, como brinca Paulo Henrique Amorim, por enquanto apenas faz um estágio no governo do Estado de São Paulo! Mas, parafraseando pela enésima vez Mané Garrincha, é preciso combinar com os adversários! No caso de Serra, há que entrar num acordo também com os “aliados”...

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, já deixou bem claro que também é pré-candidato para 2010 e exorta seu partido a fazer prévias para escolher o postulante a ser o pós-Lula, como já se apressam em dizer alguns. Não é por nada, não, mas Aécio teria boas chances. O governador mineiro bem que poderia se aproveitar do descontentamento com o chamado “paulicentrismo”, que, com efeito, vem mesmo irritando alguns políticos de fora do maior estado do país, insatisfeitos com a hegemonia paulista na política brasileira desde a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso. (Lembrando que nem FHC nem Lula são paulistas de nascimento, mas, como se sabe, adotaram o estado e nele fizeram carreira política). Ademais, o presidente Lula bateu de forma esmagadora dois candidatos paulistas, inclusive o próprio Serra, nas duas últimas pendengas. O governador de Minas bem pode querer usar esses fatos recentes para superar o governador de São Paulo numa eventual disputa interna.

Isso tudo somente para dizer que Serra talvez já encontre alguma dificuldade dentro do próprio PSDB. Há, ainda, mais nomes importantes de outros partidos que correm por fora, como, por exemplo, o ex-ministro e ex-governador do Ceará, o paulista Ciro Gomes e, é claro, a ministra Dilma Roussef.

Dilma pode se beneficiar dos resultados práticos do atual governo, que, caso mantenha os bons índices de popularidade que ora ostenta, poderá ser seu principal cabo eleitoral. Na sucessão municipal de 2008 falou-se que restou demonstrado que o presidente Lula não tem tanta capacidade assim de transferência de prestígio. Que seja. Mas, por outro lado, alguns dos resultados das eleições nas prefeituras deixaram claro que a população não hesita em manter as coisas como estão se estiver satisfeita com o andar da carruagem (Kassab que o diga!).

Político hábil, experiente e inteligente, é possível que José Serra esteja atento às bobagens que escrevemos aqui. Ele deve saber que para realizar seu sonho de ser presidente da República Federativa do Brasil não bastarão editoriais vergonhosos, como o recentemente publicado no Estadão (O PAC paulista é melhor, de 13-11-2008), que só não se parece com uma peça de propaganda porque os marqueteiros não são tão caras-de-pau quanto os delirantes editores de jornais. O governador tampouco poderá contar somente com o puxa-saquismo de colunistas da mídia, como o de Paulo Rabelo de Castro, que em artigo na Folha (2009, um ano de (pré) eleição, de 17-12-2008), disse que Serra é inteligente e sagaz em tudo o que faz... Logo o Paulo, que costuma ver erro em tudo!

Trocando em miúdos, muita água deve passar por debaixo da ponte. Lembremos que, por volta de agosto de 2008, as pesquisas para a prefeitura de São Paulo mostravam Marta com cerca de 40%, Alckmin com pouco mais de 20% e Gilberto Kassab com não mais do que 10%. No final, o leitor o sabe, deu no que deu!

sábado, 1 de novembro de 2008

Eleições municipais 2008 - São Paulo - considerações finais

Do resultado das eleições municipais de São Paulo foi falado tratar-se de uma vitória da racionalidade do eleitor, que teria votado pragmaticamente, de olho no seu interesse nas coisas que lhe diziam diretamente a respeito, o que quer dizer, sob essa leitura, que o sufrágio do paulistano foi essencialmente “municipalizado”. Por outro lado, diversos analistas, quando não os mesmos do diagnóstico anterior, viram na vitória de Kassab um trunfo do governador José Serra com vistas a 2010, o que seria ao mesmo tempo, e por conseqüência, uma derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que teria dado dimensão nacional ao escrutínio paulistano.

Ambas as análises parecem ser contraditórias entre si, além de não sobreviverem isoladamente se observadas pelo olhar crítico.

Primeiramente, os comentaristas e os cientistas políticos precisavam decidir se, afinal, o paulistano votou simplesmente preocupado com a cidade e, desse modo, premiou uma administração que considera aceitável, ou se quis ir além, mandando recados para possíveis presidenciáveis de 2010. Alguém pode até achar que as duas coisas não necessariamente se excluem mutuamente. Faltou, entretanto, explicar em suas análises como isso se dá na prática.

Em segundo lugar, merece ser questionada tanto a afirmação de ter sido racional a escolha do eleitor da capital de São Paulo quanto a de ter sido uma vitória do grupo de Serra o resultado do pleito no município.

Racionalidade?
Ao falar da racionalidade dos eleitores, os analistas quiseram se referir ao fato de que ele teria deixado de lado suas paixões e preferências lato sensu e simplesmente calculado o que seria melhor naquele momento: manter o atual prefeito e, assim, prestigiar suas políticas, ou mudar tudo de acordo com sua predileção partidária ou simpatia pessoal. Noutras palavras, de acordo com esse entendimento, o paulistano pensou acima de tudo na cidade. Muito bem. Mas é bom não deixar se perder de vista que a “moderna” cidade de São Paulo deu sobrevida ao ex-PFL, varrido do mapa até mesmo em muitos rincões que ainda lhe davam sustentação. Mas, dirão alguns, a tal escolha racional do eleitor passa justamente pelo fato de o morador da maior cidade do país não ter sequer pensado em partido na hora de votar, antes fazendo sua opção na comparação das habilidades dos candidatos. Pois bem. Se de fato racionalidade é isso, então se deve concluir que a mídia, intelectuais e até mesmo a classe política andam mentindo muito quando falam da importância do fortalecimento dos partidos, da fidelidade partidária, na necessidade de diminuir a “personalização” na política. Quer dizer, então, que os partidos políticos são de capital importância, exceto quando uma bandeira do atraso ganha na cosmopolita São Paulo?! O voto na pessoa pela pessoa é algo horrível, vejam só o Lula... Mas o voto no homem Kassab é superbacana, principalmente se for para derrotar o bem organizado partido político chamado PT!

Municipal ou nacional?
Se a eleição foi de fato por demais localizada, não se deveria atribuir os louros da vitória de Kassab ao governador José Serra, mesmo com a generosidade subserviente do prefeito reeleito, que não se importou de dividir as glórias com o peessedebista. Há que se dizer que não chega a surpreender resultado mais pró-Serra na cidade, haja vista que São Paulo sempre foi meio “do contra” quando o assunto é presidente popular. Ademais, parece que a imprensa de vez em quando se esquece, mas a eleição para presidente não ocorre apenas na maior cidade da América do Sul. Dessa forma, se é que o eleitor “brasileiro” mandou algum recado para 2010, ele foi mais favorável ao presidente Lula, que viu seu partido conquistar mais municípios espalhados por todo o país. Fora isso, será que alguém teria coragem de apostar as fichas no tucano numa eventual disputa direta entre ele e o atual presidente? Tudo bem, Lula não poderá disputar a reeleição em 2010, e como não restou provado que sua popularidade redunde na transferência de votos, o governador Serra, sob esse prisma, teria mais chances do que o candidato que vier a ser apresentado pelo Planalto. Ora, senhores analistas, não se esqueçam da tal “racionalidade” do eleitor, que bem pode querer a continuidade em 2010 e, portanto, preferir o low profile de, por exemplo, Dilma Roussef ao pop star José Serra. Se Kassab alcançou tão notável êxito, por que a ministra-chefe da Casa Civil não pode?

Mas as eleições municipais foram só... municipais, e 2010 ainda está longe. Há crise econômica internacional rolando, tem novo presidente americano chegando por aí. Guardemos, pois, nossas bolas de cristal!

sábado, 18 de outubro de 2008

500 anos de PSDB

Após a batalha campal que envolveu policiais civis em greve e policiais militares de São Paulo, próximo ao Palácio dos Bandeirantes, o governador José Serra apressou-se em atribuir a confusão ao PT e a políticos ligados a uma central sindical, afirmando tratar-se de ato de motivação político-eleitoral.

Não é a primeira vez que um político do PSDB tenta associar a idéia de politicagem eleitoreira – geralmente ligada ao PT e a seus quadros - a eventos populares ou de certos grupos tidos como enérgicos, polêmicos ou, vai lá, violentos. Antes de Serra, tucanos importantes como Alckmin e Fernando Henrique já usaram desse expediente com o intuito de desqualificar movimentos sociais, ou com o objetivo de colar num partido ou a algum político adversário a pecha de agitador ou de envolvido com práticas delituosas.

O que parece haver de fundo nisso tudo é uma incorporação, por parte do Partido da Social Democracia Brasileira, de análise própria da historiografia e da sociologia brasileiras que afirma ser o nosso povo passivo, do tipo que nunca conquistou nada, sempre dependente das migalhas oferecidas pelos donos do poder. Noutras palavras, a maioria de nossos direitos - assim como de nossas conquistas - veio de cima para baixo, a despeito de uma ou outra sublevação, em geral derrotadas, aqui e ali. Serra e outros importantes nomes de seu partido têm, com efeito, vestido o figurino das elites e oligarquias brasileiras, que, não somente constatam isso, mas querem mesmo ver tal modelo se reproduzindo; nada mais natural, portanto, que desconfiem da espontaneidade e legitimidade de grupos e movimentos que se afirmam independentes, enxergando no seu grosso uma mera massa de manobra operada por espertalhões.

Impossível, nessa altura do campeonato, não se lembrar de debate no segundo turno da eleição presidencial de 2006, no qual o presidente Lula, então candidato à reeleição, afirmou a Geraldo Alckmin que o grupo do ex-governador mandara no Brasil havia 500 anos, exatamente até a chegada dele (Lula) ao governo. Alckmin deu uma de bobo, dizendo que o PSDB não tinha tanto tempo assim de existência! Mas a fala de Serra, com o seu descaso para com a organização dos trabalhadores da Polícia Civil de São Paulo, vem dar a mais absoluta razão a Lula, que quis, àquela época, dizer que o ninho tucano é claramente desligado do povo, aproximado das elites, e nesse diapasão, tendente a acreditar que as pessoas não sabem o que fazem, que elas não têm vontade própria, que são incapazes de lutar por seus anseios e direitos, enfim, que estão sempre dispostas a serem apenas velhas e boas “vaquinhas de presépio” dos últimos 500 anos. Em conclusão, para o PSDB, este é o país do “de cima para baixo” mesmo e, pelo jeito, para eles é bom que continue assim.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Eleições 2010. Já?

Pesquisa CNT/Sensus publicada na última semana mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atingiu o segundo mais alto índice de popularidade desde o início de sua gestão. Não é de se estranhar, pois a semana também trouxe bons dados referentes ao emprego, à venda de automóveis e de outros bens de consumo duráveis e até em relação à dívida externa (pela primeira vez na história, o Brasil, segundo o Banco Central, pode ter se tornado credor externo).

A pesquisa também fez sondagens em relação à sucessão presidencial de 2010. O presidente Lula, em informação pouco divulgada, lidera a pesquisa nas respostas espontâneas, bem à frente do segundo colocado. Na estimulada, a liderança em todos os cenários é do governador de São Paulo, José Serra. A Constituição não permite o terceiro mandato consecutivo para presidente, por isso Lula não consta das opções apresentadas aos pesquisados na consulta estimulada. Os nomes do partido do presidente não aparecem bem em nenhum dos resultados, o que já fez alguns cientistas políticos suspeitarem que o PT deva pressionar o atual presidente a propor mudanças na Carta Magna para tentar mais um mandato consecutivo.

O exercício de futurologia não é para qualquer um, ainda mais no campo da política. Mas é muito cedo para afirmar que o PT, partido que desde a redemocratização do Brasil protagoniza a maioria das disputas importantes em todos os níveis no país, não tenha nenhum nome capaz de representá-lo para a sucessão do presidente Lula, sobretudo se ele prosseguir com os bons índices de aprovação que ora ostenta.

Façamos uma viagem no tempo: muito antes das primeiras eleições diretas após a redemocratização do Brasil, todos sabiam que Lula, Brizola e Covas dariam o que falar na disputa, mas poucos imaginavam que um certo Fernando Collor teria alguma chance naquele quadro. O êxito de Fernando Henrique Cardoso em 1994 não foi exatamente surpreendente, mas a possibilidade de vitória no primeiro turno, como efetivamente se deu, não era tranqüilamente aventada por especialistas muito tempo antes do início da corrida. O furacão Roseana Sarney também foi uma surpresa em 2002, até ter sua candidatura implodida pela atuação firme da Polícia Federal sobre as atividades de seu marido, atuação esta, aliás, que foi uma raridade no órgão durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso. Em 2005, no auge da crise do mensalão, era impensável a hipótese da reeleição do presidente Lula um ano depois. Muitos especialistas não acreditavam nas possibilidades eleitorais do ex-governador Geraldo Alckmin, mas ele conseguiu levar a pendenga de 2006 para o segundo turno contra o presidente Lula, um mito verdadeiro, como reconheceu o próprio ex-governador, em recente entrevista ao canal Record News. Por essas e muitas outras é que se deveria pensar duas vezes antes de se fazer afirmações tão peremptórias em relação a uma eleição que somente ocorrerá daqui a dois anos.

Há a possibilidade de o PT fazer o sucessor de Lula, mas não como cabeça de chapa. Isso dependeria de Aécio Neves trocar o ninho tucano pelo PMDB. Há quem diga que isso é uma espécie de desejo secreto do presidente. Mas será que não há mesmo ninguém no Partido dos Trabalhadores sonhando em ocupar o Planalto depois de Lula?

Um nome do PT que é sempre lembrado é o da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Ela tem se destacado pela atuação firme e pela imagem de técnica inteligente. Ela poderia ser ajudada por um turbilhão de presença feminina ativa na política internacional: Michele Bachelet no Chile e Cristina Kirschner na Argentina; nos Estados Unidos, a pré-candidatura de Hillary Clinton. A ministra Dilma, se o governo Lula continuar numa maré de razoabilidade, ainda terá a seu favor um bom cabo eleitoral para 2010.

Conforme sugerimos acima, é precipitado fazer desde já projeções para 2010. É bom não esquecer que José Serra, grande favorito para a próxima corrida presidencial, não vive um momento tão esplendoroso assim na sua carreira. No seu governo, há grandes problemas semelhantes aos que vive o governo federal, envolvendo inclusive cartões de natureza parecida com os corporativos. Ademais, foram descobertas recentemente suspeitas de irregularidade na sua campanha presidencial de 2002. E o governador tem encontrado dificuldades até mesmo de emplacar suas idéias no partido, notadamente as referentes à sucessão da prefeitura paulistana, na qual ele gostaria de ver seu partido engajado na reeleição de Gilberto Kassab. Todo esse clima tende a se agravar – ou se ampliar – até o pleito de 2010.

Dilma Roussef, se se mantiver em posição desfavorável nas pesquisas, certamente será num primeiro momento poupada de ataques. Tendo, porém, seu nome mais divulgado, expor-se-á às críticas, mas ficará mais conhecida do eleitor. A postura séria, decidida e equilibrada que ela mostra nas suas aparições certamente tem o objetivo de, por antecipação, apagar – ou polir – a imagem de guerrilheira que, provavelmente, será rememorada pelos adversários se ela entrar na disputa. Mas, depois de Lula, é provável que o eleitor não acredite mais em histórias de bicho-papão!

E ainda estamos em fevereiro de 2008...