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domingo, 7 de novembro de 2010

O vermelho é mais vermelho, o azul é menos azul, mas isso não tem importância

Pouparei o leitor da reprodução do mapa brasileiro, pintado de vermelho nos estados da Federação em que Dilma Rousseff, do PT, bateu José Serra, do PSDB, e de azul nas unidades do País em que se deu o contrário. A mídia o fez ad nauseam e, provavelmente sem querer, ajudou a desencadear até ondas de preconceito e intolerância na rede mundial de computadores contra o nordeste, região supostamente responsável pela vitória da candidata petista.

É um grande clichê dizer que os números normalmente escondem realidades concretas só perceptíveis quando sobre eles nos debruçamos. E justamente por ser um chavão é de se encarar com tristeza o fato de as análises terem deixado de tomar certos cuidados. A bem da verdade, alguns órgãos de imprensa, de forma tímida e um pouco atrasada, correram a lembrar que, mesmo se se desconsiderasse o nordeste, ainda assim Dilma venceria as eleições, mesmo que de forma extremamente apertada.

Abrindo parênteses, cabe lembrar o belo comentário do jornalista Rodrigo Vianna, advertindo-nos de que não se deve cogitar a ideia de se excluir a votação da região nordeste para dar maior legitimidade ao trunfo da petista. Em verdade, a legitimidade de sua eleição vem justamente do ótimo resultado que ela obteve em todo o País, inclusive - é óbvio - no nordeste.

Voltando à realidade que se esconde atrás dos números, não se descarte o fato de a candidata da coligação liderada pelo PT ter vencido também na região sudeste, com êxito extraordinário nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, com números rondando a casa dos 60%, um pouco a mais no primeiro e um tiquinho abaixo no segundo, situação que vem em reforço da desconstrução da tese que quer atribuir ao voto nordestino o sucesso de Dilma.

Além disso, melhor mapa seria aquele que trouxesse gradações de cores. Sim, pois em alguns estados o vermelho dilmista deveria vir em tons mais fortes, caso de Amazonas, Pernambuco e Bahia, por exemplo, onde alcançou mais de 70% dos votos válidos. O azul serrista, por seu turno, teria que vir mais enfraquecido em estados como Rio Grande do Sul, Goiás e Espírito Santo, lugares em que faturou com pouco mais dos 50% dos votos válidos.

A leitura simplista dos números impede, também, de se ver as nuanças de cada localidade. No estado de São Paulo, por exemplo, onde Serra foi vitorioso com respeitável vantagem, foi digna de nota a dianteira da presidente eleita em importantes municípios, como Osasco, São Bernardo do Campo, Mauá, Diadema, Ferraz de Vasconcelos, Poá, Franco da Rocha, Francisco Morato, Carapicuíba, Barueri e Itapecerica da Serra, todas na grande São Paulo, cidades marcadas por considerável pujança econômica, por um lado, ou tidas como cidades-dormitório, por outro, ou seja, Dilma Rousseff, ao que parece, empolgou de forma massiva boa parte da classe trabalhadora urbana do entorno da capital paulista.

De se realçar, também, o bom resultado da primeira mulher a se eleger presidente da República na região de Campinas, repetindo, aliás, êxito do primeiro turno, faturando em Sumaré, Hortolândia, Santa Bárbara D'Oeste e outras. Nesta área, mesmo Aloízio Mercadante navegou bem no primeiro escrutínio, na sua malfadada disputa pelo governo do estado.

Do lado de Serra, registre-se que, derrotado nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, foi o preferido em vários municípios fluminenses e mineiros, borrando fortemente de azul os majoritariamente avermelhados mapas dessas unidades da Federação. Em desfavor do tucano, destaque-se que não ganhou em nenhum município do Amazonas, o que é surpreendente se se levar em consideração os expressivos resultados que obteve nos nortistas Roraima e Acre.

Pois bem, senhores. Dentro de uma caixa há outra caixa. Pegue-se o mapa do Brasil, com seus estados tingidos de vermelho ou azul: tem-se parte da história. Em seguida, isole um dos estados e ver-se-ão seus municípios também pintados daquelas duas cores, indicando, portanto, que as opções não foram categoricamente hegemônicas. Mesmo sem os dados, arriscamo-nos a dizer que informações ainda mais contraditórias ou surpreendentes viriam se se isolassem os bairros ou distritos de cada cidade, e dentro deles tivéssemos acesso aos resultados das diferentes zonas e seções. Se me permitem mais um chavão, a questão é deveras complexa. E só!

Alguma análise, de cujo autor indesculpavelmente não me lembro, apontou muito bem que a eleição brasileira é na base do sufrágio universal, não representando as unidades da Federação nenhuma espécie de colégio eleitoral, como é o caso dos Estados Unidos. Como cada voto é um voto, e como leva aquele que consegue o maior somatório de sufrágios, pouca importância há se os eleitores vêm do Tocantins ou do Paraná, se é de Itabaiana ou de Belford Roxo, ou se é do bairro da Penha ou da Lapa do Rio de Janeiro, ou da Penha ou da Lapa de São Paulo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Depois do operário, a mulher

Muito se tem falado do sucesso da sexta eleição direta consecutiva para presidente da República Federativa do Brasil no pós-redemocratização. Com efeito, é prova viva da consolidação das instituições democráticas do País. O único senão do período talvez tenha sido o implemento do instituto da reeleição em 1997, com validade já para o então mandatário Fernando Henrique Cardoso, caso clássico de mudança de regra no meio do jogo. Tal mácula foi corrigida pela firme decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de rejeitar mudança constitucional a lhe permitir disputar um terceiro mandato, a despeito de a sua extraordinária popularidade indicar que ele poderia tê-lo tentado.

Lula era o operário de pouca instrução, sem experiência administrativa. Como assim, querer ser presidente da República, perguntavam em todas as eleições de que participara até 2002. Seu governo, porém, sai de cena agora em 2010 muito bem avaliado, com o Brasil gozando de respeito e reconhecimento internacional inéditos e com a figura pessoal do presidente vista como a de inquestionável líder mundial. Os que erraram feio na avaliação corrente até em 2002 não dão o braço a torcer e insistem em dar razão a Albert Einstein e sua famigerada frase que lamentava o fato de ser mais fácil quebrar um átomo que um preconceito.

Dilma Rousseff, a presidente eleita do Brasil, foi, por sua vez, vítima cruel da perseguição da mídia e da oposição, algumas vezes calcada em preconceitos que tentaram atingir justamente a sua condição de mulher: a divorciada, sem companhia de um homem, agressiva. E a agressividade, acredita-se, só cai bem nos homens. Aliás, a agressividade é, não raro, apontada como uma qualidade necessária dos políticos. E por ser característica mais "naturalmente" presente nos homens, logo as mulheres não são, "naturalmente", preparadas para a política; e se são agressivas, não são "genuínas" mulheres, por assim dizer.

A grande verdade é que muito pouca importância deveria ter o fato de o presidente da República ser operário ou professor universitário, tampouco deveria ser importante o fato de ser homem ou mulher. A relevância de tal discussão só se dá justamente por obra dos preconceituosos e machistas, cuja obstinada atuação acabou por colocar as questões da origem, da formação e do gênero no centro da pauta política do Brasil. Neste caldo de cultura, por fim, a eleição de uma mulher para o cargo máximo da República - logo após o operário - dá mais um passo rumo ao fechamento do ciclo da tão festejada solidez democrática do País.

Viva a mulher brasileira! Bem vinda, presidente Dilma!

sábado, 18 de setembro de 2010

A "imprensa tiririca"

“Pior do que está não fica”.

“Você sabe o que faz um deputado federal? Nem eu. Vote em mim, que eu te conto”.

As frases são do candidato a deputado federal por São Paulo Tiririca.

Está cheio de gente supostamente “bem pensante” criticando a, até aqui, bem-sucedida campanha do cantor e humorista.

Deveria ser visto com mais naturalidade o aparente sucesso da postulação do candidato “palhaço”.

Tomemos as duas frases usadas em sua campanha, repetidas no início deste texto. Convenhamos: não devem ser raros os eleitores que se identificam com elas. E com razão.

A mídia passa o tempo inteiro demonizando a classe política. O Congresso Nacional – e os deputados, por óbvio – de tempos em tempos é massacrado por campanha negativa, generalizando-se comportamentos individuais. Ora, em última análise o recado é de que tudo não passa de uma porcaria e que, no fundo, os políticos são todos iguais. Pois bem, “se pior do que está não fica, então vai o Tiririca mesmo!”, é o que devem pensar inúmeros eleitores.

Quanto às funções de um deputado federal, a mídia bem que poderia contribuir com informações que explicassem as atribuições do cargo, até como forma de a população exercer maior controle e fiscalização sobre o trabalho daqueles a quem elege para a Câmara. Sentindo-se órfã do grupinho dos bem informados, boa parte dos eleitores pode mesmo esperar que Tiririca venha salvá-los da ignorância a que foi relegada por aqueles que poderiam ter algum interesse em instruí-los.

O fenômeno da candidatura de Tiririca tem muito a ver com despolitização estimulada pelos meios de comunicação, no seu empenho em criminalizar a atividade política.

Tiririca, com certeza, é uma espécie de “cacareco”, um mau candidato. Mais do que sintomática da desmoralização dos políticos, sua candidatura é expressão da péssima cobertura da atividade política feita pelos órgãos de comunicação.

Sugiro que passemos a chamar a mídia brasileira de “imprensa tiririca”

sábado, 21 de agosto de 2010

Cartinhas

Nesta semana que finda recobrei uma velha e estéril mania: a de encaminhar mensagens para órgãos de imprensa. Mandei algumas missivas eletrônicas para a Folha de São Paulo e para a rádio CBN. Que eu saiba, apenas uma das "cartas" foi publicada na versão eletrônica do Painel do Leitor, da Folha.

Dividirei com vocês as impressões que enviei para os órgãos supracitados. Como se sabe, temos que buscar ser sucintos se quisermos ver nossas mensagens publicadas. Por isso, não há, evidentemente, nenhum aprofundamento nos temas tratados - até porque talvez não tivéssemos mesmo condições para tanto!

Eleições estaduais - São Paulo
Nesta semana ocorreu o debate Folha/UOL com os candidatos ao governo estadual, com direito a comentaristas do jornal sobre a sucessão, parecendo achar normal o quadro que traz Geraldo Alckmin (PSDB) bem à frente de Aloízio Mercadante (PT) nas pesquisas. A Folha dá como favas contadas a eleição do candidato tucano, tanto que chegou a publicar um editorial de nome "mesmice paulista". Abaixo, a "cartinha":

Geraldo Alckmin tem hoje em São Paulo o único capital político que José Serra tinha no Brasil há cerca de um ano: o recall.
Em nível federal, o destaque dado pela mídia à disputa presidencial colocou os pingos nos “is”. Talvez sem querer, a imprensa acabou mostrando que Serra não passa de um “trololó ambulante”, ao passo que Dilma Rousseff é uma mulher preparada e conhecedora do Brasil. Resultado: a petista sobe enquanto o tucano desce.
Já em São Paulo o debate acerca da pendenga estadual está – para não dizer interditado pelos meios de comunicação – obscurecido pela corrida ao governo federal. Só isso para explicar a “mesmice paulista”, com a dianteira do candidato de um governo que, depois de 16 anos, deixa como legado uma educação catastrófica, transporte público em colapso e a saúde e segurança em frangalhos.
O (e)leitor precisaria ser mais bem informado sobre o pleito no estado de São Paulo.


Ingratidão com FHC
No debate Folha/UOL com presidenciáveis, José Serra (PSDB) acusa Dilma Rousseff (PT) de ser ingrata com os anos FHC. Pilheriei com a cara de pau do tucano.

O presidenciável José Serra, no debate online Folha/UOL, chamou Dilma Rousseff de ingrata por ela não reconhecer supostos avanços dos anos FHC.
Ora, foi o Serra candidato a presidente em 2002 que tentou se esquivar do governo de Fernando Henrique Cardoso, do qual participara como ministro desde o começo. Estratégia, aliás, que viria a ser repetida por Geraldo Alckmin em 2006.
Agora, no pleito deste ano, o jingle da campanha do "Zé" exalta a era Lula, em vez de lembrar os tempos de Fernando Henrique.
Portanto, em matéria de ingratidão com FHC ninguém bate o candidato Serra!


É a Folha que infantiliza os seus leitores
Comentário sobre o editorial Pai e Mãe, de 19.08.2010:

A Folha, em vez de ter a coragem de admitir que apoia uma das candidaturas à presidência da República, aproveita o editorial “Pai e Mãe” para tentar, covardemente, desqualificar a candidata Dilma Rousseff.
Ao buscar sustentar sua opinião, o jornal desrespeita a economista, fazendo pouco caso de sua luta contra a ditadura militar, dos seus cargos como secretária municipal e estadual, ministra de Estado e personagem relevante da articulação política no bem-sucedido governo Lula, especialmente no segundo mandato.
Tomando de empréstimo a elegância e alguns argumentos de um Sérgio Buarque de Holanda, o – apesar de tudo - bem escrito editorial vai fundo demais ao tentar colar a pecha de antirrepublicana na estratégia petista que usa a metáfora da “mãe” para falar de Dilma.
Pois é a imprensa – de braços dados com a oposição – que tem tentado, nesses anos todos, ora transformar a petista numa figura manipulável, sem vontade própria, do tipo que se deixa levar, ora qualificá-la como durona, mandona, às vezes até autoritária. Convenhamos, nada mais parecido com nossas mães do que isso!
Com um pouco mais de, digamos, profundidade filosófica, o editorial da Folha apenas chancela parte das erráticas estratégias da frente serrista, mostrando, assim, que, ao contrário do que afirma, tem lado nesta campanha. Por fim, o jornal é que infantiliza os seus leitores, achando que eles não têm inteligência para perceber isso.


Alguém conhece "de verdade" o Serra?
Missiva encaminhada à Folha, estranhando críticas de Eliane Cantanhêde à candidata Dilma Rousseff, por ser ela supostamente uma incógnita, ao passo que Serra todos sabem bem quem é. Não há negar que a colunista da Folha escolheu um dos piores momentos para fazer tal tipo de afirmação em favor do tucano!

Em sua coluna “Lula lá ou Lula cá em 2011?”, Eliane Cantanhêde se mostra cheia de dúvidas de quem realmente seria Dilma Rousseff e do que se poderia esperar de um eventual governo dela – não obstante os ataques que vem desferindo à ex-ministra nestes anos todos nos fizessem pensar que, ao contrário, ela conhece a candidata petista bem demais!
Mas o principal não é isso. O mais intrigante foi a colunista falar que se sabe muito sobre José Serra. Interessante! Desse jeito ela pode até ser chamada para ajudar na campanha do tucano, haja vista que muitos dos correligionários dele parecem já não saber quem de fato é Serra.
Com efeito, qual Serra conhecemos bem? O que critica de forma dura o governo Lula ou o que tenta se aproveitar da popularidade do presidente no horário eleitoral? O que acusa Dilma de ingrata por não reconhecer avanços no governo FHC ou o candidato acostumado – desde 2002 – a esconder o ex-presidente nas suas campanhas? O que tenta se apropriar dos remédios genéricos ou aquele que admite ter sido apresentado ao programa por um companheiro de partido?
Falar que se conhece bem José Serra nessa altura do campeonato,quando o próprio tucano se perde nas suas contradições, é o tipo de postura ingênua a que jornalistas profissionais não deveriam ter direito.


Liberdade de imprensa e liberdade de expressão
Mensagem encaminhada à rádio CBN, em razão das platitudes da comentarista Lucia Hippolito, no dia 20.08.2010:

Ouvi hoje o comentário de Lucia Hippolito, no “por dentro da política”, sobre o compromisso dos candidatos à presidência da República com a liberdade de expressão.
Fiquei esperando ansiosamente que ela puxasse a orelha do candidato José Serra, que fica agredindo jornalistas da TV Brasil, um candidato a presidente que não responde diretamente às perguntas que lhe são feitas, que tenta desqualificar os entrevistadores, que acusa blogs independentes de serem “sujos” e engordados com verba federal. A propósito, os tais “blogs sujos” a que ele se recusou a nominar, por acaso podem ser alijados do sagrado direito à liberdade de expressão? Espero que a grande mídia se insurja contra essa postura autoritária do ex-governador de São Paulo!
Achei bastante oportuna a lembrança, por parte de Lucia, de que a liberdade de expressão se sobrepõe à de imprensa, informação que a mídia normalmente sonega ao público, antes querendo fazer que pensemos ser a liberdade de imprensa a própria liberdade de expressão. Por ter certamente contrariado seus patrões neste particular, Lucia merece nossos entusiasmados parabéns!
A este propósito, é muito interessante o “respeito” do candidato do PSDB também com a liberdade de expressão strictu sensu dos cidadãos. Não faz muito, no interior de São Paulo, o tucano chamou um manifestante de “energúmeno”, com certeza inspirado pela sua cria (esse, sim, um poste) Gilberto Kassab – provavelmente outro grande defensor da liberdade de expressão! – que expulsou um trabalhador de um espaço público aos gritos de "vagabundo".
Aliás, energúmeno e vagabundo é o mínimo que se fala do presidente Lula nas seções de comentários de sítios eletrônicos dos jornais, que, defensores da liberdade de expressão que são, permitem sem nenhum pudor esse tipo de descalabro. Puxa vida, e o autoritário do Lula não faz nada?!?! Como pode uma coisa dessas?!
Com tudo isso, causa estranheza a preocupação de Lucia com alguma espécie de, digamos, “ímpeto censor” do partido da candidata Dilma Rousseff, o PT. Na hora em que ela disse isso cheguei a pensar: será que integrantes do Partido dos Trabalhadores ligam para os barões da mídia pedindo a cabeça de jornalistas?
De qualquer forma, é bom saber que temos tanta gente defendendo a liberdade de expressão no Brasil, e que podemos falar de tudo, de preferência dentro dos limites das responsabilidades legais, é claro. Se bobear, podemos falar até do preço dos pedágios nas rodovias paulistas!

domingo, 15 de agosto de 2010

Ação e reação

A presença firme de Dilma Rousseff no Jornal Nacional de 9 de agosto de 2010, respondendo de forma segura aos ataques desferidos pelo casal apresentador do programa, pegou de calças curtas não somente os políticos da oposição, como também aqueles que fazem a "verdadeira oposição" no Brasil, a saber, os dedicados escribas da mídia.

Durante todo o tempo, representantes da oposição (política e midiática) vinham apostando em tropeços da candidata do PT quando tivesse, na TV, que se deparar com o contraditório. O desempenho apenas razoável que ela teve no debate da Band, muitíssimo longe de ser o desastre com que muitos sonharam, não deixou de dar algumas esperanças às hostes oposicionistas. Daí talvez a rápida reação contra a boa participação da petista no principal telejornal do País.

Dora Kramer e as "mentiras" sobre a inflação de 2002
Em coluna de O Estado de São Paulo de 11 de agosto de 2010, a jornalista Dora Kramer afirma que Dilma "mentiu ao se referir a inexistente descontrole inflacionário em 2003", no JN. Em verdade, a colunista quis dizer 2002, o último ano do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Pois é. Dilma não mentiu, Dora. Pelo menos não "necessariamente". Em 2002, para uma meta de 3,5% ao ano, a inflação efetiva, pelo IPCA, foi de 12,53% ao ano, ou seja, já passada a sempre temível casa dos dois dígitos. Disse eu que Dilma não "necessariamente" mentiu, porque é, com efeito, uma questão subjetiva considerar 12,53% ao ano como uma inflação descontrolada. Quero com isso dizer que não estranharia ouvir alguém que não considerasse pouco mais de 12% de inflação como exemplo de descontrole de preços. Lembro, no entanto, que não foram raros nos últimos anos o terror perpetrado pela mesma imprensa de Dora Kramer sempre que os índices de inflação anualizados ultrapassavam em décimos de ponto percentual o centro da meta estipulada pelo Banco Central - eu disse o "centro" da meta e não a meta em si. Imagino que uma boa parcela dos leitores hoje teria ataque cardíaco com uma inflação de 12,53%!

Quem quiser conferir os números da inflação de 2002 e compará-la com os de outros anos, ainda nos anos FHC e já na era Lula, favor clicar aqui: http://www.bcb.gov.br/Pec/metas/TabelaMetaseResultados.pdf

Por falar em entrevistas no Jornal Nacional, guardo bem na memória a vez do então candidato Lula em 2002. Uma das perguntas feitas por telespectadores versava justamente sobre a inflação, que já assustava no período de campanha. No debate final com José Serra, também na Globo, uma das convidadas também perguntou aos postulantes sobre a inflação daquela época, acrescentando que "estava muito preocupada". Pelo jeito, o dragão só não fazia parte dos medos de Dora!

E perguntar não ofende: se é verdade que, em 2002, com mais de 12,5% de inflação, a coisa não estava descontrolada, será que, quando se faz um carnaval acerca de qualquer singelo aumento de preços, a imprensa no fundo não quer apenas forçar a elevação dos juros? Com a palavra, a jornalista Dora Kramer.

Miriam Leitão procurando culpados
O Blog Cidadania, de Eduardo Guimarães, comentou e reproduziu texto de Miriam Leitão, publicado no jornal O Globo também em 11 de agosto de 2010, igualmente sobre a participação de Dilma Rousseff no telejornal campeão de audiências e seguindo a mesma trilha de Dora Kramer. Veja o post do Eduardo aqui: http://www.blogcidadania.com.br/2010/08/historias-do-pig-para-boi-dormir/

Miriam esperneia, mas, de certo modo, admite que a inflação na casa dos 12% de 2002 era algo, por assim dizer, "fora do script", para não dizermos fora do controle, haja vista que ela também rechaça essa tese - justo ela, que é das que mais veem inflação em qualquer solucinho de preços! Todavia, a culpa do aumento de preços não era do governo do presidente FHC, afirma a jornalista, mas sim do candidato e presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, que, amedrontando o mercado, provocou a disparada nos preços.

Eis uma tese risível e que expõe o amadorismo dos jornalistas brasileiros. A coisa ficaria mais fácil se eles admitissem seu partidarismo. O problema é que tentam posar de imparciais. Estranho é não se atentarem às suas contradições e, pior ainda, é acharem que o leitor é estúpido o suficiente para não perceber.

Veja bem, caro leitor: quantas vezes já não vimos reverberar a tese de que todo o sucesso do governo Lula é, no fundo, mérito de FHC? Pois bem. A mim me parece um tanto paradoxal: o que é bom no governo Lula deve ser creditado a Fernando Henrique Cardoso, mas o que foi desastroso no ocaso do governo FHC foi culpa do Lula?!

Respondam-me: como levar uma colunista dessas a sério?

Josias de Souza não pode
O experiente repórter e blogueiro da Folha de São Paulo Josias de Souza foi escalado para analisar o desempenho dos presidenciáveis na série de entrevistas a William Bonner e Fátima Bernardes. Já no dia 10 de agosto de 2010, o jornalista acusou a preferida de Lula de tergiversar sobre assuntos importantes, especialmente acerca de alianças estranhas do PT, notadamente com gente como o presidente do Senado Federal, José Sarney.

Acho extremamente divertido quando vejo alguém dos quadros da Folha pegando no pé de Sarney. É que o bigodudo conta com uma coluna cativa na nobilíssima página de opinião do jornal há mais de década. É de estranhar que o mesmo periódico que abriga gente tão impoluta e desinteressada como um Josias de Souza abra espaço tão nobre para figura tão desprezível quanto o ex-presidente da República José Sarney.

Em verdade, o imortal Sarney, mais do que aliado de Lula e Dilma, é, em verdade, um quase colega não somente de Josias, mas de Clóvis Rossi, Eliane Cantanhêde, Fernando Barros e Silva etc. A diferença do Sarney para o Josias, na corporação Folha da Manhã S.A., é que o maranhense conta com muito mais liberdade para escrever, podendo até, como no seu artigo da sexta-feira 13 de agosto de 2010, falar de um certo "populismo midiático". Já o Josias, tem que medir um pouco mais as palavras, sempre pensando em não desagradar o patrão.

Enfim, sem tergiversações: deixa a Dilma se aliar também ao seu colega Sarney, meu caro Josias!

Leia também:
Os 6 (seis) anos do Plano Real
Imprensa comum

domingo, 18 de julho de 2010

Dilma, Serra, mídia e o feel good factor

"Garimpo e eleição, só depois da apuração". A frase, atribuída a Tancredo Neves, encerra a dificuldade de se fazer previsões acerca do resultado de escrutínios. Não obstante isso, o uso da razão permite apostar as fichas na vitória de Dilma Rousseff, do PT, na corrida presidencial de 2010. Muitos analistas têm enveredado por esse caminho.

Tem-se usado muito uma expressão emprestada do inglês, o "feel good factor", para afirmar que as condições atuais do Brasil favorecem, em nível federal, uma onda situacionista: previsão de crescimento do PIB em torno de 6%, resultados positivos na criação de empregos, inflação controlada, aumento da renda do trabalhador, expansão do crédito. Para usar outra expressão bastante batida, "é a economia, estúpido".

As hostes oposicionistas sentem o golpe. Apresentar-se como oposição contra um governo com aprovação acima de três quartos da população não é tarefa fácil. Parece que nada funciona para afinar o discurso. Lula e o PT, no pleito de 1994, enfrentaram o mesmo problema em virtude do megassucesso do Plano Real - e o resultado das eleições todos sabemos qual foi.

O candidato José Serra, do PSDB, valendo-se do mote de seu concorrente Aécio Neves, até que tentou se colocar como um pós-Lula, apostando todas as fichas numa simples comparação de biografias contra os demais candidatos, notadamente, é claro, contra a candidata Dilma. Como parte da estratégia, tenta-se fugir da ideia plebiscitária de comparação dos oito anos de governo do PSDB e dos oito anos de PT, certamente por entender que as coisas são favoráveis a este último período; antes, busca-se falar de avanços que supostamente se iniciaram com a redemocratização do País. Como corolário disso, a afirmação de que PT e PSDB, Lula e FHC, Dilma e Serra são, no fundo, tudo a mesma coisa.

A estratégia até que não seria ruim não fossem as ligações perigosas da oposição com a mídia. Durante oito anos o conglomerado midiático tenta desconstruir o governo Lula, sempre pintando-o como um fracasso, superlativando seus defeitos, fazendo-lhe cobranças desproporcionais em relação ao que exige, por exemplo, dos governos estaduais a cargo do PSDB. Agora vem o candidato da mídia e diz que não é tão oposição assim, que não se trata disso, que, bem-intencionado, apenas acha que o Brasil pode mais!

As duas vitórias de Lula - principalmente a de 2006 - e a resiliência de sua popularidade provam que a mídia não vive seus melhores dias; mais do que isso, ficar de braços dados com ela é carregar um peso morto. PSDB, DEM e PPS vão perceber, mais cedo ou mais tarde, ter sido um grande erro terceirizar o trabalho de oposição para os meios de comunicação, senão vejamos: para continuar, por motivos eleitoreiros, elogiando Lula e o governo, Serra teria que pedir aos seus amigos da imprensa que parassem de malhar diariamente o presidente; por outro lado, se, em coro com a mídia, o tucano começasse a reverberar o ódio e o preconceito de seus companheiros colunistas, bateria de frente com o povão que apoia o governo. Ambas as iniciativas sairiam caras para o candidato.

A saída mais honrosa para a oposição talvez tivesse sido arregimentar novos filiados e escolher um deles para lançar como anticandidato, só para marcar presença na disputa. Três nomes me vêm à mente: Judith Brito, Arnaldo Jabor e Otávio Frias Filho.

sábado, 1 de maio de 2010

Pedro, Gilberto e Alberto

Responda-me, amigo (e)leitor de São Paulo: em 1994, você votaria em Pedro Piva para senador pelo estado? Em 2004, escolheria Gilberto Kassab para prefeito da capital? Em 2006, sufragaria Alberto Goldman para governador?

Aos que disseram sim, por favor, não fiquem bravos comigo se eu concluir que a maioria responderia um sonoro não.

No entanto, durante a maior parte do tempo entre 1995 e 2003, São Paulo se fez representar no Senado Federal justamente pelo empresário Pedro Piva; a capital paulista, por sua vez, já a partir do início de 2005, teve efetivamente à sua frente o então desconhecido Gilberto Kassab, oriundo do naquela época PFL, partido sem tradição em São Paulo; e, por fim, atualmente o estado está nas mãos de Alberto Goldman, veterano político que ainda não tem seu nome na ponta da língua da maioria dos cidadãos paulistas.

Piva, Kassab e Goldman tiveram a sorte de ser suplente ou vices de cargos eletivos de titularidade de José Serra.

Eleito senador com excelente votação em 1994, Serra de cara o preteriu para ocupar o importante Ministério do Planejamento no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Posteriormente, ocuparia, também no governo FHC, a pasta da Saúde. Como se vê, o “senador” ficou praticamente todo o período do mandato ocupando cargos no governo que hoje procura esconder. Coube a Pedro Piva representar a população de São Paulo, que, maciçamente, votou em José Serra para senador.

Em 2004, Serra derrota Marta Suplicy na corrida pela prefeitura de São Paulo. Apesar de reiteradas promessas de que cumpriria os quatro anos de mandato, o alcaide, cotado à época até para ser candidato a presidente, abandonou a prefeitura para disputar o governo do estado em 2006, ou seja, após pouco mais de um ano de administração. Cumpriu-se a profecia da campanha petista de 2004, que, ciente da desmedida ambição de Serra, já alertava o eleitor de que a prefeitura ficaria, inexoravelmente, nas mãos do “incógnito” Kassab.

Agora, por força das exigências da legislação eleitoral, pré-candidato à presidência da República, Serra - depois de uma administração sem brilho, nas insuspeitas palavras da Folha de São Paulo -, deixa o estado nas mãos de Alberto Goldman, para um mandato tampão de poucos meses.

Em vista dessas informações, causa estranheza uma mensagem eletrônica que vem circulando em forma de “corrente”, dando destaque ao fato de que uma possível vantagem de José Serra sobre a sua principal adversária seria o fato de já ter disputado diversas eleições e, mais do que isso, ter ocupado cargos eletivos. O corolário disso é que Serra teria mais experiência. A mensagem não informa, todavia, que o candidato não concluiu justamente os principais mandatos para os quais foi eleito, não havendo, neste caso, muito sentido em se falar do impreciso conceito (em política) de experiência.

Tudo bem que boa parte do proselitismo encaminhado via e-mail, em especial os apócrifos, não prima pelo respeito à verdade, dado o seu caráter de pura propaganda e dado sua falta de compromisso ético. O problema, porém, é que a própria pré-campanha do ex-governador – assim como a de seus aliados na mídia – também bate na tecla do “experiente concorrente em eleições e ocupante de importantes mandatos eletivos”, que botaria Serra, do PSDB, em vantagem sobre Dilma Rousseff, candidata do PT.

E pensar que Serra, o homem que não costuma honrar os mandatos que os eleitores lhe confiam, poderia ter tido como vice, para este pleito de 2010, ninguém menos do que um José Roberto Arruda! E não para por aí: há o risco iminente de ele ter como vice a ruralista Kátia Abreu, representante do mais pragmático conservadorismo que poderíamos imaginar. Será que disso a Regina Duarte não tem medo? Decerto que não...

sábado, 17 de abril de 2010

A primeira semana de 2010

Com o lançamento da pré-candidatura do tucano José Serra, quase dois meses após do da petista Dilma Rousseff, o quadro das eleições presidenciais de 2010 definitivamente fica mais induvidoso, com a possível repetição da polarização - PT e PSDB - que marca a política nacional desde 1994.

Mais do que nunca, a mídia se destaca como figura importante, atuante, da pendenga. Dessa feita, a afirmação não parte das constatações de analistas independentes ou de políticos ligados à esquerda ou à base de Lula, mas da própria presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Maria Judith Brito, que admitiu, sem qualquer cerimônia, que a imprensa atua como um "partido de oposição". Confira a declaração dela, com os nossos grifos:

A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo.

A confissão da presidente da ANJ apenas reforça o que todos no fundo já sabiam. Agora, que a campanha já começou, já dá para perceber a tônica de como a disputa se dará (aparecerá) na mídia: crítica virulenta ao governo Lula, esforços para tornar negativa a agenda da candidata Dilma e, por fim, simbiose entre imprensa e candidato da oposição.

Peguemos alguns fatos (ou factoides) da semana e sua divulgação (análise) nos meios de comunicação.

Quem ignora quem?
A Folha de São Paulo, em 14.04.2010, veio com a seguinte manchete: "Obama ignora Lula e pede sanções imediatas ao Irã". A chamada principal de O Estado de São Paulo na mesma data foi "Obama ignora Lula e mantém pressão por sanções ao Irã". As manchetes quase idênticas, além de darem uma boa pista da "diversidade" no império midiático, comportam uma dificuldade para os diários paulistanos, genuínos depositários do complexo de vira-latas brasileiro, na feliz expressão de Nelson Rodrigues.

Com efeito, levando em conta que temos um presidente da República não raro admoestado nos editoriais dos mesmos jornalões por sua soberba, sempre convidado a lembrar-se de nossa desimportância, fica estranho de repente incluí-lo entre os que tiram o sono do chefe de Estado mais importante do mundo, mandatário-mor da nação mais influente do planeta. Se Lula é somente um megalomaníaco a quem ninguém dá ouvidos, por que justo o Obama esquentaria a cabeça com ele, ainda que fosse para ignorá-lo, a ele se opondo? Mais sensato, parece-nos, seria a nós dispensar a indiferença com a qual toda a vida nos acostumamos.

A melhor leitura do caso parece ter sido a do historiador Gilberto Maringoni, que em depoimento ao sítio Carta Maior sugeriu que seria mais prudente a inversão das manchetes da Folha e do Estadão para algo do tipo "Lula ignora Obama e mantém negociações com o Irã". Em nossa opinião, Maringoni mandou bem e venceu o jogo no próprio campo dos principais jornais de São Paulo. Afinal, como ser crítico feroz da política externa do governo Lula reconhecendo de forma tão categórica a importância internacional das posições adotadas pelo País?

Ah, só para lembrar, os principais críticos do governo Lula, incluindo a mídia, depositam esperanças na possibilidade de que a oposição, se vitoriosa, mude os princípios independentes e assertivos da atual política externa brasileira.

O "problemão" de Dilma
No mesmo 14.04.2010, o Estadão avisa que Dilma tem problemas com alianças em 15 estados da Federação, o que atingiria, pela conta do jornal, 63% do eleitorado brasileiro. Sabe a que se resume o problema da candidata do PT, caro leitor? Ao excesso - isso mesmo, "excesso" - de palanques!

Acredite se quiser, amigo (e)leitor: o que talvez fizesse Serra abrir alguns de seus raros - e pouco francos - sorrisos é, segundo o centenário jornal paulistano, um problemão para a candidata Dilma. Deve ser verdade. Já imaginaram se a ex-ministra tiver que, na mesma semana, visitar o candidato a governador X às segundas, quartas e sextas, e nas terças, quintas e sábados precisar subir ao palanque com o candidato Y, ferrenho adversário de X? Que confusão! Imagina a ciumeira entre eles!

Como bem definiu o deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ) em interessante postagem em seu blog, trata-se de um caso de wishful thinking do Estadão, ou seja, vejo as coisas na ótica que entendo ser mais favorável para mim ou como gostaria que elas se revelassem. Na dura realidade, porém, o excesso de aliados nos estados não é problema de Dilma Rousseff; a falta deles é que é para Serra.

O que foi que você disse?
O dia 14.04.2010 parece ter sido profícuo no discurso unificado da imprensa. Na mesma data, dessa vez na Folha, o colunista Fernando Rodrigues comenta a polêmica, disseminada na mídia, sobre frase que, aliás, não foi dita por Dilma Rousseff. A petista, em discurso no ABC paulista, falou generalidades acerca de não abandonar a luta. Alguns interpretaram como críticas aos que se exilaram durante o período militar, como é o caso de Serra. Pior do que isso, a mesma Folha transcreveu incorretamente o que disse a ministra, incluindo trecho sobre exilados em sua fala, o que de fato não ocorreu.

O mais interessante, porém, foi Rodrigues puxar a orelha da petista, buscando ensinar-lhe que, em política, "tudo o que precisa ser explicado não é bom". Acrescentou que "Dilma Rousseff tem se explicado muito". Teorizou que "são apenas sinais da inexperiência de Dilma quando se trata de ficar sob a tensão de uma campanha".

Rodrigues deve estar de brincadeira. Brincadeira pior do que quando, no programa Roda Viva com Protógenes Queiroz, sugeriu que agentes secretos deveriam fazer seu trabalho revelando a identidade! A questão é simples: Dilma precisa se explicar muito porque dela são cobradas explicações, inclusive sobre fatos inverídicos. Suas falas "reais" não revelam inexperiência em campanhas; somente são frases fortes que chamam, naturalmente, a atenção na mídia, que quer a ela impor uma agenda negativa a todo custo - e não é de hoje, diga-se. À candidata, nada resta senão apagar os incêndios, os quais a muitos sequer deu causa. Não é justo, mas é assim que as coisas funcionam. Infelizmente.

Do outro lado, do candidato José Serra não são cobradas explicações. Por exemplo, o que fez a imprensa quando o governador soltou os cachorros para cima de repórter da TV Brasil que lhe fez pergunta incômoda numa coletiva de imprensa? Absolutamente nada. Ora, seria o caso de tentar ver se a sua defesa da liberdade de imprensa, cantada em prosa e verso inclusive no lançamento de sua candidatura, é para valer mesmo ou se, em caso de ser eleito, os jornalistas terão que lhe fazer apenas as indagações que lhe agradem.

Em resumo, não é Dilma que tem tido de se explicar muito. É Serra que não tem explicado nada.

Pitta estava para Maluf como Kassab está para Serra
Serra, como é de todos sabido, é o candidato da oposição mas, esquizofrenicamente, não quer fazer oposição a Lula. Vai entender...! Aposta tudo na comparação de sua biografia com a da ex-ministra. Ademais, ele está no melhor dos mundos, pois enquanto preserva o presidente brasileiro, seus jornalistas amigos trabalham arduamente para não somente fazer balanços negativos do governo como, especialmente, esconder os dados positivos, dentre os quais, a criação recorde de empregos no primeiro trimestre. É um bate-bola perfeito!

Vejamos a que ponto chega a tentativa de fugir do debate de projetos. Em entrevista à rádio Bandeirantes, para fustigar a candidata "desconhecida" do presidente mais popular da nossa história, o ex-governador valeu-se do exemplo do falecido Celso Pitta, o fracassado ex-prefeito de São Paulo, um "estranho" que se elegeu no vácuo da boa avaliação de Paulo Maluf. Serra, ainda por cima, aproveitou a ocasião para elogiar a administração de Maluf, concluindo que nem sempre a criatura repete o criador.

Primeiramente, observemos que boa parte das declarações na política não é feita de forma tão desinteressada. Com a simpática referência a Maluf, Serra pretende, num primeiro momento, reforçar a imagem positiva que vem obtendo junto ao eleitorado mais conservador, às vezes até de extrema-direita. No vale-tudo eleitoral, não dá para dispensar os velhos entusiastas do "rouba-mas-faz" e coisas do gênero; e não importa que tenham, Serra e Maluf, militado em lados opostos durante as respectivas trajetórias políticas. Todavia, não é isso o mais intrigante nesse caso.

O curioso, sem dúvida, é que Serra também tem o seu "Pitta". E o mais interessante é que se trata de um homem que foi, ironicamente, secretário de planejamento justamente do falecido ex-prefeito. Estamos a falar, é claro, do atual prefeito paulistano Gilberto Kassab. Político pouco conhecido, de partido sem grande representatividade em São Paulo, Kassab herdou a prefeitura porque Serra, descumprindo promessa de campanha, a abandonou para disputar o governo do estado. Já para a sua reeleição, o alcaide contou com o apoio velado de Serra, que traiu naquela feita o candidato Geraldo Alckmin, num dos mais notáveis casos recentes de cristianização na política brasileira.

Fosse mais corajoso, Serra esqueceria Maluf e Pitta. Para acusar Dilma de "poste", falaria de si mesmo e de Kassab.

Pelo jeito, em sua campanha, o presidenciável do PSDB não se esconderá somente de FHC. Decerto também dará uma de desentendido no caso do implacável Gilberto Kassab. Uns dirão que é deslealdade; outros, cautela.

terça-feira, 30 de março de 2010

E o jacaré ainda não fechou a boca

Pesquisa Datafolha, divulgada em 27.03.2010, mostra que José Serra ampliou vantagem sobre Dilma Rousseff, subindo de 32% para 36%, enquanto a pré-candidata do PT oscilou negativamente, de 28% para 27%.

O resultado foi, de maneira geral, tomado como surpreendente, tendo em vista que o conjunto das pesquisas vinha indicando queda livre do tucano e ascensão aparentemente ilimitada da petista. Imaginava-se que o "jacaré iria fechar a boca", em alusão ao encontro no gráfico dos índices de cada candidato, simulando a mordida do simpático réptil.

De nosso lado, acreditamos que, se chamar de previsível o resultado seria clamoroso exagero, não é absurdo dizer que ele está longe de ser surpreendente. Diferentemente do que foi reverberado, houve, sim, "fatos novos" a justificar a leve subida do governador de São Paulo.

Antes, um adendo: estes números do Datafolha, referentes a Serra, diferente da consulta anterior, estão mais próximos do resultado que o paulista vem obtendo, com grande resiliência, nas pesquisas de outros institutos, ou seja, a casa dos 35%, o que, lendo sob esse prisma, os tornam ainda menos estranhos.

Mas vamos aos fatos novos: Serra, ainda que de forma hesitante, admitiu ser candidato, em programa popular de TV. Malandramente, fê-lo elogiando o presidente Lula, numa tática tão primária, que foi rapidamente percebida e prontamente exposta pelo apresentador José Luiz Datena, qual seja, a de não criticar o governo atual e tentar fazer a comparação de biografias com a principal adversária, fugindo assim, da estratégia do modelo plebiscitário, buscada pelo PT.

Outro fato: nos últimos dias o PSDB vem usando a sua cota de inserções durante a programação de TV, com o governador paulista em pessoa falando não somente de suas supostas realizações como governador de São Paulo, mas também das conquistas que teria obtido em outros cargos públicos que ocupou. E sem o contraditório, fica fácil falar que criou os genéricos, que implementou programa de combate a AIDS, falar que a educação e a saúde de São Paulo são uma maravilha...

De outra parte, no caso de Dilma Rousseff, "fatos novos" podem até não ter comprometido muito seu desempenho, mas decerto também não ajudaram. Nos últimos dias veio a campo o requentado "caso Bancoop", com insistentes capas de revista e ampla repercussão no rádio e TV. Pouco importa se o juiz da causa fez pouco caso da representação do promotor José Carlos Blat; o despacho do Magistrado teve, evidentemente, bem menos destaque na mídia, se é que teve algum. Ainda que o denuncismo barato não pareça ser capaz de fazer grandes estragos na campanha da candidata do governo, pode, sim, ter o condão de contribuir, neste momento, para a estagnação. A conferir.

Deve vir mais emoção nos próximos dias. E, acreditamos, serão, de início, favoráveis a Serra. Ele se apresentará oficialmente como candidato no segundo final de semana de abril. A chamada grande imprensa, especialmente as revistas semanais, ofertar-lhe-á docilmente suas capas e, claro, as suas mais nobres páginas; rádio e TV, se bobear, farão um subserviente "esta é a sua vida" do governador. Nessa brincadeira, deve ganhar alguns magros pontos, ou, na pior das hipóteses, ficará onde está, mas num clima em que será difícil que a principal adversária suba ao menos um pouquinho, ou seja, no mínimo manterá a distância alcançada.

A campanha, com isso, entrará em nova fase e exigirá mais profissionalismo das equipes dos candidatos. O tempo de TV é que deve fazer a diferença, como o prova, aliás, a própria subida do tucano, ocorrida após a participação no Datena e após as aparições nas inserções do PSDB.

Quanto às pesquisas em geral, vamos sempre lembrar, neste espaço, que em 2008, na corrida pela prefeitura de São Paulo, faltando cerca de três meses para as eleições, Marta Suplicy se aproximava dos 40%, Geraldo Alckmin tinha pouco mais de 20%, e Gilberto Kassab estava tecnicamente empatado com Paulo Maluf com não mais do que 10%. No final, deu no que deu!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Por que não divulgar pesquisas

Muitos não acreditam em pesquisas; e há os que acham que o grande problema delas está na sua divulgação. Estes argumentam que o resultado das pesquisas podem influenciar o eleitor de forma não muito salutar, tornando-as um campo fértil para todo tipo de tentativa de fraude e manipulação.

A ideia é que, ao mostrar um candidato "x" em primeiro lugar ou em ascensão, pode-se vitaminar as intenções de votos nele, especialmente por parte de um grupo que poderíamos chamar de "lumpen-eleitorado", ou, ainda, dos indecisos. De outra parte, pode ocorrer o "desvio" de votos que iriam para um candidato "y" em favor de um candidato "z", pois o eleitor pode ver neste uma figura mais competitiva num segundo turno: o famigerado voto útil.

É de se presumir que a TV Globo esteja entre os que veem na divulgação a principal arma política das pesquisas. Segundo informações na internet, a emissora, em seu principal telejornal, simplesmente desprezou um dos fatos políticos mais importantes das últimas semanas: o crescimento vigoroso das intenções de voto da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para a sucessão do presidente Lula, medido pelos institutos Vox Populi e Sensus.

Os responsáveis pelo jornalismo global podem até ponderar que a emissora é contratante do IBOPE para o mesmo tipo de pesquisas e que em outras sondagens, nas quais a ministra não ia muito bem, também não fez questão de divulgar dados de concorrentes do instituto dirigido por Carlos Augusto Montenegro. De qualquer forma, é inegável o peso jornalístico da subida da ministra Dilma, que, afora ser um fato novo, é sem dúvida evento mais relevante do que o de ela, novata em eleições, ficar atrás de políticos governadores de estado ou já candidatos a presidente em outras oportunidades.

A tese que defendemos aqui é a de que a Globo simpatiza muito - para dizer o mínimo! - com a possível candidatura de José Serra. E, ao não noticiar resultados que apontam tendência de alta da candidatura praticamente certa de Dilma Rousseff, parece realmente deixar claro que acredita no fato de que mais importante do que os números de pesquisas é a sua divulgação.

Declarada a nossa suspeita, admitamos que não é nada reconfortante saber que a principal emissora de televisão do país, claramente partidária e fortemente ligada a determinado instituto de pesquisas, pareça acreditar tanto no poder que pode extrair de um simples ecoar de resultados de sondagens eleitorais.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

PSDB, DEM, Serra, Aécio: aonde vocês pensam que vão?

Desde 1994, quando da primeira candidatura de Fernando Henrique Cardoso a presidente, o DEM (ex-PFL) é o parceiro preferencial do PSDB. Estiveram juntos nos dois mandatos de FHC e, até hoje em dia, caminham afinados na oposição ao governo Lula, além de permanecerem aliados em diversos estados e municípios.

Para as eleições presidenciais de 2010, a união entre os dois partidos já vinha sendo tomada como certa. O DEM se apresentava como a noiva controladora e que gosta de impor limites. Nem se discutia quanto ao líder da relação, que é, indubitavelmente, o PSDB. Todavia, importantes quadros democratas, dentre eles o deputado Rodrigo Maia e o senador José Agripino Maia, cobravam uma definição urgente por parte dos tucanos, indecisos quanto à candidatura do governador de São Paulo, José Serra, ou de Aécio Neves, governador de Minas Gerais.

Aécio defendia publicamente que o partido lançasse logo o candidato; José Serra não queria que a escolha ocorresse antes de março de 2010. É, portanto, difícil acreditar que o posicionamento dos democratas, firmes na exigência pela definição tucana, não fosse um aceno aos propósitos do governador mineiro, que claramente colocava sua candidatura à disposição, com sinalização mais forte de que estava preparado a assumir a briga. De sua parte, José Serra, mais “tucanamente”, vem, esse tempo todo, passando a imagem de que pode, na hora “h”, desistir da empreitada.

Eis que a noiva, toda certinha, é pega aprontando das suas. Nessa hora, o noivo, que até então vivia acabrunhado, sente que é a hora de dar o troco, deixando claro que o casamento só sai se – ou na hora em - que ele quiser. As cenas de corrupção explícita do DEM fizeram o partido baixar a bola, e Serra passou a dar as cartas. Já Aécio, cujo maior trunfo era a sua oferta de garantia da solidez da aliança demotucana, preocupado que está com seu futuro político, resolveu largar o barco, informando que disputará uma cadeira no Senado Federal por seu estado. Ou seja, Arruda e sua gangue deixaram o governador de Minas sem a claque para reverberar, na mídia, seu posicionamento, o qual era desafiador ao todo-poderoso governador de São Paulo.

A saída de Aécio obriga o governador Serra a tomar logo uma decisão, até porque a principal adversária, a ministra Dilma Rousseff, do PT, não esconde de ninguém o jeitão de candidata em 2010; o mineiro, esperto, deixou uma porta aberta para voltar atrás, caso o partido precise, na última hora, de um candidato a presidente; não se descarta, por fim, a possibilidade – ainda que remota - de uma chapa puro-sangue, com os dois governadores tucanos. São muitas as conjeturas do para lá de indefinido quadro tucano.

Num primeiro momento, a maior vítima do chamado DEMsalão é, sem dúvida, Aécio Neves, que vinha ganhando musculatura na sua briga interna com Serra, justamente por conta de sua capacidade agregadora, em clara oposição ao estilo truculento e concentrador de seu oponente e de resto de todo o grupo paulista que comanda o PSDB. Havia até mesmo, nos bastidores da disputa interna, um pouco da luta contra o chamado paulicentrismo, fantasma que ronda, silenciosamente, a política brasileira. A posição do mineiro ficou tão complicada que chega a ser suspeita toda essa exposição das entranhas do DEM.

Reconhecer o segundo plano a que já estava relegada a candidatura de Aécio Neves, mesmo antes de sua desistência, não é o mesmo que acreditar que ele estaria obrigado a aceitar qualquer imposição de seu partido - se é que o partido, principalmente por parte de seus caciques de São Paulo, está em condições de lhe impor alguma coisa. Noutras palavras, a pequena derrota do governador mineiro não seria suficiente para deixá-lo de joelhos, a ponto de aceitar ser vice do governador de São Paulo, ainda mais depois de ter feito amiúde discursos contra a centralidade da política paulista em nível nacional. Ao contrário, há quem veja em sua desistência um golpe contra o grupo de Serra, que terá que ir, de uma vez por todas, para o tudo ou nada.

sábado, 26 de setembro de 2009

Pesquisas

Faltando mais de um ano para as eleições de 2010, eis que se veem por aí centenas de análises dos números das pesquisas para a corrida presidencial. Serra bem à frente, mas caindo aos poucos; Dilma que subiu, mas não sai do lugar; Ciro Gomes dando a entender que a disputa centrada no PT/PSDB pode estar abalada; e Marina Silva tirando um pouquinho de votos do tucano e um pouquinho da petista.

Este blog, num de seus principais - porém não poucos - erros, apostou as fichas na vitória do tucano Geraldo Alckmin na disputa pela prefeitura de São Paulo em 2008. Os raríssimos leitores que nos honram com sua fidelidade decerto se lembram de que tínhamos - acreditamos - bons argumentos para apostar na vitória do ex-governador. Baseávamo-nos sobretudo nas pesquisas. Circa agosto daquele ano, ou seja, apenas dois meses antes do pleito, segundo os principais institutos, a petista Marta Suplicy beirava os 40%, o tucano abocanhava pouco mais de 20%, enquanto o prefeito Gilberto Kassab e o eterno candidato Paulo Maluf juntos não chegavam às intenções de voto de Alckmin. Entendíamos que no segundo turno, entre Marta e Alckmin, o tucano herdaria com facilidade os votos dos eleitores conservadores que teriam ficado com o prefeito e com o folclórico Maluf. Nunca é demais lembrar, Kassab foi reeleito, e o atual secretário de Desenvolvimento de São Paulo sequer foi para o segundo turno!

Tudo isso para dizer que não dá para levar muito a sério pesquisas acerca de algo que vai ocorrer daqui a mais de um ano. Vale lembrar os clichês usados por analistas, como a presença do "Imponderável da Silva" e a figura "garrinchesca" do "falta combinar com os russos". É claro que os políticos e marqueteiros nem se importam e, ipso facto, usam os resultados das sondagens para trabalhar nos bastidores. Nada a opor, em princípio. Afinal, bem ou mal estão munidos de uma informação, e o negócio, nesse caso, é ver o que se pode fazer - ou deixar de fazer - com ela.

Por falar em clichês, há um bastante interessante que é aplicado a pesquisas: elas são, dizem, "a fotografia do momento". Parece-nos verdadeiro, não obstante pairem, aqui no Brasil, sérias dúvidas sobre a lisura no modo de atuar dos institutos. Mas mesmo tomando como certos os números das recentes consultas divulgadas, qual seria a real importância de tal "fotografia" a essa altura do campeonato?

O que vale mesmo, por óbvio, é a "foto" que será tirada em outubro de 2010.

Ainda falaremos sobre isso.

domingo, 16 de agosto de 2009

Quem te viu, quem PV

Marina Silva talvez dispute mesmo a presidência em 2010 pelo Partido Verde (PV).

Marina é realmente uma mulher preocupada com a causa ambiental. Desse modo, pensam alguns, talvez ela acerte em trocar o PT pelos verdes. Bastante coerente.

É coerente, mas não é tão simples.

No alto de minha humildade, se pudesse, sugeriria a ela que, antes de ingressar no partido de Gabeira, procurasse fazer visitas aos diretórios regionais da agremiação nalgumas cidades. Seria bacana ver com quem eles estão aliados, de que forma atuam nas câmaras municipais, como agem seus militantes, qual é o nível de preocupação ecológica de seus filiados.

Ela poderia iniciar suas pesquisas em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, por exemplo. O ideal seria visitar alguns “verdes” da cidade, procurar ver os cuidados que eles pessoalmente tomam com o meio ambiente, como se comportaram nas últimas eleições, se trabalharam na administração pública, quais as suas relações com os políticos locais, qual o seu grau de comprometimento com o partido e com as causas que abraça.

Como forma de saber o que pode esperar, talvez fosse recomendável para Marina ver também qual é o comportamento dos militantes de outros partidos igualmente menores daquela cidade. Seria importante visitar algumas pessoas que integravam, por exemplo, o PSB em 2002. Naquele ano, o Partido Socialista Brasileiro contava com o ex-governador fluminense Garotinho como candidato à presidência da República. O partido, que era do vice-prefeito de São Bernardo, via muitos de seus integrantes trabalharem na administração municipal. Seria interessante que Marina verificasse se eles realmente, no dia-a-dia, demonstravam entusiasmo pelo candidato de seu partido, ou se, por acaso, não faziam pregação diuturna para o então candidato José Serra, do PSDB. O comportamento deles decerto que daria uma boa pista de como as bases do PV tenderiam a trabalhar em algumas cidades, nas eleições de 2010.

Pelo menos duas das revistas semanais oferecem capa a Marina Silva, dando a entender que ela pode mexer na sucessão e que isto seria, inclusive, benfazejo por trazer algum arejamento a um tipo de disputa que vem sendo monopolizada por petistas e tucanos desde 1994.

Entendemos, porém, que a pendenga centrada em dois partidos não é, em princípio, algo tão deplorável assim, vide os Estados Unidos. Ademais, seja lá como for, o PT e o PSDB até que são, aos trancos e barrancos, partidos que comportam alguma unidade. Imagino que não se verá, em 2010, o PT de qualquer rincão do país não apoiando a candidata Dilma – e isso mesmo que tal diretório prefira a própria Marina Silva; de igual modo, o PSDB, mesmo um diretoriozinho de alguma cidade mineira, não deixaria de apoiar o candidato Serra, ainda que houvesse alguma decepção por ter sonhado com a candidatura Aécio.

Em resumo, este blog não confia na coesão partidária do PV. Acreditamos que em diversas cidades (citamos São Bernardo, mas poderia ser qualquer outra do estado de São Paulo), o partido, mesmo com candidatura própria, por debaixo dos panos, trabalhará por Serra. É assim que funciona a política hodierna no Brasil: no fundo, agremiações menores se sentem mais à vontade quando estão à sombra de um partido com características mais hegemônicas. As pessoas que a elas estão filiadas, sobretudo quando não nas grandes capitais (às vezes mesmo nelas), estão mais preocupadas com projetos pessoais, normalmente desligados de eventuais ideologias partidárias.

No que se refere à supracitada subserviência, uma exceção importante foi o caso de Kassab em São Paulo. O que se viu foi justamente o PSDB, nos seus subterrâneos, rendendo-se ao aliado mais fraco, o DEM. O cristianizado Geraldo Alckmin sabe muito bem do que estamos falando. Embora excepcional, esse episódio ajuda, de algum modo, a reforçar o temor que temos com o que poderia ocorrer com Marina: se um partido forte e grande como o PSDB, de forma pragmática, teve coragem de impingir tal humilhação a um ex-governador de São Paulo, por que o PV não exporia a tal ridículo uma ex-ministra petista, oportunistamente filiada na última hora?

E tem mais, há o efeito imprensa, problema que a ecologista poderia enfrentar se - assim como acreditam alguns analistas – conseguir tirar alguns votinhos do candidato tucano. Fica para um próximo post.

sábado, 8 de agosto de 2009

Marina, faça tudo, mas faça o favor!

Na corrida presidencial de 2006, causava infinitos risos ver as reacionariíssimas elite e classe média, sobretudo as paulistanas, derretendo-se em elogios à "revolucionariíssima" Heloísa Helena. Ficavam engraçadíssimas algumas frases saídas de algumas das bocas mais direitistas de São Paulo: "eu gosto do jeitão dela; ela é bem firme, bastante séria", "mulher de fibra, coerente, inteligente", "falta-lhe um pouco de experiência, mas tirando isso...", bla bla bla bla bla...

Apesar de todo o respeito angariado junto ao exigente eleitor médio paulistano, a moça do PSOL teve que engolir o fato de ele, na hora "h", digitar o número que computava votos ao ex-governador Geraldo Alckmin. Normalíssimo! Era, com efeito, pouco compreensível que gente tão conservadora tivesse tanta simpatia por uma "amalucada radical de esquerda" - muito embora em alguns temas, como, por exemplo, o aborto, a nossa Heloísa Helena esteja mais à direita do que a Liga das Senhoras Católicas!

Na verdade, os "quatrocentões", ex-malufistas, demo-tucanos e frequentadores da Daslu apenas faziam um ou outro afago na alagoana porque sabiam que ela tirava votos do candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Sabiam que a "comunistinha doidinha comedora de criancinhas" não tinha chance nenhuma, por isso lhe davam corda. Se por acaso a velha e boa fortuna conspirasse de modo a provocar uma incrível "zebra", colocando a ex-senadora com chances reais de vitória, não há dúvida de que as frases acima expostas viriam noutro tom, acrescentando, ainda, boa dose de desprezo, em especial às origens nordestinas e esquerdistas da mais famosa dissidente do Partido dos Trabalhadores.

Mas pode ser que a direita paulistana volte, dentro em breve, a ter bons motivos para se divertir à custa de incautos, ou melhor, incautas. Eis que neste ano da graça de 2009 corre o boato de que a ex-ministra Marina Silva talvez se filie ao Partido Verde e dispute a presidência da República em 2010. Por conta disso, o que só se veem na imprensa e em certos comentários de blogues são elogios - vindos de gente suspeitíssima - ao trabalho e ao caráter da senadora do PT. Pois bem. A história, amigo leitor, pode se repetir, e desta vez não vai dar para citar o velho Marx dizendo que se repete como farsa, pois na versão anterior, conforme prenunciado, já era uma tremenda farsa!

Ao postular a cadeira de Lula, a senadora Marina Silva está, em verdade, dando sobrevida à candidatura de Serra, que, segundo alguns bem informados escribas da mídia, chegou a dar uma balançada. Motivo pelo qual o ego dela precisa ser devidamente inflado. A idéia, bastante razoável, é a de que Marina subtraia muitos votos da ministra Dilma Rousseff, fundamental numa eleição que deve ter pouquíssimos candidatos.

Bom lembrar que o Ministério do Meio Ambiente, sob o comando de Marina, foi por diversas vezes acusado de atravancar o desenvolvimento do país, sendo não raro responsabilizado pelo "crescimento maior apenas do que o do Haiti nas Américas". Tal reprovação aparecia em colunas, editoriais e nas sempre abalizadas opiniões de empresários. Mas tudo isso parece fazer parte do passado. Agora, para muitos deles, Marina é a pobre injustiçada de Lula, uma mulher que pretendia trabalhar mas foi impedida, figura realmente preocupada com questão da mais capital importância para nós, bla bla bla bla!!!

É de morrer de rir, novamente! Resta saber se Marina Silva será tão ingênua quanto foi Heloísa Helena para fazer o jogo da hipócrita direita brasileira, sobretudo a inscrustada na mídia, em especial a de São Paulo.

Mas aqui vai, de nossa parte, um elogio simples e respeitoso, sem mais delongas: Marina Silva é uma mulher fantástica! E este é um elogio de quem imodestamente se julga no direito de fazê-lo, pois sempre foi sincero seguidor da causa ecológica e admirador do trabalho da senadora.

Mas vai também um recado, Marina, para caso você caia na bobeira de ser joguete na mão do PSDB, do DEM e da mídia:

quando eu me zango, Marina,
não sei perdoar...

sábado, 4 de abril de 2009

Sutilmente...

Em semana de encontro do G-20, com direito a descontraídas tiradas entre o presidente estadunidense e seu colega brasileiro, passou despercebida uma sutileza da mídia em relação à política local, observada mais especificamente no portal UOL e na Folha OnLine.

Na segunda-feira (30-03) foram divulgados os resultados da pesquisa CNT/Sensus sobre o goveno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A exemplo do Datafolha e do IBOPE, a popularidade de Lula teve uma pequena queda, mas ainda se mantendo em índices considerados extraordinariamente altos. Como seria de se esperar, a crise foi apontada como a grande vilã (este blog, porém, humildemente acredita no aspecto inercial da queda da popularidade presidencial: ela estava em patamar dificilmente superável e, além disso, é muito complicado manter índices tão altos num país complexo como o Brasil, não havendo, pois, novidade nas pequenas quedas ora verificadas). Mas é só um adendo; queremos mesmo falar de outra coisa.

Juntamente à consulta acerca da situação presidencial, foi feita sondagem sobre o pleito de 2010. É aí que entra a sutileza supramencionada. O UOL e a Folha OnLine apresentaram a dianteira de José Serra de uma forma blasé, como quem diz não haver novidade. Mas o mais interessante foi o destaque que deram à subida de Dilma Roussef (leia aqui). Até aí tudo bem, afinal para o grupo Folha equilíbrio pouco é bobagem! A esperteza, porém, veio na atenção dispensada à informação de que, se o adversário for Aécio Neves, a ministra-chefe da Casa Civil, segundo a pesquisa, consegue emparelhar. Aparentemente, o UOL e a Folha OnLine apenas prestam o seu nobre serviço de bem informar o cidadão. Mas será que só se trata disso?

A Folha, pelo menos por meio de seus braços “internéticos”, parece ter intentado mandar recados ao PSDB e, mais especialmente, para o governador mineiro e seus simpatizantes; não chegou ao ponto de dizer “pó pará, governador”, mas insinuou que “prévias não, obrigado!”. O neto de Tancredo ainda não desistiu de sua candidatura e decerto pensa ter chances de ser o escolhido numa consulta interna do partido. E este blogueiro tem sérias dúvidas se ele não conseguiria, principalmente se souber explorar bem o discurso contra o “paulicentrismo”, discurso este, aliás, já por ele encampado timidamente noutras oportunidades. Mas a mídia – a princípio a paulista, mas talvez não só ela - tentará convencer o partido da furada que isso pode representar e, além disso, já está buscando incutir na cabeça dos eleitores oposicionistas a certeza de que Dilma tem chances, mas apenas se o adversário for o governador das Minas Gerais.

A imprensa paulista tem passado a impressão de que não dará sossego ao pobre governador Aécio, pelo menos até a definitiva indicação de Serra à sucessão presidencial. Mas suponhamos que, assim como Alckmin, o mineiro surpreenda e seja ele o indicado, deixando o governador paulista chupando o dedo (tudo na política é possível); nesse caso, podemos apostar numa repentina mudança nas redações dos jornais e de seus portais: entre Dilma e Aécio, a preferência midiática deve recair sobre o segundo, e por isso o aventureiro namorador e otras cositas más dará lugar ao governador empreendedor e bem avaliado de um dos maiores estados do Brasil. Já vimos esse filme: em 2006, após o trunfo de Alckmin dentro do partido, a imprensa mais do que depressa jogou para debaixo do tapete os escândalos do ex-governador que vinham sendo relativamente bem abordados enquanto ele disputava a indicação com Serra. Mas isso tudo, sempre de forma muito, mas muito sutil!

sábado, 3 de janeiro de 2009

Mais um "ano eleitoral"

Em 2009 não haverá eleições. O ano, no entanto, deve ter muito de eleitoral, com a antecipação do clima de sucessão presidencial, a qual somente se dará no ano que vem. Em verdade, as urnas mal estavam fechadas em 2006, e já se falava do pleito de 2010. O ambiente sucessório, portanto, já se mostra presente desde o fim do primeiro mandato do presidente Lula.

Parece estar fechada questão no fato de que o próximo ocupante do Palácio do Planalto será o economista José Chirico Serra, que, como brinca Paulo Henrique Amorim, por enquanto apenas faz um estágio no governo do Estado de São Paulo! Mas, parafraseando pela enésima vez Mané Garrincha, é preciso combinar com os adversários! No caso de Serra, há que entrar num acordo também com os “aliados”...

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, já deixou bem claro que também é pré-candidato para 2010 e exorta seu partido a fazer prévias para escolher o postulante a ser o pós-Lula, como já se apressam em dizer alguns. Não é por nada, não, mas Aécio teria boas chances. O governador mineiro bem que poderia se aproveitar do descontentamento com o chamado “paulicentrismo”, que, com efeito, vem mesmo irritando alguns políticos de fora do maior estado do país, insatisfeitos com a hegemonia paulista na política brasileira desde a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso. (Lembrando que nem FHC nem Lula são paulistas de nascimento, mas, como se sabe, adotaram o estado e nele fizeram carreira política). Ademais, o presidente Lula bateu de forma esmagadora dois candidatos paulistas, inclusive o próprio Serra, nas duas últimas pendengas. O governador de Minas bem pode querer usar esses fatos recentes para superar o governador de São Paulo numa eventual disputa interna.

Isso tudo somente para dizer que Serra talvez já encontre alguma dificuldade dentro do próprio PSDB. Há, ainda, mais nomes importantes de outros partidos que correm por fora, como, por exemplo, o ex-ministro e ex-governador do Ceará, o paulista Ciro Gomes e, é claro, a ministra Dilma Roussef.

Dilma pode se beneficiar dos resultados práticos do atual governo, que, caso mantenha os bons índices de popularidade que ora ostenta, poderá ser seu principal cabo eleitoral. Na sucessão municipal de 2008 falou-se que restou demonstrado que o presidente Lula não tem tanta capacidade assim de transferência de prestígio. Que seja. Mas, por outro lado, alguns dos resultados das eleições nas prefeituras deixaram claro que a população não hesita em manter as coisas como estão se estiver satisfeita com o andar da carruagem (Kassab que o diga!).

Político hábil, experiente e inteligente, é possível que José Serra esteja atento às bobagens que escrevemos aqui. Ele deve saber que para realizar seu sonho de ser presidente da República Federativa do Brasil não bastarão editoriais vergonhosos, como o recentemente publicado no Estadão (O PAC paulista é melhor, de 13-11-2008), que só não se parece com uma peça de propaganda porque os marqueteiros não são tão caras-de-pau quanto os delirantes editores de jornais. O governador tampouco poderá contar somente com o puxa-saquismo de colunistas da mídia, como o de Paulo Rabelo de Castro, que em artigo na Folha (2009, um ano de (pré) eleição, de 17-12-2008), disse que Serra é inteligente e sagaz em tudo o que faz... Logo o Paulo, que costuma ver erro em tudo!

Trocando em miúdos, muita água deve passar por debaixo da ponte. Lembremos que, por volta de agosto de 2008, as pesquisas para a prefeitura de São Paulo mostravam Marta com cerca de 40%, Alckmin com pouco mais de 20% e Gilberto Kassab com não mais do que 10%. No final, o leitor o sabe, deu no que deu!

sábado, 15 de março de 2008

O melhor candidato da oposição está no Paraguai

As pesquisas apontam que, se as eleições presidenciais fossem hoje, o PSDB, principal partido de oposição, ganharia com razoável facilidade, especialmente se o candidato da legenda fosse o governador de São Paulo, José Serra.

Mas há um “espectro” que ronda a oposição: é o espectro da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Não há nomes fortes – ou nomes com densidade eleitoral, como gostam de dizer os analistas políticos – dentro do PT. Mas o carisma pessoal do presidente e os bons resultados de seu governo podem ajudar a transferir votos para seu eventual candidato à sua sucessão em 2010.

Mas até lá muita água pode passar por debaixo da ponte. Uma boa debruçada na história, inclusive recente, demonstra que não se deve cantar vitória ou simplesmente adiantar tendências de resultados na política com grande antecedência.

Por isso, seria especialmente grata para a oposição brasileira a vitória do candidato Fernando Lugo na corrida presidencial do Paraguai. Ex-bispo católico, principal candidato de uma frente de esquerda, Lugo garante que reverá os preços da energia que o Paraguai fornece ao Brasil, com o intuito de financiar programas sociais.

O efeito prático já seria sentido de imediato aqui no Brasil: preços mais altos ao consumidor final de energia e aumento de custos da indústria, o que poderia provocar mais aumentos de preços de todos os outros produtos do mercado. E pressões inflacionárias, como bem mostram tanto as atas do BC como as falas do presidente Lula, devem ser combatidas de pronto. Como se sabe, o método mais fácil de ser utilizado é o famigerado aumento da taxa de juros. Em resumo, o resultado é menos investimento, menos crescimento, menos emprego etc.

Pensando apenas nos efeitos imediatos de uma retração econômica, mesmo que seja em doses pequenas, já se pode inferir que a popularidade do presidente cairia um pouco. Ademais – e principalmente -, a maneira de como se der as negociações entre Brasil e Paraguai pode reacender críticas à política externa brasileira, as quais invariavelmente afirmam que o Brasil é muito flexível com alguns governos da região, e que isso se daria por motivos ideológicos, como manifestação de uma “fraternidade esquerdista” que seria, para o governo Lula, prioritária aos interesses nacionais.

Explorar questões sob a ótica do nacionalismo é sempre um bom ingrediente numa situação de crise. Os meios de comunicação e os estratos médios para cima da sociedade provavelmente seriam os que mais empunhariam tal bandeira. Evidentemente que não se lembrariam de que não foram – nem são - tão nacionalistas assim nas questões envolvendo as privatizações do patrimônio público ou no desejo – nem sempre inconfesso – de que o Brasil fosse mais subserviente aos Estados Unidos, por exemplo.

Tal questão é, além de tudo, um verdadeiro caso de surrealismo político. Para o governo Lula, talvez fosse melhor que o candidato conservador Lino Oviedo faturasse a presidência paraguaia; já a oposição e toda a direita política brasileira se regozijariam da vitória do candidato esquerdista, principalmente se, a exemplo de Evo Morales, ele resolvesse cumprir as promessas de campanha, pois assim poderiam exorcizar o fantasma da popularidade do presidente brasileiro.

Como se vê, política internacional é sempre uma matéria difícil. Tal assunto deve voltar em breve neste blog.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Eleições 2010. Já?

Pesquisa CNT/Sensus publicada na última semana mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atingiu o segundo mais alto índice de popularidade desde o início de sua gestão. Não é de se estranhar, pois a semana também trouxe bons dados referentes ao emprego, à venda de automóveis e de outros bens de consumo duráveis e até em relação à dívida externa (pela primeira vez na história, o Brasil, segundo o Banco Central, pode ter se tornado credor externo).

A pesquisa também fez sondagens em relação à sucessão presidencial de 2010. O presidente Lula, em informação pouco divulgada, lidera a pesquisa nas respostas espontâneas, bem à frente do segundo colocado. Na estimulada, a liderança em todos os cenários é do governador de São Paulo, José Serra. A Constituição não permite o terceiro mandato consecutivo para presidente, por isso Lula não consta das opções apresentadas aos pesquisados na consulta estimulada. Os nomes do partido do presidente não aparecem bem em nenhum dos resultados, o que já fez alguns cientistas políticos suspeitarem que o PT deva pressionar o atual presidente a propor mudanças na Carta Magna para tentar mais um mandato consecutivo.

O exercício de futurologia não é para qualquer um, ainda mais no campo da política. Mas é muito cedo para afirmar que o PT, partido que desde a redemocratização do Brasil protagoniza a maioria das disputas importantes em todos os níveis no país, não tenha nenhum nome capaz de representá-lo para a sucessão do presidente Lula, sobretudo se ele prosseguir com os bons índices de aprovação que ora ostenta.

Façamos uma viagem no tempo: muito antes das primeiras eleições diretas após a redemocratização do Brasil, todos sabiam que Lula, Brizola e Covas dariam o que falar na disputa, mas poucos imaginavam que um certo Fernando Collor teria alguma chance naquele quadro. O êxito de Fernando Henrique Cardoso em 1994 não foi exatamente surpreendente, mas a possibilidade de vitória no primeiro turno, como efetivamente se deu, não era tranqüilamente aventada por especialistas muito tempo antes do início da corrida. O furacão Roseana Sarney também foi uma surpresa em 2002, até ter sua candidatura implodida pela atuação firme da Polícia Federal sobre as atividades de seu marido, atuação esta, aliás, que foi uma raridade no órgão durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso. Em 2005, no auge da crise do mensalão, era impensável a hipótese da reeleição do presidente Lula um ano depois. Muitos especialistas não acreditavam nas possibilidades eleitorais do ex-governador Geraldo Alckmin, mas ele conseguiu levar a pendenga de 2006 para o segundo turno contra o presidente Lula, um mito verdadeiro, como reconheceu o próprio ex-governador, em recente entrevista ao canal Record News. Por essas e muitas outras é que se deveria pensar duas vezes antes de se fazer afirmações tão peremptórias em relação a uma eleição que somente ocorrerá daqui a dois anos.

Há a possibilidade de o PT fazer o sucessor de Lula, mas não como cabeça de chapa. Isso dependeria de Aécio Neves trocar o ninho tucano pelo PMDB. Há quem diga que isso é uma espécie de desejo secreto do presidente. Mas será que não há mesmo ninguém no Partido dos Trabalhadores sonhando em ocupar o Planalto depois de Lula?

Um nome do PT que é sempre lembrado é o da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Ela tem se destacado pela atuação firme e pela imagem de técnica inteligente. Ela poderia ser ajudada por um turbilhão de presença feminina ativa na política internacional: Michele Bachelet no Chile e Cristina Kirschner na Argentina; nos Estados Unidos, a pré-candidatura de Hillary Clinton. A ministra Dilma, se o governo Lula continuar numa maré de razoabilidade, ainda terá a seu favor um bom cabo eleitoral para 2010.

Conforme sugerimos acima, é precipitado fazer desde já projeções para 2010. É bom não esquecer que José Serra, grande favorito para a próxima corrida presidencial, não vive um momento tão esplendoroso assim na sua carreira. No seu governo, há grandes problemas semelhantes aos que vive o governo federal, envolvendo inclusive cartões de natureza parecida com os corporativos. Ademais, foram descobertas recentemente suspeitas de irregularidade na sua campanha presidencial de 2002. E o governador tem encontrado dificuldades até mesmo de emplacar suas idéias no partido, notadamente as referentes à sucessão da prefeitura paulistana, na qual ele gostaria de ver seu partido engajado na reeleição de Gilberto Kassab. Todo esse clima tende a se agravar – ou se ampliar – até o pleito de 2010.

Dilma Roussef, se se mantiver em posição desfavorável nas pesquisas, certamente será num primeiro momento poupada de ataques. Tendo, porém, seu nome mais divulgado, expor-se-á às críticas, mas ficará mais conhecida do eleitor. A postura séria, decidida e equilibrada que ela mostra nas suas aparições certamente tem o objetivo de, por antecipação, apagar – ou polir – a imagem de guerrilheira que, provavelmente, será rememorada pelos adversários se ela entrar na disputa. Mas, depois de Lula, é provável que o eleitor não acredite mais em histórias de bicho-papão!

E ainda estamos em fevereiro de 2008...