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domingo, 1 de maio de 2011

Preconceito é a única resposta

Em janeiro de 2010,escrevi texto neste espaço, exortando aos nossos raros - quase inexistentes - leitores que nos respondessem sobre tema que nos intrigava desde 2003. Segue abaixo trecho daquele post:

DOMINGO, 3 DE JANEIRO DE 2010
Responda-me


(...)

Nosso questionamento refere-se ao – talvez - mais comum reparo ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os seus principais críticos não costumam contemporizar: o governo Lula é um desastre. Já o de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, foi uma maravilha. Até aí tudo bem. Além de ser questão de gosto, temos nisso um pouco da beleza da democracia: a maioria esmagadora dos brasileiros prefere o governo de Lula, mas há uma minoria que entende terem sido as coisas melhores durante o mandato de FHC. Não há, em absoluto, nenhum problema quanto a isso.

O grande problema reside no fato de que, segundo os críticos – até mesmo os mais respeitáveis – de Lula, seu governo é uma mera cópia ou seguimento do de FHC. Em linhas gerais, é como se se dissesse que Lula nada mais faz do que o seu antecessor ou alguém de seu partido faria caso estivesse hoje investido da posição de presidente da República. Muitíssimo bem. Trata-se de um modo de enxergar e uma opinião de alguma maneira bem sustentada. O problema, repitamos, é tal opinião advir de pessoas que não apenas são críticas a Lula, mas, mais do que isso, são entusiastas do governo que o antecedeu.

Vamos à pergunta!

Se FHC foi tão bom, e Lula apenas o imita, como pode o governo Lula ser considerado tão ruim justamente pelos principais admiradores do sociólogo? Ou ao contrário: se o governo Lula é tão ruim, e é mera cópia de seu antecessor, como pode este ser tão idolatrado pelos críticos do metalúrgico? Não seria mais lógico admitir que o governo Lula é bacaninha, afinal apenas segue o governo de seu antecessor, considerado fantástico? Ou, de outro modo, não seria mais razoável admitir que o governo Lula é ruim, porque é igualzinho ao de FHC, mas o de FHC, por sua vez, também não prestou? Em resumo, como pode Lula ser ruim, FHC ser bom, mas Lula ser igual FHC?

Deixamos a pergunta no ar. Ficaríamos gratos a quem se habilitasse a dar a resposta. Como já dissemos, interessante seria uma resposta mesmo, não uma opinião. Ter um juízo sobre o assunto, opinar por que há pessoas que odeiam o governo Lula, adoram o de FHC e tentam justificar os bons resultados de Lula alegando que este apenas imita o tucano, não é das tarefas mais difíceis; respostas de verdade, simples e diretas, no entanto, tendem a ser raras e, via de regra, são trabalhosas.


Somente dois abnegados leitores responderam. Ficamos aguardando mais, sem sucesso, até por conta da já mencionada escassez de leitores - do que não reclamamos: parafraseando Groucho Marx, jamais seguiria um blog que fosse escrito por mim!

Mas eis que nesta semana começa a circular texto de Luís Fernando Veríssimo sobre o tema, estimulando-me a recuperar o meu velho post do trecho acima destacado.

E é do Veríssimo mesmo. Bom que se diga, pois o escritor gaúcho - juntamente com Arnaldo Jabor e Zíbia Gasparetto - é dos mais "falsificados" em mensagens que circulam na internet.

Vamos botar na íntegra o texto de Luís Fernando Veríssimo, da forma como publicado no site Conversa Afiada:


Luis Fernando Verissimo: sobre Lula, FHC e a classe média


Diálogo urbano, no meio de um engarrafamento. Carro a carro.


— É nisso que deu, oito anos de governo Lula. Este caos. Todo o mundo com carro, e todos os carros na rua ao mesmo tempo. Não tem mais hora de pique, agora é pique o dia inteiro. Foram criar a tal nova classe média e o resultado está aí: ninguém consegue mais se mexer. E não é só o trânsito. As lojas estão cheias. Há filas para comprar em toda parte. E vá tentar viajar de avião. Até para o exterior — tudo lotado. Um inferno. Será que não previram isto? Será que ninguém se deu conta dos efeitos que uma distribuição de renda irresponsável teria sobre a população e a economia? Que botar dinheiro na mão das pessoas só criaria esta confusão? Razão tinha quem dizia que um governo do PT seria um desastre, que era melhor emigrar. Quem pode viver em meio a uma euforia assim? E o pior: a nova classe média não sabe consumir. Não está acostumada a comprar certas coisas. Já vi gente apertando secador de cabelo e lepitopi como e fosse manga na feira. É constrangedor. E as ruas estão cheias de motoristas novatos com seu primeiro carro, com acesso ao seu primeiro acelerador e ao seu primeiro delírio de velocidade. O perigo só não é maior porque o trânsito não anda. É por isso que eu sou contra o Lula, contra o que ele e o PT fizeram com este país. Viver no Brasil ficou insuportável.


— A nova classe média nos descaracterizou?


— Exatamente. Nós não éramos assim. Nós nunca fomos assim. Lula acabou com o que tínhamos de mais nosso, que era a pirâmide social. Uma coisa antiga, sólida, estruturada…


— Buuu para o Lula, então?


— Buuu para o Lula!


— E buuu para o Fernando Henrique?


— Buuu para o… Como, “buuu para o Fernando Henrique”?!


— Não é o que estão dizendo? Que tudo que está aí começou com o Fernando Henrique? Que só o que o Lula fez foi continuar o que já tinha sido começado? Que o governo Lula foi irrelevante?


— Sim. Não. Quer dizer…


— Se você concorda que o governo Lula foi apenas o governo Fernando Henrique de barba, está dizendo que o verdadeiro culpado do caos é o Fernando Henrique.


— Claro que não. Se o responsável fosse o Fernando Henrique eu não chamaria de caos, nem seria contra.


— Por quê?


— Porque um é um e o outro é outro, e eu prefiro o outro.


— Então você não acha que Lula foi irrelevante e só continuou o que o Fernando Henrique começou, como dizem os que defendem o Fernando Henrique?


— Acho, mas……………


Nesse momento o trânsito começou a andar e o diálogo acabou.

sábado, 21 de novembro de 2009

"Taxab" e o IPTU: eu apoio

Qualquer pessoa responsável deve ser inexoravelmente a favor do equilíbrio nas contas públicas. Até mesmo nosso ordenamento jurídico posiciona-se de modo radical em relação a essa questão, haja vista a famigerada Lei de Responsabilidade Fiscal. Para o bem de todos, não se deve, em nenhuma hipótese, permitir a deterioração das contas públicas.

O leitor decerto obtemperará com o argumento de que não há nada de distinto no fato de se apegar à necessidade – ou exigência – da saúde das contas públicas. De fato, nada mais é do que o óbvio ululante. O que se pode, em verdade, é ter soluções diferentes para quando um eventual desequilíbrio se avizinha.

O autor destas maldigitadas, por exemplo, é da opinião de que não se deve cortar investimento público para fechar as contas. Defendemos, antes, se for o caso, o aumento da receita. As maneiras mais simples – porém não as mais fáceis – de fazê-lo são através do aperto na fiscalização e, por óbvio, do aumento dos impostos.

Um dos mantras da classe média dos grandes centros urbanos, com o eco da grande imprensa, é a choradeira acerca do “abuso” do poder público na cobrança de impostos. Dificilmente se encontrará alguém que não reclame do peso da carga tributária e muito raramente se ouvirá falar de alguém que não tente, vez ou outra, sonegar para si ou ser complacente – ou até contribuir – para a sonegação de outrem. Imposto, como o próprio nome prenuncia, é algo que só existe porque se sabe que as contribuições não nasceriam da boa vontade e da iniciativa dos cidadãos organizados.

De qualquer maneira, está-se a todo momento usando dos serviços que são pagos com o dinheiro dos impostos, seja nos hospitais públicos, seja a polícia, a organização do trânsito etc. A própria roda do sistema – no nosso caso o modelo capitalista – gira, conforme cantado em prosa e verso pelo cultuado Max Weber, amparada na existência de uma ordem dependente de um aparato burocrático que exige o suporte de toda a sociedade. Já tive a oportunidade de desafiar: a classe média que tanto gosta do nosso status quo, experimente parar de pagar impostos, e certamente não gostará de ver abaladas as pilastras que seguram o modelo político-econômico que lhe permite ter uma identidade e representar algo para o mundo; ora, isso tem preço e alguém precisa pagar por ele!

Tudo isso para dizer que, em princípio, não nos opomos ao aumento do IPTU aventado pela prefeitura de São Paulo. É preciso, ainda, entender melhor as motivações do aumento que, segundo a imprensa, pode chegar à casa dos 60%. De todo modo, num primeiro momento não vemos problemas na "garfada", desde que seja de forma progressiva e com aplicação de justiça tributária. Afinal, o prefeito paulistano poderia, se quisesse, vir com o papo furado do corte de despesas, pois esse seria o caminho que agradaria a classe média chorona que o elegeu e a mídia intrometida que lhe vem dando sustentação, não tanto pelo bem dele mas sim para agradar o seu padrinho, o governador José Serra. Mas, ao propor aumento de impostos, o prefeito ao menos sinaliza estar disposto a enfrentar o problema sem paralisar a cidade.

Não dá para simplesmente aceitar que uma cidade como São Paulo congele investimentos ou corte serviços. Portanto, se necessário for, que se aumentem as taxas e tributos, com serenidade e justiça. Paciência! Se me permitem uma opinião antipática, devo dizer que, até pelo menos onde conheço - falando inclusive em causa própria -, o IPTU paulistano é bastante camarada. Porém, que fique claro, ao defender o aumento e o rigor na cobrança de tributos, estou imaginando que o prefeito Gilberto Kassab esteja pensando em assegurar sua aplicação no social, na saúde, na educação, na valorização do funcionalismo. Que ele não me decepcione!

Mas é chegada a hora do sarcasmo nosso de cada dia! Se não nos falha a memória, a ex- prefeita Marta Suplicy, adversária no segundo turno da eleição municipal de 2008, também derrotada por Kassab em chapa com o padrinho dele em 2004, ganhou a alcunha de “Martaxa” entre a elite e classe média chorona da capital . E o atual prefeito deve boa parte do apoio e dos votos que recebeu - tanto na condição de vice em 2004, como de titular em 2008 - ao discurso fácil do corte dos gastos públicos, o qual tende a refletir numa certa moleza tributária, tanto que deu certo explorar o apelido colado na adversária. E agora, com o aumento do IPTU, como é que fica?

Vamos esperar para ver o comportamento da classe média e da imprensa em relação a esse evento. Já rola por aí o apelido de “Taxab”. É de se presumir que ele ganhe os noticiários e o boca-a-boca com a mesma velocidade do “Martaxa”. E apesar de ainda estar um pouco longe, vamos ver como serão os debates no pleito de 2012. Será que algum candidato da direita terá a coragem de incorporar o discurso antitributos e, mais do que isso, acusar o candidato de esquerda mais competitivo de ser um perdulário criador de impostos?

A propósito, há uma questão que me incomoda desde a eleição de 2008. Por que a candidata Marta Suplicy não usou em sua campanha o fato de a administração Serra/Kassab não ter abolido a taxa de iluminação pública cobrada na conta de luz? Quer dizer, não é de hoje que esses dois apenas fingem – com interesses eleitoreiros – ser tão contrários a impostos. No fundo, governante nenhum é. Pobre da classe média que acredita no tro-lo-ló deles.

sábado, 5 de janeiro de 2008

O mantra dos impostos

O leitor já reparou o quanto a imprensa gosta de falar de impostos? Parece que todos os problemas da humanidade se resumem à carga tributária. Ah, sim, a carga tributária do Brasil, é claro. A mídia parece pouco ou nada preocupada com os números altíssimos da arrecadação de diversos países mundo afora; falam como se só neste país tropical se pagassem impostos.

Os muito pobres não pagam tantos tributos diretamente. Os ricos sonegam ou, quando honestos, pagam sem reclamar muito, pois não se sentem tomados daquele dó de ver sair-lhe das mãos um dinheiro que poderia ser usado na aquisição de opcionais de carro ou de quinquilharias eletrônicas. Sobra para a classe média, que não consegue sonegar tanto, e que de fato paga boa parte do peso da carga tributária, além de ter que colocar filhos nas escolas particulares, pagar planos de saúde, trocar de carro toda hora etc.

A imprensa brasileira parece querer dirigir-se somente à classe média. Por isso a irritante grita contra os impostos. Ora, ora, ora, é assim mesmo: o governo, em todos os níveis, precisa trabalhar, tem que assumir e honrar compromissos. Sem impostos, ficaria impossível. Poder-se-ia, no entanto, fazer um teste: que tal se a partir de amanhã não se recolhessem mais impostos e se deixasse o Estado morrer por inanição? Será que a classe média, exatamente o que temos de mais conservador na sociedade brasileira, iria gostar de uma medida tão, digamos, revolucionária? Os críticos da sociedade burguesa poderiam até "pagar" para ver; mas aqueles que no fundo são amantes do nosso status quo deveriam temer isso. É bom começar a parar de reclamar dos impostos...

Nesta semana foram apresentadas mudanças no IOF e na Contribuição sobre Lucro Líquido. Principalmente o primeiro foi apontado pela imprensa como um elemento que deve encarecer o crédito, dificultando assim a vida da nossa dedicada classe média.

Este blog, num post anterior, já havia manifestado a sua preferência, em meio a tudo isso, à extinta CPMF. E o pessoal da classe média, que tanto esbravejava contra aquela contribuição, o que acha agora?