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domingo, 31 de janeiro de 2010

As dificuldades do presidente Obama

Completado um ano de governo, sobram decepções com Barack Obama, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos.

O presidente americano foi eleito sob o signo da mudança, justamente num dos momentos mais críticos da história norte-americana, com presença militar em dois países do Oriente Médio e com uma situação econômica interna só igualável à Grande Depressão.

Em novembro de 2008, ou seja, dois meses antes de assumir, O Estado de S. Paulo publicou artigo do cientista político Alexandre Barros, pró-reitor do Centro Universitário Unieuro (Brasília), intitulado “O presidente Obama e o paradoxo Nixon”, que parece ter feito prognósticos muito certeiros das dificuldades que o então recém-eleito presidente estadunidense enfrentaria, especialmente acerca das estratégias de defesa e, sobretudo, na política externa.

E por que “paradoxo Nixon”?

Alexandre Barros fazia paralelo de “Obama-Iraque-Afeganistão” com “Nixon-Vietnã”. O argumento era de que o ex-presidente Richard Nixon encontrou facilidades de abandonar o país asiático por ser um republicano convicto, linha-dura, do tipo que não provocava desconfianças nos eleitores mais conservadores. Em resumo, se Nixon, figura da direita clássica, dava o fora do Vietnã, era porque não havia alternativas. À mesma época, qualquer democrata que eventualmente agisse da mesma maneira teria sua vida transformada num inferno pelos conservadores mais radicais dos Estados Unidos. Dessa perspectiva, opinava o cientista político, o candidato derrotado John McCain, republicano, advindo do seio militar, teria mais facilidades do que Obama para dar o fora do Iraque e do Afeganistão.

Já o presidente Obama, democrata, negro, liberal (na linha americana), se abandonasse guerras em que o país está atolado no mundo árabe, seria acusado de ser pusilânime e de estar jogando fora toda a hegemonia militar construída, dentre outras coisas, com o sangue dos americanos. Não se dá para, de uma hora para outra, desprezar toda uma cultura baseada na idéia de supremacia e botar abaixo os caros conceitos de imperialismo, sobretudo quando se está no espectro que, não raro, é apontado – de forma crítica - como o contraponto daqueles tão cultuados valores americanos.

À análise de Barros acrescentamos que, para piorar a situação do presidente estadunidense, há o grande complicador interno da crise econômica. Há se notar também que, mesmo seguindo uma política externa conservadora, Obama enfrenta perseguição de setores da imprensa, de fundamentalistas do Partido Republicano e da direita “dona” do patriotismo americano. Imaginemos o que não ocorreria se ele tivesse acabado com as insanas guerras já mencionadas!

Há de se dar tempo ao tempo e valorizar qualquer medida do presidente Obama, por mais tímida que seja, pois as dificuldades que ele enfrenta – e deve continuar enfrentando nos anos vindouros –, associadas às suas origens, inclusive políticas, tendem a não permitir que avance rumo às mudanças que foram o mote de sua candidatura. Uma grande pena para o mundo!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Obama e Cuba: o que esperar?

Há um ditado popular que diz “de onde menos se espera é que as coisas acabam vindo”. Já o lendário Barão de Itararé sarcasticamente afirmava que “de onde menos se espera... bem... aí é que não vem nada mesmo!”. E, por fim, poderíamos por conta própria reformular o adágio, ainda que de um modo a torná-lo relativamente desprovido de graça, deixando-o mais ou menos assim: “de onde mais se espera é que as coisas realmente vêm”. Qual frase melhor se encaixaria para as mudanças (leia aqui) determinadas pelo presidente Barack Obama em relação a Cuba?

Comecemos pelo final. Obama foi eleito sob o discurso de mudança. Dessa forma, não há motivos para se surpreender com possíveis acenos liberalizantes no trato com a ilha centro-americana. Convenhamos, os políticos podem muito bem cumprir uma promessa ou outra de vez em quando! (Isso nos Estados Unidos, of course!). Esta é a leitura mais rasteira, do tipo que, como se vê, não acrescenta nada à discussão; seria o caminho mais fácil por assim dizer.

A paráfrase de Aparício Torelly, por sua vez, exige análise mais rebuscada. Ela passa por uma suspeita que não foi incomum durante a campanha sucessória estadunidense e que se reforçou durante o período de transição de Bush para Obama: acreditava-se que o democrata talvez encontrasse maiores dificuldades em praticar políticas mais abertas, modernas e arejadas em momentos de crise do que um antagonista republicano. A idéia era a de que os barulhentos conservadores americanos intimidariam o presidente de comportamento mais liberal. Noutras palavras, todos os passos do democrata seriam vigiados com desconfiança, deixando-o acuado. Em resumo, membro do partido democrata fazendo concessões, suspendendo restrições ou “amolecendo” posturas tidas como radicais passaria uma imagem de pusilanimidade, incompatível com o cambaleante mito do imperialismo norte-americano. Tem-se visto, porém, que - não somente no caso de Cuba – Obama não tem precisado ser mais realista do que o rei, ou adaptando, ser “mais conservador do que um republicano”. Portanto, o sempre certeiro Barão de Itararé, nesse caso em particular, não conseguiria fazer mais um tento.

E a primeira frase, o conhecidíssimo ditado popular, cai como uma luva para aqueles – inclusive muita gente de boa fé – que comungavam com a idéia acima exposta, qual seja, a de que Obama teria mais dificuldades de implementar mudanças do que um republicano, a quem ninguém acusaria de fraco caso se mostrasse cheio de boa vontade com desafetos. Quer dizer, os que não esperavam muito do novo presidente dos Estados Unidos precisam reconhecer que ele está, ainda que timidamente, dizendo ao que veio.

Observe-se que, de acordo com especialistas em política internacional ouvidos pelo Estadão, com as mudanças, os cubanos terão mais facilidade para bem avaliar as “vantagens” do sistema capitalista. Se assim for, então gente como Nixon, Reagan, Bush pai e Bush filho perderam seus preciosos tempos e desperdiçaram a maravilhosa oportunidade de ser mais maleáveis com Cuba e de, consequentemente, ser agora lembrados como os homens que ajudaram a derrubar o socialismo da ilha, quiçá até por levante popular! E se Obama é um perigoso esquerdista, como sustentam corajosos fundamentalistas de direita, ele – talvez sem querer, coitado! - está sendo o pior dos contra-revolucionários, um traidor da nobre causa socialista, ao permitir que os incautos cubanos se deixem seduzir pelo canto de sereia do grande capital! O perigo, amigos, é que até Fidel andou reclamando do que chamou de “esmolas” concedidas pelo presidente Barack Obama (leia). É... de onde menos se espera...!

sábado, 21 de março de 2009

Encontro de Obama e Lula: mais do que química

Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama encontraram-se no dia 14 de março, em Washington. A imprensa destacou a boa “química” entre ambos e o bom humor da conversa, a qual ainda contou com um tempo sensivelmente superior ao que havia sido reservado para o encontro.

Quanto às discussões propriamente ditas, a imprensa – especialmente a brasileira, a norte-americana nem tanto - fez muito pouco caso: não chegaram a nenhum acordo nem tomaram decisões importantes; discutiram o encontro do G-20e falaram de etanol, mas sem grandes aprofundamentos; falaram ainda de um caso “menor”, como o do pai estadunidense que quer a guarda de filho que está no Brasil. Foi nesse clima que a mídia brasileira minimizou a relevância da reunião.

Mas será que os encontros de chefes de estado, de maneira geral, costumam ser mais frutíferos do que esse de Obama e Lula? Bem, talvez somente naqueles casos em que se “arma” uma situação para se resolver alguma pendência. Nestes casos, porém, ninguém é ingênuo de achar que o “trabalho sujo” já não tenha sido perpetrado antes pelos corpos diplomáticos envolvidos. Os presidentes Lula e Obama, todos sabiam, não iriam assinar nada, tampouco fechar acordos de qualquer natureza.

O que não se deve mesmo é fazer pouco caso da simbologia de tais eventos. Ela costuma nos mandar recados um pouco mais sutis, ainda que contundentes, por paradoxal que pareça. Noutras palavras, ela sinaliza possíveis caminhos de políticas adotadas. Um exemplo que me ocorre foi a da vinda do ex-presidente George W. Bush a São Paulo para se reunir com o presidente Lula em 2007, aparentemente com a intenção de tratar principalmente do tema dos biocombustíveis. Como todo mundo já deve ter percebido, Bush nunca esteve nem aí para essa questão. Imaginem se o pai dele, se o seu vice Dick Cheney e se os seus “velhos amigos” do Texas iriam querer saber de formas de energia que não seja o famigerado petróleo! O que Bush poderia estar querendo mesmo era mandar recados para Chávez e Ahmedinejad, ambos dados a lembrar os norte-americanos de quão dependentes de petróleo eles são.

Mas voltando a Lula e Obama, entendemos que o caráter simbólico do encontro merece mais holofotes. Não carece de importância o fato de o presidente brasileiro ter sido o terceiro líder internacional e o primeiro latino-americano a ser recebido pelo novo presidente americano. Mais do que isso, é surpreendente que tal honra não tenha sido do mexicano Felipe Calderón ou do colombiano Álvaro Uribe, do peruano Alan Garcia ou mesmo da chilena Michele Bachelet, todos presidentes de países nos últimos anos mais alinhados aos Estados Unidos ou ao menos signatários de acordos de livre comércio com eles.

Do lado do Brasil, viu-se mais um trunfo da política externa do governo Lula. A maior acusação que ela sofria – por sinal injusta – era a de ser por demais antiamericana. Em verdade, o Brasil apenas abriu mão da ALCA e diversificou parceiros comerciais, o que a história mostra, pelo menos por enquanto, ter sido um grande acerto, pois deixou o país menos vulnerável à onipresente crise internacional. Nunca houve de fato afastamento ou hostilidades com os Estados Unidos. E Obama e sua equipe não perderam tempo: viram no Brasil o grande fiel da balança na América Latina, ou mais precisamente na América do Sul (estabilidade política, democracia sólida, bom diálogo com todos os governos da região).

Obama deve ter querido deixar bem claro para os fundamentalistas da política externa americana, apologetas do imperialismo ianque, que as coisas podem estar mudando no país. O encontro com Lula veio em reforço à simpática medida de telefonar a Evo Morales, parabenizando-o por vitória em referendo, e também por reconhecer a legitimidade da consulta sobre terceiro mandato de Chávez, na Venezuela. Para não assustar muito, e ao mesmo tempo mostrar ares mais modernos na política em relação à América Latina, Obama não tardou em se abrir a um encontro do tipo mais moderado impossível, exatamente com o presidente Lula, figura que, como bem lembrou um jornal estadunidense, conseguia ser amigo de Bush e de Chávez ao mesmo tempo e na mesma proporção. Resumindo: diplomacia é isso, amigos!

sábado, 24 de janeiro de 2009

O preconceito venceu o jornalismo (uma inconfidência)

Transcrevo mensagem que encaminhei ao ombudsman da Folha de São Paulo um dia após à cerimônia de posse do presidente Barack Obama:

Antes de mais, já digo que não li a íntegra da Folha de hoje. Apenas acompanhei, como faço todos os dias, a sua primeira página e fiquei chocado com o fato de o jornal não ter lembrado que a frase do presidente Obama, de que "a esperança superou o medo", remete ao que disse o presidente Lula na sua posse de 2003. Então quer dizer que um dos principais presidentes dos Estados Unidos em todos os tempos, na cerimônia de posse mais concorrida da história, diz uma frase que praticamente repete o que foi dito por um colega brasileiro, e a Folha simplesmente finge que não percebeu?

Talvez o senhor, os editores e redatores do jornal achem que isso realmente não seja importante. Talvez não seja mesmo. Mas reparo que o diário
Agora, da mesma "família Folha", deu manchete principal para o quase-repeteco do que fora dito pelo presidente do Brasil. Estranho que seja importante para o "popular" Agora, e não o seja para a "refinada" Folha.

O senhor arriscaria uma explicação?


Pois bem. O ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva gentilmente me retornou, informando-me que encaminhara a minha mensagem aos jornalistas responsáveis pela seção "Mundo" do jornal.

Mas não parou nisso - e é aí que vem a inconfidência, já que tomarei a liberdade de expor mensagem que me foi passada em caráter particular. O ombudsman acrescentou que, de sua parte, achava que a formulação de esperança versus medo é relativamente banal no discurso político eleitoral pelo mundo todo. Disse ele: "No passado recente, que me lembre, foi mote – além de Lula e Obama – de Tony Blair na campanha de 1997, Bill Clinton na campanha presidencial de 1992, Deval Patrick na campanha para governador de Massachusetts em 2006, entre muitos outros."

Como de praxe, agradeci o amável retorno, mas repliquei, ainda que de forma um tanto tacanha:

É... Pode ser. Mas não pareceu banal para o Agora, do grupo Folha, a frase ser muito parecida com a que foi dita por Lula. E o fato de ela ter sido proferida por outros estadistas não tira a importância de ter sido dita também pelo presidente do Brasil. Aliás, para os brasileiros - leitores da Folha ou não - tem mais importância o fato de ter sido encampada com bastante sucesso pelo presidente Lula do que ter sido utilizada também por Blair, Clinton e outros.

Tinha me dado por satisfeito com a solução do ombudsman, ainda que continuasse achando que era obrigação não apenas da Folha, mas de todos os jornais, ter lembrado que Obama disse frase que, em nosso nível nacional, foi emplacada com mestria pelo presidente Lula - inclusive porque foi um belo jogo de palavras com a ridícula situação protagonizada pela atriz Regina Duarte em 2002. Mas para minha surpresa, poucas horas depois recebo mensagem de Carlos Eduardo Lins da Silva, retransmitindo-me a resposta da editora do caderno "Mundo". (E aí os senhores têm mais inconfidências): "O leitor tem razão na queixa, o correspondente que fez a matéria até pediu que acrescentássemos a informação aqui, e na correria acabamos esquecendo.
Mas é bom lembrar que o uso por Barack Obama da mesma frase usada pelo presidente Lula em 2002 já havia acontecido na campanha. Então não era a novidade do discurso que ele fez ontem."

Pois é. A despeito da prodigiosa memória do ombudsman, e apesar da sua relativização da importância do caso, a editora reconheceu que o fato por mim apresentado mereceria melhor tratamento por parte do jornal, não obstante a ressalva de que o presidente americano já a usara em campanha.

A resposta foi dada. De todo modo, fica uma dúvida: será que, se Obama tivesse repetido alguma frase dita por FHC, os editores da Folha - ou de qualquer outro grande jornal - teriam esquecido ou teriam se deixado engolir pela correria de fechamento de tão importante edição?

sábado, 13 de dezembro de 2008

Está todo mundo louco!

Na segunda-feira, dia 8 de dezembro, as bolsas de valores ao redor do mundo deram uma bela disparada. O motivo teria sido a proposta do presidente eleito dos Estados Unidos de investir em obras públicas, com o fim de dar uma força na geração de empregos. Como bem sabemos, a receita não é nova, antes encontra inspiração histórica em Roosevelt e teórica em Keynes. Obama foi além, dizendo que não é hora de se preocupar com a camisa-de-força representada pelo orçamento.

Atenção, você que acaba de sair do coma nos últimos dias, este blogueiro não está enganado: as principais bolsas de todo o mundo dispararam (e não despencaram) após esse anúncio do democrata eleito, mesmo tendo ele falado, em outras palavras, que não está esquentando muito a cabeça com déficits públicos.

Assistir aos movimentos nos tempos de crise tem, com efeito, dado nós em cabeças que se acostumaram a acompanhar noticiários e a ler ensaios tanto no campo da política quanto da economia. Aqueles que até alguns dias atrás se ajoelhavam diante do “deus-mercado”, agora falam de necessidade de regulamentação; os arautos da livre iniciativa, da concorrência e do risco, repentinamente saem em defesa de ajudas bilionárias a indústrias que foram a própria imagem do desenvolvimento capitalista; e finalmente, e em resumo, o velho Estado passa a ser um ente simpático, em vez de um estorvo para os empreendedores e cidadãos de uma sociedade livre.

Ok, amigos! Bem sei que já está virando clichê e soando enfadonho o apontamento dessas incongruências observadas não somente nos analistas econômicos e operadores do mercado financeiro, mas também na mídia e na boca da gente comum (o que é praticamente a mesma coisa, pois não raro as pessoas apenas repetem as besteiras que ouvem de nomes como Miriam Leitão, por exemplo). Mas, a despeito do abuso da paciência do leitor, vale a pena citar um exemplo doméstico e falar da estranheza que provoca ver algumas pessoas defendendo alguma rédea ao Banco Central do Brasil. Ora bolas, irritam-se eles, enquanto o mundo inteiro baixa os juros, o COPOM, na última reunião do ano, mantém inalterada a altíssima taxa brasileira. Isto, amigos, goste-se ou não, chama-se independência. A mesma independência que diziam que Lula iria tirar se fosse presidente. Tal afirmação, aliás, era uma das determinantes do chamado “risco Lula”, que tanto assustavam o mercado antes de o ex-metalúrgico sagrar-se presidente pela primeira vez. Assim não dá para entender! Então quer dizer que algo que deixava as "reginas duartes" da vida com medo de Lula agora é apresentado como uma necessidade por seus mais cruéis opositores?

Acompanhando tal série de desdobramentos, chega-se à conclusão que ramos como a economia, a política e a sociologia são objetos que tendem a sobreviver mais como ideologia do que como ciência. De científico mesmo, sob a ótica positivista, talvez somente a hipocrisia dos discursos – ela, sim, é a constante das análises. Mas, no varejo, como levar a sério uma “ciência” que hoje diz uma coisa que será negada amanhã. E pior que não dá nem para apelar para o falsificacionismo ou para as mudanças de paradigmas, pois não há avanço nas metamorfoses de visão, mas antes se volta a idéias que, no verão anterior, eram classificadas de retrógradas. Os mais simpáticos e menos desbocados podem dizer, no entanto, que em vez de hipocrisia dever-se-ia falar que análises do tipo dependem das condições reais, concretas de cada momento histórico. Pode ser. Mas vejo aí o espectro de Marx. O barbudo alemão e seus seguidores sempre disseram algo meio nessa linha. Mas o diabo é que pensadores como Popper viam nisso um fator que justamente dificultaria a concessão do status de ciência ao marxismo, pois baseado em algo tão pouco objetivo, como as assim chamadas condições concretas, encontrar-se-ia desculpa (palavra melhor do que justificativa) para tudo que se quisesse demonstrar: se as coisas ocorrem conforme um dado prognóstico, houve acerto; se fracassam, é que certas condições concretas não permitiram o resultado!

É um tanto confuso, bem sei. Mas neste mundo maluco, alguém me culparia por isso?!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Obama e Lula

Do muito que se foi falado sobre a vitória de Barack Obama, o melhor veio da boca do presidente Lula - só para variar um pouquinho! Disse o presidente que a vitória do democrata foi um "feito extraordinário" e que "um negro sagrar-se presidente dos Estados Unidos não é pouca coisa". É verdade e não é de surpreender que Lula o tenha dito. O que causou estranheza mesmo foram os editoriais dos jornais e a comemoração de certa parcela da população brasileira.

Os jornais e algumas figuras aqui do Brasil falaram da trajetória do senador, de suas origens, de quão notável é o fato de alguém como ele chegar ao posto a que chegou, num país em que o racismo não é velado como o nosso, e que também não é dado a aventurar-se ou ter arroubos de modernidade e experimentação. Ora, guardadas as devidas proporções e feitas as necessárias adaptações o mesmo se pode dizer da gloriosa vitória de um nordestino torneiro mecânico aqui no Brasil. Mas, em vez das explosões de fogos e todo alvoroço da mídia e da classe média brasileiras, Lula sempre teve que amargar hostilidades e má vontade.

A Folha até que chegou a ousar, colocando na primeira página, no dia da eleição, o depoimento de brasileiro radicado nos Estados Unidos, que apontou as semelhanças de trajetória de Barack Hussein Obama e de Luiz Inácio Lula da Silva. Será que alguém leu atentamente? O presidente Hugo Chávez também lembrou que a vitória do afrodescente no pleito estadunidense guardava alguma ligação com a onda democrática que elegeu presidentes populares de esquerda na América Latina. A mídia brasileira desconversou sobre o assunto.

Pelo jeito, nem tudo o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.

Leia também:
Que "coisa"!
São outros valores, estúpido!

sábado, 30 de agosto de 2008

Que "coisa"!

A trajetória de Barack Obama é para lá de notável na política americana. Não é à toa que já se vêem alguns livros que contam e debatem sobre sua história. Ao folhear uma dessas revistas de livrarias, deparei com a propaganda de um lançamento em inglês de uma biografia do candidato à presidência dos Estados Unidos. Uma colega que estava próxima a mim fez um comentário inusitado:

-Minha irmã cismou que este cara é “coisa ruim”.

Estranhei o comentário, ainda mais que o carismático Obama conta com uma respeitabilidade internacional raramente vista para um político. Em todo caso, condescendi:

-De fato – disse eu -, presidente americano é presidente americano, e é claro que se eleito ele vai defender os interesses do país dele. É uma grande besteira nós brasileiros acharmos que ele vai ser melhor ou pior para o Brasil, porque no fundo, no fundo ele vai ver o lado deles lá. Por isso – continuei – não é descartado que ele traga, sob certo ponto de vista, alguma coisa de ruim...

-Não – interrompeu-me ela -, você não entendeu. Minha irmã acha que ele é o “coisa ruim”! Quer dizer, a “besta”, entende?

Fiquei desconcertado! Já vi alguns políticos americanos serem apontados como a encarnação da besta, a saber, Ronald Reagan, Bush pai e Bush filho. Mas esta é a primeira vez que vejo tal suspeita recair sobre um democrata. Sejamos razoáveis, parece que a imagem do “coisa ruim” realmente se encaixa melhor na figura – e nas idéias e atitudes – dos republicanos. Os políticos do Partido Democrata são sempre mais simpáticos e gozam de maior popularidade em nível internacional. Obama se enquadra tão bem nessa tradição que é – repita-se – surpreendente que entre no rol dos “bestáveis”, ainda que seja na isolada opinião da irmã da minha colega de trabalho.

Há, entretanto, um detalhe que nos escapa, mas que talvez não tenha passado despercebido da moça. É a afirmação contida na Bíblia Sagrada de que os enganadores e “falsos profetas” tendem a ter boa lábia e uma eficaz capacidade de persuasão. Sem dúvida, trata-se de ponto negativo para o Obama!

O reconhecimento da importância dos Estados Unidos para o mundo é tão universal que se acredita sempre no fato de que o tinhoso escolheria aquele país para comandar. Está certo! Existem poucas formas tão eficientes quanto ser presidente dos EUA para se ter influência em quase todos recantos do mundo. Esta talvez seja uma maneira para lá de singela de se explicar o que significa a vaga expressão “imperialismo”, não raro associada aos "ianques". Mas quem sabe tudo isso não esteja com os dias contados: algo me diz que em breve as “bestas” estarão nascendo na China!

sábado, 16 de fevereiro de 2008

São outros valores, estúpido!

A corrida no partido democrata para as eleições americanas deste ano está trazendo momentos de emoção que talvez superem os da própria briga direta pela Casa Branca. Enquanto a candidatura republicana já parece consolidada no nome de John McCain, dentre os democratas a “mulher” e o “negro” disputam ferrenhamente cada voto.

O que será que está por trás do histórico embate?

A “mulher” é ninguém menos do que Hillary Clinton, a ex-primeira-dama. A face da campanha de seu marido quando candidato foi definida, conta-se, no momento em que um assessor, numa dessas infindáveis discussões acerca de estratégias de campanha, gritou: “é a economia, estúpido!”.

Karl Marx talvez dissesse: “é sempre a economia, estúpidos!”. Para o filósofo alemão, a forma como os homens produzem e reproduzem a sua vida material é que determina sua vida social e espiritual. Noutras palavras, a questão econômica é com efeito, em última análise, o fator mais importante da existência humana, é o que determina as nossas idéias, além de nossas relações sociais e políticas. Outro pensador germânico, Max Weber, contesta o teórico do socialismo científico, afirmando que Marx não distingue o que é “rigorosamente econômico” daquilo que é “economicamente determinado” ou do que é simplesmente “economicamente relevante”. Digamos que Weber reconheceria a importância de aspectos econômicos na invasão americana no Iraque, por exemplo. Porém, ele não admitiria o fato de que aquele conflito seja “essencialmente econômico” ou que todas as suas facetas se resumiriam, em última instância, a interesses de caráter material.

Tudo isso para dizer que, não obstante o momento crítico da economia dos Estados Unidos, o que se percebe da peleja dos senadores Obama e Hillary é a entrada em cena de outros valores, que trazem à baila, evidentemente, a questão feminina e racial. Nenhum dos dois parece abraçar causas, por motivos óbvios da política; mas todo mundo sabe que o grande interesse por essas prévias é o ineditismo da situação: pelo menos um dos candidatos será de características nunca antes – diretamente - representadas na corrida presidencial daquele país.

Como dizia o Barão de Itararé, “de onde menos se espera é que não vem nada mesmo”. A pendenga americana, já nessa fase de prévia, poderia estar debatendo profundamente a questão econômica, dados os riscos de recessão e os indicadores de crise que se observam naquele país. Mas não está.

Por enquanto a disputa está bem divertida do lado democrata. Confirmado o nome de um dos dois, certamente o tema da economia vai entrar em campo com toda força. De todo modo, ficará sempre a lembrança da importância da corrida presidencial de 2008, pelo componente cultural que as pré-candidaturas de Barack Obama e Hillary Clinton trouxeram para o cenário político americano, cujas nuances devem influenciar todo o mundo. Quem sabe aqui no Brasil não tenhamos um negro ou uma mulher com chances efetivas de “levar” o Planalto em 2010?