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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Eleições 2012 - São Paulo - A trivial vitória de Haddad

Numa boa navegada nas raras e recentes postagens deste blog o leitor verá que, em contraponto a colunistas da mídia tradicional, asseguramos que a cidade de São Paulo sempre esteve longe de ser uma fortaleza antipetista. Desde 1988, o Partido dos Trabalhadores é no mínimo segundo lugar nas brigas pela prefeitura.

No mesmo esforço de desconstruir mitos criados por jornalistas dos meios convencionais, mostramos, também, que o PSDB nunca chegou a ser uma força incontestável nas disputas paulistanas, tanto que desde a sua fundação somente chegou ao segundo turno da metrópole, agora, por duas vezes, ambas com José Serra - descontando-se Kassab, eleito pelo DEM em 2008, vencendo, inclusive, o peessedebista Alckmin naquele ano (noves fora a cristianização do atual governador).

Anotamos, também, que a despeito da força petista no município, sempre a garantir-lhe no mínimo o segundo turno, a adesão não era automática, em vista das nossas dificuldades de trabalhar e garantir a identificação partidária, o que explicava, em parte, o por algum tempo resiliente fenômeno Celso Russomanno.

Por fim, este blog jogou no lixo as pesquisas e apostou na vitória do petista Fernando Haddad com base somente nos resultados de Russomanno no primeiro turno, bastante consistentes justamente na periferia da cidade, reduto petista, entendendo como certa a transferência de votos do midiático político do PRB para o candidato do PT. 

Fechadas as urnas, pipocam as análises, com claras tentativas de se fazer conjeturas, sendo irresistível, num primeiro momento, apostar que o caminho para a vitória da situação no pleito de 2014 já está mais do que trilhado, assim como pode-se já estar se desenhando a destituição do PSDB do governo do estado de São Paulo.

Há que se andar devagar. Recorde-se que não faltou quem garantisse que a vitória de Kassab em 2008 indicava altíssimo prestígio do padrinho dele, José Serra, gabaritando-o para o Planalto no pleito de 2010. Razão estava, porém, com os poucos que se recusaram a nacionalizar aquela disputa, entendendo ter sido a pendenga de 2010 resolvida noutros termos, efetivamente municipais.

E em nível estadual, o discurso da turma que está há 20 anos no governo já deve estar até redigido: dono da prefeitura, dono do governo federal com chances de ser reeleito, não podemos dar ainda mais poder ao PT. O assunto é velho e tende a se repetir. Resta somente saber até quando o eleitor paulista vai sucumbir a essa baixa chantagem que usa em vão o santo nome da democracia.


sábado, 20 de outubro de 2012

Eleições Municipais 2012 - São Paulo - Haddad e Serra

Alguém que tenha enfrentado o coma durante pouco mais de um mês no período do primeiro turno, ao ver Fernando Haddad, do PT, e José Serra, do PSDB, enfrentando-se no segundo turno da cidade de São Paulo, não imaginaria que Celso Russomanno foi invariavelmente considerado um fenômeno eleitoral na maior parte desse tempo.

A "finalíssima" paulistana, portanto, nada mais representa do que o quadro mais óbvio do embate: de um lado Serra e seu fortíssimo recall, típico dos que não se cansam de se candidatar, de outro Haddad, o representante do partido que desde 1988 é no mínimo segundo lugar na metrópole, o PT.

O resultado, inesperado para alguns até no último dia da primeira fase do pleito, fez aumentar as dúvidas sobre a lisura das pesquisas. Por esse motivo, muitos entusiastas do Partido dos Trabalhadores e de Fernando Haddad estão com um pé atrás com pesquisas que lhe vêm dando, nos votos válidos, vantagem de 20 pontos percentuais sobre seu oponente. É teoria da conspiração que não acaba mais.

A nós, tal resultado não surpreende.

É saudabilíssima a desconfiança para com os institutos de pesquisa. Para sermos radicais, são indignos de crédito. Com mais moderação, digamos que no mínimo devem ter suas sondagens tomadas com cautela. Entretanto, não há, de outro lado, porque não acreditar nos números oficiais do TRE. E os resultados oficiais do primeiro turno já, no mínimo, apontavam para a possibilidade do quadro que as pesquisas dizem vir captando.

Como boa parte dos leitores deve ter visto, mapas (que abdicaremos de reproduzir aqui) mostram como o voto se dividiu em São Paulo: aparece pintado de azul no chamado centro expandido, e veio de vermelho nas regiões periféricas. Ou seja, vitória tucana no primeiro e petista no segundo. Neste quadro, em vista dos números excelentes do terceiro colocado, não havia muita dúvida de que o fiel da balança seria o eleitor de Celso Russomanno.

O aspecto mais claro dos resultados do primeiro turno era a fraca votação de Russomanno (cerca de 8%, na média) na região central, aquela que foi a mais generosa com Serra. Ora, já era de se supor que o tucano não se beneficiaria tanto com a possível transferência do grosso dos eleitores russomannistas da região, que por óbvio acrescentariam quase nada à sua votação total do primeiro turno, a qual ademais foi muito pouco acima da do petista.

Por outro lado, no chamado cinturão vermelho, o fenomenal Russomanno ainda não havia desidratado o suficiente, tendo terminado o primeiro turno acima de 20%. Entendendo que o candidato do PRB havia crescido justamente no eleitorado tipicamente petista, hegemônico naquela faixa da cidade, já se previa uma transferência maior para Fernando Haddad. Para piorar as coisas para Serra, o peso proporcional dos eleitores da periferia ainda ajudava a entender - da forma mais dolorosa - a tal de ponderação de que os estatísticos tanto falam.

A tendência pró-Haddad já era tão forte apenas com os números de Russomanno, que nem precisaria, lá, ao fim do primeiro turno, apostar que o também bem votado Gabriel Chalita e seu "capilarizado" PMDB fechariam apoio ao petista.

Entendendo, pois, não ser surpresa nenhuma a liderança extraordinária de Fernando Haddad nessa corrida do segundo turno de São Paulo, ainda assim, é válido aquele velho clichê do mundo político que diz "mineração e eleição, só depois da apuração".


Leia também outros textos do blog sobre as eleições municipais 2012 em São Paulo:

Sobre Celso Russomanno
Sobre aliança PT-PP
Sobre o drama paulistano do PSDB
Sobre a força do PT em São Paulo

sábado, 22 de setembro de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012 - Para não dizer que não falei de Celso Russomanno


O candidato Celso Russomanno, do PRB, vem sendo o grande fenômeno das eleições municipais 2012. Ótimas análises, diferentes em alguns pontos e complementares noutros, foram feitas pelo filósofo Vladimir Safatle, pelo cientista político Aldo Fornazieri e pelo jornalista José Roberto de Toledo. Não torno disponíveis os links delas , mas os leitores interessados não terão dificuldade em encontrá-las usando mecanismos de busca da internet.

Comentaremos o caso pegando um dos pontos abordados pelos analistas acima: a despolitização. E a observaremos sob dois aspectos. O primeiro deles é um de seus desdobramentos, que chamaremos de "despartidarização".


Despartidarização
A política no Brasil é por demais personalizada. O leitor já deve ter ouvido algum eleitor bater no peito e bradar orgulhosamente: "não voto em partidos, voto em nomes; se eu gostar do cara, não importa a agremiação".

Números de pesquisa já mostram - mas à falta deles a observação empírica já seria suficiente - que o candidato do PRB tem conseguido se manter na primeiríssima posição pela corrida de São Paulo, de acordo com as sondagens, graças a resultados nas regiões que historicamente votam nos candidatos do Partido dos Trabalhadores - mais do que isso, Russomanno tem obtido apoio de eleitores que declaram abertamente a preferência pelo PT.

Não obstante a excelente "marca", resistente inclusive à oposição midiática praticamente generalizada, o PT parece esforçar-se pouco para estimular a identidade entre partido e eleitor, de modo a fazer que o respeito e apreço dos cidadãos para com o partido redundem em votos em seu candidato. 

O uso da imagem da figura mítica de Lula sinaliza que o próprio partido parece acreditar mais no lulismo do que no petismo, entendido o primeiro como um movimento que excede o segundo - tema que deve figurar neste blog em breve.


"Desestatização"
As aspas é porque a palavra não está aqui no seu sentido comum, mas para designar o outro desdobramento da despolitização de que queríamos tratar, neste caso a falta de confiança sobretudo dos mais pobres com a capacidade do Estado de resolver problemas e mediar conflitos.

Como é sabido, Celso Russomanno já tem história de homem de mídia especializado em solucionar pendências de consumidores.

Não entraremos na questão - crítica - de que a melhoria de vida em consequência das políticas do governo Lula criaram consumidores antes de cidadãos, o que poderia, de fato, explicar o sucesso do postulante pelo PRB.

No caso específico importa entender porque o homem de mídia, antes do político, é visto como o cara certo para "cuidar das pessoas".

Na primeira metade da década de 1990, no curso de Ciências Sociais, uma professora foi motivo de pilhéria dos alunos ao recomendar que prestássemos mais atenção em um sucesso da época: o programa "Aqui Agora".

O jornalístico do SBT não era apenas um sucesso de audiência: era, ao que tudo indicava, grande portador de prestígio entre os mais pobres e com menos escolaridade.

Não era raro, a quem se deparava com algum problema, ouvir a sugestão de "chama o 'Aqui Agora'". o jornalístico "popular" era evocado nas brigas de vizinhos, nas rebeliões em presídios, em casos de flagrante injustiça e, last but not least, nas histórias de desrespeito a consumidores. Neste último, o repórter que resolvia tudo era ninguém menos do que Celso Russomanno.

No "Aqui Agora", Russomanno era apenas mais um, evidentemente. O prestígio, num primeiro momento, era do programa. E não é trivial que as pessoas acreditassem - e acreditem - mais no poder da televisão do que no dos órgãos estatais legalmente constituídos.

E os veículos transferem sua credibilidade para aqueles que pilotam seus programas. Russomanno constrói a imagem de um destemido que enfrenta poderosos em nome dos pobres já de algum tempo. E nem é preciso, para entendê-lo, voltar ao caso da morte da própria mulher, por ele denunciado como negligência médica.

Resumo com absolutamente nenhuma profundidade: enquanto o Poder Público permitir que programas no formato "Aqui Agora" tenham mais credibilidade e eficácia do que, por exemplo, o PROCON, os "russomannos" continuarão "surpreendendo".

Ah, e a professora, como resta claro, tinha razão.



sábado, 23 de junho de 2012

Eleições 2012 - São Paulo - PT e PP

A imprensa deleitou-se com fotos de encontro do ex-presidente Lula e do candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, com o deputado Paulo Maluf. Destacaram, de forma intensa, o "acordo do PT com Paulo Maluf", nestes termos. Ou seja, para a imprensa ocorreu o acerto entre um partido político e uma figura política.

O enfoque escolhido pelos meios de comunicação tenta claramente proceder a uma distorção, com fins ideológicos. Em realidade, a aliança é entre PT e PP para a disputa da capital paulista. E nela, por lógico, não pode haver nada de muito estranho, haja vista que os dois partidos têm mantido civilizada convivência desde 2003, no primeiro governo Lula.

Destaque-se que, quando, há poucas semanas, o PR juntou-se ao PSDB na cidade de São Paulo, não se viram estampas do tipo PSDB se alia ao "mensaleiro" Valdemar da Costa Neto; tampouco houve quem tripudiasse sobre intelectuais tucanos terem que engolir Tiririca e Agnaldo Timóteo, ainda que somente pela corrida municipal deste 2012.

A aliança PT-PP, para fins eleitorais, com toda a simbologia da união, sacramentada por caciques tidos como díspares - Maluf e Lula - nada mais é do que um simples fato inserido no contexto histórico mais amplo que é o das combinações partidárias capazes de permitir resultados eleitorais inesperados e, principalmente, a garantir a tal da governabilidade.

Após a queda de Collor, parece que a caiu a ficha da necessidade de maior arrojo das coalizões. Para quem não se lembra, o ex-presidente Itamar Franco conseguiu, com a oposição do PT, até trazer para seu governo uma então estrela do partido, ninguém menos do que Luiza Erundina! Seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso, sem maiores problemas aliou-se ao velho PFL; o mesmo FHC, na campanha de reeleição em 1998, a despeito de ter Mário Covas disputando o governo de São Paulo pelo PSDB, não viu problemas em aceitar o apoio -posando sorridente para fotos e tudo - do grande adversário do candidato de seu partido naquela ocasião: Paulo Maluf!

Pode-se até argumentar que talvez Lula e o PT estejam levando essa história de alianças e acordos ao paroxismo. Mas ela, com certeza, não é invenção do ex-presidente nem do seu partido. Aos trancos e barrancos, essa geleia geral tem permitido razoável governabilidade, a despeito dos entraves que provoca. Se é errada, o tempo dirá e julgará. E eventual condenação, num ambiente desapaixonado, por questão de justiça não poderá jamais recair somente sobre o Partido dos Trabalhadores e o seu mais importante fundador.


Leia também:
São Paulo 2012
Força do PT
Qual é a do PSDB

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012 - Qual é a do PSDB?

No primeiro texto voltado às eleições municipais de 2012 em São Paulo, comemoramos o fato de José Serra ter decidido não participar do embate. Tratava-se de um claro avanço, haja vista a necessidade de a cidade ser administrada por alguém realmente interessado e disposto a enfrentar seus problemas, não por alguém que pretenda usá-la como trampolim ou, quiçá, a enxergue como mero prêmio de consolação, ante as derrotas em nível nacional.

A história todos conhecem: após ter afirmado que não disputaria a eleição municipal de 2012, José Serra voltou atrás, participou das prévias do PSDB que já estavam marcadas, venceu-as de forma um tanto decepcionante e acabou por trazer nova cara ao pleito deste ano.

José Serra não é novo nas disputas municipais na capital paulista, delas participando em 1988 e 1996, com resultados não muito estimulantes. Em 2004, todavia, conseguiu levar seu partido pela primeira vez ao comando da maior cidade do País. Parece ter sido resultado de processo que já vinha se construindo de forma gradativa, como veremos.

Ao contrário do que a mídia e o burburinho do dia-a-dia nos querem fazer acreditar, o Partido da Social Democracia Brasileira não chega a ter uma história marcante no município, em linhas gerais. Desde a fundação do partido - o que se confunde com o período da pós-redemocratização do País -, o PSDB somente chegou ao segundo turno em eleições na cidade de São Paulo no ano de 2004, justamente com Serra, que se saiu vitorioso naquele pleito. Como já tivemos a oportunidade de mostrar, o PT é o único partido que sempre esteve na briga final.

Entre 1988 e 2000, a disputa foi clara, numa franca polarização ente o PT e a corrente conhecida como malufismo. Era a peleja entre esquerda e direita. Em 1988, bem na reta final, Luiza Erundina (então do PT) atropela Paulo Maluf; em 1992, Maluf dá o troco, batendo Eduardo Suplicy (PT), no segundo turno; em 1996, sem o instituto da reeleição, Maluf lança seu secretário Celso Pitta como candidato, que consegue vencer a ex-prefeita Erundina (ainda no PT); finalmente, no ano 2000, apesar do fracasso retumbante da administração Pitta, o malufismo ainda demonstrou algum resquício de força, com seu patrono conseguindo abocanhar mais de 40% dos votos no segundo turno contra a vitoriosa Marta Suplicy, do PT.

O insistente Maluf, em 2002, na disputa pelo governo do estado de São Paulo, foi ultrapassado por José Genoíno, do PT, não conseguindo, pela primeira vez desde a instituição da eleição em dois escrutínios, chegar ao segundo turno da disputa estadual - sinal de que havia mesmo algo de estranho com o fenômeno do malufismo, cujo patrono só ficara de fora de um segundo turno em 1994 (não disputou o cargo naquele ano). Em 2004, na disputa municipal, Maluf consegue apenas um terceiro lugar, deixando o segundo turno ser disputado por Marta e Serra. Com tal resultado, não restava dúvidas de que o malufismo já não era mais o representante hegemônico do conservadorismo paulista e paulistano.

O PSDB, talvez sem querer, talvez sem o perceber, começa a ocupar o espectro mais à direita da política paulistana. Em 2008, embora disputando a corrida municipal com um nome de peso - nada menos que Geraldo Alckmin -, o partido, repetindo o aspecto mais comum de sua saga na cidade de São Paulo, ficou apenas no terceiro lugar. Não se pode olvidar, entretanto, que a reeleição de Kassab naquele ano se deu com o apoio explícito do PSDB no segundo turno e velado no primeiro - caso clássico de cristianização, sofrido por Alckmin. Dê-se um desconto, portanto, aos que consideram o feito de Kassab quase como uma vitória tucana.

Muitos entendem ser o conservadorismo a principal característica do que se pode chamar de "eleitor médio" paulistano. Eleição após eleição, foi-se vendo o malufismo perder força e o PSDB ocupar os espaços mais à direita no campo político paulistano. O partido de FHC, Covas e Serra não surgiu com tal proposta ou vocação. Talvez tenha sido empurrado para este lado por representar, em nível nacional e em diversos lugares também na seara estadual, o antipetismo, posição que ostenta por normalmente enfrentar o Partido dos Trabalhadores nas principais eleições pelo País.

A ocupação dos flancos à direita pelo PSDB, como dito, deu-se de forma bastante paulatina, talvez imperceptível e - ousaria dizer - surpreendente até para muitos de seus membros. Aos poucos, seus integrantes e correligionários foram aceitando essa nova cara do partido. Verdade seja dita, quem parece hoje melhor entender que ao PSDB pouco sobra senão tentar correr por essa vereda é mesmo José Serra, o que por si só já basta para classificá-lo como fortíssimo candidato na disputa deste ano.

Leia também:
Eleições municipais - São Paulo 2012
Eleições municipais - São Paulo 2012 - Força do PT

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012 - Força do PT

Em comentários no mês de agosto e setembro de 2011, Lucia Hippolito, colunista da CBN, qualificou a cidade de São Paulo como uma fortaleza antipetista. Decerto que ela não é original ao pensá-lo e, ainda pior, há inúmeros petistas que pensam igual, talvez até o ex-presidente Lula. Aliás, a constrangedora movimentação em busca da aliança com Kassab parece advir dessa suposição.

A análise histórica, no entanto, parece indicar situação muito diversa. Ao contrário do que sustentam os conservadores - com tanta firmeza que até conseguem engambelar petistas históricos -, o Partido dos Trabalhadores é talvez a única força política realmente coesa na complexa cidade de São Paulo após a redemocratização do País. Vamos aos fatos.

Na última eleição em turno único, em 1988, Luiza Erundina surpreendentemente bate Paulo Maluf e ganha para o PT a prefeitura da maior cidade do Brasil. Em seguida, os pleitos passariam a ser disputados com a possibilidade de realização em dois turnos. Na capital paulista, desde então, todas as disputas iriam para o segundo turno. O Partido dos Trabalhadores, se nossa memória não nos trai, foi o único partido que esteve presente em todas as pendengas finais.

Em 1992, apesar de todas as dificuldades enfrentadas por Luiza Erundina, o PT conseguiu, com Eduardo Suplicy, ir para o segundo turno contra Paulo Maluf, que, depois de diversas tentativas, finalmente vence uma eleição - era talvez o auge do paulistíssimo fenômeno do malufismo.

Em 1996, Maluf aposta todas as suas fichas em seu secretário Celso Pitta, que, no segundo turno, enfrenta e vence a ex-prefeita Luiza Erundina, na época ainda no PT. Era o Partido dos Trabalhadores mais uma vez no segundo escrutínio na cidade de São Paulo, e novamente enfrentando o malufismo.

Em 2000, para variar um pouco, o PT mais uma vez chega ao segundo turno na disputa pela prefeitura de São Paulo, naquela feita com Marta Suplicy, que vence Paulo Maluf. A briga acirrada talvez tenha sido dos últimos suspiros do malufismo.

Administrando uma verdadeira herança maldita deixada por Pitta, a petista Marta enfrentou uma série de problemas, mas mesmo assim conseguiu, em 2004, ir para o segundo turno, sendo derrotada por José Serra, à época beneficiado pelo chamado recall, eis que candidato à presidência da República dois anos antes.

Gilberto Kassab herda a prefeitura de Serra, que renuncia para candidatar-se a governador em 2006, e, após uso eficiente da máquina (atenção: não é necessariamente uma crítica), vai para o segundo turno do pleito de 2008, mais uma vez com o PT na disputa, novamente com Marta, derrotada outra vez.

Como se vê, precisava avisar os eleitores paulistanos que a cidade é fortaleza antipetista e pedir para eles pararem de levar os candidatos do Partido dos Trabalhadores para as cabeças das disputas municipais!

De se destacar que o principal antípoda do PT em nível nacional, o PSDB, apesar da hegemonia no estado, somente chegou ao segundo turno na capital paulista uma única vez, justamente quando Serra bateu Marta em 2004. Importante lembrar que Kassab em 2008 elegeu-se pelo DEM, inclusive superando, na reta final do primeiro turno, o candidato peessedebista - reparo fundamental, pois erroneamente alguns tentam creditar aos tucanos a vitória do então demista, o que não é verdade, noves fora a cristianização de Alckmin.

Frise-se, ademais, que, nesses anos todos, o PSDB não tem enfrentado as disputas municipais com "galinhas mortas". Serra e Alckmin, a exemplo do que fazem em nível estadual - e mesmo federal - são os tucanos que nas últimas corridas municipais representaram o partido. Mesmo assim, excetuando 2004, encontram dificuldades de, diretamente, superar o PT em São Paulo.

Outro importante registro histórico: em 1985, na primeira eleição direta pós-redemocratização, o PT alcançou apenas o terceiro lugar, com Eduardo Suplicy. A vitória foi de Jânio Quadros, num surpreendente arranque final contra Fernando Henrique Cardoso, na época ainda do PMDB. Cuidado, leitor, pois não falta quem tente dizer que aquele segundo lugar de FHC é feito do PSDB. Como dito, não é: o homem ainda não tinha, naquela época, motivos para cair fora do PMDB.

Soa estranho, portanto, o tão bem articulado discurso que tenta provar que a cidade de São Paulo tem ojeriza contra o PT. Assim como parece incompreensível que o próprio partido já se apresente com a ideia de que realmente acredita não ter a cara da nossa maior metrópole.

O eleitor paulistano talvez seja mesmo antipetista. Entretanto, ele decerto ainda não sabe!

sábado, 28 de janeiro de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012

No último 25 de janeiro a cidade de São Paulo completou 458 anos de vida. Em ano de eleições municipais, o melhor presente que a cidade pode receber é alguma reflexão sobre o que o pleito deve representar para sua realidade e seu futuro.

Esta corrida eleitoral de 2012 parece que guardará diferenças significativas em relação à disputa de 2008. Há quatro anos, nossa preocupação era com o protagonismo de políticos que pareciam não ter na chefia da administração municipal o maior significado de suas vidas. O PT apresentava-se, então, na briga com Marta Suplicy, ex-prefeita e nome sempre cotado para o governo do estado, pelo que talvez, se eleita, não hesitasse em abandonar a prefeitura para disputar o outro cargo; já o PSDB naquela feita pleiteava o comando do município com Geraldo Alckmin, que já tinha sido governador e fora candidato à presidência da República, nome que decerto não se contentaria com o "rebaixamento" do cargo de prefeito.

Em 2008, por incrível que pareça, a vitória de Kassab talvez tenha premiado o candidato que, naquele momento, era o mais comprometido com o município, aparentemente menos interessado em usar a prefeitura de São Paulo como trampolim para interesses políticos maiores - bem, o "praticamente" abandono da cidade com vistas à criação do PSD veio a demonstrar que tal cálculo também estava errado! Pobre São Paulo e sua sina...

A despeito do negativo exemplo de Kassab, este pleito de 2012 pode ter como diferencial justamente a presença de candidatos que, num primeiro momento, não parecem granjear objetivos eleitorais em instâncias maiores. O único nome certo no páreo é Fernando Haddad, do PT, ex-ministro da Educação nos governos Lula e Dilma, que, a exemplo da sua "chefe" mais recente, nunca disputou uma eleição antes. Também ex-secretário de Marta Suplicy, Haddad não é neófito nas coisas da máquina municipal. Tudo indica que sabe o que está fazendo e, principalmente, querendo. No partido de gente como Marta, Mercadante, Ruy Falcão, não se pode desde já supor que, em 2014, um fortalecido Haddad, se o caso, abandonaria a cidade de São Paulo para candidatar-se ao governo do estado. Merece o benefício da dúvida, pelo menos.

O PSDB ainda não tem nome definido. O partido deve passar por prévias. Decidido, por enquanto, está que José Serra não será o candidato. Ótimo para a cidade, uma vez sabido que o ex-governador não abandonou o sonho de levar a presidência da República. Se disputasse a corrida de 2012, fá-lo-ia meramente de olho em ter um cargo somente para ganhar visibilidade, com vistas à corrida presidencial de 2014. Convenhamos, uma megalópole de 12 milhões de habitantes precisa de um governante verdadeiramente comprometido com seus rumos. Não seria, obviamente, o caso de Serra. É reconfortante, pois, saber que o PSDB, a exemplo do PT, não se apresentará ao eleitor paulistano com um "escalista eleitoral".

O quadro na cidade para este 2012, portanto, ainda está bastante indefinido. Como exposto, a poderosa força política representada pelo PSDB ainda não tem candidato; não se sabe, por enquanto, o que Kassab e o seu PSD farão; o famigerado PMDB e seu Gabriel Chalita também ainda não deixaram claro o que farão; apesar de pesquisas favoráveis, não dá para vislumbrar que dimensão tomará o apoio do ex-presidente Lula a Fernando Haddad; quanto a Haddad, impossível também dimensionar como o seu desempenho no ministério da Educação afetará seu resultado eleitoral: este blogueiro, por exemplo, considera a atuação dele naquele ministério bem acima da média, mas, de outro lado, tem um esforço do aparato midiático em provar o contrário. Aguardemos.

É inegável que a capital de São Paulo apresenta forte tendência conservadora. É perceptível também, sobretudo nos chamados estratos médios, um certo antipetismo, como já até defendido por colunistas da grande mídia, além de notória insensibilidade social. Entretanto, resultados históricos recentes - aliados à sempre crescente complexidade geográfica e demográfica da metrópole - permitem enxergar outras nuanças e, consequentemente, variar os tipos de análise. Fica para um próximo post.