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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

PSDB, DEM, Serra, Aécio: aonde vocês pensam que vão?

Desde 1994, quando da primeira candidatura de Fernando Henrique Cardoso a presidente, o DEM (ex-PFL) é o parceiro preferencial do PSDB. Estiveram juntos nos dois mandatos de FHC e, até hoje em dia, caminham afinados na oposição ao governo Lula, além de permanecerem aliados em diversos estados e municípios.

Para as eleições presidenciais de 2010, a união entre os dois partidos já vinha sendo tomada como certa. O DEM se apresentava como a noiva controladora e que gosta de impor limites. Nem se discutia quanto ao líder da relação, que é, indubitavelmente, o PSDB. Todavia, importantes quadros democratas, dentre eles o deputado Rodrigo Maia e o senador José Agripino Maia, cobravam uma definição urgente por parte dos tucanos, indecisos quanto à candidatura do governador de São Paulo, José Serra, ou de Aécio Neves, governador de Minas Gerais.

Aécio defendia publicamente que o partido lançasse logo o candidato; José Serra não queria que a escolha ocorresse antes de março de 2010. É, portanto, difícil acreditar que o posicionamento dos democratas, firmes na exigência pela definição tucana, não fosse um aceno aos propósitos do governador mineiro, que claramente colocava sua candidatura à disposição, com sinalização mais forte de que estava preparado a assumir a briga. De sua parte, José Serra, mais “tucanamente”, vem, esse tempo todo, passando a imagem de que pode, na hora “h”, desistir da empreitada.

Eis que a noiva, toda certinha, é pega aprontando das suas. Nessa hora, o noivo, que até então vivia acabrunhado, sente que é a hora de dar o troco, deixando claro que o casamento só sai se – ou na hora em - que ele quiser. As cenas de corrupção explícita do DEM fizeram o partido baixar a bola, e Serra passou a dar as cartas. Já Aécio, cujo maior trunfo era a sua oferta de garantia da solidez da aliança demotucana, preocupado que está com seu futuro político, resolveu largar o barco, informando que disputará uma cadeira no Senado Federal por seu estado. Ou seja, Arruda e sua gangue deixaram o governador de Minas sem a claque para reverberar, na mídia, seu posicionamento, o qual era desafiador ao todo-poderoso governador de São Paulo.

A saída de Aécio obriga o governador Serra a tomar logo uma decisão, até porque a principal adversária, a ministra Dilma Rousseff, do PT, não esconde de ninguém o jeitão de candidata em 2010; o mineiro, esperto, deixou uma porta aberta para voltar atrás, caso o partido precise, na última hora, de um candidato a presidente; não se descarta, por fim, a possibilidade – ainda que remota - de uma chapa puro-sangue, com os dois governadores tucanos. São muitas as conjeturas do para lá de indefinido quadro tucano.

Num primeiro momento, a maior vítima do chamado DEMsalão é, sem dúvida, Aécio Neves, que vinha ganhando musculatura na sua briga interna com Serra, justamente por conta de sua capacidade agregadora, em clara oposição ao estilo truculento e concentrador de seu oponente e de resto de todo o grupo paulista que comanda o PSDB. Havia até mesmo, nos bastidores da disputa interna, um pouco da luta contra o chamado paulicentrismo, fantasma que ronda, silenciosamente, a política brasileira. A posição do mineiro ficou tão complicada que chega a ser suspeita toda essa exposição das entranhas do DEM.

Reconhecer o segundo plano a que já estava relegada a candidatura de Aécio Neves, mesmo antes de sua desistência, não é o mesmo que acreditar que ele estaria obrigado a aceitar qualquer imposição de seu partido - se é que o partido, principalmente por parte de seus caciques de São Paulo, está em condições de lhe impor alguma coisa. Noutras palavras, a pequena derrota do governador mineiro não seria suficiente para deixá-lo de joelhos, a ponto de aceitar ser vice do governador de São Paulo, ainda mais depois de ter feito amiúde discursos contra a centralidade da política paulista em nível nacional. Ao contrário, há quem veja em sua desistência um golpe contra o grupo de Serra, que terá que ir, de uma vez por todas, para o tudo ou nada.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Imprensa força a barra da imparcialidade

O jornalismo praticado no Brasil deve ser enxergado sob o olhar da desconfiança. A análise dele não é simples. Além do que, é de nossa natureza moderna o hábito de ter dúvida de tudo. Destaco pequeno trecho de trabalho que cometi para a disciplina História da Filosofia Contemporânea, ministrada pela professora Yolanda Glória Gamboa Muñoz para o curso de Filosofia, da Universidade São Judas Tadeu, de São Paulo:

Sob a influência do pensamento de Freud é possível que alguém pergunte o que uma pessoa realmente quis dizer ao proferir algo, ou quais são suas reais intenções por trás das palavras ou, ainda, se “deixou escapar algo”, se cometeu um ato falho etc.; na mesma linha de entendimento, pela influência do pensamento de Marx, não são raras as vezes que se pergunta quais são os verdadeiros interesses por trás de um comportamento, a quem tais interesses atendem ou qual a verdadeira motivação do ato. Por exemplo, no caso de uma guerra, talvez seja mais apropriado aos que a defendem e/ou patrocinam dizer que ela tem o objetivo de depor um ditador sanguinário, encontrar armas de destruição em massa ou instaurar os benfazejos ares da democracia, em vez de dizer que o seu principal interesse são, digamos, reservas de petróleo.

Pedimos desculpas pela ingenuidade das observações, as quais faziam a abertura de atividade que versava sobre o tema “ideologia”, após todo um semestre imerso nos pensadores alemães mencionados na epígrafe.

Convém entender quais são as intenções da imprensa, neste momento difícil pelo qual ela passa, vendo – literalmente – cenas explícitas de corrupção recair nas costas dos seus apaniguados, justamente sobre aqueles que ajudavam a reverberar o moralismo presente em seus editoriais, ao mesmo tempo que municiavam suas editorias de política com CPIs, discursos inflamados e frases bombásticas, especialmente acerca da questão ética.

A verdade é que na última sexta-feira, dia 04.12.2009, os três mais importantes jornais do país trouxeram manchetes sobre a aceitação de denúncia, no STF, contra o senador Eduardo Azeredo, do PSDB de Minas. Até aí tudo bem. A questão está no fato de terem destacado a sigla a que o ex-governador mineiro pertence. Durante todo esse tempo, ao falar de tal escândalo, a mídia referia-se a “mensalão mineiro” ou “valerioduto mineiro”, numa clara tentativa de preservar o partido de José Serra, Geraldo Alckmin e Fernando Henrique Cardoso; na última sexta-feira, porém, falaram em “mensalão tucano” e “mensalão do PSDB”, com todas as letras. O que há por trás do fato de os maiores jornais do País terem, surpreendentemente, feito jornalismo, dando nome aos bois em tão complicado imbróglio?

O primeiro ponto é que não se deve negligenciar o fato de as gravações comprometedoras de corrupção do DEM, velho aliado tucano, terem imposto uma situação vexatória para todos que patrocinaram a atuação de tal partido na cena política brasileira, dando-lhe guarida por ter apoiado FHC, por apoiar Serra em São Paulo, por ser a sigla de Gilberto Kassab na capital paulista e, principalmente, por fazer cerrada oposição ao governo Lula. Em segundo lugar, que não se olvide do fato de que as dores de cabeça que se concentram no Distrito Federal resvalaram no PSDB local, mas ameaçam chegar a políticos das duas siglas em outros estados da Federação, notadamente em São Paulo, complicando a vida não apenas de Serra, mas também do prefeito da capital, Gilberto Kassab. Portanto, a imprensa ficou em situação tão difícil que talvez não fosse mesmo o caso de querer tergiversar numa hora dessas.

Mas não é só isso. O caso dos panetones, dinheiro nas meias, cuecas e tudo mais deu à imprensa a inesperada oportunidade de posar de imparcial: “ora, nós batemos pesado no mensalão do PT, mas agora estamos detonando com o mensalão tucano”. Pois é. Só que nunca haviam qualificado o mensalão de Azeredo como “mensalão tucano” antes. De qualquer forma, para os que não acompanham a imprensa muito de perto, ou que ingenuamente acreditam que o partidarismo dela sempre foi bem-intencionado, do tipo que nada mais era do que uma intransigente defesa da ética, tal argumento vai ser de grande serventia.

A desconfiança nos obriga a enxergar mais coisas por trás disso tudo. A imprensa bem pode estar apenas se antecipando aos desdobramentos do processo contra o chamado mensalão federal, aquele que envolve políticos do PT e da base aliada do governo Lula no Congresso Nacional. Saindo notícias bombásticas sobre tal caso, poderá explorá-las e a respeito delas exagerar à vontade, pois terá nas mãos a “prova” de que falou do mensalão dos outros também. E ninguém ficará contando quantas laudas foram oferecidas a cada um dos escândalos. Ademais, os responsáveis pela mídia já devem estar pensando que na cabeça do eleitor prevalecerá o “crime” mais recente. Fora isso, os barões dos meios de comunicação devem estar acreditando piamente que algum aloprado petista apronta alguma nos próximos dias para equilibrar o noticiário.

No entanto, questões ideológicas costumam trazer implicações mais graves. Vejamos.

O ex-PFL está cheio de oligarcas representantes do atraso, e o PSDB deu, nos últimos tempos, uma boa guinada para o centro-direita. De todo modo, seja como for, são partidos que atuam na via institucional, tendo como maior pecado justamente a terceirização da política que ofereceram à medíocre imprensa brasileira nos últimos tempos. O perigo, no entanto, pode ser de, por trás da repentina “imparcialidade” da imprensa, estar uma tentativa de desmoralização absoluta da política, abrindo espaço para a extrema-direita ou para aventureiros golpistas. Bem aqui perto, em Honduras, foi dada a senha para tal tipo de maluquice, ainda com direito à institucionalização forjada da "situação de fato".

Este último ponto, admitimos (e torcemos), é pura teoria da conspiração, não parecendo encontrar, por enquanto, maiores lastros na realidade. De qualquer forma, é bom ficarmos atentos.

No meu supracitado trabalho escolar, vali-me de O dezoito brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx. Encerrei-o de um modo que parece caber aos propósitos esposados aqui:

Vê-se [no relato de Marx] a profusão de interesses que pode estar por trás de atos que no desenrolar histórico parecem plenamente normais. É neste ponto que a ideologia pode ser entendida como um mascaramento natural de interesses subjacentes. É exatamente aí que caberia aquela suspeita dos que perguntam: “quais serão os verdadeiros interesses que estão escondidos atrás disso tudo?”. Para encontrar a resposta, há “um contínuo processo de distinção, desmascaramento, e manifestação do que está aí. Para realizá-lo será necessária uma escavação constante que traga à luz os interesses subjacentes que naturalmente se mascaram” (MUÑOZ, Y.G.G. Ainda a ideologia?, in Integração: ensino, pesquisa, extensão, - ano X, nº 39, São Paulo: Centro de Pesquisa da Universidade São Judas Tadeu, 2004.)

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Por essa, "as oposições" não esperavam

Há duas frentes de oposição ao Governo Federal no Brasil.

A primeira delas pode ser chamada de legítima: é aquela representada majoritariamente pelo DEM e pelo PSDB, além do PPS e, em menor escala, pelo PSOL, sendo que a deste último é um tipo de oposição diferente, marcada por motivos diversos aos daqueles grupos que realmente lutam pela – ou estiveram na – chefia do governo brasileiro.

A outra oposição pode ser chamada de ilegítima: é a representada pelos mais poderosos grupos de mídia do país. Ao contrário dos integrantes dos partidos políticos acima mencionados, os grandes jornais e revistas ou a maior rede de televisão não foram eleitos diretamente pela vontade dos milhões de pessoas que desaprovam o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva; tal oposição, entretanto, é por diversas vezes mais barulhenta e, não raro, mais organizada.

Ambas parecem ter ficado perplexas com alguns dos desdobramentos da chamada “farra” dos cartões corporativos.

A antecipação por parte da liderança do governo em colher assinaturas para uma CPI pegou muita gente de surpresa. Há um detalhe no pedido formulado pelo líder do governo no Senado, Romero Jucá: a investigação tem que ser ampla o suficiente para contemplar o período do governo de Fernando Henrique Cardoso, quando se iniciou o uso dos famigerados cartões.

Viram-se na oposição algumas manifestações, que, não obstante a marca do cinismo que ostentam, são por demais didáticas para aqueles que acompanham os acontecimentos políticos: segundo o UOL, o Senador Demóstenes Torres, do DEM, disse que uma CPI que pretende ser tão ampla já está fadada a acabar em pizza, como que já insinuando um grande acordo para ninguém sair chamuscado. Ora, se o DEMocrata estiver certo, deve ser porque sabe que o governo do antecessor do presidente Lula teria muito o que temer na investigação. Aliás, se o leitor permite, cabe uma pergunta ingênua: se o senador goiano realmente estiver certo, não seria um motivo a mais para que a CPI ocorresse, obrigatoriamente, nos termos apresentados pela solicitação governista?

Ainda na mesma linha, o Deputado Antônio Carlos Pannunzio, do PSDB paulista, em mensagem publicada no sítio Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, declarou que uma CPI de verdade tem que ser apresentada pelo grupo adversário, pois quando os próprios investigados se mostram interessados pela instauração da Comissão estão usando de um tipo de ardil que de cara a esvazia ou a torna sem sentido. Ora, ora, ora! Se realmente é assim, somos forçados a concluir que sempre que algum político, em qualquer instância, acusa um determinado governo de sufocar CPIs, ou de atrapalhar seu andamento e coisas assim, está apenas fazendo um jogo de cena, pois, de acordo com o raciocínio de Pannunzio, a boa CPI é essa mesmo, qual seja, aquela que o governo de plantão ou outros de seus investigados tentam passar por cima com o rolo compressor.

Obrigado, nobres parlamentares Demóstenes Torres e Antônio Carlos Pannunzio! Nunca mais encararemos as CPIs com tanta ingenuidade!

A “outra” oposição, a representada pelos meios de comunicação, também tem se mostrado perdida com o caso dos cartões.

A velha e boa imprensa tem tentado vender a idéia de que a sua operosidade é que levou o caso a obter uma importante repercussão, a ponto de derrubar ministro, fazer que outro devolva dinheiro, que um terceiro tenha que se justificar. Mas, em verdade, todos sabem que o caso só está tendo tamanha amplitude graças à transparência do Governo Federal, que tornou os dados referentes aos gastos de seus servidores e agentes disponíveis a toda população, através do site da CGU. Aliás, deve-se acrescentar que, fosse a nossa mídia realmente diligente, os gastos da ex-ministra Matilde Ribeiro, por exemplo, não teriam chegado a um terço do que foi apresentado, pois algum jornalista inteligente (ou algum estagiário muito esperto) já teria verificado algo de estranho nas operações feitas com o cartão dela e denunciado ainda em tempo de estancar a sangria de mais de 170 mil. Admita-se, porém, que toda a sociedade poderia já ter criado o hábito de acompanhar esses gastos mais cedo e, conseqüentemente, ter exercido algum tipo de pressão sobre o governo.

A imprensa (metida a partido político, na opinião tanto de um estudioso do nível de Wanderley Guilherme dos Santos quanto do prefeito do Rio, César Maia) também parece pega de surpresa com a decisão governista de pedir uma CPI. Mas o que parece tê-la deixado realmente numa situação complicada foram os gastos com cartões semelhantes ao do Governo Federal perpetrados pelo Governo do Estado de São Paulo. A Folha somente deu destaque ao assunto após ser pressionada publicamente por Paulo Henrique Amorim (que apelidou a imprensa de PIG – Partido da Imprensa Golpista!), sendo obrigada a admitir, ainda que timidamente, que o sistema federal é mais transparente. Todavia, conforme notou o blog de Eduardo Guimarães, o jornalão, simpaticíssimo ao governo tucano de São Paulo, resolveu fazer valer o seu manual e deu um importante espaço ao “outro lado”, prática que também deveria observar quando difundisse denúncias e críticas ao Governo Federal.

As “oposições” fariam muito bem nessa altura do campeonato se não permitissem retrocessos na transparência dos gastos públicos. Não apenas precisariam impedir que o Governo Federal dificultasse o acesso a seus gastos ou ressuscitasse formas de despesa de difícil rastreamento, como deveriam obrigar as outras instâncias governamentais a que agissem com a mesma transparência. O primeiro passo poderia ser cobrar isso do Governo do Estado de São Paulo, tanto pela sua importância meramente simbólica quanto, mais prosaicamente, pelo volume nada módico de suas despesas.