sábado, 15 de outubro de 2011

Alguém marcharia a favor?

As chamadas "marchas contra a corrupção" que vêm ocorrendo no Brasil são, num primeiro momento e numa certa leitura, algo sem muito sentido, e, em segundo lugar e por outra ótica, reveladoras de má intenção ou de interesses inconfessáveis por parte daqueles que as insuflam. Antes de prosseguir, tente imaginar alguém organizando uma "marcha a favor da corrupção". Faz algum sentido?

A desaprovação à corrupção é da mesma linha da praticamente natural repulsa que as pessoas ditas normais têm por assassinatos ou assaltos, por exemplo. E ninguém consegue, creio eu, imaginar cidadãos saindo às ruas em marcha contra assassinatos ou contra assaltos. Por óbvio nem é necessário que uma horda de pessoas se organize para demonstrar sua contrariedade à prática de assassinatos e assaltos; assim como no caso da corrupção, as leis e códigos já tipificam o assassinato e o assalto como crimes, sendo isso, per se, a representação da discórdia da sociedade para com tais barbaridades.

Seria, por outro lado, compreensível que as pessoas saíssem às ruas contra assaltos e assassinatos em situações específicas, como, por exemplo, numa "marcha contra assassinatos de líderes de trabalhadores rurais" ou em protesto "contra o aumento do número de assaltos numa dada localidade no último semestre" e coisas assim. O Movimento dos Sem Mídia, por exemplo, recentemente organizou uma manifestação "contra a corrupção da mídia", ou seja, delimitou e direcionou aquela repulsa que, naturalmente, se sente pela corrupção em geral.

Não parece ser o caso de dizer que houve aumento da corrupção no Brasil para justificar, nos termos dos exemplos acima, as marchas realizadas nos últimos dias: observe-se que, pelo menos até agora, ninguém fala em "marcha contra o 'aumento' da corrupção". Ainda que aparentemente haja quem pense ser a corrupção maior hoje em dia, não se veem corajosos o suficiente para empunhar tal bandeira, expondo-se desse modo ao risco de passarem por ingênuos ao renegar todo um conjunto de discussões que defendem - e explicam - que a corrupção é uma espécie de praga já disseminada, de há muito, em toda nossa cultura.

Na mesma linha, dado o fato de as tais marchas se autoproclamarem apartidárias, espontâneas, gerais e radicais, não podem elas dar-se ao luxo de declaradamente concentrar-se num alvo muito concreto e definido. Elas não podem dizer que são contra a corrupção de um certo partido, por exemplo, ou contra a roubalheira numa esfera específica de governo, ou contra uma determinada figura pública (tida como) corrupta. Elas têm que ser contra a corrupção em geral, pagando, portanto, o preço de ser, como já dissemos, sem sentido.

Mas o que estamos dizendo?! É lógico que os atos políticos não podem ser sem sentido; a violência contra a lógica é apenas aparente, pois por certo que eles têm objetivos claros, ainda que inconfessáveis.

Mesmo que não o digam, com as tais marchas querem sugerir a seus próprios participantes - e os há de boa-fé em número decerto não muito reduzido - e a toda opinião pública que haveria hoje no País mais corrupção do que houve ontem. Seus inflamadores sabem que não é verdade, mas querem passar tal tipo de sensação. Para isso, usam uma espécie de mensagem subliminar, eis que lhes falta coragem - e alguma cara de pau suficiente - para advogar, de forma aberta, o aumento da corrupção no Brasil nos dias de hoje ou mesmo nos últimos anos.

De outro lado, os cérebros por trás de tão "espontâneas" manifestações querem usar o natural descontentamento com a corrupção - crime, como já dissemos - para tentar acertar somente o governo federal, especialmente os seus últimos anos petistas. As suspeitas de corrupção nada desprezíveis dos governos federais anteriores a Lula, muito especialmente as do seu antecessor, não parecem ter muita importância para a galera das marchas; muito menos importantes ainda têm se mostrado os malfeitos nos governos estaduais, notadamente de São Paulo e Minas. Sem dizer palavra, as tais marchas são contra a corrupção do PT e de seus aliados, ponto. (As realizadas em Brasília, reconheça-se, nalguma medida parecem ter fugido um pouco do quadro que descrevemos).

As coisas seriam mais simples - e mais providas de sentido - se os insufladores dessas manifestações dissessem claramente o que querem e de que lado realmente estão - ou, pelo menos, contra que lado estão. Contra a corrupção? Ora, com marcha ou sem marcha, a sociedade, mesmo que não o saiba, é contra a corrupção. Assim como é contra o estelionato, o furto, a tortura etc.

domingo, 18 de setembro de 2011

Manifestação no MASP

Na tarde do sábado 17.09.2011, reuniram-se no vão livre do Museu de Arte de São Paulo sindicalistas, professores, ativistas, blogueiros e cidadãos comuns com o fim de realizar "Ato Público Contra a Corrupção da Mídia", convocado pelo Movimento dos Sem Mídia.

Bastante oportuno. A luta política, atualmente, passa pelo embate direto com os meios de comunicação. E a questão não é somente a de tomar as dores do governo federal, perseguido de forma desproporcional pela mídia, como já demonstrado por diversas vezes e pelos mais variados atores. Movimentos sociais e categorias profissionais, entre outros, também têm motivos de sobra para começar a enxergar nos grandes grupos midiáticos o seu principal inimigo.

Ainda é forte a lembrança, no campo político, de frase de Judith Brito, da Associação Nacional de Jornais, confessando que a imprensa fazia o papel da oposição no Brasil. De se notar, também, que a oposição política de verdade, desprovida de propostas para o País, tem se mostrado satisfeita em atuar a reboque do denuncismo e do falso moralismo midiático. Daí muitos acreditarem que, porque estritamente política, a briga com os meios de comunicação deveria ser uma mera preocupação do PT - partido político do ex-presidente e da atual presidenta da República - e de seus integrantes.

Nada disso. Vai uma dica para sindicalistas, servidores públicos, movimentos sociais: todos precisam ficar mais atentos ao trabalho de desmobilização e de descrédito que lhes tenta impingir a imprensa. Para os trabalhadores e seus direitos e interesses, o maior inimigo já não parece ser o patrão, mas sim a imprensa, que demoniza sem dó nem piedade seus representantes organizados. Os servidores públicos federais, quando querem aumento, devem mesmo cobrar o comprometimento da presidenta e de seus ministros; mas é preciso compreender que a cruzada ideológica contra os servidores - como pano de fundo à campanha sistemática contra o serviço público - é capitaneada pela mídia. Vê-se que para com os trabalhadores sem-terra, tem-se a impressão de às vezes haver mais hostilidade das grandes redes e jornais do que até mesmo por parte dos latifundiários.

Os professores que tomaram a palavra na manifestação do MASP estavam atentos a esse viés: denunciaram o desejo da imprensa de esconder ou satanizar seus movimentos. Integrante de sindicato dos bancários por sua vez também lembrou do enfoque distorcido e negativo com que os grandes meios tratam as manifestações de trabalhadores, com o claro objetivo de contra eles atrair a antipatia da população.

E se o mote era a corrupção da mídia, o melhor momento da manifestação ficou para a participação de Gerson Carneiro, figura sempre presente nas seções de comentários dos blogues mais sujos do País. Disse ele que a imprensa deveria, só para disfarçar, pegar no pé dos corruptores de vez em quando. Além do que, pediu, que tal a mídia agir com a transparência que cobrava de Palocci, revelando o nome de seus anunciantes envolvidos em caso de corrupção? E mais: como ficam as assinaturas de jornais e revistas dos grandes grupos de comunicação generosamente contratadas pelo governo de São Paulo?

Mais encontros desses Brasil afora e certamente novas perguntas virão. Contudo ficarão sem respostas.

sábado, 20 de agosto de 2011

Corrupções

A recente grita acerca da corrupção - com a consequente "faxina" promovida pela presidenta Dilma Rousseff - é algo que mereceria ser visto com cautela.

Antes de mais, vale atentar-se a trecho de belo texto do filósofo Vladimir Safatle publicado na Folha de São Paulo em 12.07.2011, que, a pretexto de criticar o magnata das comunicações Rupert Murdoch, em realidade falava do modus operandi da imprensa brasileira, inclusive, é claro, da própria Folha, que teve de fingir que não era com ela. Leia:
(...)Murdoch tornou a produção de notícias setor de uma luta política onde reina a seletividade do escândalo.
Todos, em algum momento, fizeram algo que não gostariam de mostrar na esfera pública. Mas cabe ao jornal decidir quem vai ser exposto e quem será conservado, quem vai para a primeira página e quem vai para a nota do canto.
A lei "dois pesos, duas medidas" transforma-se em uma regra, adequando-se às exigências de uma sociedade do espetáculo.(...) [Poder em pane, grifos nossos]

Pois é assim. Qualquer um que acompanha a imprensa brasileira pode ter a falsa impressão de que só existe corrupção em nível federal. Se a Folha, por exemplo, quisesse, poderia transformar a vida do governo tucano de São Paulo num inferno por ter decidido levar adiante projeto da linha 5 do Metrô com empresas suspeitas de acerto. Imagine o leitor todo dia manchetes martelando a denúncia, com reprodução no restante da mídia ou no mínimo naquelas sediadas em São Paulo. Mas, ao contrário, o assunto - que aliás poderia ter trazido mais prestígio ao jornalismo investigativo da Folha - foi devidamente jogado para baixo do tapete, sob o silêncio obsequioso dos neoudenistas de plantão, até mesmo entre os razoavelmente informados sobre o cabeluda história.

A essa altura do campeonato já não há novidade quanto aos objetivos dessa ofensiva midiático-oposicionista, com direito até mesmo a relativo apoio a Dilma por suas respostas supostamente rápidas dadas à sociedade, demitindo gente adoidado: atingir o ex-presidente Lula.

Não tem jeito, para a mídia e oposição (no fundo, quase a mesma coisa), Lula teria que ter deixado uma "herança maldita". Tentou-se, no início do ano, ressuscitar o fantasma da inflação: diziam que suposto aumento descontrolado e generalizado de preços era a "conta" deixada pelo populismo do crescimento econômico com inclusão social promovido pelo líder petista. Acreditava-se que o dragão iria se autoalimentar com o pânico disseminado diuturnamente na imprensa, ou, de outro lado, teria o governo brasileiro de dar um "cavalo de pau" bem forte na economia para domá-lo; num e noutro caso, principalmente os mais pobres - os maiores apoiadores de Lula e Dilma - sairiam perdendo, com evidentes dividendos para a oposição.

O factoide inflação, como não poderia deixar de ser, já perdeu fôlego, sobrevivendo apenas graças aos interesses do mercado que fatura com elevação de juros, conforme já comentamos em post cujo link está disponível abaixo. Para enfrentar Lula, portanto, restou a bandeira do combate à corrupção, tentando-se a todo momento sugerir - quando não declarar abertamente - que a roubalheira de hoje é "obra" legada pelo ex-presidente.

O comportamento de alguns colunistas e as falas deixadas por internautas nas caixas de comentários na internet podem criar fantasias mirabolantes na cabecinha de crianças de 10 anos ou pouco mais de idade: até 2002 o Brasil era comandado por um "coro de anjos", aí chegou um barbudo malvado e corrompeu (literalmente!) os alicerces desta República tão invejada mundo afora; mas depois de oito anos de trevas, veio uma destemida mulher com sua vassoura – alô, Jânio Quadros (Freud explica!) – e começou a realizar uma boa faxina. Sim, claro, “faxina”, afinal de contas somos um país de machistas e não podemos esperar muita coisa de uma mulherzinha de esquerda senão uma boa... faxina.

Seria divertido se, em vez de papo furado, a mídia resolvesse enfrentar os fatos. Que tal reportagens comparando o número de operações da Polícia Federal sob o governo Lula e sob o governo Fernando Henrique? E o que será que os articulistas e colunistas teriam a dizer sobre os procuradores-gerais da República nomeados por Lula em oposição à figura do "engavetador-geral" de FHC? E quanto ao número dos servidores demitidos por corrupção nos governos do PT comparados aos do PSDB? E se repórteres investigativos resolvessem se interessar pelo conteúdo do chamado "dossiê dos aloprados"? E se começassem a chamar o "mensalão mineiro" de "mensalão tucano"? Mudando de esfera, por que não fazer uma reportagem, ao menos na mídia de São Paulo, sobre o número de CPIs sufocadas na Assembléia Legislativa durante este longo reinado do PSDB no estado?

Em momentos de comedimento, ou quiçá condescendência, já se ouve por aí que, de fato, houve malfeitos em todos os governos, mas o problema de Lula teria sido o de "institucionalizar" a corrupção, o que seria em tese mais grave. É o tipo de afirmação de certo rebuscamento sociológico, que mereceria maiores reflexões e esclarecimentos de quem a advoga - o que até o momento não foi feito. De todo modo, parece haver, num primeiro momento, um recado cômico na assertiva: "corrupçãozinha" do dia-a-dia pode; só não pode se for "institucionalizada"! Do ponto de vista mais sério, vão por água abaixo todas aquelas digressões filosóficas de nossos intelectuais - como sempre papagaiadas pelos nossos estratos médios - de que a corrupção brasileira é endêmica, cultural, está no nosso DNA etc, não por acaso proferidas quando se pretendia perdoar aos seus.

Ainda sobre a contraposição da corrupção, digamos, comezinha à dita "institucional", há uma dificuldade de cunho essencialmente político. É que deve ser difícil para um bom neoudenista sair por aí espumando de raiva com o “mar de lama” que nos afoga por obra e graça de um “analfabeto nordestino”, enquanto demonstra condescendência com a corrupçãozinha de intelectuais e reis-filósofos moradores de Higienópolis. Afinal, mesmo entre aspirantes a integrantes de um futuro “tea party” brasileiro deve haver um ou outro dotado de coerência e seriedade.

Leia também:
O que é isso, novos companheiros?
O inflacionado mercado das mentiras
Inflação: política e economia


domingo, 7 de agosto de 2011

CDs: não se deixe programar pela obsolescência

Logo quando os CDs começaram a se popularizar no Brasil - devagar, devagarinho - no início da década de 1990, alguns puristas e vinilófilos radicais saíram dizendo que em não mais do que dez anos os registros dos "discos-laser" simplesmente desapareceriam. Como nada aconteceu em tal período, falaram que seria em 15 anos. Tendo continuado a tocar os disquinhos, subiram para 20 anos. E quem tem CDs fabricados ainda no final dos anos 1980 pode confirmá-lo: os dados não sumiram coisa nenhuma.

Dia desses, um amigo teorizou que, no fundo, o sumiço dos dados não é, em absoluto, o grande problema. Ele apresentou o que seria para ele o verdadeiro motivo para não se gastar dinheiro com CDs originais: em breve, não somente a mídia será substituída por outra forma - inclusive "virtual" - mas também não será possível botar para rodar os itens da coleção, pelo simples motivo de que não haverá aparelhos para reproduzi-los. Quer dizer: os registros estarão lá no disco, mas de nada vai adiantar porque não haverá máquinas para decodificá-los, por assim dizer.

Na mesma hora lembrei-me de um episódio dos Simpsons, em que aparece um depósito de lixo no qual consta um espaço dedicado para "betacam", outro destinado para VHS, ambos já devidamente abarrotados de objetos, e um terceiro, ainda vazio, "reservado para DVDs".

Meu amigo e os Simpsons estão a tratar do famigerado fenômeno da obsolescência programada, assim definida no Dicionário de Economia, de Paulo Sandroni (São Paulo: Best Seller, 1989): se dá quando "a produção industrial determina de antemão o período de durabilidade de um produto(...), frequentemente se chega a preparar um desgaste artificialmente curto para obrigar os consumidores a uma reposição mais rápida do produto".

Aceitando que, com efeito, não é de se descartar a hipótese de sumirem os aparelhos apropriados para se ouvir CDs, há de se buscar um bom motivo para adquirir essas maravilhas. Quanto à música, criação humana, sempre se terá uma forma de a ela ter acesso e em algum lugar ficará guardada, nem que seja num museu, e certamente com a gravação de que gostamos. Mas e os CDs, objeto físico, forma tangível?

Uma boa desculpa para não abandonar o hábito de adquiri-los talvez seja comprar aqueles que - mais uma vez apropriando-se da linguagem dos economistas - tenham maior valor agregado, digamos assim. No caso, as edições com reprodução de capas originais, textos novos e da época, fotos inéditas, serviços completos das gravações etc.

Coleções como a Rudy Van Gelder Series, do selo Blue Note, a Columbia Legacy, da Sony-BMG, Atlantic Jazz Masters, com a turma da Rhino, entre outros, são ótimas pedidas. Os encartes dessas edições são praticamente livretos. Na RVG, da Blue Note, por exemplo, as fotos destacam preferencialmente os músicos da sessão, e não o artista que a lidera, e além do texto original, traz uma nova leitura do expert Bob Blumenthal. Na Atlantic Jazz Masters, por seu turno, tem-se o fac-símile da contracapa, mas para não precisar forçar muito a vista, todo o conteúdo é reproduzido no livrinho em letras maiores.

Não tem jeito. Tecnologia vai, tecnologia vem, mas o velho e bom livro sobrevive e não se cogita que ele venha a sumir de todo. O jeito, para quem gosta de gastar dinheiro com CDs, é pensar assim: adquirir um objeto que "contém" boa música, mas que pode, entre seus acessórios, trazer um pouco de boas imagens e, principalmente, boa leitura. São textos de Nat Hentoff, Ira Gitler, Gunther Schuller, Lenny Kaye, Fausto Canova, Martin Williams, Armando Aflalo e, não raro, os próprios artistas e produtores das obras fazendo "leituras atualizadas" dos trabalhos que protagonizaram.

É bom sempre adquirir, preferencialmente, discos de que não se vai enjoar. O problema, como aqui aventado, é não poder ouvi-los um dia, por algum motivo de força maior, como, por exemplo, a predação capitalista. Para não ficar com a sensação do risco de aquilo perder valor no futuro, fixemo-nos, então, na certeza de que um texto como o de Bruce Geller para a contracapa da trilha de Mission: Impossible, de Lalo Schifrin, não deve se perder nunca.

sábado, 30 de julho de 2011

A mí(s)tica dos 27 anos

Muito se tem falado nos últimos dias sobre o fato incrivelmente curioso de artistas pop falecidos aos 27 anos de idade.

A morte da cantora Amy Winehouse ajudou a botar mais fogo nessa lenda, juntando-se a grupo que conta com Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, todos mortos aos 27.

Uma amiga no trabalho, em tom de pilhéria, disse que a inglesa deve ter forçado a barra para “conseguir” morrer aos 27, talvez com a garantia de se tornar “eterna”, por assim dizer.

A bem-humorada suspeita, a despeito de seu absurdo, não deixa de, paradoxalmente, fazer algum sentido. O mito dos 27 é algo já pronto: aqueles artistas dos anos 1960 evidentemente não sabiam e certamente não o quiseram mas sem dúvida o estabeleceram. Hoje, “graças a eles”, qualquer um pode voluntária e romanticamente se findar naquela fatídica idade somente com o fito de entrar definitivamente para a história.

É claro, o leitor já deve ter começado a pensar em Kurt Cobain. O líder do Nirvana suicidou-se aos 27 em 1994. Mais do que nas de Amy Winehouse, estava nas mãos dele ter continuado vivendo ou, ao menos, ter dado cabo da vida com outra idade menos emblemática.

A incrível coincidência que se abateu sobre Janis, Hendrix e Morrison ajudou a criar a mí(s)tica dos 27 anos. A lenda ganhou novo impulso com Cobain. Resta saber se ela realmente se realimenta tanto a ponto de catapultar para a eternidade uma artista bem menos interessante, como é o caso da britânica Amy Winehouse.

Também curioso, por outro lado, é o fato de alguns geniais artistas pop terem morrido em idade que rondava os 27 anos e hoje serem menos populares, menos lembrados, ainda que muito cultuados. Talvez devessem ter fenecido aos 27...

Gram Parsons, por exemplo, morreu aos 26. Com a mesma idade suicidou-se em 1974 o “maldito” Nick Drake. Um pouco depois, já aos 28, faleceu Tim Buckley. Todos cantores e compositores que, como se vê, “bateram na trave” dos 27.

O estadunidense Gram Parsons (05.11.1946 a 19.09.1973), por exemplo, foi dos maiores expoentes do chamado country rock. Integrou os Byrds em sua fase mais country e foi líder do The Flying Burrito Brothers. Deixou dois álbuns solos muito procurados mundo afora: GP (1973) e Grievous Angels (1974). Morreu de overdose aos 26.

Nascido no hoje Myanmar em 19 de junho de 1948 e morto no Reino Unido em 25 de novembro de 1974, Nick Drake, como óbvio, não esperou fazer 27. Embora seja figura reconhecidamente depressiva, e ainda que oficialmente sua morte seja tomada como suicídio, não deixa de haver algumas dúvidas e suspeitas se ele realmente se matou. A maioria, porém, se vê tomada de certeza quando ouve os momentos mais dolorosos de Five Leaves Left (1969) e Pink Moon (1972).

Nascido na capital dos Estados Unidos (14.02.1947), Tim Buckley foi um vitorioso que conseguiu ultrapassar os 27 anos de idade. Passado pouco tempo dos 28 anos completo, em 29.06.1975, o pai de Jeff (por acaso morto com pouco mais de 30) veio a morrer de overdose de heroína, pondo fim a uma carreira que não se sabia aonde poderia chegar, uma vez tratar-se ele de artista inquieto, que passava a vida a transitar do folk ao rhythm’n’blues.

Vamos ouvi-los abaixo e ajudar a fomentar a macabra dúvida: se tivessem ido com 27, seriam hoje mais populares?

De Gram Parsons, do álbum Grievous Angels (1974), ouviremos trecho de “Brass Buttons”. Com Nick Drake, do álbum Five Leaves Left (1969), teremos um pedaço de “Man in a Shed”. Por fim, descendo até 1967, curtiremos parte de “Once I Was”, de e com Tim Buckley, extraída de Goodbye and Hello.

domingo, 24 de julho de 2011

Inflação: política e economia

O factoide inflação continua rendendo – com ou sem trocadilhos, você decide!. Começou como mero jogo político capitaneado pela oposição e pela mídia, passando, num segundo momento, a sofrer exploração da turma da economia-finanças – nesta etapa, também com o apoio do oligopólio midiático.

Já no fim de 2010, e especialmente no início de 2011, as figuras de oposição – e tanto faz falar de jornalistas ou políticos – passaram a dizer que vivíamos um clima de descontrole inflacionário. A estratégia parecia ser a de colar em Lula a responsabilidade por certa “herança maldita” legada ao País, e, neste caso, uma herança particularmente maléfica para a população mais pobre, não por acaso justamente os maiores apoiadores do ex-presidente. Alegava-se certo afrouxamento do pernambucano no combate ao “dragão”, que, por sua vez, teria sido alimentado pelo abuso nos gastos públicos dos últimos anos com o fim de ajudar sua candidata à sucessão.

O ano de 2010 fechou, com efeito, com inflação acima do centro da meta (5,91% contra 4,5%), ainda que abaixo do limite superior de tolerância, que era de 6,5% ao ano. Nunca é demais lembrar que em seu último ano, 2002, o presidente Fernando Henrique Cardoso entregou a Lula um País com 12,53% de inflação. É bom não se olvidar também que, durante a corrida presidencial do ano passado, a então candidata Dilma Rousseff trouxe à baila o assustador resultado do ocaso do ex-presidente tucano, vindo a sofrer desautorizações e censuras de colunistas da grande imprensa, assim como de um ou outro luminar dos partidos oposicionistas.

Esquecendo-se dos detalhes acima, explorou-se nos últimos meses o tanto que deu – e na medida do necessário – o assunto inflação, de modo a quase transformar o Brasil na Alemanha pré-nazista. Chegava a ser engraçado ouvir âncoras de rádios noticiosas reportando-se aos tempos da hiperinflação de Sarney, enquanto se esqueciam de mencionar o preocupante resultado do ano de despedida de FHC!

Mas o tópico inflação foi aos poucos esfriando do ponto de vista político. O primeiro motivo talvez tenha sido o de que não daria para martelar muito no tema, em vista das reiteradas informações de que o pequeno repique de preços iniciado em fins de 2010 devia-se, sobretudo, ao elevado valor das commodities, ou seja, não tinha muita ligação com fatores internos, tanto que diversos países vinham – e vêm – sofrendo com aumentos nas prateleiras.

E, muito melhores do que a “dura realidade” do parágrafo anterior, vieram histórias que mexem com o ânimo neoudenista não somente da oposição (política e midiática) mas também da classe média – mais sobejamente a tradicional – dos grandes centros urbanos. Trata-se do factoide Palocci e do escândalo do ministério dos Transportes. Com tais “combustíveis” em mão, capazes de acender o fogo do moralismo seletivo de importante contingente da população brasileira, torna-se bobagem brigar com fatos, querendo convencer o povo de que ele estaria vivendo o pior quadro inflacionário desde o início do Real, quando se sabe que isso é uma mentira deslavada.

Ora, dirão alguns, a coisa não parece estar rolando bem assim, haja vista os aumentos de juros, as declarações defensivas de ministros da área econômica e as falas cautelosas da própria presidenta Dilma. Pois bem: é aqui que entra o trabalho bem feito do pessoal da economia-finanças, ou, se preferir, o tal “mercado”.

É simples: os “mercadistas” querem juros. Viram no terrorismo inflacionário a oportunidade de não ter, sob novo governo e nova direção do Banco Central, o esperado estancamento da elevação contínua de juros. E para tal mister a mídia lhes serve com a mesma dedicação que normalmente presta para a oposição política.

O IPCA de maio e de junho tiveram quedas significativas. No entanto as pressões para se aumentar os juros soaram forte aqui e ali, tanto que a SELIC recebeu mais 0,25% nesta semana.

A imprensa, sempre prestativa, estampa em suas manchetes o acumulado da inflação de 12 meses, apontando-o como número acima do extremo da meta de 6,5%, deixando, contudo, de esclarecer que o BC não se compromete com resultados dos últimos 12 meses, mas sim com o consolidado do ano, ou seja, trabalha para não ultrapassar os 6,5% de inflação no ano de 2011.

A mídia esconde também que de junho a agosto de 2010 a inflação foi muito próxima de zero. Desse modo, no cálculo do acumulado de 12 meses está-se subtraindo zero e acrescentando qualquer resultado positivo, mesmo que baixo, que se venha atualmente apresentando, o que obviamente empurra para cima o somatório do período. Situação inversa pode ocorrer nos últimos meses deste ano: de outubro a dezembro do ano passado os índices estiveram sempre acima de 0,60%; possíveis resultados menores no mesmo período em 2011 inevitavelmente trarão o acumulado para baixo.

Em resumo, a inflação não traz riscos mais sérios, como já bem perceberam os políticos oposicionistas, muito mais empolgados com suspeitas ou escândalos de corrupção do que com as estripulias de um dragão que, embora desperto, continua bastante calmo no seu canto.

O pessoal do chamado mercado, porém, não pode deixar escapar o “diamante bruto” que a guerrinha política lhe jogou no colo. Não obstante as provas de que não há maiores riscos inflacionários a se considerar, o assunto não pode esmorecer, para que continuem a faturar com a farra dos juros.

Num e noutro viés, temos a mídia sempre dando suporte. Num e noutro caso, vemos o País sempre perdendo.


Leia também:
O inflacionado mercado das mentiras

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Billy Blanco (1924-2011)

Morreu no Rio de Janeiro, neste 08 de julho de 2011, o compositor Billy Blanco, considerado um dos precursores da bossa nova.

O paraense de Belém, que teve músicas gravadas pelas principais vozes da MPB, já foi motivo de postagem deste blog, em virtude da homenagem que prestou a São Paulo em 1974, no notável disco Paulistana, Retrato de uma Cidade.

Em homenagem ao lendário artista, reproduzimos o texto abaixo, com direito à execução de um dos momentos mais inspirados do clássico álbum.

SEGUNDA-FEIRA, 25 DE JANEIRO DE 2010

Billy Blanco - Paulistana, Retrato de uma Cidade (1974)
Abaixo, resenha originalmente publicada no RateYourMusic

Acredito que não passe um 25 de janeiro no qual não se ouça um coro afinado cantando: ‘São Paulo que amanhece trabalhando’. É o “Tema de São Paulo”, de Billy Blanco, letra e melodia que são o leitmotiv deste álbum conceitual. O outro tema desta ode é “Amanhecendo”, do qual muitos vão se lembrar por ser usado nas manhãs de uma famosa rádio noticiosa de São Paulo: entre uma mentira e outra, entre um comentário que flerta com o fascismo e uma entrevista com algum porta-voz da classe média chorona, entre uma reportagem tendenciosa e um dado contestável, pode-se ouvir o coro que entoa ‘começou um novo dia, já volta quem ia, o tempo é de chegar’; depois, em “O Tempo e a Hora”, ‘vombora, vombora, olha a hora, vombora’: é bom ouvir isso direto do disco do Billy Blanco e não das ondas irradiadas por aqueles que abusam da concessão de um serviço público ofertado por toda a sociedade; muito bom ouvi-lo de uma obra produzida pela lenda Aloysio de Oliveira e não daqueles que se escondem por trás da covardia que denominam liberdade de imprensa. Aliás, amigos leitores, há uma frase de “O Tempo e a Hora” que diz, na bela voz da cantora Cláudia, que ‘o que vale é a versão, pouco interessa o fato’! Há algum freudiano aí?

E o disco fala, é claro, das coisas e das personagens de São Paulo: a carioca Elza Soares canta os imigrantes em “Capital do Tempo” e a tradição esportiva da cidade em “Pro Esporte”; Pery Ribeiro faz a “Louvação de Anchieta”, canta as “Coisas da Noite”, avança as fronteiras da cidade rumo à “Grande São Paulo” e via a “São Paulo Jovem” de então andar em duas rodas, com um rapaz guiando e uma moça na garupa, numa cena própria de um tempo em que a palavra motoboy seria um neologismo que causaria risos; a já citada Cláudia presta justiça a “Bartira”, aquela que Billy chama de índia-madre nas notas do disco; Miltinho, em “Viva o Camelô”, fala de uma figura folclórica, anterior à profissionalização do “bico” e de suas imbricações com o crime organizado; Claudette Soares nos mostra que o “Céu de São Paulo” já não era tão azul, mas que isso não importava para quem só tinha olhos para o asfalto; Nadinho da Ilha fala de uma das personagens mais conhecidas, amadas, cultuadas, desejadas e procuradas de São Paulo, a saber, “O Dinheiro”; e o coro manda ver numa irresistível levada rock para a “Rua Augusta” de Billy Blanco, que diferentemente da de Hervê Cordovil, não era espaço para a velocidade, mas para o caminhar leve, despreocupado, de moças olhando vitrines, enquanto eram admiradas nas suas roupas da moda.

Não deve ter sido à toa que o paraense Billy Blanco, para este disco produzido pelo carioca Aloysio de Oliveira, tenha convidado tantos artistas não nascidos em São Paulo: deve ter querido chamar a atenção para a idéia de cidade que tudo – e a todos - abraça. E o maestro Chiquinho de Moraes, na orquestração do álbum, valeu-se de características brasileiras numa linguagem universal, como sói acontecer com as coisas de São Paulo.

Agora, se me permitem, uma "provocaçãozinha": se eu me interessasse por política, diria apenas que o disco foi – a meu ver - por demais condescendente com nós paulistas, ao deixar de lado nosso conservadorismo e provincianismo, qualidades que, no mais, devem ser democraticamente respeitadas. Mas Billy Blanco talvez tenha até feito bem, pois para mim é muito triste lembrar que, por exemplo, Juscelino Kubitschek e Luiz Inácio Lula da Silva, dois dos presidentes mais populares da história do Brasil, dividem a nada honrosa pecha de serem os únicos que foram eleitos diretamente sem vencer em São Paulo. E olha que eu nem sou muito admirador de Juscelino... Mas São Paulo daquela feita preferiu Adhemar de Barros. Mais conservadora e provinciana impossível!

São Paulo, em 1974, ainda era a cidade das oportunidades, a cidade que mais crescia no mundo, ainda ostentava as características de city boom que mereceu chamada de capa da revista Time em 1952 (quando ainda era a segunda cidade do Brasil); em 1974, passados 20 anos, parecia que ainda não havia acordado da mística dos quatrocentos anos.

E hoje, como seria a música de uma "Paulistana 2007"? Alguém aí se habilita?

São Paulo, 29 de abril de 2007.

PS: e hoje, 25 de janeiro de 2010, como seria uma "Paulistana 2010"? Debaixo d'água certamente, mas com a imprensa provinciana dizendo que era a Veneza do século XXI!

Ouça abaixo "O Tempo e a Hora", nas vozes de Cláudia e Pery Ribeiro. Nas imagens, fotos de São Paulo, tiradas entre 2005 e 2009 pelo autor destas maldigitadas e pela esposa, Roseli Brito.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Hitchcockianas


O Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo apresenta até o dia 24 de julho de 2011 "retrospectiva completa da obra do cineasta Alfred Hitchcock (1899-1980), que traz 54 longas, 2 curtas e 2 filmes complementares, além de todos os trabalhos que ele fez para a televisão", conforme divulgado pelos próprios organizadores.

Aproveitando a mostra, vamos fazer algumas idiossincráticas listas do repertório do genial diretor, com escolhas limitadas pelo nosso apenas razoável conhecimento da obra do inglês.

Top ten
Uma pequena lista, em constante mutação – exceto pelos três primeiros -, dos nossos “hitchcocks” prediletos:
-Intriga Internacional (1959)
-Os Pássaros (1963)
-Psicose (1960)
-Janela Indiscreta (1954)
-Festim Diabólico (1948)
-Disque “M” para Matar (1954)
-Frenesi (1971)
-A Dama Oculta (1938)
-Pacto Sinistro (1951)
-A Sombra de uma Dúvida (1943)

Loiras
Dificilmente lê-se algo sobre Hitchcock em que não haja menção à sua preferência pelas loiras. Este texto não pretende inovar neste sentido. Então aí vão nossas escolhas, com atrizes que participaram de, no mínimo, dois filmes do cineasta:
-Loira bonita e elegante: Grace Kelly em “Disque ‘M’ para Matar”, “Janela Indiscreta” e “Ladrão de Casaca” (1955).
-Loira bonita e sensual: Tippi Hedren em “Os Pássaros” e “Marnie, Confissões de uma Ladra” (1964).
-Loira bonita mas sem sal: Ingrid Bergman em "Quando Fala o Coração" (1945), “Interlúdio” (1946) e “Sob o Signo de Capricórnio” (1949).

Vilões
Alguns destaques:
-Leonard, interpretado por Martin Landau, é o coadjuvante que rouba a cena do protagonista malvado interpretado por James Mason, em “Intriga Internacional”.
-Tio Charlie, personagem de Joseph Cotten, em “A Sombra de uma Dúvida”.
-Tony Wendice, por Ray Millan, em “Disque ‘M’ para Matar”.

Cenas inesquecíveis
Nada de “morte no chuveiro”, em “Psicose”. Legais para valer mesmo são as seguintes:
-Cary Grant tumultuando um leilão em “Intriga Internacional”.
-Também em “Intriga Internacional”, Grant é perseguido por um avião, até ver a aeronave espatifar-se contra um caminhão de combustível.
-As crianças saem correndo da escola, fugindo do ataque de aves em “Os Pássaros”.
-Paul Newman, com auxílio de uma camponesa, luta contra um agente do governo alemão oriental, até asfixiá-lo num forno a gás, em “Cortina Rasgada” (1965).

Melhores trilhas
Do compositor Bernard Herrmann, as três melhores são:
-Psicose
-Intriga Internacional
-Um Corpo que Cai (1958)

Melhores aparições
Diz a lenda que muitos iam assistir aos filmes esperando para ver o próprio Alfred Hitchcock aparecer na tela, nas famosas pontas que fazia em seus trabalhos. Algumas interessantes:
-Em “Um Barco e Nove Destinos” (1944), a foto de Hitchcock aparece numa página de jornal, em anúncio publicitário do tipo "antes e depois" de produto para tratamento contra obesidade.
-Já não original, mas ainda assim de forma inteligente, em “Disque ‘M” para Matar”, o diretor está em fotografia de reunião de turma de faculdade.
-No clima “animal” do clássico “Os Pássaros”, um bonachão Hitchcock passeia com cachorros.

“Do it yourself”
Cada um deve ter suas próprias listas “hitchcockianas”. Se quiser deixar-nos saber quais são...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Justiça é justiça; política é política

O caso Palocci é daqueles que reforçam lições fundamentais. Uma delas: o tempo da justiça é diferente do tempo da política.

Não houve propriamente acusações contra Antônio Palocci. Sequer houve suspeitas, no sentido mais legal do termo. No máximo tivemos algumas ilações: se ganhou muito dinheiro, estando enredado nas teias do poder, é porque deve ter aprontado alguma, traficado influência, vendido informações sigilosas e outras tramoias.

Já o Procurador-Geral da República não viu motivos para abrir procedimento formal contra o então ministro chefe da Casa Civil do governo Dilma, pois as denúncias apresentadas por partidos de oposição não se mostraram consistentes, o que significa dizer que não provaram nada.

A imprensa que muito falou, pouco fez além de ficar cobrando o ex-ministro que apresentasse a carteira de clientes. faltou a atuação de colunistas mais virulentos, exortando os contratantes de Palocci a se revelarem e explicarem por que remuneraram tão bem o ribeirão-pretano. Certamente pensaram duas vezes antes de melindrar mega-anunciantes.

O mais provável de ter ocorrido no caso é a situação bem descrita na primeira nota divulgada pela assessoria do ex-ministro: figurões que ocupam importantes cargos na área econômica do governo federal passam a valer muito no mercado. Deveria ser o ponto final, não tivesse Palocci se acovardado e recuado da sensata explicação.

Sensata mas não moral, correriam a lembrar alguns. Não à toa foi feita a comparação com o economista argentino Raúl Prebisch. Primeiramente Paulo Henrique Amorim e em seguida Elio Gaspari lembraram que o cepalino, após ocupar a presidência do banco central da Argentina, mesmo vivendo sob dificuldades recusou a laborar para a banca privada, pois, em razão de seu trabalho na área pública, era detentor de informações sigilosas, não sendo justo que as usasse em favor de um, em detrimento de todos os outros.

O grande drama é que, respeitado certo prazo, a ninguém no Brasil - incluindo Palocci - é proibido ocupar importantes cargos econômicos no governo e depois sair vendendo a força de trabalho no mercado, a preço de ouro. Ressalte-se que a vedação não existe nem mesmo para deputados federais, que era o caso de Antônio Palocci.

Já do ponto de vista estritamente político, é difícil entender por que a presidenta Dilma Rousseff hesitou tanto em tomar alguma decisão no caso Palocci.

É notório o fato de que ela, alçada a ministra-chefe da Casa Civil em 2005, não mantinha as melhores relações com o então ministro da Fazenda. E na corrida presidencial de 2010, Palocci só foi parar na campanha da petista após imbróglio que provocou a queda de Fernando Pimentel, amigo dela de longa data.

Palocci participou da campanha de Dilma e integrou o governo dela porque teria bom relacionamento com o chamado mercado e com grande parte da imprensa. Era homem que inspirava confiança e trazia tranquilidade aos agentes econômicos - e mesmo a alguns políticos da oposição.

O mesmo trânsito Palocci parecia não encontrar, porém, entre seus correligionários do PT ou junto aos simpatizantes do partido - e decerto não o tinha, em sua plenitude, com a própria Dilma Rousseff.

A presidenta não precisava tê-lo entregue às feras, é bom que se diga; e nem deveria, haja vista que, como dissemos, não há acusações concretas contra o ex-ministro. Mas ela poderia, sim, tê-lo afastado preventivamente, sem alardes que implicassem reconhecer culpas, como forma até de poupar e preservar seu "superministro" - neste status mais por força das circunstâncias, reitere-se, do que por vontade dela.

Não seria o caso de se deixar pautar pela imprensa, tampouco de capitular ante o neoudenismo, como poderiam acusar alguns. Dilma estaria apenas jogando para escanteio um caso que desde o início já aparentava não ter fôlego, matando o factoide no seu nascedouro.

Após o parecer do Procurador-Geral, Dilma teria a opção de reintegrar o ministro, se assim o quisesse, ou - melhor ainda - aproveitar o ensejo para afastá-lo definitivamente da Casa Civil, botando de pronto no tão importante ministério alguém que fosse realmente de sua vontade, não um mero "fiador" junto à imprensa e ao mercado. A presidenta teria evitado riscos de desgaste a sua imagem e a de seu governo e, ainda por cima, teria conseguido tirar de sua sala contígua, sem riscos de crise, o "infiltrado" da imprensa e dos rentistas.

O sangramento foi totalmente desnecessário. E, neste caso, faltou a Dilma capturar o timing político do imprevisto. Foi justa, mas inábil.

sábado, 4 de junho de 2011

Archie Shepp no Sesc Pompeia - São Paulo

O espetáculo do último dia 29.05 foi inegavelmente um excelente show de jazz. Mas, paradoxalmente, não é certo que foi uma grande apresentação de Archie Shepp.

Explicando: figura importante da vanguarda dos anos 1960, o - principalmente - saxofonista Archie Shepp tocou numa linha supernormal no evento que fez parte do "Jazz na Fábrica", projeto que marcou o mês na unidade Pompeia da famosa entidade classista.

Shepp mandou ver em standards do quilate de "Don't Get Around Much Anymore", por exemplo, e além de seu sax marcante, soltou o vozeirão em diversos momentos do show: revelou-se grande cantor de blues, na linha dos velhos shouters das décadas de 1940 e 1950. Tal faceta - confessemos - foi uma grande surpresa para este escriba.

Abaixo, ouviremos a canção de abertura do espetáculo, uma espécie de meio-termo entre a vanguarda dos 1960 e a linha mais mainstream que foi a tônica do show. A música, composição do próprio Shepp, se chama "U-Jamaa", tendo ao fundo detalhe da capa do disco Mama Too Tight, de 1966. Favor não reparar na péssima qualidade do áudio!