domingo, 16 de agosto de 2009

MST (Movimento dos Sem Trânsito)

Nesta semana, o MST realizou protestos em várias partes do país.

A marcha cometida em São Paulo provocou a ira do pessoal da Band.

Por dois dias seguidos, o canal BandNews destacou a confusão que as manifestações do MST teriam causado no trânsito de São Paulo.

Nas reportagens, foi dado destaque ao fato de que a marcha atrapalhava o acesso a hospitais. Alguns motoristas entrevistados pela emissora corroboravam a preocupação com a necessidade de se ter caminho livre para as casas de saúde da cidade.

É uma verdadeira pilhéria!

Todos sabem muito bem que o trânsito da capital paulista já é caótico todos os dias, com ou sem manifestações. É sabido também que as áreas que concentram hospitais não raro possuem tráfego intenso de veículos, o que é elemento dificultador para a chegada das ambulâncias ou de parentes que vão fazer visitas. A mídia superestima muito a burrice do telespectador quando sugere que ele é incapaz de observar trivialidades, como, por exemplo, essa de que o trânsito paulistano é horroroso em quaisquer circunstâncias. Ou será que eles acreditam que o idiota que está do outro lado vai achar que só há congestionamentos em São Paulo quando há manifestações de trabalhadores?

Com efeito, é cena comum na Avenida Paulista, por exemplo, ouvir o “grito” intermitente de sirenes de ambulância tentando, sem grande sucesso, furar o bloqueio de centenas de veículos particulares parados no trânsito, veículos estes que, em mais de 90% dos casos, carregam apenas o seu condutor.

A “satanização” dos movimentos sociais já é uma velha conhecida de todos que acompanham a mídia brasileira. E nada melhor do que usar algum apelo “sentimentalóide” para tentar desqualificar as manifestações de grupos organizados. É claro que demonstrar preocupação com vias livres para se ter acesso a hospitais passa a imagem de que não se está querendo criminalizar o movimento, mas sim que se está, em última análise, defendendo uma espécie de preocupação humanitária com quem precisa usar os serviços de saúde. Me engana...

Mas qual seria, amigo leitor, o impacto de reportagens do tipo, se mostrassem algum caso de pessoas que ficaram sem atendimento médico por não ter conseguido chegar a hospitais não por culpa do MST, mas sim em virtude de não ter podido, num dia qualquer, abrir, como por milagre, o caminho tomado por veículos particulares de um único ocupante?

Interessante observar que os motoristas entrevistados repetiam a mesma preocupação, falando mais ou menos assim: “o problema não é me atrapalhar, mas é atrapalhar aqueles que precisam ir para os hospitais”. É muita cara-de-pau! É de se presumir que os que realmente estejam preocupados com isso talvez usem menos o automóvel, para não atrapalhar o trânsito, e, especialmente, evitem trajetos que devam ser usados preferencialmente como acesso a hospitais. Aparentemente, não era o caso daqueles que foram entrevistados!

Despertou curiosidade também o distanciamento com que falavam dos manifestantes. Os integrantes do MST eram os “eles” (“eles” isso, “eles” aquilo, "se 'eles' querem tal coisa..."). Trata-se, com efeito, de uma falta de interesse e identidade com a causa, que reforça a dualidade brasileira tão bem trabalhada por teóricos das ciências sociais sobretudo a partir dos anos 1950. De fato, não seria absurdo, para descrever a mencionada falta de solidariedade, abusar de clichês como o dos “dois brasis”, “arcaico x moderno”, “agrário x industrial”, “atrasado x dinâmico”, e por aí vai. O pensamento da turminha da Band e dos motoristas paulistanos é o do que “eu não tenho nada a ver com a causa desses caras, por que tenho que pagar o pato?”.

De fato, o Brasil dos sem-terra não parece ser o mesmo da São Paulo tomada de carros. São outras as preocupações e anseios de São Paulo, cidade onde tudo é de pedra, inclusive os corações. Apesar de que os corações até que dão uma amolecida às vezes, principalmente quando algum malvado atrapalha a chegada aos hospitais!

domingo, 9 de agosto de 2009

Moralistas, pero no éticos

José Sarney vem conseguindo se dar bem no Conselho de Ética do Senado Federal, a despeito do bombardeio midiático que sofre diuturamente há alguns bons meses.

Se este blogueiro não comete erros teóricos muito sérios, a ética diz respeito a valores tido como mais ou menos amplos, mas afeitos a uma comunidade, sendo, desse modo, mais voltados a preocupações gerais de conduta dentro de um grupo ou de uma instituição. Neste sentido se diferencia um pouco da moral, a qual tem a pretensão de ser universal, tendo que ser observado por cada em indivíduo e em qualquer lugar e circunstância. Isso, é claro, bem grosso modo, e certamente não de maneira muito consensual. Discussão que, por óbvio, não pode ser encampada aqui.

De todo modo, no imbróglio que ora se verifica na Câmara Alta brasileira, não se tem visto entre a maioria de seus analistas muita preocupação com a ética, pelo menos não no sentido que expusemos acima. A questão tampouco se apresenta dissecada sob o ponto de vista genuinamente moral. Tem-se, isto sim, uma onda meramente "moralista", o que é algo diverso.

A questão é bem simples. No fundo, todos sabem que os desmandos não apenas no Senado Federal, mas em muitos órgãos da República, provêm desde há muito. Sabe-se também que José Sarney tem uma longa folha corrida de “desserviços” prestados ao país e ao seu estado natal. Porém, vê-se uma repentina (e bota repentina nisso!) perseguição ao presidente daquela Casa, enquanto se faz pouquíssimo caso dos males provocados por outros senadores, em especial os da oposição, além de não haver uma autocrítica daqueles que foram no mínimo indiferentes ao senador pelo Amapá nestes anos todos de sua longa vida política.

Justiça seja feita, um pouco de preocupação verdadeiramente ética nesse caso foi percebido no comportamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e no escritor Carlos Heitor Cony. Todos eles reconhecem que há sérios problemas no Senado Federal, mas obtemperam a necessidade de não se “demonizar” ninguém de forma particular, tendo em vista que os vícios por lá são antigos, resvalam em várias legislaturas e sujam um montão de gente de todos os partidos. Há que se resolver os problemas gerais da Casa, dizem eles. E o primeiro passo é justamente reconhecer que os problemas são antigos e generalizados. Simples, portanto.

O mais curioso dessa história é que alguns colunistas afoitos andam soltando rojões por aí afirmando que pesquisas, não esclarecendo quais, apontam queda na popularidade de Lula e estagnação da eventual candidatura Dilma, isso porque estariam apoiando Sarney. Bem, conforme exposto, é desonesto afirmar que qualquer dos dois apoia Sarney. Em verdade, ambos estão realmente preocupados com os problemas estruturais históricos do Senado, o que por ma-fé midiática é apresentado como defesa de José Sarney. Seria, portanto, injusto – ainda que sintomático – que, em meio à onda moralista, os verdadeiramente éticos sejam punidos pela opinião pública! Ademais, corre à boca pequena a suspeita de fraudes em novas pesquisas do IBOPE e do Datafolha. A conferir. Aliás, por falar em ética, bem que os colunistas poderiam falar mais abertamente, dando nome e sobrenome se possível, dessas terríveis pesquisas de cujos dados eles parecem já estar sabendo.

Dois pontos para se refletir sobre o tema
A professora Yolanda Gloria Gamboa Muñoz, da PUC de São Paulo, certa feita fez interessante comentário sobre a preocupação com a ética no início deste século XXI. Ela ministrava aulas de ética nos mais diversos cursos universitários. Havia a disciplina “ética” na grade de Secretariado, Jornalismo, Medicina etc. Conjeturou ela que, se algum historiador no futuro se debruçasse sobre nossa época, poderia pensar que éramos uma geração extremamente ética. Diriam eles: “que pessoal mais ético; só falavam e pensavam em ética”. Seria um erro, disse ela. Em verdade, somente se fala e se debate muito sobre ética justamente porque falta ética. O corolário da exposição dela é a de que as comunidades tendem a se preocupar muito justamente com aquilo que não possuem. Com a palavra, os colunistas demagogos de nossos jornais!

Outro ponto: para escrever o presente post, quis dar uma conferida no que dizia Norberto Bobbio sobre “ética” e “moral” no seu famoso Dicionário de política, com o intuito de não escorregar nos conceitos. Pois bem, amigos. Pelo menos na 11ª edição, lançada pela Editora UnB, em 1998, os verbetes "ética" e "moral" simplesmente não existem! Pode ser problema da edição brasileira, embora não haja qualquer informação de que ela esteja incompleta. Pelo jeito, o grande intelectual italiano não considerou tais assuntos tão importantes assim, pelo menos não a ponto de os incluir como verbetes no seu maravilhoso dicionário. Bem, como diriam os maiores filósofos da história, “mas, enfim...”!

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sábado, 8 de agosto de 2009

Marina, faça tudo, mas faça o favor!

Na corrida presidencial de 2006, causava infinitos risos ver as reacionariíssimas elite e classe média, sobretudo as paulistanas, derretendo-se em elogios à "revolucionariíssima" Heloísa Helena. Ficavam engraçadíssimas algumas frases saídas de algumas das bocas mais direitistas de São Paulo: "eu gosto do jeitão dela; ela é bem firme, bastante séria", "mulher de fibra, coerente, inteligente", "falta-lhe um pouco de experiência, mas tirando isso...", bla bla bla bla bla...

Apesar de todo o respeito angariado junto ao exigente eleitor médio paulistano, a moça do PSOL teve que engolir o fato de ele, na hora "h", digitar o número que computava votos ao ex-governador Geraldo Alckmin. Normalíssimo! Era, com efeito, pouco compreensível que gente tão conservadora tivesse tanta simpatia por uma "amalucada radical de esquerda" - muito embora em alguns temas, como, por exemplo, o aborto, a nossa Heloísa Helena esteja mais à direita do que a Liga das Senhoras Católicas!

Na verdade, os "quatrocentões", ex-malufistas, demo-tucanos e frequentadores da Daslu apenas faziam um ou outro afago na alagoana porque sabiam que ela tirava votos do candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Sabiam que a "comunistinha doidinha comedora de criancinhas" não tinha chance nenhuma, por isso lhe davam corda. Se por acaso a velha e boa fortuna conspirasse de modo a provocar uma incrível "zebra", colocando a ex-senadora com chances reais de vitória, não há dúvida de que as frases acima expostas viriam noutro tom, acrescentando, ainda, boa dose de desprezo, em especial às origens nordestinas e esquerdistas da mais famosa dissidente do Partido dos Trabalhadores.

Mas pode ser que a direita paulistana volte, dentro em breve, a ter bons motivos para se divertir à custa de incautos, ou melhor, incautas. Eis que neste ano da graça de 2009 corre o boato de que a ex-ministra Marina Silva talvez se filie ao Partido Verde e dispute a presidência da República em 2010. Por conta disso, o que só se veem na imprensa e em certos comentários de blogues são elogios - vindos de gente suspeitíssima - ao trabalho e ao caráter da senadora do PT. Pois bem. A história, amigo leitor, pode se repetir, e desta vez não vai dar para citar o velho Marx dizendo que se repete como farsa, pois na versão anterior, conforme prenunciado, já era uma tremenda farsa!

Ao postular a cadeira de Lula, a senadora Marina Silva está, em verdade, dando sobrevida à candidatura de Serra, que, segundo alguns bem informados escribas da mídia, chegou a dar uma balançada. Motivo pelo qual o ego dela precisa ser devidamente inflado. A idéia, bastante razoável, é a de que Marina subtraia muitos votos da ministra Dilma Rousseff, fundamental numa eleição que deve ter pouquíssimos candidatos.

Bom lembrar que o Ministério do Meio Ambiente, sob o comando de Marina, foi por diversas vezes acusado de atravancar o desenvolvimento do país, sendo não raro responsabilizado pelo "crescimento maior apenas do que o do Haiti nas Américas". Tal reprovação aparecia em colunas, editoriais e nas sempre abalizadas opiniões de empresários. Mas tudo isso parece fazer parte do passado. Agora, para muitos deles, Marina é a pobre injustiçada de Lula, uma mulher que pretendia trabalhar mas foi impedida, figura realmente preocupada com questão da mais capital importância para nós, bla bla bla bla!!!

É de morrer de rir, novamente! Resta saber se Marina Silva será tão ingênua quanto foi Heloísa Helena para fazer o jogo da hipócrita direita brasileira, sobretudo a inscrustada na mídia, em especial a de São Paulo.

Mas aqui vai, de nossa parte, um elogio simples e respeitoso, sem mais delongas: Marina Silva é uma mulher fantástica! E este é um elogio de quem imodestamente se julga no direito de fazê-lo, pois sempre foi sincero seguidor da causa ecológica e admirador do trabalho da senadora.

Mas vai também um recado, Marina, para caso você caia na bobeira de ser joguete na mão do PSDB, do DEM e da mídia:

quando eu me zango, Marina,
não sei perdoar...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Censurado!

E eis que o jornal O Estado de São Paulo se apresenta como vítima de censura.

O diário, no entanto, apenas está proibido, por força de decisão judicial, de divulgar informações de inquérito protegido por segredo de justiça, especialmente os áudios da chamada "operação boi barrica", envolvendo gente do chamado "clã Sarney", para usar expressão do próprio Estado. Nada os impede, todavia, de citar, criticar os - ou esculhambar com - os implicados no caso.

Muitas discussões e questionamentos podem advir do episódio: afinal, é censura ou não é? A liberdade de imprensa está acima de tudo? Se é sigiloso, tem que ser respeitado e pronto? Se era segredo, e alguém permitiu que chegasse às mãos de repórteres do jornal, que mal há em publicar?

São várias as perguntas, e todas legítimas.

Entrar no mérito de que se houve ou não censura pode proporcionar uma discussão infindável. De todo modo, há aquela máxima, tão ao gosto dos que adoram bradar pela santidade do estado de direito, que afirma: "decisão judicial não se discute, cumpre-se!"

Mas penso que uma outra indagação precisa ser feita: e agora, o que o Estadão pensa acerca da "grampolândia", do "estado policialesco", da "invasão da privacidade"?! O centenário jornal esteve entre os órgãos que mais esbravejavam com o excesso de grampos do "aparelho repressor do Estado petista". Porém, ao publicar com tanto estardalhaço gravações constrangedoras dos familiares de Sarney, há de se deduzir que mudou de opinião!

Voltando à suposta censura: tal tema vem preocupando muita gente bem-intencionada.

Como já dito, é difícil avaliar se há ou não há censura neste caso; e talvez não caiba a leigos entrar com os dois pés no mérito da questão.

O que vale mesmo é pensar noutras modalidades, bastante curiosas, de censura, pois elas parecem nascer de dentro dos próprios órgãos de imprensa. O caso Miriam Dutra, por exemplo. Estranhamente não foi necessária nenhuma decisão judicial proibindo a divulgação do caso. Os próprios jornais trataram de soterrá-lo, fazendo dele tema defesíssimo nas redações. Não foi preciso que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso perdesse seu precioso tempo recorrendo à Justiça para ter sua intimidade preservada, pois, aparentemente, os próprios donos de jornais trataram de "censurar" suas redações, seus repórteres e colunistas acerca do assunto. E não adianta falar que é porque se trata de um assunto privado, que só interessa às partes envolvidas. Ora, todos nós sabemos muito bem que a imprensa não está nem aí para isso. Além do que, FHC é figura muito importante, e Miriam Dutra era repórter da principal rede de televisão do país. Só para efeito de comparação, Renan Calheiros não contou com o mesmo beneplácito da mídia!

Poder-se-ia ir além nessa história de "autocensura". Que tal pensar na sociedade das "Verônicas", a Serra e a Dantas? Como foi tal sociedade? Ela acabou? E por quê? Vamos lá, Estadão, pode, se quiser, falar disso à vontade. A Justiça, por enquanto, não proibiu, quer dizer, "censurou"!

sábado, 1 de agosto de 2009

Duke Ellington & John Coltrane (1962)

No começo dos anos 1990, Jô Soares não era uma figura de todo insuportável. Apresentava um simpático programa de entrevistas no SBT, com a vantagem de ser ele um pouco menos afetado e, principalmente, por não abrir espaço para “meninas” tagarelas falarem bobagem.

Ele apresentava também um programa de jazz no rádio. Só apresentava mesmo. A produção e o texto ficavam a cargo de outra pessoa, mas o nosso Jô, vaidoso e cara-de-pau que só ele, não nos avisava, de modo que muitos pensavam que todo o conhecimento e o bom gosto jazzístico provinham dele mesmo!

Foi no programa radiofônico apresentado por ele que ouvi pela primeira vez, na íntegra, este importantíssimo Duke Ellington & John Coltrane. Ele havia sido lançado no Brasil à época, tanto no formato LP quanto em CD, mas sumiu das prateleiras rapidinho. O autor destas maldigitadas, portanto, vivia desde então uma longa e dolorosa espera, haja vista que não o encontrava nos sebos, tampouco conseguia pagar os preços proibitivos dos importados - isso quando aparecia...

Mas, final e felizmente, a lacuna foi preenchida! Consegui achar o CD, numa bela edição, por preço não tão extorsivo. Não quis arriscar de não levar. Vai que a gangue da FIESP, auxiliada pela mídia sem assunto, consegue pressionar o frouxo governo brasileiro, a ponto de obrigá-lo a intervir no câmbio, encarecendo, da noite para o dia, esses nossos pequenos objetos do desejo!

Exatamente no dia 17 de setembro de 1962, Duke Ellington havia participado das sessões que originariam o absolutamente clássico Money Jungle, para o selo Blue Note, ao lado da perfeita cozinha de Charlie Mingus e Max Roach. Decerto o leitor já está acostumado com nossa falta de imaginação, expressa pelo abuso de clichês; sentimos muito, mas vai mais um: aquele foi o típico encontro de mestre e discípulos. Ellington já estava, a bem dizer, na sua quarta década jazzística, mas aceitava humildemente a companhia de músicos que, embora experientes, estavam em pleno auge criativo, fazendo história no gênero. O encontro do velho e do novo (mais chavão!) proporcionou um disco denso, tradicional e vanguadista a um só tempo, ademais com um toque levemente erudito.

A menção à experiência de Money Jungle se justifica porque ela antecipa, em apenas nove dias, novo encontro genial de duas gerações. Desta feita para o selo Impulse!, o maestro se encontra com a grande sensação da época, o já cultuado John Coltrane. Mas não se trata somente de Coltrane; em verdade, Ellington, em pelo menos três faixas, se junta ao grupo do saxofonista, à época formado pelo baixista Jimmy Garrison e o baterista Elvin Jones. Na prática, é como se Coltrane fosse gravar um disco próprio, substituindo o pianista McCoy Tyner por ninguém menos que Duke Ellington. Apesar da genialidade do quarteto que deu ao mundo discos como A Love Supreme, penso que ninguém reclamaria de uma troca dessas!

Além do baixista e do baterista de Coltrane, revezam-se nas faixas o baixista Aaron Bell e o baterista Sam Woodyard, na competente produção de Bob Thiele. A propósito, muitos dos responsáveis pelas sessões de jazz, especialmente nos anos 1950 e 1960, mereceriam, em alguns casos, dividir os créditos com os artistas cujos discos produzem, tamanha a influência que têm no desenho dos álbuns.

Dentre as inúmeras qualidades do disco, há uma que não pode deixar de ser mencionada – e que se dane se ela for outro clichê! Trata-se da aparente tentativa empreendida por John Coltrane de ficar à sombra de Duke Ellington. Desnecessário dizer que o saxofonista não consegue! Isso fica muito latente na beleza atemporal do standard “In a Sentimental Mood”, quando o sopro de Coltrane tenta ser contido, mas parece se sentir convidado a “perder as estribeiras”, graças ao toque moderno, arrojado de Duke Ellington, semelhante, no mais, ao modo de tocar presente no citado Money Jungle. Mas não precisava mesmo de tanta reverência, afinal Ellington sabia com quem estava lidando. O maestro honrou o companheiro de disco com a exuberante “Take the Coltrane”, homenagem que é um belo trocadilho com a famosa “Take the A-Train”, tema clássico do repertório de Ellington, escrito por Billy Strayhorn, compositor que, aliás, aparece no disco com “My Little Brown Book”.

Por conta da coesão e da mistura perfeita de simplicidade e arrojo, talvez seja o caso de dizer que este é mais um dos – muitos – discos que podem servir para aqueles que querem se iniciar no maravilhoso – e não tão difícil como dizem – mundo do jazz. Desejo que sua espera seja menor e menos amarga do que a minha.


Ouça "Take the Coltrane", composta por Ellington. Além dos dois gênios da música do século XX, temos, na faixa, o baixista Jimmy Garrison e o baterista Elvin Jones. A gravação é de 26 de setembro de 1962. As fotos são de Bob Guiraldini.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Jean-Luc Godard - Alphaville (1965)

Alphaville é um filme visionário e arcaico ao mesmo tempo: Godard aponta o futuro, com uma sociedade totalitária, dominada por uma máquina, enquanto explora os recursos de "preto-e-branco", dando um toque absurdamente sombrio às suas imagens, passando um ar retrô aparentemente inspirado nos velhos filmes noir dos anos 1940.

Como boa referência na seara literária, impossível não pensar no 1984, de George Orwell. Pode-se, por isso, classificar Alphaville como uma distopia, e a exemplo do livro do romancista inglês, de conteúdo essencialmente político.

No clássico filme, a já sugerida fotografia em 'preto-e-branco', o 'livre' e 'ocupado' dos gabinetes de interrogatório, o 'Figaro Pravda' de 'Ivan Johnson' são metáforas para falar de um mundo marcado por pólos antagônicos, claramente representados nos seculares conceitos de "direita" e "esquerda", e isso em pleno auge da Guerra Fria!

Como se não bastasse, Godard, inteligentemente, escolheu o computador para ser o grande dominador. Afinal, nada mais dual do que o código binário para representar uma sociedade maniqueísta e dividida.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Torcida

Em recente entrevista ao Roda Viva, o economista Luiz Gonzaga Belluzo afirmou que as previsões econômicas nada mais são do que pura torcida dos que as proferem. Não é à toa que se vêem sempre os mesmos catastrofistas fazendo vaticínios na mídia, que, por sua vez, se esquece de cobrá-los dos erros não raro grosseiros que cometem.

A bola da vez no assunto predição econômica é a iminência de crise fiscal que explodirá circa 2011, a qual deixará para o sucessor de Lula – garantem dez entre dez economistas, valendo-se de expressão usada pelo petista em relação a FHC – uma verdadeira “herança maldita”.

Tal prognóstico baseia-se na queda de arrecadação, verificada nos primeiros seis meses do ano de 2009, associada a suposto aumento de gastos públicos, especialmente com folha de pagamento do funcionalismo, além de mudanças no cálculo do superávit primário que estariam abdicando de esforço fiscal às duras penas mantido durante o governo Lula.

A previsão de descontrole das contas públicas talvez não passe mesmo de torcida, como sugere Belluzo, pois desse modo já se prepararia o terreno para acusar Lula da débâcle de futuro governo, sobretudo se este for do protegido da mídia, o governador José Serra; de outro lado, se for a ministra Dilma a escolhida, o fracasso teria pelo menos o condão de fechar as portas para o retorno do atual presidente, em 2014.

Já a velha e boa realidade, sempre a pregar peças nas apostas precipitadas, diz que, em verdade, a queda na arrecadação, na casa de 7% no acumulado do primeiro semestre, não chega a ser uma tragédia, inclusive porque até o terceiro trimestre de 2008, ou seja, no chamado período pré-crise, a economia crescia de forma bastante robusta, deixando a comparação desigual. Há de se obtemperar que a “marolinha”, como não poderia deixar de ser, acabou trazendo pequena retração da atividade econômica, fator que obviamente reflete na diminuição das receitas públicas. Ademais, o Governo Federal, como parte de sua política anticíclica, fez mudanças no Imposto de Renda da Pessoa Física e na cobrança do IPI, de modo a abdicar de receita em favor do consumo e da geração de renda. Noutras palavras, a queda na arrecadação faz parte do script.

A tal crise fiscal, conforme prognosticada pelo coro dos descontentes e consoante já dissemos, explodiria o mais tardar em 2011. Para que isso venha de fato a ocorrer, os gastos públicos teriam que aumentar radicalmente e de forma sustentada, pois até os “torcedores” mais pessimistas prevêem crescimento do PIB na casa de 4% em 2010. Se no ano de 2009, que já viu no seu primeiro trimestre a economia recuar perto de 1%, tem-se manchetes indignadas com recordes de “carga tributária”, o que não se pode realmente esperar do ano tendente a apresentar crescimento de 4%? Falando sério, será que dá mesmo para comprar a tese do desequilíbrio fiscal em futuro tão próximo?

E aqui não faremos previsões, até porque não somos economistas e nada entendemos da ciência de Srafa e Myrdal, mas vamos, isto sim, admitir nossa “torcida” de que não teremos crise fiscal tão cedo; vamos, ao contrário, “apostar” em incremento de arrecadação em 2010. “Recordes históricos” virão por aí!

sábado, 18 de julho de 2009

Virgens no bordel (copyright Jabor!)

Paulo Maluf foi padrinho de casamento de Fernando Collor de Melo.

O deputado Fernando Collor votou no candidato Paulo Maluf para presidente, em eleição indireta no colégio eleitoral, contra Tancredo Neves.

No segundo turno da disputa presidencial de 1989, Paulo Maluf ofereceu seu apoio para o candidato Collor, contra Luiz Inácio Lula da Silva.

Collor recusou o apoio de Maluf, o que provocou a ironia do velho político paulista:

- Servi para ser padrinho de casamento. Servi até para ser presidente da República. Agora, para dar um simples apoio não sirvo???

Lembro-me vagamente dessa história. Ela é tão boa que, acredito, não deve ter sido criada pelo meu subconsciente!

Impossível não se recordar dela ao ver a reação que o encontro de Lula e Collor despertou na imprensa e em alguns de seus colunistas, além de em alguns leitores missivistas, todos enojados com a imagem do abraço entre o ex e o atual presidente, adversários ferrenhos no pleito de 1989.

A grande imprensa, majoritariamente, apoiou o Sr. Fernando Collor na primeira eleição direta para presidente após a redemocratização. Como se sabe, o público de perfil mais conservador, por sua feita, não se fez de rogado e, sem maiores cerimônias, também caiu, de corpo e alma, nos braços do "caçador de marajás".

Irresistível, pois, não parafrasear Maluf: para eles, Collor serviu direitinho para ser presidente da República; agora, senador eleito, não serve nem para receber um simples cumprimento público do presidente em evento oficial???

Está em ação o velho "homem cordial" de que fala Sérgio Buarque de Hollanda no clássico Raízes do Brasil. Mas não pense que a cordialidade mencionada se refere ao gesto de civilidade do presidente Lula e do senador por Alagoas. O senso comum faz pensar que é disso que se trata quando se fala do homem cordial. Em verdade, a palavra "cordial", como sabido, vem de "coração". Tal expressão, portanto, é cabível também - ou principalmente - naquelas situações em que agimos de forma tresloucada, de maneira irracional, pondo a emoção à frente. Portanto, a idéia também concerne àquelas situações em que as pessoas se deixam levar pela pessoalidade pura e simples, sem maior apreço pelo republicanismo.

Dessa forma, que se dane a disputa política civilizada, que se dane a governabilidade, que se dane o respeito mútuo entre políticos que um dia foram adversários. Que viva o ódio! Que viva a inimizade! Viva aquela pequenez de gestos que, curiosamente, fingimos condenar no dia-a-dia!

Assim sendo, os jornalistas e alguns leitores, além da hipocrisia acima sugerida, estão agindo de forma "cordial", no sentido de que não estão dando pelota para a razão, a qual sem dúvida aconselharia não haver motivos para desespero ao ver que dois políticos brasileiros, eleitos pelo voto direto, preferem trocar cumprimentos em vez de sopapos num evento público!

Os admiradores de Sérgio Buarque de Hollanda talvez se sintam desconfortáveis ao ver o nome do grande intelectual num texto em que foram proferidas, com certa liberalidade, as graças de Paulo Maluf e de Fernando Collor de Melo. Pois para piorar as coisas, vou terminar usando uma expressão comum na boca do também (talvez até mais) desprezível Arnaldo Jabor: a maior parte dos que se mostraram indignados com o abraço do presidente e do senador, eleitores entusiasmados de Collor que provavelmente foram um dia, nada mais fazem do que se comportar como "virgens no bordel"!

sábado, 11 de julho de 2009

Que independência?

No dia 09.07.2009, a jornalista Eliane Cantanhêde participou de bate-papo promovido pelo UOL sobre a crise no Senado. Vários internautas enviaram perguntas à especialista em política brasileira, pessoa que acompanha tudo muito de perto, de Brasília.

Faltou inspiração à maioria das perguntas, em geral óbvias, e que, talvez por isso, mereceram respostas básicas, do tipo que nada acrescentam.

Mas a melhor pergunta, senão a única realmente boa, não somente ficou sem resposta, como ainda sofreu o desprezo da colunista da Folha. Transcrevo o trecho abaixo:

(05:35:45) Dante fala para eliane cantanhêde: Uma questão urgente. Que se acuse ou investigue o Sarney. Mas a imprensa faz é campanha. Por que não faz o mesmo com as graves acusações contra o senador Arthur Virgílio? Ou com o rumoroso caso do governo do Rio Grande do Sul?

(05:37:24) eliane cantanhêde: Dante: Ih, pronto. Você é daqueles que, em vez de enxergar os fatos, os atos, os cheques, as provas, prefere ficar culpando a imprensa. Campanha??? E o que você diz sobre parentada, mordomo, Fundação Sarney, ato secreto, etc. etc?


Diz ela que o rapaz culpou a imprensa antes de enxergar os fatos. Ora, como pode, se a primeira coisa que o moço fala é para se acusar ou investigar Sarney?! Ele apenas em seguida pondera que o mesmo deveria ser feito com o Arthur Virgílio, também no Senado, ou sobre a administração no mínimo polêmica da gaúcha Yeda Crusius.

Vejam que Eliane Cantanhêde se esquiva da pergunta. E olha que ela poderia tê-lo feito com mais classe, dizendo que o caso da governadora do Rio Grande do Sul não cabia na discussão, embora de todo modo ficasse faltando maiores explicações do porquê de não haver tanto furor investigativo no caso dela. Já os problemas do senador Arthur Virgílio eram, sim, assuntos que poderiam ser abordados no bate-papo, o que teria sido uma ótima oportunidade para o conhecimento da opinião pública, haja vista que as trapalhadas do senador amazonense têm sido relativamente negligenciadas pela mídia.

Uma primeira lembrança: o bate-papo não era sobre a situação de José Sarney, mas sim sobre a “crise no Senado”. Veja como foram as chamadas da Folha Online (com os nossos grifos):

Leia íntegra do bate-papo com Eliane Cantanhêde sobre a crise no Senado

A jornalista Eliane Cantanhêde, colunista da Folha e da Folha Online em Brasília, participou de bate-papo nesta quinta-feira (9) sobre os escândalos no Senado.

Converse agora com a colunista da Folha e da Folha Online, Eliane Cantanhêde, sobre a crise do Senado.

Ou seja, se a discussão era sobre crise no Senado, a jornalista não poderia ter feito pouco caso do internauta que quis ouvir um pouco mais sobre Arthur Virgílio, que até onde se sabe é senador da República, e é apenas mais um – ao lado de Heráclito Fortes, Efraim de Moraes - dos que estão no turbilhão crítico daquela Casa.

Uma segunda lembrança: Virgílio e Yeda são do PSDB, portanto não são aliados do governo do presidente Lula. A imprensa não vem, ao que parece, fazendo muita questão de esconder que seu negócio é fazer oposição ao Governo Federal, ao governo do PT. E ponto final.

Observe-se que a própria Eliane Cantanhêde escreveu coluna nesta mesma semana intitulando a imprensa a que serve como “independente”. Seu colega Clóvis Rossi, que ao lado dela também é ironicamente colega de página de José Sarney às sextas-feiras, fala, no dia 10.07.2009, que a história de “mídia golpista” é coisa de político enrascado e de imprensa chapa-branca.

Pelo que se vê, os grandes jornais não querem esconder o oposicionismo ao governo, quase como se nada mais fizessem do que sua obrigação. O próprio presidente Lula já o observara na famosa entrevista à revista piauí: a coisa mais dura para um jornalista, disse ele, é ser tido como chapa-branca. Por muito pouco, os colunistas da Folha não o confessam: “não queremos nunca ser chamados de chapa-branca, por isso faremos todo tipo de oposicionismo sistemático que fustigue o governo”.

Esperemos, sinceramente, que seja só isso. Mas não nos esqueçamos que Sarney, além de aliado de Lula, é desafeto de José Serra, e por isso é importante que preventivamente se lhe tire qualquer resquício de respeitabilidade, para o caso de ele voltar seu arsenal contra o governador paulista. É bom lembrar também que os donos de jornais andam muito bravos com a democrática medida do governo Lula de diversificar os contemplados pela publicidade governamental. Sabe como é, quando mexem com o bolso... Maquiavel, em contexto um tanto diferente, disse que o homem esquece mais depressa da morte do próprio pai do que da perda do patrimônio. Pode advir daí a bronca com o atual presidente: incluiu digitalmente boa parte da população, enfraquecendo, de forma indireta, o suposto poder (leia-se grana) da grande mídia; e de maneira direta, tira-lhes verba de que sempre estiveram acostumados e as repassa para pequenos meios de comunicação Brasil afora.

A grande imprensa e seus colunistas não gostam, mas é democrático!

Mas sejam quais forem os motivos de tanta “independência”, a grande verdade é que ela não precisaria poupar tanto os senadores do DEM e do PSDB, nem a governadora gaúcha, tampouco a aliança de Quércia e Serra em São Paulo, esta tão estarrecedora quanto a de Lula e Sarney. Ah, tá, mas a "independência" é só em relação ao governo Lula!

sábado, 4 de julho de 2009

Os 6 (seis) anos do Plano Real!

Nesta semana, muito se falou dos quinze anos do Plano Real, comemorado dia 1º de julho. Como já era de se esperar, a mídia, juntamente com seus colunistas e articulistas, pegou pesado no puxa-saquismo a Fernando Henrique Cardoso.

Um pouco de história: o Plano Real foi obra do governo Itamar Franco. O sociólogo Fernando Henrique foi seu ministro da Fazenda, liderando, nessa posição, um grupo de verdadeiros economistas como André Lara Rezende e Pérsio Arida, certamente mais importantes na elaboração do programa do que ele, FH. Mas o mais importante a se destacar é que FHC já não era mais ministro no fatídico 1º de julho 1994. Coube a Rubens Ricupero a tarefa de conduzir o início do plano, talvez no seu momento mais difícil. Derrubado por uma parabólica, Ricupero foi substituído pelo pindamonhangabense Ciro Gomes. Parece-nos óbvio que Ciro e Ricupero foram mais importantes para o Real do que o ex-presidente Cardoso.

Tudo poderia ser pura babação de ovo da mídia para cima de FHC, mas, como eles não dão ponto sem nó, talvez seja uma desesperada tentativa de melhorar a imagem do ex-presidente, haja vista que nas eleições de 2010 o PT certamente terá um “patrono” de quem se orgulhar, e não seria de bom tom o PSDB ir para a terceira eleição consecutiva fingindo que Fernando Henrique nunca existiu.

Mas em meio a tanta celebração salvou-se equilibrada reportagem da Agência Brasil. O especial do sítio noticioso falou dos méritos do plano e dos avanços obtidos graças à estabilidade que, desde então, passou a ser um “dogma saudável” de nossa economia. Porém, graças a importante intervenção do economista Ricardo Amorim, do IPEA, foi dado também o lado sombrio do Plano Real, aspecto devidamente esquecido na grande mídia. O plano, para dar certo, teve que, de algum modo, provocar pequenas quebradeiras na economia brasileira – talvez sem alternativa, acrescentamos generosamente. A memória inflacionária, ou componente inercial ou o nome que se queira dar era muito forte, e qualquer aquecimento manteria a inflação a pleno vapor. Para matar o dragão era preciso exagerar no remédio. Desse modo, apostou-se no dólar barato, pois assim entrariam importados aos montes no país, o que impediria a subida dos preços dos produtos nacionais. Em conseqüência, com os importados tomando conta, a indústria nacional se ressentia, pois não tinha como concorrer com a enxurrada de produtos mais baratos; as exportações, por seu turno, eram desestimuladas pelo dólar na rédea curta das bandas cambiais. Resultado: desemprego e achatamento de salários. Desempregado não compra; salários baixos também não ajudam. Noves fora, inflação fica controlada. Eis um lado nefasto - talvez necessário, não descartemos - que não cairia mesmo bem mencionar num dia de aniversário!

As análises na grande imprensa também não pouparam Lula e o PT, que, segundo os adorados escribas da mídia, teriam combatido o plano em seu início, mas no final das contas acabaram descobrindo a importância da estabilidade e dado seqüência ao bem-sucedido plano de FHC (na verdade, de Itamar). Ora, bem que as críticas podiam ser ainda mais duras com o governo petista que ora comanda o Brasil, acusando-lhes, Lula e seu partido, de serem mais realistas do que o rei, pois no fundo o governo que se iniciou em 2003 é que de fato salvou o plano de estabilização iniciado por Itamar, em alguns momentos pegando até pesado demais nessa coisa de controle da inflação (alô, Meirelles!). Talvez não seja errado dizer que a estabilidade só passou a ser um valor seguro mesmo sob Lula. Se o leitor se der ao trabalho de dar uma pesquisada, verá que no final do segundo mandato de FHC a inflação já havia passado de dois dígitos; Lula assumiria seu primeiro mandato sob a égide de uma economia mais ou menos descontrolada, com poucas reservas internacionais, risco-país explosivo, dívida pública de mais de 50% do PIB e dólar fora de controle.

Hoje, mesmo com “a maior crise da história do capitalismo”, o Brasil se segura bem, tirando uma marolinha aqui, outra ali. É, portanto, muita desonestidade intelectual querer dar os créditos da razoável saúde que ora goza a economia brasileira ao governo anterior, justamente um governo que costumou atribuir suas dificuldades (ou seus fracassos mesmo) a crises internacionais muito menores do que as que o mundo observa hoje. Não sei quanto a vocês, mas isso sempre me pareceu ilógico, afinal, como pode o governo bem-sucedido que enfrenta crise maior ser considerado mera cópia de outro que sucumbiu por "marolinhas" localizadas e de menor intensidade?

Caso se queira associar o “Real” à idéia de estabilidade, ter-se-á que mudar sua idade e passar a considerá-lo como tendo seis anos, pois este é o tempo em que ele se mostra realmente sólido e estável. E se a alguém se deve atribuir o sucesso da estabilização, forçoso seria reconhecer a importância de Lula, pois sob ele, sim, a luta contra a inflação foi realmente levada a sério e, mais do que isso, foi efetivamente vencida. E olha que nada disso deve ser tomado como elogio na sua plenitude, não, pois para alcançá-lo foi preciso muito remédio amargo: os juros altos que ajudam os bancos, inibem a produção e desempregam; e a busca cega pelo superávit primário que tira dinheiro da saúde, da educação e da promoção social. Digamos que é uma espécie de PT americanizado: No pain, no gain!