sexta-feira, 22 de abril de 2011

Beba Coca-Cola

No monótono O papel da oposição, o altamente repercutido texto de Fernando Henrique Cardoso para a revista Interesse Nacional, em certo momento ele sugere que a crítica oposicionista deva ser repetitiva, à moda da publicidade que insiste em bordões do tipo "beba Coca-Cola".

Por acaso - ou não tão por acaso assim - vêm sendo veiculadas no rádio e na TV as inserções publicitárias a que tem direito o PSDB. Uma trata de inflação, a outra de Copa do Mundo e aeroportos. Como demonstração de que o PSDB pretende continuar recusando-se a andar com as próprias pernas, as peças apresentam-se claramente amparadas em notórios bombardeios midiáticos dos últimos meses.

Terrível inflação
Num dos spots, uma mulher reclama da inflação, que teria voltado a nos assombrar, sob um certo desdém do governo federal, que estaria brincando com o tema, decerto em referência a uma certa "jogada de toalha" do Banco Central, que já deu a entender que, neste 2011, não vai lutar com unhas e dentes para trazer os números da inflação para o chamado centro da meta.

Já se vem, desde o final do governo Lula, ouvindo que a inflação teria fugido do controle das autoridades monetárias do País. De tanto que se manda beber Coca-Cola, acabamos bebendo; de tanto que se bate nessa tecla da inflação fora de controle, vamos nela acreditando e - pior - sem perceber vamos contribuindo para sua resiliência, correndo o risco até mesmo de fazer a profecia se autorrealizar.

Em 2010, a inflação efetiva foi de 5,9%, acima do chamado centro da meta, a saber, 4,5%, mas abaixo de sua margem superior de tolerância, que é de dois pontos percentuais, ou seja, 6,5%. Ainda que inquestionavelmente preocupante, o resultado do último ano Lula esteve muito longe de poder ser classificado de inflação fora do controle. E mesmo em ascensão, o acumulado dos últimos 12 meses ainda não rompeu o limite superior da meta deste ano de 2011, que também é de 6,5%.

Em meio ao terreno devidamente adubado por reportagens irresponsáveis, quase a transformar a inflação brasileira numa espécie de tsunami japonês, a propaganda peessedebista acaba parecendo apenas um alerta bem-intencionado ao governo brasileiro, ao mesmo tempo em que conclama os cidadãos brasileiros a ficarem vigilantes ao afrouxamento das autoridades no combate ao "dragão". Não se negue que é este o papel da oposição e que a atenção aos temas mais sensíveis à população é até bem-vindo. Problemáticas mesmo são as falácias contidas na estratégia.

Na propaganda, a personagem, devidamente indignada, pergunta o que "esse pessoal andou aprontando", e garante que a inflação era um mal já resolvido desde 1994.

A primeira parte quer claramente surfar em certo discurso único da mídia, hegemônico até cerca de dois meses atrás, de que suposto excesso de gastos do governo Lula - principalmente nos seus últimos dois anos - estaria na base da "terrível inflação" com que ora estamos deparando. Todavia, para azar dos tucanos, nem mesmo a sua mídia aliada vem se apoiando muito unanimemente nessa afirmação, já aceitando o fato de o inegável repique de preços ter a ver com os valores das commodities, majorados em razão da grande demanda mundial, o que, aliás, tem provocado quadros inflacionários em todo o planeta. O calendário estipulado pelo TSE fez, neste particular, a propaganda do PSDB perder o timing de tal crítica.

Quanto ao problema resolvido desde 1994, talvez convenha fazer uma visita ao histórico de metas de inflação, disponível no sítio do Banco Central do Brasil, com os efetivos resultados do IPCA desde 1999. De se relembrar que 2010, último ano do governo Lula, encerrou com acumulado de 5,91%. Vê-se que em período governado pelo PSDB, de 1999 a 2002, o ano de inflação mais baixa alcançou 5,97%, em 2000; completando o período tucano temos: 8,94% em 1999, 7,67% em 2001 e inacreditáveis 12,53% em 2002. Será que era caso resolvido mesmo desde 1994?

Copa do Mundo e aeroportos
Noutra propaganda, um sujeito demonstra preocupação com atraso de obras para a Copa do Mundo de 2014, em especial com a situação de nossos aeroportos, temendo que, ao final, saia tudo mais caro, com a já esperada "tirada de couro" do contribuinte brasileiro.

Mais uma vez é surpreendente a tabelinha do PSDB com a mídia. Reportagens envolvendo ritmo das obras para 2014 e o risco de os aeroportos brasileiros não darem conta do recado pulularam nas últimas semanas. No caso de nossa condição aeroportuária, até o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), não raramente tachado de "máquina de propaganda" do governo, entrou em campo para demonstrar certo pessimismo quanto à capacidade de o Brasil conseguir pôr os aeroportos para funcionar a contento durante o famigerado evento esportivo, dando, por assim dizer, uma mãozinha ao "patriotismo" midiático.

Crítica maravilhosa, sem dúvida. É bom mesmo ficar ligado. Bem faz o PSDB em repisar, ao lado da mídia, o espinhoso assunto. Há, porém, certo exagero, pois o Brasil, ao contrário do que se quer fazer acreditar, geralmente se sai bem na organização de eventos importantes. De todo modo, é reconfortante saber que tem gente vigilante o suficiente para não deixar o caldo entornar em 2014, ano que, aliás, já está batendo à porta.

Em todo caso, vale uma pequena censura, de outra ordem, à propaganda. O blogueiro Eduardo Guimarães informa-nos em texto sobre o mesmo assunto que, segundo a marquetagem tucana, escolheram, para protagonizar a peça, um homem negro e com sotaque nordestino, com o fim de não “paulistizar” a crítica ao governo Dilma; acrescenta o blogueiro, com ironia, que se trata justamente de "um daqueles que começaram a voar só no governo Lula…". Há aí um evidente desencontro com o já citado panfleto de FHC, texto que deve entrar para a história exatamente por ter exortado o PSDB a abandonar o povão. De qualquer forma, o rapaz com "cara de povo" acaba se traindo e expondo o jeito tucano de ser.

Após reclamar do risco de virmos a pagar caro - literalmente - pelo atraso das obras, o garoto-propaganda acaba vindo a manifestar aquele que é, no fundo, o pior dos temores das elites: que venhamos a passar vergonha perante o mundo. É o manjadíssimo complexo de vira-latas, traço do caráter brasileiro que foi enfrentado com razoável sucesso pelo governo Lula. Como se vê, o PSDB chama para protagonizar sua propaganda alguém com as características do povo de que FHC quer tanto se afastar, mas não descuida de colocar em sua boca alguns dos mantras da classe média tradicional que vem lhe dando sustentação especialmente nas últimas duas eleições presidenciais.

Revela-se, pois, graças a essa peça publicitária, uma das dificuldades do discurso oposiocionista: tentar atrair o pobre, sem afastar a classe média e a elite. Parece que vai ter de escolher um caminho... Puxa vida! Será que o FHC tem razão?

sábado, 9 de abril de 2011

E a oposição vai se desidratando...

O jornal Valor Econômico publicou, no dia 08.04.2011, explosiva entrevista do ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira concedida a Maria Inês Nassif. O economista desanca o PSDB, partido a que pertenceu, e especialmente seu ex-chefe Fernando Henrique Cardoso. O sítio Vermelho reproduziu importantes trechos da matéria (leia aqui)

Não nos causou estranheza. Já vínhamos nos surpreendendo positivamente com alguns artigos e comentários de Bresser-Pereira publicados na imprensa. Abaixo segue texto escrito no final do ano de 2009, revelando contentamento não somente com o ex-ministro Bresser, mas também com outros setuagenários mais prontamente identificados com as escolas conservadoras.


SEGUNDA-FEIRA, 2 DE NOVEMBRO DE 2009
Meus 70 e poucos anos

Nos últimos tempos, vem causando agradabilíssima surpresa o posicionamento, não raro de cunho radical, de alguns setuagenários historicamente ligados à linhagem mais conservadora da sociedade brasileira. (Agradabilíssima, bem entendido, para este escriba. Para alguns amigos, vem provocando estranheza mesmo!).

Há alguns anos, Cláudio Lembo, então governador do estado de São Paulo, na crise do PCC, desancou, em entrevista à Folha, o que chamou de minoria branca brasileira.

Recentemente, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira fez elogios rasgados ao perfil democrático do presidente Lula e, causando maior espécie, teve posicionamento equidistante – o que é quase o mesmo que defender - ao sempre demonizado MST.

Em entrevistas, além de em artigos, o também ex-ministro Adib Jatene defendeu aumento na cobrança de impostos, opondo-se, assim, a velho dogma da direita e das classes média e alta, mesmo que não necessariamente de direita.

Por fim, Delfim Netto brada aos quatro cantos para que se reconheça a superioridade do governo Lula em relação aos que lhe antecederam, especialmente em virtude de suas políticas inclusivas.

Delfim, hoje filiado ao PMDB, foi da ARENA e integrou os governos militares; Lembo pertence ao DEM, esteve ligado a figuras polêmicas como Paulo Maluf e Jânio Quadros; Jatene, além de ter sido idealizador da CPMF no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi ministro de Collor e secretário de Paulo Maluf.

De todos, talvez Bresser seja o que mais se entristeceria de estar, aqui, sendo qualificado como homem conservador, haja vista já ter se autodenominado de centro-esquerda e por ter, indubitavelmente, maiores ligações históricas com as forças democráticas. Em todo caso, foi partícipe dos governos de José Sarney e de FHC, ambos muito longe de poderem ser classificados como progressistas.

Impossível não se lembrar da famosa (infame?) frase de Willy Brandt: “Quem aos 20 anos não é comunista não tem coração; e quem assim permanece aos 40 anos, não tem inteligência”. Com os nossos amigos Lembo e companhia limitada, porém, parece que a coisa se deu de forma inversa: tinham muita "cabeça" aos 20, mas agora, não aos 40 mas aos 70, são só coração!

Não se trata, evidentemente, de comunismo, palavra que está por demais surrada. Por outro lado, dá para se falar de “direita” e “esquerda”.

O filósofo Norberto Bobbio, poucos anos após a queda do Muro de Berlim, tentou avaliar a sobrevivência e o significado da polarização entre direita e esquerda, em livro lançado no Brasil pela Editora Unesp, em 1995, intitulado justamente Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. Bobbio expõe conceitos fundamentais para se entender a recolocação da velha dicotomia. Dentre os mais importantes está o de “igualitarismo”:

(...) o elemento que melhor caracteriza as doutrinas e os movimentos que se chamam de “esquerda”, e como tais têm sido reconhecidos, é o igualitarismo, desde que entendido não como a utopia de uma sociedade em que todos são iguais em tudo, mas como tendência, de um lado, a exaltar mais o que faz os homens iguais do que o que os faz desiguais, e de outro, em termos práticos, a favorecer as políticas que objetivam tornar mais iguais os desiguais. [2ª edição, p. 125]

Penso que quem ler as entrevistas e artigos indicados das personalidades citadas neste post perceberá a preocupação - ainda que não manifesta - com a questão da igualdade, seja na forma de propostas para minimizá-las, seja na defesa do uso de mecanismos corretores da perversa desigualdade que marca o Brasil. Neste sentido, devidamente agasalhado pelo teórico italiano, os nossos amigos estão parecendo velhos militantes da esquerda!

Muitos podem não levar tão a sério o que dizem e até mesmo pensar que eles possam estar fazendo “tipo”, ou, o que é pior, avaliar que não dá para confiar em “figuras” como essas. Todavia, o efeito da fala deles, em nossa opinião, não deve ser negligenciado, pelos seguintes motivos: elogios às bem-sucedidas políticas de transferência de renda do governo Lula feitas por seus correligionários já seriam esperadas, passando despercebidas mesmo que muito bem fundamentadas; "desabafos" como o de Cláudio Lembo, se feitos por políticos de esquerda, seriam – não tenho dúvidas – tachados de fascistas; comentários “simpáticos” ao MST, normalmente classificados como defesa do “terrorismo”, se ouvido de um Bresser-Pereira, ao menos ganha alguma atenção; e, finalmente, a antipática bandeira na defesa de cobrança de impostos, quando corajosamente empunhada por políticos de esquerda, só ganha espaço na mídia se for com o objetivo de satanizá-los.

Já os senhores Lembo, Jatene, Bresser e Delfim, com seus mais de 70 anos de idade, não têm que ficar dando muitas satisfações a ninguém, tampouco se preocupar com as "terríveis" repercussões de suas falas. Justamente por isso, vale bem a pena prestar atenção ao que dizem.


P.S.: Cláudio Lembo desligou-se recentemente do DEM, engrossando as fileiras do novíssimo PSD, de Gilberto Kassab, de quem é secretário de Negócios Jurídicos na prefeitura de São Paulo.

sábado, 12 de março de 2011

Sete milhões de problemas

Leio no sítio da revista Carta Capital que até o final de março de 2011 a cidade de São Paulo atingirá a impressionante cifra de sete milhões de automóveis parados, digo, circulando por suas ruas. Ao atingir a cifra de seis milhões, há pouco mais de três anos, escrevemos um post que parece, infelizmente, ser bastante atual. Reproduzi-lo-emos abaixo. Tirando um ajuste aqui, outro ali, ao leitor basta trocar o "seis" pelo "sete".

SÁBADO, 1 DE MARÇO DE 2008

A cidade de seis milhões de problemas

A cidade de São Paulo atingiu a marca de seis milhões de automóveis nos últimos dias. Na média aritmética é um carro para menos de duas pessoas. Trata-se de um dado assustador, como logo veremos.

Sem dúvida que tão assombroso número tem a ver com o momento razoavelmente aquecido da economia: a indústria automobilística não obstante a automação ainda gera um bom número de empregos diretos, inclusive com salários acima da média do mercado brasileiro, e, por ser o automóvel um produto de alto valor agregado, tal indústria ainda tem a capacidade de, mais notavelmente, gerar uma enormidade de empregos indiretos. Também é certo que a indústria automobilística é uma das principais responsáveis pela excepcional arrecadação de impostos observada nos últimos tempos. E não pára por aí: o setor de seguros e de financiamentos, fabricantes de acessórios e o mercado de usados lhe crescem a reboque. Não é difícil perceber que o ciclo virtuoso se instala com facilidade, graças à vertiginosa atividade de um setor ponta-de-lança como esse dos automóveis.

Mas há o outro lado da moeda: a destruição do meio ambiente, a degradação do espaço urbano, a frieza humana contrastando com o aquecimento do clima (sem qualquer tentativa de ser poético). Antes que alguém diga que isso é decorrência das péssimas condições do transporte coletivo, cuja má qualidade leva as pessoas a optarem pelo veículo particular, eu ousarei a – mais uma vez – afirmar que em verdade ocorre o contrário: o transporte coletivo numa cidade como São Paulo é muito ruim por culpa da prioridade comumente dada ao transporte individual.

Em primeiro lugar, o desenho urbano das grandes cidades em geral, e de São Paulo em particular, é pensado para o veículo individual: uma das marcas da cidade - e vocação de alguns de seus políticos mais populares - sempre foi a construção de grandiosas obras viárias, geralmente voltadas mais aos interesses particulares do que ao interesse coletivo. Em segundo lugar – se o leitor permite uma opinião idiossincrática bastante arriscada -, há o condicionamento psicológico: as pessoas não veem outra solução ao “martírio” do transporte coletivo que não seja a aquisição do carro próprio, o que sem dúvida diminui a pressão social para a solução dos problemas do sistema. E em terceiro, há a questão do esnobismo social, com a idéia de status frequentemente associada ao uso do automóvel, além da sensação de poder, de conforto e de modernidade que tal tipo de bem geralmente traz. Tudo isso parece ser um grande desestímulo a que nossos pragmáticos políticos gastem “cartucho” com investimentos no transporte coletivo, pois sabem que o eleitor se lembraria mais facilmente deles pelo que fizessem em benefício do uso do “carrão” particular.

Eis a feição de uma crise: temos um produto cujo uso de forma geral é a marca da irracionalidade, cuja popularização é danosa ao meio ambiente e à qualidade de vida, mas que se ausente nos termos em que se apresenta, poderia representar uma economia mais retraída, um Estado quebrado e pessoas inexplicavelmente mais infelizes. Ao contrário do verso de Rimbaud, “tornamo-nos mulheres velhas com coragem de amar a morte”! É realmente muito desalentador ter de às vezes regozijar-se de uma situação caótica: este blog mesmo, o leitor certamente se lembrará, em algumas oportunidades apontou os extraordinários números da indústria automobilística nacional como forma de desqualificar as incongruentes ressalvas da imprensa e da oposição à situação econômica do Brasil. É... Como se vê, não apenas os políticos são tão pragmáticos; tampouco somente a mídia tradicional o é. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O inflacionado mercado das mentiras

O assunto inflação vem, neste começo de 2011, ocupando bastante espaço na imprensa e ganhando lugar nas discussões de nosso cotidiano.

O medo é grande, dizem, pois a inflação está em níveis preocupantes. E a expansão de gastos - supostamente exagerada - dos últimos anos do governo Lula estaria na origem da escalada dos preços.

A presidenta Dilma Rousseff, ao que tudo indica, também está bastante assustada, e o resultado do IPCA de janeiro, indicando certa resiliência do "dragão", pode ter contribuído para o relativamente pesado "ajuste fiscal" que anunciou nesta semana.

Paradoxalmente - ou não tão paradoxalmente assim, vai saber... - o comportamento da equipe econômica de Dilma acaba por dar munição aos que, de forma oportunista, chegam a falar de uma "herança maldita" deixada pelos anos Lula.

Mas que tal um pouco de verdade sobre a "terrível" inflação deixada por Lula, sobrevivente em janeiro, e que tem tudo para pôr a perder as hodiernas conquistas do trabalhador brasileiro?

Antes de mais, gostaria de deixar claro que o autor destas mal digitadas, velhinho que é, viveu sob inflação e sabe que ela não tem nada de agradável, além de ser, como já exaustivamente repetido por aí, uma espécie de imposto pago justamente pelos mais pobres.

Portanto, este escriba jamais deixará de enxergar com bons olhos esforços que sejam empreendidos para controle da inflação.

Mas íamos nos meter a falar sobre a verdade por trás dessa história de inflação.

Pois bem, recordemo-nos da campanha presidencial de 2010. Nos debates e especialmente numa entrevista à Rede Globo, a então candidata Dilma Rousseff evocou um tal descontrole inflacionário que teria sido deixado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como herança ao seu sucessor, o petista Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma recebeu críticas da oposição e da imprensa, chegando a ser chamada de mentirosa por uma grande colunista de nossos jornais. Como o leitor pode conferir aqui, em 2002, ano de despedida de FHC, para um limite máximo de 5,5% de meta de inflação, o Brasil efetivamente registrou 12,53%, ou seja, havia ultrapassado a casa dos dois dígitos. Como já tive oportunidade de dizer, não critico de forma muito dura os que afirmam que Dilma mentiu ao falar em descontrole inflacionário no ocaso de FHC, pois não estou bem certo de que 12,53% seja número tão superlativo assim, a ponto de poder ser qualificado como descontrole, embora não reste dúvidas de que ele inspira os maiores cuidados.

Já em 2010, último ano do presidente Lula, para um limite máximo de 6,5% de meta de inflação, o resultado do IPCA foi de 5,91%, ou seja, quase 10% menor do que o limite da meta. Todavia, ficou acima do chamado centro da meta, que é de 4,5%, e é aí que os catastrofistas se seguram para falar que a inflação está saindo dos eixos. Enganam os interlocutores ao omitir que o centro da meta é o mais desejável, mas não é a própria meta em si, que, como já dissemos, tinha em 2010, como limite máximo, o número de 6,5%.

Agora a pergunta que não quer calar: se em 2002, com 12,53%, a inflação não estava fora de controle, como afirmaram certos colunistas da grande imprensa, por que os 5,91% de 2010, dentro da meta, devem ser tomados quase como uma herança maldita de Lula? Em 2002, com mais de 12% de inflação não havia descontrole, mas em 2010, com menos de 6% temos uma herança maldita? Ora, ora, ora! Será que somos todos idiotas?

E ainda há mais, o PIB brasileiro em 2002 foi de 2,7%, ao passo que o de 2010 deve superar os 7%, o que quer dizer estarmos hoje com uma economia extremamente mais bem aquecida do que a do último ano de governo tucano. Além disso, Em 2002 o País estava em plena escalada do desemprego, já em 2010, por seu turno, atingiu-se quase uma situação de pleno emprego. Numa análise fria, pois, seria mais razoável uma inflação de no máximo 6% em 2002, e não surpreenderia muito algo na casa dos dois dígitos em 2010, uma vez que, evidentemente, a pressão de demanda foi bastante mais significativa no último ano do que foi oito anos atrás. Tal quadro indica, sem sombra de dúvidas, que a situação deixada ao final de 2002 é que era digna de assustar.

Há, portanto, algo de muito estranho nessa barulheira sobre inflação. Longe de mim querer arriscar que isso possa ter a ver com lobby do mercado financeiro para aumentar os juros. Aliás, se é que tinha, pode ser que o ajuste fiscal anunciado pela presidenta nesta semana seja tomado como um balde de água fria, haja vista que ele indica a possibilidade do uso de outros mecanismos no controle da inflação além da taxa Selic. A conferir.

No mais, sugiro ao leitor que, antes de começar a estocar alimentos, pare, reflita, pesquise, compare: por exemplo, faça uma busca e veja o que disse um certo colunista sobre o comportamento da economia em 2002 e coteje com o que ele diz agora. Preocupar-se com o comportamento dos preços nunca é demais; mas não precisa se desesperar nem ver pelo em ovo. Ademais, há sempre fortes interesses políticos e/ou do mercado nas campanhas bem organizadas via mídia. Pensemos nisso.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O que é isso, novos companheiros?

Tem causado espécie ver colunistas dos grandes jornais, assim como (e)leitores de direita, rasgando elogios à presidenta Dilma Rousseff. Pelo jeito mudaram de opinião - e muito rapidamente - acerca da "comunista terrorista sanguinária atéia" de bem poucos meses atrás!

Para usar expressão bem ao gosto dos conservadores, não existe almoço grátis; ou seja, aí tem. Vale, no caso, recorrer ao teste de hipóteses, ainda mais que, em seu uso, não vamos acusar ninguém de assassinato.

Mais do que louvar Dilma, o objetivo parece ser primeiramente o de espezinhar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: nenhum dos encômios à presidenta, que me lembre, veio desacompanhado de alguma comparação que tentasse desabonar Lula e seu governo. Em segundo lugar, a tentativa pode ser a de criar um foco de oposição nas bases que sustentam a presidenta ou que pelo menos sustentaram sua candidatura e, de quebra, obrigá-la a pôr em prática - ou continuar praticando - o programa oposicionista.

Lula? Que Lula?
Desmitificar Lula não é tarefa das mais fáceis. Mas há que se tentar.

O cálculo político é bastante simples: desarticulada como está a oposição, teme-se que um eventual malogro do governo Dilma possa, paradoxalmente, ser mais facilmente capitalizado por Lula, justamente o seu padrinho político, do que por algum nome do consórcio PSDB/DEM/PPS.

A ideia, portanto, é, em primeiro lugar, senão destruir, ao menos diminuir a importância do legado da era Lula. Feito esse trabalho, com a ajuda da corrupção de Dilma pelos elogios, a presidenta seria abandonada na estrada, já ao final do seu governo, para aí, sim, quem sabe aparecer um destemido Geraldo Alckmin para nos redimir, com toda a imprensa cobrando de um patriota Aécio Neves que aceite a honra de ser seu vice.

Seguir a agenda dos derrotados
Noutra leitura, vislumbra-se a tentativa de que a presidenta da República não somente prossiga, mas até aprofunde a clássica estratégia inicial de não confrontar os princípios da oposição - ou como preferem os mais críticos, que ela continue adotando a agenda dos derrotados.

Pretende-se, com isso, que a presidenta perca a simpatia - e o apoio, por óbvio - de movimentos sociais e de outras organizações da sociedade civil que com ela estiveram em sua bem-sucedida campanha. E, é lógico, nem de longe tem Dilma o carisma e o magnetismo de Lula. Daí para o isolamento seria um passo. O problema desse segundo intento é que, se Lula não for destruído, será ele o herdeiro da insatisfação com a presidenta, fechando de vez as portas para a oposição. Daí porque não se vislumbrar nessa hipótese nada além do mais absoluto pragmatismo político mesmo.

Resumo
As hipóteses para a conversão dos conservadores, em resumo, parecem ser essas, pela ordem: Lula, se chegar "inteiro" em 2014, leva a presidência mesmo que sua seguidora sucumba. Por isso é importante tentar destituí-lo da condição de mito desde já. A outra ideia, absolutamente pragmática, é afastar, por definitivo, a presidenta Dilma de qualquer agenda mais radical, levando-a a ficar sem alternativas senão a de transitar com os grupos mais à direita, mesmo que, desse modo, abra caminho para Lula em 2014.

Desnecessário dizer que o melhor dos mundos, para a oposição (incluindo a mídia, é claro) e para a direita como um todo, seria uma Dilma que siga o programa conservador num cenário em que Lula perdesse capital político. Neste caso, nada mais resta além de chamar Mané Garrincha, para mandar esse pessoal ir combinar com o povo - e com a História!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Captain Beefheart (1941-2010)

Morreu Captain Beefheart em 17 de dezembro de 2010. Cantor e compositor, saxofonista e clarinetista, foi das figuras mais marcantes do que se convencionou chamar de rock experimental.

Sintomaticamente protegido por Frank Zappa, o velho Don Van Vliet - seu verdadeiro nome - desde o início apresentou a proposta de reinventar o rock através de certas desconstruções do blues e do jazz avant-garde, soando como se um Howlin' Wolf tocasse com arranjos de um Albert Ayler.

Pessoas mais gabaritadas consideram seu trabalho não muito marcado pela regularidade. Pode ser. De nossa parte, preferimos ficar, ao menos no dia de hoje, com os momentos mais sublimes de álbuns como Trout Mask Replica, de 1969, The Spotlight Kid e Clear Spot, ambos de 1972.

Abaixo, ouça a composição do próprio Beefheart "Moonlight on Vermont", de Trout Mask Replica, álbum produzido por Zappa. Nas imagens, a capa do clássico álbum de 1969 e uma foto de Don Van Vliet à época.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ornette Coleman no SESC Pinheiros

Além de Paul McCartney e Lou Reed, outra lenda da música do século XX a pisar nos palcos paulistanos em novembro foi o revolucionário Ornette Coleman, saxofonista considerado o pai do gênero conhecido como free jazz.

A despeito de ser um artista associado à vanguarda jazzística, sua apresentação no SESC Pinheiros não foi necessariamente marcada por grandes improvisações ou pelos arroubos de nonsense tão comuns ao movimento, antes optando por interpretações competentes mas contidas, num quase hard bop, por assim dizer. Tanto foi assim que foram raras as vezes em que Ornette Coleman se arriscou no trompete ou no violino, instrumentos que toca de forma extremamente particular, geralmente de modo a causar estranhamento nos ouvintes.

Ainda que tudo tenha corrido dentro de uma normalidade que, em princípio, não seria de se esperar de artista tão inquieto, situações inusitadas ocorreram no show da noite de 28.11.2010. A primeira delas decorre de um infortúnio: durante execução da canção "Peace", ocorre falta de energia, causando grande apreensão na platéia. De repente, apenas com as luzes de emergência funcionando, os músicos começam a tocar, de forma desplugada, a atemporal "Lonely Woman", para delírio do público. Como se não bastasse, apagam-se também as luzes de emergência e, sob o breu total, a galera vai à loucura, aparentemente entendendo que o clássico de 1959 cai muito bem naquelas condições.

Outra grande surpresa foi quando, ao final absoluto, ou seja, depois do bis, o músico dirigiu-se ao público e começou a cumprimentar alguns espectadores da primeira fila. Todos que estavam mais atrás correram até a beira do palco e foram conversar com o mestre. O genial Ornette Coleman, que havia tratado com frieza jornalistas da grande imprensa brasileira, foi paciente e simpático com os fãs, distribuindo cumprimento e autógrafos, além de se deixar filmar e fotografar e até mesmo posar para fotos ao lado de alguns mais atirados.

E minha intuição funcionou parcialmente naquela noite. Se, por um lado, falhei feio em não levar máquina fotográfica para o evento, por outro lado, acertei em cheio em ir munido da capinha do CD de The Shape of Jazz to Come, um dos melhores discos de todos os tempos. Foi o primeiro dos muitos autógrafos que Ornette Coleman distribuiu naquela noite. Ele grafou meu nome errado na capinha; mas quem se importa?

Abaixo, um pequeno vídeo com a capa do CD autografada pelo veterano artista, com fundo musical da gravação do áudio da sequência acima descrita, com a interpretação de "Peace", a queda de energia, e a retomada com "Lonely Woman". Tudo obra de Coleman, exceto o probleminha técnico!

domingo, 7 de novembro de 2010

O vermelho é mais vermelho, o azul é menos azul, mas isso não tem importância

Pouparei o leitor da reprodução do mapa brasileiro, pintado de vermelho nos estados da Federação em que Dilma Rousseff, do PT, bateu José Serra, do PSDB, e de azul nas unidades do País em que se deu o contrário. A mídia o fez ad nauseam e, provavelmente sem querer, ajudou a desencadear até ondas de preconceito e intolerância na rede mundial de computadores contra o nordeste, região supostamente responsável pela vitória da candidata petista.

É um grande clichê dizer que os números normalmente escondem realidades concretas só perceptíveis quando sobre eles nos debruçamos. E justamente por ser um chavão é de se encarar com tristeza o fato de as análises terem deixado de tomar certos cuidados. A bem da verdade, alguns órgãos de imprensa, de forma tímida e um pouco atrasada, correram a lembrar que, mesmo se se desconsiderasse o nordeste, ainda assim Dilma venceria as eleições, mesmo que de forma extremamente apertada.

Abrindo parênteses, cabe lembrar o belo comentário do jornalista Rodrigo Vianna, advertindo-nos de que não se deve cogitar a ideia de se excluir a votação da região nordeste para dar maior legitimidade ao trunfo da petista. Em verdade, a legitimidade de sua eleição vem justamente do ótimo resultado que ela obteve em todo o País, inclusive - é óbvio - no nordeste.

Voltando à realidade que se esconde atrás dos números, não se descarte o fato de a candidata da coligação liderada pelo PT ter vencido também na região sudeste, com êxito extraordinário nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, com números rondando a casa dos 60%, um pouco a mais no primeiro e um tiquinho abaixo no segundo, situação que vem em reforço da desconstrução da tese que quer atribuir ao voto nordestino o sucesso de Dilma.

Além disso, melhor mapa seria aquele que trouxesse gradações de cores. Sim, pois em alguns estados o vermelho dilmista deveria vir em tons mais fortes, caso de Amazonas, Pernambuco e Bahia, por exemplo, onde alcançou mais de 70% dos votos válidos. O azul serrista, por seu turno, teria que vir mais enfraquecido em estados como Rio Grande do Sul, Goiás e Espírito Santo, lugares em que faturou com pouco mais dos 50% dos votos válidos.

A leitura simplista dos números impede, também, de se ver as nuanças de cada localidade. No estado de São Paulo, por exemplo, onde Serra foi vitorioso com respeitável vantagem, foi digna de nota a dianteira da presidente eleita em importantes municípios, como Osasco, São Bernardo do Campo, Mauá, Diadema, Ferraz de Vasconcelos, Poá, Franco da Rocha, Francisco Morato, Carapicuíba, Barueri e Itapecerica da Serra, todas na grande São Paulo, cidades marcadas por considerável pujança econômica, por um lado, ou tidas como cidades-dormitório, por outro, ou seja, Dilma Rousseff, ao que parece, empolgou de forma massiva boa parte da classe trabalhadora urbana do entorno da capital paulista.

De se realçar, também, o bom resultado da primeira mulher a se eleger presidente da República na região de Campinas, repetindo, aliás, êxito do primeiro turno, faturando em Sumaré, Hortolândia, Santa Bárbara D'Oeste e outras. Nesta área, mesmo Aloízio Mercadante navegou bem no primeiro escrutínio, na sua malfadada disputa pelo governo do estado.

Do lado de Serra, registre-se que, derrotado nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, foi o preferido em vários municípios fluminenses e mineiros, borrando fortemente de azul os majoritariamente avermelhados mapas dessas unidades da Federação. Em desfavor do tucano, destaque-se que não ganhou em nenhum município do Amazonas, o que é surpreendente se se levar em consideração os expressivos resultados que obteve nos nortistas Roraima e Acre.

Pois bem, senhores. Dentro de uma caixa há outra caixa. Pegue-se o mapa do Brasil, com seus estados tingidos de vermelho ou azul: tem-se parte da história. Em seguida, isole um dos estados e ver-se-ão seus municípios também pintados daquelas duas cores, indicando, portanto, que as opções não foram categoricamente hegemônicas. Mesmo sem os dados, arriscamo-nos a dizer que informações ainda mais contraditórias ou surpreendentes viriam se se isolassem os bairros ou distritos de cada cidade, e dentro deles tivéssemos acesso aos resultados das diferentes zonas e seções. Se me permitem mais um chavão, a questão é deveras complexa. E só!

Alguma análise, de cujo autor indesculpavelmente não me lembro, apontou muito bem que a eleição brasileira é na base do sufrágio universal, não representando as unidades da Federação nenhuma espécie de colégio eleitoral, como é o caso dos Estados Unidos. Como cada voto é um voto, e como leva aquele que consegue o maior somatório de sufrágios, pouca importância há se os eleitores vêm do Tocantins ou do Paraná, se é de Itabaiana ou de Belford Roxo, ou se é do bairro da Penha ou da Lapa do Rio de Janeiro, ou da Penha ou da Lapa de São Paulo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Depois do operário, a mulher

Muito se tem falado do sucesso da sexta eleição direta consecutiva para presidente da República Federativa do Brasil no pós-redemocratização. Com efeito, é prova viva da consolidação das instituições democráticas do País. O único senão do período talvez tenha sido o implemento do instituto da reeleição em 1997, com validade já para o então mandatário Fernando Henrique Cardoso, caso clássico de mudança de regra no meio do jogo. Tal mácula foi corrigida pela firme decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de rejeitar mudança constitucional a lhe permitir disputar um terceiro mandato, a despeito de a sua extraordinária popularidade indicar que ele poderia tê-lo tentado.

Lula era o operário de pouca instrução, sem experiência administrativa. Como assim, querer ser presidente da República, perguntavam em todas as eleições de que participara até 2002. Seu governo, porém, sai de cena agora em 2010 muito bem avaliado, com o Brasil gozando de respeito e reconhecimento internacional inéditos e com a figura pessoal do presidente vista como a de inquestionável líder mundial. Os que erraram feio na avaliação corrente até em 2002 não dão o braço a torcer e insistem em dar razão a Albert Einstein e sua famigerada frase que lamentava o fato de ser mais fácil quebrar um átomo que um preconceito.

Dilma Rousseff, a presidente eleita do Brasil, foi, por sua vez, vítima cruel da perseguição da mídia e da oposição, algumas vezes calcada em preconceitos que tentaram atingir justamente a sua condição de mulher: a divorciada, sem companhia de um homem, agressiva. E a agressividade, acredita-se, só cai bem nos homens. Aliás, a agressividade é, não raro, apontada como uma qualidade necessária dos políticos. E por ser característica mais "naturalmente" presente nos homens, logo as mulheres não são, "naturalmente", preparadas para a política; e se são agressivas, não são "genuínas" mulheres, por assim dizer.

A grande verdade é que muito pouca importância deveria ter o fato de o presidente da República ser operário ou professor universitário, tampouco deveria ser importante o fato de ser homem ou mulher. A relevância de tal discussão só se dá justamente por obra dos preconceituosos e machistas, cuja obstinada atuação acabou por colocar as questões da origem, da formação e do gênero no centro da pauta política do Brasil. Neste caldo de cultura, por fim, a eleição de uma mulher para o cargo máximo da República - logo após o operário - dá mais um passo rumo ao fechamento do ciclo da tão festejada solidez democrática do País.

Viva a mulher brasileira! Bem vinda, presidente Dilma!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Marina Serra

Duas constatações: a oposição política ao governo federal, representada pelo consórcio PSDB/DEM, tem andado um tanto fragilizada nos últimos anos; e a mídia tem preenchido essa lacuna, agindo como – talvez o principal - partido político de oposição.

A imprensa, por ter confessadamente ocupado esse espaço no campo político, parecia estar superestimando sua importância no processo sucessório do Brasil, crente que teria condições de pautar – ou interditar – o debate ao seu bel-prazer. Cometeram alguns erros nesse processo. Reconheça-se, todavia, que o monopólio midiático emplacou um acerto que foi capital para garantir o segundo turno. Estou falando do fato de ter preservado de sua ira a candidata do PV, a terceira colocada na eleição deste ano, Marina Silva.

Num primeiro momento, havia a percepção de que a senadora poderia ser útil para garantir um segundo turno – e isso no melhor dos mundos possíveis: tiraria votos da petista Dilma Rousseff, sem chegar a ameaçar o tucano José Serra, o preferido do baronato. O resultado, decerto, foi melhor que a encomenda e provavelmente superior ao que poderia pensar até o mais otimista dos oposicionistas.

Os meios de comunicação, serristas até a medula, foram por demais pragmáticos. Nada de criticar a candidata do PV, que quando ministra do meio ambiente do governo Lula era atacada por seu radicalismo ecológico, chegando a ser considerada a responsável pelos baixos índices de crescimento econômico que o Brasil apresentava até então (o tal do PIB maior somente que o do Haiti nas Américas), tudo por conta da intransigência em não conceder licenças ambientais e na atuação fiscalizatória firme do IBAMA sob suas ordens. Também abdicaram de atacar – ou ridicularizar – a evangélica Marina por certo fundamentalismo religioso que se opõe a Darwin e que bate de frente com demandas importantes na área dos direitos civis.

Chegamos a prever (link abaixo) que a vida da acreana somente seria difícil se ela em algum momento trouxesse dificuldades a Serra, o que não era de todo descartado em razão de ambos sinalizarem, desde o início, que teriam chances de disputar o eleitorado urbano, de classe média e de boa escolaridade. De fato a candidata verde empolgou esses setores, mas, para felicidade da mídia e dos adeptos de Serra, apenas tirando os votos que num dado momento pareciam estar no colo de Dilma Rousseff.

A imprensa sabia da importância de Marina Silva no segundo turno, preservando-a até o final do primeiro escrutínio. Já José Serra, com a falta de habilidade dos trapalhões da oposição política, atacou a ex-petista no debate da Rede Globo, chegando a acusá-la de conivente com o chamado mensalão. Lembremos que o tucano ficou parado no mesmo lugar durante uns dois meses, só chegando à segunda etapa da disputa presidencial por graça de "Santa Marina".

Pelo jeito não dá ainda para desprezar a perspicácia – e sorte – da imprensa quando o assunto é eleição presidencial no Brasil.

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