sábado, 18 de dezembro de 2010

Captain Beefheart (1941-2010)

Morreu Captain Beefheart em 17 de dezembro de 2010. Cantor e compositor, saxofonista e clarinetista, foi das figuras mais marcantes do que se convencionou chamar de rock experimental.

Sintomaticamente protegido por Frank Zappa, o velho Don Van Vliet - seu verdadeiro nome - desde o início apresentou a proposta de reinventar o rock através de certas desconstruções do blues e do jazz avant-garde, soando como se um Howlin' Wolf tocasse com arranjos de um Albert Ayler.

Pessoas mais gabaritadas consideram seu trabalho não muito marcado pela regularidade. Pode ser. De nossa parte, preferimos ficar, ao menos no dia de hoje, com os momentos mais sublimes de álbuns como Trout Mask Replica, de 1969, The Spotlight Kid e Clear Spot, ambos de 1972.

Abaixo, ouça a composição do próprio Beefheart "Moonlight on Vermont", de Trout Mask Replica, álbum produzido por Zappa. Nas imagens, a capa do clássico álbum de 1969 e uma foto de Don Van Vliet à época.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ornette Coleman no SESC Pinheiros

Além de Paul McCartney e Lou Reed, outra lenda da música do século XX a pisar nos palcos paulistanos em novembro foi o revolucionário Ornette Coleman, saxofonista considerado o pai do gênero conhecido como free jazz.

A despeito de ser um artista associado à vanguarda jazzística, sua apresentação no SESC Pinheiros não foi necessariamente marcada por grandes improvisações ou pelos arroubos de nonsense tão comuns ao movimento, antes optando por interpretações competentes mas contidas, num quase hard bop, por assim dizer. Tanto foi assim que foram raras as vezes em que Ornette Coleman se arriscou no trompete ou no violino, instrumentos que toca de forma extremamente particular, geralmente de modo a causar estranhamento nos ouvintes.

Ainda que tudo tenha corrido dentro de uma normalidade que, em princípio, não seria de se esperar de artista tão inquieto, situações inusitadas ocorreram no show da noite de 28.11.2010. A primeira delas decorre de um infortúnio: durante execução da canção "Peace", ocorre falta de energia, causando grande apreensão na platéia. De repente, apenas com as luzes de emergência funcionando, os músicos começam a tocar, de forma desplugada, a atemporal "Lonely Woman", para delírio do público. Como se não bastasse, apagam-se também as luzes de emergência e, sob o breu total, a galera vai à loucura, aparentemente entendendo que o clássico de 1959 cai muito bem naquelas condições.

Outra grande surpresa foi quando, ao final absoluto, ou seja, depois do bis, o músico dirigiu-se ao público e começou a cumprimentar alguns espectadores da primeira fila. Todos que estavam mais atrás correram até a beira do palco e foram conversar com o mestre. O genial Ornette Coleman, que havia tratado com frieza jornalistas da grande imprensa brasileira, foi paciente e simpático com os fãs, distribuindo cumprimento e autógrafos, além de se deixar filmar e fotografar e até mesmo posar para fotos ao lado de alguns mais atirados.

E minha intuição funcionou parcialmente naquela noite. Se, por um lado, falhei feio em não levar máquina fotográfica para o evento, por outro lado, acertei em cheio em ir munido da capinha do CD de The Shape of Jazz to Come, um dos melhores discos de todos os tempos. Foi o primeiro dos muitos autógrafos que Ornette Coleman distribuiu naquela noite. Ele grafou meu nome errado na capinha; mas quem se importa?

Abaixo, um pequeno vídeo com a capa do CD autografada pelo veterano artista, com fundo musical da gravação do áudio da sequência acima descrita, com a interpretação de "Peace", a queda de energia, e a retomada com "Lonely Woman". Tudo obra de Coleman, exceto o probleminha técnico!

domingo, 7 de novembro de 2010

O vermelho é mais vermelho, o azul é menos azul, mas isso não tem importância

Pouparei o leitor da reprodução do mapa brasileiro, pintado de vermelho nos estados da Federação em que Dilma Rousseff, do PT, bateu José Serra, do PSDB, e de azul nas unidades do País em que se deu o contrário. A mídia o fez ad nauseam e, provavelmente sem querer, ajudou a desencadear até ondas de preconceito e intolerância na rede mundial de computadores contra o nordeste, região supostamente responsável pela vitória da candidata petista.

É um grande clichê dizer que os números normalmente escondem realidades concretas só perceptíveis quando sobre eles nos debruçamos. E justamente por ser um chavão é de se encarar com tristeza o fato de as análises terem deixado de tomar certos cuidados. A bem da verdade, alguns órgãos de imprensa, de forma tímida e um pouco atrasada, correram a lembrar que, mesmo se se desconsiderasse o nordeste, ainda assim Dilma venceria as eleições, mesmo que de forma extremamente apertada.

Abrindo parênteses, cabe lembrar o belo comentário do jornalista Rodrigo Vianna, advertindo-nos de que não se deve cogitar a ideia de se excluir a votação da região nordeste para dar maior legitimidade ao trunfo da petista. Em verdade, a legitimidade de sua eleição vem justamente do ótimo resultado que ela obteve em todo o País, inclusive - é óbvio - no nordeste.

Voltando à realidade que se esconde atrás dos números, não se descarte o fato de a candidata da coligação liderada pelo PT ter vencido também na região sudeste, com êxito extraordinário nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, com números rondando a casa dos 60%, um pouco a mais no primeiro e um tiquinho abaixo no segundo, situação que vem em reforço da desconstrução da tese que quer atribuir ao voto nordestino o sucesso de Dilma.

Além disso, melhor mapa seria aquele que trouxesse gradações de cores. Sim, pois em alguns estados o vermelho dilmista deveria vir em tons mais fortes, caso de Amazonas, Pernambuco e Bahia, por exemplo, onde alcançou mais de 70% dos votos válidos. O azul serrista, por seu turno, teria que vir mais enfraquecido em estados como Rio Grande do Sul, Goiás e Espírito Santo, lugares em que faturou com pouco mais dos 50% dos votos válidos.

A leitura simplista dos números impede, também, de se ver as nuanças de cada localidade. No estado de São Paulo, por exemplo, onde Serra foi vitorioso com respeitável vantagem, foi digna de nota a dianteira da presidente eleita em importantes municípios, como Osasco, São Bernardo do Campo, Mauá, Diadema, Ferraz de Vasconcelos, Poá, Franco da Rocha, Francisco Morato, Carapicuíba, Barueri e Itapecerica da Serra, todas na grande São Paulo, cidades marcadas por considerável pujança econômica, por um lado, ou tidas como cidades-dormitório, por outro, ou seja, Dilma Rousseff, ao que parece, empolgou de forma massiva boa parte da classe trabalhadora urbana do entorno da capital paulista.

De se realçar, também, o bom resultado da primeira mulher a se eleger presidente da República na região de Campinas, repetindo, aliás, êxito do primeiro turno, faturando em Sumaré, Hortolândia, Santa Bárbara D'Oeste e outras. Nesta área, mesmo Aloízio Mercadante navegou bem no primeiro escrutínio, na sua malfadada disputa pelo governo do estado.

Do lado de Serra, registre-se que, derrotado nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, foi o preferido em vários municípios fluminenses e mineiros, borrando fortemente de azul os majoritariamente avermelhados mapas dessas unidades da Federação. Em desfavor do tucano, destaque-se que não ganhou em nenhum município do Amazonas, o que é surpreendente se se levar em consideração os expressivos resultados que obteve nos nortistas Roraima e Acre.

Pois bem, senhores. Dentro de uma caixa há outra caixa. Pegue-se o mapa do Brasil, com seus estados tingidos de vermelho ou azul: tem-se parte da história. Em seguida, isole um dos estados e ver-se-ão seus municípios também pintados daquelas duas cores, indicando, portanto, que as opções não foram categoricamente hegemônicas. Mesmo sem os dados, arriscamo-nos a dizer que informações ainda mais contraditórias ou surpreendentes viriam se se isolassem os bairros ou distritos de cada cidade, e dentro deles tivéssemos acesso aos resultados das diferentes zonas e seções. Se me permitem mais um chavão, a questão é deveras complexa. E só!

Alguma análise, de cujo autor indesculpavelmente não me lembro, apontou muito bem que a eleição brasileira é na base do sufrágio universal, não representando as unidades da Federação nenhuma espécie de colégio eleitoral, como é o caso dos Estados Unidos. Como cada voto é um voto, e como leva aquele que consegue o maior somatório de sufrágios, pouca importância há se os eleitores vêm do Tocantins ou do Paraná, se é de Itabaiana ou de Belford Roxo, ou se é do bairro da Penha ou da Lapa do Rio de Janeiro, ou da Penha ou da Lapa de São Paulo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Depois do operário, a mulher

Muito se tem falado do sucesso da sexta eleição direta consecutiva para presidente da República Federativa do Brasil no pós-redemocratização. Com efeito, é prova viva da consolidação das instituições democráticas do País. O único senão do período talvez tenha sido o implemento do instituto da reeleição em 1997, com validade já para o então mandatário Fernando Henrique Cardoso, caso clássico de mudança de regra no meio do jogo. Tal mácula foi corrigida pela firme decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de rejeitar mudança constitucional a lhe permitir disputar um terceiro mandato, a despeito de a sua extraordinária popularidade indicar que ele poderia tê-lo tentado.

Lula era o operário de pouca instrução, sem experiência administrativa. Como assim, querer ser presidente da República, perguntavam em todas as eleições de que participara até 2002. Seu governo, porém, sai de cena agora em 2010 muito bem avaliado, com o Brasil gozando de respeito e reconhecimento internacional inéditos e com a figura pessoal do presidente vista como a de inquestionável líder mundial. Os que erraram feio na avaliação corrente até em 2002 não dão o braço a torcer e insistem em dar razão a Albert Einstein e sua famigerada frase que lamentava o fato de ser mais fácil quebrar um átomo que um preconceito.

Dilma Rousseff, a presidente eleita do Brasil, foi, por sua vez, vítima cruel da perseguição da mídia e da oposição, algumas vezes calcada em preconceitos que tentaram atingir justamente a sua condição de mulher: a divorciada, sem companhia de um homem, agressiva. E a agressividade, acredita-se, só cai bem nos homens. Aliás, a agressividade é, não raro, apontada como uma qualidade necessária dos políticos. E por ser característica mais "naturalmente" presente nos homens, logo as mulheres não são, "naturalmente", preparadas para a política; e se são agressivas, não são "genuínas" mulheres, por assim dizer.

A grande verdade é que muito pouca importância deveria ter o fato de o presidente da República ser operário ou professor universitário, tampouco deveria ser importante o fato de ser homem ou mulher. A relevância de tal discussão só se dá justamente por obra dos preconceituosos e machistas, cuja obstinada atuação acabou por colocar as questões da origem, da formação e do gênero no centro da pauta política do Brasil. Neste caldo de cultura, por fim, a eleição de uma mulher para o cargo máximo da República - logo após o operário - dá mais um passo rumo ao fechamento do ciclo da tão festejada solidez democrática do País.

Viva a mulher brasileira! Bem vinda, presidente Dilma!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Marina Serra

Duas constatações: a oposição política ao governo federal, representada pelo consórcio PSDB/DEM, tem andado um tanto fragilizada nos últimos anos; e a mídia tem preenchido essa lacuna, agindo como – talvez o principal - partido político de oposição.

A imprensa, por ter confessadamente ocupado esse espaço no campo político, parecia estar superestimando sua importância no processo sucessório do Brasil, crente que teria condições de pautar – ou interditar – o debate ao seu bel-prazer. Cometeram alguns erros nesse processo. Reconheça-se, todavia, que o monopólio midiático emplacou um acerto que foi capital para garantir o segundo turno. Estou falando do fato de ter preservado de sua ira a candidata do PV, a terceira colocada na eleição deste ano, Marina Silva.

Num primeiro momento, havia a percepção de que a senadora poderia ser útil para garantir um segundo turno – e isso no melhor dos mundos possíveis: tiraria votos da petista Dilma Rousseff, sem chegar a ameaçar o tucano José Serra, o preferido do baronato. O resultado, decerto, foi melhor que a encomenda e provavelmente superior ao que poderia pensar até o mais otimista dos oposicionistas.

Os meios de comunicação, serristas até a medula, foram por demais pragmáticos. Nada de criticar a candidata do PV, que quando ministra do meio ambiente do governo Lula era atacada por seu radicalismo ecológico, chegando a ser considerada a responsável pelos baixos índices de crescimento econômico que o Brasil apresentava até então (o tal do PIB maior somente que o do Haiti nas Américas), tudo por conta da intransigência em não conceder licenças ambientais e na atuação fiscalizatória firme do IBAMA sob suas ordens. Também abdicaram de atacar – ou ridicularizar – a evangélica Marina por certo fundamentalismo religioso que se opõe a Darwin e que bate de frente com demandas importantes na área dos direitos civis.

Chegamos a prever (link abaixo) que a vida da acreana somente seria difícil se ela em algum momento trouxesse dificuldades a Serra, o que não era de todo descartado em razão de ambos sinalizarem, desde o início, que teriam chances de disputar o eleitorado urbano, de classe média e de boa escolaridade. De fato a candidata verde empolgou esses setores, mas, para felicidade da mídia e dos adeptos de Serra, apenas tirando os votos que num dado momento pareciam estar no colo de Dilma Rousseff.

A imprensa sabia da importância de Marina Silva no segundo turno, preservando-a até o final do primeiro escrutínio. Já José Serra, com a falta de habilidade dos trapalhões da oposição política, atacou a ex-petista no debate da Rede Globo, chegando a acusá-la de conivente com o chamado mensalão. Lembremos que o tucano ficou parado no mesmo lugar durante uns dois meses, só chegando à segunda etapa da disputa presidencial por graça de "Santa Marina".

Pelo jeito não dá ainda para desprezar a perspicácia – e sorte – da imprensa quando o assunto é eleição presidencial no Brasil.

Leia também:
Marina, faça tudo, mas faça o favor

sábado, 18 de setembro de 2010

A "imprensa tiririca"

“Pior do que está não fica”.

“Você sabe o que faz um deputado federal? Nem eu. Vote em mim, que eu te conto”.

As frases são do candidato a deputado federal por São Paulo Tiririca.

Está cheio de gente supostamente “bem pensante” criticando a, até aqui, bem-sucedida campanha do cantor e humorista.

Deveria ser visto com mais naturalidade o aparente sucesso da postulação do candidato “palhaço”.

Tomemos as duas frases usadas em sua campanha, repetidas no início deste texto. Convenhamos: não devem ser raros os eleitores que se identificam com elas. E com razão.

A mídia passa o tempo inteiro demonizando a classe política. O Congresso Nacional – e os deputados, por óbvio – de tempos em tempos é massacrado por campanha negativa, generalizando-se comportamentos individuais. Ora, em última análise o recado é de que tudo não passa de uma porcaria e que, no fundo, os políticos são todos iguais. Pois bem, “se pior do que está não fica, então vai o Tiririca mesmo!”, é o que devem pensar inúmeros eleitores.

Quanto às funções de um deputado federal, a mídia bem que poderia contribuir com informações que explicassem as atribuições do cargo, até como forma de a população exercer maior controle e fiscalização sobre o trabalho daqueles a quem elege para a Câmara. Sentindo-se órfã do grupinho dos bem informados, boa parte dos eleitores pode mesmo esperar que Tiririca venha salvá-los da ignorância a que foi relegada por aqueles que poderiam ter algum interesse em instruí-los.

O fenômeno da candidatura de Tiririca tem muito a ver com despolitização estimulada pelos meios de comunicação, no seu empenho em criminalizar a atividade política.

Tiririca, com certeza, é uma espécie de “cacareco”, um mau candidato. Mais do que sintomática da desmoralização dos políticos, sua candidatura é expressão da péssima cobertura da atividade política feita pelos órgãos de comunicação.

Sugiro que passemos a chamar a mídia brasileira de “imprensa tiririca”

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Pharoah Sanders em São Paulo

Com um pouco de atraso, comento o show de Pharoah Sanders no Sesc Pinheiros, em São Paulo, no dia 22 de agosto de 2010.

Um dos nomes mais importantes da história do jazz, o saxofonista estadunidense apresentou-se acompanhado de um excelente time, formado por figuras respeitáveis como o seu conterrâneo Rob Mazurek e Maurício Takara.

A exemplo de outros jazzistas fundamentais que têm se apresentado em São Paulo nos últimos anos, a figura de Sanders também se mostrava um pouco debilitada pela idade, fazendo duvidar, de cara, da qualidade da performance que viria. Qual nada! Com todo o respeito, o velhinho manda bem demais! Com grande fôlego e com o timbre que faz lembrar seus discos do final dos anos 1960 e início dos 1970.

O mais legal de tudo foram os arroubos free aos finais de peças um tanto "orientais", místicas, contemplativas. Em suma, o show foi mesmo a cara dos melhores discos de Pharoah Sanders.

Para quem quer conhecer um pouco de Pharoah Sanders, abaixo temos uma faixa do LP Karma, lançado pela Impulse! em 1969, destacando o baixo de Ron Carter e os vocais de inflexão soul de Leon Thomas. A canção chama-se "Colors" e tem autoria de Sanders e Thomas.

sábado, 21 de agosto de 2010

Cartinhas

Nesta semana que finda recobrei uma velha e estéril mania: a de encaminhar mensagens para órgãos de imprensa. Mandei algumas missivas eletrônicas para a Folha de São Paulo e para a rádio CBN. Que eu saiba, apenas uma das "cartas" foi publicada na versão eletrônica do Painel do Leitor, da Folha.

Dividirei com vocês as impressões que enviei para os órgãos supracitados. Como se sabe, temos que buscar ser sucintos se quisermos ver nossas mensagens publicadas. Por isso, não há, evidentemente, nenhum aprofundamento nos temas tratados - até porque talvez não tivéssemos mesmo condições para tanto!

Eleições estaduais - São Paulo
Nesta semana ocorreu o debate Folha/UOL com os candidatos ao governo estadual, com direito a comentaristas do jornal sobre a sucessão, parecendo achar normal o quadro que traz Geraldo Alckmin (PSDB) bem à frente de Aloízio Mercadante (PT) nas pesquisas. A Folha dá como favas contadas a eleição do candidato tucano, tanto que chegou a publicar um editorial de nome "mesmice paulista". Abaixo, a "cartinha":

Geraldo Alckmin tem hoje em São Paulo o único capital político que José Serra tinha no Brasil há cerca de um ano: o recall.
Em nível federal, o destaque dado pela mídia à disputa presidencial colocou os pingos nos “is”. Talvez sem querer, a imprensa acabou mostrando que Serra não passa de um “trololó ambulante”, ao passo que Dilma Rousseff é uma mulher preparada e conhecedora do Brasil. Resultado: a petista sobe enquanto o tucano desce.
Já em São Paulo o debate acerca da pendenga estadual está – para não dizer interditado pelos meios de comunicação – obscurecido pela corrida ao governo federal. Só isso para explicar a “mesmice paulista”, com a dianteira do candidato de um governo que, depois de 16 anos, deixa como legado uma educação catastrófica, transporte público em colapso e a saúde e segurança em frangalhos.
O (e)leitor precisaria ser mais bem informado sobre o pleito no estado de São Paulo.


Ingratidão com FHC
No debate Folha/UOL com presidenciáveis, José Serra (PSDB) acusa Dilma Rousseff (PT) de ser ingrata com os anos FHC. Pilheriei com a cara de pau do tucano.

O presidenciável José Serra, no debate online Folha/UOL, chamou Dilma Rousseff de ingrata por ela não reconhecer supostos avanços dos anos FHC.
Ora, foi o Serra candidato a presidente em 2002 que tentou se esquivar do governo de Fernando Henrique Cardoso, do qual participara como ministro desde o começo. Estratégia, aliás, que viria a ser repetida por Geraldo Alckmin em 2006.
Agora, no pleito deste ano, o jingle da campanha do "Zé" exalta a era Lula, em vez de lembrar os tempos de Fernando Henrique.
Portanto, em matéria de ingratidão com FHC ninguém bate o candidato Serra!


É a Folha que infantiliza os seus leitores
Comentário sobre o editorial Pai e Mãe, de 19.08.2010:

A Folha, em vez de ter a coragem de admitir que apoia uma das candidaturas à presidência da República, aproveita o editorial “Pai e Mãe” para tentar, covardemente, desqualificar a candidata Dilma Rousseff.
Ao buscar sustentar sua opinião, o jornal desrespeita a economista, fazendo pouco caso de sua luta contra a ditadura militar, dos seus cargos como secretária municipal e estadual, ministra de Estado e personagem relevante da articulação política no bem-sucedido governo Lula, especialmente no segundo mandato.
Tomando de empréstimo a elegância e alguns argumentos de um Sérgio Buarque de Holanda, o – apesar de tudo - bem escrito editorial vai fundo demais ao tentar colar a pecha de antirrepublicana na estratégia petista que usa a metáfora da “mãe” para falar de Dilma.
Pois é a imprensa – de braços dados com a oposição – que tem tentado, nesses anos todos, ora transformar a petista numa figura manipulável, sem vontade própria, do tipo que se deixa levar, ora qualificá-la como durona, mandona, às vezes até autoritária. Convenhamos, nada mais parecido com nossas mães do que isso!
Com um pouco mais de, digamos, profundidade filosófica, o editorial da Folha apenas chancela parte das erráticas estratégias da frente serrista, mostrando, assim, que, ao contrário do que afirma, tem lado nesta campanha. Por fim, o jornal é que infantiliza os seus leitores, achando que eles não têm inteligência para perceber isso.


Alguém conhece "de verdade" o Serra?
Missiva encaminhada à Folha, estranhando críticas de Eliane Cantanhêde à candidata Dilma Rousseff, por ser ela supostamente uma incógnita, ao passo que Serra todos sabem bem quem é. Não há negar que a colunista da Folha escolheu um dos piores momentos para fazer tal tipo de afirmação em favor do tucano!

Em sua coluna “Lula lá ou Lula cá em 2011?”, Eliane Cantanhêde se mostra cheia de dúvidas de quem realmente seria Dilma Rousseff e do que se poderia esperar de um eventual governo dela – não obstante os ataques que vem desferindo à ex-ministra nestes anos todos nos fizessem pensar que, ao contrário, ela conhece a candidata petista bem demais!
Mas o principal não é isso. O mais intrigante foi a colunista falar que se sabe muito sobre José Serra. Interessante! Desse jeito ela pode até ser chamada para ajudar na campanha do tucano, haja vista que muitos dos correligionários dele parecem já não saber quem de fato é Serra.
Com efeito, qual Serra conhecemos bem? O que critica de forma dura o governo Lula ou o que tenta se aproveitar da popularidade do presidente no horário eleitoral? O que acusa Dilma de ingrata por não reconhecer avanços no governo FHC ou o candidato acostumado – desde 2002 – a esconder o ex-presidente nas suas campanhas? O que tenta se apropriar dos remédios genéricos ou aquele que admite ter sido apresentado ao programa por um companheiro de partido?
Falar que se conhece bem José Serra nessa altura do campeonato,quando o próprio tucano se perde nas suas contradições, é o tipo de postura ingênua a que jornalistas profissionais não deveriam ter direito.


Liberdade de imprensa e liberdade de expressão
Mensagem encaminhada à rádio CBN, em razão das platitudes da comentarista Lucia Hippolito, no dia 20.08.2010:

Ouvi hoje o comentário de Lucia Hippolito, no “por dentro da política”, sobre o compromisso dos candidatos à presidência da República com a liberdade de expressão.
Fiquei esperando ansiosamente que ela puxasse a orelha do candidato José Serra, que fica agredindo jornalistas da TV Brasil, um candidato a presidente que não responde diretamente às perguntas que lhe são feitas, que tenta desqualificar os entrevistadores, que acusa blogs independentes de serem “sujos” e engordados com verba federal. A propósito, os tais “blogs sujos” a que ele se recusou a nominar, por acaso podem ser alijados do sagrado direito à liberdade de expressão? Espero que a grande mídia se insurja contra essa postura autoritária do ex-governador de São Paulo!
Achei bastante oportuna a lembrança, por parte de Lucia, de que a liberdade de expressão se sobrepõe à de imprensa, informação que a mídia normalmente sonega ao público, antes querendo fazer que pensemos ser a liberdade de imprensa a própria liberdade de expressão. Por ter certamente contrariado seus patrões neste particular, Lucia merece nossos entusiasmados parabéns!
A este propósito, é muito interessante o “respeito” do candidato do PSDB também com a liberdade de expressão strictu sensu dos cidadãos. Não faz muito, no interior de São Paulo, o tucano chamou um manifestante de “energúmeno”, com certeza inspirado pela sua cria (esse, sim, um poste) Gilberto Kassab – provavelmente outro grande defensor da liberdade de expressão! – que expulsou um trabalhador de um espaço público aos gritos de "vagabundo".
Aliás, energúmeno e vagabundo é o mínimo que se fala do presidente Lula nas seções de comentários de sítios eletrônicos dos jornais, que, defensores da liberdade de expressão que são, permitem sem nenhum pudor esse tipo de descalabro. Puxa vida, e o autoritário do Lula não faz nada?!?! Como pode uma coisa dessas?!
Com tudo isso, causa estranheza a preocupação de Lucia com alguma espécie de, digamos, “ímpeto censor” do partido da candidata Dilma Rousseff, o PT. Na hora em que ela disse isso cheguei a pensar: será que integrantes do Partido dos Trabalhadores ligam para os barões da mídia pedindo a cabeça de jornalistas?
De qualquer forma, é bom saber que temos tanta gente defendendo a liberdade de expressão no Brasil, e que podemos falar de tudo, de preferência dentro dos limites das responsabilidades legais, é claro. Se bobear, podemos falar até do preço dos pedágios nas rodovias paulistas!

domingo, 15 de agosto de 2010

Ação e reação

A presença firme de Dilma Rousseff no Jornal Nacional de 9 de agosto de 2010, respondendo de forma segura aos ataques desferidos pelo casal apresentador do programa, pegou de calças curtas não somente os políticos da oposição, como também aqueles que fazem a "verdadeira oposição" no Brasil, a saber, os dedicados escribas da mídia.

Durante todo o tempo, representantes da oposição (política e midiática) vinham apostando em tropeços da candidata do PT quando tivesse, na TV, que se deparar com o contraditório. O desempenho apenas razoável que ela teve no debate da Band, muitíssimo longe de ser o desastre com que muitos sonharam, não deixou de dar algumas esperanças às hostes oposicionistas. Daí talvez a rápida reação contra a boa participação da petista no principal telejornal do País.

Dora Kramer e as "mentiras" sobre a inflação de 2002
Em coluna de O Estado de São Paulo de 11 de agosto de 2010, a jornalista Dora Kramer afirma que Dilma "mentiu ao se referir a inexistente descontrole inflacionário em 2003", no JN. Em verdade, a colunista quis dizer 2002, o último ano do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Pois é. Dilma não mentiu, Dora. Pelo menos não "necessariamente". Em 2002, para uma meta de 3,5% ao ano, a inflação efetiva, pelo IPCA, foi de 12,53% ao ano, ou seja, já passada a sempre temível casa dos dois dígitos. Disse eu que Dilma não "necessariamente" mentiu, porque é, com efeito, uma questão subjetiva considerar 12,53% ao ano como uma inflação descontrolada. Quero com isso dizer que não estranharia ouvir alguém que não considerasse pouco mais de 12% de inflação como exemplo de descontrole de preços. Lembro, no entanto, que não foram raros nos últimos anos o terror perpetrado pela mesma imprensa de Dora Kramer sempre que os índices de inflação anualizados ultrapassavam em décimos de ponto percentual o centro da meta estipulada pelo Banco Central - eu disse o "centro" da meta e não a meta em si. Imagino que uma boa parcela dos leitores hoje teria ataque cardíaco com uma inflação de 12,53%!

Quem quiser conferir os números da inflação de 2002 e compará-la com os de outros anos, ainda nos anos FHC e já na era Lula, favor clicar aqui: http://www.bcb.gov.br/Pec/metas/TabelaMetaseResultados.pdf

Por falar em entrevistas no Jornal Nacional, guardo bem na memória a vez do então candidato Lula em 2002. Uma das perguntas feitas por telespectadores versava justamente sobre a inflação, que já assustava no período de campanha. No debate final com José Serra, também na Globo, uma das convidadas também perguntou aos postulantes sobre a inflação daquela época, acrescentando que "estava muito preocupada". Pelo jeito, o dragão só não fazia parte dos medos de Dora!

E perguntar não ofende: se é verdade que, em 2002, com mais de 12,5% de inflação, a coisa não estava descontrolada, será que, quando se faz um carnaval acerca de qualquer singelo aumento de preços, a imprensa no fundo não quer apenas forçar a elevação dos juros? Com a palavra, a jornalista Dora Kramer.

Miriam Leitão procurando culpados
O Blog Cidadania, de Eduardo Guimarães, comentou e reproduziu texto de Miriam Leitão, publicado no jornal O Globo também em 11 de agosto de 2010, igualmente sobre a participação de Dilma Rousseff no telejornal campeão de audiências e seguindo a mesma trilha de Dora Kramer. Veja o post do Eduardo aqui: http://www.blogcidadania.com.br/2010/08/historias-do-pig-para-boi-dormir/

Miriam esperneia, mas, de certo modo, admite que a inflação na casa dos 12% de 2002 era algo, por assim dizer, "fora do script", para não dizermos fora do controle, haja vista que ela também rechaça essa tese - justo ela, que é das que mais veem inflação em qualquer solucinho de preços! Todavia, a culpa do aumento de preços não era do governo do presidente FHC, afirma a jornalista, mas sim do candidato e presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, que, amedrontando o mercado, provocou a disparada nos preços.

Eis uma tese risível e que expõe o amadorismo dos jornalistas brasileiros. A coisa ficaria mais fácil se eles admitissem seu partidarismo. O problema é que tentam posar de imparciais. Estranho é não se atentarem às suas contradições e, pior ainda, é acharem que o leitor é estúpido o suficiente para não perceber.

Veja bem, caro leitor: quantas vezes já não vimos reverberar a tese de que todo o sucesso do governo Lula é, no fundo, mérito de FHC? Pois bem. A mim me parece um tanto paradoxal: o que é bom no governo Lula deve ser creditado a Fernando Henrique Cardoso, mas o que foi desastroso no ocaso do governo FHC foi culpa do Lula?!

Respondam-me: como levar uma colunista dessas a sério?

Josias de Souza não pode
O experiente repórter e blogueiro da Folha de São Paulo Josias de Souza foi escalado para analisar o desempenho dos presidenciáveis na série de entrevistas a William Bonner e Fátima Bernardes. Já no dia 10 de agosto de 2010, o jornalista acusou a preferida de Lula de tergiversar sobre assuntos importantes, especialmente acerca de alianças estranhas do PT, notadamente com gente como o presidente do Senado Federal, José Sarney.

Acho extremamente divertido quando vejo alguém dos quadros da Folha pegando no pé de Sarney. É que o bigodudo conta com uma coluna cativa na nobilíssima página de opinião do jornal há mais de década. É de estranhar que o mesmo periódico que abriga gente tão impoluta e desinteressada como um Josias de Souza abra espaço tão nobre para figura tão desprezível quanto o ex-presidente da República José Sarney.

Em verdade, o imortal Sarney, mais do que aliado de Lula e Dilma, é, em verdade, um quase colega não somente de Josias, mas de Clóvis Rossi, Eliane Cantanhêde, Fernando Barros e Silva etc. A diferença do Sarney para o Josias, na corporação Folha da Manhã S.A., é que o maranhense conta com muito mais liberdade para escrever, podendo até, como no seu artigo da sexta-feira 13 de agosto de 2010, falar de um certo "populismo midiático". Já o Josias, tem que medir um pouco mais as palavras, sempre pensando em não desagradar o patrão.

Enfim, sem tergiversações: deixa a Dilma se aliar também ao seu colega Sarney, meu caro Josias!

Leia também:
Os 6 (seis) anos do Plano Real
Imprensa comum

terça-feira, 27 de julho de 2010

Duas palavrinhas sobre Colômbia e Venezuela

Já na contagem regressiva de seu exitoso governo na Colômbia, o presidente Alvaro Uribe busca oportunidades de protagonismo, apresentando acusações requentadas contra a Venezuela de Hugo Chávez. Segundo o governo colombiano, Chávez estaria dando guarida, em seu território, para guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). É de se estranhar tal acusação nessa altura do campeonato. Dois pontos, pouco ou nada abordados, demonstram que a ofensiva colombiana, apoiada pelos Estados Unidos e pelos impérios midiáticos sul-americanos, não pode ser levada muito a sério.

Uribe linha-dura?
A extraordinária popularidade do presidente Alvaro Uribe - somente comparada à do brasileiro Lula - é atribuída em grande medida ao estilo linha-dura com que tratou a questão da segurança na Colômbia, notadamente à forma como enfrentou as FARC. Seria de se presumir, em vista de seu sucesso como presidente, que obteve êxitos tais contra a atuação do grupo, de modo a não perder o sono justo agora, no ocaso de seu governo. Ou bem as FARC foram derrotadas por Uribe - ou ao menos tiveram suas ações suficientemente controladas - ou bem não foram. Caso sim, as recentes acusações sobre a Venezuela não passam de um ensaio uribista para continuar influenciando a política interna colombiana, com o fim de já ofuscar, preventivamente, o presidente novo, a propósito seu aliado; caso não, talvez Uribe tenha sido somente um exemplo bem sucedido de marketing político, ou seja, sua "linha" pode não ter sido tão "dura" assim. Trata-se de um dilema que mereceria melhores explicações.

Evasores e invadidos
Há outro aspecto pouco explorado - e igualmente ridículo - nessa pendenga: cabia à Colômbia, a princípio, ter evitado que supostos guerrilheiros das FARC evadissem de seu território e acabassem - também supostamente - invadindo o território venezuelano. Repisemos que, ao falar de Colômbia, estamos tratando de um governo famoso pela maneira séria com que cuida da questão da segurança e orgulhoso de seu sucesso no combate à guerrilha. Ora, se é assim, como podem eles permitir que integrantes do grupo armado cruzem suas fronteiras em direção à Venezuela? Lembremos que, aqui no Brasil, dias atrás, o candidato José Serra conseguiu fazer um pouco de barulho ao interpelar publicamente o presidente da Bolívia, Evo Morales, por, segundo ele, não controlar de forma adequada os limites de seu país, permitindo o livre fluxo de traficantes e de suas "mercadorias" em direção ao nosso Brasil. Pois então: pela lógica "serrista", tão bem recebida na mídia e em setores da classe média brasileira, o governo venezuelano é antes vítima da inépcia das autoridades da Colômbia, não o contrário! Mais uma vez, cabem as indagações: onde está a linha dura colombiana? E o sucesso no combate às FARC, é de verdade ou é só um blefe sustentando pela tão bem integrada grande mídia sul-americana?