domingo, 29 de maio de 2011

Gil Scott-Heron (1949-2011)


O cantor, compositor, poeta Gil Scott-Heron faleceu no último 27 de maio, aos 62 anos, em Nova Iorque.

Em breve, vamos editar esta postagem, para falar um pouco mais dessa figura tão importante para a música do século XX - Gil Scott foi figura fundamental para a formação do rap e do hip-hop, e é grande expoente na seara da música socialmente engajada.

Por enquanto, vamos curti-lo, abaixo, interpretando a clássica "The Revolution Will Not Be Televised", do álbum Pieces of a Man, de 1971.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Moralismo seletivo

A história é verídica. Aqui, contada na mais possível fidelidade, até pelo menos onde a memória alcança.

Era 2007. O País estava às voltas com escândalo envolvendo o senador por Alagoas Renan Calheiros. No trabalho, havia uma amiga revoltadíssima com os rumos do caso. E ela se mostrava especialmente indignada com o então presidente Lula, por suas ligações com o alagoano.

-E esse Renan, hein? - dizia ela, dirigindo-se a mim - Começou lá atrás com o Collor, agora está com o Lula. Não me surpreende. Esperar o que desse Lula? Tudo a ver. Collor é Lula e Lula é Collor. E os dois estiveram com o Renan, cada um no seu tempo.

-Pois é - disse eu -, esse Renan é escroto mesmo. E pensar que foi ministro da Justiça. Como alguém pode nomear um cara desses ministro da Justiça?

-Exatamente. Mas é como eu disse: esperar o que desse Lula? Parece piada. Só podia ser coisa do Lula mesmo, colocar o Sr. Renan Calheiros no importante cargo de ministro da Justiça.

-Peraí. Ele não foi ministro da Justiça de Lula não.

-Ah, sim, claro - ela obtemperou, meio constrangida. Foi ministro da Justiça no goveno Collor - disse, como se estivesse arriscando. Ora, mas dá no mesmo. Afinal, Collor é Lula e Lula é Co...

-Fernando Henrique Cardoso - interrompi.

-Desculpa, não entendi - disse ela, enrugando a testa, sem passar muita certeza se não tinha entendido mesmo.

-O hoje senador Renan Calheiros exerceu o emblemático cargo de ministro da Justiça no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

-Desculpa, mas deve haver algum engano. Tenho lido muita coisa no jornal sobre o caso Renan e não me lembro de ter visto que ele foi ministro de Fernando Henrique. Tem certeza que não foi mesmo do Lula ou do Collor? Você deve estar confundindo as coisas. Ministro da Justiça do Fernando Henrique foi aquele cara lá... É... O... Puxa vida! Como é o nome dele mesmo?

-Teve uns caras bons - ajudei eu. O José Carlos Dias, o Miguel Reale Jr...

-Miguel Reale Jr. Isso mesmo. Era esse que eu queria lembrar. Mas Renan Calheiros? Francamente! Ele não foi ministro de nada do FHC. Pelo menos eu não me lembro... E nem ouvi nesses últimos dias ninguém falar disso. Acho que é você que está querendo tumultuar. Só isso.

"Tumultuar, eu?", pensei. Em vez de ficar discutindo, fiz uma pesquisa rápida na internet e em poucos minutos descolei uma lei qualquer (acho que foi a Lei Nº 9.642, de 25 de maio de 1998) em que constava o nome de Fernando Henrique Cardoso, presidente da República, seguido do de Renan Calheiros, ministro da Justiça. Entreguei a impressão nas mãos dela.

Ela olhava fixamente para o papel, parecendo não acreditar. Repetia em voz baixa, como querendo ter certeza de que não estava sendo vítima de uma fraude. De repente, começou a falar com dobrada rispidez.

-Ora, meu caro, que importância tem isso? O que vale é o "hoje", o "agora", entendeu bem? E hoje, agora, Renan é aliado de Lula, e é só isso que conta. Estão lá ó - disse, fazendo sinal com os dedos - juntinhos. Unha e carne. Aí você me vem com esse papo de ministro de Fernando Henrique... Que importância tem isso? Faça-me um favor. Isso é fugir do problema. FHC está no passado, e a gente tem mais é que pensar no hoje. E hoje o Renan está com o Lula. Entenda bem isso: a ligação de Renan com FHC é passado. Pas-sa-do. E o passado não tem importância nenhuma nesse caso.

-Mas se não me engano, o Collor é mais "passado" do que o Fernando Henrique. E até cinco minutos atrás esse "passado" parecia ter muita, mas muita importância.

Nessa hora minha amiga meneou a cabeça e voltou a trabalhar. Eu também. Aliás, trabalhar era o que deveríamos estar fazendo durante todo o tempo em que debatemos sobre o homem que foi ministro da justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso, no período de 07.04.1998 a 19.07.1999.

Lembrei dessa história acompanhando o caso Palocci e vendo os diferentes pesos e medidas da mídia nessa confusão.

A situação se parece muito.

Como não poderia deixar de ser, em 2007 estava louco da vida com o Sr. Renan Calheiros; mas não suportava ver a hipocrisia que envolvia o caso - e a relatada acima era apenas uma delas.

E agora, em 2011, também estou bronqueadíssimo com o Sr. Palocci, figura que adoraria ver longe do governo o quanto antes. Mas que é dureza presenciar a diferença do tratamento que lhe é dado na mídia quando comparado ao dispensado a outros figurões "competentes" da nossa República - inclusive com o mesmíssimo talento para o enriquecimento em prazo tão exíguo -, ah, isso é!

sábado, 14 de maio de 2011

Uma opinião... Diferenciada!

Este diferenciado escriba não se surpreendeu com o recente ocorrido acerca da estação do Metrô no bairro de Higienópolis.

Se alguém ainda não sabe da história, o Metrô de São Paulo mudou os planos de construir uma estação no bairro que abriga gente como FHC - mais precisamente na famosa Avenida Angélica - depois de pressões da Associação Defenda Higienópolis. Entre outras coisas, os moradores temiam o crescimento de “ocorrências indesejáveis” ou de presença de "gente diferenciada" em tão nobre localidade, por conta de estação naquele belo logradouro.

O preconceito das chamadas elites com os pobres e suas práticas segregacionistas (o nome do bairro é Higienópolis, né?) não chegam a surpreender. Muita gente de bom coração, porém, ficou sem entender por que não querer uma estação de metrô bem localizada no próprio bairro em que vive. Vá lá que não se goste de pobre, mas ter estação de metrô vale o sacrifício, devem ter pensado alguns até em tom de brincadeira.

Este blogueiro, todavia, ficou meio indiferente. Em realidade, vimos nessa história apenas a materialização de ideia polêmica que corajosa e heroicamente defendemos, sofrendo oposição quase geral.

É praticamente um lugar comum afirmar-se que, em São Paulo, a galera usa freneticamente o automóvel como alternativa às péssimas condições do transporte público. O autor destas mal digitadas, por outro lado, assegura que ocorre o contrário: o transporte coletivo de São Paulo é uma porcaria porque as pessoas preferem o transporte individual.

Não resta dúvida. O leitor, se puder, que numa oportunidade procure, deseducadamente, ouvir conversas alheias no metrô, nos trens, nas filas de ônibus. Sempre ouvirá alguém bem apertado na lata de sardinha lamentando-se de "ainda" não ter um carro, ou reclamando porque é dia do rodízio, ou maldizendo o fato de o automóvel estar no conserto. Para a maioria, a solução, portanto, não está na melhora do transporte público, mas sim na aquisição, conserto ou melhora do carrão particular.

A preferência do paulista em geral - e do paulistano em particular - pelo carro em detrimento dos meios de transporte coletivo também se assoma pelas grandiosas obras viárias e pela renitente popularidade de políticos como Paulo Maluf e Adhemar de Barros. Para eles, governar era algo do tipo... É... Abrir estradas.

Por incrível que pareça, o jornal Folha de São Paulo, não há muito, em editorial sobre a questão do transporte e locomoção na megalópole, de certa maneira nos repetiu, embora de forma mais "tucana", criticando a propensão paulistana por buscar soluções individuais para os problemas coletivos. No caso deles, todavia, a preocupação deve ser porque agora o pobre está comprando carro!

Neste caldo de cultura, os investimentos em transporte público tendem a ser pífios mesmo, já que para o político será bem melhor realizar obras vistosas que sirvam aos carros, agradando por conseguinte o seu não raro solitário ocupante, do que trabalhar em prol do transporte coletivo, cujo usuário não vai dar muita bola.

Tudo isso só para dizer que o preconceito da elite paulistana contra os pobres não causa surpresa em ninguém mesmo. Já no nosso caso, indo um pouco mais além, não nos surpreende nem o fato de os moradores do principado de Higienópolis não quererem estação de metrô perto de casa.

Se me permitem, tal estupidez não me causaria estranheza mesmo se viesse de algum bairro um pouco mais pobre... Resumindo, sou diferenciado mesmo!

domingo, 1 de maio de 2011

Preconceito é a única resposta

Em janeiro de 2010,escrevi texto neste espaço, exortando aos nossos raros - quase inexistentes - leitores que nos respondessem sobre tema que nos intrigava desde 2003. Segue abaixo trecho daquele post:

DOMINGO, 3 DE JANEIRO DE 2010
Responda-me


(...)

Nosso questionamento refere-se ao – talvez - mais comum reparo ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os seus principais críticos não costumam contemporizar: o governo Lula é um desastre. Já o de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, foi uma maravilha. Até aí tudo bem. Além de ser questão de gosto, temos nisso um pouco da beleza da democracia: a maioria esmagadora dos brasileiros prefere o governo de Lula, mas há uma minoria que entende terem sido as coisas melhores durante o mandato de FHC. Não há, em absoluto, nenhum problema quanto a isso.

O grande problema reside no fato de que, segundo os críticos – até mesmo os mais respeitáveis – de Lula, seu governo é uma mera cópia ou seguimento do de FHC. Em linhas gerais, é como se se dissesse que Lula nada mais faz do que o seu antecessor ou alguém de seu partido faria caso estivesse hoje investido da posição de presidente da República. Muitíssimo bem. Trata-se de um modo de enxergar e uma opinião de alguma maneira bem sustentada. O problema, repitamos, é tal opinião advir de pessoas que não apenas são críticas a Lula, mas, mais do que isso, são entusiastas do governo que o antecedeu.

Vamos à pergunta!

Se FHC foi tão bom, e Lula apenas o imita, como pode o governo Lula ser considerado tão ruim justamente pelos principais admiradores do sociólogo? Ou ao contrário: se o governo Lula é tão ruim, e é mera cópia de seu antecessor, como pode este ser tão idolatrado pelos críticos do metalúrgico? Não seria mais lógico admitir que o governo Lula é bacaninha, afinal apenas segue o governo de seu antecessor, considerado fantástico? Ou, de outro modo, não seria mais razoável admitir que o governo Lula é ruim, porque é igualzinho ao de FHC, mas o de FHC, por sua vez, também não prestou? Em resumo, como pode Lula ser ruim, FHC ser bom, mas Lula ser igual FHC?

Deixamos a pergunta no ar. Ficaríamos gratos a quem se habilitasse a dar a resposta. Como já dissemos, interessante seria uma resposta mesmo, não uma opinião. Ter um juízo sobre o assunto, opinar por que há pessoas que odeiam o governo Lula, adoram o de FHC e tentam justificar os bons resultados de Lula alegando que este apenas imita o tucano, não é das tarefas mais difíceis; respostas de verdade, simples e diretas, no entanto, tendem a ser raras e, via de regra, são trabalhosas.


Somente dois abnegados leitores responderam. Ficamos aguardando mais, sem sucesso, até por conta da já mencionada escassez de leitores - do que não reclamamos: parafraseando Groucho Marx, jamais seguiria um blog que fosse escrito por mim!

Mas eis que nesta semana começa a circular texto de Luís Fernando Veríssimo sobre o tema, estimulando-me a recuperar o meu velho post do trecho acima destacado.

E é do Veríssimo mesmo. Bom que se diga, pois o escritor gaúcho - juntamente com Arnaldo Jabor e Zíbia Gasparetto - é dos mais "falsificados" em mensagens que circulam na internet.

Vamos botar na íntegra o texto de Luís Fernando Veríssimo, da forma como publicado no site Conversa Afiada:


Luis Fernando Verissimo: sobre Lula, FHC e a classe média


Diálogo urbano, no meio de um engarrafamento. Carro a carro.


— É nisso que deu, oito anos de governo Lula. Este caos. Todo o mundo com carro, e todos os carros na rua ao mesmo tempo. Não tem mais hora de pique, agora é pique o dia inteiro. Foram criar a tal nova classe média e o resultado está aí: ninguém consegue mais se mexer. E não é só o trânsito. As lojas estão cheias. Há filas para comprar em toda parte. E vá tentar viajar de avião. Até para o exterior — tudo lotado. Um inferno. Será que não previram isto? Será que ninguém se deu conta dos efeitos que uma distribuição de renda irresponsável teria sobre a população e a economia? Que botar dinheiro na mão das pessoas só criaria esta confusão? Razão tinha quem dizia que um governo do PT seria um desastre, que era melhor emigrar. Quem pode viver em meio a uma euforia assim? E o pior: a nova classe média não sabe consumir. Não está acostumada a comprar certas coisas. Já vi gente apertando secador de cabelo e lepitopi como e fosse manga na feira. É constrangedor. E as ruas estão cheias de motoristas novatos com seu primeiro carro, com acesso ao seu primeiro acelerador e ao seu primeiro delírio de velocidade. O perigo só não é maior porque o trânsito não anda. É por isso que eu sou contra o Lula, contra o que ele e o PT fizeram com este país. Viver no Brasil ficou insuportável.


— A nova classe média nos descaracterizou?


— Exatamente. Nós não éramos assim. Nós nunca fomos assim. Lula acabou com o que tínhamos de mais nosso, que era a pirâmide social. Uma coisa antiga, sólida, estruturada…


— Buuu para o Lula, então?


— Buuu para o Lula!


— E buuu para o Fernando Henrique?


— Buuu para o… Como, “buuu para o Fernando Henrique”?!


— Não é o que estão dizendo? Que tudo que está aí começou com o Fernando Henrique? Que só o que o Lula fez foi continuar o que já tinha sido começado? Que o governo Lula foi irrelevante?


— Sim. Não. Quer dizer…


— Se você concorda que o governo Lula foi apenas o governo Fernando Henrique de barba, está dizendo que o verdadeiro culpado do caos é o Fernando Henrique.


— Claro que não. Se o responsável fosse o Fernando Henrique eu não chamaria de caos, nem seria contra.


— Por quê?


— Porque um é um e o outro é outro, e eu prefiro o outro.


— Então você não acha que Lula foi irrelevante e só continuou o que o Fernando Henrique começou, como dizem os que defendem o Fernando Henrique?


— Acho, mas……………


Nesse momento o trânsito começou a andar e o diálogo acabou.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Beba Coca-Cola

No monótono O papel da oposição, o altamente repercutido texto de Fernando Henrique Cardoso para a revista Interesse Nacional, em certo momento ele sugere que a crítica oposicionista deva ser repetitiva, à moda da publicidade que insiste em bordões do tipo "beba Coca-Cola".

Por acaso - ou não tão por acaso assim - vêm sendo veiculadas no rádio e na TV as inserções publicitárias a que tem direito o PSDB. Uma trata de inflação, a outra de Copa do Mundo e aeroportos. Como demonstração de que o PSDB pretende continuar recusando-se a andar com as próprias pernas, as peças apresentam-se claramente amparadas em notórios bombardeios midiáticos dos últimos meses.

Terrível inflação
Num dos spots, uma mulher reclama da inflação, que teria voltado a nos assombrar, sob um certo desdém do governo federal, que estaria brincando com o tema, decerto em referência a uma certa "jogada de toalha" do Banco Central, que já deu a entender que, neste 2011, não vai lutar com unhas e dentes para trazer os números da inflação para o chamado centro da meta.

Já se vem, desde o final do governo Lula, ouvindo que a inflação teria fugido do controle das autoridades monetárias do País. De tanto que se manda beber Coca-Cola, acabamos bebendo; de tanto que se bate nessa tecla da inflação fora de controle, vamos nela acreditando e - pior - sem perceber vamos contribuindo para sua resiliência, correndo o risco até mesmo de fazer a profecia se autorrealizar.

Em 2010, a inflação efetiva foi de 5,9%, acima do chamado centro da meta, a saber, 4,5%, mas abaixo de sua margem superior de tolerância, que é de dois pontos percentuais, ou seja, 6,5%. Ainda que inquestionavelmente preocupante, o resultado do último ano Lula esteve muito longe de poder ser classificado de inflação fora do controle. E mesmo em ascensão, o acumulado dos últimos 12 meses ainda não rompeu o limite superior da meta deste ano de 2011, que também é de 6,5%.

Em meio ao terreno devidamente adubado por reportagens irresponsáveis, quase a transformar a inflação brasileira numa espécie de tsunami japonês, a propaganda peessedebista acaba parecendo apenas um alerta bem-intencionado ao governo brasileiro, ao mesmo tempo em que conclama os cidadãos brasileiros a ficarem vigilantes ao afrouxamento das autoridades no combate ao "dragão". Não se negue que é este o papel da oposição e que a atenção aos temas mais sensíveis à população é até bem-vindo. Problemáticas mesmo são as falácias contidas na estratégia.

Na propaganda, a personagem, devidamente indignada, pergunta o que "esse pessoal andou aprontando", e garante que a inflação era um mal já resolvido desde 1994.

A primeira parte quer claramente surfar em certo discurso único da mídia, hegemônico até cerca de dois meses atrás, de que suposto excesso de gastos do governo Lula - principalmente nos seus últimos dois anos - estaria na base da "terrível inflação" com que ora estamos deparando. Todavia, para azar dos tucanos, nem mesmo a sua mídia aliada vem se apoiando muito unanimemente nessa afirmação, já aceitando o fato de o inegável repique de preços ter a ver com os valores das commodities, majorados em razão da grande demanda mundial, o que, aliás, tem provocado quadros inflacionários em todo o planeta. O calendário estipulado pelo TSE fez, neste particular, a propaganda do PSDB perder o timing de tal crítica.

Quanto ao problema resolvido desde 1994, talvez convenha fazer uma visita ao histórico de metas de inflação, disponível no sítio do Banco Central do Brasil, com os efetivos resultados do IPCA desde 1999. De se relembrar que 2010, último ano do governo Lula, encerrou com acumulado de 5,91%. Vê-se que em período governado pelo PSDB, de 1999 a 2002, o ano de inflação mais baixa alcançou 5,97%, em 2000; completando o período tucano temos: 8,94% em 1999, 7,67% em 2001 e inacreditáveis 12,53% em 2002. Será que era caso resolvido mesmo desde 1994?

Copa do Mundo e aeroportos
Noutra propaganda, um sujeito demonstra preocupação com atraso de obras para a Copa do Mundo de 2014, em especial com a situação de nossos aeroportos, temendo que, ao final, saia tudo mais caro, com a já esperada "tirada de couro" do contribuinte brasileiro.

Mais uma vez é surpreendente a tabelinha do PSDB com a mídia. Reportagens envolvendo ritmo das obras para 2014 e o risco de os aeroportos brasileiros não darem conta do recado pulularam nas últimas semanas. No caso de nossa condição aeroportuária, até o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), não raramente tachado de "máquina de propaganda" do governo, entrou em campo para demonstrar certo pessimismo quanto à capacidade de o Brasil conseguir pôr os aeroportos para funcionar a contento durante o famigerado evento esportivo, dando, por assim dizer, uma mãozinha ao "patriotismo" midiático.

Crítica maravilhosa, sem dúvida. É bom mesmo ficar ligado. Bem faz o PSDB em repisar, ao lado da mídia, o espinhoso assunto. Há, porém, certo exagero, pois o Brasil, ao contrário do que se quer fazer acreditar, geralmente se sai bem na organização de eventos importantes. De todo modo, é reconfortante saber que tem gente vigilante o suficiente para não deixar o caldo entornar em 2014, ano que, aliás, já está batendo à porta.

Em todo caso, vale uma pequena censura, de outra ordem, à propaganda. O blogueiro Eduardo Guimarães informa-nos em texto sobre o mesmo assunto que, segundo a marquetagem tucana, escolheram, para protagonizar a peça, um homem negro e com sotaque nordestino, com o fim de não “paulistizar” a crítica ao governo Dilma; acrescenta o blogueiro, com ironia, que se trata justamente de "um daqueles que começaram a voar só no governo Lula…". Há aí um evidente desencontro com o já citado panfleto de FHC, texto que deve entrar para a história exatamente por ter exortado o PSDB a abandonar o povão. De qualquer forma, o rapaz com "cara de povo" acaba se traindo e expondo o jeito tucano de ser.

Após reclamar do risco de virmos a pagar caro - literalmente - pelo atraso das obras, o garoto-propaganda acaba vindo a manifestar aquele que é, no fundo, o pior dos temores das elites: que venhamos a passar vergonha perante o mundo. É o manjadíssimo complexo de vira-latas, traço do caráter brasileiro que foi enfrentado com razoável sucesso pelo governo Lula. Como se vê, o PSDB chama para protagonizar sua propaganda alguém com as características do povo de que FHC quer tanto se afastar, mas não descuida de colocar em sua boca alguns dos mantras da classe média tradicional que vem lhe dando sustentação especialmente nas últimas duas eleições presidenciais.

Revela-se, pois, graças a essa peça publicitária, uma das dificuldades do discurso oposiocionista: tentar atrair o pobre, sem afastar a classe média e a elite. Parece que vai ter de escolher um caminho... Puxa vida! Será que o FHC tem razão?

sábado, 9 de abril de 2011

E a oposição vai se desidratando...

O jornal Valor Econômico publicou, no dia 08.04.2011, explosiva entrevista do ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira concedida a Maria Inês Nassif. O economista desanca o PSDB, partido a que pertenceu, e especialmente seu ex-chefe Fernando Henrique Cardoso. O sítio Vermelho reproduziu importantes trechos da matéria (leia aqui)

Não nos causou estranheza. Já vínhamos nos surpreendendo positivamente com alguns artigos e comentários de Bresser-Pereira publicados na imprensa. Abaixo segue texto escrito no final do ano de 2009, revelando contentamento não somente com o ex-ministro Bresser, mas também com outros setuagenários mais prontamente identificados com as escolas conservadoras.


SEGUNDA-FEIRA, 2 DE NOVEMBRO DE 2009
Meus 70 e poucos anos

Nos últimos tempos, vem causando agradabilíssima surpresa o posicionamento, não raro de cunho radical, de alguns setuagenários historicamente ligados à linhagem mais conservadora da sociedade brasileira. (Agradabilíssima, bem entendido, para este escriba. Para alguns amigos, vem provocando estranheza mesmo!).

Há alguns anos, Cláudio Lembo, então governador do estado de São Paulo, na crise do PCC, desancou, em entrevista à Folha, o que chamou de minoria branca brasileira.

Recentemente, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira fez elogios rasgados ao perfil democrático do presidente Lula e, causando maior espécie, teve posicionamento equidistante – o que é quase o mesmo que defender - ao sempre demonizado MST.

Em entrevistas, além de em artigos, o também ex-ministro Adib Jatene defendeu aumento na cobrança de impostos, opondo-se, assim, a velho dogma da direita e das classes média e alta, mesmo que não necessariamente de direita.

Por fim, Delfim Netto brada aos quatro cantos para que se reconheça a superioridade do governo Lula em relação aos que lhe antecederam, especialmente em virtude de suas políticas inclusivas.

Delfim, hoje filiado ao PMDB, foi da ARENA e integrou os governos militares; Lembo pertence ao DEM, esteve ligado a figuras polêmicas como Paulo Maluf e Jânio Quadros; Jatene, além de ter sido idealizador da CPMF no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi ministro de Collor e secretário de Paulo Maluf.

De todos, talvez Bresser seja o que mais se entristeceria de estar, aqui, sendo qualificado como homem conservador, haja vista já ter se autodenominado de centro-esquerda e por ter, indubitavelmente, maiores ligações históricas com as forças democráticas. Em todo caso, foi partícipe dos governos de José Sarney e de FHC, ambos muito longe de poderem ser classificados como progressistas.

Impossível não se lembrar da famosa (infame?) frase de Willy Brandt: “Quem aos 20 anos não é comunista não tem coração; e quem assim permanece aos 40 anos, não tem inteligência”. Com os nossos amigos Lembo e companhia limitada, porém, parece que a coisa se deu de forma inversa: tinham muita "cabeça" aos 20, mas agora, não aos 40 mas aos 70, são só coração!

Não se trata, evidentemente, de comunismo, palavra que está por demais surrada. Por outro lado, dá para se falar de “direita” e “esquerda”.

O filósofo Norberto Bobbio, poucos anos após a queda do Muro de Berlim, tentou avaliar a sobrevivência e o significado da polarização entre direita e esquerda, em livro lançado no Brasil pela Editora Unesp, em 1995, intitulado justamente Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. Bobbio expõe conceitos fundamentais para se entender a recolocação da velha dicotomia. Dentre os mais importantes está o de “igualitarismo”:

(...) o elemento que melhor caracteriza as doutrinas e os movimentos que se chamam de “esquerda”, e como tais têm sido reconhecidos, é o igualitarismo, desde que entendido não como a utopia de uma sociedade em que todos são iguais em tudo, mas como tendência, de um lado, a exaltar mais o que faz os homens iguais do que o que os faz desiguais, e de outro, em termos práticos, a favorecer as políticas que objetivam tornar mais iguais os desiguais. [2ª edição, p. 125]

Penso que quem ler as entrevistas e artigos indicados das personalidades citadas neste post perceberá a preocupação - ainda que não manifesta - com a questão da igualdade, seja na forma de propostas para minimizá-las, seja na defesa do uso de mecanismos corretores da perversa desigualdade que marca o Brasil. Neste sentido, devidamente agasalhado pelo teórico italiano, os nossos amigos estão parecendo velhos militantes da esquerda!

Muitos podem não levar tão a sério o que dizem e até mesmo pensar que eles possam estar fazendo “tipo”, ou, o que é pior, avaliar que não dá para confiar em “figuras” como essas. Todavia, o efeito da fala deles, em nossa opinião, não deve ser negligenciado, pelos seguintes motivos: elogios às bem-sucedidas políticas de transferência de renda do governo Lula feitas por seus correligionários já seriam esperadas, passando despercebidas mesmo que muito bem fundamentadas; "desabafos" como o de Cláudio Lembo, se feitos por políticos de esquerda, seriam – não tenho dúvidas – tachados de fascistas; comentários “simpáticos” ao MST, normalmente classificados como defesa do “terrorismo”, se ouvido de um Bresser-Pereira, ao menos ganha alguma atenção; e, finalmente, a antipática bandeira na defesa de cobrança de impostos, quando corajosamente empunhada por políticos de esquerda, só ganha espaço na mídia se for com o objetivo de satanizá-los.

Já os senhores Lembo, Jatene, Bresser e Delfim, com seus mais de 70 anos de idade, não têm que ficar dando muitas satisfações a ninguém, tampouco se preocupar com as "terríveis" repercussões de suas falas. Justamente por isso, vale bem a pena prestar atenção ao que dizem.


P.S.: Cláudio Lembo desligou-se recentemente do DEM, engrossando as fileiras do novíssimo PSD, de Gilberto Kassab, de quem é secretário de Negócios Jurídicos na prefeitura de São Paulo.

sábado, 12 de março de 2011

Sete milhões de problemas

Leio no sítio da revista Carta Capital que até o final de março de 2011 a cidade de São Paulo atingirá a impressionante cifra de sete milhões de automóveis parados, digo, circulando por suas ruas. Ao atingir a cifra de seis milhões, há pouco mais de três anos, escrevemos um post que parece, infelizmente, ser bastante atual. Reproduzi-lo-emos abaixo. Tirando um ajuste aqui, outro ali, ao leitor basta trocar o "seis" pelo "sete".

SÁBADO, 1 DE MARÇO DE 2008

A cidade de seis milhões de problemas

A cidade de São Paulo atingiu a marca de seis milhões de automóveis nos últimos dias. Na média aritmética é um carro para menos de duas pessoas. Trata-se de um dado assustador, como logo veremos.

Sem dúvida que tão assombroso número tem a ver com o momento razoavelmente aquecido da economia: a indústria automobilística não obstante a automação ainda gera um bom número de empregos diretos, inclusive com salários acima da média do mercado brasileiro, e, por ser o automóvel um produto de alto valor agregado, tal indústria ainda tem a capacidade de, mais notavelmente, gerar uma enormidade de empregos indiretos. Também é certo que a indústria automobilística é uma das principais responsáveis pela excepcional arrecadação de impostos observada nos últimos tempos. E não pára por aí: o setor de seguros e de financiamentos, fabricantes de acessórios e o mercado de usados lhe crescem a reboque. Não é difícil perceber que o ciclo virtuoso se instala com facilidade, graças à vertiginosa atividade de um setor ponta-de-lança como esse dos automóveis.

Mas há o outro lado da moeda: a destruição do meio ambiente, a degradação do espaço urbano, a frieza humana contrastando com o aquecimento do clima (sem qualquer tentativa de ser poético). Antes que alguém diga que isso é decorrência das péssimas condições do transporte coletivo, cuja má qualidade leva as pessoas a optarem pelo veículo particular, eu ousarei a – mais uma vez – afirmar que em verdade ocorre o contrário: o transporte coletivo numa cidade como São Paulo é muito ruim por culpa da prioridade comumente dada ao transporte individual.

Em primeiro lugar, o desenho urbano das grandes cidades em geral, e de São Paulo em particular, é pensado para o veículo individual: uma das marcas da cidade - e vocação de alguns de seus políticos mais populares - sempre foi a construção de grandiosas obras viárias, geralmente voltadas mais aos interesses particulares do que ao interesse coletivo. Em segundo lugar – se o leitor permite uma opinião idiossincrática bastante arriscada -, há o condicionamento psicológico: as pessoas não veem outra solução ao “martírio” do transporte coletivo que não seja a aquisição do carro próprio, o que sem dúvida diminui a pressão social para a solução dos problemas do sistema. E em terceiro, há a questão do esnobismo social, com a idéia de status frequentemente associada ao uso do automóvel, além da sensação de poder, de conforto e de modernidade que tal tipo de bem geralmente traz. Tudo isso parece ser um grande desestímulo a que nossos pragmáticos políticos gastem “cartucho” com investimentos no transporte coletivo, pois sabem que o eleitor se lembraria mais facilmente deles pelo que fizessem em benefício do uso do “carrão” particular.

Eis a feição de uma crise: temos um produto cujo uso de forma geral é a marca da irracionalidade, cuja popularização é danosa ao meio ambiente e à qualidade de vida, mas que se ausente nos termos em que se apresenta, poderia representar uma economia mais retraída, um Estado quebrado e pessoas inexplicavelmente mais infelizes. Ao contrário do verso de Rimbaud, “tornamo-nos mulheres velhas com coragem de amar a morte”! É realmente muito desalentador ter de às vezes regozijar-se de uma situação caótica: este blog mesmo, o leitor certamente se lembrará, em algumas oportunidades apontou os extraordinários números da indústria automobilística nacional como forma de desqualificar as incongruentes ressalvas da imprensa e da oposição à situação econômica do Brasil. É... Como se vê, não apenas os políticos são tão pragmáticos; tampouco somente a mídia tradicional o é. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O inflacionado mercado das mentiras

O assunto inflação vem, neste começo de 2011, ocupando bastante espaço na imprensa e ganhando lugar nas discussões de nosso cotidiano.

O medo é grande, dizem, pois a inflação está em níveis preocupantes. E a expansão de gastos - supostamente exagerada - dos últimos anos do governo Lula estaria na origem da escalada dos preços.

A presidenta Dilma Rousseff, ao que tudo indica, também está bastante assustada, e o resultado do IPCA de janeiro, indicando certa resiliência do "dragão", pode ter contribuído para o relativamente pesado "ajuste fiscal" que anunciou nesta semana.

Paradoxalmente - ou não tão paradoxalmente assim, vai saber... - o comportamento da equipe econômica de Dilma acaba por dar munição aos que, de forma oportunista, chegam a falar de uma "herança maldita" deixada pelos anos Lula.

Mas que tal um pouco de verdade sobre a "terrível" inflação deixada por Lula, sobrevivente em janeiro, e que tem tudo para pôr a perder as hodiernas conquistas do trabalhador brasileiro?

Antes de mais, gostaria de deixar claro que o autor destas mal digitadas, velhinho que é, viveu sob inflação e sabe que ela não tem nada de agradável, além de ser, como já exaustivamente repetido por aí, uma espécie de imposto pago justamente pelos mais pobres.

Portanto, este escriba jamais deixará de enxergar com bons olhos esforços que sejam empreendidos para controle da inflação.

Mas íamos nos meter a falar sobre a verdade por trás dessa história de inflação.

Pois bem, recordemo-nos da campanha presidencial de 2010. Nos debates e especialmente numa entrevista à Rede Globo, a então candidata Dilma Rousseff evocou um tal descontrole inflacionário que teria sido deixado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como herança ao seu sucessor, o petista Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma recebeu críticas da oposição e da imprensa, chegando a ser chamada de mentirosa por uma grande colunista de nossos jornais. Como o leitor pode conferir aqui, em 2002, ano de despedida de FHC, para um limite máximo de 5,5% de meta de inflação, o Brasil efetivamente registrou 12,53%, ou seja, havia ultrapassado a casa dos dois dígitos. Como já tive oportunidade de dizer, não critico de forma muito dura os que afirmam que Dilma mentiu ao falar em descontrole inflacionário no ocaso de FHC, pois não estou bem certo de que 12,53% seja número tão superlativo assim, a ponto de poder ser qualificado como descontrole, embora não reste dúvidas de que ele inspira os maiores cuidados.

Já em 2010, último ano do presidente Lula, para um limite máximo de 6,5% de meta de inflação, o resultado do IPCA foi de 5,91%, ou seja, quase 10% menor do que o limite da meta. Todavia, ficou acima do chamado centro da meta, que é de 4,5%, e é aí que os catastrofistas se seguram para falar que a inflação está saindo dos eixos. Enganam os interlocutores ao omitir que o centro da meta é o mais desejável, mas não é a própria meta em si, que, como já dissemos, tinha em 2010, como limite máximo, o número de 6,5%.

Agora a pergunta que não quer calar: se em 2002, com 12,53%, a inflação não estava fora de controle, como afirmaram certos colunistas da grande imprensa, por que os 5,91% de 2010, dentro da meta, devem ser tomados quase como uma herança maldita de Lula? Em 2002, com mais de 12% de inflação não havia descontrole, mas em 2010, com menos de 6% temos uma herança maldita? Ora, ora, ora! Será que somos todos idiotas?

E ainda há mais, o PIB brasileiro em 2002 foi de 2,7%, ao passo que o de 2010 deve superar os 7%, o que quer dizer estarmos hoje com uma economia extremamente mais bem aquecida do que a do último ano de governo tucano. Além disso, Em 2002 o País estava em plena escalada do desemprego, já em 2010, por seu turno, atingiu-se quase uma situação de pleno emprego. Numa análise fria, pois, seria mais razoável uma inflação de no máximo 6% em 2002, e não surpreenderia muito algo na casa dos dois dígitos em 2010, uma vez que, evidentemente, a pressão de demanda foi bastante mais significativa no último ano do que foi oito anos atrás. Tal quadro indica, sem sombra de dúvidas, que a situação deixada ao final de 2002 é que era digna de assustar.

Há, portanto, algo de muito estranho nessa barulheira sobre inflação. Longe de mim querer arriscar que isso possa ter a ver com lobby do mercado financeiro para aumentar os juros. Aliás, se é que tinha, pode ser que o ajuste fiscal anunciado pela presidenta nesta semana seja tomado como um balde de água fria, haja vista que ele indica a possibilidade do uso de outros mecanismos no controle da inflação além da taxa Selic. A conferir.

No mais, sugiro ao leitor que, antes de começar a estocar alimentos, pare, reflita, pesquise, compare: por exemplo, faça uma busca e veja o que disse um certo colunista sobre o comportamento da economia em 2002 e coteje com o que ele diz agora. Preocupar-se com o comportamento dos preços nunca é demais; mas não precisa se desesperar nem ver pelo em ovo. Ademais, há sempre fortes interesses políticos e/ou do mercado nas campanhas bem organizadas via mídia. Pensemos nisso.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O que é isso, novos companheiros?

Tem causado espécie ver colunistas dos grandes jornais, assim como (e)leitores de direita, rasgando elogios à presidenta Dilma Rousseff. Pelo jeito mudaram de opinião - e muito rapidamente - acerca da "comunista terrorista sanguinária atéia" de bem poucos meses atrás!

Para usar expressão bem ao gosto dos conservadores, não existe almoço grátis; ou seja, aí tem. Vale, no caso, recorrer ao teste de hipóteses, ainda mais que, em seu uso, não vamos acusar ninguém de assassinato.

Mais do que louvar Dilma, o objetivo parece ser primeiramente o de espezinhar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: nenhum dos encômios à presidenta, que me lembre, veio desacompanhado de alguma comparação que tentasse desabonar Lula e seu governo. Em segundo lugar, a tentativa pode ser a de criar um foco de oposição nas bases que sustentam a presidenta ou que pelo menos sustentaram sua candidatura e, de quebra, obrigá-la a pôr em prática - ou continuar praticando - o programa oposicionista.

Lula? Que Lula?
Desmitificar Lula não é tarefa das mais fáceis. Mas há que se tentar.

O cálculo político é bastante simples: desarticulada como está a oposição, teme-se que um eventual malogro do governo Dilma possa, paradoxalmente, ser mais facilmente capitalizado por Lula, justamente o seu padrinho político, do que por algum nome do consórcio PSDB/DEM/PPS.

A ideia, portanto, é, em primeiro lugar, senão destruir, ao menos diminuir a importância do legado da era Lula. Feito esse trabalho, com a ajuda da corrupção de Dilma pelos elogios, a presidenta seria abandonada na estrada, já ao final do seu governo, para aí, sim, quem sabe aparecer um destemido Geraldo Alckmin para nos redimir, com toda a imprensa cobrando de um patriota Aécio Neves que aceite a honra de ser seu vice.

Seguir a agenda dos derrotados
Noutra leitura, vislumbra-se a tentativa de que a presidenta da República não somente prossiga, mas até aprofunde a clássica estratégia inicial de não confrontar os princípios da oposição - ou como preferem os mais críticos, que ela continue adotando a agenda dos derrotados.

Pretende-se, com isso, que a presidenta perca a simpatia - e o apoio, por óbvio - de movimentos sociais e de outras organizações da sociedade civil que com ela estiveram em sua bem-sucedida campanha. E, é lógico, nem de longe tem Dilma o carisma e o magnetismo de Lula. Daí para o isolamento seria um passo. O problema desse segundo intento é que, se Lula não for destruído, será ele o herdeiro da insatisfação com a presidenta, fechando de vez as portas para a oposição. Daí porque não se vislumbrar nessa hipótese nada além do mais absoluto pragmatismo político mesmo.

Resumo
As hipóteses para a conversão dos conservadores, em resumo, parecem ser essas, pela ordem: Lula, se chegar "inteiro" em 2014, leva a presidência mesmo que sua seguidora sucumba. Por isso é importante tentar destituí-lo da condição de mito desde já. A outra ideia, absolutamente pragmática, é afastar, por definitivo, a presidenta Dilma de qualquer agenda mais radical, levando-a a ficar sem alternativas senão a de transitar com os grupos mais à direita, mesmo que, desse modo, abra caminho para Lula em 2014.

Desnecessário dizer que o melhor dos mundos, para a oposição (incluindo a mídia, é claro) e para a direita como um todo, seria uma Dilma que siga o programa conservador num cenário em que Lula perdesse capital político. Neste caso, nada mais resta além de chamar Mané Garrincha, para mandar esse pessoal ir combinar com o povo - e com a História!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Captain Beefheart (1941-2010)

Morreu Captain Beefheart em 17 de dezembro de 2010. Cantor e compositor, saxofonista e clarinetista, foi das figuras mais marcantes do que se convencionou chamar de rock experimental.

Sintomaticamente protegido por Frank Zappa, o velho Don Van Vliet - seu verdadeiro nome - desde o início apresentou a proposta de reinventar o rock através de certas desconstruções do blues e do jazz avant-garde, soando como se um Howlin' Wolf tocasse com arranjos de um Albert Ayler.

Pessoas mais gabaritadas consideram seu trabalho não muito marcado pela regularidade. Pode ser. De nossa parte, preferimos ficar, ao menos no dia de hoje, com os momentos mais sublimes de álbuns como Trout Mask Replica, de 1969, The Spotlight Kid e Clear Spot, ambos de 1972.

Abaixo, ouça a composição do próprio Beefheart "Moonlight on Vermont", de Trout Mask Replica, álbum produzido por Zappa. Nas imagens, a capa do clássico álbum de 1969 e uma foto de Don Van Vliet à época.