sábado, 28 de janeiro de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012

No último 25 de janeiro a cidade de São Paulo completou 458 anos de vida. Em ano de eleições municipais, o melhor presente que a cidade pode receber é alguma reflexão sobre o que o pleito deve representar para sua realidade e seu futuro.

Esta corrida eleitoral de 2012 parece que guardará diferenças significativas em relação à disputa de 2008. Há quatro anos, nossa preocupação era com o protagonismo de políticos que pareciam não ter na chefia da administração municipal o maior significado de suas vidas. O PT apresentava-se, então, na briga com Marta Suplicy, ex-prefeita e nome sempre cotado para o governo do estado, pelo que talvez, se eleita, não hesitasse em abandonar a prefeitura para disputar o outro cargo; já o PSDB naquela feita pleiteava o comando do município com Geraldo Alckmin, que já tinha sido governador e fora candidato à presidência da República, nome que decerto não se contentaria com o "rebaixamento" do cargo de prefeito.

Em 2008, por incrível que pareça, a vitória de Kassab talvez tenha premiado o candidato que, naquele momento, era o mais comprometido com o município, aparentemente menos interessado em usar a prefeitura de São Paulo como trampolim para interesses políticos maiores - bem, o "praticamente" abandono da cidade com vistas à criação do PSD veio a demonstrar que tal cálculo também estava errado! Pobre São Paulo e sua sina...

A despeito do negativo exemplo de Kassab, este pleito de 2012 pode ter como diferencial justamente a presença de candidatos que, num primeiro momento, não parecem granjear objetivos eleitorais em instâncias maiores. O único nome certo no páreo é Fernando Haddad, do PT, ex-ministro da Educação nos governos Lula e Dilma, que, a exemplo da sua "chefe" mais recente, nunca disputou uma eleição antes. Também ex-secretário de Marta Suplicy, Haddad não é neófito nas coisas da máquina municipal. Tudo indica que sabe o que está fazendo e, principalmente, querendo. No partido de gente como Marta, Mercadante, Ruy Falcão, não se pode desde já supor que, em 2014, um fortalecido Haddad, se o caso, abandonaria a cidade de São Paulo para candidatar-se ao governo do estado. Merece o benefício da dúvida, pelo menos.

O PSDB ainda não tem nome definido. O partido deve passar por prévias. Decidido, por enquanto, está que José Serra não será o candidato. Ótimo para a cidade, uma vez sabido que o ex-governador não abandonou o sonho de levar a presidência da República. Se disputasse a corrida de 2012, fá-lo-ia meramente de olho em ter um cargo somente para ganhar visibilidade, com vistas à corrida presidencial de 2014. Convenhamos, uma megalópole de 12 milhões de habitantes precisa de um governante verdadeiramente comprometido com seus rumos. Não seria, obviamente, o caso de Serra. É reconfortante, pois, saber que o PSDB, a exemplo do PT, não se apresentará ao eleitor paulistano com um "escalista eleitoral".

O quadro na cidade para este 2012, portanto, ainda está bastante indefinido. Como exposto, a poderosa força política representada pelo PSDB ainda não tem candidato; não se sabe, por enquanto, o que Kassab e o seu PSD farão; o famigerado PMDB e seu Gabriel Chalita também ainda não deixaram claro o que farão; apesar de pesquisas favoráveis, não dá para vislumbrar que dimensão tomará o apoio do ex-presidente Lula a Fernando Haddad; quanto a Haddad, impossível também dimensionar como o seu desempenho no ministério da Educação afetará seu resultado eleitoral: este blogueiro, por exemplo, considera a atuação dele naquele ministério bem acima da média, mas, de outro lado, tem um esforço do aparato midiático em provar o contrário. Aguardemos.

É inegável que a capital de São Paulo apresenta forte tendência conservadora. É perceptível também, sobretudo nos chamados estratos médios, um certo antipetismo, como já até defendido por colunistas da grande mídia, além de notória insensibilidade social. Entretanto, resultados históricos recentes - aliados à sempre crescente complexidade geográfica e demográfica da metrópole - permitem enxergar outras nuanças e, consequentemente, variar os tipos de análise. Fica para um próximo post.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Etta James (1938-2012)

A cantora norte-americana Etta James completaria 79 anos de idade em 25 de janeiro. Não deu tempo. Uma das grandes divas da música popular estadunidense do Século XX faleceu no dia 20.01.2012.

Etta James passeava com muita facilidade entre o soul, o jazz, o blues e o rhythm'n'blues. Sua linha era das cantoras de estilo mais vibrante e agressivo, diferenciando-se, sob esse aspecto, de algumas outras estrelas da música negra suas contemporâneas. Não por acaso o melhor de seu trabalho, nas décadas de 1960 e 1970, foi cometido para o selo Chess, celeiro dos trabalhos mais marcantes do blues de Chicago, ou produzido em Muscle Shoals, no Alabama, sob a batuta do produtor Rick Hall, cujos estúdios eram conhecidos pela mistura bem equilibrada de blues, rock e soul, não raro com alguma pitada de country.

A peculiaridade desse seu estilo - mais "sujo", por assim dizer - não era meramente casual, como sugere pequena história que vamos aqui ventilar. Não raro passa nalguma TV fechada aqueles famosos documentários, segmentados em capítulos, dedicados à história do Rock ou da música pop. Num dos episódios, justamente voltado à soul music e - salvo engano - com destaque às mulheres, a nossa Etta James revela jamais ter gostado das Supremes, de Diana Ross. Num gesto hilário, ela cantarola, num estilo sarcasticamente lânguido, o clássico "Baby Love", megahit do trio. Desse modo, sem conhecer Etta James, qualquer ouvinte já intuiria ser ela, naquele final dos anos 1960, na sua melhor fase, adepta do soul mais áspero, portanto mais próxima da linha da Stax/Volt do que da Motown.

Sintomaticamente, Etta influenciou cantoras de rock que bebiam muito da fonte do soul e do blues, dentre as quais Janis Joplin, Bonnie Raitt e Christine Perfect; vai lá, ouvem-se alguns ecos esparsos até mesmo em Amy Winehouse e Adele!

Abaixo, ouviremos trecho de gravação perpetrada em 24.08.1967, que faz parte do rol dos trabalhos feitos em Muscle Shoals. Trata-se de "Tell Mama", composição do soulman Clarence Carter, também gravada por Janis Joplin. Ouça Etta James, com nossas saudades.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sam Rivers (1923 - 2011)

No dia 26.12.2011, morreu em Orlando, na Flórida, o genial saxofonista e flautista Sam Rivers.

Nascido em 25.09.1923, diferentemente de outros importantes músicos de jazz, só foi lançar seus discos próprios depois dos 40 anos, em meados da década de 1960, após participar de grandes bandas de apoio, incluindo um dos quintetos de Miles Davis. E Rivers iniciou a carreira própria com dois petardos: Contours e Fuchsia Swing Song, ambos de 1965.

Entre idas e vindas, lançou diversos álbuns, geralmente na linha do chamado free jazz.

Falando em idas e vindas, colo abaixo resenha, em inglês bem tosco - pelo que pedimos desculpas -, especialmente escrita para o sítio RateYourMusic, acerca do álbum Dimensions & Extensions, gravado em 1967. Engavetado à época pelo selo Blue Note, as faixas do disco viriam a público em 1976, na compilação Involution. Já Dimensions & Extensions propriamente dito, tal como concebido originalmente, só apareceria no ano de 1986.

Sam Rivers - Dimensions & Extensions (1967 - lançado em 1986)

This album must have been issued in 1967, but contractual problems obstruct its release that year. Its songs remained unissued until 1976, when they appeared in album Involution.

In 1987, It was finally released as being conceived in second-half of 1960s. It's important mention Dimensions and Extensions gained that time, besides the title, the cover art and catalog number, according to information of Bob Blumenthal in his "a new look at", written in 2008 especially to RVG edition. Thus, the album from 1987 is the same that could have been issued in 1967.

Before taping the session of the album that would be this Dimensions and Extensions, Blue Note Records already had launched two great Sam Rivers albums: 1965's Fuchsia Swing Song and Contours. Dimensions and Extensions could have completed a kind of saga of this musician, representing something like a medium of those classics from 1965: the album recorded in 1967, entirely written by Rivers, brings the typical elements of hard bop (as Fuchsia) mixed to avant-garde (predominant in Contours).

Sam Rivers (tenor and soprano sax and flute in this album) is one of those artists that we always read the name in personnel lists of great jazz albums. It's very satisfying listen to him here as a jazz leader. There's no doubt he deserves to be in the pantheon of the most important figures of jazz history.


Ouça, de Dimensions & Extensions, trecho da faixa "Helix", composição do próprio Sam Rivers (tenor e soprano sax e flauta), gravada em 17.03.1967, numa sessão integrada também por Donald Byrd (trompete), Julian Priester (trombone), James Spaulding (sax alto e flauta), Cecil McBee (baixo) e Steve Ellington (bateria). Na ilustração, a capa de Dimensions & Extensions, que, aliás, é a original que já havia sido escolhida para o frustrado lançamento em 1967.

e a

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Eu só quero é ser feliz

Não é raro se associar o capitalismo com a ideia de felicidade. Nenhum outro sistema político-econômico, dizem seus apologetas, seria capaz de permitir que fôssemos tão felizes.

Afirma-se que mais feliz se é quanto mais se pode consumir, sem preocupações e sem culpa, os mais variados produtos e serviços oferecidos por nosso maravilhoso mundo capitalista.

Com efeito, parece mesmo que o caráter aparentemente inabalável do sistema capitalista - do ponto de vista ideológico, que fique bem claro -, deve-se em grande medida ao atributo da felicidade.

Por outro lado, causa espanto que, numa cultura dessas, vejam-se grandes corporações, evidentemente fiéis escudeiras do modelo capitalista, pouco ou nada se empenharem para assegurar que o consumo dos bens e serviços que oferecem sejam de fato uma indiscutível fonte de felicidade para as pessoas.

O caríssimo leitor, se ainda não passou, certamente já viu algum amigo ou parente enfrentar maus bocados com produtos novinhos em folha que simplesmente param de funcionar, ficando horas pendurado no telefone aguardando atendimento, tendo que se sujeitar a esperar às vezes por meses pelos reparos a que estão obrigados os serviços de garantia.

Ora, sob o capitalismo praticamente tudo se transforma em mercadoria, tanto que não por acaso o velho Marx inicia o seu O Capital justamente com a análise da mercadoria. Desse modo, como explicar tanto descaso com os consumidores, deixando que eles, pelo menos por alguns instantes, sejam menos felizes, por culpa das mercadorias que adquirem, as quais, aliás, seriam o motivo maior de sua felicidade?

A resposta só pode vir do trabalho para lá de bem feito da chamada ideologia burguesa. As empresas estão certas de que muitos poucos - número insignificante na verdade - veem alguma saída fora do sistema. Falando de forma bem simples e direta, a lavagem cerebral é tão perfeita, que ninguém se indispõe com o sistema a ponto de recusar consumir seus produtos - ou pelo menos passar a adquiri-los com menos sofreguidão -, mesmo após sofrer humilhações e curtir horas de nervosismo que lhe são (desnecessariamente) impostas por obra justamente da aquisição de bens e serviços que aqueles mesmos caras lhe oferecem. Fazer o que, se o sistema é eterno e indestrutível?

O serviço sujo da ideologia seria deveras mais simples se o cuidado com a nossa felicidade - que só pode ser fornecida pelo capitalismo, como afirmam seus cultores - fosse praticado de forma quase obsessiva pelos "donos" do sistema e seus prepostos. É ou não é?

domingo, 30 de outubro de 2011

Imprensa: crise de identidade e necessidade de autoafirmação

Quando num futuro talvez não muito distante historiadores se debruçarem sobre os dias de hoje no Brasil, não faltarão os que não hesitarão em afirmar que nesta era o País vivia sob uma ditadura midiática.

O caso envolvendo o já ex-ministro dos esportes Orlando Silva ainda vai ser motivo de estudo e decerto vai ser marcado como dos mais grosseiros atos de injustiça de nossa história. De quebra, ainda será marca registrada da pusilanimidade do governo brasileiro de plantão.

Roteiro estúpido: requentam-se, via revista de grande circulação, por intermédio de um sujeito enrascado com a Justiça, acusações que já vinham sendo objeto de investigação; acusa-se o então ministro de, in person, receber dinheiro numa garagem qualquer; o sujeito fala que vai apresentar provas no momento oportuno; não se apresentam as provas; a imprensa parte para o linchamento, sinalizando estar num braço de ferro com o governo; Procurador-Geral e Supremo Tribunal Federal, após pedido do próprio Orlando Silva, entram na jogada, usando de suas atribuições normais; a mídia vale-se dos expedientes legais instalados - normais, repetimos -, para intensificar os ataques ao ministro; depois de uma semana de resistência, Orlando Silva joga a toalha e apresenta a demissão.

Se o governo brasileiro teve um comportamento covarde no caso, a oposição, por sua vez, só para variar também agiu de forma patética, deixando bem claro que, conforme repetido ad nauseam, o verdadeiro partido oposicionista hoje é a mídia: sem a pauta da imprensa, a ausência de discurso dos políticos oposicionistas transformá-los-ia em verdadeiras nulidades.

A falta de limites da imprensa
Por que estaria a imprensa agindo de forma tão tresloucada? Seria em razão de uma sanha golpista descontrolada, como acusam alguns? É caso de antipetismo doentio? Não mira tanto Dilma, antes pretendendo atingir o ex-presidente Lula, querendo a todo custo anulá-lo em 2014?

Há um pouco de tudo acima. Mas nessa operação “derruba-ministros em série” a mídia vetusta parece estar, antes de tudo, tomada, a um só tempo, dos demasiadamente humanos dramas conhecidos como crise de identidade e necessidade de autoafirmação.

Houve um tempo em que se construíam consensos, de forma paulatina, através da imprensa. O chamado “efeito pedra no lago” era uma realidade. Burburinhos se espalhavam, por assim dizer, em camadas: começavam nos grandes centros urbanos com os que liam jornais, até, aos poucos, ganhar os grotões. Os roteiros políticos eram previsíveis.

O fenômeno Lula mostrou que a coisa mudou. Em 2002, pode-se dizer que a imprensa fez um pouco de “corpo mole”, pois havia uma ideia no ar de que, mais cedo ou mais tarde, o Partido dos Trabalhadores levaria a presidência da República, de modo que se tivesse que acontecer, que acontecesse logo; ademais, o “previsível” fracasso do governo petista enterraria as pretensões futuras do partido. A situação em 2006, todavia, desconcertou os que acreditavam já estar o roteiro estabelecido. Sofrendo campanha sórdida, desde o chamado mensalão, ainda assim Lula conseguiu resultado expressivo na sua reeleição contra o candidato do império midiático, obtendo especialmente o voto dos mais pobres e da população das regiões mais afastadas do País, que não deram bola para os esforços dos coronéis da velha imprensa.

Em 27 de dezembro de 2006, capa da revista CartaCapital estampava: “É o fim dos grotões, enquanto só nas classes A e B há quem vote de cabresto”. Em belo texto daquele número, assim expressou-se o jornalista Mino Carta:

(...) O vetusto voto de cabresto, destinado pelos donos do poder ao povo dos grotões, onde quer que os houvesse, mostrou valer, este ano, só mesmo nos rincões das classes A e B, onde a mídia ainda chega, sobretudo em São Paulo, o estado mais rico, ou menos pobre, e mais reacionário da Federação.” [Edição nº 425].


Em 2010, novamente a influência da velha mídia não conseguiu avançar além do andar de cima dos grandes centros urbanos, insistindo as águas dos lagos em ficar paradas, apesar das inúmeras pedras que lhes eram atiradas: o seu candidato, já derrotado em 2002, figura de importância histórica no cenário brasileiro, perdeu fragorosamente para um “poste” ungido por Lula.

A pauta da corrupção – somente no governo federal -, com consequente exploração de irregularidades em ministérios – certamente existentes em quaisquer secretarias estaduais e municipais do País -, trouxe para a mídia, neste 2011, a sensação de que pode ainda ter alguma relevância. Conseguir derrubar ministros, mais do que uma prática “esportiva”, virou questão de honra. Os jornalistas Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues, entre outros, jactam-se do fato de o governo vir fazendo sua faxina supostamente na cola da barulheira midiática: é como se dissessem algo do tipo “não elegemos presidente, mas determinamos o rumo desse governinho incompetente e indicamos o único caminho possível da oposição... idem!”.

Perigos?
Bobagens de adolescentes (necessidade de se autoafirmar), dificuldades de homens de meia-idade (crise de identidade), "prática esportiva", questão de honra. Seja lá o que for, a grande verdade é que o resultado do troca-troca de ministros, por pressão e capricho da imprensa, tem sido o de deixar o governo federal na defensiva. Pior é que o caminho escolhido é do discurso fácil e ao mesmo tempo sem foco do combate à corrupção, que virou uma espécie de tema único nos debates sobre o País. Não por acaso, essa onda moralista vem sendo devidamente chamada de neoudenismo.

Eis o risco: a velha UDN foi o braço civil do golpe de 1964. A oposição sem discurso parece estar se deixando gostosamente levar por tal fantasma. Temos visto marchas meio disformes para lá e para cá, e a grita acerca da corrupção parece ser o último “bastião” de uma oposição que age como se tivesse perdido o bonde da história. Essas são justamente as horas propícias a aparecem aventureiros e justiceiros, sempre com o apoio do império dos meios de comunicação.

Não parece razoável classificar de neuróticos os que veem golpismo no agir dos grandes grupos de mídia. Além do prestígio de outrora, tais grupos andaram nos últimos tempos perdendo grana também, em vista da ampliação do rol de veículos que passaram a receber verbas publicitárias federais. Sob ditaduras, os grandões faturaram mais. Portanto...

Crise de identidade e necessidade de autoafirmação geralmente deixam traumas. Cuidemo-nos, pois.

sábado, 15 de outubro de 2011

Alguém marcharia a favor?

As chamadas "marchas contra a corrupção" que vêm ocorrendo no Brasil são, num primeiro momento e numa certa leitura, algo sem muito sentido, e, em segundo lugar e por outra ótica, reveladoras de má intenção ou de interesses inconfessáveis por parte daqueles que as insuflam. Antes de prosseguir, tente imaginar alguém organizando uma "marcha a favor da corrupção". Faz algum sentido?

A desaprovação à corrupção é da mesma linha da praticamente natural repulsa que as pessoas ditas normais têm por assassinatos ou assaltos, por exemplo. E ninguém consegue, creio eu, imaginar cidadãos saindo às ruas em marcha contra assassinatos ou contra assaltos. Por óbvio nem é necessário que uma horda de pessoas se organize para demonstrar sua contrariedade à prática de assassinatos e assaltos; assim como no caso da corrupção, as leis e códigos já tipificam o assassinato e o assalto como crimes, sendo isso, per se, a representação da discórdia da sociedade para com tais barbaridades.

Seria, por outro lado, compreensível que as pessoas saíssem às ruas contra assaltos e assassinatos em situações específicas, como, por exemplo, numa "marcha contra assassinatos de líderes de trabalhadores rurais" ou em protesto "contra o aumento do número de assaltos numa dada localidade no último semestre" e coisas assim. O Movimento dos Sem Mídia, por exemplo, recentemente organizou uma manifestação "contra a corrupção da mídia", ou seja, delimitou e direcionou aquela repulsa que, naturalmente, se sente pela corrupção em geral.

Não parece ser o caso de dizer que houve aumento da corrupção no Brasil para justificar, nos termos dos exemplos acima, as marchas realizadas nos últimos dias: observe-se que, pelo menos até agora, ninguém fala em "marcha contra o 'aumento' da corrupção". Ainda que aparentemente haja quem pense ser a corrupção maior hoje em dia, não se veem corajosos o suficiente para empunhar tal bandeira, expondo-se desse modo ao risco de passarem por ingênuos ao renegar todo um conjunto de discussões que defendem - e explicam - que a corrupção é uma espécie de praga já disseminada, de há muito, em toda nossa cultura.

Na mesma linha, dado o fato de as tais marchas se autoproclamarem apartidárias, espontâneas, gerais e radicais, não podem elas dar-se ao luxo de declaradamente concentrar-se num alvo muito concreto e definido. Elas não podem dizer que são contra a corrupção de um certo partido, por exemplo, ou contra a roubalheira numa esfera específica de governo, ou contra uma determinada figura pública (tida como) corrupta. Elas têm que ser contra a corrupção em geral, pagando, portanto, o preço de ser, como já dissemos, sem sentido.

Mas o que estamos dizendo?! É lógico que os atos políticos não podem ser sem sentido; a violência contra a lógica é apenas aparente, pois por certo que eles têm objetivos claros, ainda que inconfessáveis.

Mesmo que não o digam, com as tais marchas querem sugerir a seus próprios participantes - e os há de boa-fé em número decerto não muito reduzido - e a toda opinião pública que haveria hoje no País mais corrupção do que houve ontem. Seus inflamadores sabem que não é verdade, mas querem passar tal tipo de sensação. Para isso, usam uma espécie de mensagem subliminar, eis que lhes falta coragem - e alguma cara de pau suficiente - para advogar, de forma aberta, o aumento da corrupção no Brasil nos dias de hoje ou mesmo nos últimos anos.

De outro lado, os cérebros por trás de tão "espontâneas" manifestações querem usar o natural descontentamento com a corrupção - crime, como já dissemos - para tentar acertar somente o governo federal, especialmente os seus últimos anos petistas. As suspeitas de corrupção nada desprezíveis dos governos federais anteriores a Lula, muito especialmente as do seu antecessor, não parecem ter muita importância para a galera das marchas; muito menos importantes ainda têm se mostrado os malfeitos nos governos estaduais, notadamente de São Paulo e Minas. Sem dizer palavra, as tais marchas são contra a corrupção do PT e de seus aliados, ponto. (As realizadas em Brasília, reconheça-se, nalguma medida parecem ter fugido um pouco do quadro que descrevemos).

As coisas seriam mais simples - e mais providas de sentido - se os insufladores dessas manifestações dissessem claramente o que querem e de que lado realmente estão - ou, pelo menos, contra que lado estão. Contra a corrupção? Ora, com marcha ou sem marcha, a sociedade, mesmo que não o saiba, é contra a corrupção. Assim como é contra o estelionato, o furto, a tortura etc.

domingo, 18 de setembro de 2011

Manifestação no MASP

Na tarde do sábado 17.09.2011, reuniram-se no vão livre do Museu de Arte de São Paulo sindicalistas, professores, ativistas, blogueiros e cidadãos comuns com o fim de realizar "Ato Público Contra a Corrupção da Mídia", convocado pelo Movimento dos Sem Mídia.

Bastante oportuno. A luta política, atualmente, passa pelo embate direto com os meios de comunicação. E a questão não é somente a de tomar as dores do governo federal, perseguido de forma desproporcional pela mídia, como já demonstrado por diversas vezes e pelos mais variados atores. Movimentos sociais e categorias profissionais, entre outros, também têm motivos de sobra para começar a enxergar nos grandes grupos midiáticos o seu principal inimigo.

Ainda é forte a lembrança, no campo político, de frase de Judith Brito, da Associação Nacional de Jornais, confessando que a imprensa fazia o papel da oposição no Brasil. De se notar, também, que a oposição política de verdade, desprovida de propostas para o País, tem se mostrado satisfeita em atuar a reboque do denuncismo e do falso moralismo midiático. Daí muitos acreditarem que, porque estritamente política, a briga com os meios de comunicação deveria ser uma mera preocupação do PT - partido político do ex-presidente e da atual presidenta da República - e de seus integrantes.

Nada disso. Vai uma dica para sindicalistas, servidores públicos, movimentos sociais: todos precisam ficar mais atentos ao trabalho de desmobilização e de descrédito que lhes tenta impingir a imprensa. Para os trabalhadores e seus direitos e interesses, o maior inimigo já não parece ser o patrão, mas sim a imprensa, que demoniza sem dó nem piedade seus representantes organizados. Os servidores públicos federais, quando querem aumento, devem mesmo cobrar o comprometimento da presidenta e de seus ministros; mas é preciso compreender que a cruzada ideológica contra os servidores - como pano de fundo à campanha sistemática contra o serviço público - é capitaneada pela mídia. Vê-se que para com os trabalhadores sem-terra, tem-se a impressão de às vezes haver mais hostilidade das grandes redes e jornais do que até mesmo por parte dos latifundiários.

Os professores que tomaram a palavra na manifestação do MASP estavam atentos a esse viés: denunciaram o desejo da imprensa de esconder ou satanizar seus movimentos. Integrante de sindicato dos bancários por sua vez também lembrou do enfoque distorcido e negativo com que os grandes meios tratam as manifestações de trabalhadores, com o claro objetivo de contra eles atrair a antipatia da população.

E se o mote era a corrupção da mídia, o melhor momento da manifestação ficou para a participação de Gerson Carneiro, figura sempre presente nas seções de comentários dos blogues mais sujos do País. Disse ele que a imprensa deveria, só para disfarçar, pegar no pé dos corruptores de vez em quando. Além do que, pediu, que tal a mídia agir com a transparência que cobrava de Palocci, revelando o nome de seus anunciantes envolvidos em caso de corrupção? E mais: como ficam as assinaturas de jornais e revistas dos grandes grupos de comunicação generosamente contratadas pelo governo de São Paulo?

Mais encontros desses Brasil afora e certamente novas perguntas virão. Contudo ficarão sem respostas.

sábado, 20 de agosto de 2011

Corrupções

A recente grita acerca da corrupção - com a consequente "faxina" promovida pela presidenta Dilma Rousseff - é algo que mereceria ser visto com cautela.

Antes de mais, vale atentar-se a trecho de belo texto do filósofo Vladimir Safatle publicado na Folha de São Paulo em 12.07.2011, que, a pretexto de criticar o magnata das comunicações Rupert Murdoch, em realidade falava do modus operandi da imprensa brasileira, inclusive, é claro, da própria Folha, que teve de fingir que não era com ela. Leia:
(...)Murdoch tornou a produção de notícias setor de uma luta política onde reina a seletividade do escândalo.
Todos, em algum momento, fizeram algo que não gostariam de mostrar na esfera pública. Mas cabe ao jornal decidir quem vai ser exposto e quem será conservado, quem vai para a primeira página e quem vai para a nota do canto.
A lei "dois pesos, duas medidas" transforma-se em uma regra, adequando-se às exigências de uma sociedade do espetáculo.(...) [Poder em pane, grifos nossos]

Pois é assim. Qualquer um que acompanha a imprensa brasileira pode ter a falsa impressão de que só existe corrupção em nível federal. Se a Folha, por exemplo, quisesse, poderia transformar a vida do governo tucano de São Paulo num inferno por ter decidido levar adiante projeto da linha 5 do Metrô com empresas suspeitas de acerto. Imagine o leitor todo dia manchetes martelando a denúncia, com reprodução no restante da mídia ou no mínimo naquelas sediadas em São Paulo. Mas, ao contrário, o assunto - que aliás poderia ter trazido mais prestígio ao jornalismo investigativo da Folha - foi devidamente jogado para baixo do tapete, sob o silêncio obsequioso dos neoudenistas de plantão, até mesmo entre os razoavelmente informados sobre o cabeluda história.

A essa altura do campeonato já não há novidade quanto aos objetivos dessa ofensiva midiático-oposicionista, com direito até mesmo a relativo apoio a Dilma por suas respostas supostamente rápidas dadas à sociedade, demitindo gente adoidado: atingir o ex-presidente Lula.

Não tem jeito, para a mídia e oposição (no fundo, quase a mesma coisa), Lula teria que ter deixado uma "herança maldita". Tentou-se, no início do ano, ressuscitar o fantasma da inflação: diziam que suposto aumento descontrolado e generalizado de preços era a "conta" deixada pelo populismo do crescimento econômico com inclusão social promovido pelo líder petista. Acreditava-se que o dragão iria se autoalimentar com o pânico disseminado diuturnamente na imprensa, ou, de outro lado, teria o governo brasileiro de dar um "cavalo de pau" bem forte na economia para domá-lo; num e noutro caso, principalmente os mais pobres - os maiores apoiadores de Lula e Dilma - sairiam perdendo, com evidentes dividendos para a oposição.

O factoide inflação, como não poderia deixar de ser, já perdeu fôlego, sobrevivendo apenas graças aos interesses do mercado que fatura com elevação de juros, conforme já comentamos em post cujo link está disponível abaixo. Para enfrentar Lula, portanto, restou a bandeira do combate à corrupção, tentando-se a todo momento sugerir - quando não declarar abertamente - que a roubalheira de hoje é "obra" legada pelo ex-presidente.

O comportamento de alguns colunistas e as falas deixadas por internautas nas caixas de comentários na internet podem criar fantasias mirabolantes na cabecinha de crianças de 10 anos ou pouco mais de idade: até 2002 o Brasil era comandado por um "coro de anjos", aí chegou um barbudo malvado e corrompeu (literalmente!) os alicerces desta República tão invejada mundo afora; mas depois de oito anos de trevas, veio uma destemida mulher com sua vassoura – alô, Jânio Quadros (Freud explica!) – e começou a realizar uma boa faxina. Sim, claro, “faxina”, afinal de contas somos um país de machistas e não podemos esperar muita coisa de uma mulherzinha de esquerda senão uma boa... faxina.

Seria divertido se, em vez de papo furado, a mídia resolvesse enfrentar os fatos. Que tal reportagens comparando o número de operações da Polícia Federal sob o governo Lula e sob o governo Fernando Henrique? E o que será que os articulistas e colunistas teriam a dizer sobre os procuradores-gerais da República nomeados por Lula em oposição à figura do "engavetador-geral" de FHC? E quanto ao número dos servidores demitidos por corrupção nos governos do PT comparados aos do PSDB? E se repórteres investigativos resolvessem se interessar pelo conteúdo do chamado "dossiê dos aloprados"? E se começassem a chamar o "mensalão mineiro" de "mensalão tucano"? Mudando de esfera, por que não fazer uma reportagem, ao menos na mídia de São Paulo, sobre o número de CPIs sufocadas na Assembléia Legislativa durante este longo reinado do PSDB no estado?

Em momentos de comedimento, ou quiçá condescendência, já se ouve por aí que, de fato, houve malfeitos em todos os governos, mas o problema de Lula teria sido o de "institucionalizar" a corrupção, o que seria em tese mais grave. É o tipo de afirmação de certo rebuscamento sociológico, que mereceria maiores reflexões e esclarecimentos de quem a advoga - o que até o momento não foi feito. De todo modo, parece haver, num primeiro momento, um recado cômico na assertiva: "corrupçãozinha" do dia-a-dia pode; só não pode se for "institucionalizada"! Do ponto de vista mais sério, vão por água abaixo todas aquelas digressões filosóficas de nossos intelectuais - como sempre papagaiadas pelos nossos estratos médios - de que a corrupção brasileira é endêmica, cultural, está no nosso DNA etc, não por acaso proferidas quando se pretendia perdoar aos seus.

Ainda sobre a contraposição da corrupção, digamos, comezinha à dita "institucional", há uma dificuldade de cunho essencialmente político. É que deve ser difícil para um bom neoudenista sair por aí espumando de raiva com o “mar de lama” que nos afoga por obra e graça de um “analfabeto nordestino”, enquanto demonstra condescendência com a corrupçãozinha de intelectuais e reis-filósofos moradores de Higienópolis. Afinal, mesmo entre aspirantes a integrantes de um futuro “tea party” brasileiro deve haver um ou outro dotado de coerência e seriedade.

Leia também:
O que é isso, novos companheiros?
O inflacionado mercado das mentiras
Inflação: política e economia


domingo, 7 de agosto de 2011

CDs: não se deixe programar pela obsolescência

Logo quando os CDs começaram a se popularizar no Brasil - devagar, devagarinho - no início da década de 1990, alguns puristas e vinilófilos radicais saíram dizendo que em não mais do que dez anos os registros dos "discos-laser" simplesmente desapareceriam. Como nada aconteceu em tal período, falaram que seria em 15 anos. Tendo continuado a tocar os disquinhos, subiram para 20 anos. E quem tem CDs fabricados ainda no final dos anos 1980 pode confirmá-lo: os dados não sumiram coisa nenhuma.

Dia desses, um amigo teorizou que, no fundo, o sumiço dos dados não é, em absoluto, o grande problema. Ele apresentou o que seria para ele o verdadeiro motivo para não se gastar dinheiro com CDs originais: em breve, não somente a mídia será substituída por outra forma - inclusive "virtual" - mas também não será possível botar para rodar os itens da coleção, pelo simples motivo de que não haverá aparelhos para reproduzi-los. Quer dizer: os registros estarão lá no disco, mas de nada vai adiantar porque não haverá máquinas para decodificá-los, por assim dizer.

Na mesma hora lembrei-me de um episódio dos Simpsons, em que aparece um depósito de lixo no qual consta um espaço dedicado para "betacam", outro destinado para VHS, ambos já devidamente abarrotados de objetos, e um terceiro, ainda vazio, "reservado para DVDs".

Meu amigo e os Simpsons estão a tratar do famigerado fenômeno da obsolescência programada, assim definida no Dicionário de Economia, de Paulo Sandroni (São Paulo: Best Seller, 1989): se dá quando "a produção industrial determina de antemão o período de durabilidade de um produto(...), frequentemente se chega a preparar um desgaste artificialmente curto para obrigar os consumidores a uma reposição mais rápida do produto".

Aceitando que, com efeito, não é de se descartar a hipótese de sumirem os aparelhos apropriados para se ouvir CDs, há de se buscar um bom motivo para adquirir essas maravilhas. Quanto à música, criação humana, sempre se terá uma forma de a ela ter acesso e em algum lugar ficará guardada, nem que seja num museu, e certamente com a gravação de que gostamos. Mas e os CDs, objeto físico, forma tangível?

Uma boa desculpa para não abandonar o hábito de adquiri-los talvez seja comprar aqueles que - mais uma vez apropriando-se da linguagem dos economistas - tenham maior valor agregado, digamos assim. No caso, as edições com reprodução de capas originais, textos novos e da época, fotos inéditas, serviços completos das gravações etc.

Coleções como a Rudy Van Gelder Series, do selo Blue Note, a Columbia Legacy, da Sony-BMG, Atlantic Jazz Masters, com a turma da Rhino, entre outros, são ótimas pedidas. Os encartes dessas edições são praticamente livretos. Na RVG, da Blue Note, por exemplo, as fotos destacam preferencialmente os músicos da sessão, e não o artista que a lidera, e além do texto original, traz uma nova leitura do expert Bob Blumenthal. Na Atlantic Jazz Masters, por seu turno, tem-se o fac-símile da contracapa, mas para não precisar forçar muito a vista, todo o conteúdo é reproduzido no livrinho em letras maiores.

Não tem jeito. Tecnologia vai, tecnologia vem, mas o velho e bom livro sobrevive e não se cogita que ele venha a sumir de todo. O jeito, para quem gosta de gastar dinheiro com CDs, é pensar assim: adquirir um objeto que "contém" boa música, mas que pode, entre seus acessórios, trazer um pouco de boas imagens e, principalmente, boa leitura. São textos de Nat Hentoff, Ira Gitler, Gunther Schuller, Lenny Kaye, Fausto Canova, Martin Williams, Armando Aflalo e, não raro, os próprios artistas e produtores das obras fazendo "leituras atualizadas" dos trabalhos que protagonizaram.

É bom sempre adquirir, preferencialmente, discos de que não se vai enjoar. O problema, como aqui aventado, é não poder ouvi-los um dia, por algum motivo de força maior, como, por exemplo, a predação capitalista. Para não ficar com a sensação do risco de aquilo perder valor no futuro, fixemo-nos, então, na certeza de que um texto como o de Bruce Geller para a contracapa da trilha de Mission: Impossible, de Lalo Schifrin, não deve se perder nunca.

sábado, 30 de julho de 2011

A mí(s)tica dos 27 anos

Muito se tem falado nos últimos dias sobre o fato incrivelmente curioso de artistas pop falecidos aos 27 anos de idade.

A morte da cantora Amy Winehouse ajudou a botar mais fogo nessa lenda, juntando-se a grupo que conta com Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, todos mortos aos 27.

Uma amiga no trabalho, em tom de pilhéria, disse que a inglesa deve ter forçado a barra para “conseguir” morrer aos 27, talvez com a garantia de se tornar “eterna”, por assim dizer.

A bem-humorada suspeita, a despeito de seu absurdo, não deixa de, paradoxalmente, fazer algum sentido. O mito dos 27 é algo já pronto: aqueles artistas dos anos 1960 evidentemente não sabiam e certamente não o quiseram mas sem dúvida o estabeleceram. Hoje, “graças a eles”, qualquer um pode voluntária e romanticamente se findar naquela fatídica idade somente com o fito de entrar definitivamente para a história.

É claro, o leitor já deve ter começado a pensar em Kurt Cobain. O líder do Nirvana suicidou-se aos 27 em 1994. Mais do que nas de Amy Winehouse, estava nas mãos dele ter continuado vivendo ou, ao menos, ter dado cabo da vida com outra idade menos emblemática.

A incrível coincidência que se abateu sobre Janis, Hendrix e Morrison ajudou a criar a mí(s)tica dos 27 anos. A lenda ganhou novo impulso com Cobain. Resta saber se ela realmente se realimenta tanto a ponto de catapultar para a eternidade uma artista bem menos interessante, como é o caso da britânica Amy Winehouse.

Também curioso, por outro lado, é o fato de alguns geniais artistas pop terem morrido em idade que rondava os 27 anos e hoje serem menos populares, menos lembrados, ainda que muito cultuados. Talvez devessem ter fenecido aos 27...

Gram Parsons, por exemplo, morreu aos 26. Com a mesma idade suicidou-se em 1974 o “maldito” Nick Drake. Um pouco depois, já aos 28, faleceu Tim Buckley. Todos cantores e compositores que, como se vê, “bateram na trave” dos 27.

O estadunidense Gram Parsons (05.11.1946 a 19.09.1973), por exemplo, foi dos maiores expoentes do chamado country rock. Integrou os Byrds em sua fase mais country e foi líder do The Flying Burrito Brothers. Deixou dois álbuns solos muito procurados mundo afora: GP (1973) e Grievous Angels (1974). Morreu de overdose aos 26.

Nascido no hoje Myanmar em 19 de junho de 1948 e morto no Reino Unido em 25 de novembro de 1974, Nick Drake, como óbvio, não esperou fazer 27. Embora seja figura reconhecidamente depressiva, e ainda que oficialmente sua morte seja tomada como suicídio, não deixa de haver algumas dúvidas e suspeitas se ele realmente se matou. A maioria, porém, se vê tomada de certeza quando ouve os momentos mais dolorosos de Five Leaves Left (1969) e Pink Moon (1972).

Nascido na capital dos Estados Unidos (14.02.1947), Tim Buckley foi um vitorioso que conseguiu ultrapassar os 27 anos de idade. Passado pouco tempo dos 28 anos completo, em 29.06.1975, o pai de Jeff (por acaso morto com pouco mais de 30) veio a morrer de overdose de heroína, pondo fim a uma carreira que não se sabia aonde poderia chegar, uma vez tratar-se ele de artista inquieto, que passava a vida a transitar do folk ao rhythm’n’blues.

Vamos ouvi-los abaixo e ajudar a fomentar a macabra dúvida: se tivessem ido com 27, seriam hoje mais populares?

De Gram Parsons, do álbum Grievous Angels (1974), ouviremos trecho de “Brass Buttons”. Com Nick Drake, do álbum Five Leaves Left (1969), teremos um pedaço de “Man in a Shed”. Por fim, descendo até 1967, curtiremos parte de “Once I Was”, de e com Tim Buckley, extraída de Goodbye and Hello.