sábado, 28 de abril de 2012

Cotas raciais - reprodução de texto de 2008

Em vista da histórica decisão do Supremo Tribunal Federal nesta semana, considerando constitucional a adoção de cotas raciais em exames vestibulares, republicaremos texto acerca do assunto aqui postado em 2008. Naquela época, foram entregues a Gilmar Mendes, então presidente daquela Corte, um manifesto contrário e outro favorável à adoção do sistema de cotas. Pretendíamos ter escrito mais sobre o assunto, tanto que aquela postagem foi classificada como primeira parte da discussão. Lamentavelmente não o fizemos. Agora, felizmente talvez não seja mais necessário. Reproduzamos aquele texto, então.


DOMINGO, 10 DE AGOSTO DE 2008

 O STF estará julgando em breve uma ADIN representada contra a lei de cotas nos concursos vestibulares das universidades estaduais do Rio de Janeiro. Por conta disso, foram apresentados àquela Corte dois manifestos assinados por nomes importantes da sociedade civil brasileira, um contrário ao sistema de cotas e outro favorável. O documento anticotas intitulava-se “113 Cidadãos Anti-Racistas Contra as Leis Raciais” e conta entre os seus signatários com gente como Aguinaldo Silva, autor de telenovelas da Rede Globo, e Reinaldo Azevedo, jornalista da revista Veja. O texto é bem escrito, mas peca pela excessiva auto-indulgência. A todo momento lembrando o leitor de que não são racistas, os manifestantes mais parecem aquela personagem do conto Arranjo em branco e preto, da escritora norte-americana Dorothy Parker!
 Do outro lado, o “Manifesto em Defesa da Justiça e Constitucionalidade das Cotas” é assinado por, entre outros, Oscar Niemeyer, pelo jurista Fábio Konder Comparato e pelo teatrólogo Augusto Boal. Apresentado no Supremo após a entrega do manifesto anticotas, o documento, mais do que uma defesa, é um contra-ataque aos argumentos apresentados pelos antagonistas.
 Sem dúvida que é inquietante a celeuma provocada pela simples alusão às cotas nos concursos vestibulares. Inquietante e incompreensível. Afinal, o Brasil é, de forma geral, um país altamente tolerante com o sistema de cotas e reservas. Não se ouve falar de oposição organizada à reserva de vagas para portadores de deficiência física em concursos públicos. Tampouco se sabe de ações judiciais contra a obrigatoriedade de se assegurar um mínimo de candidatas mulheres por partido político (embora, nesse caso, o legislador tenha sido inteligente em não assegurar um mínimo de vagas para um dos sexos, mas antes evitar que qualquer um deles obtenha mais do que 70% das candidaturas, mas ninguém é ingênuo o suficiente a ponto de não perceber que, em última análise, a lei protege a mulher na política). Os anticotas tentam desqualificar os argumentos que usam tal analogia, mas não conseguem demonstrar claramente que eles não têm no mínimo a mesma raiz (por isso talvez a quase paranóica necessidade de ter de demonstrar que sua posição contrária às cotas para negros nos vestibulares não tem nada a ver com racismo). 
O portador de deficiência por óbvio que depara com grandes dificuldades de entrar no mercado de trabalho, daí a “discriminação inversa” da reserva de vagas nos concursos para ingresso no setor público. E historicamente a mulher ficou relegada a um segundo plano no quadro político do país, sendo necessária alguma compensação que tente minimizar tal desequilíbrio. Mas tanto os portadores de deficiência quanto as mulheres precisam efetivamente participar dos respectivos processos seletivos ou de escolha a que se submetem, e independentemente de qualquer reserva de vagas, são obrigados a obter resultados mínimos ou apresentar características que estão enquadradas no já consagrado - ainda que discutível - princípio do mérito.
 O mesmo se dá com a questão do negro na sociedade em geral e no campo escolar em particular. Os dados estatísticos comprovam - mas mesmo sem eles qualquer observação empírica denuncia - que a participação do negro na riqueza do Brasil e no universo escolar é desproporcional ao seu contingente geral no país. O sistema de cotas é apenas um pequeno passo na tentativa de se alterar tal realidade, a qual tem origem não somente nos árduos anos de escravidão, mas talvez principalmente na não-inserção do negro na sociedade brasileira pós-abolição. E a exemplo dos deficientes nos concursos públicos, e das mulheres nos partidos políticos, os negros beneficiários dos sistemas de cotas são obrigados a também ter desempenhos mínimos para ingressar nos cursos no número de vagas que lhes couber.
 E por falar em mérito, vale recorrer a Peter Singer (ele de novo!), que no seu indispensável Ética prática questiona por que apenas a inteligência é usada nos concursos de ingresso nas universidades. O filósofo sustenta que outras qualidades ou características são também fundamentais para as mais diversas atividades e, portanto, poderiam ser usadas como critério de admissão de estudantes. Indo além, Singer alega que a seleção pelos testes de inteligência pode ser enquadrada no mesmo nível de qualquer outra utilizada pelos programas de “discriminação inversa”. Noutras palavras, se as universidades passassem a usar outro critério para fomentar seus programas de ação afirmativa em vez dos tradicionais testes que supostamente medem a inteligência, estariam apenas mudando sua política, e se isso trouxesse descontentamento, seria apenas a choradeira típica dos beneficiários do modelo anterior. Ainda sobre isso, o texto em defesa das cotas marca um de seus melhores tentos ao asseverar que “uma sociedade democrática sabe que o mérito deve ser um ponto de chegada e não um ponto de partida”. (grifo nosso)
(...).

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012 - Qual é a do PSDB?

No primeiro texto voltado às eleições municipais de 2012 em São Paulo, comemoramos o fato de José Serra ter decidido não participar do embate. Tratava-se de um claro avanço, haja vista a necessidade de a cidade ser administrada por alguém realmente interessado e disposto a enfrentar seus problemas, não por alguém que pretenda usá-la como trampolim ou, quiçá, a enxergue como mero prêmio de consolação, ante as derrotas em nível nacional.

A história todos conhecem: após ter afirmado que não disputaria a eleição municipal de 2012, José Serra voltou atrás, participou das prévias do PSDB que já estavam marcadas, venceu-as de forma um tanto decepcionante e acabou por trazer nova cara ao pleito deste ano.

José Serra não é novo nas disputas municipais na capital paulista, delas participando em 1988 e 1996, com resultados não muito estimulantes. Em 2004, todavia, conseguiu levar seu partido pela primeira vez ao comando da maior cidade do País. Parece ter sido resultado de processo que já vinha se construindo de forma gradativa, como veremos.

Ao contrário do que a mídia e o burburinho do dia-a-dia nos querem fazer acreditar, o Partido da Social Democracia Brasileira não chega a ter uma história marcante no município, em linhas gerais. Desde a fundação do partido - o que se confunde com o período da pós-redemocratização do País -, o PSDB somente chegou ao segundo turno em eleições na cidade de São Paulo no ano de 2004, justamente com Serra, que se saiu vitorioso naquele pleito. Como já tivemos a oportunidade de mostrar, o PT é o único partido que sempre esteve na briga final.

Entre 1988 e 2000, a disputa foi clara, numa franca polarização ente o PT e a corrente conhecida como malufismo. Era a peleja entre esquerda e direita. Em 1988, bem na reta final, Luiza Erundina (então do PT) atropela Paulo Maluf; em 1992, Maluf dá o troco, batendo Eduardo Suplicy (PT), no segundo turno; em 1996, sem o instituto da reeleição, Maluf lança seu secretário Celso Pitta como candidato, que consegue vencer a ex-prefeita Erundina (ainda no PT); finalmente, no ano 2000, apesar do fracasso retumbante da administração Pitta, o malufismo ainda demonstrou algum resquício de força, com seu patrono conseguindo abocanhar mais de 40% dos votos no segundo turno contra a vitoriosa Marta Suplicy, do PT.

O insistente Maluf, em 2002, na disputa pelo governo do estado de São Paulo, foi ultrapassado por José Genoíno, do PT, não conseguindo, pela primeira vez desde a instituição da eleição em dois escrutínios, chegar ao segundo turno da disputa estadual - sinal de que havia mesmo algo de estranho com o fenômeno do malufismo, cujo patrono só ficara de fora de um segundo turno em 1994 (não disputou o cargo naquele ano). Em 2004, na disputa municipal, Maluf consegue apenas um terceiro lugar, deixando o segundo turno ser disputado por Marta e Serra. Com tal resultado, não restava dúvidas de que o malufismo já não era mais o representante hegemônico do conservadorismo paulista e paulistano.

O PSDB, talvez sem querer, talvez sem o perceber, começa a ocupar o espectro mais à direita da política paulistana. Em 2008, embora disputando a corrida municipal com um nome de peso - nada menos que Geraldo Alckmin -, o partido, repetindo o aspecto mais comum de sua saga na cidade de São Paulo, ficou apenas no terceiro lugar. Não se pode olvidar, entretanto, que a reeleição de Kassab naquele ano se deu com o apoio explícito do PSDB no segundo turno e velado no primeiro - caso clássico de cristianização, sofrido por Alckmin. Dê-se um desconto, portanto, aos que consideram o feito de Kassab quase como uma vitória tucana.

Muitos entendem ser o conservadorismo a principal característica do que se pode chamar de "eleitor médio" paulistano. Eleição após eleição, foi-se vendo o malufismo perder força e o PSDB ocupar os espaços mais à direita no campo político paulistano. O partido de FHC, Covas e Serra não surgiu com tal proposta ou vocação. Talvez tenha sido empurrado para este lado por representar, em nível nacional e em diversos lugares também na seara estadual, o antipetismo, posição que ostenta por normalmente enfrentar o Partido dos Trabalhadores nas principais eleições pelo País.

A ocupação dos flancos à direita pelo PSDB, como dito, deu-se de forma bastante paulatina, talvez imperceptível e - ousaria dizer - surpreendente até para muitos de seus membros. Aos poucos, seus integrantes e correligionários foram aceitando essa nova cara do partido. Verdade seja dita, quem parece hoje melhor entender que ao PSDB pouco sobra senão tentar correr por essa vereda é mesmo José Serra, o que por si só já basta para classificá-lo como fortíssimo candidato na disputa deste ano.

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Eleições municipais - São Paulo 2012
Eleições municipais - São Paulo 2012 - Força do PT

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012 - Força do PT

Em comentários no mês de agosto e setembro de 2011, Lucia Hippolito, colunista da CBN, qualificou a cidade de São Paulo como uma fortaleza antipetista. Decerto que ela não é original ao pensá-lo e, ainda pior, há inúmeros petistas que pensam igual, talvez até o ex-presidente Lula. Aliás, a constrangedora movimentação em busca da aliança com Kassab parece advir dessa suposição.

A análise histórica, no entanto, parece indicar situação muito diversa. Ao contrário do que sustentam os conservadores - com tanta firmeza que até conseguem engambelar petistas históricos -, o Partido dos Trabalhadores é talvez a única força política realmente coesa na complexa cidade de São Paulo após a redemocratização do País. Vamos aos fatos.

Na última eleição em turno único, em 1988, Luiza Erundina surpreendentemente bate Paulo Maluf e ganha para o PT a prefeitura da maior cidade do Brasil. Em seguida, os pleitos passariam a ser disputados com a possibilidade de realização em dois turnos. Na capital paulista, desde então, todas as disputas iriam para o segundo turno. O Partido dos Trabalhadores, se nossa memória não nos trai, foi o único partido que esteve presente em todas as pendengas finais.

Em 1992, apesar de todas as dificuldades enfrentadas por Luiza Erundina, o PT conseguiu, com Eduardo Suplicy, ir para o segundo turno contra Paulo Maluf, que, depois de diversas tentativas, finalmente vence uma eleição - era talvez o auge do paulistíssimo fenômeno do malufismo.

Em 1996, Maluf aposta todas as suas fichas em seu secretário Celso Pitta, que, no segundo turno, enfrenta e vence a ex-prefeita Luiza Erundina, na época ainda no PT. Era o Partido dos Trabalhadores mais uma vez no segundo escrutínio na cidade de São Paulo, e novamente enfrentando o malufismo.

Em 2000, para variar um pouco, o PT mais uma vez chega ao segundo turno na disputa pela prefeitura de São Paulo, naquela feita com Marta Suplicy, que vence Paulo Maluf. A briga acirrada talvez tenha sido dos últimos suspiros do malufismo.

Administrando uma verdadeira herança maldita deixada por Pitta, a petista Marta enfrentou uma série de problemas, mas mesmo assim conseguiu, em 2004, ir para o segundo turno, sendo derrotada por José Serra, à época beneficiado pelo chamado recall, eis que candidato à presidência da República dois anos antes.

Gilberto Kassab herda a prefeitura de Serra, que renuncia para candidatar-se a governador em 2006, e, após uso eficiente da máquina (atenção: não é necessariamente uma crítica), vai para o segundo turno do pleito de 2008, mais uma vez com o PT na disputa, novamente com Marta, derrotada outra vez.

Como se vê, precisava avisar os eleitores paulistanos que a cidade é fortaleza antipetista e pedir para eles pararem de levar os candidatos do Partido dos Trabalhadores para as cabeças das disputas municipais!

De se destacar que o principal antípoda do PT em nível nacional, o PSDB, apesar da hegemonia no estado, somente chegou ao segundo turno na capital paulista uma única vez, justamente quando Serra bateu Marta em 2004. Importante lembrar que Kassab em 2008 elegeu-se pelo DEM, inclusive superando, na reta final do primeiro turno, o candidato peessedebista - reparo fundamental, pois erroneamente alguns tentam creditar aos tucanos a vitória do então demista, o que não é verdade, noves fora a cristianização de Alckmin.

Frise-se, ademais, que, nesses anos todos, o PSDB não tem enfrentado as disputas municipais com "galinhas mortas". Serra e Alckmin, a exemplo do que fazem em nível estadual - e mesmo federal - são os tucanos que nas últimas corridas municipais representaram o partido. Mesmo assim, excetuando 2004, encontram dificuldades de, diretamente, superar o PT em São Paulo.

Outro importante registro histórico: em 1985, na primeira eleição direta pós-redemocratização, o PT alcançou apenas o terceiro lugar, com Eduardo Suplicy. A vitória foi de Jânio Quadros, num surpreendente arranque final contra Fernando Henrique Cardoso, na época ainda do PMDB. Cuidado, leitor, pois não falta quem tente dizer que aquele segundo lugar de FHC é feito do PSDB. Como dito, não é: o homem ainda não tinha, naquela época, motivos para cair fora do PMDB.

Soa estranho, portanto, o tão bem articulado discurso que tenta provar que a cidade de São Paulo tem ojeriza contra o PT. Assim como parece incompreensível que o próprio partido já se apresente com a ideia de que realmente acredita não ter a cara da nossa maior metrópole.

O eleitor paulistano talvez seja mesmo antipetista. Entretanto, ele decerto ainda não sabe!

sábado, 28 de janeiro de 2012

Eleições municipais - São Paulo 2012

No último 25 de janeiro a cidade de São Paulo completou 458 anos de vida. Em ano de eleições municipais, o melhor presente que a cidade pode receber é alguma reflexão sobre o que o pleito deve representar para sua realidade e seu futuro.

Esta corrida eleitoral de 2012 parece que guardará diferenças significativas em relação à disputa de 2008. Há quatro anos, nossa preocupação era com o protagonismo de políticos que pareciam não ter na chefia da administração municipal o maior significado de suas vidas. O PT apresentava-se, então, na briga com Marta Suplicy, ex-prefeita e nome sempre cotado para o governo do estado, pelo que talvez, se eleita, não hesitasse em abandonar a prefeitura para disputar o outro cargo; já o PSDB naquela feita pleiteava o comando do município com Geraldo Alckmin, que já tinha sido governador e fora candidato à presidência da República, nome que decerto não se contentaria com o "rebaixamento" do cargo de prefeito.

Em 2008, por incrível que pareça, a vitória de Kassab talvez tenha premiado o candidato que, naquele momento, era o mais comprometido com o município, aparentemente menos interessado em usar a prefeitura de São Paulo como trampolim para interesses políticos maiores - bem, o "praticamente" abandono da cidade com vistas à criação do PSD veio a demonstrar que tal cálculo também estava errado! Pobre São Paulo e sua sina...

A despeito do negativo exemplo de Kassab, este pleito de 2012 pode ter como diferencial justamente a presença de candidatos que, num primeiro momento, não parecem granjear objetivos eleitorais em instâncias maiores. O único nome certo no páreo é Fernando Haddad, do PT, ex-ministro da Educação nos governos Lula e Dilma, que, a exemplo da sua "chefe" mais recente, nunca disputou uma eleição antes. Também ex-secretário de Marta Suplicy, Haddad não é neófito nas coisas da máquina municipal. Tudo indica que sabe o que está fazendo e, principalmente, querendo. No partido de gente como Marta, Mercadante, Ruy Falcão, não se pode desde já supor que, em 2014, um fortalecido Haddad, se o caso, abandonaria a cidade de São Paulo para candidatar-se ao governo do estado. Merece o benefício da dúvida, pelo menos.

O PSDB ainda não tem nome definido. O partido deve passar por prévias. Decidido, por enquanto, está que José Serra não será o candidato. Ótimo para a cidade, uma vez sabido que o ex-governador não abandonou o sonho de levar a presidência da República. Se disputasse a corrida de 2012, fá-lo-ia meramente de olho em ter um cargo somente para ganhar visibilidade, com vistas à corrida presidencial de 2014. Convenhamos, uma megalópole de 12 milhões de habitantes precisa de um governante verdadeiramente comprometido com seus rumos. Não seria, obviamente, o caso de Serra. É reconfortante, pois, saber que o PSDB, a exemplo do PT, não se apresentará ao eleitor paulistano com um "escalista eleitoral".

O quadro na cidade para este 2012, portanto, ainda está bastante indefinido. Como exposto, a poderosa força política representada pelo PSDB ainda não tem candidato; não se sabe, por enquanto, o que Kassab e o seu PSD farão; o famigerado PMDB e seu Gabriel Chalita também ainda não deixaram claro o que farão; apesar de pesquisas favoráveis, não dá para vislumbrar que dimensão tomará o apoio do ex-presidente Lula a Fernando Haddad; quanto a Haddad, impossível também dimensionar como o seu desempenho no ministério da Educação afetará seu resultado eleitoral: este blogueiro, por exemplo, considera a atuação dele naquele ministério bem acima da média, mas, de outro lado, tem um esforço do aparato midiático em provar o contrário. Aguardemos.

É inegável que a capital de São Paulo apresenta forte tendência conservadora. É perceptível também, sobretudo nos chamados estratos médios, um certo antipetismo, como já até defendido por colunistas da grande mídia, além de notória insensibilidade social. Entretanto, resultados históricos recentes - aliados à sempre crescente complexidade geográfica e demográfica da metrópole - permitem enxergar outras nuanças e, consequentemente, variar os tipos de análise. Fica para um próximo post.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Etta James (1938-2012)

A cantora norte-americana Etta James completaria 79 anos de idade em 25 de janeiro. Não deu tempo. Uma das grandes divas da música popular estadunidense do Século XX faleceu no dia 20.01.2012.

Etta James passeava com muita facilidade entre o soul, o jazz, o blues e o rhythm'n'blues. Sua linha era das cantoras de estilo mais vibrante e agressivo, diferenciando-se, sob esse aspecto, de algumas outras estrelas da música negra suas contemporâneas. Não por acaso o melhor de seu trabalho, nas décadas de 1960 e 1970, foi cometido para o selo Chess, celeiro dos trabalhos mais marcantes do blues de Chicago, ou produzido em Muscle Shoals, no Alabama, sob a batuta do produtor Rick Hall, cujos estúdios eram conhecidos pela mistura bem equilibrada de blues, rock e soul, não raro com alguma pitada de country.

A peculiaridade desse seu estilo - mais "sujo", por assim dizer - não era meramente casual, como sugere pequena história que vamos aqui ventilar. Não raro passa nalguma TV fechada aqueles famosos documentários, segmentados em capítulos, dedicados à história do Rock ou da música pop. Num dos episódios, justamente voltado à soul music e - salvo engano - com destaque às mulheres, a nossa Etta James revela jamais ter gostado das Supremes, de Diana Ross. Num gesto hilário, ela cantarola, num estilo sarcasticamente lânguido, o clássico "Baby Love", megahit do trio. Desse modo, sem conhecer Etta James, qualquer ouvinte já intuiria ser ela, naquele final dos anos 1960, na sua melhor fase, adepta do soul mais áspero, portanto mais próxima da linha da Stax/Volt do que da Motown.

Sintomaticamente, Etta influenciou cantoras de rock que bebiam muito da fonte do soul e do blues, dentre as quais Janis Joplin, Bonnie Raitt e Christine Perfect; vai lá, ouvem-se alguns ecos esparsos até mesmo em Amy Winehouse e Adele!

Abaixo, ouviremos trecho de gravação perpetrada em 24.08.1967, que faz parte do rol dos trabalhos feitos em Muscle Shoals. Trata-se de "Tell Mama", composição do soulman Clarence Carter, também gravada por Janis Joplin. Ouça Etta James, com nossas saudades.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sam Rivers (1923 - 2011)

No dia 26.12.2011, morreu em Orlando, na Flórida, o genial saxofonista e flautista Sam Rivers.

Nascido em 25.09.1923, diferentemente de outros importantes músicos de jazz, só foi lançar seus discos próprios depois dos 40 anos, em meados da década de 1960, após participar de grandes bandas de apoio, incluindo um dos quintetos de Miles Davis. E Rivers iniciou a carreira própria com dois petardos: Contours e Fuchsia Swing Song, ambos de 1965.

Entre idas e vindas, lançou diversos álbuns, geralmente na linha do chamado free jazz.

Falando em idas e vindas, colo abaixo resenha, em inglês bem tosco - pelo que pedimos desculpas -, especialmente escrita para o sítio RateYourMusic, acerca do álbum Dimensions & Extensions, gravado em 1967. Engavetado à época pelo selo Blue Note, as faixas do disco viriam a público em 1976, na compilação Involution. Já Dimensions & Extensions propriamente dito, tal como concebido originalmente, só apareceria no ano de 1986.

Sam Rivers - Dimensions & Extensions (1967 - lançado em 1986)

This album must have been issued in 1967, but contractual problems obstruct its release that year. Its songs remained unissued until 1976, when they appeared in album Involution.

In 1987, It was finally released as being conceived in second-half of 1960s. It's important mention Dimensions and Extensions gained that time, besides the title, the cover art and catalog number, according to information of Bob Blumenthal in his "a new look at", written in 2008 especially to RVG edition. Thus, the album from 1987 is the same that could have been issued in 1967.

Before taping the session of the album that would be this Dimensions and Extensions, Blue Note Records already had launched two great Sam Rivers albums: 1965's Fuchsia Swing Song and Contours. Dimensions and Extensions could have completed a kind of saga of this musician, representing something like a medium of those classics from 1965: the album recorded in 1967, entirely written by Rivers, brings the typical elements of hard bop (as Fuchsia) mixed to avant-garde (predominant in Contours).

Sam Rivers (tenor and soprano sax and flute in this album) is one of those artists that we always read the name in personnel lists of great jazz albums. It's very satisfying listen to him here as a jazz leader. There's no doubt he deserves to be in the pantheon of the most important figures of jazz history.


Ouça, de Dimensions & Extensions, trecho da faixa "Helix", composição do próprio Sam Rivers (tenor e soprano sax e flauta), gravada em 17.03.1967, numa sessão integrada também por Donald Byrd (trompete), Julian Priester (trombone), James Spaulding (sax alto e flauta), Cecil McBee (baixo) e Steve Ellington (bateria). Na ilustração, a capa de Dimensions & Extensions, que, aliás, é a original que já havia sido escolhida para o frustrado lançamento em 1967.

e a

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Eu só quero é ser feliz

Não é raro se associar o capitalismo com a ideia de felicidade. Nenhum outro sistema político-econômico, dizem seus apologetas, seria capaz de permitir que fôssemos tão felizes.

Afirma-se que mais feliz se é quanto mais se pode consumir, sem preocupações e sem culpa, os mais variados produtos e serviços oferecidos por nosso maravilhoso mundo capitalista.

Com efeito, parece mesmo que o caráter aparentemente inabalável do sistema capitalista - do ponto de vista ideológico, que fique bem claro -, deve-se em grande medida ao atributo da felicidade.

Por outro lado, causa espanto que, numa cultura dessas, vejam-se grandes corporações, evidentemente fiéis escudeiras do modelo capitalista, pouco ou nada se empenharem para assegurar que o consumo dos bens e serviços que oferecem sejam de fato uma indiscutível fonte de felicidade para as pessoas.

O caríssimo leitor, se ainda não passou, certamente já viu algum amigo ou parente enfrentar maus bocados com produtos novinhos em folha que simplesmente param de funcionar, ficando horas pendurado no telefone aguardando atendimento, tendo que se sujeitar a esperar às vezes por meses pelos reparos a que estão obrigados os serviços de garantia.

Ora, sob o capitalismo praticamente tudo se transforma em mercadoria, tanto que não por acaso o velho Marx inicia o seu O Capital justamente com a análise da mercadoria. Desse modo, como explicar tanto descaso com os consumidores, deixando que eles, pelo menos por alguns instantes, sejam menos felizes, por culpa das mercadorias que adquirem, as quais, aliás, seriam o motivo maior de sua felicidade?

A resposta só pode vir do trabalho para lá de bem feito da chamada ideologia burguesa. As empresas estão certas de que muitos poucos - número insignificante na verdade - veem alguma saída fora do sistema. Falando de forma bem simples e direta, a lavagem cerebral é tão perfeita, que ninguém se indispõe com o sistema a ponto de recusar consumir seus produtos - ou pelo menos passar a adquiri-los com menos sofreguidão -, mesmo após sofrer humilhações e curtir horas de nervosismo que lhe são (desnecessariamente) impostas por obra justamente da aquisição de bens e serviços que aqueles mesmos caras lhe oferecem. Fazer o que, se o sistema é eterno e indestrutível?

O serviço sujo da ideologia seria deveras mais simples se o cuidado com a nossa felicidade - que só pode ser fornecida pelo capitalismo, como afirmam seus cultores - fosse praticado de forma quase obsessiva pelos "donos" do sistema e seus prepostos. É ou não é?

domingo, 30 de outubro de 2011

Imprensa: crise de identidade e necessidade de autoafirmação

Quando num futuro talvez não muito distante historiadores se debruçarem sobre os dias de hoje no Brasil, não faltarão os que não hesitarão em afirmar que nesta era o País vivia sob uma ditadura midiática.

O caso envolvendo o já ex-ministro dos esportes Orlando Silva ainda vai ser motivo de estudo e decerto vai ser marcado como dos mais grosseiros atos de injustiça de nossa história. De quebra, ainda será marca registrada da pusilanimidade do governo brasileiro de plantão.

Roteiro estúpido: requentam-se, via revista de grande circulação, por intermédio de um sujeito enrascado com a Justiça, acusações que já vinham sendo objeto de investigação; acusa-se o então ministro de, in person, receber dinheiro numa garagem qualquer; o sujeito fala que vai apresentar provas no momento oportuno; não se apresentam as provas; a imprensa parte para o linchamento, sinalizando estar num braço de ferro com o governo; Procurador-Geral e Supremo Tribunal Federal, após pedido do próprio Orlando Silva, entram na jogada, usando de suas atribuições normais; a mídia vale-se dos expedientes legais instalados - normais, repetimos -, para intensificar os ataques ao ministro; depois de uma semana de resistência, Orlando Silva joga a toalha e apresenta a demissão.

Se o governo brasileiro teve um comportamento covarde no caso, a oposição, por sua vez, só para variar também agiu de forma patética, deixando bem claro que, conforme repetido ad nauseam, o verdadeiro partido oposicionista hoje é a mídia: sem a pauta da imprensa, a ausência de discurso dos políticos oposicionistas transformá-los-ia em verdadeiras nulidades.

A falta de limites da imprensa
Por que estaria a imprensa agindo de forma tão tresloucada? Seria em razão de uma sanha golpista descontrolada, como acusam alguns? É caso de antipetismo doentio? Não mira tanto Dilma, antes pretendendo atingir o ex-presidente Lula, querendo a todo custo anulá-lo em 2014?

Há um pouco de tudo acima. Mas nessa operação “derruba-ministros em série” a mídia vetusta parece estar, antes de tudo, tomada, a um só tempo, dos demasiadamente humanos dramas conhecidos como crise de identidade e necessidade de autoafirmação.

Houve um tempo em que se construíam consensos, de forma paulatina, através da imprensa. O chamado “efeito pedra no lago” era uma realidade. Burburinhos se espalhavam, por assim dizer, em camadas: começavam nos grandes centros urbanos com os que liam jornais, até, aos poucos, ganhar os grotões. Os roteiros políticos eram previsíveis.

O fenômeno Lula mostrou que a coisa mudou. Em 2002, pode-se dizer que a imprensa fez um pouco de “corpo mole”, pois havia uma ideia no ar de que, mais cedo ou mais tarde, o Partido dos Trabalhadores levaria a presidência da República, de modo que se tivesse que acontecer, que acontecesse logo; ademais, o “previsível” fracasso do governo petista enterraria as pretensões futuras do partido. A situação em 2006, todavia, desconcertou os que acreditavam já estar o roteiro estabelecido. Sofrendo campanha sórdida, desde o chamado mensalão, ainda assim Lula conseguiu resultado expressivo na sua reeleição contra o candidato do império midiático, obtendo especialmente o voto dos mais pobres e da população das regiões mais afastadas do País, que não deram bola para os esforços dos coronéis da velha imprensa.

Em 27 de dezembro de 2006, capa da revista CartaCapital estampava: “É o fim dos grotões, enquanto só nas classes A e B há quem vote de cabresto”. Em belo texto daquele número, assim expressou-se o jornalista Mino Carta:

(...) O vetusto voto de cabresto, destinado pelos donos do poder ao povo dos grotões, onde quer que os houvesse, mostrou valer, este ano, só mesmo nos rincões das classes A e B, onde a mídia ainda chega, sobretudo em São Paulo, o estado mais rico, ou menos pobre, e mais reacionário da Federação.” [Edição nº 425].


Em 2010, novamente a influência da velha mídia não conseguiu avançar além do andar de cima dos grandes centros urbanos, insistindo as águas dos lagos em ficar paradas, apesar das inúmeras pedras que lhes eram atiradas: o seu candidato, já derrotado em 2002, figura de importância histórica no cenário brasileiro, perdeu fragorosamente para um “poste” ungido por Lula.

A pauta da corrupção – somente no governo federal -, com consequente exploração de irregularidades em ministérios – certamente existentes em quaisquer secretarias estaduais e municipais do País -, trouxe para a mídia, neste 2011, a sensação de que pode ainda ter alguma relevância. Conseguir derrubar ministros, mais do que uma prática “esportiva”, virou questão de honra. Os jornalistas Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues, entre outros, jactam-se do fato de o governo vir fazendo sua faxina supostamente na cola da barulheira midiática: é como se dissessem algo do tipo “não elegemos presidente, mas determinamos o rumo desse governinho incompetente e indicamos o único caminho possível da oposição... idem!”.

Perigos?
Bobagens de adolescentes (necessidade de se autoafirmar), dificuldades de homens de meia-idade (crise de identidade), "prática esportiva", questão de honra. Seja lá o que for, a grande verdade é que o resultado do troca-troca de ministros, por pressão e capricho da imprensa, tem sido o de deixar o governo federal na defensiva. Pior é que o caminho escolhido é do discurso fácil e ao mesmo tempo sem foco do combate à corrupção, que virou uma espécie de tema único nos debates sobre o País. Não por acaso, essa onda moralista vem sendo devidamente chamada de neoudenismo.

Eis o risco: a velha UDN foi o braço civil do golpe de 1964. A oposição sem discurso parece estar se deixando gostosamente levar por tal fantasma. Temos visto marchas meio disformes para lá e para cá, e a grita acerca da corrupção parece ser o último “bastião” de uma oposição que age como se tivesse perdido o bonde da história. Essas são justamente as horas propícias a aparecem aventureiros e justiceiros, sempre com o apoio do império dos meios de comunicação.

Não parece razoável classificar de neuróticos os que veem golpismo no agir dos grandes grupos de mídia. Além do prestígio de outrora, tais grupos andaram nos últimos tempos perdendo grana também, em vista da ampliação do rol de veículos que passaram a receber verbas publicitárias federais. Sob ditaduras, os grandões faturaram mais. Portanto...

Crise de identidade e necessidade de autoafirmação geralmente deixam traumas. Cuidemo-nos, pois.

sábado, 15 de outubro de 2011

Alguém marcharia a favor?

As chamadas "marchas contra a corrupção" que vêm ocorrendo no Brasil são, num primeiro momento e numa certa leitura, algo sem muito sentido, e, em segundo lugar e por outra ótica, reveladoras de má intenção ou de interesses inconfessáveis por parte daqueles que as insuflam. Antes de prosseguir, tente imaginar alguém organizando uma "marcha a favor da corrupção". Faz algum sentido?

A desaprovação à corrupção é da mesma linha da praticamente natural repulsa que as pessoas ditas normais têm por assassinatos ou assaltos, por exemplo. E ninguém consegue, creio eu, imaginar cidadãos saindo às ruas em marcha contra assassinatos ou contra assaltos. Por óbvio nem é necessário que uma horda de pessoas se organize para demonstrar sua contrariedade à prática de assassinatos e assaltos; assim como no caso da corrupção, as leis e códigos já tipificam o assassinato e o assalto como crimes, sendo isso, per se, a representação da discórdia da sociedade para com tais barbaridades.

Seria, por outro lado, compreensível que as pessoas saíssem às ruas contra assaltos e assassinatos em situações específicas, como, por exemplo, numa "marcha contra assassinatos de líderes de trabalhadores rurais" ou em protesto "contra o aumento do número de assaltos numa dada localidade no último semestre" e coisas assim. O Movimento dos Sem Mídia, por exemplo, recentemente organizou uma manifestação "contra a corrupção da mídia", ou seja, delimitou e direcionou aquela repulsa que, naturalmente, se sente pela corrupção em geral.

Não parece ser o caso de dizer que houve aumento da corrupção no Brasil para justificar, nos termos dos exemplos acima, as marchas realizadas nos últimos dias: observe-se que, pelo menos até agora, ninguém fala em "marcha contra o 'aumento' da corrupção". Ainda que aparentemente haja quem pense ser a corrupção maior hoje em dia, não se veem corajosos o suficiente para empunhar tal bandeira, expondo-se desse modo ao risco de passarem por ingênuos ao renegar todo um conjunto de discussões que defendem - e explicam - que a corrupção é uma espécie de praga já disseminada, de há muito, em toda nossa cultura.

Na mesma linha, dado o fato de as tais marchas se autoproclamarem apartidárias, espontâneas, gerais e radicais, não podem elas dar-se ao luxo de declaradamente concentrar-se num alvo muito concreto e definido. Elas não podem dizer que são contra a corrupção de um certo partido, por exemplo, ou contra a roubalheira numa esfera específica de governo, ou contra uma determinada figura pública (tida como) corrupta. Elas têm que ser contra a corrupção em geral, pagando, portanto, o preço de ser, como já dissemos, sem sentido.

Mas o que estamos dizendo?! É lógico que os atos políticos não podem ser sem sentido; a violência contra a lógica é apenas aparente, pois por certo que eles têm objetivos claros, ainda que inconfessáveis.

Mesmo que não o digam, com as tais marchas querem sugerir a seus próprios participantes - e os há de boa-fé em número decerto não muito reduzido - e a toda opinião pública que haveria hoje no País mais corrupção do que houve ontem. Seus inflamadores sabem que não é verdade, mas querem passar tal tipo de sensação. Para isso, usam uma espécie de mensagem subliminar, eis que lhes falta coragem - e alguma cara de pau suficiente - para advogar, de forma aberta, o aumento da corrupção no Brasil nos dias de hoje ou mesmo nos últimos anos.

De outro lado, os cérebros por trás de tão "espontâneas" manifestações querem usar o natural descontentamento com a corrupção - crime, como já dissemos - para tentar acertar somente o governo federal, especialmente os seus últimos anos petistas. As suspeitas de corrupção nada desprezíveis dos governos federais anteriores a Lula, muito especialmente as do seu antecessor, não parecem ter muita importância para a galera das marchas; muito menos importantes ainda têm se mostrado os malfeitos nos governos estaduais, notadamente de São Paulo e Minas. Sem dizer palavra, as tais marchas são contra a corrupção do PT e de seus aliados, ponto. (As realizadas em Brasília, reconheça-se, nalguma medida parecem ter fugido um pouco do quadro que descrevemos).

As coisas seriam mais simples - e mais providas de sentido - se os insufladores dessas manifestações dissessem claramente o que querem e de que lado realmente estão - ou, pelo menos, contra que lado estão. Contra a corrupção? Ora, com marcha ou sem marcha, a sociedade, mesmo que não o saiba, é contra a corrupção. Assim como é contra o estelionato, o furto, a tortura etc.

domingo, 18 de setembro de 2011

Manifestação no MASP

Na tarde do sábado 17.09.2011, reuniram-se no vão livre do Museu de Arte de São Paulo sindicalistas, professores, ativistas, blogueiros e cidadãos comuns com o fim de realizar "Ato Público Contra a Corrupção da Mídia", convocado pelo Movimento dos Sem Mídia.

Bastante oportuno. A luta política, atualmente, passa pelo embate direto com os meios de comunicação. E a questão não é somente a de tomar as dores do governo federal, perseguido de forma desproporcional pela mídia, como já demonstrado por diversas vezes e pelos mais variados atores. Movimentos sociais e categorias profissionais, entre outros, também têm motivos de sobra para começar a enxergar nos grandes grupos midiáticos o seu principal inimigo.

Ainda é forte a lembrança, no campo político, de frase de Judith Brito, da Associação Nacional de Jornais, confessando que a imprensa fazia o papel da oposição no Brasil. De se notar, também, que a oposição política de verdade, desprovida de propostas para o País, tem se mostrado satisfeita em atuar a reboque do denuncismo e do falso moralismo midiático. Daí muitos acreditarem que, porque estritamente política, a briga com os meios de comunicação deveria ser uma mera preocupação do PT - partido político do ex-presidente e da atual presidenta da República - e de seus integrantes.

Nada disso. Vai uma dica para sindicalistas, servidores públicos, movimentos sociais: todos precisam ficar mais atentos ao trabalho de desmobilização e de descrédito que lhes tenta impingir a imprensa. Para os trabalhadores e seus direitos e interesses, o maior inimigo já não parece ser o patrão, mas sim a imprensa, que demoniza sem dó nem piedade seus representantes organizados. Os servidores públicos federais, quando querem aumento, devem mesmo cobrar o comprometimento da presidenta e de seus ministros; mas é preciso compreender que a cruzada ideológica contra os servidores - como pano de fundo à campanha sistemática contra o serviço público - é capitaneada pela mídia. Vê-se que para com os trabalhadores sem-terra, tem-se a impressão de às vezes haver mais hostilidade das grandes redes e jornais do que até mesmo por parte dos latifundiários.

Os professores que tomaram a palavra na manifestação do MASP estavam atentos a esse viés: denunciaram o desejo da imprensa de esconder ou satanizar seus movimentos. Integrante de sindicato dos bancários por sua vez também lembrou do enfoque distorcido e negativo com que os grandes meios tratam as manifestações de trabalhadores, com o claro objetivo de contra eles atrair a antipatia da população.

E se o mote era a corrupção da mídia, o melhor momento da manifestação ficou para a participação de Gerson Carneiro, figura sempre presente nas seções de comentários dos blogues mais sujos do País. Disse ele que a imprensa deveria, só para disfarçar, pegar no pé dos corruptores de vez em quando. Além do que, pediu, que tal a mídia agir com a transparência que cobrava de Palocci, revelando o nome de seus anunciantes envolvidos em caso de corrupção? E mais: como ficam as assinaturas de jornais e revistas dos grandes grupos de comunicação generosamente contratadas pelo governo de São Paulo?

Mais encontros desses Brasil afora e certamente novas perguntas virão. Contudo ficarão sem respostas.