sábado, 26 de dezembro de 2009

Free Jazz, 50 anos

Neste fim de 2009, a Folha On Line destacou, oportunamente, os 50 anos do movimento musical chamado Free Jazz. Houve, todavia, uma pequena gafe: a chamada na página principal falava nos “50 anos do ‘Festival’ Free Jazz”! O jovem responsável pelas manchetes certamente pensou que a comemoração se referia ao famoso festival jazzístico realizado nos anos 1980 e 1990, no Rio e em São Paulo, e não no radical subgênero do jazz. Como consolo, vale recordar a história – não sei se verdadeira – de que o gênio Ornette Coleman, convidado a participar de uma edição do Free Jazz Festival na década de 1990, empolgou-se com o que ele pensou tratar-se de um encontro inteirinho dedicado ao gênero “free jazz”, realizado no Brasil. Até que contaram para ele acerca da famosa marca de cigarros, patrocinadora do evento!

Acertadamente, o sítio da Folha viu o ano de 1959 como fundamental para o estilo free jazz, ainda que muitos enxerguem o alicerce do gênero nalgumas interpretações atonais de Lennie Tristano, na passagem dos 1940 para os 1950. Em verdade, 1959 não foi importante somente para o free jazz, foi um ano singular para o jazz de maneira geral: ano de lançamento de Giant Steps, de John Coltrane, Kind of Blue, de Miles Davis, Mingus Ah Um, de Charlie Mingus, Time Out, de Dave Brubeck, entre outros. No caso específico do free jazz, é digna de atenção a proficuidade criativa, naquele ano, do nosso já mencionado Ornette Coleman.

Após um disco relativamente “normal” pela Contemporary, Something Else!!!!(1958), Coleman lançou, no ano seguinte, outro álbum pela gravadora, ainda no mesmo caminho, mas radicalizando nos “gritos”, "risadas" e “choros” de seu saxofone: Tomorrow is the Question. Ainda no ano de 1959, entraria duas vezes em estúdios de Hollywood, com o fim de gravar, para o selo Atlantic, as sessões que resultariam nos álbuns The Shape of Jazz to Come, lançado no mesmo ano, e Change of the Century, editado no ano seguinte. Sob essa ótica, tem-se, com efeito, que as pedras incontroversamente fundamentais do que viria a ser chamado de free jazz foram realmente assentadas há 50 anos.

Todo o atonalismo, as incontidas improvisações, a radicalização dos ensinamentos de Charlie Parker e, claro, a pura liberdade no ato de executar ganhariam timbres bem mais acentuados nos discos que seriam lançados nos anos 1960, dentre eles exatamente o famoso Free Jazz, álbum que intitularia o gênero que ora homenageamos. A capa de Free Jazz já chamava a atenção com o belo quadro “White Light”, de Jackson Pollock. Talvez esteja aí parte do que nos permite entender um pouco do processo criativo de Coleman àquela época. Veja o que ele diz acerca de suas canções, conforme contado a Gary Kramer, em texto da contracapa do disco Change of the Century:

(...). Uma é completamente diferente da outra, mas, de certa forma, não há começo nem fim para cada uma de minhas composições. Há uma continuidade de expressão, fios de pensamento que amarram todas as minhas canções. Talvez seja algo como as pinturas de Jackson Pollock.

Não se deve negligenciar parte do aspecto político, que contrapunha o novo jazz, realizado sob os auspícios dos caminhos abertos por Parker, ao jazz mainstream, já abraçado pelos brancos, já devidamente abraçado ao gosto dito elitista, afastado de suas origens negras. Entretanto, Coleman mirava a reinvenção e o progresso no jazz, percebendo que mesmo a revolução capitaneada por Charlie Parker poderia, dependendo do que se fizesse com ela, ter um efeito conservador. Na mesma contracapa de Change of the Century, Gary Kramer reproduz as palavras de Ornette Coleman, acerca da faixa sintomaticamente denominada “Bird Food”:

“Bird Food” tem ecos do estilo de Charlie Parker. Bird [alcunha de Parker] nos teria compreendido. Ele teria aprovado nossa aspiração a algo além do que ele nos legou. Estranhamente, no entanto, a idolatria acerca de Bird, com as pessoas querendo tocar exatamente como ele, e não fazer sua própria busca interior, tem, definitivamente, sido um impedimento para o progresso no jazz.

Impossível não pensar em Karl Marx. A revolução não pode ser um fim em si mesma. As contradições continuam existindo, e o progresso é sempre possível e necessário. Coleman realmente acreditava nisso, tanto que, inquietamente, continuaria radicalizando, ora com a formação de quartetos duplos, ora tocando violino de forma sui generis, outrora com a formação dos grupos harmolódicos.

Além de Ornette Coleman, contribuíram para a revolução representada pelo free jazz nomes como John Coltrane, Don Cherry, Albert Ayler, Archie Shepp, Sunny Murray, Cecil Taylor, Art Ensemble of Chicago, Eric Dolphy, Charlie Haden, Peter Brötzmann, Roscoe Mitchell etc. A história e as motivações do gênero são muitíssimo interessantes; mas o melhor de tudo é ouvir!

Ouça abaixo a beleza atemporal do free jazz, em dois importantes momentos de sua história: do que se pode chamar de primeiros passos do gênero, ouviremos o saxofonista Ornette Coleman, acompanhado pelo trompetista Don Cherry, pelo baixista Charlie Haden e pelo baterista Billy Higgins, interpretando a faixa “Eventually”, do álbum The Shape of Jazz to Come, gravação realizada em 22.05.1959.
Na sequência, ouviremos o também saxofonista Albert Ayler, do álbum Spirits Rejoice (1966), gravação de 23.09.1965, tocando "Prophet", com destaque para a bateria de Sunny Murray e ao duo de contrabaixistas Henry Grimes e Gary Peacock.

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

PSDB, DEM, Serra, Aécio: aonde vocês pensam que vão?

Desde 1994, quando da primeira candidatura de Fernando Henrique Cardoso a presidente, o DEM (ex-PFL) é o parceiro preferencial do PSDB. Estiveram juntos nos dois mandatos de FHC e, até hoje em dia, caminham afinados na oposição ao governo Lula, além de permanecerem aliados em diversos estados e municípios.

Para as eleições presidenciais de 2010, a união entre os dois partidos já vinha sendo tomada como certa. O DEM se apresentava como a noiva controladora e que gosta de impor limites. Nem se discutia quanto ao líder da relação, que é, indubitavelmente, o PSDB. Todavia, importantes quadros democratas, dentre eles o deputado Rodrigo Maia e o senador José Agripino Maia, cobravam uma definição urgente por parte dos tucanos, indecisos quanto à candidatura do governador de São Paulo, José Serra, ou de Aécio Neves, governador de Minas Gerais.

Aécio defendia publicamente que o partido lançasse logo o candidato; José Serra não queria que a escolha ocorresse antes de março de 2010. É, portanto, difícil acreditar que o posicionamento dos democratas, firmes na exigência pela definição tucana, não fosse um aceno aos propósitos do governador mineiro, que claramente colocava sua candidatura à disposição, com sinalização mais forte de que estava preparado a assumir a briga. De sua parte, José Serra, mais “tucanamente”, vem, esse tempo todo, passando a imagem de que pode, na hora “h”, desistir da empreitada.

Eis que a noiva, toda certinha, é pega aprontando das suas. Nessa hora, o noivo, que até então vivia acabrunhado, sente que é a hora de dar o troco, deixando claro que o casamento só sai se – ou na hora em - que ele quiser. As cenas de corrupção explícita do DEM fizeram o partido baixar a bola, e Serra passou a dar as cartas. Já Aécio, cujo maior trunfo era a sua oferta de garantia da solidez da aliança demotucana, preocupado que está com seu futuro político, resolveu largar o barco, informando que disputará uma cadeira no Senado Federal por seu estado. Ou seja, Arruda e sua gangue deixaram o governador de Minas sem a claque para reverberar, na mídia, seu posicionamento, o qual era desafiador ao todo-poderoso governador de São Paulo.

A saída de Aécio obriga o governador Serra a tomar logo uma decisão, até porque a principal adversária, a ministra Dilma Rousseff, do PT, não esconde de ninguém o jeitão de candidata em 2010; o mineiro, esperto, deixou uma porta aberta para voltar atrás, caso o partido precise, na última hora, de um candidato a presidente; não se descarta, por fim, a possibilidade – ainda que remota - de uma chapa puro-sangue, com os dois governadores tucanos. São muitas as conjeturas do para lá de indefinido quadro tucano.

Num primeiro momento, a maior vítima do chamado DEMsalão é, sem dúvida, Aécio Neves, que vinha ganhando musculatura na sua briga interna com Serra, justamente por conta de sua capacidade agregadora, em clara oposição ao estilo truculento e concentrador de seu oponente e de resto de todo o grupo paulista que comanda o PSDB. Havia até mesmo, nos bastidores da disputa interna, um pouco da luta contra o chamado paulicentrismo, fantasma que ronda, silenciosamente, a política brasileira. A posição do mineiro ficou tão complicada que chega a ser suspeita toda essa exposição das entranhas do DEM.

Reconhecer o segundo plano a que já estava relegada a candidatura de Aécio Neves, mesmo antes de sua desistência, não é o mesmo que acreditar que ele estaria obrigado a aceitar qualquer imposição de seu partido - se é que o partido, principalmente por parte de seus caciques de São Paulo, está em condições de lhe impor alguma coisa. Noutras palavras, a pequena derrota do governador mineiro não seria suficiente para deixá-lo de joelhos, a ponto de aceitar ser vice do governador de São Paulo, ainda mais depois de ter feito amiúde discursos contra a centralidade da política paulista em nível nacional. Ao contrário, há quem veja em sua desistência um golpe contra o grupo de Serra, que terá que ir, de uma vez por todas, para o tudo ou nada.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Compromisso com as futuras gerações

Assumir compromissos não é tarefa fácil. A tal da COP-15 que o diga. A coisa se complica mais ainda quando se trata de comprometer-se com as futuras gerações. Tal questão passa por um modo de leitura que vê a ética como uma espécie de contrato tácito entre as pessoas com vista ao seu benefício mútuo.

O filósofo australiano Peter Singer, no outrora aqui mencionado Ética prática (São Paulo: Martins Fontes, 2002, 3ª ed.), evoca colegas como John Rawls (1921-2002), que viam a base da ética na abstenção de se fazer coisas más aos outros, desde que também não nos façam nada de mau, não se justificando, pois, que eu observe tal tipo de conduta em relação àqueles que são incapazes de apreciar minha atitude. Segundo Singer, é o que se usa para tentar justificar a matança de animais com fins gastronômicos, pois tais seres não teriam condições de nos responder com reciprocidade, caso os respeitássemos a ponto de não lhes tirar a vida meramente para o nosso prazer à mesa. Mas este está longe de ser o único problema presente no fato de se enxergar na ética um modelo do tipo contratual.

Entre inúmeros exemplos de falhas no modelo contratual de ética - os quais bem podemos tratar noutras postagens -, o filósofo australiano destaca o seu impacto sobre a nossa atitude diante das futuras gerações. “Por que devo fazer alguma coisa para a posteridade? O que a posteridade fez para mim?”, são indagações imaginadas por Singer, que ainda expõe outra crítica ao modelo:

Os que vão estar vivos no ano 2100 não têm como tornar as nossas vidas melhores ou piores. Portanto, se as obrigações só existem onde pode haver reciprocidade, não precisamos nos preocupar com os problemas como o manejo do lixo nuclear. É verdade que uma parte do lixo nuclear continuará sendo mortal durante duzentos e cinquenta mil anos, mas deste que o coloquemos em contêineres que o mantenham longe de nós por cem anos, teremos feito tudo o que a ética exige de nós. (p. 91)

Eis como se resume o drama. Por mais que se fale e se discuta sobre o meio ambiente, não se encontrarão pessoas realmente dispostas a fazer sacrifícios hoje, pensando no amanhã dos filhos e netos. Ainda mais que vivemos numa época do mais radical individualismo e imediatismo. O pior de tudo ainda reside no fato de que a questão ecológica está fortemente ligada à crise estrutural do capitalismo, sendo necessário, para enfrentá-la de verdade, abdicar do consumo irrefreado, de suposto conforto, das maravilhas da modernidade etc. Caiamos na real: muitos poucos querem pagar esse preço agora; quase ninguém teria coragem de firmar acordos nesse sentido hoje. “Que se dane o clima!”.

Políticos vivem de resultados no curto prazo; e as pessoas comuns raramente se importam com o “dia de amanhã”. Dessa perspectiva, as cartas de intenções apresentadas em conferências internacionais são meras palavras ao vento. O futuro nos julgará. Ora, mas quem liga para o futuro?!

sábado, 19 de dezembro de 2009

Miles Davis - Bags' Groove (1957)

Seria uma espécie de sacanagem comigo mesmo deixar de ter este disco em minha humilde coleção. Nos últimos tempos, adquiri vários trabalhos de Miles, aproveitando os preços baixíssimos de alguns CDs da fase da Columbia, especialmente dos álbuns ao vivo dos anos 1960, além de petardos de estúdio, como o clássico 'Round Midnight, de 1957, e o subestimado Seven Steps to Heaven, de 1963. Lançado pela Prestige Records em 1957, Bags' Groove supera todos os discos mencionados; só perde feio mesmo para os lançamentos da fase jazz-rock, como In a Silent Way, Tribute to Jack Johnson e Bitches Brew, também obtidos a preços módicos nos últimos cinco ou seis anos.

Em gravações originais de 1954, Bags' Groove apresenta Miles acompanhado do grupo imodestamente chamado The Modern Jazz Giants, que incluía gente como Sonny Rollins, Milt Jackson e Horace Silver, todos bem jovens e ainda não consagrados nas respectivas carreiras. Rollins é compositor de três canções, que deveriam ser apresentadas aos que se iniciam no mundo do jazz, pois acessíveis de algum modo, em virtude de seus temas principais memoráveis e pontes bem construídas, constituindo-se um perfeito cartão de visitas aos "neófitos".

Devo dizer que, apesar de tudo, não estive de todo órfão durante esses anos todos: na coletânea dupla Tallest Trees, lançada em 1972, a qual já possuíamos de longa data, este Bags' Groove se fazia presente praticamente na íntegra. Foi lá que aprendemos a dele gostar. De qualquer forma, é sempre bacana ter o álbum original e, neste caso, conforme já expusemos, era uma espécie de dívida pessoal.

Ouça Miles Davis and The Modern Jazz Giants interpretando "Doxy", de Sonny Rollins, gravada em Hackensack, New Jersey, em 29 de junho de 1954.

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domingo, 13 de dezembro de 2009

Cenas Paulistanas

Os que passeiam pela Avenida Paulista já devem ter parado por alguns segundos na calçada, enquanto aguardam veículos entrarem em estacionamentos ou saírem deles. Isso mesmo: os transeuntes param, com toda a boa vontade do mundo, para que os carros transitem, sem qualquer cerimônia, naquele que deveria ser, por excelência, espaço exclusivo do pedestre. É a típica experiência que os que lá caminham certamente já vivenciaram.

Os mais atentos talvez já tenham observado, na mesma Paulista, outra excrescência, só possível mesmo em São Paulo: os veículos saem dos estacionamentos, quase atropelando os pedestres na calçada, para, finalmente, pegar o leito carroçável; para tanto, é necessário que os motoristas tenham a mesma solicitude que os pedestres têm na saída dos estacionamentos, certo? E não é que os motoristas dos carros "de passeio" simplesmente não dão vez? Pode observar, caro leitor: em geral, quem dá a oportunidade para que o veículo atinja o asfalto são os motoristas de ônibus. Isso mesmo, meu caro integrante do MSC (movimento dos sem-carro)! Aquele mesmo motorista de ônibus que às vezes não para quando você dá sinal, ou que se recusa a parar meio metro fora do ponto, ou que não para onde vossa senhoria deseja descer... Este mesmo motorista, quando se trata de dar a vez para automóveis egressos de estacionamentos na Avenida Paulista, é o primeiro a demonstrar-se generoso, solícito e simpático.

Nada a estranhar, infelizmente. Mais uma vez, forçoso é repetir, é típico de São Paulo. Em dose cavalar, o que se tem nestes casos é a priorização do individual sobre o coletivo. A calçada - de algum modo democrática -, em vez de espaço do cidadão, que não pode se atrever a tomar o asfalto, vira ponto de passagem de automóveis que carregam, não raro, um único indivíduo dentro. E os ônibus - o "transporte coletivo" por definição -, certamente por decisão unilateral de seu motorista, faz pouco caso das dezenas de pessoas que carregam, para beneficiar o solitário ocupante de carros de todos os tipos, modelos, anos e preços.

Ah, antes que me perguntem, vou avisando que já vi alguns pouquíssimos motoristas dos carros particulares agradecendo aos condutores de ônibus pela cordialidade; aos pedestres, nunca.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Imprensa força a barra da imparcialidade

O jornalismo praticado no Brasil deve ser enxergado sob o olhar da desconfiança. A análise dele não é simples. Além do que, é de nossa natureza moderna o hábito de ter dúvida de tudo. Destaco pequeno trecho de trabalho que cometi para a disciplina História da Filosofia Contemporânea, ministrada pela professora Yolanda Glória Gamboa Muñoz para o curso de Filosofia, da Universidade São Judas Tadeu, de São Paulo:

Sob a influência do pensamento de Freud é possível que alguém pergunte o que uma pessoa realmente quis dizer ao proferir algo, ou quais são suas reais intenções por trás das palavras ou, ainda, se “deixou escapar algo”, se cometeu um ato falho etc.; na mesma linha de entendimento, pela influência do pensamento de Marx, não são raras as vezes que se pergunta quais são os verdadeiros interesses por trás de um comportamento, a quem tais interesses atendem ou qual a verdadeira motivação do ato. Por exemplo, no caso de uma guerra, talvez seja mais apropriado aos que a defendem e/ou patrocinam dizer que ela tem o objetivo de depor um ditador sanguinário, encontrar armas de destruição em massa ou instaurar os benfazejos ares da democracia, em vez de dizer que o seu principal interesse são, digamos, reservas de petróleo.

Pedimos desculpas pela ingenuidade das observações, as quais faziam a abertura de atividade que versava sobre o tema “ideologia”, após todo um semestre imerso nos pensadores alemães mencionados na epígrafe.

Convém entender quais são as intenções da imprensa, neste momento difícil pelo qual ela passa, vendo – literalmente – cenas explícitas de corrupção recair nas costas dos seus apaniguados, justamente sobre aqueles que ajudavam a reverberar o moralismo presente em seus editoriais, ao mesmo tempo que municiavam suas editorias de política com CPIs, discursos inflamados e frases bombásticas, especialmente acerca da questão ética.

A verdade é que na última sexta-feira, dia 04.12.2009, os três mais importantes jornais do país trouxeram manchetes sobre a aceitação de denúncia, no STF, contra o senador Eduardo Azeredo, do PSDB de Minas. Até aí tudo bem. A questão está no fato de terem destacado a sigla a que o ex-governador mineiro pertence. Durante todo esse tempo, ao falar de tal escândalo, a mídia referia-se a “mensalão mineiro” ou “valerioduto mineiro”, numa clara tentativa de preservar o partido de José Serra, Geraldo Alckmin e Fernando Henrique Cardoso; na última sexta-feira, porém, falaram em “mensalão tucano” e “mensalão do PSDB”, com todas as letras. O que há por trás do fato de os maiores jornais do País terem, surpreendentemente, feito jornalismo, dando nome aos bois em tão complicado imbróglio?

O primeiro ponto é que não se deve negligenciar o fato de as gravações comprometedoras de corrupção do DEM, velho aliado tucano, terem imposto uma situação vexatória para todos que patrocinaram a atuação de tal partido na cena política brasileira, dando-lhe guarida por ter apoiado FHC, por apoiar Serra em São Paulo, por ser a sigla de Gilberto Kassab na capital paulista e, principalmente, por fazer cerrada oposição ao governo Lula. Em segundo lugar, que não se olvide do fato de que as dores de cabeça que se concentram no Distrito Federal resvalaram no PSDB local, mas ameaçam chegar a políticos das duas siglas em outros estados da Federação, notadamente em São Paulo, complicando a vida não apenas de Serra, mas também do prefeito da capital, Gilberto Kassab. Portanto, a imprensa ficou em situação tão difícil que talvez não fosse mesmo o caso de querer tergiversar numa hora dessas.

Mas não é só isso. O caso dos panetones, dinheiro nas meias, cuecas e tudo mais deu à imprensa a inesperada oportunidade de posar de imparcial: “ora, nós batemos pesado no mensalão do PT, mas agora estamos detonando com o mensalão tucano”. Pois é. Só que nunca haviam qualificado o mensalão de Azeredo como “mensalão tucano” antes. De qualquer forma, para os que não acompanham a imprensa muito de perto, ou que ingenuamente acreditam que o partidarismo dela sempre foi bem-intencionado, do tipo que nada mais era do que uma intransigente defesa da ética, tal argumento vai ser de grande serventia.

A desconfiança nos obriga a enxergar mais coisas por trás disso tudo. A imprensa bem pode estar apenas se antecipando aos desdobramentos do processo contra o chamado mensalão federal, aquele que envolve políticos do PT e da base aliada do governo Lula no Congresso Nacional. Saindo notícias bombásticas sobre tal caso, poderá explorá-las e a respeito delas exagerar à vontade, pois terá nas mãos a “prova” de que falou do mensalão dos outros também. E ninguém ficará contando quantas laudas foram oferecidas a cada um dos escândalos. Ademais, os responsáveis pela mídia já devem estar pensando que na cabeça do eleitor prevalecerá o “crime” mais recente. Fora isso, os barões dos meios de comunicação devem estar acreditando piamente que algum aloprado petista apronta alguma nos próximos dias para equilibrar o noticiário.

No entanto, questões ideológicas costumam trazer implicações mais graves. Vejamos.

O ex-PFL está cheio de oligarcas representantes do atraso, e o PSDB deu, nos últimos tempos, uma boa guinada para o centro-direita. De todo modo, seja como for, são partidos que atuam na via institucional, tendo como maior pecado justamente a terceirização da política que ofereceram à medíocre imprensa brasileira nos últimos tempos. O perigo, no entanto, pode ser de, por trás da repentina “imparcialidade” da imprensa, estar uma tentativa de desmoralização absoluta da política, abrindo espaço para a extrema-direita ou para aventureiros golpistas. Bem aqui perto, em Honduras, foi dada a senha para tal tipo de maluquice, ainda com direito à institucionalização forjada da "situação de fato".

Este último ponto, admitimos (e torcemos), é pura teoria da conspiração, não parecendo encontrar, por enquanto, maiores lastros na realidade. De qualquer forma, é bom ficarmos atentos.

No meu supracitado trabalho escolar, vali-me de O dezoito brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx. Encerrei-o de um modo que parece caber aos propósitos esposados aqui:

Vê-se [no relato de Marx] a profusão de interesses que pode estar por trás de atos que no desenrolar histórico parecem plenamente normais. É neste ponto que a ideologia pode ser entendida como um mascaramento natural de interesses subjacentes. É exatamente aí que caberia aquela suspeita dos que perguntam: “quais serão os verdadeiros interesses que estão escondidos atrás disso tudo?”. Para encontrar a resposta, há “um contínuo processo de distinção, desmascaramento, e manifestação do que está aí. Para realizá-lo será necessária uma escavação constante que traga à luz os interesses subjacentes que naturalmente se mascaram” (MUÑOZ, Y.G.G. Ainda a ideologia?, in Integração: ensino, pesquisa, extensão, - ano X, nº 39, São Paulo: Centro de Pesquisa da Universidade São Judas Tadeu, 2004.)

Algo se dizendo Beach Boys veio aqui

No último dia 02.12.2009, São Paulo recebeu um dos grupos mais importantes da década de 1960, The Beach Boys. Será que recebeu os "Beach Boys" mesmo?

Pois bem, a banda californiana veio tocar no Credicard Hall trazendo apenas Mike Love de sua formação original. Não dá para levar a sério os Beach Boys sem ao menos Brian Wilson. De qualquer forma, pode ter sido uma boa diversão para os quarentões e cinquentões que devem ter comparecido à casa de shows paulistana.

Dei uma olhadela no playlist e, como seria de se esperar, estavam lá todos os velhos clássicos da surf music de inspiração juvenil, tipo "Surfin' Safari" e "I Get Around". Todavia, não deixaram de tocar três ou quatro do divisor de águas Pet Sounds, de 1966, que foi uma espécie de primeira tentativa adulta da banda, digamos assim.

Mais do que adultos, os fãs remanescentes dos Beach Boys são hoje pessoas maduras, alguns pertencentes até ao que se chama de terceira idade. Por isso, o repertório do espetáculo bem que poderia ter sido baseado no trabalho mais denso presente nos álbuns posteriores ao já mencionado clássico de 1966. Por que não? Decerto que não afugentaria os fãs - em primeiro lugar porque os admiradores de verdade do grupo apreciam muitos álbuns dessa fase e, em segundo, porque não são nenhum bicho de sete cabeças, antes são trabalhos que usam e abusam dos trejeitos pop sem qualquer tipo de cerimônia.

Vamos prová-lo aqui, ouvindo a faixa de abertura do LP Sunflower, de 1970, fase para lá de adulta dos californianos. A música é "Slip on Through", de Dennis Wilson, uma espécie de exercício power pop, gênero que faria, nos anos 1970, a alegria de fãs de Badfinger, Big Star, Todd Rundgren etc. Adiantamos que o refrão dessa canção, marca registrada dos bons trabalhos verdadeiramente pop, é, em nossa humílima opinião, um dos mais perfeitos da história do rock. Confira você mesmo logo abaixo.

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sábado, 5 de dezembro de 2009

Protesto do MSM e o texto de Benjamin



O Movimento dos Sem-Mídia (MSM) realizou neste sábado, 05-12-2009, manifestação em frente ao jornal Folha de São Paulo, em repúdio a artigo (para mim, uma espécie de crônica) escrito por César Benjamin, publicado em 27-11-2009, no qual relatava que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria confessado, em almoço no qual estavam presentes outras pessoas, que tentara "subjugar" um jovem quando esteve na prisão. Desnecessário dizer que o jornal publicou sem checar a informação e sem ouvir o outro lado, talvez apegado ao fato de que tão pequenos detalhes são prescindíveis em texto "opinativo", como parece pensar o ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva.

No ato deste sábado, Eduardo Guimarães leu o manifesto que pode ser encontrado no blog dele, abrindo, em seguida, o microfone para quem quisesse acrescentar algo. Sobrou para a "ditabranda", para a parcialidade do jornal, para a relação promíscua com Serra e o PSDB e para outros órgãos do chamado PiG (Partido da Imprensa Golpista). Dentre as mais de 100 pessoas, havia gente do Rio de Janeiro, Paraíba e Santa Catarina.

O "artigo" de Benjamin
Quem reparar bem na fatídica edição de 27.11.2009, perceberá que o texto "Os filhos do Brasil", do economista César Benjamin, não está lá por acaso. Em verdade, ele faz parte de um turbilhão de tentativas de desqualificar o filme "Lula, o filho do Brasil", de Fábio Barreto. Na mesma data, em matéria sobre a película, o jornalista Rubens Valente aponta omissões de episódios "polêmicos" da vida de Lula sindicalista, deixando transparecer a ideia de que o filme escondia fatos que pudessem "empanar o brilho do personagem heroico construído pelo roteiro". O texto de Benjamin, nesse caso, seria a cobertura no bolo, pois trazia a demonstração cabal de que aquele "filho do Brasil" não seria exatamente do tipo que uma mãe - ou um país - gostaria de ter.

Ora, mas por que tudo isso?

No fundo, trata-se de situacão que faz parte da tradição oligárquica, elitista e preconceituosa da mídia paulista. Em verdade, sem o admitir, a Folha, aliada de setores conservadores não apenas de sua cidade mas de todo o Brasil, acredita que a maior parte da população, sobretudo os mais pobres e menos escolarizados, é composta de pessoas incapazes de avaliar uma obra cinematográfica e sem quaisquer condições de discernir uma peça fictícia de um documentário. Disso resulta o medo de que os espectadores votem, em 2010, de olho no mito que aparece nas telas, sufragando a candidata que ele indicar, motivo pelo qual parece entender necessário - custe o que custar - sair a campo, por antecipação, com um processo de desmitificação (e desmistificação) da figura do operário e sindicalista que um dia se tornaria o presidente mais popular da história do País, minimizando ou anulando os "estragos" que o filme de Barreto poderia causar nas "mentes ignorantes" dos que não leem jornais.

O longo "artigo" de César Benjamin decerto que serve a tal propósito. A começar pelo próprio título, "Os filhos do Brasil", o ex-militante petista quer deixar claro que tal epíteto soaria melhor se aplicado a muitos presos comuns que há por aí, pois, afinal de contas, o presidente brasileiro seria, em realidade uma besta fera que ataca jovens, enquanto ele, Benjamin, jovem preso pela ditadura, era respeitado pelos "barras pesadas" com quem dividira as celas nos anos 1970. O recado é curto e direto: Lula é moralmente inferior a ladrões e homicidas que superlotam os nossos presídios.

A julgar pelas missivas que, nas edições imediatamente posteriores, comentavam o texto do economista, muitos brasileiros leitores do diário paulistano sentiram-se de alma lavada com a história lá contada, o que, a princípio, é surpreendente por pelo menos dois motivos. Em primeiro lugar, porque a mesma seção de cartas da Folha já foi espaço para leitores expressarem o mais violento ódio e ressentimento aos apenados pobres brasileiros, sobretudo quando se envolvem em protestos e rebeliões, tornando curioso o fato de que eles (os leitores) tenham sido tocados pela simpatia com que alguns "criminosos comuns" são descritos - homenageados - por Benjamin. Em segundo, porque a certa altura Benjamin diz não saber quem é o "menino do MEP", o "subjugado" pelo presidente, mas imaginava que ele estivesse vivo, pois provavelmente branco de classe média, não teria corrido os mesmos riscos de morte precoce dos negros e pobres brasileiros; está aí mais um tipo de opinião que deveria provocar a antipatia da média de leitores da Folha, para os quais a existência racismo ou da luta de classes no Brasil só existe na cabeça dos lunáticos da esquerda. Imagino que se o assunto tratado pelo economista fosse qualquer outro que não implicasse agressão ao presidente ou ao PT, talvez a mesma seção de cartas veria leitores insurgindo-se contra a perigosa pregação comunista do colaborador, espumando ódio contra a sua defesa de bandidos e em oposição à sua herética insinuação de que não há democracia racial no País.

Uma outra curiosidade - a bem da verdade uma pilhéria - é que para os editores da Folha o relato de Benjamin, descrevendo porões da ditadura, deve ter sido visto como uma obra surreal, afinal, para eles, por aqui houve somente uma "ditabranda"!

Por fim, há de se ver na estratégia adotada pela Folha - de tentativa de desqualificação do filme "Lula, o filho do Brasil", a serviço da qual usou até o texto infame de Benjamin -, não somente desrespeito à instituição Presidência da República ou à figura humana do presidente, mas uma agressão à inteligência do eleitor, enxergado como alguém incapaz de ir ao cinema fruir de uma obra de arte, sem que ela necessariamente interfira na sua maneira de votar.

domingo, 29 de novembro de 2009

Showzão gratuito no Parque da Independência

A tarde do domingo, dia 29.11.2009, foi especial pela apresentação grátis de Dianne Reeves e Buddy Guy, no Parque da Independência, em São Paulo. Foi mais uma edição do Telefonica Open Jazz, evento patrocinado pela horrorosa empresa espanhola de telefonia, referência da "privataria" e símbolo de ineficiência. A empreitada contou também com o apoio da Prefeitura do Município de São Paulo, do Governo do Estado de São Paulo e do Governo Federal. Acho importante destacar a atuação dos três níveis de governo na organização do evento, já que poucos se lembram do quanto é fundamental a participação do Poder Público para a realização de shows de qualidade gratuitos como este dos dois grandes artistas estadunidenses.

A cantora Dianne Reeves subiu primeiro ao palco, com repertório que misturava o jazz na linha interpretada pelas grandes divas do gênero, devidamente misturado ao soul e ao rhythm'n'blues. Foi um belo show de abertura, do tipo que esquenta a platéia. Platéia para a qual ela voltaria a dar uma "canja" um pouco mais tarde, cantando "It Feels Like Rain", ao lado de Buddy Guy.

O lendário guitarrista, influência confessa de nada menos do que Jimi Hendrix e Eric Clapton, realizou uma apresentação absolutamente incendiária, fazendo a guitarra gritar, chorar, cantar... Tocou com a camisa, com os dentes, de costas... A lenda viva do blues cantou com propriedade temas de Muddy Waters ("I'm Your Hoochie Coochie Man", "She's Nineteen Years Old", "Got My Mojo Workin'"), de John Lee Hooker ("Boom Boom") e do soulman Bill Withers (Use Me); do próprio repertório, levou a galera ao delírio com "Damn Right, I've Got the Blues".

Destaques: em primeiro lugar, o comportamento sensacional do público, que não arredou o pé do local, mesmo com uma chuva torrencial de cerca de 30 minutos. Em segundo, a ousadia do velho guitarrista, que, quebrando o protocolo, desceu do palco, empunhando a sua guitarra, e foi tocar junto da platéia, sendo prontamente cercado pelos fãs, munidos de seus celulares e câmeras para registrar o inusitado episódio.

Lembra de que falamos de quão importante foi Buddy Guy para a formação artística de guitar heroes como Hendrix e Clapton? Pois bem. Para finalizar, o moço mandou ver num medley de versões instrumentais de "Voodoo Chile" e "Sunshine of Your Love". A molecada, que quase não gosta de hinos roqueiros - desnecessário dizer -, foi à loucura.

Guy sai ovacionado, enquanto a banda toca "I Go Crazy", clássico na voz de James Brown. Showzaço!

Arriscamo-nos a tirar algumas fotos; ficaram horríveis. Ainda assim, preparamos um pequeno clipe com elas. Vale pela trilha sonora que escolhemos: "First Time I Met the Blues", com Buddy Guy, composição de E. Montgomery, gravada em Chicago, para o selo Chess, no dia 02.03.1960. Veja logo abaixo.

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sábado, 28 de novembro de 2009

Não ouça a música, não veja o clipe, não compre o disco!

Um dileto amigo, leitor e comentarista de forma esporádica deste blog, recomendou-me um polêmico videoclipe de um grupo de rock alemão, exortando-me a escrever sobre o assunto neste espaço. Trata-se de clipe da canção denominada “Pussy”, da banda Rammstein.

O som é na linha de rock meio industrial, tão sem graça que me obrigou, em respeito aos alemães, a tirar a poeira dos meus velhos discos do Can, este, sim, uma glória para o rock germânico.

Porém, o meu amigo, penso eu, não queria tanto que eu avaliasse a música; ele pretendia que eu só assistisse ao vídeo mesmo. No e-mail que me encaminhara, avisava-me que a peça seria pornográfica e que eu tinha que ser rápido para apreciá-la, antes que a censurassem.

Com efeito, depois de um mês, quando resolvi dar uma olhada no YouTube, o videoclipe já estava devidamente limado, com cores fortes, “estouradas”, borradas nas cenas que – não foi difícil deduzir – poderiam mostrar as imagens mais “pesadas”.

Antes de mais, lembremos que o recurso a imagens de conteúdo erótico não é muito raro nos clipes: mulheres bonitas e provocantes, roupas sumárias, homens chegando junto, sugestões de sadomasoquismo e coisas do gênero. Sem as imagens pornográficas, o vídeo do Rammstein parecia apenas mais um dessa mesma linhagem.

Porém, na maior curiosidade, com alguma pesquisa, não foi difícil encontrar o site oficial da banda, onde pude acompanhar o trabalho sem cortes e sem truques. Os maiores de idade que se arriscarem a fazer a busca terão facilidade em achar a peça. Antes que me perguntem, já vou dizendo que, exceto pela curiosidade, não vale a empreitada.

Pois bem. Depois de muitas insinuações, já nos segundos finais da canção, é que aparecem as tais imagens de conteúdo pornográfico. Como pornografia, entenda-se, neste caso, a exposição de genitálias desnudas. Como certa feita bem disse a sexóloga Marta Suplicy, os filmes de sexo explícito, em sua maioria, condiriam mais com a verdade se fossem denominados de “filmes de genitais explícitos”. De fato, é por demais surpreendente que um vídeo de rock - peça de divulgação por excelência nesses tempos em que imagem é tudo - radicalize de tal maneira, mostrando os genitais de seus integrantes “dividindo a cena” com os genitais e outras partes do corpo de atrizes especialmente (imagino!) convidadas para a difícil tarefa.

Tudo isso tem a ver com o fluxo do tempo, a mudança de mentalidades, o embate do velho e do novo, os costumes que se substituem ou se sobrepõem. O chocante de hoje será o normal, quiçá o “natural”, de amanhã. Enfim, todo aquele blá-blá-blá que cansaria os raros mas exigentes leitores desta página.

A propósito, dia desses recordava da sessão de cinema brasileiro chamada “sala especial”, sucesso na TV Record em meados dos anos 1980. Qualquer homem com mais de 30 deve se lembrar da expectativa para que se chegasse a sexta-feira para assistir, escondido, ao filme que, não raro, em quase duas horas talvez mostrasse três ou quatro imagens fugidias de maior apelo erótico. Era um must para todos os garotos daquela época! Atualmente, qualquer novelinha da Globo está recheada de cenas mais picantes do que as apresentadas naquelas películas dirigidas por gente como Alfredo Sternheim, David Cardoso, Aníbal Massaini Neto, entre outros.

Conta-se que, também na década de 1980, uma série da Globo chamada “Amizade Colorida”, com Antônio Fagundes, teve sua exibição autorizada somente para depois das 22 horas, em virtude de sua temática adulta. Porém, quando da retrospectiva de 30 anos da emissora carioca, episódios do programa foram exibidos no período vespertino! Que me lembre, não houve nenhuma comoção a respeito.

Tudo isso para dizer que não tarda o tempo em que se travarão polêmicas acerca da exibição de cenas de sexo explícito em alguma novela ou em algum filme de Hollywood. Da mesma forma que um dia causou espécie um simples beijo de Vida Alves e Walter Forster, chegará o momento em que vozes contra e a favor certamente se levantarão acerca da primeira vez em que se mostrará, com riqueza de detalhes, a conjunção carnal de dois namoradinhos do Brasil – ou dois rostinhos bonitinhos da América - em um folhetim da Globo ou, melhor ainda, da Record do bispo Macedo, ou em alguma produção cinematográfica “séria” norte-americana.

E a expansão da TV por assinatura e da internet tende a ajudar na antecipação desse processo. A TV aberta, como exemplo de mídia velha e ultrapassada, talvez fique com as cenas mais light, enquanto a TV fechada e a rede mundial de computadores trariam, aos que se predispusessem a pagar, os trechos mais quentes não mostrados na concessão pública.

Vendo por esse prisma, o videoclipe dos alemães do Rammstein pode ser considerado inovador e verdadeiramente revolucionário, a despeito de ser uma bela de uma porcaria. Como diria o meu amigo Clichê dos Chavões: “só o tempo dirá”!

domingo, 22 de novembro de 2009

Sonny Boy Williamson. Qual deles?

Não são raros os casos de artistas musicais que ostentam o mesmo nome. Raros, porém, são os casos em que isso chega a provocar muita confusão. Os bons ouvintes dificilmente se confundem, pois, a despeito do nome idêntico, um vem dos anos 1960, enquanto o outro pertence à década de 1980; se um provém da Nova Zelândia, o outro, da Argentina; se um é muito famoso, o outro é quase desconhecido. Um exemplo: no boom do rock nacional dos anos 1980, o crítico Kid Vinil liderou, no Brasil, um grupo chamado Magazine, o mesmo nome de uma banda inglesa importante da cena pós-punk. É difícil imaginar que algum incauto tenha levado para casa um disco do grupo paulistano quando queria, em realidade, ter adquirido uma bolacha da banda de Manchester.

Por outro lado, pode haver certo problema quando artistas homônimos pertencem ao mesmo gênero, são igualmente cantores e compositores e, ainda por cima, tocam, de maneira exímia, o mesmo instrumento. Foi o que ocorreu no mundo do blues com o(s) gaitista(s) Sonny Boy Williamson. Qual deles? Ora, os dois.

Os iniciados dão números a ambos, de modo a diferenciá-los: há o Sonny Boy Williamson I e o Sonny Boy Williamson II. O primeiro deles era mais jovem e morreu mais cedo. Seu nome verdadeiro é John Lee Williamson, nasceu em 1914 e faleceu em 1948. Apesar de ser o primeiro, é provavelmente o menos famoso. Quando você ouvir alguém falar de Sonny Boy Williamson, pura e simplesmente, é bem possível que esteja se referindo ao Sonny Boy II.

Alex Ford "Rice" Miller, o Sonny Boy Williamson II, nasceu em 1899 e morreu em 1965. Entrou no mundo da música já depois dos 40 anos, após, portanto, do seu homônimo mais jovem. Diferentemente do estilo folk do primeiro, este Sonny Boy é adepto do blues mais moderno, elétrico e urbano.

O primeiro dos gaitistas, como toda boa lenda do blues, teve suas músicas gravadas por blueseiros também legendários, como Junior Wells, Muddy Waters, Johnny Winter e outros; o segundo, até pelo seu punch mais roqueiro, foi homenageado por New York Dolls e Alman Brothers Band e chegou a gravar com os Animals e os Yardbirds.

No Brasil, há uma ótima coletânea de Sonny Boy Williamson I, lançada pela Sony-BMG, com o título Blue Bird Blues, destacando 24 gravações cometidas entre 1937 e 1947, além de belo encarte com texto, fotos e curiosidades.

Já de Sonny Boy Williamson II, com um pouco de sorte talvez ainda se encontre em sebos uma coletânea lançada na década de 1990 pela Movieplay chamada Don’t Start Me To Talkin’, com 20 faixas para o selo Chess no período 1955-1961. Vale a procura.

Ouçamos abaixo os dois Sonny Boy Williamson. Primeiramente, o John Lee Williamson, o "I", com “Good Morning, School Girl”, gravada no Leland Hotel, em Aurora, Illinois, no dia 5 de maio de 1937.
Em seguida, o Alex "Rice" Miller, o "II", com “Don’t Start Me To Talkin’”, gravação realizada em Chicago, no dia 12 de agosto de 1955.
As fotos que ilustram os clipes pertencem a Showtime Archives e a Michael Occhs Archives, respectivamente.


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sábado, 21 de novembro de 2009

"Taxab" e o IPTU: eu apoio

Qualquer pessoa responsável deve ser inexoravelmente a favor do equilíbrio nas contas públicas. Até mesmo nosso ordenamento jurídico posiciona-se de modo radical em relação a essa questão, haja vista a famigerada Lei de Responsabilidade Fiscal. Para o bem de todos, não se deve, em nenhuma hipótese, permitir a deterioração das contas públicas.

O leitor decerto obtemperará com o argumento de que não há nada de distinto no fato de se apegar à necessidade – ou exigência – da saúde das contas públicas. De fato, nada mais é do que o óbvio ululante. O que se pode, em verdade, é ter soluções diferentes para quando um eventual desequilíbrio se avizinha.

O autor destas maldigitadas, por exemplo, é da opinião de que não se deve cortar investimento público para fechar as contas. Defendemos, antes, se for o caso, o aumento da receita. As maneiras mais simples – porém não as mais fáceis – de fazê-lo são através do aperto na fiscalização e, por óbvio, do aumento dos impostos.

Um dos mantras da classe média dos grandes centros urbanos, com o eco da grande imprensa, é a choradeira acerca do “abuso” do poder público na cobrança de impostos. Dificilmente se encontrará alguém que não reclame do peso da carga tributária e muito raramente se ouvirá falar de alguém que não tente, vez ou outra, sonegar para si ou ser complacente – ou até contribuir – para a sonegação de outrem. Imposto, como o próprio nome prenuncia, é algo que só existe porque se sabe que as contribuições não nasceriam da boa vontade e da iniciativa dos cidadãos organizados.

De qualquer maneira, está-se a todo momento usando dos serviços que são pagos com o dinheiro dos impostos, seja nos hospitais públicos, seja a polícia, a organização do trânsito etc. A própria roda do sistema – no nosso caso o modelo capitalista – gira, conforme cantado em prosa e verso pelo cultuado Max Weber, amparada na existência de uma ordem dependente de um aparato burocrático que exige o suporte de toda a sociedade. Já tive a oportunidade de desafiar: a classe média que tanto gosta do nosso status quo, experimente parar de pagar impostos, e certamente não gostará de ver abaladas as pilastras que seguram o modelo político-econômico que lhe permite ter uma identidade e representar algo para o mundo; ora, isso tem preço e alguém precisa pagar por ele!

Tudo isso para dizer que, em princípio, não nos opomos ao aumento do IPTU aventado pela prefeitura de São Paulo. É preciso, ainda, entender melhor as motivações do aumento que, segundo a imprensa, pode chegar à casa dos 60%. De todo modo, num primeiro momento não vemos problemas na "garfada", desde que seja de forma progressiva e com aplicação de justiça tributária. Afinal, o prefeito paulistano poderia, se quisesse, vir com o papo furado do corte de despesas, pois esse seria o caminho que agradaria a classe média chorona que o elegeu e a mídia intrometida que lhe vem dando sustentação, não tanto pelo bem dele mas sim para agradar o seu padrinho, o governador José Serra. Mas, ao propor aumento de impostos, o prefeito ao menos sinaliza estar disposto a enfrentar o problema sem paralisar a cidade.

Não dá para simplesmente aceitar que uma cidade como São Paulo congele investimentos ou corte serviços. Portanto, se necessário for, que se aumentem as taxas e tributos, com serenidade e justiça. Paciência! Se me permitem uma opinião antipática, devo dizer que, até pelo menos onde conheço - falando inclusive em causa própria -, o IPTU paulistano é bastante camarada. Porém, que fique claro, ao defender o aumento e o rigor na cobrança de tributos, estou imaginando que o prefeito Gilberto Kassab esteja pensando em assegurar sua aplicação no social, na saúde, na educação, na valorização do funcionalismo. Que ele não me decepcione!

Mas é chegada a hora do sarcasmo nosso de cada dia! Se não nos falha a memória, a ex- prefeita Marta Suplicy, adversária no segundo turno da eleição municipal de 2008, também derrotada por Kassab em chapa com o padrinho dele em 2004, ganhou a alcunha de “Martaxa” entre a elite e classe média chorona da capital . E o atual prefeito deve boa parte do apoio e dos votos que recebeu - tanto na condição de vice em 2004, como de titular em 2008 - ao discurso fácil do corte dos gastos públicos, o qual tende a refletir numa certa moleza tributária, tanto que deu certo explorar o apelido colado na adversária. E agora, com o aumento do IPTU, como é que fica?

Vamos esperar para ver o comportamento da classe média e da imprensa em relação a esse evento. Já rola por aí o apelido de “Taxab”. É de se presumir que ele ganhe os noticiários e o boca-a-boca com a mesma velocidade do “Martaxa”. E apesar de ainda estar um pouco longe, vamos ver como serão os debates no pleito de 2012. Será que algum candidato da direita terá a coragem de incorporar o discurso antitributos e, mais do que isso, acusar o candidato de esquerda mais competitivo de ser um perdulário criador de impostos?

A propósito, há uma questão que me incomoda desde a eleição de 2008. Por que a candidata Marta Suplicy não usou em sua campanha o fato de a administração Serra/Kassab não ter abolido a taxa de iluminação pública cobrada na conta de luz? Quer dizer, não é de hoje que esses dois apenas fingem – com interesses eleitoreiros – ser tão contrários a impostos. No fundo, governante nenhum é. Pobre da classe média que acredita no tro-lo-ló deles.

sábado, 14 de novembro de 2009

Multidão de especialistas

No conto A multidão, de Ray Bradbury, o protagonista, ao sofrer um acidente de carro, incomoda-se com a rapidez da multidão que, poucos segundos depois, se avoluma em frente ao corrido. A personagem principal começa a reparar que o mesmo se dá noutras situações da mesma natureza, o que o leva a investigar o porquê de aparecer com tamanha rapidez uma massa humana de curiosos quando do acidente de automóveis.

No Brasil, em vez da multidão de Bradbury, o que provoca estranheza é o grupo de especialistas que surge em eventos de grande repercussão, como, por exemplo, acidentes de avião. Está certo que, em situação diferente da galera nas batidas de carro, eles só aparecem porque são convidados pelos meios de comunicação, os quais, na primeira hora, estão tão destituídos de informações precisas quanto qualquer do povo. O próprio especialista não sabe de nada, mas, mesmo assim, não abdica de lançar suspeitas (no caso dos mais honestos), ou proferir certezas e vaticínios (quando mais ávidos de minutos de fama) acerca do evento ocorrido.

No conto A multidão, a turbamulta, aproveitando-se do anonimato, e fingindo-se de desentendida, contraria a clássica orientação dos paramédicos e mexe nos acidentados, deixando-os com graves sequelas ou até mesmo os levando a morte. Os especialistas que aparecem nos meios de comunicação em situações de desastres também dão uma de bobo; porém, de forma diferente da multidão do conto, que tenta se aproveitar da ignorância que em geral se lhe atribui, os experts, por seu turno, valem-se justamente de sua suposta autoridade, servindo, assim - dependendo da natureza do sinistro – como “idiotas úteis” para um ou outro propósito político.

Ressalte-se que não são só os especialistas; costumam lhes fazer as vezes também alguns jornalistas, cheios de opiniões e certezas, mesmo antes de apurados os fatos nos quais estão metendo o bedelho. A multidão do conto a que nos referimos, observa seu protagonista, quando chega em poucos segundos ao local do acidente, decide se o sujeito vai viver ou se vai morrer. Tem ela, portanto, o que se poderia chamar de “utilidade”. Os especialistas também são, conforme já dito, deveras úteis: servem ao teste de hipóteses a que certa feita se referiu Ali Kamel, o mandachuva do jornalismo da Globo.

O acidente da TAM em 2007, todos hão de se lembrar, era, num primeiro momento, culpa do chamado “caos aéreo”, o que, em última instância, significava que era responsabilidade exclusiva do Governo Federal. Todavia, em tempo razoável, já se sabia que a tragédia tinha outras causas, não diretamente relacionadas com a crise naquele setor. Foi aí que veio o Sr. Kamel desculpar toda a imprensa, dizendo que a intenção era das melhores, pois enquanto persistiam dúvidas, os “patrióticos” meios de comunicação ofereciam, generosamente, “hipóteses” ao público sedento de informações.

No caso do blecaute de 10.11.2009 percebe-se situação semelhante. Como bem observado por Eduardo Guimarães, no Cidadania.com, já foi digna de “surpresa” a rapidez com que os jornais conseguiram fechar suas edições de quarta-feira, com vasta cobertura de problema ocorrido depois das 22 horas do dia anterior. No rádio, poucos minutos depois, já se ouviam os palpiteiros dando ideias do que havia ocorrido, na lacuna das informações oficiais, chegando a responsabilizar os pobres que andam comprando geladeiras e outros eletrodomésticos, graças à isenção de IPI! Alguns deles, sem dúvida, são mais rápidos do que a multidão do conto de Ray Bradbury...!

Uma boa objeção: talvez a culpa seja das autoridades, que, a exemplo do próprio caso TAM, no dia do blecaute demoraram para dar satisfações oficiais do ocorrido. Mesmo dentre os mais equilibrados ou menos críticos ao governo brasileiro, há quem pense que a demora em se pronunciar leva à derrota da comunicação. Trata-se, com efeito, de observação perspicaz e de crítica bastante razoável. Entretanto, é bom ponderar que, diferentemente de jornalistas irresponsáveis e de sabichões empolgados com câmeras e microfones, as autoridades não podem – ou não devem - se dar ao luxo de fazer uso de “achismos” inconsequentes.

Há, pois, que se dar um desconto, afinal o governo e seus técnicos, no caso, são como as equipes de resgate em acidentes de carro: muito dificilmente conseguem chegar antes da “multidão”!


Para os interessados: A multidão está presente na seleção de contos O país de outubro, lançada pela editora Francisco Alves em 1981, juntamente com outras dezoito histórias do escritor estadunidense Ray Bradbury, autor do clássico Fahrenheit 451 e roteirista do filme Moby Dick, dirigido por John Huston em 1956.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

De "apagões" e "blecautes"

Sempre se vê por aí gente querendo subtrair de Lula os méritos de seu governo. Agora, quando o assunto é apagão (na verdade um blecaute, como o de 10.11.2009), corre-se a se atribuir a responsabilidade ao mesmo Lula? Tudo bem, claro, é o ônus de ser governo!

Ora, mas, de qualquer forma, é muita injustiça com o conglomerado demotucano que governava o Brasil durante o racionamento de energia (o "verdadeiro" apagão) por longos meses nos anos de 2001 e 2002, pelos quais pagamos caro (literalmente) até hoje! Eles, sim, entendem muitíssimo bem de apagão, e as glórias de tal know-how não lhes poderiam ser arrancadas à força por conta de um evento isolado, ainda que reconhecidamente grave. E já que querem fazer exploração político-eleitoreira do acidente, nada mais razoável do que reconhecerem a espetacular experiência que, inegavelmente, possuem nessa matéria. Como eleitor ainda meio indeciso para 2010, gostaria de saber um pouco mais sobre os conhecimentos que esse grupo adquiriu nos tortuosos anos do "verdadeiro" apagão. Aliás, se o assunto ganhar dimensão eleitoral, posso até ofertar meu voto ao candidato indicado por eles, desde que demonstre estar mais preparado - até por conta da experiência - a enfrentar um problema que talvez se agigante nos anos vindouros - inclusive em razão do crescimento mais robusto que ora ostentamos, sobretudo se comparado àquele período.

De todo modo, não briguemos com os fatos: algum tipo de problema certamente existe e precisa, por óbvio, ser solucionado e devidamente explicado pelo atual governo. Como bem disse o jornalista Rodrigo Vianna, pelo menos dessa vez a oposição político-midiática tem um caso concreto nas mãos, e não as "linas vieiras" e "CPIs da Petrobras da vida", que claramente empobreciam o debate político no Brasil. Acho que para a democracia seria muito bom uma oposição atuante em temas relevantes, como é o caso em questão. Creio que a oportunidade é essa. Apesar de que, infelizmente para o país, já começaram mal...

Com toda sinceridade, acho que em vez de Arthur Virgílio e José Agripino Maia ficarem exigindo esclarecimentos da ministra Dilma Rousseff, baseados no fato de que ela foi responsável pela pasta de Minas e Energia até o já longínquo ano de 2005, eles poderiam, sim, como forma de enriquecer as discussões sobre o assunto, mandar a campo correligionários como José Jorge, Pedro Parente e até mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (já que ele não se recolhe à condição de ex-presidente mesmo), pois todos eles, como já dito, poderiam trazer luz à questão, haja vista a já citada vasta experiência que possuem em crises energéticas. Neste particular, a ministra Dilma está em franca desvantagem, pois quando titular da pasta não enfrentou, que me lembre, nenhuma crise no setor. Honestamente, não vejo sentido em colocá-la no centro desse debate, pelo menos não nesse momento. Porém, se ela sair realmente como candidata, terá, é claro, que apresentar suas propostas para o setor, como todos os outros candidatos.

Aguardemos!

sábado, 7 de novembro de 2009

Vestidinho

O caso da moça hostilizada na Uniban, em São Bernardo, por estar usando um vestido curto provocou bastante polêmica e deixou muita gente perdida, sem conseguir dar explicações ou compreender o que de fato ocorreu.

Quando acontecem situações do gênero, não tarda a aparecer quem tenta dar explicações psicológicas ou sociológicas para o fato. A principal dificuldade, porém, é a falta de informações precisas de como o evento realmente se desenrolou.

A sugestão mais óbvia é a de que houve o chamado “efeito manada”: dois ou três começaram a agredir a garota, no que foram acompanhados por uma horda que não sabia exatamente o que estava fazendo, estimuladas pelo semianonimato. Se isso, por um lado, é uma espécie de desculpa, por outro, expõe a fragilidade de nosso sistema educacional, uma vez que seria de se esperar que a universidade fosse justamente um espaço de incentivo ao desenvolvimento do pensamento crítico e independente, não sendo lugar onde se conseguisse, com tanta facilidade, mexer com instintos primários de turbas enfurecidas.

Mas, conforme já dito, fica difícil uma análise que não seja exageradamente rasteira, quando não se tem certeza de como tudo começou, quem iniciou e por que o fez. Por outro lado, as justificativas oficiais e algumas opiniões esparsas, pescadas aqui e ali, dão mais o que pensar.

A própria escola, acompanhada por diversas opiniões independentes, acusou a aluna do curso de Turismo de estar vestida de forma inadequada, tendo sido, em última análise, a responsável pelo próprio infortúnio.

Trata-se de argumento fragílimo. E perigoso. Da mesma raiz daqueles que – absurdo dos absurdos – já tentaram justificar casos de estupro sob a alegação de que mulheres sensuais, no fundo, lhes dão causa! Mas, a favor dos que defendem tal ponto de vista, tomemos como verdadeira a premissa de que a moça poderia ter tido um pouco mais de “noção” e não ter ido à escola com a mesma roupa com que iria a uma festa. A partir daí, o assunto passa a ganhar uma dimensão ética e, por que não dizer, política.

A questão envolve temas como Estado de Direito, republicanismo, princípio democrático. Afinal de contas, na Uniban existe vedação para o uso de vestidos ousados? Se não existe, nada poderia ser cobrado da moça; se existe, ela deveria ter sido proibida de adentrar o campus. Simples assim.

Pertinente ressalva seria aquela que dissesse não ser necessária a norma positiva para que certas medidas de civilidade sejam “naturalmente” tomadas por cada um de nós. Poderia ser o caso: mesmo sem a regra, a garota deveria, conforme esse ponto de vista, ter tido um pouco de “semancol”. Ora, mas segundo relatos bastante verossímeis, não foi a primeira vez que a estudante usou roupas ousadas na Uniban. Fosse de fato reprovável a sua conduta, a universidade deveria tê-la ao menos advertido na primeira oportunidade. Além disso, foi afirmado também que outras alunas da instituição costumam, de quando em vez, usar vestimentas não muito compridas, sem também, ao que tudo indica, sofrer censuras ou sanções.

Não dá, portanto, para aceitar justificativas da escola e de seus funcionários, tentando passar para a vítima a responsabilidade de sua “má sorte”, insinuando que ela é que “procurou”. Ao contrário, isso só piora as coisas para a instituição, dando a entender que foi omissa e licenciosa.

O problema para os analistas, portanto, volta à estaca zero: se a mocinha já havia usado curto por lá e se outras garotas daquela escola costumam, da mesma forma, usar roupas mais “prafrentex” sem nunca terem sofrido hostilidades, o que explica, então, o absurdo caso envolvendo aquele grupo de futuros profissionais brasileiros?

P.S. Na semana da morte de Claude Lévi-Strauss é de se refletir sobre o ponto a que chegou a universidade brasileira. O antropólogo ajudou a criar o que deveria ser o ensino superior brasileiro, quando foi dos mais notáveis partícipes da formação da Universidade de São Paulo. Como homem do campo da educação e na qualidade de estudioso da cultura e das humanidades, é de se presumir que o cientista social, morto aos 100 anos, ficaria por demais chateado com o caso da garota da Uniban.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Meus 70 e poucos anos

Nos últimos tempos, vem causando agradabilíssima surpresa o posicionamento, não raro de cunho radical, de alguns setuagenários historicamente ligados à linhagem mais conservadora da sociedade brasileira. (Agradabilíssima, bem entendido, para este escriba. Para alguns amigos, vem provocando estranheza mesmo!).

Há alguns anos, Cláudio Lembo, então governador do estado de São Paulo, na crise do PCC, desancou, em entrevista à Folha, o que chamou de minoria branca brasileira.

Recentemente, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira fez elogios rasgados ao perfil democrático do presidente Lula e, causando maior espécie, teve posicionamento equidistante – o que é quase o mesmo que defender - ao sempre demonizado MST.

Em entrevistas, além de em artigos, o também ex-ministro Adib Jatene defendeu aumento na cobrança de impostos, opondo-se, assim, a velho dogma da direita e das classes média e alta, mesmo que não necessariamente de direita.

Por fim, Delfim Netto brada aos quatro cantos para que se reconheça a superioridade do governo Lula em relação aos que lhe antecederam, especialmente em virtude de suas políticas inclusivas.

Delfim, hoje filiado ao PMDB, foi da ARENA e integrou os governos militares; Lembo pertence ao DEM, esteve ligado a figuras polêmicas como Paulo Maluf e Jânio Quadros; Jatene, além de ter sido idealizador da CPMF no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi ministro de Collor e secretário de Paulo Maluf.

De todos, talvez Bresser seja o que mais se entristeceria de estar, aqui, sendo qualificado como homem conservador, haja vista já ter se autodenominado de centro-esquerda e por ter, indubitavelmente, maiores ligações históricas com as forças democráticas. Em todo caso, foi partícipe dos governos de José Sarney e de FHC, ambos muito longe de poderem ser classificados como progressistas.

Impossível não se lembrar da famosa (infame?) frase de Willy Brandt: “Quem aos 20 anos não é comunista não tem coração; e quem assim permanece aos 40 anos, não tem inteligência”. Com os nossos amigos Lembo e companhia limitada, porém, parece que a coisa se deu de forma inversa: tinham muita "cabeça" aos 20, mas agora, não aos 40 mas aos 70, são só coração!

Não se trata, evidentemente, de comunismo, palavra que está por demais surrada. Por outro lado, dá para se falar de “direita” e “esquerda”.

O filósofo Norberto Bobbio, poucos anos após a queda do Muro de Berlim, tentou avaliar a sobrevivência e o significado da polarização entre direita e esquerda, em livro lançado no Brasil pela Editora Unesp, em 1995, intitulado justamente Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. Bobbio expõe conceitos fundamentais para se entender a recolocação da velha dicotomia. Dentre os mais importantes está o de “igualitarismo”:

(...) o elemento que melhor caracteriza as doutrinas e os movimentos que se chamam de “esquerda”, e como tais têm sido reconhecidos, é o igualitarismo, desde que entendido não como a utopia de uma sociedade em que todos são iguais em tudo, mas como tendência, de um lado, a exaltar mais o que faz os homens iguais do que o que os faz desiguais, e de outro, em termos práticos, a favorecer as políticas que objetivam tornar mais iguais os desiguais. [2ª edição, p. 125]

Penso que quem ler as entrevistas e artigos indicados das personalidades citadas neste post perceberá a preocupação - ainda que não manifesta - com a questão da igualdade, seja na forma de propostas para minimizá-las, seja na defesa do uso de mecanismos corretores da perversa desigualdade que marca o Brasil. Neste sentido, devidamente agasalhado pelo teórico italiano, os nossos amigos estão parecendo velhos militantes da esquerda!

Muitos podem não levar tão a sério o que dizem e até mesmo pensar que eles possam estar fazendo “tipo”, ou, o que é pior, avaliar que não dá para confiar em “figuras” como essas. Todavia, o efeito da fala deles, em nossa opinião, não deve ser negligenciado, pelos seguintes motivos: elogios às bem-sucedidas políticas de transferência de renda do governo Lula feitas por seus correligionários já seriam esperadas, passando despercebidas mesmo que muito bem fundamentadas; "desabafos" como o de Cláudio Lembo, se feitos por políticos de esquerda, seriam – não tenho dúvidas – tachados de fascistas; comentários “simpáticos” ao MST, normalmente classificados como defesa do “terrorismo”, se ouvido de um Bresser-Pereira, ao menos ganha alguma atenção; e, finalmente, a antipática bandeira na defesa de cobrança de impostos, quando corajosamente empunhada por políticos de esquerda, só ganha espaço na mídia se for com o objetivo de satanizá-los.

Já os senhores Lembo, Jatene, Bresser e Delfim, com seus mais de 70 anos de idade, não têm que ficar dando muitas satisfações a ninguém, tampouco se preocupar com as "terríveis" repercussões de suas falas. Justamente por isso, vale bem a pena prestar atenção ao que dizem.

domingo, 18 de outubro de 2009

Iggy and the Stooges - Raw Power (1973)

O Planeta Terra Festival 2009, superconcerto a ser realizado no Playcenter, em São Paulo, no dia 07 de novembro, trará pelo menos dois nomes importantes na história do rock: Sonic Youth e Iggy and the Stooges. Este último, em especial, merece o título de seminal. O show deverá ser particularmente interessante pelo fato de, segundo informações do sítio UOL, ser a primeira vez em 35 anos que o grupo tocará, na íntegra, o clássico álbum Raw Power, de 1973.

Iggy and the Stooges, em realidade, é uma espécie de segunda encarnação da banda que, no final da década de 1960, era chamada somente The Stooges. O grupo lançou dois discos notáveis pelo selo Elektra: o homônimo de 1969, e Fun House, de 1970.

O grupo voltaria a se reunir em 1972, com uma pequena mudança na formação, desta feita destacando a liderança do vocalista, também compositor de todas as faixas, Iggy Pop. Lançado pelo selo Columbia no ano seguinte, único álbum oficial efetivamente lançado como Iggy and the Stooges, Raw Power é a epítome de por que a banda de Detroit é chamada de protopunk: é que com seu estilo direto, básico e pesado - deveras diferente do progressivo ou do hard rock de então - lançou as bases para o levante punk que explodiria poucos anos depois nos dois lados do Atlântico.

Vem-me à memória uma resenha do crítico mineiro Arthur Geraldo Couto Duarte, que em comentário ao álbum Instinct, de 1988, acusou Iggy Pop de estar fazendo, naquela época, um rock pesado de quinta categoria, com riffs chupados do AC/DC. Na opinião de Arthur, era perfeitamente possível acompanhar Instinct batendo os pés no chão ao som de suas músicas. O jornalista de Minas Gerais exortava-nos a tentar fazer o mesmo ao som de "Search and Destroy", de Raw Power, não sem antes nos avisar que seria uma tarefa inglória!

Tentemos, portanto, bater os pés ao som de "Search and Destroy", composição de Iggy Pop e James Williamson, que abre o cultuado Raw Power, lançado em 1973, produzido pelo próprio Iggy e mixado por... Oh, ele, David Bowie! Ouça abaixo.

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sábado, 10 de outubro de 2009

A preterição da NOVE

Nesta semana, a imprensa noticiou a formação de um movimento estudantil, integrado por jovens de colégios de classe média do Rio: é a NOVE – Nova Organização Voluntária Estudantil. O grupo surgiu no vácuo do roubo da prova do ENEM, mas mais do que reclamar das dores de cabeça provocadas pela mal explicada história, eles se dizem, segundo reportagem do jornal O Globo (07.10.2009), preocupados com questões mais abrangentes, como, por exemplo, reformas em todo o sistema educacional brasileiro.

Mas há um pequeno problema: o grupo, a despeito de suas preocupações, tanto as pontuais quanto as mais estruturais, se declara apolítico e apartidário; de quebra, opõe-se às entidades representativas dos estudantes, como a UNE e a Ubes, justamente porque elas seriam ligadas demais a governos. Aliás, o jornal carioca alfineta, dizendo que os garotos da NOVE são “as novas caras do movimento estudantil, sem chapa-branca”.

Dizemos que é um problema por dois motivos: em primeiro lugar, fica difícil sonhar com mudanças no sistema educacional brasileiro sem fazer política. É uma questão essencialmente política e deveria, por óbvio, não ser abraçada pelos que se orgulham de ser apolíticos. Ademais, ainda que não seja fundamental estar ligado a partidos para participar de tal tipo de processo, para transformações dessa monta, faz-se, sim, necessária a atuação das agremiações partidárias, o que, em tese, esvaziaria, também, o discurso pretensamente apartidário dos meninos. Há, com efeito, muitas situações em que se dá para fazer política sem depender de partidos; não parece ser o caso de questões que envolvem mudanças profundas na educação.

Em segundo lugar, o grupo surge, de forma oportunista, num momento em que O Globo, na reportagem, chama de crise e de desorganização do ENEM. Ora, já temos na escolha desse viés um ato extremamente político por si só. Afinal, o que houve foi o roubo de uma prova por pessoas que estariam tentando ganhar dinheiro com ela. Pode até não ter havido nada de político no ato, como defendem alguns, sendo antes um mero assunto policial. A iniciativa de tratar o caso como resultado de uma suposta desorganização dos responsáveis pelo ENEM já faz dele um levante indubitavelmente político, pois tem alvo certo, a saber, o Ministério da Educação e, por consequência, o Governo Federal.

Nas minhas postagens no twitter, orgulho-me de ter brincado, espirituosamente imodesto/imodestamente espirituoso (!!!), com o estilo apolítico e apartidário dos rapazes e moças do Rio, insinuando que, justamente por assim se classificarem, eles deviam ser políticos e partidários pra caramba! Eles podem dizer que não, mas estão, inegavelmente, fazendo política da grossa.

A situação, em verdade, faz lembrar uma figura retórica chamada preterição. É usada naqueles casos em que se diz que não vai falar algo enquanto dele se fala. Por exemplo, quando se diz frase mais ou menos assim: “nem vou mencionar a sua absoluta falta de caráter”. Ora, já mencionei!

A NOVE é a mesma coisa: “não queremos saber de política”. Eles só querem mudar a educação do País, aproveitar-se das crises engendradas pela mídia, fazer passeatas contra o Ministério da Educação... Política? Que política?

domingo, 4 de outubro de 2009

Jogos Políticos, quer dizer, Olímpicos de 2016!

A conquista das Olimpíadas de 2016 para o Brasil tem, sem dúvida, grande conteúdo político. Vê-se claramente tal viés no comportamento de parte da imprensa, nos blogues e, sobretudo, na opinião dos cidadãos comuns. Os simpatizantes do governo Lula ficaram eufóricos, certos de que a escolha do Rio deveu-se ao bom momento do país e ao capital político pessoal do presidente; seus detratores odiaram, achando que isso pode virar moeda política para Lula, que já tem popularidade nas alturas e, agora, como um penetra em festas, faz o mundo 'pensar' que o Brasil é 'alguma coisa'".

Falta, em verdade, racionalidade para analisar a questão sob a ótica do que ela pode realmente trazer de bom para o Brasil em termos de desenvolvimento em sentido amplo, ou seja, não apenas na economia, mas para a melhoria no esporte amador, para a autoestima do brasileiro individualmente e, até mesmo, para as práticas políticas.

Mas as ideias maniqueístas acima expostas já apareceram quando do anúncio da Copa de 2014. Também daquela feita viu-se a mesma briga dos prós e contras, também sem muita racionalidade nas análises, antes infladas pela guerrinha política. Publicamos, naquela oportunidade, em 04.11.2007, texto no inativo blog Veritas, que apesar de ser sobre tema levemente diferente, parece, em linhas gerais, caber também para o Rio-2016. Leia abaixo.

04.11.07
Brasil: país do futebol?

O Brasil foi anunciado como sede da Copa do Mundo de 2014. Para o “país do futebol” não poderia haver notícia melhor, poderia? Pois é. Por incrível que pareça, a repercussão da decisão da FIFA foi marcada por grande apatia de uma boa parcela dos torcedores, e por uma saraivada de críticas aliada de mau agouro de outra. Dentre os que comemoraram, somente apareceram aqueles que já começam a vislumbrar uma maneira de se dar bem (entenda-se ganhar dinheiro) com o evento.

É provável que a apatia tenha sido em decorrência do fato de o Brasil não ter tido concorrentes para sediar o primeiro mundial da década de 10 (será que é necessário lembrar que as décadas começam no ano 1?), o que a torna de certa forma compreensível. Mas e quanto aos que já saem por aí dizendo que vai dar tudo errado ou que o Brasil não tem condições nem capacidade de sediar encontro tão grandioso, o que dizer? É no mínimo estranho que os brasileiros gostem tanto de futebol a ponto de torcer por selecionados que pouco ou nada representam o país, a ponto de aceitar calendários extremamente mal planejados, a ponto de aceitar horários de jogos impostos por uma certa emissora de televisão, a ponto de vibrar com inexpressivos campeonatos regionais, mas que, ao mesmo tempo, se mostrem tão antipáticos ao anúncio de que, daqui a sete anos, o país vai sediar o maior encontro do futebol mundial.

É simplesmente inaceitável a alegação de que o país não tem estrutura, afinal essa pode ser justamente a grande oportunidade para se avançar nesse campo, pois a organização do evento exigirá o cumprimento de tarefas a que o país certamente se obrigou. É absurda também a tese de que a República Federativa do Brasil não poderia acolher o mundial de futebol porque tem sérios problemas sociais a resolver. Em primeiro lugar, o Brasil até que tem melhorado um pouco nesse campo, e há muita gente mundo afora (não no Brasil, bem entendido) que vê o país como “a bola da vez”, uma nação preparada a dar um salto de qualidade, desde que aproveite as oportunidades que lhe aparecem. Ademais, se algum tipo de problema social for fator impeditivo de se realizar uma Copa do Mundo, a festa teria muita dificuldade de encontrar um anfitrião, e se o encontrasse, enfrentaria o drama de ter sempre que se realizar em países de pouca tradição no – e/ou de pouco entusiasmo pelo – futebol.
A outra preocupação – e essa é a mais razoável – é com a questão da corrupção dos responsáveis pela organização. É bem provável que o simples fato de tal hipótese já vir sendo aventada pelos quatro cantos deva fazer as autoridades ficarem "de olho" e os responsáveis redobrarem seus cuidados; além disso, o argumento contrário à objeção anterior também vale aqui: se a FIFA começar a levar tal assunto a sério, certamente terá que acabar com a realização de tal tipo de encontro!

Mas a grande verdade é que a questão não é meramente esportiva, mas também – senão principalmente – política. Muitos vêem no anúncio da FIFA uma espécie de vitória do governo Lula ou mais uma demonstração de um respeito internacional de que o país jamais gozou em administrações anteriores, e, obviamente, isso desagrada aqueles que lhe fazem oposição ou que, na melhor tradição futebolística, torcem para que o país seja um eterno derrotado. Desnecessário dizer que isso é uma grande bobagem: o Brasil indo bem, todo povo, evidentemente, vai bem; e se há alguma coisa positiva no ar, algo benfazejo para a auto-estima da nação, por que não aproveitar?

Pois que venha a Copa de 2014 e, com ela, medidas que tragam, de uma forma ou outra, melhorias permanentes para toda a população. E que na abertura, ao contrário da do PAN do Rio, a platéia não receba com vaias a presidente Dilma. Ou o presidente Ciro. Ou o presidente Aécio. Ou...!

sábado, 26 de setembro de 2009

Pesquisas

Faltando mais de um ano para as eleições de 2010, eis que se veem por aí centenas de análises dos números das pesquisas para a corrida presidencial. Serra bem à frente, mas caindo aos poucos; Dilma que subiu, mas não sai do lugar; Ciro Gomes dando a entender que a disputa centrada no PT/PSDB pode estar abalada; e Marina Silva tirando um pouquinho de votos do tucano e um pouquinho da petista.

Este blog, num de seus principais - porém não poucos - erros, apostou as fichas na vitória do tucano Geraldo Alckmin na disputa pela prefeitura de São Paulo em 2008. Os raríssimos leitores que nos honram com sua fidelidade decerto se lembram de que tínhamos - acreditamos - bons argumentos para apostar na vitória do ex-governador. Baseávamo-nos sobretudo nas pesquisas. Circa agosto daquele ano, ou seja, apenas dois meses antes do pleito, segundo os principais institutos, a petista Marta Suplicy beirava os 40%, o tucano abocanhava pouco mais de 20%, enquanto o prefeito Gilberto Kassab e o eterno candidato Paulo Maluf juntos não chegavam às intenções de voto de Alckmin. Entendíamos que no segundo turno, entre Marta e Alckmin, o tucano herdaria com facilidade os votos dos eleitores conservadores que teriam ficado com o prefeito e com o folclórico Maluf. Nunca é demais lembrar, Kassab foi reeleito, e o atual secretário de Desenvolvimento de São Paulo sequer foi para o segundo turno!

Tudo isso para dizer que não dá para levar muito a sério pesquisas acerca de algo que vai ocorrer daqui a mais de um ano. Vale lembrar os clichês usados por analistas, como a presença do "Imponderável da Silva" e a figura "garrinchesca" do "falta combinar com os russos". É claro que os políticos e marqueteiros nem se importam e, ipso facto, usam os resultados das sondagens para trabalhar nos bastidores. Nada a opor, em princípio. Afinal, bem ou mal estão munidos de uma informação, e o negócio, nesse caso, é ver o que se pode fazer - ou deixar de fazer - com ela.

Por falar em clichês, há um bastante interessante que é aplicado a pesquisas: elas são, dizem, "a fotografia do momento". Parece-nos verdadeiro, não obstante pairem, aqui no Brasil, sérias dúvidas sobre a lisura no modo de atuar dos institutos. Mas mesmo tomando como certos os números das recentes consultas divulgadas, qual seria a real importância de tal "fotografia" a essa altura do campeonato?

O que vale mesmo, por óbvio, é a "foto" que será tirada em outubro de 2010.

Ainda falaremos sobre isso.

sábado, 19 de setembro de 2009

Marianne Faithful - Broken English (1979)

A Marianne Faithful de Broken English não se parece muito com a musa da Swinging London, estando antes mais afeita, ainda que sem muito jeito, com o punk/new wave vindo do outro lado do Atlântico. O estilão um tanto junkie, a voz áspera, os arranjos sujos e "econômicos" da maioria das canções compõem as características de um trabalho que parece encontrar na estadunidense Patti Smith uma inequívoca influência.

É, com efeito, gritante a diferença estética e estilística de baladas inesquecíveis como "As Tears Go By", dos anos 1960, e, por exemplo, "Why D'ya Do It", faixa em que a já mencionada influência da "sacerdotisa do punk" é mais explícita. Entretanto, ao contrário do que costuma ocorrer em boa parte dos casos de radicalismos estilísticos, a inglesa aparece autêntica, tranquila, passeando bem por entre guitarras discretas, bateria seca, baixo sombrio e teclados esparsos.

Uma dica: é um disco que talvez precise de tempo para aprender a dele gostar. Nem todas as faixas são como a bluesy "Brain Drain", a levemente soul "Guilt" ou a roqueira "Why D'ya Do It" de que já falamos, todas encantadoras à primeira audição; as demais podem requerer um pouco mais de esforço para perceber suas nuanças ou para entender e deglutir o arrojo setentista de uma das "ex" de Mick Jagger. Vale a empreitada!

Ouça abaixo Marianne Faithful interpretando "Working Class Hero", composição de John Lennon que, na gravação dela, guarda todas as qualidades do álbum que comentamos.

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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Marolinha. Ainda!

Eis que vejo na televisãozinha do Metrô a notícia, publicada no Le Monde, dando conta que o presidente Lula acertou ao afirmar que a crise econômica no Brasil seria só uma marolinha. Confirmei a informação no Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha, que reproduziu a matéria do jornal francês, que, aliás, não era apenas sobre o Brasil, mas acerca da importância do chamado BRIC no novo cenário econômico internacional que se desenha após a crise.

Também, nesta semana, vi no BandNews TV reportagem sobre a forma como a crise atingiu o Brasil, e como o país a está deixando para trás. Foi absolutamente hilário ver o Sr. Luiz Carlos Mendonça de Barros, o homem da "telegangue", do "limite da irresponsabilidade", admitindo, com um sorriso mais ou menos amarelo, que o presidente tinha razão: "a crise no Brasil foi só uma marolinha mesmo e não um tsunami". Sem dúvida que é deveras surpreendente ouvir isso, sobretudo quando se teve a oportunidade de ler as barbaridades que o economista, ex-ministro do governo FHC, escrevia na sua coluna da Folha, sempre criticando o presidente e as autoridades brasileiras por, segundo ele, estarem fazendo pouco caso da "terrível crise".

Por tudo isso, tomamos a liberdade de reproduzir texto que publicamos neste espaço no dia 27.03.2009, e que, nessa altura do campeonato, soa bastante atual. Felizmente, diga-se!

Sexta-feira, 27 de Março de 2009
Marolinha sem aspas

Alguns colunistas da mídia adotaram a expressão marolinha, utilizada pelo presidente Lula para se referir ao tamanho com que a crise econômico-financeira internacional iria atingir o Brasil. O vocábulo tem sido geralmente destacado entre aspas. O uso desses sinais não parece estar sendo com o intuito de indicar que se trata de uma metáfora, ou de gíria ou algo que o valha; em verdade, o que se quer é sugerir que o presidente pode ter dado uma bola fora ao utilizá-lo, ainda mais que a imprensa tem sido bastante competente no tentar demonstrar que a crise teria desembarcado no Brasil em níveis que mereceriam ser associados a fenômenos naturais bem mais devastadores. Noutras palavras, as aspas que envolvem a marolinha presidencial, quando empregadas pelos estafetas da imprensa, estão carregadas de ironia e sarcasmo.

Lula sabia que a crise atingiria o Brasil em alguma medida, tanto que admitiu que seríamos tocados por ela na forma da tal marolinha, o que significa dizer que ele não se iludia com o fato de que ela não chegaria de nenhuma maneira aqui, como tentaram distorcer alguns. O presidente, em verdade, buscou apenas demonstrar que não haveria tsunami (metáfora antípoda à do presidente brasileiro) na economia brasileira e por isso escolheu um termo que, na opinião dele, melhor dimensionaria os efeitos da crise neste país tropical. Que se analisem friamente os dados após cerca de dois anos de maus resultados em nível global e forçoso será concluir que, com efeito, no Brasil a crise é só a tal marolinha mesmo.

A bem da verdade, não foi apenas o presidente da República que se mostrou, por assim dizer, otimista com os possíveis efeitos da crise no país. Órgãos como a OCDE e o FMI já haviam, antes dele, afirmado que o Brasil era das nações menos vulneráveis aos maus bocados internacionais e que, ipso facto, levaria poucos arranhões oriundos desse acidente universal. O ingrato Lula deveria ter dado os créditos!

A imagem da marolinha brasileira vem sofrendo a tentativa de desmoralização promovida pela mídia calcada principalmente em dois resultados bastante significativos: a queda do PIB no quarto trimestre de 2008 e os fechamentos de vagas no mercado de trabalho nos meses de dezembro e janeiro últimos. Mas vamos lá: não obstante a contundência com que o mercado foi atingido em 2008, a grande verdade é que dezembro sempre foi um mês de expressiva dizimação de empregos, mesmo em anos de bonança internacional; já o PIB do último quartel do ano passado – nunca é exagerado lembrar – foi desastroso se comparado com o terceiro trimestre, mas positivo se confrontado com idêntico período de 2007 – fora o fato de que no acumulado do ano obteve excelente resultado, como já apontamos noutra postagem. Merece nota também a informação de que o mês de fevereiro foi positivo na criação de vagas do mercado formal de trabalho. No caso deste último, a imprensa, como se sabe, quis minimizar o resultado que, realmente, é marcadamente inferior ao do mesmo mês de 2008; mas, num mundo em que se comemora até mesmo quando o desemprego aumenta em nível menor do que o esperado, deveria ser celebrado o tímido porém consistente resultado do mercado de trabalho brasileiro no segundo mês de 2009.

Os jornais brasileiros fizeram, por motivo político, uma aposta na crise. Tentam de toda forma mostrar que acertaram. Já a rede norte-americana CNN parece pensar de maneira diversa: o mais famoso canal noticioso do mundo afirmou, quando do encontro dos presidentes Lula e Obama, que uma das grandes qualidades do Brasil neste momento é que o país tem sofrido muito menos com a crise quando comparado a outros países da mesma importância. Yes, nós temos marola!

Um amigo conta-me que propaganda do DEM – à qual não tive oportunidade de assistir – vem tentando explorar a metáfora molhada de Lula, procurando mostrar a suposta infelicidade da fala presidencial. O cerco se fecha: o partido de José Agripino Maia tem na grande imprensa o mentor intelectual de seu discurso. O assunto crise econômico-financeira internacional (a bola da vez) tem que ser martelado diuturnamente na mídia, para que partidos oposicionistas, claramente sem projeto, tenham do que falar e possam dar suas alfinetadas de vez em quando. É essa, infelizmente, a importância que resta à vetusta imprensa no Brasil de hoje!