O título deste post é uma citação feita por Sócrates, no clássico A República, de Platão. O filósofo conta que Leôncios, ao voltar um dia do Pireu, viu cadáveres estendidos perto do carrasco. Ao mesmo tempo em que sentiu um grande desejo de observá-los, foi acometido de repugnância e afastou-se. Lutou consigo, escondendo o rosto com as mãos. Mas dominado pelo desejo, arregalou os olhos e, correndo na direção dos cadáveres, gritou a célebre frase que dá nome a este texto.
Sócrates a resgata porque está falando de dois elementos presentes na alma: um irracional, que compele a pessoa a satisfazer seus desejos, e o racional, pelo qual ela raciocina e apresenta algumas características de autocontrole.
Hodiernamente, tudo isso parece ter a ver com a maneira como as pessoas e os meios de comunicação, de forma imbricada, reagem a - e participam de - assuntos espinhosos como a violência.
Parece não haver espaço para o racional, para a análise fria e para a ponderação se a discussão for, por exemplo, sobre a morte trágica de uma bela criança de cinco anos de idade.
É difícil saber o que vem primeiro: se a curiosidade mórbida associada à necessidade de se saciar com algum tipo de “justiçaria”, por parte da sociedade, ou se o desejo mesquinho de “dar um furo” ou de “conseguir” um choro ou um desespero de parentes, por parte da mídia.
O espetáculo, de todo modo, é sempre “belo”, com direito a autoridades policiais que não hesitam em cometer abusos e proferir frases infelizes em troca de um pouco mais de quinze minutos de fama. É de estonteante beleza também a atuação dos “vidiotas” que vão a portas de delegacia para xingar suspeitos e para dar murros nas viaturas que os transportam. Como contraponto, há de ser mencionada quão sábia é a Providência quando permite que os suspeitos sejam brancos de classe média, pois, assim, a “agenda” de nossas vidas é poupada de estéreis discussões sobre pena de morte e acerca do recrudescimento de leis.
Mas as “belezas” mais ordinárias costumam também ser um tanto efêmeras. Por isso, não tarda muito, o bonito espetáculo dará lugar a outro, às vezes até mais completo, ou será simplesmente substituído por algo mais leve, mais familiar, em suma, mais comercial. E a despeito das promessas, das certezas, dos protestos, o velho espetáculo, que todos garantiam que não seria jamais olvidado, cairá no mais absoluto esquecimento. Irá para algum desvão da alma, que talvez nem Platão saberia nomear.
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