domingo, 26 de abril de 2009

Mídia ou rua?

Estar nas ruas é uma coisa; estar na mídia é outra. É o que se pode depreender da censura do ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa dirigida ao presidente daquela corte, Gilmar Mendes (o leitor deve ter acompanhado).

Não se tratava de uma mera constatação, mas de uma crítica – por que não dizer um ataque – dirigida ao ministro Gilmar Mendes. Por isso, não nos parece despropositado supor que Joaquim Barbosa quis também dar uma cutucada na mídia. Foi como se ele dissesse que sair às ruas é bom; por outro lado, estar na mídia...

Creio que a assim chamada grande mídia, aquela representada pelas grandes oligarquias do setor, sentiu o golpe, tanto que deixou transparecer alguma simpatia por Gilmar Mendes e não escondeu certa reprovação (quem são eles?) por Joaquim Barbosa.

Não é caso de se entrar no mérito da questão que se discutia naquela sessão – que isso fique para os juristas e para as partes envolvidas na pendenga. Mas é bom ver se realmente a pobre da mídia merecia mesmo ter sido chamada a protagonizar tão áspero diálogo na mais alta instância do Poder Judiciário brasileiro.

Apenas um fato já seria suficiente para dar razão a Barbosa na sua indireta crítica aos meios de comunicação. E ela vem justamente da falta de ressonância de uma ousadia do ministro contra o presidente do Supremo. Ele disse qualquer coisa a respeito de capangas do Mato Grosso. Por que a mídia não foi atrás de saber do que se tratava, perguntou um atônito Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa. Não se trata de prejulgar nem de levar a sério a insinuação de Joaquim Barbosa; mas seria aplicação do bom jornalismo correr atrás de fatos e desnudá-los para que o cidadão que acompanha o caso não ficasse, digamos, “boiando”. Reparemos que, em virtude disso, o sempre sarcástico Mino Carta sugeriu que a revista que edita deve figurar entre as leituras de Barbosa!

E a mídia e as ruas, como ficam? Ora, basta ver os resultados das eleições presidenciais de 2002 e 2006; se não for o bastante é só acompanhar o índice de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: de fato, o descompasso entre mídia e rua é algo colossal, não?

Mas é claro que não se quer que a mídia (os formadores de opinião) tenha sempre posições que sigam as ruas, afinal não nos esqueçamos do maciço apoio popular de que gozava o nazismo na Alemanha, por exemplo, ou, em nível doméstico, lembremo-nos de como tende a se posicionar a população em relação a questões de direitos humanos. A sugestão seria que, para a mídia, estar nas ruas é fazer jornalismo de verdade, relatar fatos, não editorializar matérias, pautar-se pelo máximo equilíbrio possível, tomar partido se for o caso, mas de forma clara e de maneira honesta com o leitor: em suma, é basicamente seguir os manuais de redação da maioria dos órgãos!

Mas, para finalizar, as ruas bem que poderiam fazer uma observação e emendá-la a uma pergunta: não há, em princípio, maiores problemas no fato de o presidente do STF aparecer muito na mídia, afinal ele é pessoa pública e suas opiniões bem podem ser de grande interesse; mas, pergunta-se, por que ele tem tanto espaço na mídia? O que o leva a aparecer mais do que os presidentes anteriores? Deve haver alguma resposta – e pode até não haver nada de mais nela. Mas “as ruas” mereceriam saber...

terça-feira, 21 de abril de 2009

22 de abril, Dia Mundial da Terra

Em homenagem ao Dia Mundial da Terra, comemorado no dia 22, este blog coloca à disposição alguns links de postagens que, de um modo ou outro, trataram da questão ambiental. Vai aí a lista:

Todas as horas do planeta
Marina, os "ambientalistas" e os "desenvolvimentistas"
A cidade de seis milhões de problemas
Atenção: este país tem um "alarde"!
Dias Mundiais sem Carro: a partir de 23 de setembro!

Como trilha sonora, acho que cai bem o ótimo Surf's Up, lançado em 1971 pelos Beach Boys. O grupo californiano já vinha amadurecendo seu trabalho desde o clássico Pet Sounds, de 1966. No disco de 1971, além de esmero nos arranjos, há letras mais elaboradas e, de certo modo surpreendemente, engajadas, sobretudo na seara ecológica. Leia trechos de duas de suas mais belas canções:

Don't Go Near the Water
(Alan Jardine - Mike Love)

Don't go near the water
Don't you think it's sad
What's happened to the water
Our water's going bad
Oceans, rivers, lakes and streams
Have all been touched by man
The poison floating out to sea
Now threatens life on land

Don't go near the water
Ain't it sad
What's happened to the water It's going bad

(...)

Toothpaste and soap will make our oceans a bubble bath
(Ah-um dirty water, ah-um dirty water)
So let's avoid an ecological aftermath
(Ah-um dirty water, ah-um dirty water)
Beginning with me
Beginning with you
(Ah-um dirty water, ah-um dirty water)

Don't go near the water
To do it any wrong
To be cool with the water
Is the message of this song

Let's all help the water
Right away
Do what we can and ought to
Let's start today


A Day in the Life of a Tree
(Brian Wilson - Jack Rieley)

Feel the wind burn through my skin
The pain, the air is killing me
For years my limbs stretched to the sky
A nest for birds to sit and sing
But now my branches suffer
And my leaves don't bear the glow
They did so long ago
One day I was full of life
My sap was rich and I was strong
From seed to tree I grew so tall
Through wind and rain I could not fall
But now my branches suffer and my leaves don't offer
Poetry to men of song
Trees like me weren't meant to live
If all this world can give
Pollution and slow death
Oh Lord I lay me down
No life's left to be found
There's nothing left for me
Trees like me weren't meant to live
If all this earth can give Is pollution

(...)

Ouça abaixo as duas canções na seqüência.

video

sábado, 18 de abril de 2009

Para não dizer que não falei de Big Brother

Andei deparando nos últimos dias com pessoas preocupadas em entender a sobrevivência do programa "Big Brother" no Brasil. O modelo - salvo engano importado da Holanda - parece já não encontrar muita receptividade noutros países do mundo; por aqui, ao invés, é bem recebido (pelo que tudo indica) em lares de todas as classes sociais, ainda que muitos neguem acompanhá-lo e até se esforcem em lhe fazer críticas que nem sempre soam convincentes. Mas, afinal, o que dá essa sobrevida à versão brasileira de tal “zoológico humano”?

Em primeiro lugar, um pouco de história. Se o leitor bem se lembra, a Rede Globo adquirira os direitos de realizar o programa no Brasil, mas preferiu deixar o projeto dormindo. Enquanto isso, o sagaz Silvio Santos criou a “Casa dos Artistas”, programa nos mesmos moldes, porém com gente famosa. A atração no SBT fez um grande sucesso, e além de ter dado início a uma batalha na Justiça, parece ter exortado a “Vênus Platinada” a desengavetar o programa importado, e o Big Brother finalmente ganhou as telas com uma casa repleta de gente supostamente comum – e bota “supostamente” nisso, como se descobriria mais tarde! - disputando um importante prêmio em dinheiro por sua, por assim dizer, sobrevivência.

Mas e o razoável sucesso, mesmo depois de nove anos? Será explicado pelo gosto por fofocas, ou quiçá pelas cenas picantes? Será fruto de um patológico gosto por controlar a vida alheia? Ou é por conta da escolha de gente mais ou menos bonita entre os participantes? Será por causa do poder que é dado ao telespectador de decidir quem fica e quem sai? Quem sabe o brasileiro não é um voyeur por natureza... Ademais, o mundo cão sempre foi sucesso por aqui, não? Ok, ok, pode ser um pouco de tudo isso, mas, num mundo marcado pela efemeridade, uma vida de nove anos para um programa de fórmula já tão assimilada não deve ser considerada pouca coisa.

Dentre os motivos do relativo sucesso do BBB, em nossa humílima opinião, está, em primeiro lugar, o poder de indução da TV Globo, que embora um pouco abalado nos últimos tempos, ainda tem a capacidade de martelar um assunto de tal forma a transformá-lo em interesse tão geral quanto possível. (Vide as novelas: quantas vezes não se viu começar determinado “folhetim” sob o estigma de “mau ‘ibope’” para, em seguida, virar “mania nacional”?). Outra causa está na inteligente jogada de exibir o programa no início do ano, ou seja, na entressafra televisiva, quando as demais atrações estão no gozo de “férias”. Em vez de, como certa feita disse José Simão, ter que optar entre uma reprise nova ou uma reprise antiga, o telespectador pode assistir a um programa “novinho” e inédito, pelo menos no que se refere aos participantes. (E não é só o BBB; acreditamos que os decadentes – senão já decaídos - campeonatos estaduais de futebol também são idiotices úteis num período de pasmaceira televisiva e, claro, esportiva.).

Um amigo, que não nega dar umas “espiadinhas” no programa de quando em vez, confidenciou-me que alguns participantes são bons jogadores, do tipo que ficam atuando para angariar a simpatia dos telespectadores ou para encontrar meios de ganhar sobrevida na disputa pelo sempre atraente prêmio em dinheiro. Achei interessante: neste caso, o “Grande Irmão” é quem está dentro da casa; ele é que está lá atentamente observando o comportamento da "horda" que está de fora, para assim implementar mecanismos de controle sem que ela saiba. E alguém em meio aos milhões de telespectadores, a exemplo do “herói” Winston, deixará uma lágrima pingar sobre o celular, com a certeza de vitória sobre si mesmo. "Amava o Grande Irmão". Mas, aqui no Brasil, no máximo, no máximo, estourando, por um ano.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Obama e Cuba: o que esperar?

Há um ditado popular que diz “de onde menos se espera é que as coisas acabam vindo”. Já o lendário Barão de Itararé sarcasticamente afirmava que “de onde menos se espera... bem... aí é que não vem nada mesmo!”. E, por fim, poderíamos por conta própria reformular o adágio, ainda que de um modo a torná-lo relativamente desprovido de graça, deixando-o mais ou menos assim: “de onde mais se espera é que as coisas realmente vêm”. Qual frase melhor se encaixaria para as mudanças (leia aqui) determinadas pelo presidente Barack Obama em relação a Cuba?

Comecemos pelo final. Obama foi eleito sob o discurso de mudança. Dessa forma, não há motivos para se surpreender com possíveis acenos liberalizantes no trato com a ilha centro-americana. Convenhamos, os políticos podem muito bem cumprir uma promessa ou outra de vez em quando! (Isso nos Estados Unidos, of course!). Esta é a leitura mais rasteira, do tipo que, como se vê, não acrescenta nada à discussão; seria o caminho mais fácil por assim dizer.

A paráfrase de Aparício Torelly, por sua vez, exige análise mais rebuscada. Ela passa por uma suspeita que não foi incomum durante a campanha sucessória estadunidense e que se reforçou durante o período de transição de Bush para Obama: acreditava-se que o democrata talvez encontrasse maiores dificuldades em praticar políticas mais abertas, modernas e arejadas em momentos de crise do que um antagonista republicano. A idéia era a de que os barulhentos conservadores americanos intimidariam o presidente de comportamento mais liberal. Noutras palavras, todos os passos do democrata seriam vigiados com desconfiança, deixando-o acuado. Em resumo, membro do partido democrata fazendo concessões, suspendendo restrições ou “amolecendo” posturas tidas como radicais passaria uma imagem de pusilanimidade, incompatível com o cambaleante mito do imperialismo norte-americano. Tem-se visto, porém, que - não somente no caso de Cuba – Obama não tem precisado ser mais realista do que o rei, ou adaptando, ser “mais conservador do que um republicano”. Portanto, o sempre certeiro Barão de Itararé, nesse caso em particular, não conseguiria fazer mais um tento.

E a primeira frase, o conhecidíssimo ditado popular, cai como uma luva para aqueles – inclusive muita gente de boa fé – que comungavam com a idéia acima exposta, qual seja, a de que Obama teria mais dificuldades de implementar mudanças do que um republicano, a quem ninguém acusaria de fraco caso se mostrasse cheio de boa vontade com desafetos. Quer dizer, os que não esperavam muito do novo presidente dos Estados Unidos precisam reconhecer que ele está, ainda que timidamente, dizendo ao que veio.

Observe-se que, de acordo com especialistas em política internacional ouvidos pelo Estadão, com as mudanças, os cubanos terão mais facilidade para bem avaliar as “vantagens” do sistema capitalista. Se assim for, então gente como Nixon, Reagan, Bush pai e Bush filho perderam seus preciosos tempos e desperdiçaram a maravilhosa oportunidade de ser mais maleáveis com Cuba e de, consequentemente, ser agora lembrados como os homens que ajudaram a derrubar o socialismo da ilha, quiçá até por levante popular! E se Obama é um perigoso esquerdista, como sustentam corajosos fundamentalistas de direita, ele – talvez sem querer, coitado! - está sendo o pior dos contra-revolucionários, um traidor da nobre causa socialista, ao permitir que os incautos cubanos se deixem seduzir pelo canto de sereia do grande capital! O perigo, amigos, é que até Fidel andou reclamando do que chamou de “esmolas” concedidas pelo presidente Barack Obama (leia). É... de onde menos se espera...!

domingo, 12 de abril de 2009

Já vai pensando no Acordo Ortográfico!

É bom começar a pensar nas mudanças do Acordo Ortográfico.

De tudo o que foi alterado, o que menos apoio é a ideia de não mais se acentuar palavras como ideia. Mas sem dúvida há quem apoie, pois muita gente sempre foi dada a não usar acentos mesmo! Dessa forma, para tais pessoas, não há como não achar tal ideia joia.

Andaram dizendo por aí que o Acordo tem o objetivo de ajudar semianalfabetos. Claro que é besteira. Em verdade, nalguns casos vai ajudar as pessoas, inclusive as de alta formação, naquilo que elas tinham muita dificuldade, ainda que alguma confusão venha à tona. O uso de hífen, por exemplo, sempre foi pautado em geral por regras complicadas, embora a sua aplicação em algumas palavras já fizesse parte do uso cotidiano: neste caso, ficará estranho dirigir-se a uma loja do tipo Casas Bahia e ler o anúncio de guardarroupas em trocentas vezes sem juros (está errado, pois tem juros sim; mas a grafia de guardarroupa estará correta!); na mesma loja poderemos também encontrar outro chamariz de vendas indicando o precinho camarada de um forno micro-ondas – não causaria estranheza se batesse uma dúvida: já era assim, ou mudou por causa do maldito Acordo?

Choradeira frequente tem ocorrido pelo fim do sinal de diérese, conhecido como trema. Ora, muitos já o haviam abolido por conta própria, o que por consequência nos fazia ler linguiça sem trema nos cartazes de açougue ainda antes de 1986, ano em que o Acordo foi idealizado. Aliás, lembro-me de que nos anos 1990 houve um boato de que o sinal de trema já havia sido oficialmente extinto; para provar o contrário, eu exortava os meus oponentes a abrirem as respectivas carteiras e verificarem “os dois pontinhos” devidamente mantidos nas notas de cinquenta reais. O problema é que ninguém nunca tinha uma nota de cinquenta no bolso...

Mas há muito mais do que isso. Por enquanto, pode-se conviver com a velha e a nova ortografia. Mas é só até o final de 2012. É bom já ir se mexendo pois, parece que não, mas o tempo voa. Puxa vida, precisava terminar um texto sobre língua com um clichê tão surrado como esse?

Leia também:
Quem tem medo do Acordo Ortográfico?

Ops!!! Dia 21 de junho de 2009, eis que surge uma dúvida, a ser confirmada: parece que guarda-roupa (guardarroupa?) continua sendo guarda-roupa mesmo. Se alguém puder confirmá-lo para nós...

quinta-feira, 9 de abril de 2009

É proibido raciocinar!

As enquetes, tão comuns na internet, não merecem ser levadas muito a sério, especialmente por serem destituídas de caráter científico. Mas se é que elas servem para alguma coisa, seria por dar alguma indicação de onde anda a cabeça do leitor de determinado órgão. Por exemplo: em sondagem acerca do segundo turno à sucessão para a prefeitura de São Paulo em 2008, a Folha Online perguntou aos seus leitores em quem votariam. Lembro-me que em dada altura Kassab batia nos 80%, o que dava a única certeza de que os freqüentadores daquela página eram em sua maioria esmagadora simpatizantes do político do DEM ou, o que não é de se descartar, antipáticos à sua adversária, a petista Marta Suplicy. Como se sabe, o prefeito se reelegeu com boa margem, mas sem atingir a extraordinária marca do site do jornal paulistano.

A mesma Folha Online aparece agora com uma enquete sobre projeto de lei que proíbe cigarros em quase todos os ambientes fechados públicos ou particulares no estado de São Paulo. O resultado (às 17h11 do dia 9 de abril de 2009) é de 78% favoráveis à medida, 20% contrários e de apenas 1% de usuários do sítio que ainda não têm opinião formada. Levando em conta o aspecto – como já mencionado – não-científico da consulta, o que se pode deduzir de tudo isso?

Tenho uma fantasia: os 78% favoráveis são, em sua maioria, seguidores radicais do governador José Serra, do tipo que não vão dar o braço a torcer, sendo muitos deles, inclusive, fumantes inveterados que não pretendem respeitar a lei; a maioria dos 20% contrários é anti-serrista, daqueles que se oporão a tudo o que o governador fizer, mesmo que sejam antitabagistas desde criancinha e velhos pregadores dos males provocados pelo fumo; já os gatos pingados que formam o mísero 1% que ainda analisam o caso devem ser aqueles que vêem méritos na nova regra, mas são céticos quanto à sua aplicabilidade e incertos de que ela não seja um exagero, haja vista as possibilidades práticas de se resolver o problema, sem mexer com o direito dos que querem se matar com o cigarro.

Dentre as tais soluções práticas estão as famosas áreas reservadas a fumantes, existentes na maioria dos ambientes fechados públicos e particulares. Que cada um pense no seu local de trabalho, por exemplo, e veja se a existência das áreas reservadas não funciona. Ah, não funciona? Bem, nesse caso talvez falte organização e pressão no local para fazer cumprir a regra, e, pior ainda, talvez isso seja indicativo de que a lei, caso não haja uma fiscalização muitíssimo rigorosa, será mais uma do tipo que não vai pegar.

Mas, a exemplo da obrigatoriedade do cinto de segurança, imaginemos que quase todos resolvam cumprir tal lei. Isso deve fazer muita gente diminuir o consumo, trazendo efeitos para lá de positivos na saúde, ajudando até mesmo o saturado sistema público, o qual precisa despender muito dinheiro e energia para tratar doenças ligadas ao uso do cigarro. Nesse caso, a medida que tanto agride a boa consciência liberal, será tida como vitoriosa.

Resultado: a “turma do 1%” por enquanto está certa, o que quer dizer que são os únicos que ainda raciocinam sobre a medida.

Aproveitemos o ensejo para fazer um comentário retardatário, meio que a título de um post scriptum, mas que nos traz uma luz acerca da já comentada dificuldade de se fazer cumprir e fiscalizar lei tão rigorosa. Há algum tempo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acendeu sua cigarrilha durante entrevista no Palácio do Planalto. Naquela feita, um repórter o lembrou de que o fumo era proibido por decreto naquela casa. O presidente não perdeu tempo, dizendo que somente ele mandava na sala dele. À exceção de ótimo texto de Luiz Weis no Observatório da Imprensa, o assunto não teve muita repercussão (aliás, uma curiosidade, quando Lula não fala besteira, como na história do “branco de olhos azuis”, todo mundo cai matando; quando realmente dá uma bola fora, como no caso do descumprimento de regra a todos – ou aos outros – imposta, quase ninguém liga!). A “insubordinação” de Lula a um decreto em seu local de trabalho de certo modo é indicativo de que, em muitos outros “menos nobres” locais de trabalho, a tal lei paulista que bane cigarros não venha a ser seguida muito à risca.

Vamos aguardar. Por enquanto, eu sou 1%!

sábado, 4 de abril de 2009

Sutilmente...

Em semana de encontro do G-20, com direito a descontraídas tiradas entre o presidente estadunidense e seu colega brasileiro, passou despercebida uma sutileza da mídia em relação à política local, observada mais especificamente no portal UOL e na Folha OnLine.

Na segunda-feira (30-03) foram divulgados os resultados da pesquisa CNT/Sensus sobre o goveno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A exemplo do Datafolha e do IBOPE, a popularidade de Lula teve uma pequena queda, mas ainda se mantendo em índices considerados extraordinariamente altos. Como seria de se esperar, a crise foi apontada como a grande vilã (este blog, porém, humildemente acredita no aspecto inercial da queda da popularidade presidencial: ela estava em patamar dificilmente superável e, além disso, é muito complicado manter índices tão altos num país complexo como o Brasil, não havendo, pois, novidade nas pequenas quedas ora verificadas). Mas é só um adendo; queremos mesmo falar de outra coisa.

Juntamente à consulta acerca da situação presidencial, foi feita sondagem sobre o pleito de 2010. É aí que entra a sutileza supramencionada. O UOL e a Folha OnLine apresentaram a dianteira de José Serra de uma forma blasé, como quem diz não haver novidade. Mas o mais interessante foi o destaque que deram à subida de Dilma Roussef (leia aqui). Até aí tudo bem, afinal para o grupo Folha equilíbrio pouco é bobagem! A esperteza, porém, veio na atenção dispensada à informação de que, se o adversário for Aécio Neves, a ministra-chefe da Casa Civil, segundo a pesquisa, consegue emparelhar. Aparentemente, o UOL e a Folha OnLine apenas prestam o seu nobre serviço de bem informar o cidadão. Mas será que só se trata disso?

A Folha, pelo menos por meio de seus braços “internéticos”, parece ter intentado mandar recados ao PSDB e, mais especialmente, para o governador mineiro e seus simpatizantes; não chegou ao ponto de dizer “pó pará, governador”, mas insinuou que “prévias não, obrigado!”. O neto de Tancredo ainda não desistiu de sua candidatura e decerto pensa ter chances de ser o escolhido numa consulta interna do partido. E este blogueiro tem sérias dúvidas se ele não conseguiria, principalmente se souber explorar bem o discurso contra o “paulicentrismo”, discurso este, aliás, já por ele encampado timidamente noutras oportunidades. Mas a mídia – a princípio a paulista, mas talvez não só ela - tentará convencer o partido da furada que isso pode representar e, além disso, já está buscando incutir na cabeça dos eleitores oposicionistas a certeza de que Dilma tem chances, mas apenas se o adversário for o governador das Minas Gerais.

A imprensa paulista tem passado a impressão de que não dará sossego ao pobre governador Aécio, pelo menos até a definitiva indicação de Serra à sucessão presidencial. Mas suponhamos que, assim como Alckmin, o mineiro surpreenda e seja ele o indicado, deixando o governador paulista chupando o dedo (tudo na política é possível); nesse caso, podemos apostar numa repentina mudança nas redações dos jornais e de seus portais: entre Dilma e Aécio, a preferência midiática deve recair sobre o segundo, e por isso o aventureiro namorador e otras cositas más dará lugar ao governador empreendedor e bem avaliado de um dos maiores estados do Brasil. Já vimos esse filme: em 2006, após o trunfo de Alckmin dentro do partido, a imprensa mais do que depressa jogou para debaixo do tapete os escândalos do ex-governador que vinham sendo relativamente bem abordados enquanto ele disputava a indicação com Serra. Mas isso tudo, sempre de forma muito, mas muito sutil!